sexta-feira, julho 02, 2010

Clássicos à vista


Entretanto, os jogos dos quartos prometem. Um Brasil-Holanda é sempre apetecível. Em confrontos anteriores, os canarinhos levaram sempre a melhor, mas com enorme dificuldade, em jogos memoráveis (ainda me lembro do de 1994, com Bebeto a inventar uma nova forma de comemorar um golo). Depois, a única equipa africana em prova tenta pela primeira vez chegar às meias finais, mas pela frente aparece uma equipa que em tempos idos sagrou-se campeã mundial por duas vezes. Aliás, agora que Portugal não está em prova, já sei quem vou apoiar.


A escolha é simples: prefiro sempre os clássicos, e este clássico, campeão e anfitrião do primeiro Mundial, em 1930, tem apenas três milhões de habitantes e mede forças com grandes potências. Caso não se supere, o sucedâneo nas minhas escolhas é o seu grande vizinho de baixo, que mede depois forças com os panzers, esses velhos inimigos de finais que até os eliminaram há 4 anos, em penaltys. Será pois o gênio dos rapazes de Maradona contra as arrancadas letais da Mannschaft.

O Adamastor espanhol



Não passámos à fase seguinte, afinal. O adversário também não ajudava. Provou-se que a Espanha é realmente forte, e não o produto de um Campeonato Europeu ganho por mera felicidade. Esta selecção espanhola congrega uma grupo de jogadores que estão no auge das suas capacidades, e quererá mostrar isso aos habituais candidatos ao título mundial.
 

Cair nos oitavos de final perante a Espanha, com apenas um golo sofrido, e depois de se temer o pior na fase de grupos está longe de ser vergonhoso. O que me dá pena nem é a derrota em si, mas a absoluta incapacidade e falta de audácia para tentar dar a volta ao resultado. Portugal não só não atacou depois do golo de Villa como ainda podia ter sofrido mais. Valeu-nos um par de centrais competentes e com experiência, um lateral esquerdo irreverente e um guarda-redes gigante. Fosse a equipa constituída por 11 Eduardos e a história teria acabado de outra maneira.


A primeira razão do desaire é a Espanha ser uma equipa superior. A segunda, quase tão importante, é que Portugal não tem um técnico à altura do evento. Isso já se sabia, mas a passagem aos oitavos camuflou um pouco. Carlos Queiroz não tem autoridade nem consegue fazer alterações necessárias a meio de um jogo, sobretudo quando perde. Ficou provado (espero que definitivamente) que não é de maneira nenhuma um bom treinador principal. Desde a sua passagem pelo Real Madrid que se percebeu isso. A propósito, o treinador de Espanha, Vicente del Bosque, uma velha raposa do futebol, antecedeu-o como técnico dos Merengues, na complicada altura em que os Galácticos queriam sobressair. Ganhou dois campeonatos de Espanha, duas Ligas dos Campeões, uma supertaça europeia e uma Taça Intercontinental. Queiroz deixou a equipa em quarto lugar. Diferença pequena, não é?


Depois tivemos um Cristiano Ronaldo entre o abúlico e o desamparado. Pouco se viu, tirando o "golo de mochila" contra a Coreia e algumas bolas na barra. Fica como o craque desilusão do certame, ao lado de Rooney.


Por fim, há a razão do fado lusitano, desta vez bem personificado. O jogo realizou-se na Cidade do Cabo. No primeiro, o tal contra os norte-coreanos, Madaíl e Queiroz deixaram uma coroa de flores na estátua de Bartolomeu Dias. Uma acção de louvar, rara nestes meios. Mas imediatamente começaram as frases fáceis, como "vamos voltar a ganhar na Boa Esperança e dobrar o Cabo das Tormentas". Se se lembrassem da história, talvez não tivessem invocado o nome do Cabo em vão. Sim, fomos os primeiros europeus a arribar à zona, e Bartolomeu Dias ultrapassou o mítico obstáculo, abrindo o caminho para as Índias. Mas nunca haveria de lá chegar. Acompanhou Vasco da Gama na sua viagem até certo ponto, e em 1500, na expedição de Pedro Álvares Cabral, depois do desvio pelo Brasil, seguiu para Oriente. Ao passar o cabo, as tempestades afundaram quatro navios, entre os quais o de Dias, que pereceu ao largo do Cabo que tinha ultrapassado em primeiro, e que legaria o seu nome à história. As Tormentas com que o tinha baptizado foram-lhe fatais.

Também na nossa segunda passagem pelo Cabo, neste Mundial, acabamos por naufragar, e logo perante o velho adversário castelhano (bem guarnecido de catalães, é certo). A nossa carreira no Campeonato do Mundo teve um estranho paralelo com o destino de Bartolomeu Dias. Os Descobrimentos fazem parte da nossa História, mas o Adamastor pertence à nossa Mitologia, e agora apareceu com vestes castelhanas. Falta-nos é um Camões que reze esta nova e tímida gesta.

terça-feira, junho 29, 2010

Passemos à próxima fase
Passamos o grupo, e isso é que importava. Sem golos sofridos, sem perder contra o Brasil, com um bombardeamento intenso ao território de Kim Jong Il (que pena que não seja de metralha, com o "Querido Líder" à frente), a única dúvida a pesar na consciência é o que acontecerá aos pobres jogadores norte-coreanos.
Emergiram algumas revelações, como um super-sónico Coentrão (espero que não apareça nos próximos tempos algum clube a cobrir a sua cláusula de rescisão) e um super-seguro Eduardo.Queiroz ficou em boa parte reabilitado. O perigo é que se seguirmos em frente, ele pode muito bem continuar no seu posto. Se eu troco a vitória sobre a Espanha pela sua saída? Nunca na vida. Amanhã, o distintivo de campeão europeu em título do adversário é para esquecer; amanhã, só fica um representante da Península Ibérica, e tem de ser o do costa Oeste.

