segunda-feira, dezembro 27, 2010

Duas gerações de Harlan



Já passou algum tempo, mas a notícia da morte de Thomas Harlan, em Outubro passado, num sanatório da Baviera onde já se encontrava há uns anos, só foi anunciada semanas depois e passou despercebida. O nome não será dos que mais facilmente virá à memória. Harlan era um realizador alemão, politicamente engajado na extrema-esquerda, que depois da 2º Guerra e de servir na Kriegsmarine, estudou em Paris e tornou-se amigo de Klaus Kinsky, mais tarde o actor fetiche de Werner Herzog. Viajou pela Polónia, atrás de nazis fugidos, por Itália e por inúmeros países, dentro e fora da Europa, onde colaborou com diversos movimentos de extrema-esquerda. Como tantos outros intelectuais esquerdistas, não perdeu a oportunidade de vir a Portugal em 1975 (na altura um destino turístico para activistas do gênero) para observar, estudar e filmar algumas acções mais simbólicas do PREC. Acabou por realizar um documentário sobre a ocupação das terras do Duque de Lafões, perto da Azambuja, por trabalhadores agrícolas, no processo de colectivização de latifúndios, documentário esse que ficou conhecido como Torre Bela, e que teve exibição comercial entre nós apenas em 2007. Na altura, algumas cenas de um realismo burlesco acabaram por ganhar alguma notoriedade, como a da "comprativa". A ocupação terminaria algum tempo depois, mas o filme tornar-se-ia um bom testemunho dos loucos meses do PREC.

Porém, a notoriedade de Thomas Harlan não se fica pela sua obra ou militância. Esta será antes um complemento dos antecedentes familiares. O seu pai era também ele realizador de cinema. Mas ao passo que o filho era activista da extrema-esquerda, Veit Harlan terá sido o mais famoso cineasta do III Reich, a par de Leni Riefenstahl. A autora de O Triunfo da Vontade ficava com o quinhão onde se difundia a glória e superioridade da "raça ariana", enquanto Harlan se encarregava do cinema "negativo", ou seja, da propaganda contra as "raças inferiores", particularmente os judeus. Realizou o tristemente célebre Jud Süß, o expoente máximo do anti-semitismo filmado (todo esse processo foi narrado num filme alemão deste ano, que ignoro se terá distribuição comercial em Portugal, embora torça para que venha).


A família Harlan personifica os sentimentos radicais de duas gerações alemãs. A do pai aderiu ao Nacional-Socialismo e colocou-se à sua disposição, oferecendo os seus talentos na depuração anti-semita. O filho, que conviveu de perto com altas figuras nazis, escolheu a barricada do lado oposto, abraçou as causas de extrema-esquerda, como tantos outros da sua geração (e alguns da seguinte, que nos anos setenta revelavam "simpatia" pelo grupo terrorista de Baader-Meinhof), que combatiam os resquícios da ideologia dos pais, tentando desinfectar a Alemanha de qualquer rasto de nazismo, e faziam-no recorrendo por vezes à violência armada, ao crime e à traição. Não sei se antes algum avô combateu nas trincheiras da Iª Guerra, mas em todo o caso os Harlan, com uma geração de extrema-esquerda sucedendo a outra de extrema-direita, são a face trágica da Alemanha dos últimos oitenta anos. Um e outro corresponderam a respostas desesperadas às catástrofes sofridas pelo seu país por responsabilidade das gerações anteriores. Nenhum o conseguiu. Acabaram por se confundir com o que de mais violento e fanático havia nas respectivas épocas no seu país. A morte discreta de Thomas Harlan dá-se numa altura em que os excessos de violência urbana dos anos setenta contra a próspera República de Bona foram esquecidos, e em que a Alemanha volta a afirmar-se como potência política, para a qual todos se voltam, e não já só económica.

