terça-feira, maio 11, 2010

32

Houve algum sofrimento, é certo, porventura desnecessário, mas o Benfica chegou ao seu 32º título de campeão nacional. Um número arrasador em qualquer campeonato. Como arrasador foi o ataque, com 78 golos marcados e 20 sofridos, melhor ataque e melhor defesa em conjunto com o Braga. E como cereja em cima do bolo, o "Tacuara" Cardozo sagrou-se o melhor marcador, com vinte e seis golos, outro galardão que o Benfica não tinha há 19 anos.


Paradoxal parece ser a apreciação do campeão para alguns: dificilmente uma equipa que jogue tão bem, que encha os estádios e que tenha mostrado tanto futebol ao longo de uma época é alvo de tanta contestação como a que aconteceu este ano. Ao que parece, os castigos a alguns jogadores que se entretiveram a praticar pugilismo e a nobre arte da cepa pelas costas seguida de fuga foram considerados uma coisa vergonhosa, dando a entender que bater em adversários é um método lícito para ganhar jogos. Como entendo que não é, e que o Benfica não precisou de bater nos outros jogadores nem de crivá-los com objectos de rua, a começar por pedras, julgo que a justiça deste título não se pode pôr em causa.


A Jorge Jesus se deve o triunfo e o carrossel de ataque da equipa, mas algumas peças já lá estavam, e melhoraram, como David Luís, Di Maria, Carlos Martins e Cardozo, e outras chegaram, para completar a máquina, casos de Saviola, Ramires e Javi Garcia. foram todos inexcedíveis, e mostraram o seu grande valor. Claro que Vieira merece uma palavra, mas é bom não esquecer o jovem director desportivo que permitiu que o título fosse possível: Rui Costa, a mostrar que percebe enormemente do assunto.


E a festa correu lindamente. Nunca tinha comemorado um campeonato do Benfica no Marquês de Pombal. O próprio Papa Bento XVI, no edifício do BES, parecia abençoar aquele título. A multidão em delírio é um espectáculo único, assim como ver Jorge Jesus eufórico, com o cabelo vermelho e com uma bandeira às riscas que mais parecia o antigo símbolo da Olá! Eram aliás os mais velhos aqueles que festejavam efusivamente. Deu para ver quando o bus que transportava os campeões nacionais atravessava com dificuldade a rotunda (que já estava reservada para o efeito) e começava a longa marcha pela Avenida da Liberdade abaixo. A cara de alegria pueril de Rui Costa é absolutamente inesquecível. Mas não irrepetível.

domingo, maio 09, 2010

O regresso dos liberais


Afinal as coisas no Reino Unido complicaram-se mais do que o previsto: houve inúmeras atribulações nas secções de voto, eleitores cujos nomes não constavam dos cadernos eleitorais, o Labour sofreu uma pesada derrota, os conservadores não têm maioria absoluta, e os liberais-democratas ficaram com menos representantes nos comuns do que os que tinham anteriormente.
Acaba por ser um pouco frustrante para os últimos, depois de toda a mediatização em volta de Nick Clegg. Ainda assim deverão ser o fiel da balança e talvez um esteio para David Cameron, apesar de algumas diferenças profundas, o que lhes daria uma importância que não têm desde os anos vinte.

Os liberais-democratas descendem directamente do Partido Liberal (muito mais do que o Partido Social Democrata, uma dissidência trabalhista dos tempos da liderança esquerdista de Michael Foot), que por sua vez tem como antepassados os Whigs, os opositores históricos ao absolutismo real, que ganharam enorme importância com a Glorious Revolution de 1688, apoiando a nova dinastia dos Hanôver, que continua a ser a reinante, apenas com a alteração patriótica e oportuna do nome para Windsor, ao tempo da 1ª Grande Guerra. Os Whigs apoiavam-se na burguesia comercial e industrial, e em meados do século XIX converteram-se no Partido Liberal, devedor de pensadores como David Ricardo, Bentham e John Stuart Mill. Daí advém a tradicional divisão nominal e ideológica nos países anglo-saxónicos entre liberais e conservadores. A rotatividade entre estas duas forças seguiu-se por várias décadas, durante as quais os liberais chegaram ao governo do país, e figuras como Gladstone, Asquith e Llloyd George governaram o império Britânico, com os dois últimos a comandar o país durante a 1ª Guerra. Lloyd George tornou-se um dos vencedores do conflito, mas as suas ideias mais brandas para com a Alemanha foram recusadas por Clemenceau e Wilson, com os resultados conhecidos. Assinou também o tratado que criou o Estado Livre Irlandês.

A partir de 1922, os liberais saem do governo para não voltar, excepto em efémeras coligações. O crescimento do Partido Trabalhista, que arrastava as classes operárias e os sindicatos, e começava também a atrair a classe média, minou a sua base eleitoral, e a partir dos anos trinta o partido sofreu uma enorme erosão na sua representação parlamentar. Com a ascensão definitiva dos trabalhistas a um dos dois partido da rotatividade, com os conservadores, sobretudo depois da estrondosa vitória de Attlee em 1945, o Partido Liberal viu-se remetido a um apagado terceiro lugar, sem real peso na vida política.


Nos anos oitenta, já com o Reino Unido na CEE (de que foram ardentes defensores), fizeram uma aliança com o novo Partido Social Democrata, com o qual se fundiriam em 1988, originando o moderno Partido Liberal Democrata (os Lib Dems). Alguns dos seus membros tornaram-se notórios, como Paddy Ashdown, que deppos de dez anos a liderar o partido alcançou o cargo de Alto Comissário para a Bósnia. Seguiu-se os escoceses Charles Kennedy e Sir Menzies Campbell, até à actual revelação política britânica, Nick Clegg.
Com a indefinição governativa, David Cameron poderá muito bem ser obrigado a aceitar o apoio de Clegg, apesar de algumas incompatibilidades, como a Europa e a reforma do sistema eleitoral. No entanto, os Trabalhistas podem aproveitar qualquer suspensão nas negociações e intrometer-se, mas já sem Gordon Brown, condição prévia para qualquer acordo com os Lib Dems. E talvez entre em cena outra das jovens estrelas políticas do outro lado da Mancha, e rival à altura de Clegg: o ministro dos Negócios Estrangeiros David Miliband. De uma ou de outra forma, parece certo que os liberais recuperem a sua histórica importância, depois de noventa anos de espera e de hibernação.

sexta-feira, maio 07, 2010

Tories are back



À hora a que escrevo, há apenas uma certeza, que de resto era tão previsível como os impostos: Gordon Brown está já a arrumar os tarecos de Downing Street para dar lugar a David Cameron. Não conseguiu segurar o desgaste do Labour nem a herança de Blair. Treze anos depois deste ter iniciado a fecundo período de governação do New Labour, os conservadores regressam ao poder, ainda que reciclados do thatcherismo. Para isso precisaram de queimar três líderes distintos mas sem carisma, até ao novato, etonian e apreciador dos Smiths Cameron, um compassive conservative, segundo o próprio. Resta agora saber com que maioria vão os tories ficar (ao que tudo indica, não é absoluta), e qual o peso político dos liberais-Democratas, da nova estrela política na Grã-Bretanha, Nick Clegg, mas do partido laranja falarei mais tarde.

E, claro, saber o que vai fazer agora Gordon Brown.
Aconselhável também este artigo de Francisco Mendes da Silva, no 31 da Armada, que contextualiza o blairismo. Não estou necessariamente de acordo com todas as suas premissas e conclusões, mas é interessante, porque ajuda a perceber a época em que o New Labour vingou, entre a Britpop e um novo cosmopolitismo londrino.

quinta-feira, maio 06, 2010

A Expo de Xangai
Abriu oficialmente há dias a Expo 2010 em Xangai, a exposição mundial que sucede à de Saragoça, em 2008. Estive na cerimónia de apresentação a Portugal, no Casino de Lisboa, Parque das Nações, cenário apropriado e propositado por ter sido também uma outra exposição mundial. Esta Expo 2010 tem como tema "Melhor cidade, Melhor Vida", o que mais do que um exemplo, deverá constituir um desafio para a china, tendo em conta a forma repentina e caótica como crescem as suas urbes, cujos mapas mudam em poucos meses. E Xangai é precisamente a maior das cidades chineses, uma megalópolis a caminho de se tornar a maior do Mundo, e também a mais cosmopolita do país, por razões históricas.

O espectáculo de apresentação teve uns números musicais mornos. Bem mais megalómano é o espaço da exposição, a maior de sempre, dez vezes a área da Expo 98. O tema poderá ser algo em que os chineses não serão um grande exemplo, mas a extensão tem tudo a ver com o gigantismo tão próprio da China e das suas ambições. Como compete a qualquer grande potência emergente, a organização deste tipo de eventos é mais uma forma de afirmação mundial, como o fora os Jogos olímpicos, como o Brasil também o demonstra. Já Portugal também tem uma representação bem à sua medida, numa pavilhão de cortiça. Se servir de incremento ao consumo de vinho português e à cortiça sempre servirá para alguma coisa.

domingo, maio 02, 2010

Portugal: o sentimento de fracasso dos catalães


Analisando o assunto do post anterior - o triunfo do Inter sobre o Barcelona - e as reacções culés, e olhando para o ódio a Mourinho, fico a pensar que os catalães não olham para os portugueses com bons olhos. Repare-se de novo no futebol: Mourinho é o que se vê (e a imprensa local trata-o por "tradutor"), Figo teve a pior recepção que um profissional da bola jamais teve no Nou Camp (até cabeças de porco lhe atiraram), a Baía, Quaresma e Simão as coisas nunca correram particularmente bem, e Fernando Couto teve uma passagem discreta. 