segunda-feira, junho 28, 2010

Notas do S. João 2010

Este ano voltei às folias sanjoaninas, depois de cinco anos de ausência da enorme festa popular. Entre os habituais martelos, os temíveis alhos-porros (um até me cravaram nos olhos!) e as estreantes vuvuzelas, que espero que tenha sido caso único, ficam algumas observações particulares:
- Na pista de helicóptero da Douro Azul, debruçados sobre o rio, entre música, inúmeros barcos e fogo de artifício, havia quem estendesse as suas canas, a pescar. É de pensar se naquelas circunstâncias haveria peixe nas redondezas. Mesmo a pesca amadora tem os seus fanáticos, que nem em plena noite de S. João pousam as canas.
- O coktail de martelos, vuvuzelas e gritaria no túnel da Ribeira é bastante mais ensurdecedor do que uma fila de camiões com música electrónica em altos berros no mesmo espaço. Pasmem, mas é verdade.
- Confirma-se que a ponte Luiz I abana quando é atravessada por multidões. Já me tinham contado que isso se sentia no tabuleiro superior, mas nunca pensei que o inferior oscilasse assim tanto. Quem já sentiu um sismo mediano (como o de Dezembro passado) poderá imaginar a sensação, com a diferença de que é por cima do rio. O tabuleiro inferior abana ao ritmo dos passos que nem um baloiço.
- Lembro-me, quando tinha 17 ou 18 anos, que já o sol se mostrava e havia ainda imensa gente nas praias da Foz. Este ano, no entanto, notei bastante menos pessoas dessa e de outras idades, embora o Molhe não estivesse propriamente vazio. Seria pela manhã encoberta, uma hora mais tardia do que pensava, ou estava simplesmente toldado pela nostalgia do S. João do passado?
Controleiros culturais
Nesta coisa da morte de personalidades ligadas à literatura há sempre episódios menos edificantes por razões extra-literárias. Se o artigo do Observatore Romano era infeliz, que dizer do que se passou com a proposta de voto de pesar pela morte de António Manuel Couto Viana, que antecedeu em poucos dias a de Saramago? O caso passou despercebido, mas Eduardo Pitta resume-o aqui: alguns deputados do PS apresentaram a proposta, mas retiraram-na depois da recusa e dos protestos do Bloco e do PCP com o pretexto de que tinha combatido na Guerra Civil Espanhola ao lado dos Nacionalistas (ou seja, quando era um adolescente). Não sei de onde vem essa desinformação; mesmo que fosse verdade, estou certo de tais partidos que aplaudiriam outrém que fosse veterano das fileiras republicanas (que também cometeram as suas atrocidades). O que é certo é que a mesma gente que se indignou com a ausência de Cavaco Silva no funeral de Saramago vem agora invocar razões políticas - e falsas - para recusar um mero voto de pesar a um vulto respeitável da poesia e do teatro. Um voto de pesar, note-se, não uma homenagem, ou dias de luto. Ficaram claros os argumentos culturais desta gente: se não pertencem à sua trincheira, devem ser esquecidos e ostracizados. É a velha tara marxista de que a arte será sempre um meio para atingir objectivos "sociais", nunca um fim em si. E ainda se atrevem a zurzir quem não se curvou perante Saramago. Mal estiveram igualmente os proponentes, que deviam ter insistido na votação. Mas bom será que este caso não caia no esquecimento, e que seja recordado o seu papel de controleiros culturais quando os excelentíssimos deputados bloquistas e comunistas invocarem qualquer "perseguição" a algum vulto do respectivo "sector intelectual".

quarta-feira, junho 23, 2010

Odiozinhos desnecessários


Entre as numerosas reacções da morte de Saramago, houve um pouco de tudo, desde as loas esperadas ou as comparações com Camões, até manifestações de maior azedume. A ausência de Cavaco parece-me pouco significativa. Talvez devesse lá comparecer, mas não vale a pena esbracejar, como o tentou fazer Louçã e uns quantos jornalistas, até porque na altura estava nos Açores. Chamou-me mais a atenção uma outra reacção e um contraste. O Observatore Romano comentou a morte do escritor de forma extremamente dura e amarga, referindo-se-lhe como "populista e extremista", de "ideologia anti-religiosa e marxista", sem "nenhuma admissão metafísica".

Bem sei que a relação entre o escritor e a Igreja era difícil e até hostil. Para além de alguns dos seus livros, ainda houve os constantes remoques de Saramago, como as picardias a propósito do seu último livro, ou quando disse, num acesso de primarismo, que "as religiões só serviram para dividir os homens". Nunca simpatizei particularmente com a criatura. Mas a Igreja tem como missão salvar as almas e espalhar a Boa Nova, procurar a conciliação e o perdão. Deve procurar que qualquer criatura humana atinja a salvação, mesmo que tenha tido toda uma vida contrário aos valores cristãos. Não é fazendo obituários ressentidos que dá o bom exemplo. Só consegue assim mostrar espírito vingativo e prolongar as querelas para além da morte do velho adversário. Para mais, numa altura em que o Papa tenta a reaproximação entre a Igreja e a Cultura, esta atitude atira por terra uma boa parte desse esforço, qual Sísifo ressabiado. Não é possível querer chegar aos agentes culturais atirando-se àqueles que a vituperam na hora da sua morte.

Em claro contraste com o artigo do jornal, a Igreja católica portuguesa, através do comunicado emitido pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, lamentou a morte do escritor, e muito embora recordasse as polémicas que com ele manteve, não deixou de o considerar um "grande criador da língua portuguesa e expoente da nossa cultura", aludindo ainda ao seu interesse pelo texto bíblico e a "vivacidade do debate" que daí decorreu. Não deixou que as suas amargas críticas se sobrepusessem à criação literária e à relevância artística do autor. Deu um salautar exemplo de cristinianismo - caridade, sensibilidade cultural, conciliação - que devia fazer pensar os jornalistas do Observatore Romano.