sexta-feira, dezembro 24, 2010

A causa dos dias correntes

«Por aqueles dias, saiu um édito da parte de César Augusto para ser recenseada toda a terra.
Este recenseamento foi o primeiro que se fez, sendo Quirino governador da Síria. Todos iam
recensear-se, cada qual à sua própria cidade. Também José, deixando a cidade de Nazaré, na
Galileia, subiu até à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e linhagem de
David, a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que se encontrava grávida. E, quando
eles ali se encontravam, completaram-se os dias de ela dar à luz e teve o seu filho
primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para
eles na hospedaria. Na mesma região encontravam-se uns pastores que pernoitavam nos
campos, guardando os seus rebanhos durante a noite. Um anjo do Senhor apareceu-lhes, e a
glória do Senhor refulgiu em volta deles; e tiveram muito medo. O anjo disse-lhes: «Não
temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de
David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor. Isto vos servirá de sinal:
encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura.» De repente, juntouse
ao anjo uma multidão do exército celeste, louvando a Deus e dizendo: «Glória a Deus nas
alturas e paz na terra aos homens do seu agrado.»
Evangelho de S. Lucas, 2, 1 - 14




quarta-feira, dezembro 22, 2010

Voou


O divórcio entre o Benfica e Juan Bernabé e a águia Vitória é um caso triste e dispensável. Estive no jogo de Sábado e não imaginava que ao mesmo tempo se davam confusões envolvendo seguranças e advogados. E as versões das partes são contraditórias. O tratador diz que o impediram de entrar no estádio e que há "sportinguistas" infiltrados nos corpos dirigentes. A SAD afirma que o espanhol é que agrediu um guarda e que há tempos que vinha demonstrando "comportamentos menos próprios". Não sei quem está mais próximo da verdade. O que é certo é que o magnífico voo da águia Vitória, revelado há sete anos na inauguração da nova Luz, não voltará ao estádio. Diz-se que se vai contratar um novo tratador, que virá uma nova águia, etc. é possível, mas ainda falta tempo. E nunca será a águia original, aquela que voou sobre o estádio no seu primeiro jogo, contra o Nacional Montevideu. Muitas vezes vi esse número, com uma criancinha a fazer o chamamento de sempre ("Vitória, vem!"), e com os visitantes, particularmente os estrangeiros, estupefactos e deslumbrados. Numa ocasião, salvo erro contra a Naval, quando eu ainda estava a chegar ao estádio, alguma coisa assustou a ave, que esvoaçava em volta dos prédios vizinhos da Luz.
Ao que parece, o conflito estará relacionado com o facto de Bernabé ter oferecido os seus serviços a outros clubes que usam aves no símbolo, como a Lázio (ver vídeo abaixo) e Flamengo. Esperemos agora pelo sucessor, mas com saudades da original, e mágoa por este caso acabar assim.







PS: Pôncio Monteiro sempre me irritou, com o seu fanatismo e as suas tiradas despropositadas. Mas há que confessar que sem ele aquele pequeno Mundo tão mediatizado do comentário futebolístico televisivo fica muito a perder, sem o seu estilo inconfundível, as suas atoardas e a sua pronúncia com "zs". E recorde-se também o desaparecimento de Aurélio Márcio, um dos mais isentos e justos comentadores que me habituei a ouvir na rádio (assim reconhecido por todos), e um dos históricos fundadores de A Bola.

terça-feira, dezembro 21, 2010

De Yaoundé ao Monte Ararat

Apoula Edel é um guarda-redes nascido nos Camarões, que cedo se mudou para o Pyunik Yerevan, clube da capital da Arménia, e que depois de alguns anos se naturalizou arménio, passando a defender a baliza da selecção daquele estado do Cáucaso. Passou ainda pelos romenos do Rapid de Bucarest, antes de desembocar no Paris Saint-Germain. Actualmente é titular na equipa da capital francesa.


Dificilmente conseguirei encontrar melhor caso para exemplificar a globalização. Perfeito era que o keeper passasse ainda pelo Atletico de Cali, da Colômbia, pelo South Perth, da Austrália, antes de acabar a carreira no Qatar. Isso sim, era O futebolista global (ou sem pátria, se quiserem) por excelência. Mas assim como está já é bom.


Só mesmo o futebol, para nos mostrar arménios nascidos nos Camarões, que trocam a humidade do Equador pela sombra do Ararat. Também assim se comprova a beleza deste desporto.
A Esperança encontra-se até nas filas à chuva

Como em tudo na vida, há momentos de azar. Estar na bilheteira do estádio a apanhar chuva e perder dois golos dos nossos é um exemplo entre milhões de outros. Mas conseguir ainda ver outros cinco (três dos quais dos nossos) já é uma reviravolta da sorte, sobretudo se o bilhete estiver a preço reduzido. Não sei se isto contribui para a esperança do leitor destas linhas, mas a intenção também era essa. Afinal, estamos no Natal, e os sentimentos cristãos, como a Fé e a Esperança no Advento, são para ser invocados nestas alturas.

quinta-feira, dezembro 16, 2010

E assim aconteceu...