Não tenho grande conhecimento de passagens de notáveis de portugueses por outras áreas na Catalunha, mas o futebol, tão mediatizado, poderá ser um bom exemplo da maneira como se olha para nós nessas paragens. Olhando com alguma atenção, a História, parece explicar porquê.

O Condado de Barcelona uniu-se ao Reino de Aragão no Século XII, que por sua vez, com o casamento entre os Reis Católicos, se uniu a Castela, dando início à moderna Espanha. Com a chegada de Castela às Américas e a afluência dos metais preciosos, Sevilha tornou-se o grande entreposto comercial, relegando Barcelona para plano inferior. Até aí, a cidade catalã era um dos grandes portos do Mediterrâneo e dominava grande parte do seu comércio, até porque Aragão possuía ainda Valência, as Baleares, a Sardenha, Nápoles e a Sicília, e alguns territórios na Grécia. Mas as descobertas de novas paragens levaram o grosso do comércio do Mediterrâneo para o Atlântico, e para novos centros, como Sevilha, Antuérpia e Lisboa. Assim, o início da época de ouro portuguesa coincidiu com o declínio catalão. 

Muito mais tarde, na Guerra da Sucessão de Espanha, a Catalunha apoiou o Arquiduque da Áustria, candidato dos Habsburgos ao trono espanhol, contra as pretensões da França de Luís XIV. Também Portugal estava do lado dos Habsburgos, e o Marquês das Minas chegou mesmo a entrar em Madrid, mas isolado, acabou por sofrer sérios revezes e a França lograria atingir os seus objectivos, ainda que à custa de inúmeros territórios, colocando no trono um Bourbon, que aliás ainda hoje reinam. Quase toda a Espanha apoiava o candidato de França, o Duque de Anjou, neto de Luís XIV, excepto a Catalunha. Pagou caro o apoio aos Habsburgos, com a perda dos seus direitos e a abolição das suas Constituições, bem como o apagamento da sua língua, menorizada e posta de lado. O que resultou do Tratado de Utreque constitui uma enorme machadada na autonomia catalã, e a sua dissolução em Castela, de que demoraria dois séculos a recuperar.

Depois, há que não esquecer que na Guerra civil de Espanha a Catalunha esteve do lado Republicano, que lhe garantia autonomia, ao passo que Portugal dava apoio não-oficial ao campo nacionalista. Com a vitória destes e o advento do franquismo, o estatuto e a língua voltaram a ser suprimidos. Franco evocava os Reis Católicos, mas ao contrário destes, jamais recuperou o aceitou as Constituições catalãs.

Mais o maior motivo de inveja, ou de desagrado dos catalães em relação aos portugueses, é anterior, e terão sido as revoltas quase simultâneas, em 1640. A que ficou conhecida como Guerra dos Segadores (imagem acima) ergueu-se contra Castela e as medidas do Conde-Duque de Olivarez, primeiro-ministro de Filipe IV/III, proclamou a república e depois ofereceu a coroa condal a Luís XIII de França. Castela reagiu, venceu os catalães e os franceses e apoderou-se de novo da região, apenas cedendo à França algumas partes a norte. Os conjurados portugueses aproveitaram-se desta revolta e da "distracção" espanhola, defenestraram Miguel de Vasconcelos a 1 de Dezembro e coroaram Rei o Duque de Bragança. A guerra subsequente durou 28 anos, mas depois de pesadas derrotas os castelhanos reconheceram a sua perda. Já a Catalunha ficou subjugada e jamais recuperou qualquer traço de independência, embora goze hoje de uma larga autonomia. 

Mas fico com a impressão de que os catalães, mesmos que saibam pouca história, têm no seu subconsciente uma certa inveja e uma acrimónia contra Portugal, pelo facto da nossa existência enquanto país ser uma das razões do seu estatuto regional, e porque nos olham como uma nação que "recuperou" a sua independência, ao passo que a Catalunha regrediu na sua autonomia. No fundo, Portugal é a outra face da moeda catalã, o país que eles gostariam de ser e não são, desde que a sua revolta falhou e a nossa teve tanto sucesso que quase quatrocentos anos depois continuamos independentes e com as mesmas fronteiras.
Figo e Mourinho sentiram no ar esse sentimento de oportunidade perdida para outros.

sexta-feira, abril 30, 2010

O catenaccio, esse grande definidor de resultados (seguido de "tristeza de final da UEFA)

Por muito que se critique o "autocarro" que José Mourinho colocou em frente à baliza em Barcelona, não havia outra maneira de chegar ultrapassar os culés, ainda por cima com um jogador a menos ainda na primeira parte e com uma arbitragem caseira. Só com um sólido muro de betão é que passaria, e conseguiu-o, à custa de muita concentração e alguma sorte. Estimo o feito, porque não simpatizo muito com o clube blaugrana nem com a prodigalidade de elogios que tanto lhe fazem, e ver o Nou Camp sem um pio no final tem bastante graça. E o Inter já não ia a uma destas finais desde os anos setenta, por isso é sempre bom ver emblemas novos. E não esquecer: em Barcelona podem residir o ataque mais poderoso e temeroso e o futebol actualmente mais atraente do planeta (embora o do Benfica se lhe compare), mas o Inter é que inventou o catenaccio, e sabe usá-lo sempre como mais ninguém. Mourinho apenas segue a tradição do clube, conforme atestam os mestres.


Assim, o Barcelona fica a ver a final da Champions na televisão e perde a oportunidade única de erguer a taça em pleno Santiago Bernabéu, casa dos seus rivais e inimigos de sempre. Uma desilusão em terras condais, e um alívio para os merengues.


Em compensação, e para mal do futebol, o Atlético de Madrid, com apenas duas vitórias este ano em competições europeias, vai à final da "Euroliga" com o Fulham. Para trás ficaram o Liverpool e o histórico Hamburgo, que falha também a hipótese de jogar o último jogo em casa, que palco escolhido para o confronto. Atlético de Madrid e Fulham...Que raio de final havia de estar destinada! E pensar que o Benfica podia perfeitamente estar lá. Resta-me desejar boa sorte a Simão Sabrosa.
A greve e a falsa colisão de direitos



O direito à greve é coisa que não me entra na cabeça. Falo em sentido amplo, bem entendido. Que um grupo de pessoas se manifeste por um direito que entende merecer ou contra uma situação presumivelmente injusta é coisa que percebo perfeitamente, mesmo que discorde. O que eu francamente não entendo é o direito à greve tal como está plasmado na actual Constituição. Dá-se mais direitos aos grevistas do que a quem quer trabalhar. E estes últimos podem fazê-lo por uma quantidade de razões, como a de precisar mesmo de trabalhar por atravessar uma situação económica grave, ou não concordar com os motivos da greve. Assim, a permissão constitucional a piquetes de greve é uma aberração completa, que só prejudica quem trabalha. Os "vermelhos" acabam por ter mais direitos que os "amarelos" por razões que deviam ser inversas.


E o mesmo se pode dizer de todos os que são torpedeados pelas greves na função pública. A simples proibição da CRP de não haver alternativas aos transportes públicos é não apenas uma vénia aos senhores que por qualquer razão resolveram parar as suas actividades, mas também uma quebra de compromissos para com os utentes. Um serviço público não é uma agência de empregos nem uma associação sindical: serve para desempenhar determinada tarefa considerada essencial para a fruição da população, para prosseguir uma finalidade considerada necessária, e que exige por isso determinadas atenções. Assim, se aos grevistas é permitido formar piquetes e não se pode assegurar serviços mínimos que permitam que as pessoas se desloquem para os seus locais de trabalho, quando muitas vezes não têm qualquer alternativa, o Estado penaliza quem nada tem que ver com as birras grevistas e ainda tem que aguentar por vezes com penalizações salariais. Por causa de uma pequena classe profissional, como os maquinistas da CP, centenas de milhares de pessoas vêem-se prejudicadas, quando muitas vezes não podem elas próprias "furar" o trabalho. Qual a sua legitimidade, pergunta-se? E já agora porquê a proibição a alternativas? O direito à greve da minoria sobrepõe-se ao direito ao trabalho, à remuneração e ao transporte da maioria? Não sei quais os fundamentos politico-ideológicos de tais preceitos constitucionais que ainda existam, mas bem podiam ser objecto de uma revisão constitucional futura, dada a sobreposição de direitos, que por isso mesmo, nem sequer colidem.

E não esperem os senhores dos sindicatos de transportes públicos qualquer "solidariedade" para com a "sua luta". Quem não respeita os outros não pode pedir qualquer tipo de compreensão.

quarta-feira, abril 28, 2010

Mil


Mil é um número mágico. É sinónimo de grande quantidade, de conta difícil de se fazer. A palavra "milénio" provoca temores e ansiedades - é ver a quantidade de músicas, séries e filmes que a nossa cultura pop produziu na última década, baseada talvez na profecia " de mil passarás, a dois mil não chegarás". É um número difícil de atingir, uma passagem para um estádio superior, uma espécie de dobragem do Cabo das Tormentas.
Este é o post Mil de A Ágora. Mas foram precisos seis anos e tal para isso. É um atestado de experiência, mas também de alguma irregularidade. Tenho por isso algumas dúvidas de chegar aos dois mil posts.

segunda-feira, abril 26, 2010

Antes do título nacional, o europeu

Com a vitória do Braga na Figueira por expressivos 0-4, o título nacional de futebol volta a ser adiado. O Benfica pode conquistá-lo para a semana, no Porto, ou no fim de semana seguinte, frente ao Rio Ave. Entretanto, e para compensar, o Glorioso sagrou-se campeão europeu de futsal, ao vencer o Interviú por 3-2, após prolongamento, no Pavilhão Atlântico. Não sendo o êxtase, tratando-se de futsal, a taça UEFA é ainda assim uma conquista muito agradável e um bom tónico para os próximos dias, no futebol de relva.

sábado, abril 24, 2010

Memórias do futebol trasmontano

A propósito do inédito apuramento do Desportivo de Chaves para a final da Taça de Portugal, Francisco José Viegas recorda tempos idos do clube, quando ainda não jogava na 1ª divisão e os seus adversários eram invariavelmente clubes da mesma região. Também me lembro de ouvir falar de desafios entre o Vila Real e o Desportivo, no velhinho campo do Calvário, um recinto pelado no centro da cidade ainda hoje usado para os escalões de base. Se os jogos não corriam de feição ao "Bila", qualquer condutor que apanhasse a N2, a estrada para Chaves, nem que fosse para ir para a freguesia a seguir, era invariavelmente insultado pelos passantes.