Bento XVI veio a Portugal também com o intuito de mostrar aos nossos prelados alguns exemplos de boa prática eclesial, universalidade do catolicismo e divulgação cristã, para além de discursos redondos e cerimoniazinhas sem nexo que por cá se vêem. Mas por uma vez, a Igreja portuguesa mostrou-se à altura de dar algumas lições a Roma. Que a aproveitem.

sexta-feira, junho 18, 2010

José Saramago 1922 - 2010
Morreu Saramago. É sim dúvida uma referência literária contemporânea, além de original, e que deve ser enaltecida por isso. Mas não façam dele, como já se ouve, o que manifestamente não era: um "combatente, toda a vida, pela liberdade". Sem esquecer, claro está, que uma referência literária não é necessariamente, uma referência moral. São aliás duas coisas que raramente se encontram numa mesma pessoa.
Ióiós
Eu disse no post anterior que o México era razoável? Acho que os subvalorizei. Ou então, a França, que perdeu 2-0 com eles, é que é bem pior do que se pensava. Os Mundiais dos gauleses são sempre uns autênticos ióiós: não se qualificam (1994, cortesia de Kostadinov), ganham a Taça (1998), são arredados na fase de grupos (2002), chegam à final (2006), voltam a desiludir (2010). Pelo sim pelo não, apostava neles para daqui a quatro anos.

quinta-feira, junho 17, 2010

Mundial


O Mundial começou, e até já entrou na segunda ronda. Não tenho seguido com o mesmo interesse de outros certames. O facto de ser em terras africanas não me dá qualquer acréscimo de interesse. Até acho que mo tira, e não é só por causa daquele infernal tubo de plástico que imita um enxame de vespas durante hora e meia. Se uma vuvuzela já é irritante, uns milhares ao mesmo tempo devem ser insuportáveis. é um dos preços a pagar por se querer levar este tipo de eventos a terras distantes. Os outros são algumas vergonhas, como manifestações de stewards por não serem pagos, e já nem falo da crónica insegurança daquele país.


Outro motivo de pouco interesse é a nossa Selecção, que continua a ser aquele bocejo com Cristiano Ronaldo a fazer que joga. Contra uma Costa do Marfim surpreendentemente bem organizada e com boa defesa (consequências de Mr Eriksson ou já era assim?), tivemos a sorte de Drogba arriscar pouco por causa do braço. As equipas de Queiroz continuam a ser a mesma coisa insípida e sem garra do costume, e sem Nani isso torna.se mais visível. Só um surpreendente Coentrão consegui agitar um pouco as laterais. Viu-se futebol a espaços, como se tem visto neste Mundial. Eis talvez o outro motivo para a minha falta de interesse. Quantos grandes jogos se viram até agora? E com tal escassez de golos, quantos registará o melhor marcador da prova? Parece-me que o facto de haver tantas selecções "exóticas", de que os senhores da FIFA tanto gostam, e que marcam presença como já não se via desde o Mundial de 1982, levam o jogo a esta pobreza franciscana. Se em Espanha 82 tínhamos coisas como o El Salvador e o Kuweit, agora temos as duas Coreias numa mesma prova, a Eslováquia, e os repetentes Nova Zelândia e Honduras.


Até agora, viu-se uma Alemanha digna do seu nome, uma Holanda a tentar imitá-la, ainda pouco certa do seu rumo, interessantes Coreia do Sul, Gana e Chile, e uma Argentina que com um treinador a sério daria cartas. Grandes desilusões até agora foram a Inglaterra e a Espanha, que por várias vezes ficou arredada mais cedo quando era considerada favorita. A Itália empatou com um complicado Paraguai, e os restantes adversários são fraquitos, por isso nem terá muito com que se preocupar.




Paradoxalmente, há um mesmo grupo onde as desilusões se misturam com as maiores emoções. Trata-se do Grupo A, que acolhe a anfitriã, o México, que me parece uma equipa muito razoável, a antiga campeão França e o outrora temível Uruguai. Um dos poucos jogos que segui foi precisamente o confronto entre estas duas últimas equipas, que já ergueram a Taça do Mundo. Entre dois azuis, torci pelo celeste, tendo em conta as más recordações que os Bleus franceses nos dão. Vi um jogo quezilento, sem grandes oportunidades de golo, em que os gauleses nem contra dez conseguiram marcar. Sem Zizou as coisas tornam-se complicadas. Quanto aos uruguaios, há já muito que não conseguem surpreender. Até hoje, em que aplicaram chapa 3 à África do Sul, comandada pelo técnico ex-campeão do Mundo Carlos Alberto Parreira. Não terá sido um Maracanazzo como na dramática final de 1950, mas deixou os da casa quase em estado de choque e em sérios riscos de não se apurarem para a fase seguinte. E notou-se que as vuvuzelas diminuíram de tom. Se isto servir para as calar, os Celestes levam já o meu apoio para a conquista da Taça dourada, excepto no momento em que enfrentarem Portugal. Quem cala aqueles instrumentos do demónio só pode ser uma selecção abençoada.




terça-feira, junho 15, 2010

As medidas para a desertificação



Depois das promessas iniciais, Isabel Alçada já está a descarrilar. As decisões dos últimos tempos foram valentes tiros no pé, um a seguir ao outro. tivemos primeiro a história da passagem dos alunos do oitavo ano para o décimo mediante alguns exames, que é um belíssimo desincentivo às faltas e ao copianço. Depois, a decisão, que já começou a ser concretizada, de fechar todas as escolas com menos de vinte alunos. Parece que tais situações são "criminosas" e causa de "abandono", "exclusão" e "insucesso escolar". Não se percebe bem porquê, excepto se pensarmos nos critérios habituais do socratismo.


