domingo, abril 18, 2010

O Marechal




Passou há uma semana o centenário do nascimento de António de Spínola, o homem que recebeu o poder das mãos de Caetano a 25 de Abril de 1974. A sua curta carreira de chefe de estado tê-lo-à tornado mais famoso, mas não será só isso que ficará para a história. Spínola foi das últimas figuras românticas de Portugal, na sua figura de militar respeitado pelos mais próximos, de comandante militar idolatrado pelos soldados, suspeito aos olhos das cúpulas do Estado Novo, e visto como um inimigo e um alvo a abater pela deriva esquerdista do PREC. A sua vida daria um livro talvez mais empolgante do que a extensa biografia de Luís Nuno Rodrigues. Entrou ainda muito cedo para o Colégio Militar (de onde tomou a alcunha "Caco"), enveredou pela carreira das armas e chegou a ser observador da frente alemã no cerco de Leninegrado, em 1941, numa equipa de observadores integrada na Divisão Azul espanhola - se não me engano também teve funções semelhantes na Guerra Civil de Espanha. O espírito castrense devia ser algo de genético, já que a sua família paterna, da Madeira, provinha dos Spinolas de Génova, que dominaram aquela república marítima e da qual saíram notáveis vultos militares, como Ambrogio Spinola, general dos Tercios espanhóis que Velazquez imortalizou na Rendição de Breda.

Como se sabe, subiu na hierarquia militar, como oficial de cavalaria, comandou tropas em angola, durante a guerra colonial, e chegou a governador militar da Guiné. O respeito pelos militares e a popularidade que granjeou vêm daí, das suas ideias federalistas e dos seus discursos nas selvas, bem como da publicação de Portugal e o futuro, já em rota de colisão com as posições coloniais do governo de Marcelo Caetano. logo a seguir deu-se a 25 de Abril, a sua breve presidência, à frente da Junta de Salvação Nacional, e o afastamento, em ruptura com a deriva esquerdista do PREC. O que se seguiu, no exílio em Espanha e no Brasil, terá sido porventura a sua menos conseguida e popular fase, quando apoiou e chefiou o MDLP e algumas actividades bombistas, muito embora a sua ideia fosse democratizar o país. Regressou com o fim das convulsões, pela mão de Mário Soares, que o nomeou chanceler das antigas ordens militares portuguesas, adquirindo uma espécie da aura de figura tutelar, embora decorativa, do regime - recebeu por isso mesmo o bastão de Marechal.

Spínola ficará sempre como uma figura controversa, pelo seu papel como mentor do MDLP e da "Maioria Silenciosa", como presidente da Junta de Salvação Nacional e primeiro chefe de estado pós-25 de Abril, pela sua carreira militar e pelas suas ideias de fazer uma Commonwealth à portuguesa. Uns vêem-no como traidor ao Estado novo, outros ao 25 de Abril, outros como um lírico irrealista, outros ainda como um visionário e uma carismático líder. Com o passar dos anos, essas discussões tendem a esbater-se, e a figura de Spínola institucionalizou-se, tendo sido inaugurada, no dia em que faria cem anos, uma avenida em Lisboa com o seu nome (muito embora fosse mais um pretexto do centenário, porque a artéria já existia com esse nome há seis anos).

Da minha parte, e embora as suas actividades à altura do PREC fossem mais que discutíveis, tenho pena que as suas ideias para as colónias não fossem experimentadas, ou ao menos discutidas. Mas quando olho para a sua inconfundível figura não posso deixar de pensar que o posto/título de Marechal dificilmente seria melhor atribuído. Acima de tudo, e embora só nos anos oitenta tenha recebido a distinção (pela antiga condição de chefe de estado), Spínola, com o seu monóculo, o pingalim, o sobretudo militar e as luvas na mão, que tanto recordava os oficiais alemães da 1ª Guerra, era, efectivamente, O Marechal.
 

quarta-feira, abril 14, 2010

Os "termos errados" de Bava




O video já andava por aí há uns dias, mas não quis deixar também de mostrar a "portugalização dos conteúdos" de Zeinal Bava, o presidente executivo da Portugal Telecom, que está preocupado apenas com um termo errado. Se a aposta na portugalidade se exprime em semelhantes e constantes anglicismos, mais valia convidar Gordon Brown para presidir ao Instituto Camões, até porque ele arrisca-se a ficar desempregado brevemente.

segunda-feira, abril 12, 2010

Uma nação trágica

O desastre aéreo que vitimou Lev Kaczynski, a sua mulher, o estado-maior polaco, o presidente do Banco da Polónia e inúmeras figuras de relevo, entre as 98 que pereceram, é mais uma das muitas tragédias que ensombram aquele país. Desaparecida por várias vezes, retalhada pelos vizinhos, local de campos de extermínio e pogroms, planície esmagada pela invasão nazi e a contra-invasão soviética, a Polónia sempre sofreu os maiores horrores a que a humanidade se dedicou. A comitiva polaca ia homenagear as vítimas de Katyn, setenta anos após essa outra desgraça polaca, em que os soviéticos assassinaram a tiro mais de vinte mil oficiais e civis polacos. Um erro humano, alguma inadvertência e as condições climatéricas consumaram o desastre. Assim desapareceu boa parte da elite da Polónia, muito perto do local onde iam homenagear esses outras membros de outra elite, de outro tempo. Como disse o ex-presidente Knaswievski, Katyn e a sua envolvente são malditos para os polacos.


Não era admirador de Kaczynski, da sua política de caça às bruxas (em conjunto com o seu gêmeo Jaroslav), que persrguiu gente tão insuspeita como Bonislw Geremek, ele próprio desaparecido recentemente num desastre de viação, e até Walesa, e do seu eurocepticismo, olhando sempre para a Europa (sobretudo a Alemanha) e a Rússia como inimigos, embora a história a isso aconselhasse. Mas um fim assim, em tais circunstâncias e naquele lugar, não deixa de chocar pela coincidência. Como é óbvio, já surgiram as teorias de conspiração apontando para a Rússia. Não creio que os russos estivessem minimamente envolvidos nisto. Mas o contexto e os envolvidos ajudam. Os caçadores de teorias conspirativas devem esfregar as mãos de contentes. E a Polónia soma mais uma tragédia à sua história, da qual, mais do que qualquer outro país, sobejam tragédias humanas.

domingo, abril 11, 2010

A ressaca de Liverpool


No percurso brilhante do Benfica esta época, a derrota em Liverpool acabou por ser atípica. Há meio ano que o SLB não perdia um jogo, em prova alguma. E mesmo assim, a dez minutos do fim estava a um golo de se classificar. A disposição dos defesas, em que apenas Luisão estava no seu lugar, a deficiente condição física de alguns jogadores, um guarda-redes inexperiente contribuíram para o resultado. Depois, um Liverpool com absoluta necessidade de ganhar e um Fernando Torres com espaço fizeram o resto. O segundo e terceiro golo são excelentes e rapidíssimas jogadas de contra-ataque, com trabalho estudado de equipa e passes de primeira. O Benfica, que até tinha começado bem, teve uma ou outra oportunidade desperdiçada e marcou com um livre directo superiormente executado por Cardozo. Depois veio o tal lance em que Júlio César sofreu um traumatismo craniano, e um Moreira ainda frio apanhou com o golpe final do espanhol do costume. Acabou aí o jogo e a eliminatória. O Benfica sofria um desaire justo mas demasiado pesado para o que se passou em campo. Arriscou e pagou por isso.



Claro que não é por essa razão que a boa carreira europeia, que teve o auge na vitória em Marselha, será esquecida. É pena, mas não mais do que isso, embora o número seja desagradável. É bom não esquecer que só à quarta tentativa é que Rafa Benitez conseguiu não perder com o Benfica. O confronto recordou algumas páginas dos anos oitenta, em que o clube da cidade dos Beatles era então a equipa mais forte da Europa, e se defrontou com o Benfica por várias vezes, sempre levando a melhor. Mas apesar da superioridade dos ingleses, nem por isso a equipa portuguesa ficou desprestigiada ou esquecida, como testemunhou há dias o mítico Ian Rush, fenomenal avançado e símbolo do Liverpool daqueles tempos. Há quatro anos, os Reds eram campeões europeus, mas dois golos fabulosos de Simão Sabrosa e Micolli fizeram estrondo perante o público da Kop. Agora, aconteceu o inverso da medalha. A prioridade era o campeonato, como Jorge Jesus se fartou de dizer, mas é sempre pena perder assim.


Fica o amargo de boca, a convicção de uma boa campanha europeia, e a confirmação de que Saviola faz mesmo imensa falta. Facto curioso: Cardozo, com dez golos, ainda pode acabar como o melhor marcador da Euroliga deste ano.

sexta-feira, abril 09, 2010

Ruínas




Há nas salas de cinema um ou outro filme que vale a pena ver. Mas o que diz mais à nossa memória colectiva é sem dúvida Ruínas, de Manuel Mozos, vencedor do último festival Doc Lisboa 8infelizmente só em exibição no cinema King, em Lisboa, e no Teatro do Campo Alegre, no Porto). Talvez ganhasse alguma coisa se identificasse os lugares por onde passa, mas mesmo assim é precioso. Do Cemitério do Prado do Repouso até ao enorme sanatório das Penhas da Saúde, passando por estalagens abandonadas, pelo Douro e pelo restaurante panorâmico do alto de Monsanto, são os restos, outrora prestigiados, de um país que abandona as suas memórias e o seu património e troca o velho, ainda que mais interessante, pelo novo. Uma fatalidade que desde sempre percorreu este país, na sua ânsia de querer parecer moderno e igual ao que vinha "lá de fora". É o Portugal esquecido e ultrapassado, mas com traços físicos que fica para trás, ultrapassado por novos elementos passageiros, que se transformarão um dia, também eles, em ruínas.

domingo, abril 04, 2010

Páscoa

"E no primeiro dia da semana, muito de madrugada, foram elas ao sepulcro, levando as especiarias que tinham preparado, e algumas outras com elas. E acharam a pedra revolvida do sepulcro. E, entrando não acharam o corpo do Senhor Jesus. E aconteceu que, estando elas muito perplexas a esse respeito, eis que pararam junto delas dois homens, com vestes resplandecentes. E, estando elas muito atemorizadas, e abaixando o rosto para o chão, eles lhes disseram: Porque buscais o vivente entre os mortos? Não está aqui, mas ressuscitou. Lembrai-vos como vos falou, estando ainda na Galiléia, dizendo: Convém que o Filho do Homem seja entregue nas mãos de homens pecadores, e seja crucificado, e ao terceiro dia ressuscite. E lembraram-se das suas palavras.