Do Chaves não me recordo dos tempos anteriores à primeira divisão. Lembro-me de alguns históricos, como Paulo Alexandre, Manuel Correia, António Jesus, Karoglan, da trupe de espanhóis, como Toniño e Baston, e dos mais recentesRicardo Chaves João Alves, esse ex-next big thing do futebol português. E das claques "Força Azul-Grenat" e "Frente Flaviense", cujo nome ainda se pode ver graffitado nos viadutos do IP-4. Já não sou do tempo dos épicos confrontos entre equipas nortenhas, e fico mesmo surpreendido ao saber que o Régua usava camisolas em losangos (um padrão que podia fazer moda, ou então influência british dos produtores ingleses de vinho do Porto), mas acho que o fim dos campos de terra, esmagados pelos relvados, é motivo para um requiem.


Hoje, o Chaves está na Honra e em real perigo de voltar à segunda B. O Vila Real vegeta nos distritais, o Régua também, e o Riopele nem equipa tem, actualmente, ainda que a fábrica se mantenha. Raúl Águas, por sinal um bom técnico, já não treina. O que é certo é que nenhuma equipa trasmontana chegou onde o Chaves chegou. E que apesar de todas as antigas rivalidades, todas as pessoas da região, de todos os clubes, se devem regozijar por esta final (e quem sabe, com algo mais). Mesmo em Vila Real.


Imagem de um Chaves-Vila Real, dos anos sessenta. Tirado daqui, onde se pode ver uma descrição mais completa, e um testemunho da rivalidade referida em cima.

terça-feira, abril 20, 2010

Pare, Escute, Olhe




O cinema documental português está de boa saúde e recomenda-se. Depois de Ruínas chegou agora às salas Pare, Escute, Olhe, de Jorge Pelicano, que realizou anteriormente outra-longa metragem, Ainda Há Pastores, entre as serranias e as ovelhas da Serra da Estrela. Mas enquanto Ruínas era estático, este tem uma dinâmica muito própria. O filme, que ganhou o prémio de melhor documentário em longa metragem no DocLisboa de 2009, volta ao interior profundo, desta vez para revelar a morte lenta da Linha do Tua, desde o fecho do troço entre Mirandela e Bragança, em 1990, as atribulações e desesperos da população e as vacuidades do discurso político e das suas promessas.

Faz-se uma cronologia desde os anos oitenta, em que o problema do fecho da linha se colocou, vê-se o habitual ardil das "suspensões nocturnas" sem aviso, ao ponto de se roubar as locomotivas. Passa-se em revista as promessas de desenvolvimento com barragens, os diálogos entre governantes e altos quadros de empresas públicas, discutindo betão, as contradições, a incúria e as tragédias ferroviárias, quando não as havia antes, os estratagemas para se diminuir o número de utentes do comboio, servindo assim de pretexto ao seu encerramento, a submissão dos representantes eleitos que se submetem aos interesses partidários em lugar de defender os locais.
Pelo meio, o testemunho de um rio, de uma paisagem única, a junção de um património humano e natural únicos, ameaçados pela albufeira de uma barragem que não dará nem empregos nem desenvolvimento à região. E vê-se um povo entre o conformismo e a revolta. Nas conversas de café (como no surreal Lucky Luck), nas viagens na automotora, ou nas reuniões com os seus representantes, o trasmontano está lá bem plasmado: rude, directo, frontal, com alguma comicidade à mistura. Personagem transversal ao filme é o Sr. Abílio, antigo funcionário da CP, que goza os dias de velhice à sombra do apeadeiro de Ribeirinha, testemunha do caminho de ferro, do rio e do que se passa pela linha fora, não se fazendo de rogado a dizer o que pensa, por gestos ou palavras.
Também a fotografia e os cenários naturais são magníficos, e há algumas cenas de antologia, como o discurso de Sócrates, falando no "desenvolvimento", quando atrás da sua imagem desfocada e rebaixada se vêm as escavadoras em movimento. contrapondo ao progresso do betão, usa-se mesmo a arma preferida dos seus apologistas: mostra-se o que se passa "lá fora", nos "países civilizados", em que o comboio é usado como meio de transporte e turístico, e faz-se a terrível comparação com o que se passa no Tua. O contraste é coisa para deixar todos os portugueses corados de vergonha.
As minhas expectativas antes de ver Pare, Escute, Olhe eram razoáveis, mas fiquei agradavelmente surpreendido com esta obra melancólica, séria e irónica, tudo ao mesmo tempo. Além de ser um autêntico serviço público e de mostrar mais uma vez a tendência dos portugueses para abandonarem o que é seu em detrimento do que é "novo". Ainda está em exibição. É bom que o apanhem. Mais difícil será apanhar um comboio da linha do Tua. Mas quem sabe...

domingo, abril 18, 2010

O Marechal




Passou há uma semana o centenário do nascimento de António de Spínola, o homem que recebeu o poder das mãos de Caetano a 25 de Abril de 1974. A sua curta carreira de chefe de estado tê-lo-à tornado mais famoso, mas não será só isso que ficará para a história. Spínola foi das últimas figuras românticas de Portugal, na sua figura de militar respeitado pelos mais próximos, de comandante militar idolatrado pelos soldados, suspeito aos olhos das cúpulas do Estado Novo, e visto como um inimigo e um alvo a abater pela deriva esquerdista do PREC. A sua vida daria um livro talvez mais empolgante do que a extensa biografia de Luís Nuno Rodrigues. Entrou ainda muito cedo para o Colégio Militar (de onde tomou a alcunha "Caco"), enveredou pela carreira das armas e chegou a ser observador da frente alemã no cerco de Leninegrado, em 1941, numa equipa de observadores integrada na Divisão Azul espanhola - se não me engano também teve funções semelhantes na Guerra Civil de Espanha. O espírito castrense devia ser algo de genético, já que a sua família paterna, da Madeira, provinha dos Spinolas de Génova, que dominaram aquela república marítima e da qual saíram notáveis vultos militares, como Ambrogio Spinola, general dos Tercios espanhóis que Velazquez imortalizou na Rendição de Breda.

Como se sabe, subiu na hierarquia militar, como oficial de cavalaria, comandou tropas em angola, durante a guerra colonial, e chegou a governador militar da Guiné. O respeito pelos militares e a popularidade que granjeou vêm daí, das suas ideias federalistas e dos seus discursos nas selvas, bem como da publicação de Portugal e o futuro, já em rota de colisão com as posições coloniais do governo de Marcelo Caetano. logo a seguir deu-se a 25 de Abril, a sua breve presidência, à frente da Junta de Salvação Nacional, e o afastamento, em ruptura com a deriva esquerdista do PREC. O que se seguiu, no exílio em Espanha e no Brasil, terá sido porventura a sua menos conseguida e popular fase, quando apoiou e chefiou o MDLP e algumas actividades bombistas, muito embora a sua ideia fosse democratizar o país. Regressou com o fim das convulsões, pela mão de Mário Soares, que o nomeou chanceler das antigas ordens militares portuguesas, adquirindo uma espécie da aura de figura tutelar, embora decorativa, do regime - recebeu por isso mesmo o bastão de Marechal.

Spínola ficará sempre como uma figura controversa, pelo seu papel como mentor do MDLP e da "Maioria Silenciosa", como presidente da Junta de Salvação Nacional e primeiro chefe de estado pós-25 de Abril, pela sua carreira militar e pelas suas ideias de fazer uma Commonwealth à portuguesa. Uns vêem-no como traidor ao Estado novo, outros ao 25 de Abril, outros como um lírico irrealista, outros ainda como um visionário e uma carismático líder. Com o passar dos anos, essas discussões tendem a esbater-se, e a figura de Spínola institucionalizou-se, tendo sido inaugurada, no dia em que faria cem anos, uma avenida em Lisboa com o seu nome (muito embora fosse mais um pretexto do centenário, porque a artéria já existia com esse nome há seis anos).

Da minha parte, e embora as suas actividades à altura do PREC fossem mais que discutíveis, tenho pena que as suas ideias para as colónias não fossem experimentadas, ou ao menos discutidas. Mas quando olho para a sua inconfundível figura não posso deixar de pensar que o posto/título de Marechal dificilmente seria melhor atribuído. Acima de tudo, e embora só nos anos oitenta tenha recebido a distinção (pela antiga condição de chefe de estado), Spínola, com o seu monóculo, o pingalim, o sobretudo militar e as luvas na mão, que tanto recordava os oficiais alemães da 1ª Guerra, era, efectivamente, O Marechal.
 

quarta-feira, abril 14, 2010

Os "termos errados" de Bava




O video já andava por aí há uns dias, mas não quis deixar também de mostrar a "portugalização dos conteúdos" de Zeinal Bava, o presidente executivo da Portugal Telecom, que está preocupado apenas com um termo errado. Se a aposta na portugalidade se exprime em semelhantes e constantes anglicismos, mais valia convidar Gordon Brown para presidir ao Instituto Camões, até porque ele arrisca-se a ficar desempregado brevemente.

segunda-feira, abril 12, 2010

Uma nação trágica

O desastre aéreo que vitimou Lev Kaczynski, a sua mulher, o estado-maior polaco, o presidente do Banco da Polónia e inúmeras figuras de relevo, entre as 98 que pereceram, é mais uma das muitas tragédias que ensombram aquele país. Desaparecida por várias vezes, retalhada pelos vizinhos, local de campos de extermínio e pogroms, planície esmagada pela invasão nazi e a contra-invasão soviética, a Polónia sempre sofreu os maiores horrores a que a humanidade se dedicou. A comitiva polaca ia homenagear as vítimas de Katyn, setenta anos após essa outra desgraça polaca, em que os soviéticos assassinaram a tiro mais de vinte mil oficiais e civis polacos. Um erro humano, alguma inadvertência e as condições climatéricas consumaram o desastre. Assim desapareceu boa parte da elite da Polónia, muito perto do local onde iam homenagear esses outras membros de outra elite, de outro tempo. Como disse o ex-presidente Knaswievski, Katyn e a sua envolvente são malditos para os polacos.