Além de grande promotor da cultura em Portugal, com o inesquecível Acontece (o tal programa que, segundo Nuno Morais Sarmento, o seu coveiro, custava tanto que "dava para pagar uma volta ao Mundo a cada português"), e de jornalista facilmente reconhecível, Carlos Pinto Coelho divulgou também as novidades da África lusófona, a sua paixão pela fotografia, e acabou por inspirar Carlos Filinto Botelho, uma das personagens mais antigas de Herman. Também por esse humor indirecto, mas não só, que descanse em paz e que não seja esquecido.


In dubio contra Assange

Falou-se tanto nestas últimas semanas sobre o WikiLeaks e o seu mentor, Julian Assange, que pouco ficou para dizer. Há opiniões contra, a favor e assim-assim. Falar de todo o caso tornou-se um exercício quase repetitivo. O que é que se pode dizer do fenómeno? Que tanto pode ser útil e realmente justo, como quando denuncia delitos praticados por estadistas, fraudes monumentais e crimes encobertos, como demagógico e perigoso, ao desvendar tudo quanto os diplomatas enviam nas suas missivas. Faz com que a tensão cresça desnecessariamente entre os estados. Os defensores furiosos do WikiLeaks referem a "hipocrisia" dos diplomatas; custa-me a crer que tenham sempre dito na cara o que realmente pensam das pessoas, que nunca tivessem dito nada de menos abonatório na ausência do visado ou que não se importem de ver a caixa de correio devassada.
Quanto a Assange, o homem do momento (e do Ano), é óbvio que a sua prisão por "delitos sexuais" não convence nem a velhinha do 3º Direito e é uma desculpa esfarrapada para o deter. Mas aquela face aparentemente calma desvenda um auto-intitulado profeta da informação verdadeira, uma espécie de pregoeiro messiânico da net, anunciando o pior dos tempos aos americanos, e apenas a esses. Alguém que acha que tem uma missão atribuída por sabe-se lá que divindade e a quer levar a cabo contra a Babel americana, desprezando a diplomacia e as relações internacionais. Esse homem, evidentemente, é um fanático. A maioria dos fanáticos messiânicos apresenta uma figura calma e uma voz melíflua (Hitler era uma excepção). Na dúvida, estou do lado contrário ao dele.
PS: ao menos o caso serviu para alguma coisa: por exemplo, para ganhar ainda mais consideração pelo actual MNE, que soube conservar as alianças sem deixar cair princípios básicos. Sim, falo dos voos americanos.

terça-feira, dezembro 14, 2010

Escatologia na porta da net
Há tempos, falava-se aqui da literatura escatológica de porta de casa de banho. Mas isso são marcas que se vão apagando com o tempo. A escatologia escrita (e a rasquice em geral) permanecem e até se expandiram, mas alojaram-se completamente em tudo quanto é fórum ou caixa de comentários da net. É ver para crer. As maiores taras, os ódios mais ressabiados, as frustrações mais dissimuladas, a estupidez mais incontroladas, acabam todas ali, em especial quando o assunto toca bola, questões de fé ou ódios ancestrais. Nisso o Sousa Tavares tem toda a razão.

segunda-feira, dezembro 06, 2010

Mais um disparate ultrapassado


A famosa "candidatura ibérica" suportada pelas federações futebolísticas de Espanha e Portugal perdeu. Ainda bem. Quando ouvi o nome do vencedor pela rádio fiquei satisfeito (mas não surpreso, porque nos corredores da FIFA já se sussurava que a Rússia tinha ganho). Como já aqui escrevi há mais de um ano, estava totalmente contra este projecto, pela mentira inicial - a de que serviria para aproveitar os estádios menos usados construídos para 2004 - pela subserviência a Espanha, como atesta a pouca importância votada aos recintos de Portugal, que nem o jogo inicial receberiam, e até o termo "ibérico", que conduz directamente ao país vizinho - e também pela razão moral de que se um país (neste caso, dois) atravessa uma grave crise financeira e económica, não se deve lançar em mega projectos desta natureza para o futuro. Além de que assim o TGV já pode ficar adiado sine die (o Mundial seria um bom pretexto para se avançar com a sua construção).