A desculpa do "insucesso escolar" é apenas areia para os olhos. As verdadeiras razões são outras. Uma é a de economia de recursos, humanos e materiais. Até se perceberia caso se tratasse de escolas com menos de cinco ou dez alunos, mas nunca de vinte. A outra razão prende-se com o fecho de inúmeras estruturas locais. Para além das razões de gestão, há a ideia não confessada, mas explícita, de se acabar com as aldeias e o mundo rural. É quase impossível encontrar uma aldeia com mais de vinte crianças em idade escolar. Os propósitos de José Sócrates são os de "modernizar o país", como ele afincadamente repete. Ligada a esta ideia está a de vida urbana, que obviamente exclui toda e qualquer marca de ruralidade, considerada "atrasada", "ignorante" e "medieval". Acelerou-se a extinção de serviços de saúde, de instrução, etc, com os mesmos argumentos de "racionalização de meios". Já se fala em extinção de comarcas e até em fusão de concelhos. A desertificação do interior, iniciada nos anos sessenta, está em marcha.




Como acontece a muita gente que nasceu nesse interior, Sócrates tenta camuflar o melhor que pode as suas origens, pretendendo passar por homem moderno, cosmopolita, desempoeirado e sofisticado. Essa preocupação em atirá-las para as costas é visível na sua obsessão com as novas tecnologias, cujo corolário é o famoso Magalhães.


Outra marca é este afã anti-rural, que tenta disfarçar com a construção de meia dúzia de estradas. Mas todos sabem no que resultarão medidas como as do fecho destas escolas: as crianças terão de se levantar ainda mais cedo para ir para a vila e a pequena cidade, ganharão a ideia de que viver na aldeia não é "moderno" (ainda para mais quando nelas impera a velhice, esse transtorno dos tempos contemporâneos), e forçosamente abandonarão a aldeia, com os pais ou logo que tenham de trabalhar. Os pequenos povoados envelhecerão e desaparecerão. A terra ficará deserta, semeada de ruínas esquecidas, charnecas, mato e montes, entrecortadas por estradas entre uma e outra cidade. A agricultura tenderá a ser ainda mais marginalizada, excepto algumas culturas específicas, como o vinho, ou as hortas comunitárias, ou ainda os campos de golfe dos resorts turísticos em redor das barragens resultantes do respectivo plano nacional, que afundará mais campos e estruturas centenárias como a Linha do Tua. Assim se realizará a tão ansiada "modernização do país", que nos aproximará fatalmente, como nos tentam convencer, dos "índices de desenvolvimento humano" dos "países civilizados". Mas quando isso acontecer, e os subúrbios estiverem insuportáveis e incomportáveis, as pessoas lembrar-se-ão que precisam de produtos da terra para comer, e de espaço para viver. Nessa altura, José Sócrates já não governará Portugal.


sexta-feira, junho 11, 2010

Schwarzenbach em Ukhaidir


Entre os autores dos obras de viagens de que falei há dias destaca-se Annemarie Schwarzenbach, a viajante suíça que passou pelo Europa Central, em tempos de ascensão do nazismo, pelo Médio Oriente anterior aos nacionalismos, e pelos Estados Unidos da Grande Depressão. Pelo meio também esteve em Portugal nos primórdios do Estado Novo.
O CCB organizou há não muito tempo uma exposição do seu legado fotográfico, onde constam as paragens atrás descritas. Dela constavam tanto fotografias da autora como com a própria. Annemarie surge quase sempre com ar melancólico, como se as suas inúmeras viagens lhe atribuíssem um eterno estatuto de exilada da Suíça, que tão pequena e pacata era para si. O seu ar andrógino mas belo (não tinha reparado devidamente no seu rosto, que recorda, por exemplo, Cate Blanchett) distinguiam-na como um ser único, sem contar com a sua queda pela exploração de terras exóticas, prática tão pouco comum às mulheres da altura e de agora...




No Médio Oriente circulou entre a Mesopotâmia e a Pérsia, descobrindo e dando a descobrir aos europeus imagens que eles só conheciam dos relatos dos seus antepassados. Através das suas fotografias e dos seus artigos, recordou de novo paragens esquecidas ou desconhecidas. Entre elas contava-se a fortaleza-palácio de Ukhaidir, ou Ukhaidar, no coração do Iraque, uma enorme construção do século VII, isto é, dos tempos de maior expansão do Islão e do surgimento do Califado dos Abássidas, de Bagdad. Tinha como objectivo não só a de protecção de eventuais perigos como também de caravançarai, ou paragem para viajantes.


A imagem da fortaleza, num território inóspito e deserto, impressiona pela sua grandiosidade e dimensão. Dir-se-ia que aterrou ali de repente, atirado por Alá qual Kaaba iraquiana. A UNESCO classificou-a como património da Humanidade aqui há uns anos, ainda em tempos de Saddam, mas inexplicavelmente, ou talvez por o Iraque ser um destino tão recomendável pela sua segurança como a África do Sul, os registos que se encontram, mesmo na net (e na Wikipedia) são mais que escassos. Será um local obscuro para a grande maioria das pessoas, e seria também para mim caso não tivesse visto a sua imagem a ocre e branco, tirada nos anos trinta, surgido do nada.