E, voltando do sepulcro, anunciaram todas estas coisas aos onze e a todos os demais."
Mateus 24, 1 a 9.

sexta-feira, abril 02, 2010

Novo rumo laranja
As eleições para a liderança do PSD foram há já uma semana. Como não trouxeram novidades substanciais, nem sequer referi o assunto, mas não resisto a deixar umas notas.
A vitória de Pedro Passos Coelho sentia-se à légua, mesmo que a sua dimensão possa espantar. Quem tem as "bases" como ele tinha não precisa de temer grandes percalços. Quando as principais distritais, zonas de forte implantação laranja, como Viseu, Leiria ou Vila Real, e régulos partidários como Fernando Ruas ou Marco António apoiam o mesmo candidato, é certo e sabido que será este o vencedor. Mesmo que a Madeira fique de fora. Aliás, as reprimendas de Passos Coelho a Jardim deram-lhe ainda mais apoio, enquanto que algumas atitudes de Paulo Rangel, a começar na facadinha a Aguiar Branco, não caíram bem no partido, tivesse ele o "baronato" que tivesse.
Impressionou-me apenas a baixíssima percentagem de votos de José Pedro Aguiar Branco. Os apoios de Rui Rio e Agostinho Branquinho não foram suficientes para descolar de uma votação residual. Poucos viam nele um líder carismático necessário para levar o partido ao poder. Quanto a Castanheira Barros, a sua candidatura não era para levar a sério.
Fico na dúvida se Rangel saiu reforçado, com aura de alternativa ou "futuro líder", ou se pelo contrário, não acabou chamuscado, desperdiçando o capital que ganhara com a vitória nas Europeias. Pode ser que tenha ganho pelo menos notoriedade, e a sua candidatura seja uma base para voos futuros. Mas antes de mais deve permanecer em Estrasburgo, crescer como político, corrigir erros e ganhar experiência. Não será de todo negativo para ele alguns anos na sombra. Rangel precisa de aprender a conter-se e a conter os seus discursos. Será um bom político se conservar as suas ideias e o deslumbramento inicial lhe passar.
E como será o PSD passoscoelhista? Não creio que o novo rumo liberal fosse a razão de tantos apoios internos. Dificilmente se pode ver o liberalismo, mesmo o de costumes, como uma ideologia popular em Portugal. Poderá refrescar o partido e levar-lhe novas caras, mas como alternativa de governo levanta algum cepticismo. Até porque se arrisca a confundir-se com o actual PS, e Passos Coelho com um Sócrates mais simpático. Como é óbvio, as ideias liberais irão esbater-se, quando a necessidade de ganhar votos vier ao de cima (lembram-se do choque fiscal de Durão Barroso?).
Gostava também de saber o que pensa Paulo Portas disso. À parte o caso dos submarinos, o líder do CDS-PP deve achar este rumo do PSD muito interessante. Dizia um jornal há meses que Portas estava à espera da vitória interna de Passos Coelho para "partir a espinha ao PSD". Exageros à parte, poderá ver uma oportunidade de roubar votos à direita, ao eleitorado mais conservador e desconfiado da liderança laranja. Não creio que os populares se tornem no maior partido de direita. Mas se o PSD roubar suficientes votos ao PS para o suplantar, precisará mais uma vez do CDS-PP para formar governo. E desta vez o partido de Portas terá mais peso do que no tempo de Barroso.

quarta-feira, março 31, 2010

O miserável caso Hulk

Fico espantado ao ver a indignação da redução da pena de Hulk de 3 meses para 3 jogos. Não pelas lacunas jurídicas que deram origem a toda esta confusão, mas sim pela martirizarão que quase fazem do jogador, e pelas culpas inteiramente atribuídas ao conselho Desportivo da Liga.

Ao contrário do que tem sido voz corrente, Ricardo Costa parece-me das poucas pessoas ligadas ao futebol que realmente pretende fazer um trabalho com isenção e cumprimento das regras. Caiu obviamente nalgum protagonismo de TV, mas tirando isso pouco lhe pode ser assacado.
O episódio Hulk é a prova disso mesmo. Perante uma lacuna normativa quanto ao estatuto dos stewards, o Conselho Disciplinar da Liga, por si presidido, usou as ferramentas jurídicas básicas para a colmatar, através do recurso à analogia. E em casos semelhantes, a decisão fora sempre a de considerar que o atingido era um interveniente ao jogo. Podia-se certamente ficar com dúvidas quanto às funções desempenhadas por estes elementos; o que não se poderia fazer nunca seria considerá-los como "público", ou seja, como sujeitos pagantes para ver o espectáculo. O CJ da Federação teve essa brilhante ideia, num acórdão em que confessou que "tinha dúvidas quanto a essa classificação" e em que considerou que "o CD da Liga teve legitimidade na decisão que tomou". Uma decisão atabalhoada e contrária a outras em casos análogos, o que provocou a demissão abrupta de Hermínio Loureiro da Presidência da Liga de Clubes.


Claro que estas incoerências não interessam aos defensores do jogador, a começar pelos responsáveis portistas, que depois de considerarem que ele se tinha defendido "como qualquer pai de família", resolveram pedir a módica quantia de 17,5 milhões de Euros pela decisão da Liga. não percebo o fundamento, já que a própria FPF reitera a legitimidade da liga na sua decisão; haveria ainda umas quantas razões para considerar tal pedido um absurdo (como o de que Hulk não resolve todos os jogos só por si, longe disso, e que jogou nos 5-0 que o FCP sofreu em Londres), mas a maior de todas, a par da legitimidade da Liga, é esta: Hulk esteve suspenso desde o jogo em que andou a distribuir murros até à decisão final da punição porque no ano passado a Liga aprovou, em Assembleia Geral, a regra da suspensão provisória até à decisão por proposta do...FCPorto. Se se tratam dos mesmos responsáveis que agora querem aquela brutalidade, estamos conversados quanto ao seu valor.


Quer a maralha futeboleira, e em particular a que vê em Pinto da Costa um semi-Deus infalível, nada queria saber disso e ache muito bem um jogador da suas cores andar ao murro é coisa que não surpreende. O mesmo não se deveria dizer de outros que têm mais conhecimento da matéria. E no fim, como se adivinha, queima-se quem tem qualidade técnica e poderia mudar alguma coisa no seio do futebol, como Ricardo Costa, cujas ilusões iniciais de trazer ar fresco se terão certamente esfumado, e mantêm-se os palradores e incendiários de sempre, neste dirigismo miserável.

segunda-feira, março 29, 2010

Herculano
É inevitável, mas tenho de me repetir sobre a utilidade dos blogues, desta vez quanto à recordação da nossa memória colectiva, sobre personalidades da nossa História, das artes e letras, que as nossas entidades oficiais não se dignam a homenagear, tão ocupados que andam com os cem anos da república, essa enorme prioridade da vida portuguesa.


Há duzentos anos, nascia o soldado, poeta, romancista, historiador, investigador, agricultor e eremita Alexandre Herculano.
PS: a propósito dos comentários a este post, ficam aqui umas curiosidades sobre Herculano. Segundo os dados que juntei, deslocou-se a Lisboa não para ver D. Pedro II, mas para um mero negócio de azeite; esteve lá acamado, e recebeu tantos amigos que disse a sua famosa frase "isto dá vontade de morrer", não como azedume (uma versão criada por Bulhão Pato), mas como manifestação de alegria e apreço por poder ver tantos amigos à sua volta. - circunstância que até faria com que nem se importasse de morrer. Na realidade, o Imperador do Brasil é que o visitou em Vale de lobos, a crer em Eça n´"As Farpas" ("Uma Campanha Alegre"), que descreve a visita com a ironia do costume:
"Sua Majestade Imperial visitou o Sr. Alexandre Herculano. O facto em si é inteiramente incontestável. Todos sobre ele estão acordes, e a História tranquila.
No que, porém, as opiniões radicalmente divergem - é acerca do lugar em que se realizou a visita do Imperador brasileiro ao historiador português.
O Diário de Notícias diz que o Imperador foi à mansão do Sr. Herculano.
O Diário Popular, ao contrário, afirma que o Imperador foi ao retiro do homem eminente que...
O Sr. Silva Túlio, porém, declara que o Imperador foi ao Tugúrio de Herculano; (ainda que linhas depois se contradiz, confessando que o Imperador esteve realmente na Tebaida do ilustre historiador que...)
Uma correspondência para um jornal do Porto afiança que o Imperador foi ao aprisco do grande, etc.
Outra vem todavia que sustenta que o Imperador foi ao abrigo desse que...
Alguns jornais de Lisboa, por seu turno, ensinam que Sua Majestade foi ao albergue daquele que...
Outros, contudo, sustentam que Sua Majestade foi à solidão do eminente vulto que...
E um último mantém que o imperante foi ao exílio do venerando cidadão que...
Ora, no meio disto, uma coisa terrível se nos afigura: é que Sua Majestade se esqueceu de ir simplesmente a casa do Sr. Alexandre Herculano!"

sábado, março 27, 2010

Uma enorme bandeira


Já tinha olhado várias vezes para o mastro do alto do Parque Eduardo VII, em Lisboa, e pensado que ficaria imponente com a bandeira azul e branca hasteada, em vez de vazio ou com a verde-rubra colocada. Os elementos da Carbonara - Movimento Monárquico de Massas (o nome são dois trocadilhos deliciosamente irónicos e muito bem achados) tornou real esse meu pequeno sonho, e Lisboa acordou com a velha bandeira a dominá-la. Prontamente a tiraram, mas as imagens não mentem. Só tenho pena de não ter visto ao vivo, mas já não me posso queixar. Resta-me desejar que outras destas acções irreverentes e bem humoradas se repitam, por muito que os defensores dos demagogos e terroristas de 1919 insistam em classificar os seus autores de "meninos-bem". E a avaliar pela mensagem, não vão mesmo parar por aqui.
"Até 5 de Outubro, nenhum mastro, poste ou varanda estará seguro".