Ao mesmo tempo, já tinha tomado partido pela Rússia. A candidatura da Bélgica/Holanda já estava de fora, e os ingleses, como é tradição desde Francis Drake, fizeram uma autêntica acção de pirataria mediática, lançando através dos seus influentes jornais suspeitas sobre todos os outros candidatos. No fim, saíram pela porta pequena, e nem a presença do cómico Boris Johnson lhes valeu para que o football comes home. Terão de esperar mais uns anos antes de tentarem repetir a proeza concedida em 1966.

Assim, a velha pátria dos czares vai ser a anfitriã em 2018. Embora tenham organizado os Jogos Olímpicos de 1980 (os do ursinho Mischa, boicotados por meio mundo), não têm grande experiência na matéria, mas julgo que, ao contrário do que imaginam os perspicazes Zapatero e Sócrates, a causa da sua vitória é mesmo a possibilidade de um grande país ter a oportunidade de organizar um evento destes partindo do zero e erguendo novas infra-estruturas. Não precisaram de Putin nem de Medvedev na cerimónia para nada, e por via disso houve quem suspeitasse logo de subornos e rublodólares por baixo da mesa, não se sabe se com informações fidedignas ou se por inveja. Certo é que novos e grandiosos estádios surgirão em Moscovo, São Petersburgo e Kazan, com o apoio da Gazprom, e circular-se-à pelas imensas estepes entre estas cidades em comboios gratuitos (promessa da organização). Se não for antes, até pode ser um bom motivo para conhecer finalmente o país de Pedro O Grande.

sábado, dezembro 04, 2010

4 de Dezembro


A cada 4 de Dezembro, e mais ainda de dez em dez anos, é-se bombardeado com a memória de Sá Carneiro (e mais modestamente, Amaro da Costa). Discute-se se a tragédia que os levou se tratou de acidente ou atentado, milhentos barões e respectivos assessores falam na "herança de Sá Carneiro", mostram-se enésimas imagens dos amores felizes do fundador do PPD e de Snu Abecassis. Não vale a pena discutir essa avalanche, porque é uma fatalidade conhecida, e as fatalidades são imunes a qualquer discussão. Saúdam-se no entanto as novas biografias de Sá Carneiro, entre as quais uma reedição do livro de Maria João Avilez, muito embora a de Amaro da Costa me pareça uma obra epistolar que pouco revela da sua visão do Mundo. Mas podia-se então aproveitar para mudar boa parte da toponímia urbana que se apoderou de praças tão respeitáveis como a Velasquez e a do Areeiro. Dê-se o nome de Sá Carneiro a novos arruamentos e retomem-se os nomes originais (isto vale para o aeroporto de Pedras Rubras, cujo nome oficial parece uma brincadeira de mau gosto). Quanto a Amaro da Costa, julgo que não haverá grandes alterações a fazer, embora o Largo do Caldas seja conhecido assim por todos, a começar pelas gentes do seu partido. Mais útil seria recuperar o seu arquivo, perdido nalguma sede partidária do CDS do distrito de Beja, onde como se sabe, são às centenas...

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Ernâni Lopes 1942 - 2010


Desapareceu hoje, vitimado pela doença que já em tempos o apoquentara, o melhor Ministro das Finanças das últimas décadas, um dos poucos que não escondeu a situação caótica das contas públicas aos portugueses. Exerceu o cargo no mais impopular governo da III República, o do Bloco Central. Teve de recorrer ao FMI, adoptar uma autêntica política de austeridade e tomar medidas draconianas. Foram tempos atribulados, mas graças a ele e à entrada de Portugal na CEE, com os fundos subsequentes, seguiram-se anos de prosperidade e estabilidade como o país já não se lembrava. Cavaco Silva deve-lhe uma fatia de leão das suas maiorias absolutas pela trabalho realizado, mas lamentavelmente sempre o ignorou. Numa altura em que atravessamos uma grave crise financeira, económica e moral, não é apenas triste perdermos homens assim: é desolador.