A importância dos exploradores é também essa: registar para a posteridade locais e situações que no futuro, mesmo como novas tecnologias, dificilmente se poderiam descortinar. No caso do Iraque, por causa da sua situação política e social. As fotos e os artigos, chegando até aos nossos dias, encarregaram-se de os testemunhar

Schwarzembach assistiu aos grande fenómenos sociais do seu tempo, ainda se casou (e separou), ainda passou por África, antes de regressar à Suíça, já com a 2ª Guerra em marcha. Morreu aos 34 anos, nos anos da Guerra, ela, que tinha percorrido paragens tão inóspitas e perigosas, na neutral Suíça, de ferimentos resultantes de uma queda de bicicleta.

domingo, junho 06, 2010

A invocação civilizacional levada ao extremo

 

As notícias foram tantas que acabei por não ficar com uma opinião sólida sobre o caso do navio apresado pelas forças navais de Israel. Ou por outra, fiquei com a mesma: nesta questão não se pode ficar completamente de um lado. O navio era mais que suspeito, transportava armas e os soldados israelitas foram atacados por um bando de "activistas dos direitos humanos" também eles armados. O activismo a favor de Gaza é uma uma coisa muito estranha, porque parece contrariar os seus propósitos pacíficos. E todos sabem quem manda em Gaza e quem distribui a ajuda humanitária que lá chega.


Por outro lado, Israel normalmente reage sempre à bruta, matando dez por cada ferido do seu lado, lançando uma expedição ofensiva à sobrelotada faixa por cada rocket que cai no quintal de um colonato. Os resultados são pior emenda que o soneto. E com Netanyahu no poder, em coligação com os ultra-sionistas de origem russa, a coisa tende a piorar. Mas o que me faz mais espécie é que os defensores de toda e qualquer acção israelita invocam amiude que Israel, na sua luta contra vizinhos e árabes que os querem empurrar para o mar, está a "defender a civilização ocidental das hordas bárbaras dos sarracenos". Até certo ponto é verdade. Mas o argumento de "defensor da civilização ocidental" torna-se perigoso se levado ao extremo. A civilização que cresceu entre a Europa e os Estados Unidos, inspirada na antiguidade greco-romana, no Cristianismo e no Iluminismo é com certeza superior às outras pelos valores que defende, pelos ideais que inspirou e pelas vias que escolhe. Mas convém não exagerar na sua defesa a todo o custo: bem vimos os desmandos no Iraque sob esse argumento. Podemos também falar das Guerras Mundiais e de alguns exemplos miseráveis do colonialismo, como a destruição das sociedades pré-colombianas pelos espanhóis, ou a forma como os belgas dominaram o Congo. E recordar que também os nazis, ao invadir a URSS, diziam defender "a civilização ocidental" contra "as hordas mongólicas comunistas". Por isso, defendam-se os valores do Ocidente, mas não de uma forma sine qua non. Até porque o fanatismo acaba por ser a negação desses mesmos valores.

sexta-feira, junho 04, 2010

O TGV também se pinta de vermelho

 

As manifestações sindicalistas do passado fim de semana, em Lisboa, tiveram o apoio do PCP e do Bloco de Esquerda, ou não fossem as mesmas organizadas pela CGTP, pelo que estranho seria que os citados partidos não as apoiassem, em especial o primeiro (se bem que o Bloco também tivesse as suas razões, até porque pelo meio andou um grupo de radicais anarquistas, mais preocupados em atirar objectos à polícia). A manif destinava-se a protestar contra as recentes medidas de austeridade do Governo.

Entre as reivindicações do costume neste tipo de eventos contavam-se o aumento de salários, a manutenção "dos direitos que Abril nos deu", a não privatização de empresas públicas, etc, etc. Mas quando se trata de saber como há de o governo diminuir o défice, a resposta ou é uma evasiva lírica para demonstrar que isso é um assunto "secundário", ou fala-se logo na diminuição de proveitos de políticos ou administradores de empresas, pelo menos a avaliar por um recente outdoor bloquista, que aponta uma série de empresários, mesmo que alguns sejam do sector privado (que curiosamente são os que auferem menores rendimentos, se as contas do Bloco baterem certas).

Mas foram precisamente estes partidos que ainda há dias reiteraram o seu apoio ao avanço das grandes obras públicas, a começar pelo TGV, de entre todas a de rentabilidade mais que duvidosa. Para mais, os que irão utilizar tal transporte serão certamente aqueles que têm mais posses, e não os que participaram nas manifestações. Não é por haver TGV que as chusmas de pessoas que viajam em Intercidades entre Lisboa e Porto o vão deixar de fazer - caso contrário, fá-lo-iam de avião (o Alfa foi pensado para fazer as vezes do transporte aéreo, em versão um pouco mais vagarosa). Será que os dirigentes comunistas e bloquistas estariam a pensar em exclusivo neles próprios? Nesse caso, trata-se de uma inapelável traição aos valores colectivistas que apregoam e a rendição ao consumo puro. E uma coisa é certa: eles, que apontam sempre o dedo ao PS, PSD e CDS pelos males do país ficam a partir de agora co-responsáveis pelas futuras crises orçamentais e pelos atascanços nas finanças que tivermos. Quem se lança em aventuras deste calibre, contrariando descaradamente a sua doutrina, só tem que ser responsabilizado pelos seus actos. Ao lado dos partidos do "arco governamental", os partidos de esquerda radical e autoritária têm desde já a sua quota parte quando o défice nos voltar a bater à porta. é bom que ninguém se esqueça disso, na hora em que se pedir contas.
 

segunda-feira, maio 31, 2010

Histórias Etíopes e outros da mesma colecção




Entre a Feira do Livro de Lisboa e a do Porto (que começa a 1 de Junho, e que se realiza nos Aliados, depois de alguma hesitação em enviá-la para a Rotunda), faz-se sempre a lista dos livros que se pretende comprar e que se espera que estejam em saldo.