A crise tailandesa explicada ao pormenor
Na recente crise tailandesa, em que os apoiantes do "partido vermelho" desceram a Bangecoque, apenas ouvimos da maior parte dos órgãos de comunicação social nacionais algumas passagens apressadas e situações mal explicadas, como a dos litros de sangue lançados pelos "vermelhos" contra a sede do governo. Uma vez mais, o Miguel Castelo Branco, na Tailândia há mais de dois anos, deixou no seu precioso Combustões um extenso e elaborado testemunho da situação, para que a pudéssemos compreender com outra precisão. Mais uma exemplo cabal de que os blogues (e as redes sociais) se substituem com eficácia aos meios tradicionais quando estes não fazem o seu trabalho de campo. É por isso que recorrem cada vez mais a estes métodos, em tempo quase real ou com o maior número de informação e de ilustrações disponível.

terça-feira, março 23, 2010

O primeiro troféu da era Jorge Jesus


A Taça da Liga conquistada ontem pelo Benfica pode não ter grande importância por si mesma, mas representa a primeira conquista oficial do Benfica de Jorge Jesus e a confirmação de que esta equipa respira confiança, joga quase de olhos fechados e pode até alterar algumas peças que nada de substancial muda. Sem fazer um jogo de encher o olho, os jogadores vulgarizaram o adversário, trocaram a bola nas calmas, sem nunca se enervarem nem responderem às provocações alheias, e ainda se divertiram com um monumental peru do infeliz guardião do outro lado. Uma conquista justa, pela vitória final e pelo próprio percurso, que como se sabe, incluiu uma goleada em Alvalade, por gordos 1-4 (a que eu tive oportunidade de assistir in loco, ainda que no meio de um desesperado mar verde).


Ficou ainda plasmado o imenso contraste entre os vencedores e a equipa adversária, que ainda há pouco fazia discursos identitários inflamados mas que na hora da verdade se revelou um conjunto de caceteiros comandados por um delinquente, mais parecido com o zombie de Michael Jackson no Thriller, sempre com a permissividade de um árbitro já suspeito, ao passo que os simiescos adeptos (?) se entretinham a atrasar o jogo lançando cadeiras para o relvado.


Uma diferença que há pouco tempo não se imaginaria, mas que neste momento tem um significado muito grande. Tal e qual a Taça da Liga. Mas ainda falta muito para a época acabar.

segunda-feira, março 22, 2010

LX-90, uma carreira breve

 
Depois dos Heróis do Mar, Rui Pregal da Cunha e Paulo Pedro Gonçalves formaram em 1990 os LX-90, com uma música mais rock e blues, mais guitarras e menos teclados, e também menos comprometida com os anos oitenta do que a banda criada por Pedro Ayres de Magalhães que os lançou para a fama. Lançaram em 1992 o álbum Uma Revolução por Minuto, única edição da sua carreira antes de partirem em 1993 para Londres, onde se tornariam nos Kick Out of The Jams.

Ficaram como exemplo do seu breve percurso alguns singles, como este Road to Redemption, um "street movie genuíno proporcionado por uma cidade generosa", onde "da Estrela à Mouraria um grupo de lisboetas canta em inglês".

domingo, março 21, 2010

Porto Antigo
Nova entrada para a coluna das ligações. Em destaque, o Porto Antigo, um blogue que infelizmente só conheci agora mas que merece absolutamente ser divulgado, e que mostra as memórias e as histórias que fizeram o Porto. Entre muitas curiosidades, fiquei a saber que atrás do Museu Soares dos Reis há um antigo velódromo, e que houve um circuito de carros em Lordelo.

sexta-feira, março 19, 2010

As salas de Lisboa

 
Aproveitando os recentes Óscares e as recordações dos cinemas do Porto, falemos dos de Lisboa. A capital sempre teve uma quantidade enorme de salas (como eu podia comprovar na já referida programação de filmes que costumava passar no canal 2, Sábado ao fim da tarde). Mas só há poucos anos é que consegui travar conhecimento com algumas delas.
Neste momento, já tenho um conhecimento muito razoável dos cinemas lisboetas (que não dos seus arredores) mais frequentados. Estou em dúvida se a primeira vez em que entrei numa sala de cinema em Lisboa terá sido nesse clássico dos anos oitenta chamado Amoreiras, ou se no mais recente, asséptico e descolorado Alvaláxia. Pelos outros já lá passei, com excepção do Colombo. Assim, conheço a confortável sala do Monumental, herdeiro directo do magnífico edifício que um crime administrativo e burocrático derrubou, além do seu apêndice mais banal do outro lado da rua, o Residence; já passei pelo do Vasco da Gama; o King, mais voltado para um nicho que dificilmente se encontra noutras salas; o mais recente de todos, o Campo Pequeno, muito bem apetrechado e com qualidade, mas com aquela horrível decoração rococó infantil, com bonecada em toda a parte, salas de cor vermelha, etc, coisa que detesto (sala que é sala deve ter uma cor sóbria); e o Londres, o meu favorito, um dos poucos cinemas de Lisboa fora dos multiplexes, com aquelas cadeiras que se afundam, boa programação, intervalos, e um simpático bar-restaurante à entrada, ao qual não faltam poltronas e jornais. Ah, julgo que terei ido uma vez ao Nimas, antes de se transformar em "espaço multifuncional".


Mas as salas de Lisboa foram muitas mais do que as que estão agora circunscritas nos shoppings. Algumas pesquisas na net e alguns passeios permitiram-me saber de algumas. Assim, sei que no jardim do Campo Grande havia um cinema, o Caleidoscópio, perto do lago dos barcos, num bizarro edifício colorido como um mandril, que incluía restaurante e lojas, onde parece que depois funcionou uma discoteca; em todo o caso, está fechado.
O primeiro cinema com várias salas de Lisboa foi o Quarteto, perto da Avenida dos Estados Unidos da América, nos anos setenta. Projecto de Pedro Bandeira Freire, encerrou há dois anos, por deficiências várias, depois de uma série de vistorias; o seu mentor sobreviveu-lhe apenas alguns dias. Tinha ainda outra sala, o Quinteto, perto do Saldanha, que efectivamente ainda exibe filmes, mas apenas porno.
Entre os cinemas de bairro havia o Roxy, na Av. Almirante Reis, perto do Intendente, num edifício de esquina dos anos vinte com uma característica cúpula, hoje em dia algo abastardado, servindo de centro comercial de gosto duvidoso. Toda essa zona, aliás, tem prédios notáveis, mas degradados e corrompidos da sua beleza original.


Em Arroios há um enorme edifício pintado às listas verdes à la Vitória de Setúbal; era o antigo Pathé, que antes se chamou Imperial. Como cinema fechou nos anos oitenta, antes de se tornar discoteca, e de encerrar definitivamente, sem qualquer outro uso conhecido. Segundo me disseram, igual percurso teve o Jardim Cinema, na Avenida Álvares Cabral, que tinha sessões ao ar livre, mas hoje em dia é um espaço comercial. Tem uma interessante fachada que ainda subsiste. Na Graça, o cinema Royal, construído para os bairros vizinhos, é hoje em dia um supermercado, mas os sinais exteriores mantêm-se.
Na Baixa, hoje sem qualquer sala de cinema, há ainda vestígios gloriosos. O Animatógrafo do Rossio, na rua que dá acesso à praça pelo arco, é talvez o mais antigo de Lisboa, e um dos mais interessantes, arquitectonicamente falando; quis o destino que se tornasse numa sex-shop...Mais adiante, e por incrível que pareça, o belo edifício neo-manuelino da estação do Rossio albergou um cinema, o Terminal. Do outro lado, entre as Portas de Santo Antão e a Avenida da Liberdade, pode-se ver o Politeama, hoje o teatro de La Feria, o Condes, transformado em Hard-Rock, e o Odéon, um belíssimo edifício em Art Deco e com posteriores "caixilhos" metálicos, que tinha uma cervejaria no piso térreo, mas que, para não variar, se encontra fechado e sem uso, com os seus materiais a degradar-se (e o interior, ao que parece tão notável quanto o exterior, também, adivinha-se).


A meio da mesma Avenida da Liberdade situa-se o Tivoli, da autoria de Raul Lino, outro encantador edifício, com a marca visível do arquitecto, mas que deixou de exibir filmes; mantém-se contudo como teatro.
Depois, há os grandes cinemas erguidos durante o Estado Novo. Já falei no malogrado Monumental, sucedido pelo monstro de vidro que hoje se pode ver no Saldanha. Em frente ao Tivoli surgiu o enorme S. Jorge. Depois de alguma decadência, a câmara de Lisboa comprou-o. Tem tido uso frequente, nomeadamente festivais e mostras de cinema. Ainda hoje o tamanho da sala principal impressiona, com a sua majestosa plateia, ainda que tenha sofrido reduções. contas ainda com uma cafetaria e uma larga varanda sobre a avenida.
Umas centenas de metros abaixo, dominando os Restauradores, fica o sumptuoso Éden, inaugurado em 1937, com projecto de Cassiano Branco. Um edifício que impressionava quer pela sua localização, que pelo seu tamanho e beleza. Durante cinquenta anos, exibiu filmes, até que chegou o declínio, nos anos oitenta, e o abandono. Quando a câmara de Lisboa teve de decidir se mantinha o Coliseu dos Recreios ou o Éden, optou pela primeiro. A jóia dos Restauradores transformou-se num hotel, mas do mal o menos, conservou a majestosa fachada.