terça-feira, novembro 30, 2010

Notas catalãs


Não haja dúvida que a Catalunha passa por dias animados, neste gélido início de Inverno. No Domingo, a velha CiU voltou a ser maioritária no parlamento regional e ocupará por certo a Generalilat. A experiência da esquerda tripartida à frente do governo não correu muito bem, e o PSOE pagou por isso, com muitos a verem o fim de um ciclo e a prever o princípio do fim do governo de Zapatero. Pior ainda ficou a Esquerda Republicana Catalã, reduzida a menos de metade pelas tolices do inenarrável Carod Rovira, e que ainda se viu ultrapassada pelo PP. Mais atrás ainda ficaram os comunistas e umas franjas de independentistas. Será que os anarquistas da CNT votaram em alguém?



Um dia depois, o motivo de todas as conversas: os cinco golos sem resposta do Barcelona ao Real Madrid. Jamais Mourinho tinha encaixado uma derrota por estes números (embora o resultado não seja inédito: basta recuar a 1994 e aos tempos em que Romário fazia levantar o Camp Nou), com um jogo avassalador da cantera culé sem hipótese de reacção dos merengues e de Cristiano Ronaldo, como sempre muito desacompanhado. Barcelona conseguiu por uma vez vingar-se do "tradutor", mas por muito abatido que este estivesse, desconfio que ainda vai virar as contas e retribuír a gentileza no Santiago Bernabéu, onde presumivelmente já contará com Káká. É não conhecê-lo e à sua capacidade de emergir.


Fica uma nota de uma ironia curiosa: a fustigada dupla de centrais do Real era constituída por Pepe e (Ricardo) Carvalho, precisamente o nome do detective criado pelo mais conhecido escritor catalão de livros policiais, Manuel Vazquez-Montálban, que chegou até a fazer parte dos corpos sociais do FC Barcelona. Nos histórias, Carvallo queimava livros; no relvado, a dupla homónima queimou a própria equipa. Se Mourinho tivesse estado mais atento à literatura contemporânea catalã, talvez a coisa não lhe tivesse passado em claro.

O exemplo do Banco Alimentar

O Banco Alimentar recolheu neste fim de semana mais de 3 mil toneladas de alimentos. Ultrapassou os recordes de sempre. Ese sucesso tem várias leituras possíveis: significa que, como se temia, há mais gente com fome a precisar de auxílio. Mas também que as pessoas, mesmo com mais apertos na bolsa, e sabendo das novas realidades do país, foram mais solidárias do que o costume. Em tempo de crise, é uma bela amostra de que a sensibilidade social não está por terra, antes pelo contrário. E quando tantos apregoam por maior intervenção da sociedade civil à margem (ou como complemento) do Estado, o Banco Alimentar é um exemplo maior desse tipo de intervenção, mostrando quão eficaz pode ser o apelo de uma instituição de confiança e sem segundas intenções, para acudir às reais necessidades do país e dos que estão na sua margem.

segunda-feira, novembro 29, 2010

Acabou o Contra


Acabou o Contra Informação. Durante mais de uma década, foi o mais verrinoso programa de humor televisivo, o mais subversivo, o mais inspirado. Os trocadilhos dos nomes dos bonecos eram sempre inventivos, e de lá saíram diálogos e situações brilhantes, como as célebres galas. Não havia figura pública que não estivesse representada, e houve mesmo quem se sentisse posto de lado por não ter o seu próprio boneco. Durante muito tempo era o programa televisivo que mais fazia questão de ver. Ultimamente, já vinha perdendo fôlego e imaginação, e estava reduzido a um discreto bloco semanal. Agora acabou, definitivamente. Pode ser que qualquer dia venha um substituto, porque o modelo está longe de estar esgotado (recorde-se que antes do Contra já tinha havido o Cara Chapada, na SIC). Certo é que a televisão portuguesa fica mais pobre. Ou melhor dizendo, ainda mais pobre, mais sensaborona e mais servil.