Não era admirador de Kaczynski, da sua política de caça às bruxas (em conjunto com o seu gêmeo Jaroslav), que persrguiu gente tão insuspeita como Bonislw Geremek, ele próprio desaparecido recentemente num desastre de viação, e até Walesa, e do seu eurocepticismo, olhando sempre para a Europa (sobretudo a Alemanha) e a Rússia como inimigos, embora a história a isso aconselhasse. Mas um fim assim, em tais circunstâncias e naquele lugar, não deixa de chocar pela coincidência. Como é óbvio, já surgiram as teorias de conspiração apontando para a Rússia. Não creio que os russos estivessem minimamente envolvidos nisto. Mas o contexto e os envolvidos ajudam. Os caçadores de teorias conspirativas devem esfregar as mãos de contentes. E a Polónia soma mais uma tragédia à sua história, da qual, mais do que qualquer outro país, sobejam tragédias humanas.

domingo, abril 11, 2010

A ressaca de Liverpool


No percurso brilhante do Benfica esta época, a derrota em Liverpool acabou por ser atípica. Há meio ano que o SLB não perdia um jogo, em prova alguma. E mesmo assim, a dez minutos do fim estava a um golo de se classificar. A disposição dos defesas, em que apenas Luisão estava no seu lugar, a deficiente condição física de alguns jogadores, um guarda-redes inexperiente contribuíram para o resultado. Depois, um Liverpool com absoluta necessidade de ganhar e um Fernando Torres com espaço fizeram o resto. O segundo e terceiro golo são excelentes e rapidíssimas jogadas de contra-ataque, com trabalho estudado de equipa e passes de primeira. O Benfica, que até tinha começado bem, teve uma ou outra oportunidade desperdiçada e marcou com um livre directo superiormente executado por Cardozo. Depois veio o tal lance em que Júlio César sofreu um traumatismo craniano, e um Moreira ainda frio apanhou com o golpe final do espanhol do costume. Acabou aí o jogo e a eliminatória. O Benfica sofria um desaire justo mas demasiado pesado para o que se passou em campo. Arriscou e pagou por isso.



Claro que não é por essa razão que a boa carreira europeia, que teve o auge na vitória em Marselha, será esquecida. É pena, mas não mais do que isso, embora o número seja desagradável. É bom não esquecer que só à quarta tentativa é que Rafa Benitez conseguiu não perder com o Benfica. O confronto recordou algumas páginas dos anos oitenta, em que o clube da cidade dos Beatles era então a equipa mais forte da Europa, e se defrontou com o Benfica por várias vezes, sempre levando a melhor. Mas apesar da superioridade dos ingleses, nem por isso a equipa portuguesa ficou desprestigiada ou esquecida, como testemunhou há dias o mítico Ian Rush, fenomenal avançado e símbolo do Liverpool daqueles tempos. Há quatro anos, os Reds eram campeões europeus, mas dois golos fabulosos de Simão Sabrosa e Micolli fizeram estrondo perante o público da Kop. Agora, aconteceu o inverso da medalha. A prioridade era o campeonato, como Jorge Jesus se fartou de dizer, mas é sempre pena perder assim.


Fica o amargo de boca, a convicção de uma boa campanha europeia, e a confirmação de que Saviola faz mesmo imensa falta. Facto curioso: Cardozo, com dez golos, ainda pode acabar como o melhor marcador da Euroliga deste ano.

sexta-feira, abril 09, 2010

Ruínas




Há nas salas de cinema um ou outro filme que vale a pena ver. Mas o que diz mais à nossa memória colectiva é sem dúvida Ruínas, de Manuel Mozos, vencedor do último festival Doc Lisboa 8infelizmente só em exibição no cinema King, em Lisboa, e no Teatro do Campo Alegre, no Porto). Talvez ganhasse alguma coisa se identificasse os lugares por onde passa, mas mesmo assim é precioso. Do Cemitério do Prado do Repouso até ao enorme sanatório das Penhas da Saúde, passando por estalagens abandonadas, pelo Douro e pelo restaurante panorâmico do alto de Monsanto, são os restos, outrora prestigiados, de um país que abandona as suas memórias e o seu património e troca o velho, ainda que mais interessante, pelo novo. Uma fatalidade que desde sempre percorreu este país, na sua ânsia de querer parecer moderno e igual ao que vinha "lá de fora". É o Portugal esquecido e ultrapassado, mas com traços físicos que fica para trás, ultrapassado por novos elementos passageiros, que se transformarão um dia, também eles, em ruínas.

domingo, abril 04, 2010

Páscoa

"E no primeiro dia da semana, muito de madrugada, foram elas ao sepulcro, levando as especiarias que tinham preparado, e algumas outras com elas. E acharam a pedra revolvida do sepulcro. E, entrando não acharam o corpo do Senhor Jesus. E aconteceu que, estando elas muito perplexas a esse respeito, eis que pararam junto delas dois homens, com vestes resplandecentes. E, estando elas muito atemorizadas, e abaixando o rosto para o chão, eles lhes disseram: Porque buscais o vivente entre os mortos? Não está aqui, mas ressuscitou. Lembrai-vos como vos falou, estando ainda na Galiléia, dizendo: Convém que o Filho do Homem seja entregue nas mãos de homens pecadores, e seja crucificado, e ao terceiro dia ressuscite. E lembraram-se das suas palavras.

E, voltando do sepulcro, anunciaram todas estas coisas aos onze e a todos os demais."
Mateus 24, 1 a 9.

sexta-feira, abril 02, 2010

Novo rumo laranja
As eleições para a liderança do PSD foram há já uma semana. Como não trouxeram novidades substanciais, nem sequer referi o assunto, mas não resisto a deixar umas notas.
A vitória de Pedro Passos Coelho sentia-se à légua, mesmo que a sua dimensão possa espantar. Quem tem as "bases" como ele tinha não precisa de temer grandes percalços. Quando as principais distritais, zonas de forte implantação laranja, como Viseu, Leiria ou Vila Real, e régulos partidários como Fernando Ruas ou Marco António apoiam o mesmo candidato, é certo e sabido que será este o vencedor. Mesmo que a Madeira fique de fora. Aliás, as reprimendas de Passos Coelho a Jardim deram-lhe ainda mais apoio, enquanto que algumas atitudes de Paulo Rangel, a começar na facadinha a Aguiar Branco, não caíram bem no partido, tivesse ele o "baronato" que tivesse.
Impressionou-me apenas a baixíssima percentagem de votos de José Pedro Aguiar Branco. Os apoios de Rui Rio e Agostinho Branquinho não foram suficientes para descolar de uma votação residual. Poucos viam nele um líder carismático necessário para levar o partido ao poder. Quanto a Castanheira Barros, a sua candidatura não era para levar a sério.
Fico na dúvida se Rangel saiu reforçado, com aura de alternativa ou "futuro líder", ou se pelo contrário, não acabou chamuscado, desperdiçando o capital que ganhara com a vitória nas Europeias. Pode ser que tenha ganho pelo menos notoriedade, e a sua candidatura seja uma base para voos futuros. Mas antes de mais deve permanecer em Estrasburgo, crescer como político, corrigir erros e ganhar experiência. Não será de todo negativo para ele alguns anos na sombra. Rangel precisa de aprender a conter-se e a conter os seus discursos. Será um bom político se conservar as suas ideias e o deslumbramento inicial lhe passar.
E como será o PSD passoscoelhista? Não creio que o novo rumo liberal fosse a razão de tantos apoios internos. Dificilmente se pode ver o liberalismo, mesmo o de costumes, como uma ideologia popular em Portugal. Poderá refrescar o partido e levar-lhe novas caras, mas como alternativa de governo levanta algum cepticismo. Até porque se arrisca a confundir-se com o actual PS, e Passos Coelho com um Sócrates mais simpático. Como é óbvio, as ideias liberais irão esbater-se, quando a necessidade de ganhar votos vier ao de cima (lembram-se do choque fiscal de Durão Barroso?).
Gostava também de saber o que pensa Paulo Portas disso. À parte o caso dos submarinos, o líder do CDS-PP deve achar este rumo do PSD muito interessante. Dizia um jornal há meses que Portas estava à espera da vitória interna de Passos Coelho para "partir a espinha ao PSD". Exageros à parte, poderá ver uma oportunidade de roubar votos à direita, ao eleitorado mais conservador e desconfiado da liderança laranja. Não creio que os populares se tornem no maior partido de direita. Mas se o PSD roubar suficientes votos ao PS para o suplantar, precisará mais uma vez do CDS-PP para formar governo. E desta vez o partido de Portas terá mais peso do que no tempo de Barroso.

quarta-feira, março 31, 2010

O miserável caso Hulk

Fico espantado ao ver a indignação da redução da pena de Hulk de 3 meses para 3 jogos. Não pelas lacunas jurídicas que deram origem a toda esta confusão, mas sim pela martirizarão que quase fazem do jogador, e pelas culpas inteiramente atribuídas ao conselho Desportivo da Liga.