Outra exemplo do género era o Império, inaugurado em 1952, na Alameda D. Afonso Henriques, com o seu famoso café-restaurante na base, e uma outra sala, mais pequena, no topo. Era (e é) um prédio enorme, mas começou também a perder público, até deixar de ser cinema e ser adquirido pela IURD. Transformou-se assim em templo evangélico para catarses colectivas. O café tremeu, mas recompôs-se e tem um aconchegante café e um dos melhores bifes da capital, além do piso inferior manter a mesma decoração dos anos sessenta. Só faltam os bilhares que em tempos o tornaram famoso.
Na praça de Alvalade havia também um cinema, da mesma altura do Império. Seguindo mesmo percurso, acabou por ser demolido nos anos 2000, para aí se construir um bloco de apartamentos. Contudo, surgiu no mesmo local um novo complexo de cinemas, que do antigo só mantém o nome e o painel da entrada, de Estrela Faria, conservado com alguma dificuldade mas reposto no lugar que lhe cabe por direito histórico. Do outro lado da praça, o Centro comercial de Alvalade também tinha duas salas, mas com o declínio destes espaços comerciais de média dimensão também essas encerraram.
E no meio da Avenida de Roma há o antigo cinema com o mesmo nome. a exibição de filmes é irregular e pontual, já que a função desta auditório é hoje a de servir de Assembleia Municipal de Lisboa. Uma função nobre, mesmo não sendo a original.
Para acabar com esta exaustiva volta, os cinemas de Campo de Ourique. Entre este bairro e a Estrela havia o Paris, uma bela casa que hoje em dia é uma ruína com paredes, num estado de degradação pungente. Muitos o querem salvar, mas o edifício dos anos trinta lá está, a cair aos poucos.
A meio de Campo de Ourique está o cinema Europa, de fins dos anos cinquenta, e que esteve activo menos de trinta. um belo exemplo modernista, mas cuja sorte é incerta. Houve várias tentativas de reconversão do imóvel em "espaço cultural", mas as últimas notícias dão conta da sua demolição para breve, ficando apenas de pé a parte mais relevante da fachada. Se é esse o não o seu destino, ignoro.



Mas para um guia mais seguro e completo, podem sempre ver aqui e ficar com uma ideia mais clara do que é, ou era, a vida cinéfila de Lisboa
Em Marselha o nome Benfica provoca arrepios

A história repetiu-se, mas só parcialmente: o Benfica tornou a reverter um resultado negativo obtido na primeira mão contra o Marselha, desta vez em pleno Velodrome, sem "mãos de Vata" (aliás com claras razões de queixa da arbitragem), mas com nova bomba de Maximiliano Pereira. Um jogo de raiva, de garra e de querer, mas também de superioridade técnica e táctica, em que o Benfica, mesmo quando sofreu um golo contra a corrente do jogo, veio para a frente e alcançou a vitória no momento mais feliz, com um golo cruzado do improvável Kardec, para delírio de dois mil portugueses presentes. Os provençais, comandados por Lucho Gonzalez, ficam assim de fora da prova. Este novo encontro com o Benfica revelou-se fatal uma vez mais para as suas aspirações.

Aqui há uns anos falou-se de um atacante argentino, chamado Maxi Lopez, conhecido como "Super Maxi", para vir para o Benfica. O Barcelona desviou-o pela cominho, mas o "super" nunca conseguiu demonstrar o porquê da alcunha. Desconfio que era uma manobra de diversão, e que o verdadeiro Super Maxi só veio depois, e que o seu apelido é Pereira.

Como ironia cruel, no mesmo dia em que é alcançado esta difícil e épica vitória, morreu aos noventa anos Julinho, o jogador do Benfica que marcou o golo decisivo na final da Taça Latina de 1950. Falo em "ironia cruel" porque o adversário era igualmente francês: o Bordéus, grande rival do Marselha.

E já agora, Vata faz anos hoje...

terça-feira, março 16, 2010

Quando se revelam os guardiões da liberdade

A norma interna aprovada em congresso é já conhecida como "lei da rolha do PSD", como não podia deixar de ser. Regras que penalizem candidatos que apoiem outras formações contra o seu partido são compreensíveis e justificadas. Mas este ridículo acrescento que proíbe qualquer crítica ao líder antes das eleições não lembra ao diabo. Lembrou a Santana Lopes, na sua ânsia de "controlar a balbúrdia". Os candidatos à liderança pronunciaram-se, e bem, contra uma regra que além de amordaçante é também ambígua e oca (caberão nela todas as críticas? E as veladas, como determiná-las?). Já Manuel Ferreira Leite, a grande opositora da "asfixia democrática", acolheu-a sem problemas. Para quem apareceu como grande combatente pela liberdade de expressão não deixa de ser uma péssima e recta final de liderança, penosa e sem réstia de credibilidade. Também gostava de saber o que pensa disto o teórico da última campanha do PSD, mas parece que as suas prioridades vão para o Magalhães.
Entretanto, e em nome do PS, Vitalino Canas classificou a nova regra do PSD como "estalinista", isto "trinta anos depois do 25 de Abril". Eu não sei a que vem o estalinismo relacionado com a data, até porque não era bem isso o que vigorava antes - quanto muito, alguns quiseram que vigorasse depois. E também não sei que raio é que o PS tem a ver com normas internas de outros partidos; pretenderá controlar igualmente o seu funcionamento interno, tal como muitas outras coisas? E as inclinações perante o "Grande Líder" Sócrates, o seu culto pronunciado da personalidade, ou as reacções dos pitbulls de guarda, tipo Lello, quando há a mais pequena crítica ao secretário-geral, não são estalinismozinhos desfocados?

quinta-feira, março 11, 2010

O regresso do Olympique

A última visita do clube que hoje vai medir forças como o Benfica na Luz tem sido intensamente recordada pela célebre "mão de Vata", na velha catedral, regurgitando público, que permitiu ao Glorioso ir à sua última final europeia, que perderia para o invencível Milan de Arrigo Sacchi. Na altura o Marselha era presidido pelo controverso Bernard Tapie, o empresário e político que gastou milhões para formar uma equipa com os melhores jogadores franceses e um naipe de estrangeiros, para assim dominar o futebol gaulês e medir forças com os grandes da Europa. Há que reconhecer que conseguiu. O OM venceu cinco campeonatos franceses e logo em 1990 chegou às meias finais da Taça dos Campeões, onde cairia perante o Benfica. No ano seguinte, chegou à final da prova, mas perdeu em Bari nas grandes penalidades, e o mais desejado troféus ficou para o Estela Vermelha de Belgrado, última alegria quando na Jugoslávia já se anunciava a auto-destruição. E em 1993 ganhou mesmo a Taça, e logo ao Milan, com uma equipa onde pontificavam Barthez, Voller, Deschamps e Boli, que marcou o único golo. Ironicamente, um dos jogadores mais carismáticos que passaram pelo estádio Vellodrome, Jean Pierre Papin, estava do outro lado, e não pôde comungar da alegria dos ex-companheiros. Também Mozer já voltara ao Benfica, sendo talvez o mais infeliz dos finalistas de Taças.

Depois, o descalabro: corrupção, situação financeira caótica e irregular, a saída dos craques, a descida à segunda divisão e ao inferno. Com a saída de Tapie, o clube voltou aos poucos à tona, indo mesmo a duas finais da Taça UEFA, que perdeu para Parma (1999) e Valência (2004).


É curioso comparar o percurso dos dois clubes em confronto e reparar que os anos piores andaram quase a par. O Marselha desceu dos céus aos infernos em 1993, e apesar de alguns momentos altos, jamais voltou a ser campeão, mas tem agora um conjunto de jogadores interessante, começando em Lucho. O Benfica atravessou maus anos após o título de 1994, voltou a ser campeão e a fazer boas provas europeias em 2005 e 2006, e mostra agora uma força e uma forma de jogar que há muito se lhe não viam.

Além disso o Marselha é igualmente um clube muito popular, e tem a esmagadora maioria doa adeptos do Sul do país. Quando passei em Marselha, por toda a parte via símbolos do clube. A cidade provençal é muito virada para o futebol e venera o seu Olympique. Raramente vi tão grande culto a um símbolo desportivo como aí. No OM café, situado na parte mais visível da cidade, onde a Cannebière desagua no Vieux-Port, os seus empregados recordaram-se da meia final com o Benfica (sem ressentimentos), das festas do regresso do clube aos títulos e da conquista da Taça dos Campeões, onde se viram as maiores loucuras, e ficaram sinceramente espantados quando lhes disse que o clube comandado por Mourinho que pouco tempo antes ganhara esse mesmo troféu ao Mónaco era o Porto, e não o Benfica (sim , achavam mesmo que o Benfica tinha sido campeão europeu naquele ano!). A sua grande tristeza parecia ser a de que o dilecto filho da terra e do clube jamais lá tivesse jogado como profissional. Referiam-se a Zinedine Zidane, obviamente.