quinta-feira, novembro 25, 2010

Goa, quinhentos anos


Só mesmo a leitura ao fim do dia das habituais efemérides do suplemento P2 do Público é que me puseram ao corrente do facto histórico do dia: não, não são os 35 anos do 25 de Novembro de 1975, graças ao qual não ficamos sob o domínio de militares de aspecto cubano e gente demasiado excitada. São antes os 500 anos da tomada de Goa por Afonso de Albuquerque. Meio milénio decorrente da entrada do governador português, que já conquistara Ormuz, no território ao qual o seu nome ficaria indelevelmente ligado e que se tornaria no centro político, religioso e comercial da Índia portuguesa. Ali começou verdadeiramente a "conquista, navegação e comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia". Dali partiram as expedições que conquistariam Malaca e chegariam às Molucas, e também dali São Francisco Xavier iniciou a sua peregrinação pela Ásia. Goa cristianizou-se, ganhou traços arquitectónicos portugueses e, graças aos planos de miscigenação entre os indianos e os portugueses levados a cabo por Albuquerque, nasceu um novo sub-povo: os goeses. Goa pertenceu a Portugal até 1961, quando as muito mais numerosas forças da União Indiana ocuparam o território. Foram 450 anos, desde esse 25 de Novembro de 1500. Uma nova era da história de Portugal e do Oriente começou aí.

terça-feira, novembro 23, 2010

E assim passou a NATO por Lisboa

A NATO lá se reuniu em Lisboa sem problemas de maior e com promessas de reforma e de resolução de casos pendentes. É cedo para se saber se há possibilidade de salvar o Afeganistão das suas muitas ameaças com uma saída airosa (tanto uma como outro hipótese são duvidosas). Por outro lado, a futura cooperação com a Rússia promete desanuviar uma tensão nada desejável no leste da Europa e no Cáucaso e fortalecer ainda mais a aliança contra as novas ameaças globais - o Irão provavelmente entendeu a mensagem. Ver-se-à se Lisboa deste fim de semana ficará para a história.


Um qualquer habitante da cidade poderia passar à margem da Cimeira, desde que não vivesse (ou trabalhasse) na área do Parque das Nações ou não precisasse de usar alguma das vias condicionadas. Estive na capital nestes dias e tirando as entradas vigiadas do Vasco da Gama, restos de barreiras em Belém e de manifestantes no Rossio, nada vi de substancialmente diferente. Ao que parece, o controlo nas fronteiras funcionou bem (apesar dos protestos) e o temido Black Block não conseguiu fazer das suas. É bem possível que muitos dos retidos que se queixavam de não poder entrar no país e da sua "falta de democracia" fossem na realidade membros desse movimento que ocupa o tempo a partir montras e a montar coktails molotov. Mas a coisa seguiu sem problemas, mas revelando uma incrível e variada fauna, que o Miguel Castelo Branco reportou fotograficamente, para nosso gáudio e para deleite da sociologia. Ficamos mesmo a saber que Os Cinco, tão bem comportados e amigos da ordem e dos british values, enveredaram por maus caminhos e foram parar à prisão. Felizmente têm amigos que não se esquecem deles. Ou então eram eles as más companhias. Nunca se sabe.

sexta-feira, novembro 19, 2010

A terceira mais bela


A Livraria Lello foi considerada a terceira mais bela do Mundo pela Lonely Planet. Está longe de ser uma novidade, já quem em 2008 o Guardian deu-lhe o mesmo galardão, e a mesma posição. A diferença é que nessa votação era uma livraria holandesa, estabelecida numa antiga igreja, que estava em primeiro, e agora é uma americana, de S. Francisco. Em segundo permanece a de Buenos Aires, num antigo teatro (pelo que talvez a Lello seja a mais bela das construídas de raiz para a função).
Não é surpresa nenhuma, mas é um orgulho para o Porto e para Portugal. Agora só falta que a Lello se torne numa livraria realmente boa, e não apenas um alfarrabista onde também se compram livros novos, e que a disposição e organização também sejam aperfeiçoadas. Também teria a sua piada ver os livros transportados de novo naqueles carrinhos que circulavam nos carris de metal que ainda são visíveis entre o soalho do centenário estabelecimento.