Ao contrário do que tem sido voz corrente, Ricardo Costa parece-me das poucas pessoas ligadas ao futebol que realmente pretende fazer um trabalho com isenção e cumprimento das regras. Caiu obviamente nalgum protagonismo de TV, mas tirando isso pouco lhe pode ser assacado.
O episódio Hulk é a prova disso mesmo. Perante uma lacuna normativa quanto ao estatuto dos stewards, o Conselho Disciplinar da Liga, por si presidido, usou as ferramentas jurídicas básicas para a colmatar, através do recurso à analogia. E em casos semelhantes, a decisão fora sempre a de considerar que o atingido era um interveniente ao jogo. Podia-se certamente ficar com dúvidas quanto às funções desempenhadas por estes elementos; o que não se poderia fazer nunca seria considerá-los como "público", ou seja, como sujeitos pagantes para ver o espectáculo. O CJ da Federação teve essa brilhante ideia, num acórdão em que confessou que "tinha dúvidas quanto a essa classificação" e em que considerou que "o CD da Liga teve legitimidade na decisão que tomou". Uma decisão atabalhoada e contrária a outras em casos análogos, o que provocou a demissão abrupta de Hermínio Loureiro da Presidência da Liga de Clubes.


Claro que estas incoerências não interessam aos defensores do jogador, a começar pelos responsáveis portistas, que depois de considerarem que ele se tinha defendido "como qualquer pai de família", resolveram pedir a módica quantia de 17,5 milhões de Euros pela decisão da Liga. não percebo o fundamento, já que a própria FPF reitera a legitimidade da liga na sua decisão; haveria ainda umas quantas razões para considerar tal pedido um absurdo (como o de que Hulk não resolve todos os jogos só por si, longe disso, e que jogou nos 5-0 que o FCP sofreu em Londres), mas a maior de todas, a par da legitimidade da Liga, é esta: Hulk esteve suspenso desde o jogo em que andou a distribuir murros até à decisão final da punição porque no ano passado a Liga aprovou, em Assembleia Geral, a regra da suspensão provisória até à decisão por proposta do...FCPorto. Se se tratam dos mesmos responsáveis que agora querem aquela brutalidade, estamos conversados quanto ao seu valor.


Quer a maralha futeboleira, e em particular a que vê em Pinto da Costa um semi-Deus infalível, nada queria saber disso e ache muito bem um jogador da suas cores andar ao murro é coisa que não surpreende. O mesmo não se deveria dizer de outros que têm mais conhecimento da matéria. E no fim, como se adivinha, queima-se quem tem qualidade técnica e poderia mudar alguma coisa no seio do futebol, como Ricardo Costa, cujas ilusões iniciais de trazer ar fresco se terão certamente esfumado, e mantêm-se os palradores e incendiários de sempre, neste dirigismo miserável.

segunda-feira, março 29, 2010

Herculano
É inevitável, mas tenho de me repetir sobre a utilidade dos blogues, desta vez quanto à recordação da nossa memória colectiva, sobre personalidades da nossa História, das artes e letras, que as nossas entidades oficiais não se dignam a homenagear, tão ocupados que andam com os cem anos da república, essa enorme prioridade da vida portuguesa.


Há duzentos anos, nascia o soldado, poeta, romancista, historiador, investigador, agricultor e eremita Alexandre Herculano.
PS: a propósito dos comentários a este post, ficam aqui umas curiosidades sobre Herculano. Segundo os dados que juntei, deslocou-se a Lisboa não para ver D. Pedro II, mas para um mero negócio de azeite; esteve lá acamado, e recebeu tantos amigos que disse a sua famosa frase "isto dá vontade de morrer", não como azedume (uma versão criada por Bulhão Pato), mas como manifestação de alegria e apreço por poder ver tantos amigos à sua volta. - circunstância que até faria com que nem se importasse de morrer. Na realidade, o Imperador do Brasil é que o visitou em Vale de lobos, a crer em Eça n´"As Farpas" ("Uma Campanha Alegre"), que descreve a visita com a ironia do costume:
"Sua Majestade Imperial visitou o Sr. Alexandre Herculano. O facto em si é inteiramente incontestável. Todos sobre ele estão acordes, e a História tranquila.
No que, porém, as opiniões radicalmente divergem - é acerca do lugar em que se realizou a visita do Imperador brasileiro ao historiador português.
O Diário de Notícias diz que o Imperador foi à mansão do Sr. Herculano.
O Diário Popular, ao contrário, afirma que o Imperador foi ao retiro do homem eminente que...
O Sr. Silva Túlio, porém, declara que o Imperador foi ao Tugúrio de Herculano; (ainda que linhas depois se contradiz, confessando que o Imperador esteve realmente na Tebaida do ilustre historiador que...)
Uma correspondência para um jornal do Porto afiança que o Imperador foi ao aprisco do grande, etc.
Outra vem todavia que sustenta que o Imperador foi ao abrigo desse que...
Alguns jornais de Lisboa, por seu turno, ensinam que Sua Majestade foi ao albergue daquele que...
Outros, contudo, sustentam que Sua Majestade foi à solidão do eminente vulto que...
E um último mantém que o imperante foi ao exílio do venerando cidadão que...
Ora, no meio disto, uma coisa terrível se nos afigura: é que Sua Majestade se esqueceu de ir simplesmente a casa do Sr. Alexandre Herculano!"

sábado, março 27, 2010

Uma enorme bandeira


Já tinha olhado várias vezes para o mastro do alto do Parque Eduardo VII, em Lisboa, e pensado que ficaria imponente com a bandeira azul e branca hasteada, em vez de vazio ou com a verde-rubra colocada. Os elementos da Carbonara - Movimento Monárquico de Massas (o nome são dois trocadilhos deliciosamente irónicos e muito bem achados) tornou real esse meu pequeno sonho, e Lisboa acordou com a velha bandeira a dominá-la. Prontamente a tiraram, mas as imagens não mentem. Só tenho pena de não ter visto ao vivo, mas já não me posso queixar. Resta-me desejar que outras destas acções irreverentes e bem humoradas se repitam, por muito que os defensores dos demagogos e terroristas de 1919 insistam em classificar os seus autores de "meninos-bem". E a avaliar pela mensagem, não vão mesmo parar por aqui.
"Até 5 de Outubro, nenhum mastro, poste ou varanda estará seguro".



A crise tailandesa explicada ao pormenor
Na recente crise tailandesa, em que os apoiantes do "partido vermelho" desceram a Bangecoque, apenas ouvimos da maior parte dos órgãos de comunicação social nacionais algumas passagens apressadas e situações mal explicadas, como a dos litros de sangue lançados pelos "vermelhos" contra a sede do governo. Uma vez mais, o Miguel Castelo Branco, na Tailândia há mais de dois anos, deixou no seu precioso Combustões um extenso e elaborado testemunho da situação, para que a pudéssemos compreender com outra precisão. Mais uma exemplo cabal de que os blogues (e as redes sociais) se substituem com eficácia aos meios tradicionais quando estes não fazem o seu trabalho de campo. É por isso que recorrem cada vez mais a estes métodos, em tempo quase real ou com o maior número de informação e de ilustrações disponível.

terça-feira, março 23, 2010

O primeiro troféu da era Jorge Jesus


A Taça da Liga conquistada ontem pelo Benfica pode não ter grande importância por si mesma, mas representa a primeira conquista oficial do Benfica de Jorge Jesus e a confirmação de que esta equipa respira confiança, joga quase de olhos fechados e pode até alterar algumas peças que nada de substancial muda. Sem fazer um jogo de encher o olho, os jogadores vulgarizaram o adversário, trocaram a bola nas calmas, sem nunca se enervarem nem responderem às provocações alheias, e ainda se divertiram com um monumental peru do infeliz guardião do outro lado. Uma conquista justa, pela vitória final e pelo próprio percurso, que como se sabe, incluiu uma goleada em Alvalade, por gordos 1-4 (a que eu tive oportunidade de assistir in loco, ainda que no meio de um desesperado mar verde).


Ficou ainda plasmado o imenso contraste entre os vencedores e a equipa adversária, que ainda há pouco fazia discursos identitários inflamados mas que na hora da verdade se revelou um conjunto de caceteiros comandados por um delinquente, mais parecido com o zombie de Michael Jackson no Thriller, sempre com a permissividade de um árbitro já suspeito, ao passo que os simiescos adeptos (?) se entretinham a atrasar o jogo lançando cadeiras para o relvado.


Uma diferença que há pouco tempo não se imaginaria, mas que neste momento tem um significado muito grande. Tal e qual a Taça da Liga. Mas ainda falta muito para a época acabar.

segunda-feira, março 22, 2010

LX-90, uma carreira breve

 
Depois dos Heróis do Mar, Rui Pregal da Cunha e Paulo Pedro Gonçalves formaram em 1990 os LX-90, com uma música mais rock e blues, mais guitarras e menos teclados, e também menos comprometida com os anos oitenta do que a banda criada por Pedro Ayres de Magalhães que os lançou para a fama. Lançaram em 1992 o álbum Uma Revolução por Minuto, única edição da sua carreira antes de partirem em 1993 para Londres, onde se tornariam nos Kick Out of The Jams.