Neste jogo vão-se confrontar o clube mais popular de Portugal e o mais popular de França, o Ródano e o Tejo, a "bouillabaisse" do Vellodrome a o "Inferno da Luz", o maior porto do Mediterrâneo e o espírito atlântico, a (enorme) minoria árabe e o sangue de origem sub-sariana. Enfrentam-se duas equipas de ataque, Saviola, Cardozo, Aimar e David Luiz, contra Lucho González, Niang e Mandanda (mas não Heinze), perspectivando um grande jogo. E esperemos que o espírito que Mozer descreveu e que atemorizou os provençais se repita, assim como a sorte na eliminatória, mas que as mãos na bola fiquem lá, em 1990.

terça-feira, março 09, 2010

Óscares 2010

Os Óscares deste ano passaram sem que lhes tivesse dado grande atenção, por várias razões. Uma, é que vi poucos filmes nomeados; só mesmo Invictus e Nas Nuvens, que ainda por cima vieram de mãos a abanar. A outra é que não pude dormir menos para acompanhar a cerimónia, e só soube dos resultados no dia seguinte.

Não tendo visto a incursão iraquiana de Kathryn Bigelow, nem sabendo se vou ver, acho bem que tenha ganho o prémio de realização (julgo que é a primeira mulher a consegui-lo, o que assenta que nem uma luva no Dia Internacional da Mulher), por causa da sua curta mas interessante carreira, impulsionada por Ruptura Explosiva, outro filme que me lembro de ter visto no cinema Charlot(vide posts anteriores), e porque o seu ex-marido, Mr. Cameron, já tinha uma estatueta dourada em casa. e ainda acumulou com o prémio de Melhor Filme e mais uns quantos.


De Sandra Bullock acho bizarro: sem a achar uma canastrona, e considerando que tem um belo palminho de cara, nunca a vi como actriz para estas andanças. Mas às vezes algumas interpretações surpreendem-nos. Gostava era que um dia se lembrassem que Meryl Streep não é apenas nomeada todos os anos para fazer figura de corpo presente e lhe dessem enfim um segundo Óscar, depois das 1352 nomeações sem consequências. Se Hillary Swank teve dois, porque é que a grande Meryl não há de ganhar também? Ainda por cima os apresentadores da cerimónia são os seus consortes na sua última comédia...


Gostei muito de saber que Jeff Bridges tenha sido galardoado com o prémio de interpretação, mesmo que por um obscuro filme que nem deve saír em sala por cá. Um actor com uma respeitabilíssima e tão sólida carreira como Starman, Tucker ou Big Lebowsky, entre outros, e com várias nomeações anteriores, já merecia ganhar este galardão.



Para os escalões de actores secundários ganhou uma comediante num filme dramático (coisa que a Academia aprecia muito) e o austríaco que interpreta o diabólico coronel alemão do tarantinesco Inglorous Basterds, um papel a todos os títulos notável, como garantem muitos.

Entretanto, Avatar, a megalómana obra de James Cameron, que tem batido recordes de bilheteira, ficou apenas com um ou outro prémio de terceira categoria. Se atingiu Titanic nas receitas, ficou muito aquém na avaliação crítica de Hollywood. Com algum desgrado meu, diga-se. É que tenho tentado apanhá-lo nos fins de semana (únicos dias em que se podem assistir às suas quase trÊs horas sem grandes pressas), e ou está esgotado, ou há problemas técnicos. Se no início não estava para aí inclinado, agora tenho um real interesse em vê-lo em 3D. Com este desaire, o filme que "é como o Danças com Lobos só que com estrunfes", segundo a definição de Bruno Aleixo, arrisca-se agora a não ficar muito mais tempo nas salas. E não pensem que vou perder tempo a procurar o DVD: um ecrã de cinema é sempre diferente, e há coisas que só ali se revelam, inventem o que inventarem. E em 3D, parece que ainda é mais.


sábado, março 06, 2010

Uma volta pelos cinemas do Porto

Se há dias fazia referência a alguns cinemas localizados na zona da Boavista, é agora altura de recordar as salas do Porto.

O panorama cinematográfico da cidade onde nasceu a Sétima Arte em Portugal era até ao momento desolador. Digo "era" porque ao que tudo indica o novo pólo da cinemateca é mesmo para avançar este ano, na Casa das Artes, coisa que agradeço particularmente. E também por causa de uma reabertura recente. Mas quanto ao resto, permanece a desolação. O que sobra são as tais quatro salas do Cidade do Porto, as do Dolce Vita , nas Antas, e o pequeno estúdio do Teatro do Campo Alegre. Longe vão os tempos em que via passar a programação na Canal 2, e me espantava pelo facto de haver pouco mais de quinze salas no Porto, comparadas às mais de quarenta de Lisboa. Precisamente por há dias falar dessa recordação, e por causa do post sobre os espaços comerciais, é que abordei este tema.

Já falei no Charlot, o cinema da Brasília, sempre com imensa gente. Lembro-me de ter assistido a o primeiro Batman de Tim Burton. Mais adiante, na subida de Júlio Dinis, perto do Palácio de Cristal, havia o Pedro Cem. Também nesse assisti a muitos filmes, e se não me engano o último terá sido O Carteiro de Pablo Neruda, numa época em que ia pouco ao cinema.
O melhor de todos era o Foco, surgido nos anos setenta, que acabou por dar o nome ao Graham, urbanização onde se situava. Este bairro, entre a Avenida da Boavista, a VCI e o Bessa, obedeceu a um planeamento quase perfeito, com blocos de apartamentos de boa qualidade, galerias comerciais com inúmeras lojas, um supermercado, pubs, cafés e restaurantes, as piscinas, o hotel Tivoli, a igreja e, claro, o cinema. Arnaldo Saraiva faz algumas descrições interessantes da zona e dos seus habitantes no seu livro O Sotaque do Porto. Simplesmente, o hotel Tivoli encerrou, as piscinas há muito que estão fechadas, e o cinema, com as suas cadeiras que se afundavam, também já não está activo. Recordo-me de lá ir a um sarau universitário de tunas, em 1996 ou 1997, e depois disso, mais nada.


Mas a minha memória dos cinemas portuenses não se fica pela Boavista. Na Baixa havia o Lumière, com duas salas, muito procurado por isso mesmo. Sempre que lá ia com amigos, e se me despedia à saída, aproveitava para dar um salto à Leitura, ali ao lado, e percorrer a extensa colecção de banda desenhada que havia no primeiro andar. Mas também as salas do Lumière acabaram por fechar. Durante anos, as galerias comerciais onde se situavam serviam de mero ponto penumbroso de passagem entre ruas, com uma ou outra loja de filatelia e coleccionismo. Com a recente vaga de movida da Baixa, as galerias converteram-se em bares com luzes psicadélicas, e o espaço ganhou nova vida, principalmente à noite. Mas o cinema não reabriu.


Mais cima, e bem no centro da cidade, havia o Trindade, também com duas salas, mas mais antigo e vetusto. Nesse recordo-me de ver pelo menos o Philadelfia. Julgo que o edifício acolhe o bingo do Salgueiros, mas não sei se ainda promove algum tipo de espectáculo.


No centro havia também o Sá da Bandeira, que partilhava o palco com o teatro de revista e outros espectáculos ao vivo, e que em matéria de cinema está reduzido aos filmes porno. Mais acima, o Passos Manuel, inserido no Coliseu, voltou depois de longo fecho a exibir sessões de filmes recentes em reposição, mas julgo que está de novo inactivo. E ainda mais acima, na Praça da Batalha, duas jóias de períodos distinto: o Águia de Ouro e o Batalha. O primeiro é uma reminiscência em Art Deco, durante anos uma sala de prestígio, hoje uma fachada tapando ruínas; já tem futuro, e será convertido em hotel low cost, encerrando para sempre a sua função de casa de espectáculos. O Batalha é um sumptuoso edifício modernista dos anos quarenta, que reabriu há poucos anos, com espaço de bar e restaurante. Sei que tem uma imensa sala de cinema, mas penso que só esporadicamente, em festivais ou homenagens, exibe filmes.



















Depois há os cinemas que nem sei exactamente onde ficam, como o Terço, e ou o Vale Formoso, perto da Arca d´Água, com uma arquitectura também dos anos quarenta, e que só vi transformado em templo da IURD (um destino comum a salas abandonadas).

Outras jóias esquecidas haveria, na Foz, no Bonfim ou na Baixa, mas desconheço. No entanto, este é um pequeno guia que permitirá descobrir algo mais.

Mas o cinema que mais frequentei, e provavelmente o primeiro, era o Nun´Álvares, na rua de Guerra Junqueiro. Vi dezenas e dezenas de filmes nessa pequena mas acolhedora sala, forrada a azul, até ao último dia. Foi a última a fechar na cidade, sem ser em multiplex. E é daqui que vem a esperança: há anos falei do fecho do Nun´Álvares; pois agora voltou a reabrir, exactamente tal como estava, e já lá pude ver o Invictus.

E boa hora, este regresso, assim como a notícia da concretização do pólo da Cinemateca. A ser assim, ainda há esperança para o cinema na cidade de Aurélio da Paz dos Reis, Manoel de Oliveira e da Invicta Filmes.

quarta-feira, março 03, 2010

Agradecimentos

A gratidão é uma das virtudes mais apreciáveis. Mesmo quando exprimida por transportes públicos.

segunda-feira, março 01, 2010

A Brasília (e outros espaços fora de uso)

Há tempos deambulei pelo shopping Brasília, na Rotunda da Boavista, do lado oposto ao da Casa da Música, que de certa forma o substituiu como ex-libris daquela praça (depois da coluna central evocativa da Guerra Peninsular, como é evidente). O velho centro comercial completou trinta anos em 2006. Em 1976 era uma novidade em plena Rotunda, com as suas inúmeras lojas, as vidraças verdes, e sobretudo as escadas rolantes, uma inovação da época. Quem quer que se prezasse ia ao (ou, como eu sempre disse, "à",) Brasília, onde não faltava movimento, tanto de dia como de noite. Além das escadas havia também a meio do centro uma escadaria de degraus metálicos, imponente e espaçada. Tinha saída lateral para a Rua da Boavista - onde estava o cinema Charlot - e algumas lojas emblemáticas, como a Lira, versada em música clássica, que, pelo que me pareceu, ainda existe, e uma Bertrand que juntamente com a do shopping Bom Sucesso encerrou para reabrir a umas centenas de metros, na Júlio Dinis.