Este ano tinha uns quantos em mente, mas na de Lisboa optei por dois ou três, consoante as promoções. Havia no entanto um que me tinhas chegado aos ouvidos e que queria absolutamente apanhar: as Histórias Etíopes, de Manuel João Ramos. Faltava apenas uma hora para o início do decisivo Benfica-Rio Ave, e tinha acabado de chegar a Lisboa, mas apesar do nervosismo fui mesmo asssim comprar o livro. Por duas razões: o fascínio que eu tenho pelas terras do Preste João; e porque se insere na colecção de literatura de viagens que a Tinta da China tem lançado de há uns tempos para cá, sob a direcção de Carlos Vaz Marques. O da Etiópia é apenas o último de algumas pérolas dos últimos cem anos, muitas vezes quase esquecidas, que já passaram por Paris, Índia, Pérsia, Veneza, Japão, Afeganistão, Extremo-Oriente e Nova Iorque, e que me deram a conhecer autores como as excêntricas Annemarie Schwarzenbach ou Jan Morris. A ideia da colecção em si é óptima, aliada ao elegante grafismo dos livros, de capa duras. Não tenho todos (o de Veneza, por exemplo), e ainda tenho vários à frente antes de ler Histórias Etíopes, mas alguns já cá cantam. E fico sempre à espera de novas publicações da colecção, que tem pés para andar e tornar-se uma referência neste tipo de literatura, como a Colecção Vampiro ficou para os policiais (não têm de ser tantos), ou a esquecida Escaravelho de Ouro. E se me fosse permitido, e houver matéria de qualidade sobre isso, tinha já uma lista de locais onde poderiam recair os temas dos próximos volumes - e que gostaria de visitar ou revisitar, claro: Buenos Aires, São Petersburgo, Israel, Rodes, Istambul (e costa sul do Mar Negro), Nápoles e Andaluzia. Ia acrescentar Transilvânia, mas para isso já existe Danúbio. Mas há mais, muitos mais à escolha. O Mundo é imenso, felizmente, e a colecção arrisca-se a também o ser.

domingo, maio 30, 2010

As vuvuzelas da desgraça

A extraordinária turma que o Professor Carlos Queiroz resolveu levar à África do Sul teve a sua primeira "prova de fogo" contra Cabo-Verde, formada sobretudo por jogadores das divisões secundárias do campeonato. O resultado saldou-se por um rotundo zero, e a exibição, que eu não vi, segundo rezam as crónicas, esteve pouco acima da nulidade. Na Covilhã, por entre os bocejos, safaram-se Nani e um Coentrão a querer mostrar serviço. Nada que espante muito de jogadores a querer poupar-se para os jogos a sério; mas espanta ainda menos se pensarmos no grupo em questão, e que o seu treinador é Carlos Queiroz. Uma selecção que pretende ultrapassar a Costa do Marfim, enfrentar o Brasil e dominar a Coreia do Norte não colherá certamente bons augúrios ao não conseguir fazer um golo aos bons ilhéus.
A convocatória tem toda ela disparates que não se percebem, como as chamadas de José Castro e Ricardo Costa, que pouco jogaram este ano, a de Beto que também pouco esteve na baliza, e pior ainda, a de Daniel Fernandes, deixando de fora jogadores como Quim, guarda-redes dos campeões nacionais e o menos batido do campeonato, e Makukula, autor de 21 golos esta temporada, na Turquia. E talvez João Moutinho tivesse lugar. Vá lá que não leva Boa-Morte ou Caneira...
Todas as selecções têm escolhas mais bizarras ou duvidosas, e nenhuma está isenta de polémicas. Há sempre quem fique desiludido por não ir, e quem não compreenda certas chamadas. Mas Queiroz exagera. Há coisas simplesmente estapafúrdias aos olhos de qualquer leigo na matéria. Juntando isso ao facto do seleccionador nacional ser um perdedor profissional, com um currículo inversamente proporcional à importância das equipas que treina, que na sua longa carreira apenas obteve os dois títulos de juniores e uma Taça de Portugal, é de esperar o pior. Para mais, o Mundial será fora da Europa, na África do Sul; talvez os portugueses lá emigrados se disponham a deixar as suas lojas trancadas para apoiar a equipa, mas é bom recordar que nunca fora do seu continente Portugal teve uma prestação positiva num _mundial de futebol (um trauma que se estende às restantes equipas europeias, já que nunca nenhuma conseguiu ganhar a Taça fora do Velho Mundo). A coisa não promete grande sucesso. E as irritantíssimas vuvuzelas são como que trombetas de desgraça. Pode ser no entanto que para nós haja milagres e soem antes as trombetas de Jericó, derrubando as muralhas adversárias. Mas seria melhor sem os Black Eyed Peas na bagagem (outra brilhante escolha do Prof. Queiroz).


quinta-feira, maio 27, 2010

Pão de pobre

O homem, de densa barba grisalha e um fato com remendos, está sentado, encostado à parede de um prédio, quase ao dobrar a esquina, pedindo dinheiro ou um cigarro a quem passa. De repente, cai-lhe um jacto de água em cima. Não se trata de maldade alheia: a água das chuvas dessa manhã soltou-se de um toldo que cobre uma varanda uns andares acima, precipitando-se exactamente onde se encontrava o pedinte. O seu ar é mais de estupefacção que de desanimação. Recordei-me logo daquele provérbio brasileiro que vi certa vez: pão de pobre quando cai, cai com a manteiga para baixo.