Ficaram como exemplo do seu breve percurso alguns singles, como este Road to Redemption, um "street movie genuíno proporcionado por uma cidade generosa", onde "da Estrela à Mouraria um grupo de lisboetas canta em inglês".

domingo, março 21, 2010

Porto Antigo
Nova entrada para a coluna das ligações. Em destaque, o Porto Antigo, um blogue que infelizmente só conheci agora mas que merece absolutamente ser divulgado, e que mostra as memórias e as histórias que fizeram o Porto. Entre muitas curiosidades, fiquei a saber que atrás do Museu Soares dos Reis há um antigo velódromo, e que houve um circuito de carros em Lordelo.

sexta-feira, março 19, 2010

As salas de Lisboa

 
Aproveitando os recentes Óscares e as recordações dos cinemas do Porto, falemos dos de Lisboa. A capital sempre teve uma quantidade enorme de salas (como eu podia comprovar na já referida programação de filmes que costumava passar no canal 2, Sábado ao fim da tarde). Mas só há poucos anos é que consegui travar conhecimento com algumas delas.
Neste momento, já tenho um conhecimento muito razoável dos cinemas lisboetas (que não dos seus arredores) mais frequentados. Estou em dúvida se a primeira vez em que entrei numa sala de cinema em Lisboa terá sido nesse clássico dos anos oitenta chamado Amoreiras, ou se no mais recente, asséptico e descolorado Alvaláxia. Pelos outros já lá passei, com excepção do Colombo. Assim, conheço a confortável sala do Monumental, herdeiro directo do magnífico edifício que um crime administrativo e burocrático derrubou, além do seu apêndice mais banal do outro lado da rua, o Residence; já passei pelo do Vasco da Gama; o King, mais voltado para um nicho que dificilmente se encontra noutras salas; o mais recente de todos, o Campo Pequeno, muito bem apetrechado e com qualidade, mas com aquela horrível decoração rococó infantil, com bonecada em toda a parte, salas de cor vermelha, etc, coisa que detesto (sala que é sala deve ter uma cor sóbria); e o Londres, o meu favorito, um dos poucos cinemas de Lisboa fora dos multiplexes, com aquelas cadeiras que se afundam, boa programação, intervalos, e um simpático bar-restaurante à entrada, ao qual não faltam poltronas e jornais. Ah, julgo que terei ido uma vez ao Nimas, antes de se transformar em "espaço multifuncional".


Mas as salas de Lisboa foram muitas mais do que as que estão agora circunscritas nos shoppings. Algumas pesquisas na net e alguns passeios permitiram-me saber de algumas. Assim, sei que no jardim do Campo Grande havia um cinema, o Caleidoscópio, perto do lago dos barcos, num bizarro edifício colorido como um mandril, que incluía restaurante e lojas, onde parece que depois funcionou uma discoteca; em todo o caso, está fechado.
O primeiro cinema com várias salas de Lisboa foi o Quarteto, perto da Avenida dos Estados Unidos da América, nos anos setenta. Projecto de Pedro Bandeira Freire, encerrou há dois anos, por deficiências várias, depois de uma série de vistorias; o seu mentor sobreviveu-lhe apenas alguns dias. Tinha ainda outra sala, o Quinteto, perto do Saldanha, que efectivamente ainda exibe filmes, mas apenas porno.
Entre os cinemas de bairro havia o Roxy, na Av. Almirante Reis, perto do Intendente, num edifício de esquina dos anos vinte com uma característica cúpula, hoje em dia algo abastardado, servindo de centro comercial de gosto duvidoso. Toda essa zona, aliás, tem prédios notáveis, mas degradados e corrompidos da sua beleza original.


Em Arroios há um enorme edifício pintado às listas verdes à la Vitória de Setúbal; era o antigo Pathé, que antes se chamou Imperial. Como cinema fechou nos anos oitenta, antes de se tornar discoteca, e de encerrar definitivamente, sem qualquer outro uso conhecido. Segundo me disseram, igual percurso teve o Jardim Cinema, na Avenida Álvares Cabral, que tinha sessões ao ar livre, mas hoje em dia é um espaço comercial. Tem uma interessante fachada que ainda subsiste. Na Graça, o cinema Royal, construído para os bairros vizinhos, é hoje em dia um supermercado, mas os sinais exteriores mantêm-se.
Na Baixa, hoje sem qualquer sala de cinema, há ainda vestígios gloriosos. O Animatógrafo do Rossio, na rua que dá acesso à praça pelo arco, é talvez o mais antigo de Lisboa, e um dos mais interessantes, arquitectonicamente falando; quis o destino que se tornasse numa sex-shop...Mais adiante, e por incrível que pareça, o belo edifício neo-manuelino da estação do Rossio albergou um cinema, o Terminal. Do outro lado, entre as Portas de Santo Antão e a Avenida da Liberdade, pode-se ver o Politeama, hoje o teatro de La Feria, o Condes, transformado em Hard-Rock, e o Odéon, um belíssimo edifício em Art Deco e com posteriores "caixilhos" metálicos, que tinha uma cervejaria no piso térreo, mas que, para não variar, se encontra fechado e sem uso, com os seus materiais a degradar-se (e o interior, ao que parece tão notável quanto o exterior, também, adivinha-se).


A meio da mesma Avenida da Liberdade situa-se o Tivoli, da autoria de Raul Lino, outro encantador edifício, com a marca visível do arquitecto, mas que deixou de exibir filmes; mantém-se contudo como teatro.
Depois, há os grandes cinemas erguidos durante o Estado Novo. Já falei no malogrado Monumental, sucedido pelo monstro de vidro que hoje se pode ver no Saldanha. Em frente ao Tivoli surgiu o enorme S. Jorge. Depois de alguma decadência, a câmara de Lisboa comprou-o. Tem tido uso frequente, nomeadamente festivais e mostras de cinema. Ainda hoje o tamanho da sala principal impressiona, com a sua majestosa plateia, ainda que tenha sofrido reduções. contas ainda com uma cafetaria e uma larga varanda sobre a avenida.
Umas centenas de metros abaixo, dominando os Restauradores, fica o sumptuoso Éden, inaugurado em 1937, com projecto de Cassiano Branco. Um edifício que impressionava quer pela sua localização, que pelo seu tamanho e beleza. Durante cinquenta anos, exibiu filmes, até que chegou o declínio, nos anos oitenta, e o abandono. Quando a câmara de Lisboa teve de decidir se mantinha o Coliseu dos Recreios ou o Éden, optou pela primeiro. A jóia dos Restauradores transformou-se num hotel, mas do mal o menos, conservou a majestosa fachada.


Outra exemplo do género era o Império, inaugurado em 1952, na Alameda D. Afonso Henriques, com o seu famoso café-restaurante na base, e uma outra sala, mais pequena, no topo. Era (e é) um prédio enorme, mas começou também a perder público, até deixar de ser cinema e ser adquirido pela IURD. Transformou-se assim em templo evangélico para catarses colectivas. O café tremeu, mas recompôs-se e tem um aconchegante café e um dos melhores bifes da capital, além do piso inferior manter a mesma decoração dos anos sessenta. Só faltam os bilhares que em tempos o tornaram famoso.
Na praça de Alvalade havia também um cinema, da mesma altura do Império. Seguindo mesmo percurso, acabou por ser demolido nos anos 2000, para aí se construir um bloco de apartamentos. Contudo, surgiu no mesmo local um novo complexo de cinemas, que do antigo só mantém o nome e o painel da entrada, de Estrela Faria, conservado com alguma dificuldade mas reposto no lugar que lhe cabe por direito histórico. Do outro lado da praça, o Centro comercial de Alvalade também tinha duas salas, mas com o declínio destes espaços comerciais de média dimensão também essas encerraram.
E no meio da Avenida de Roma há o antigo cinema com o mesmo nome. a exibição de filmes é irregular e pontual, já que a função desta auditório é hoje a de servir de Assembleia Municipal de Lisboa. Uma função nobre, mesmo não sendo a original.
Para acabar com esta exaustiva volta, os cinemas de Campo de Ourique. Entre este bairro e a Estrela havia o Paris, uma bela casa que hoje em dia é uma ruína com paredes, num estado de degradação pungente. Muitos o querem salvar, mas o edifício dos anos trinta lá está, a cair aos poucos.
A meio de Campo de Ourique está o cinema Europa, de fins dos anos cinquenta, e que esteve activo menos de trinta. um belo exemplo modernista, mas cuja sorte é incerta. Houve várias tentativas de reconversão do imóvel em "espaço cultural", mas as últimas notícias dão conta da sua demolição para breve, ficando apenas de pé a parte mais relevante da fachada. Se é esse o não o seu destino, ignoro.



Mas para um guia mais seguro e completo, podem sempre ver aqui e ficar com uma ideia mais clara do que é, ou era, a vida cinéfila de Lisboa
Em Marselha o nome Benfica provoca arrepios

A história repetiu-se, mas só parcialmente: o Benfica tornou a reverter um resultado negativo obtido na primeira mão contra o Marselha, desta vez em pleno Velodrome, sem "mãos de Vata" (aliás com claras razões de queixa da arbitragem), mas com nova bomba de Maximiliano Pereira. Um jogo de raiva, de garra e de querer, mas também de superioridade técnica e táctica, em que o Benfica, mesmo quando sofreu um golo contra a corrente do jogo, veio para a frente e alcançou a vitória no momento mais feliz, com um golo cruzado do improvável Kardec, para delírio de dois mil portugueses presentes. Os provençais, comandados por Lucho Gonzalez, ficam assim de fora da prova. Este novo encontro com o Benfica revelou-se fatal uma vez mais para as suas aspirações.

Aqui há uns anos falou-se de um atacante argentino, chamado Maxi Lopez, conhecido como "Super Maxi", para vir para o Benfica. O Barcelona desviou-o pela cominho, mas o "super" nunca conseguiu demonstrar o porquê da alcunha. Desconfio que era uma manobra de diversão, e que o verdadeiro Super Maxi só veio depois, e que o seu apelido é Pereira.

Como ironia cruel, no mesmo dia em que é alcançado esta difícil e épica vitória, morreu aos noventa anos Julinho, o jogador do Benfica que marcou o golo decisivo na final da Taça Latina de 1950. Falo em "ironia cruel" porque o adversário era igualmente francês: o Bordéus, grande rival do Marselha.