Como acontece frequentemente hoje em dia com este tipo de espaços comerciais, a Brasília deixou-se escorregar para a decadência e passou a albergar meia dúzia de lojas convencionais, um ou outro snack, e muitas lojecas de indianos, além de uma ou duas especialistas em BD underground e outra de artigos para góticos (e não estou a falar de arquitectura). Poucas são as pessoas a circular. O ambiente de passado e de paragem no tempo paira em toda a parte. Há outros no Porto, como em Lisboa (um bom exemplo aqui será o de Alvalade), mas pela sua dimensão e passado, este é o mais impressionante. E mais abaixo, na Avenida da Boavista, lá está o prédio do Dallas, espelhado a vidro castanho escuro, de que ainda me lembro com imensa gente nos Sábados à noite, iluminado, labiríntico, com lojas de tudo e mais alguma coisa, e onde ao que parece chegou a haver planos para salas de cinema. Depois de um período em que se tornou espaço para discotecas africanas e alguma violência urbana, cerrou as portas até hoje.

O sucedâneo natural e local desses espaços comerciais (e do Parque Itália, que recentemente sofreu remodelações e cujo terreiro à sua frente, parecido com o da Casa da Música, é uma autêntica pistas de skate) é o ciclópico e inestético Cidade do Porto. Construíram-no num espaço em frente ao Bom Sucesso (onde, segundo me contaram, nos anos oitenta pastavam vacas), em plena Boavista, aí por meados dos anos noventa. O seu tamanho é já um marco de orientação, mas até hoje nunca me habituei muito a ele. O seu interior pretensioso, com imitações de mármores e corrimões dourados, que já teve na base uma pista de gelo, tresanda a novo-riquismo. Talvez seja o grande responsável pela decadências dos outros espaços comerciais. É certo que tem algumas lojas interessantes, como a Leitura, ou outras, e quatro das pouquíssimas salas de cinema que há no Porto. Mas se pudessem ser transplantadas para outro sítio, aquilo depressa perderia o interesse.

Convém não esquecer que aquele mastodonte azulado violava o PDM aquando da sua construção (o que se previa para local era um espaço verde, além das distâncias das cérceas também não terem sido cumpridas). Em 2007, os tribunais administrativos emitiram uma sentença de nulidade da obra e ordenaram a sua demolição, que deverá ser efectiva se até 2011 não se elaborar novo PDM que o regularize.

Pela minha parte, seria melhor que a Câmara do Porto não o contemplasse no novo plano. Era a maneira de deitar aquilo abaixo e de se repovoar os esquecidos espaços comerciais da zona, tirando o espaço fronteiro, o Península, que não precisa disso. Desse modo, o Brasília ganharia nova vida e novos espaços, e com o Parque Itália formaria uma zona comercial bastante extensa e interessante, que tornaria a Rotunda e a rua Júlio Dinis na artéria de comércio por excelência da zona de ligação da Boavista à Baixa. Com alguma sorte, faria um eixo complementar com a zona de Miguel Bombarda, que fica ali mais para trás. A Leitura ficaria com novo espaço na Rotunda, e distribuir-se-iam as quatro salas de cinema do Cidade do Porto pelos espaços próximos que foram fechando: o Charlot, o Pedro Cem e talvez o Foco, outrora a melhor sala do Porto, e que tanta popularidade ganhou que deu o seu nome à zona residencial circundante.


E quem sabe, se para isso ainda houvesse oferta, se o Dallas não poderia reabrir novamente. Não é propriamente uma ode à beleza arquitectónica, mas dá alguma dor de alma ver aquele edifício castanho espelhado com as portas acorrentadas e completamente desperdiçado, com os seus corredores labirínticos entregues ao pó.


Quanto ao espaço do Cidade do Porto, ficaria um jardim, para amenizar o trânsito da zona, harmonizar o espaço e deixar de esmagar a capela e a Casa Agrícola, que lhe estão pegadas, a escola de trás, e todo, mas todo o espaço envolvente em geral, num raio de trezentos metros.

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Velho kemalismo vs neo-otomanismo



Há dias, um artigo de jornal referia a nova mudança estratégica da turca. O rumo que a Turquia tem vindo a tomar não deixa de ser nebuloso. Nos últimos anos, o governo de Erdogan, suportado pela "nova classe média piedosa" (em oposição às elites laicistas), sobreviveu a tentativas de golpes de estado, de proibição do partido, de conspirações, saindo reforçado dos sucessivos actos eleitorais. A tentativa de liberalizar o uso do véu nos espaços públicos terá sido a polémica mais mediática entre as duas grandes facções políticas. O que é certo é que ao crescimento económico do país, ditado pela nova classe de empreendedores, muitos provenientes da Anatólia, nota-se uma tentativa de moderar o laicismo e o poder dos militares, autêntica espada de Dâmocles sobre a cabeça dos governantes que se desviem do Kemalismo, perfeito totem ideológico do país.

O arrefecimento da vontade de entrar na União Europeia, o congelamento das relações com Israel e a aproximação aos vizinhos do Médio Oriente, como a Síria, assim como algum apadrinhamento das regiões balcânicas predominantemente muçulmanas, revela que a Turquia tomou um novo rumo, recuando aos tempos pré-Ataturk, recordando as origens. Pretende ser a potência da sua região, um pouco à imagem da Rússia. A diferença desta é que o seu raio de acção é muito maior, e no pós-comunismo tenta afirmar-se aglutinando a herança dos czares e a da URSS. Na Turquia, o kemalismo permanece, mas junta-se-lhe agora um revivalismo neo-otomano. aliás, não se percebe bem se se quererá fazer uma quadratura do círculo juntando as duas tendências opostas, ou se uma acabará por suplantar a outra.


É aqui que reside o interesse: saber se a Turquia seguirá o caminho dos últimos oitenta anos ou se quer voltar às origens que a tornaram num império colossal e temido. Pode optar pela primeira linha, aquela que tem sido rigorosamente vigiada pelos militares (que para isso já recorreram a golpes de estado, sendo que o último falhou, e os responsáveis está detidos), e tentar um novo rumo externo, tomando a dianteira do bloco do Médio Oriente, mais do que o Irão, com quem sempre teve uma relação conflituosa, e de parte dos Balcãs, coisa que os sempre inimigos gregos não a verão com bons olhos.


Mas pode, para além das relações externas, querer adquirir um velho-novo cunho. Este neo-otomanismo seria o rompimento com o kemalismo que tanto veneram, e o regresso aos valores do império, incluindo os religiosos. Nesse caso, que relações teriam com a UE, em particular com a Grécia? E com os vizinhos? Mudariam a capital de novo para Istambul, em claro desafio ao Ocidente? Reergueriam o estandarte verde? Restaurariam o Califado? Retirariam a imagem de Kemal Ataturk dos locais públicos (ou seja, de toda a parte)? É difícil de dizer e mesmo improvável. Em todo o caso, seria razão para gregos, sírios e árabes se apoquentarem. E passaria a ser o argumento final dos opositores à entrada da Turquia na UE.

terça-feira, fevereiro 23, 2010

Uma capela

Para completar o post anterior, deixo aqui duas imagens que demonstram bem a violência do temporal e das torrentes de lama que se abateram sobre a Madeira. Trata-se da capela de Nossa Senhora da Conceição, no lugar de Babosas, freguesia de Montes, nos arredores do Funchal. Ou melhor, tratava-se. Na fotografia de cima vê-se o pequeno templo que lá estava. O que restou agora é o que vemos na de baixo.












segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Catástrofe

A melhor forma de se perceber uma tragédia é ver as imagens dos seus efeitos. Estou sem televisão e ainda não percebi muito bem como ocorreu a catástrofe na Madeira, mas há fotografias que ajudam a perceber, como as enviadas pelos leitores do Público.


Provavelmente não se estaria à espera de uma tempestade tão arrasadora na ilha de clima ameno. Prova que a natureza nos prega partidas cruéis, mesmo que pensemos estar a salvo delas.

Não deixa de ser tristemente irónico que os oitenta milhões de Euros aprovados no Parlamento pelos partidos da oposição, que levaram de vencida o PS, terão afinal mito mais préstimo do que se poderia julgar à partida.

domingo, fevereiro 21, 2010

Martim Moniz

Há estações do metro de Lisboa com a sua piada (e outras francamente escuras e decadentes). Mas poucas terão a deliciosa ironia da do Martim Moniz: apresenta na decoração figuras de cruzados e bispos (em homenagem ao guerreiro entalado que deu o nome à praça), naquela que é precisamente a zona com mais muçulmanos por metro quadrado em Lisboa.

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Um deserto?
Eis o possível futuro resultado do sorvedouro de recursos, gente e meios que é o litoral português, entre Braga e Setúbal, em especial a Grande Lisboa. Os aziagos áugures que profetizavam um deserto em Portugal podiam estar cobertos de razão. A visão da travessia de um deserto entre uma e outra pequena cidade é bem real, infelizmente. Impõe-se a pergunta costumeira e sem resposta: que fazer? Certo é que se um país condena uma parte do seu território a tornar-se um deserto, perde também a soberania correspondente.