Eis a Ateneo Grand Spirit, de Buenos Aires

E a nova campeã de beleza das livrarias, em S. Francisco. Pergunto-me quanto terão pago pela distinção, sabendo-se que destronaram a fantástica livraria que se vê em baixo, a Boekhandel Selexyz Dominicanen, de Maastricht.

quarta-feira, novembro 17, 2010

A república dos abutres
Não haja dúvida que esta comissão dos cem anos republicanos tem o dom da oportunidade...ou o vício do oportunismo. Tem razão o Nuno ao chamar a atenção para este disparate. Comemora-se a república homenageando Nuno Gonçalves? Mas no Séc. XV Portugal tinha sistema republicano? Terão confundido com Veneza ou Génova? E as personagens presentes nos Paineis de São Vicente (entre os quais D. Afonso V e D. João II), foram transmutados em figuras da 1ª república? Se a monarquia representava o "atraso", "as trevas", a "desigualdade", o "analfabetismo", os "privilégios de uma casta por causa do seu sangue", etc, etc, porque raio há da efémera (espere-se) comissão de Artur Santos Silva dedicar-se a exibir aquilo que considera serem defeitos de regime? Homessa! Se queriam exaltar a "ética republicana" que fossem mostrar obras dos últimos cem anos, em lugar de fazerem de abutres sem memória.
PS: o jogo particular da selecção portuguesa com a Espanha também se insere nas comemorações. Luminosa ideia, esta, de convidarem uma monarquia, que por acaso é somente a campeã mundial e europeia em título. Porque é que não chamaram antes a inspiradora Republique Française? Tiveram medo dos maus modos dos seus jogadores?

sexta-feira, novembro 12, 2010

Versão pós-1980.
Noutras situações seria um plágio ou um cover. Mas neste caso, que considerar? Trata-se da banda original, só que sem o seu carismático vocalista, e consequentemente com outro nome. Os Joy Division ficaram para trás, e os New Order, mais electrónicos, menos negros, interpretam um dos hinos que marcou a sua anterior encarnação, ao qual falta aqui a voz grave e algo cavernosa de Ian Curtis. Chamemos-lhe então uma versão, ou um cover, de per si.


quarta-feira, novembro 10, 2010

Cobardias e contrastes

Estranhos tempos, estes, e estranho continente, aquele em que habitamos. Vemos chegar o presidente de um estado que não permite a liberdade de expressão, de manifestação, que reprime as religiões e que comete um genocídio cultural sobre o Tibete (para não falar das atrocidades cometidas contra o seu povo por via armada). Quase ninguém se manifesta, e mesmo esses, aliás pacíficos, são afastados para a margem da margem.

No mesmo dia, um Papa é recebido em Barcelona com insultos, provocações e cartazes de protesto. Os opositores estão longe de ser uma multidão, mas os diversos órgãos de comunicação social dão mais ênfase a isso do que aos muitos mais que o acolhem. A viagem papal tinha o duplo objectivo de visitar Santiago de Compostela em ano de Xacobeo e de consagrar a Catedral da Sagrada Família como Basílica. A obra-prima de Gáudi, eternamente incompleta, é já o símbolo máximo da cidade condal, mas nem sempre os seus habitantes a respeitaram ou preservaram. Os anarquistas já foram a maioria em Barcelona, em alturas da guerra civil, por isso o seu anti-clericalismo já vem de longe. Os manifestantes que vimos nas imagens são descendentes da miscelânea de anarquistas, comunistas, trotsquistas, socialistas e demais republicanos que se juntaram um pouco contra natura para combater os nacionalistas de Franco (e entretanto, para se combater entre si). Coragem teve o Papa em passar entre fileiras de gente que o odiava, de um lado, e que o aclamava, do outro - uma boa metáfora da Espanha actual. A Sagrada Família (porventura a única verdadeira razão que me levaria àquela cidade) e mestre Gaudi mereciam-no, e a mensagem cristã, para ser espalhada, também exige coragem. Mas é espantoso como muitos vêem o Papa como uma real ameaça física, como se os Estados Pontifícios ainda existissem e tivessem a prerrogativa de organizar Cruzadas, a não ser que o vejam como uma ameaça no campo das ideias e de influência moral, e aí já lhes mais razão. Mas a prova do limitado poder terreno do Sumo Pontífice é exactamente o exibicionismo dos seus contestatários e os órgãos de comunicação social, mostrando-os até à medula, levados pelos airs du temps. Caso contrário, nem se atreviam a mostrar o nariz num raio de dez quilómetros. Como aconteceu com Hu Jintao, cujo regime foi olimpicamente ignorado por quase todos por mero temor reverencial e económico e em troca de alguns yuans. Com esses os "corajosos" apupadores do Vaticano não tugem nem mugem.