E já agora, Vata faz anos hoje...

terça-feira, março 16, 2010

Quando se revelam os guardiões da liberdade

A norma interna aprovada em congresso é já conhecida como "lei da rolha do PSD", como não podia deixar de ser. Regras que penalizem candidatos que apoiem outras formações contra o seu partido são compreensíveis e justificadas. Mas este ridículo acrescento que proíbe qualquer crítica ao líder antes das eleições não lembra ao diabo. Lembrou a Santana Lopes, na sua ânsia de "controlar a balbúrdia". Os candidatos à liderança pronunciaram-se, e bem, contra uma regra que além de amordaçante é também ambígua e oca (caberão nela todas as críticas? E as veladas, como determiná-las?). Já Manuel Ferreira Leite, a grande opositora da "asfixia democrática", acolheu-a sem problemas. Para quem apareceu como grande combatente pela liberdade de expressão não deixa de ser uma péssima e recta final de liderança, penosa e sem réstia de credibilidade. Também gostava de saber o que pensa disto o teórico da última campanha do PSD, mas parece que as suas prioridades vão para o Magalhães.
Entretanto, e em nome do PS, Vitalino Canas classificou a nova regra do PSD como "estalinista", isto "trinta anos depois do 25 de Abril". Eu não sei a que vem o estalinismo relacionado com a data, até porque não era bem isso o que vigorava antes - quanto muito, alguns quiseram que vigorasse depois. E também não sei que raio é que o PS tem a ver com normas internas de outros partidos; pretenderá controlar igualmente o seu funcionamento interno, tal como muitas outras coisas? E as inclinações perante o "Grande Líder" Sócrates, o seu culto pronunciado da personalidade, ou as reacções dos pitbulls de guarda, tipo Lello, quando há a mais pequena crítica ao secretário-geral, não são estalinismozinhos desfocados?

quinta-feira, março 11, 2010

O regresso do Olympique

A última visita do clube que hoje vai medir forças como o Benfica na Luz tem sido intensamente recordada pela célebre "mão de Vata", na velha catedral, regurgitando público, que permitiu ao Glorioso ir à sua última final europeia, que perderia para o invencível Milan de Arrigo Sacchi. Na altura o Marselha era presidido pelo controverso Bernard Tapie, o empresário e político que gastou milhões para formar uma equipa com os melhores jogadores franceses e um naipe de estrangeiros, para assim dominar o futebol gaulês e medir forças com os grandes da Europa. Há que reconhecer que conseguiu. O OM venceu cinco campeonatos franceses e logo em 1990 chegou às meias finais da Taça dos Campeões, onde cairia perante o Benfica. No ano seguinte, chegou à final da prova, mas perdeu em Bari nas grandes penalidades, e o mais desejado troféus ficou para o Estela Vermelha de Belgrado, última alegria quando na Jugoslávia já se anunciava a auto-destruição. E em 1993 ganhou mesmo a Taça, e logo ao Milan, com uma equipa onde pontificavam Barthez, Voller, Deschamps e Boli, que marcou o único golo. Ironicamente, um dos jogadores mais carismáticos que passaram pelo estádio Vellodrome, Jean Pierre Papin, estava do outro lado, e não pôde comungar da alegria dos ex-companheiros. Também Mozer já voltara ao Benfica, sendo talvez o mais infeliz dos finalistas de Taças.

Depois, o descalabro: corrupção, situação financeira caótica e irregular, a saída dos craques, a descida à segunda divisão e ao inferno. Com a saída de Tapie, o clube voltou aos poucos à tona, indo mesmo a duas finais da Taça UEFA, que perdeu para Parma (1999) e Valência (2004).


É curioso comparar o percurso dos dois clubes em confronto e reparar que os anos piores andaram quase a par. O Marselha desceu dos céus aos infernos em 1993, e apesar de alguns momentos altos, jamais voltou a ser campeão, mas tem agora um conjunto de jogadores interessante, começando em Lucho. O Benfica atravessou maus anos após o título de 1994, voltou a ser campeão e a fazer boas provas europeias em 2005 e 2006, e mostra agora uma força e uma forma de jogar que há muito se lhe não viam.

Além disso o Marselha é igualmente um clube muito popular, e tem a esmagadora maioria doa adeptos do Sul do país. Quando passei em Marselha, por toda a parte via símbolos do clube. A cidade provençal é muito virada para o futebol e venera o seu Olympique. Raramente vi tão grande culto a um símbolo desportivo como aí. No OM café, situado na parte mais visível da cidade, onde a Cannebière desagua no Vieux-Port, os seus empregados recordaram-se da meia final com o Benfica (sem ressentimentos), das festas do regresso do clube aos títulos e da conquista da Taça dos Campeões, onde se viram as maiores loucuras, e ficaram sinceramente espantados quando lhes disse que o clube comandado por Mourinho que pouco tempo antes ganhara esse mesmo troféu ao Mónaco era o Porto, e não o Benfica (sim , achavam mesmo que o Benfica tinha sido campeão europeu naquele ano!). A sua grande tristeza parecia ser a de que o dilecto filho da terra e do clube jamais lá tivesse jogado como profissional. Referiam-se a Zinedine Zidane, obviamente.


Neste jogo vão-se confrontar o clube mais popular de Portugal e o mais popular de França, o Ródano e o Tejo, a "bouillabaisse" do Vellodrome a o "Inferno da Luz", o maior porto do Mediterrâneo e o espírito atlântico, a (enorme) minoria árabe e o sangue de origem sub-sariana. Enfrentam-se duas equipas de ataque, Saviola, Cardozo, Aimar e David Luiz, contra Lucho González, Niang e Mandanda (mas não Heinze), perspectivando um grande jogo. E esperemos que o espírito que Mozer descreveu e que atemorizou os provençais se repita, assim como a sorte na eliminatória, mas que as mãos na bola fiquem lá, em 1990.

terça-feira, março 09, 2010

Óscares 2010

Os Óscares deste ano passaram sem que lhes tivesse dado grande atenção, por várias razões. Uma, é que vi poucos filmes nomeados; só mesmo Invictus e Nas Nuvens, que ainda por cima vieram de mãos a abanar. A outra é que não pude dormir menos para acompanhar a cerimónia, e só soube dos resultados no dia seguinte.

Não tendo visto a incursão iraquiana de Kathryn Bigelow, nem sabendo se vou ver, acho bem que tenha ganho o prémio de realização (julgo que é a primeira mulher a consegui-lo, o que assenta que nem uma luva no Dia Internacional da Mulher), por causa da sua curta mas interessante carreira, impulsionada por Ruptura Explosiva, outro filme que me lembro de ter visto no cinema Charlot(vide posts anteriores), e porque o seu ex-marido, Mr. Cameron, já tinha uma estatueta dourada em casa. e ainda acumulou com o prémio de Melhor Filme e mais uns quantos.


De Sandra Bullock acho bizarro: sem a achar uma canastrona, e considerando que tem um belo palminho de cara, nunca a vi como actriz para estas andanças. Mas às vezes algumas interpretações surpreendem-nos. Gostava era que um dia se lembrassem que Meryl Streep não é apenas nomeada todos os anos para fazer figura de corpo presente e lhe dessem enfim um segundo Óscar, depois das 1352 nomeações sem consequências. Se Hillary Swank teve dois, porque é que a grande Meryl não há de ganhar também? Ainda por cima os apresentadores da cerimónia são os seus consortes na sua última comédia...


Gostei muito de saber que Jeff Bridges tenha sido galardoado com o prémio de interpretação, mesmo que por um obscuro filme que nem deve saír em sala por cá. Um actor com uma respeitabilíssima e tão sólida carreira como Starman, Tucker ou Big Lebowsky, entre outros, e com várias nomeações anteriores, já merecia ganhar este galardão.



Para os escalões de actores secundários ganhou uma comediante num filme dramático (coisa que a Academia aprecia muito) e o austríaco que interpreta o diabólico coronel alemão do tarantinesco Inglorous Basterds, um papel a todos os títulos notável, como garantem muitos.

Entretanto, Avatar, a megalómana obra de James Cameron, que tem batido recordes de bilheteira, ficou apenas com um ou outro prémio de terceira categoria. Se atingiu Titanic nas receitas, ficou muito aquém na avaliação crítica de Hollywood. Com algum desgrado meu, diga-se. É que tenho tentado apanhá-lo nos fins de semana (únicos dias em que se podem assistir às suas quase trÊs horas sem grandes pressas), e ou está esgotado, ou há problemas técnicos. Se no início não estava para aí inclinado, agora tenho um real interesse em vê-lo em 3D. Com este desaire, o filme que "é como o Danças com Lobos só que com estrunfes", segundo a definição de Bruno Aleixo, arrisca-se agora a não ficar muito mais tempo nas salas. E não pensem que vou perder tempo a procurar o DVD: um ecrã de cinema é sempre diferente, e há coisas que só ali se revelam, inventem o que inventarem. E em 3D, parece que ainda é mais.


sábado, março 06, 2010

Uma volta pelos cinemas do Porto

Se há dias fazia referência a alguns cinemas localizados na zona da Boavista, é agora altura de recordar as salas do Porto.

O panorama cinematográfico da cidade onde nasceu a Sétima Arte em Portugal era até ao momento desolador. Digo "era" porque ao que tudo indica o novo pólo da cinemateca é mesmo para avançar este ano, na Casa das Artes, coisa que agradeço particularmente. E também por causa de uma reabertura recente. Mas quanto ao resto, permanece a desolação. O que sobra são as tais quatro salas do Cidade do Porto, as do Dolce Vita , nas Antas, e o pequeno estúdio do Teatro do Campo Alegre. Longe vão os tempos em que via passar a programação na Canal 2, e me espantava pelo facto de haver pouco mais de quinze salas no Porto, comparadas às mais de quarenta de Lisboa. Precisamente por há dias falar dessa recordação, e por causa do post sobre os espaços comerciais, é que abordei este tema.