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Nova Yorke também pode ser pia
Tal como pensava, em Wathever Works, Larry David é um alter ego de Woody Allen, só que ainda mais neurótico que o realizador. Um misantropo desagradável, niilista e com complexos de toda a ordem (a começar pelos de superioridade), que só se amacia com uma mente simples.
No filme, uma família típica do Sul profundo, do Mississipi, chega em diferentes vagas e por razões diferentes (mas interligadas) a Nova York, e com o tempo e os contactos com os indígenas, esquece os seus hábitos conservadores, abandona a religião e adopta modos de vida pouco convencionais, que até aí lhe eram estranhos.
Tal metamorfose cria a impressão que a Big Apple é mesmo a "Babilónia" dos tempos modernos, a cidade "sem Deus", hedonista e niilista, segundo certos grupos evangélicos americanos. Isso e o dia de hoje recordaram-me a minha passagem pela cidade, há uns anos, também em Fevereiro. Era Quarta-Feira de Cinzas (felizmente passei o Carnaval sem sequer me lembrar da data), tal como agora. Visitando a St Patricks´s Cathedral, vi multidões de pessoas formando filas e mais filas para que os sacerdotes lhes colocassem na testa a marca das cinzas, em forma de cruz. Recebiam-nas e depois saíam, indo à sua vida. Havia de tudo, de todas as classes sociais, de todas as raças, de todas as idades. Havia executivos de gabardina e pasta, adolescentes vestidos à break-dancer, mulheres com ar de estar entre a escola dos filhos e o trabalho, velhos com todo o tempo do Mundo. No fundo, o que ali estava era uma pequena representação de Nova York: uma grande parte dos seus crentes, levados naquela manhã ao tempo pela sua Fé, tão multiplicadamente heterogénea e cosmopolita como a própria cidade.

domingo, fevereiro 14, 2010

Prematura e apressada

Quando vi nas bancas a notícia de que Paulo Rangel avançaria para a liderança do PSD fiquei sem saber o que pensar. Sendo certa a anunciada candidatura de José Pedro Aguiar Branco, a posição de Rangel não faz o menor sentido. É sabido que o líder do grupo parlamentar laranja não desistiu antecipadamente em favor do euro-deputado. Sendo os dois do mesmo grupo interno do partido, com ideias semelhantes (embora de estilos muito diferentes), conhecendo-se há muito, e tendo mesmo Rangel sido Secretário de Estado de Aguiar Branco quando este era Ministro da Justiça no breve governo de Santana Lopes, que razões haverá para este avanço?

Parece que Rangel ultrapassou o estigma de "novo turco" no PSD. A prestação como líder parlamentar e a exaltante vitória nas Europeias catapultaram-no para um lugar de destaque no partido e no panorama político nacional. Embalado pela popularidade ganha em tão pouco tempo, e provavelmente com algum deslumbre, Rangel resolveu avançar, ao contrário do que dissera há tempos, argumentando com a alteração de circunstâncias, que o terá levado a dar esse passo. A meu ver, um pouco maior do que a perna.

Parece-me, antes de mais, que esta candidatura à revelia de Aguiar Branco não faz justiça ao líder parlamentar do PSD. Sabemos como em política quem quer chegar ao topo tem por vezes de remover "obstáculos", mesmo com alguns empurrões ou golpezinhos. Ainda assim, não esperava esta atitude vinda de Rangel ao seu antigo Ministro. Para quem quer ser um exemplo ético para o país, não é um bom começo de caminhada. Depois, a razão supracitada de pertencer à mesma família política e ao mesmo círculo (onde também cabe Rui Rio, por exemplo) deixa adivinhar que dividirão os apoios dos que à partida votariam numa única candidatura. Pedro Passos Coelho deve achar todo este processo muito interessante.


Depois, claro, o facto de Rangel ser um militante recente joga contra ele e será com certeza usado pelos adversários. O bom desempenho como líder parlamentar (a que pode juntar o célebre discurso do 25 de Abril de 2007) deu-lhe também reconhecimento, mas Aguiar Branco também o é, tem cumprido o papel com descrição mas competência, e o facto de só avançar depois de resolvida a discussão do OE dá-lhe credibilidade. O efeito das Europeias e a mediatização daí decorrente deram alento a Rangel, mas o certo é que a derrota nas Legislativas desinchou um pouco o balão de entusiasmo.
Como o tenho como pessoa de visão, não acredito que avance completamente às cegas. Lembro-me de o ouvir referir o exemplo dos políticos franceses, como Miterrand, que iam aos vários actos eleitorais, coleccionando derrotas sobre derrotas, até por fim chegarem ao lugar pretendido. É possível que seja essa a ideia de Paulo Rangel: apresentar-se a sufrágio, não ganhar, mas ir reunindo experiência a apoios, até ver chegada a sua hora. Pode ser. Em todo o caso, corre o risco de se queimar e de perder aliados. E não deixo de pensar que há um certo deslumbramento com os acontecimentos recentes (o discurso desta semana no Parlamento Europeu, dramatizado e histriónico, é disso prova, e não terá caído bem entre os euro-deputados nacionais) que o levou a dar esta guinada para a cúpula laranja. É, por isso mesmo, é uma candidatura prematura, apressada e inoportuna, de quem se deveria constituir como reserva válida mas que resolveu meter a carne toda no assador. Passos Coelho tem assim o caminho mais aberto para a liderança do partido, e quem sabe, do país.

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Invictus

Parece que Invictus não caiu no goto dos críticos de cinema, que o classificam como 2um bom filme", mas apenas uma obra menor de Eastwood, atribuindo-lhe por norma três estrelas. Eu dava-lhe quatro à vontade. Por causa dessas críticas , nem estava com grande vontade de o ver (o perigo que são as influências dos "entendidos" na Sétima Arte), mas lá cedi, aproveitando para regressar ao velho Nun´Álvares, em boa hora reaberto.

Além de todas as considerações históricas conhecidas sobre a transição do Apartheid para uma sociedade multi-racial, mostra-se o papel central de Nelson Mandela noutras vetentes que à partida poderiam parecer secundárias ou de nula importância, mas que pelo seu simbolismo e capacidade de exaltação, contribuíram para a conciliação sul-africana. Mandela percebeu que tinha nos Springbocks, a equipa de rugby da África do Sul (até então apenas apreciada pelos brancos, e hostilizada pelos negros), e no Mundial da modalidade que se disputaria em 1995, uma possibilidade real de unir o país através do apoio à sua equipa. Impediu assim que as instâncias desportivas extinguissem os bocks e deu-lhes todo o apoio, até atingirem o almejado (e à partida inimaginável) milagre: a vitória no Mundial, sobre os temíveis All Blacks da Nova Zelândia. Com isso, deu um passo de gigante na união do país. De súbito, os negros passaram a apoiar uma equipa que até aí era património" dos brancos, em especial dos afrikaners, e um símbolo do Apartheid.

É essa autêntica gesta que Eastwood nos conta, primeiro com algum comedimento, mas com uma última meia-hora, a do jogo, seus antecedentes e consequências, de ininterrupta emoção, de pura adrenalina cinéfila, que deveria figurar entre as mais excitantes do ano. A cena do avião é absolutamente fenomenal. Morgan Freeman, um dos que mais lutou para que este filme fosse feito, consegue finalmente dar corpo a Mandela, com uma interpretação comedida mas muito realista, sem rodriguinhos. Matt Damon está também muito bem no papel de François Pienaar, o capitão dos Bocks, na sua frustração inicial, nas suas dúvidas, e por fim na sua determinação. As nomeações para os Óscares foram justíssimas. Além da direcção de actores e de uma fita sem momentos mortos, Eastwood conseguiu ainda captar imagens reais do jogo, nomeadamente do público, adaptadas depois ao filme, naquele tom ligeiramente baço e desbotado, mas muito belo, que é já imagem de marca das suas obras. Também aqui esta não foge à regra das restantes.



E além do mais, o timing é muitíssimo bem escolhido. Dir-se-ia que o filme decidiu comemorar efemérides: está em exibição nos cinemas de todo o mundo precisamente hoje, quando passam vinte anos da libertação de Nelson Mandella (cujas imagens reais surgem logo no início). E, embora lançado em 2009, só se espalhou pelas salas em 2010, ano em que a África do Sul será também objecto de notícias do desporto, recebendo novamente um grande evento: o Mundial de futebol. Trará esta prova, tal como a de 1995, algo de novo aos sul-africanos?

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

João Pereira, o tradicionalista


Há quem nunca se esqueça da tradição. João Pereira é uma dessas pessoas. Em todos os jogos entre Benfica e Sporting, cumpre sem mácula a nobre tradição de conseguir sempre irritar os adeptos leoninos.

(Convenhamos que ganhar por 4-1 com Kardek e Éder Luís como dupla de ataque, e deixar no banco Saviola, Aimar Cardozo e Maxi Pereira, está apenas ao alcance de um grande equipa. Mas o Sporting está com a moral no fundo do poço).

terça-feira, fevereiro 09, 2010

Ucrânia: nova aliada da Rússia?



Viktor Ianucovitch terá ganho as eleições presidenciais ucranianas, como se previa com a dose de prudência necessária. É o fim anunciado da Revolução Laranja, de fins de 2004. Então, o virtual ganhador das eleições deste fim de semana era apeado pelos ucranianos apoiantes de Viktor Iushenko, depois de provadas as fraudes que o deixaram à frente na segunda volta. Numa fractura Oeste-Este, ganhou o candidato pró-ocidental, e a sua apoiante, Iulia Timoshenko, que se tornaria Primeira-Ministra e figura tutelar e carismática da Ucrânia; do outro ficou Ianucovitch, apoiado pela parte russófona ucraniana, concentrada na bacia do Don, e evidentemente pelo Kremlin. Convém não esquecer que este enorme estado do Mar Negro já pertenceu em parte ao Império Otomano, que o seu extremo ocidental estava sob domínio dos Habsburgos, e que Kiev é um dos berços dos nação russa, que nunca se conformaram com a secessão da ex-segunda maior república soviética. Além de que a Rússia tem a sua frota do Mar Negro sediada em Sebastopol, um acordo de usufruto para manter aquela força naval na Crimeia, antiga região cedida à Ucrânia, mas fortemente pró-russa. Sempre atenta ao seu "raio de influência", Moscovo tentava levar os seus aliados internos ao poder e impedir a aproximação do país à UE e aos Estados Unidos, com o risco de o ver entrar na NATO. Pelo meio ficou o episódio mediático e grotesco da tentativa de envenenamento de Iuschenko (um método bem conhecido do KGB, como ilustrou o episódio Litvinenko), que lhe desfigurou em parte a cara mas não o impediu de se tornar presidente.