sábado, maio 22, 2010

Taças europeias

Depois do Atlético de Madrid de Quique Flores, Simão, Reyes e (ainda que não inscrito nas provas europeias) Tiago ter surpreendentemente conquistado a "Euroliga", com apenas duas vitórias e um sem número de empates salvadores, em Hamburgo, face ao Fullham do sr. Al-Fayed, do Harrods, Madrid intromete-se igualmente na final da Liga dos Campeões. não em clubes, que o Real dos galácticos parte 2.0 não chegou lá, mas porque o palco é o seu Santiago Bernabéu. José Mourinho conseguiu evitar a suprema humilhação do Barcelona lá se sagrar campeão europeu, e com os rumores de que pode treinar Cristiano ronaldo, Kaká & Ciª para o ano, é o homem do momento na capital espanhola. Ninguém apostaria no seu envelhecido Inter de Milão como finalista da prova, até porque os nerrazurri não ganham o troféu há mais de quarenta anos. O adversário também não seria o primeiro das apostas, mas sempre se votaria mais depressa no Bayern para lá chegar. Van Gaal já treinou com Mourinho às suas ordens, e tanto um como outro já foram campeões europeus. Não faço grandes prognósticos sobre o vencedor, mas pela ausência de Ribery da equipa bávara, inclino-me ligeiramente para o Inter. Se os italianos levarem o caneco, estará cumprido o sonho do seu presidente, Massimo Moratti: o de ganhar o máximo título europeu para o clube, imitando assim o seu pai, Angelo Moratti, presidente do Inter nos anos sessenta, no seu período mais glorioso e fecundo (em que inventou o famigerado cattenacio). Moratti filho, também rival de Berlusconi nos negócios e na fortuna, gastou milhões ao longo dos anos em jogadores de renome mas que pouco deram ao clube, cujas equipas estavam constantemente a mudar. Só depois do Calciocaos é que a situação lhe começou a ser favorável. Agora tem a oportunidade de conseguir o mesmo que o seu pai, fazendo da dinastia Moratti um símbolo do clube do Biscione.

PS: esta ideia peregrina da final ser ao Sábado deve-se a quê? Às imposições dos canais televisivos? A alguma incompatibilidade no estádio madrileno? a razões ligadas ao Mundial? Por uma vez experimenta-se, mas espero que seja um ano sem exemplo. final europeia que se preze é para jogar à quarta-feira, e as televisões que se danem.

De Espanha, bons ventos...
O governo espanhol pode até não estar com ideias de o interromper, nem de o deixar em stand-by. Mas adiou-o por um ano, para fazer face à grave crise económica e financeira que o país atravessa, e que não se compadece com torrentes de obras públicas. Por cá, o governo de Sócrates continua a fazer finca-pé e a atirar-se de cabeça, recorrendo como sempre aos contribuintes para fazer face ao défice orçamental. Até poderia ser uma medida razoável caso também se tivesse lembrado de cortar nalgumas obras de vulto, ou ao menos afiá-las para altura mais favorável. Mas não Sócrates é assim mesmo e não muda. Nem com o exemplo do lado, que ele tanto gosta de imitar, perdeu a teimosia e a falta de humildade. Uma atitude que ainda nos trará muitos dissabores.

quarta-feira, maio 19, 2010

Scarlett em palco
No Herdeiro de Aécio recordou-se a magnífica banda sonora de Lost in Translation, talvez uma das melhores trilhas sonoras, ou uma das que melhor se adaptou a um filme. Surgem-nos Girl, dos Death in Vegas, e Just Like Honey, dos Jesus and Mary Chain, esse clássico do "psicadelismo incandescente" dos anos oitenta. É precisamente esta última que encerra o filme, e que, para mim, o recorda de forma mais vincada, dando-lhe o tom melancólico e cinzento que rodeia Scarlett Johansson e Bill Murray, perdidos numa Tóquio de néon. E tanto marcou os cinéfilos que os irmãos Reid, os mentores do grupo, que o reanimaram em 2007, interpretaram o tema nesse ano no festival de Coachella, fazendo dueto com a própria Scarlett Johansson. Eis aqui o testemunho (o video está um pouco tremido e longe do palco, mas não se arranjou melhor).

terça-feira, maio 18, 2010

A redenção do Terreiro do Paço
O espaço que hoje tem o nome oficial de Praça do Comércio, mas que é para todos o Terreiro do Paço, passou ao longo dos séculos por inúmeras convulsões. Invasões, ocupações, defenestrações, sismos, tsunamis, desfiles triunfais, regressos de derrotas, revoluções, regicídios, de tudo assistiu aquela praça, entre a grande mudança cosmética que levou no século XVIII. E também autos-de-fé, ao que consta.
Nunca na sua longa vida tinha tido uma missa rezada pelo Papa. Outros estadistas foram lá recebidos, como Isabel II, com pompa e circunstância, mas nunca o Sumo Pontífice da Igreja Católica. E na semana que passou, a praça teve mais um grande momento na sua história. Sob um céu azul e o ar tépido (parece que São Pedro ajudou mesmo o seu sucessor), com pendões nos edifícios ocres e fragatas e veleiros como cenário de fundo, encheu-se de gente para ver e ouvir o Papa. O altar, simples mas imponente, era o remate ideal para a cerimónia. Viam-se pessoas de todas as idades, estratos e feitios, portugueses e estrangeiros - isto sim, uma autêntica demonstração de pluralidade. Apesar de toda aquela mole humana, não havia a sensação de sardinha em lata; o espaço estava ocupado, mas sem estar compacto. Pode-se descrever o ambiente como de solenidade animada, que percorreu todo aquele imenso espaço quando o Papa rezava a homilia, e que explodiu no fim quando saiu. A destoar naquela manifestação de paz, só mesmo os snipers nos telhados dos ministérios. Mas tanto a emoção da cerimónia como a sua beleza estética e gráfica, enquadrada por uma das mais belas praças da Europa, vestida de gala para receber o ilustre convidado, não saíram beliscadas. Tudo correu na perfeição. Como se depois de tantos infortúnios e tragédias, a praça quisesse agora acolher uma manifestação de harmonia. E redimir-se, purificando-se com uma banho de multidão. Afastar definitivamente as memórias sinistras dos autos-de-fé de outras eras, fazendo as pazes com uma Igreja que lhe devolveu a importância e o seu cargo de sala de visitas dos grandes acontecimentos.