Já falei no Charlot, o cinema da Brasília, sempre com imensa gente. Lembro-me de ter assistido a o primeiro Batman de Tim Burton. Mais adiante, na subida de Júlio Dinis, perto do Palácio de Cristal, havia o Pedro Cem. Também nesse assisti a muitos filmes, e se não me engano o último terá sido O Carteiro de Pablo Neruda, numa época em que ia pouco ao cinema.
O melhor de todos era o Foco, surgido nos anos setenta, que acabou por dar o nome ao Graham, urbanização onde se situava. Este bairro, entre a Avenida da Boavista, a VCI e o Bessa, obedeceu a um planeamento quase perfeito, com blocos de apartamentos de boa qualidade, galerias comerciais com inúmeras lojas, um supermercado, pubs, cafés e restaurantes, as piscinas, o hotel Tivoli, a igreja e, claro, o cinema. Arnaldo Saraiva faz algumas descrições interessantes da zona e dos seus habitantes no seu livro O Sotaque do Porto. Simplesmente, o hotel Tivoli encerrou, as piscinas há muito que estão fechadas, e o cinema, com as suas cadeiras que se afundavam, também já não está activo. Recordo-me de lá ir a um sarau universitário de tunas, em 1996 ou 1997, e depois disso, mais nada.


Mas a minha memória dos cinemas portuenses não se fica pela Boavista. Na Baixa havia o Lumière, com duas salas, muito procurado por isso mesmo. Sempre que lá ia com amigos, e se me despedia à saída, aproveitava para dar um salto à Leitura, ali ao lado, e percorrer a extensa colecção de banda desenhada que havia no primeiro andar. Mas também as salas do Lumière acabaram por fechar. Durante anos, as galerias comerciais onde se situavam serviam de mero ponto penumbroso de passagem entre ruas, com uma ou outra loja de filatelia e coleccionismo. Com a recente vaga de movida da Baixa, as galerias converteram-se em bares com luzes psicadélicas, e o espaço ganhou nova vida, principalmente à noite. Mas o cinema não reabriu.


Mais cima, e bem no centro da cidade, havia o Trindade, também com duas salas, mas mais antigo e vetusto. Nesse recordo-me de ver pelo menos o Philadelfia. Julgo que o edifício acolhe o bingo do Salgueiros, mas não sei se ainda promove algum tipo de espectáculo.


No centro havia também o Sá da Bandeira, que partilhava o palco com o teatro de revista e outros espectáculos ao vivo, e que em matéria de cinema está reduzido aos filmes porno. Mais acima, o Passos Manuel, inserido no Coliseu, voltou depois de longo fecho a exibir sessões de filmes recentes em reposição, mas julgo que está de novo inactivo. E ainda mais acima, na Praça da Batalha, duas jóias de períodos distinto: o Águia de Ouro e o Batalha. O primeiro é uma reminiscência em Art Deco, durante anos uma sala de prestígio, hoje uma fachada tapando ruínas; já tem futuro, e será convertido em hotel low cost, encerrando para sempre a sua função de casa de espectáculos. O Batalha é um sumptuoso edifício modernista dos anos quarenta, que reabriu há poucos anos, com espaço de bar e restaurante. Sei que tem uma imensa sala de cinema, mas penso que só esporadicamente, em festivais ou homenagens, exibe filmes.



















Depois há os cinemas que nem sei exactamente onde ficam, como o Terço, e ou o Vale Formoso, perto da Arca d´Água, com uma arquitectura também dos anos quarenta, e que só vi transformado em templo da IURD (um destino comum a salas abandonadas).

Outras jóias esquecidas haveria, na Foz, no Bonfim ou na Baixa, mas desconheço. No entanto, este é um pequeno guia que permitirá descobrir algo mais.

Mas o cinema que mais frequentei, e provavelmente o primeiro, era o Nun´Álvares, na rua de Guerra Junqueiro. Vi dezenas e dezenas de filmes nessa pequena mas acolhedora sala, forrada a azul, até ao último dia. Foi a última a fechar na cidade, sem ser em multiplex. E é daqui que vem a esperança: há anos falei do fecho do Nun´Álvares; pois agora voltou a reabrir, exactamente tal como estava, e já lá pude ver o Invictus.

E boa hora, este regresso, assim como a notícia da concretização do pólo da Cinemateca. A ser assim, ainda há esperança para o cinema na cidade de Aurélio da Paz dos Reis, Manoel de Oliveira e da Invicta Filmes.

quarta-feira, março 03, 2010

Agradecimentos

A gratidão é uma das virtudes mais apreciáveis. Mesmo quando exprimida por transportes públicos.

segunda-feira, março 01, 2010

A Brasília (e outros espaços fora de uso)

Há tempos deambulei pelo shopping Brasília, na Rotunda da Boavista, do lado oposto ao da Casa da Música, que de certa forma o substituiu como ex-libris daquela praça (depois da coluna central evocativa da Guerra Peninsular, como é evidente). O velho centro comercial completou trinta anos em 2006. Em 1976 era uma novidade em plena Rotunda, com as suas inúmeras lojas, as vidraças verdes, e sobretudo as escadas rolantes, uma inovação da época. Quem quer que se prezasse ia ao (ou, como eu sempre disse, "à",) Brasília, onde não faltava movimento, tanto de dia como de noite. Além das escadas havia também a meio do centro uma escadaria de degraus metálicos, imponente e espaçada. Tinha saída lateral para a Rua da Boavista - onde estava o cinema Charlot - e algumas lojas emblemáticas, como a Lira, versada em música clássica, que, pelo que me pareceu, ainda existe, e uma Bertrand que juntamente com a do shopping Bom Sucesso encerrou para reabrir a umas centenas de metros, na Júlio Dinis.



Como acontece frequentemente hoje em dia com este tipo de espaços comerciais, a Brasília deixou-se escorregar para a decadência e passou a albergar meia dúzia de lojas convencionais, um ou outro snack, e muitas lojecas de indianos, além de uma ou duas especialistas em BD underground e outra de artigos para góticos (e não estou a falar de arquitectura). Poucas são as pessoas a circular. O ambiente de passado e de paragem no tempo paira em toda a parte. Há outros no Porto, como em Lisboa (um bom exemplo aqui será o de Alvalade), mas pela sua dimensão e passado, este é o mais impressionante. E mais abaixo, na Avenida da Boavista, lá está o prédio do Dallas, espelhado a vidro castanho escuro, de que ainda me lembro com imensa gente nos Sábados à noite, iluminado, labiríntico, com lojas de tudo e mais alguma coisa, e onde ao que parece chegou a haver planos para salas de cinema. Depois de um período em que se tornou espaço para discotecas africanas e alguma violência urbana, cerrou as portas até hoje.

O sucedâneo natural e local desses espaços comerciais (e do Parque Itália, que recentemente sofreu remodelações e cujo terreiro à sua frente, parecido com o da Casa da Música, é uma autêntica pistas de skate) é o ciclópico e inestético Cidade do Porto. Construíram-no num espaço em frente ao Bom Sucesso (onde, segundo me contaram, nos anos oitenta pastavam vacas), em plena Boavista, aí por meados dos anos noventa. O seu tamanho é já um marco de orientação, mas até hoje nunca me habituei muito a ele. O seu interior pretensioso, com imitações de mármores e corrimões dourados, que já teve na base uma pista de gelo, tresanda a novo-riquismo. Talvez seja o grande responsável pela decadências dos outros espaços comerciais. É certo que tem algumas lojas interessantes, como a Leitura, ou outras, e quatro das pouquíssimas salas de cinema que há no Porto. Mas se pudessem ser transplantadas para outro sítio, aquilo depressa perderia o interesse.

Convém não esquecer que aquele mastodonte azulado violava o PDM aquando da sua construção (o que se previa para local era um espaço verde, além das distâncias das cérceas também não terem sido cumpridas). Em 2007, os tribunais administrativos emitiram uma sentença de nulidade da obra e ordenaram a sua demolição, que deverá ser efectiva se até 2011 não se elaborar novo PDM que o regularize.

Pela minha parte, seria melhor que a Câmara do Porto não o contemplasse no novo plano. Era a maneira de deitar aquilo abaixo e de se repovoar os esquecidos espaços comerciais da zona, tirando o espaço fronteiro, o Península, que não precisa disso. Desse modo, o Brasília ganharia nova vida e novos espaços, e com o Parque Itália formaria uma zona comercial bastante extensa e interessante, que tornaria a Rotunda e a rua Júlio Dinis na artéria de comércio por excelência da zona de ligação da Boavista à Baixa. Com alguma sorte, faria um eixo complementar com a zona de Miguel Bombarda, que fica ali mais para trás. A Leitura ficaria com novo espaço na Rotunda, e distribuir-se-iam as quatro salas de cinema do Cidade do Porto pelos espaços próximos que foram fechando: o Charlot, o Pedro Cem e talvez o Foco, outrora a melhor sala do Porto, e que tanta popularidade ganhou que deu o seu nome à zona residencial circundante.


E quem sabe, se para isso ainda houvesse oferta, se o Dallas não poderia reabrir novamente. Não é propriamente uma ode à beleza arquitectónica, mas dá alguma dor de alma ver aquele edifício castanho espelhado com as portas acorrentadas e completamente desperdiçado, com os seus corredores labirínticos entregues ao pó.


Quanto ao espaço do Cidade do Porto, ficaria um jardim, para amenizar o trânsito da zona, harmonizar o espaço e deixar de esmagar a capela e a Casa Agrícola, que lhe estão pegadas, a escola de trás, e todo, mas todo o espaço envolvente em geral, num raio de trezentos metros.