Passados cinco anos de instabilidade política, trocas de cadeiras governamentais e da ameaça russa (e concretização parcial) do corte de gás natural, a situação alterou-se completamente. Iuschenko teve um resultado humilhante na primeira volta das eleições - menos de seis por cento e o quinto lugar - e o seu opositor de 2004 ficou na calha para ganhar à segunda volta.


A sua opositora, que com ele trocou o cargo de chefe de governo e que entretanto se desentendeu com o Presidente, assumiu-se como política de primeira plano. A sua imagem de marca, de cara angelical e inconfundível trança de camponesa, já lhe deram o epíteto de "Joana D ´Arc". é uma mulher de baixa estatura mas de espírito firme e autoritário, e com tentações de culto de personalidade, como se pôde concluir com os panfletos que a mostravam de toda a forma e feitio (astronauta, camponesa, etc) e que estiveram recentemente à vista do público na exposição de cartazes políticos no novo Museu do Design, em Lisboa. Com a anunciada derrota, Timoshenko já dramatizou o discurso e ameaça recorrer aos tribunais. Mas ninguém acredita que o escrutínio de agora seja invalidado. Ianucovitch assumirá a presidência e Iulia será a provável líder da oposição. Os sinais da Revolução Laranja foram varridos (tal como os de outras "revoluções coloridas" de Leste), e a divisão entre apoiantes da Rússia e do Ocidente permanece. Com um aliado dos russos à frente dos destinos do país, ver-se-à para onde vai a Ucrânia. Apenas uma certeza: a NATO bem pode desistir dos seus intentos em angariar novos membros por aquelas bandas. E a Rússia bem pode ter reavido um aliado de peso.


Mais e melhores informações da situação ucraniana podem servistas no blogue de José Milhazes, Da Rússia.

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Hergé e os judeus



Embora conheça todos os álbuns de Tintin (excepto o incompleto Alph Art, por essa mesma razão), uma das coisas que mais gostava de fazer era de lê-los a todos nas versões originais, isto é, a preto e branco, com aquele traço a carvão que ficou para sempre nesse magnífico Au pays des Soviets. Sei que pelo menos quatro deles são vendidos nessas versões, mas ignoro se houve mais edições. Abriu recentemente uma loja do herói belga em Lisboa, na Avenida de Roma, por isso talvez tenha sorte.


Nessas edições notam-se diferenças em relação aos coloridos, ou porque estão datados, ou por razões de conveniência, muitas vezes política. Como se sabe, Tintin nasceu como repórter do Petit Vintième, suplemento juvenil do jornal onde o seu criador trabalhava e que era dirigido pelo padre Wallez, um sacerdote ultratradicionalista com admiração por Mussolini e que iria apoiar o movimento Rexista de Leon Degrelle (de resto também ele amigo de Hergé, e segundo o próprio, inspiração física de Tintin). Por causa disso, muitas vezes o conotaram com posições pró-fascistas, anti-semitas e pró-nazis, tendo como base alguns dos livros originais.


Um dos casos é A Estrela Misteriosa, que data de 1941, época em que a Bélgica estava ocupada pela Alemanha nazi. No livro, com um cenário inicial apocalíptico, uma expedição europeia, em que participam Tintin e Haddock, vai em busca de um metal caído do espaço, e é constituída exclusivamente por cientistas de países do Eixo ou neutros (entre os quais um português). A expedição rival é americana, usa em vão todos os truques para chegar primeiro, e é financiada por um banqueiro judeu, com todos os traços inerentes.


Mais tarde, Hergé mudaria nomes e o carácter do financiador, mas também um interessante quadradinho que surge quase no início. Aí, dois judeus caricaturados falam um com o outro, perante a eminência da colisão da Terra com uma estrela, e um deles afirma que seria bom porque assim não teria de devolver o dinheiro que devia aos fornecedores.


Em tempos de ocupação, ficava sempre bem atribuir aos hebreus um carácter perverso e pecaminoso. É conhecida a extensa propaganda anti-semita feita pelos meios culturais do Reich, como o filme Jud Suss, à qual também a BD não escapou, coisa que seria ainda menos fácil numa publicação como o Vingtième Siécle. Mais tarde, na primeira versão de No País do Ouro Negro, concebido ainda durante a ocupação, Tintin é raptado por elementos do Irgun, o movimento terrorista que lutava contra o Mandato britânico da Palestina. Na versão moderna, os raptores são árabes.
Apesar das simpatias políticas de Hergé e do seu anti-comunismo, duvido que se possa considerar o autor como um pró-fascista ou sequer ou colaboracionista dos nazis. A negá-lo estão as obras anteriores à Guerra, em especial O Ceptro de Ottokar, em que se faz uma violenta sátira contra o Anchluss, e em que o repórter impede que o reino balcânico da Sildávia seja anexado pela Bordúria, um estado totalitário onde pontifica a Guarda de Aço (clara inspiração na Guarda de Ferro romena, de Codreanu), chefiada por Musstler - um anagrama de Hitler e Mussolini.
Mas já as referências pouco abonatórias aos judeus fazem pensar que haveria um certo sentimento se antipatia. Hergé, que pôs Tintin a defender os índios, os negros, os chineses e os ciganos, é bem menos condescendente nas suas primeiras obras face aos hebreus, e também aos americanos. Mais do que acompanhar uma moda de hostilidades de uma certa época, Hergé parece devotar também muito pouca simpatia pelo capitalismo e pelo grande mercado, representado exactamente por estes povos. É um sentimento muito europeu (do Centro e Sul), particularmente católico, de repulsa do capitalismo e da vida moderna, contrapondo a amizade, a coragem e a abnegação. Tintin é por excelência um herói do Velho Mundo, sem super-poderes nem armas, que apesar de se inscrever numa determinada era, nem por isso o público o considera datado. Tanto que os anunciados filmes de Steven Spielberg baseados no repórter aí vêm. Enorme ironia: será um judeu americano a fazer de Tintin um produto para as grandes massas no novo Mundo; tudo aquilo que Hergé criticava vai-se apropriar assim da sua maior criação. Desejá-lo-ia o autor? A adaptação ao cinema já era um plano do seu conhecimento, e a sua Fundação deu o aval. No fundo, o capitalismo americano reinante conseguiu atrair um dos seus adversários, sem o considerar um Cavalo de Tróia. E ao que parece, os judeus não se importaram muito com as primeiras versões.

terça-feira, fevereiro 02, 2010

Chico-espertismo alfacinhas suportados pelos dinheiros públicos



A ida do Red Bull Air Race para Lisboa provocou as convulsões esperadas, como tudo o que acontece neste género de coisas. Poderia ser uma mera iniciativa da Red Bull, em que Lisboa e Oeiras não se pudessem opor, e em que António Costa, muito solícito, tivesse avisado antes os seus homólogos de Porto e Gaia. A ser assim, não se poderia acusar as entidades locais ou o governo central de "roubarem" a corrida, mas tão somente a empresa austríaca de bebidas energéticas de a mudar de lugar. A indignação portuense deveria ser assim canalizada para a Red Bull, e não para os novos locatários da prova.


Simplesmente, os custos da operação são muito superiores aos que eram suportados pelas autarquias de Porto e Gaia. De 400 mil euros para 3,5 milhões vai qualquer coisa. O Turismo de Portugal dá uma ajuda, é certo, mas porque não se lembrou disso nos três anos anteriores? Esquecimento, ou os seus responsáveis não saem para fora dos gabinetes?

Toda a operação é de um provincianismo que mete dó. A polémica estourou em Dezembro, mas só agora é que se teve um conhecimento mais real dos números. Por muito que não aprecie a figura e as ideias de Santana Lopes, dou-lhe razão neste caso. A transferência da prova com apoios estatais e mais dinheiros das câmaras que a vão promover representam um acréscimo de gastos de dinheiros públicos. O tradicional chico-espertismo português travestido de fato de negócios e ar institucional: como não se atraem novos investimentos de fora, como deveria ser a regra, vai-se buscar a outras cidades do mesmo país. A isso chama-se incapacidade de atrair investimento estrangeiro e concorrência desleal, com o patrocínio do Estado.

E não era Lisboa que há bem pouco tempo tinha as contas em pantanas e um gigantesco buraco orçamental? António Costa diz que o primeiro meio-mandato era pôr a casa em ordem. Por muito boa gestão que tenha feito, é impossível pensar que as contas foram regularizadas em tão pouco tempo. Problemas supervinientes haverá, certamente, mais importantes e que necessitem de mais recursos. Veja-se a quantidade de casas devolutas na Capital, por vezes autênticas jóias desprezadas, creio mesmo que alguns Prémio Valmor. Mas prefere-se levar a Air Race para o Tejo com consequente aumento de custos a recuperar uma cidade desmazelada e ferida. Opções sem nexo, ou disparates que prejudicam uns sem melhorar a vida de outros, com o suporte do erário público.


Comigo não contam para a nova prova no Tejo. Até porque em estuário tão largo, a espectacularidade dos loopings dos aviões, uma prova de concentração mas um movimento belíssimo nas margens abruptas do Douro, perder-se-à seguramente no ar, com pequenos pontos longe da vista dos espectadores.