segunda-feira, maio 17, 2010

Uma semana de acontecimentos raros

 
Chega ao fim uma semana estafante mas memorável. Dificilmente verei outra em que possa comemorar um título do Benfica e ver o Papa em Portugal, no espaço de dois dias.
Há uma semana, consegui ver o epicentro dos festejos do título (como de certa forma já vira há cinco anos, no Bessa, no jogo que devolveu o título 11 anos depois) no Marquês de Pombal. Era verdadeiramente alucinante o ambiente que lá se vivia à chegada dos campeões nacionais. O autocarro que levava os jogadores do Benfica no topo parecia uma barca a vogar no meio do oceano, tal era o mar de gente que o rodeava. Pude vê-los de perto quando entraram na Avenida da Liberdade e constatei que os mais eufóricos eram os mais velhos: bastava olhar para a cara extasiada de Rui Costa, ou Jorge Jesus empunhando uma bandeira às riscas vermelhas e brancas, que mais parecia o logótipo da Olá.
Na Terça, vi o Papa duas vezes, de manhã, sem contar, com a ocasião. De tarde avistei-o já mais longe, rezando missa. Não tanta gente como na festa do Benfica, mas ainda assim uma multidão considerável. Se no Domingo havia euforia e vermelho por toda a parte, aqui o ambiente era suave, harmonioso, com o azul e o amarelo a predominarem. A diferença de tons das duas celebrações fazia parecer que se tinha passado do inferno (mas sem monstros) ao céu.
Melhor só mesmo se tivesse podido ir aos Aliados, na celebração que houve no Porto. Mas seria pedir demais. A onda benfiquista e a oportunidade de assistir a uma missa rezada pelo Sumo Pontífice ao ar livre já foram dádivas preciosas em tão curto espaço de tempo.

sexta-feira, maio 14, 2010

Progressos
Como se vê pelos comentários de alguns amigos, a moda agora é dizer que "o Benfica lá ganha um campeonato de cinco em cinco anos". Em 2005, diziam que ganhava um de onze em onze. Já é um progresso. Daqui a nada, dirão que só ganha de dois em dois. Todo o mundo é composto de mudança - ou de ciclos.

terça-feira, maio 11, 2010

É já a partir de hoje


32

Houve algum sofrimento, é certo, porventura desnecessário, mas o Benfica chegou ao seu 32º título de campeão nacional. Um número arrasador em qualquer campeonato. Como arrasador foi o ataque, com 78 golos marcados e 20 sofridos, melhor ataque e melhor defesa em conjunto com o Braga. E como cereja em cima do bolo, o "Tacuara" Cardozo sagrou-se o melhor marcador, com vinte e seis golos, outro galardão que o Benfica não tinha há 19 anos.


Paradoxal parece ser a apreciação do campeão para alguns: dificilmente uma equipa que jogue tão bem, que encha os estádios e que tenha mostrado tanto futebol ao longo de uma época é alvo de tanta contestação como a que aconteceu este ano. Ao que parece, os castigos a alguns jogadores que se entretiveram a praticar pugilismo e a nobre arte da cepa pelas costas seguida de fuga foram considerados uma coisa vergonhosa, dando a entender que bater em adversários é um método lícito para ganhar jogos. Como entendo que não é, e que o Benfica não precisou de bater nos outros jogadores nem de crivá-los com objectos de rua, a começar por pedras, julgo que a justiça deste título não se pode pôr em causa.


A Jorge Jesus se deve o triunfo e o carrossel de ataque da equipa, mas algumas peças já lá estavam, e melhoraram, como David Luís, Di Maria, Carlos Martins e Cardozo, e outras chegaram, para completar a máquina, casos de Saviola, Ramires e Javi Garcia. foram todos inexcedíveis, e mostraram o seu grande valor. Claro que Vieira merece uma palavra, mas é bom não esquecer o jovem director desportivo que permitiu que o título fosse possível: Rui Costa, a mostrar que percebe enormemente do assunto.


E a festa correu lindamente. Nunca tinha comemorado um campeonato do Benfica no Marquês de Pombal. O próprio Papa Bento XVI, no edifício do BES, parecia abençoar aquele título. A multidão em delírio é um espectáculo único, assim como ver Jorge Jesus eufórico, com o cabelo vermelho e com uma bandeira às riscas que mais parecia o antigo símbolo da Olá! Eram aliás os mais velhos aqueles que festejavam efusivamente. Deu para ver quando o bus que transportava os campeões nacionais atravessava com dificuldade a rotunda (que já estava reservada para o efeito) e começava a longa marcha pela Avenida da Liberdade abaixo. A cara de alegria pueril de Rui Costa é absolutamente inesquecível. Mas não irrepetível.

domingo, maio 09, 2010

O regresso dos liberais


Afinal as coisas no Reino Unido complicaram-se mais do que o previsto: houve inúmeras atribulações nas secções de voto, eleitores cujos nomes não constavam dos cadernos eleitorais, o Labour sofreu uma pesada derrota, os conservadores não têm maioria absoluta, e os liberais-democratas ficaram com menos representantes nos comuns do que os que tinham anteriormente.
Acaba por ser um pouco frustrante para os últimos, depois de toda a mediatização em volta de Nick Clegg. Ainda assim deverão ser o fiel da balança e talvez um esteio para David Cameron, apesar de algumas diferenças profundas, o que lhes daria uma importância que não têm desde os anos vinte.

Os liberais-democratas descendem directamente do Partido Liberal (muito mais do que o Partido Social Democrata, uma dissidência trabalhista dos tempos da liderança esquerdista de Michael Foot), que por sua vez tem como antepassados os Whigs, os opositores históricos ao absolutismo real, que ganharam enorme importância com a Glorious Revolution de 1688, apoiando a nova dinastia dos Hanôver, que continua a ser a reinante, apenas com a alteração patriótica e oportuna do nome para Windsor, ao tempo da 1ª Grande Guerra. Os Whigs apoiavam-se na burguesia comercial e industrial, e em meados do século XIX converteram-se no Partido Liberal, devedor de pensadores como David Ricardo, Bentham e John Stuart Mill. Daí advém a tradicional divisão nominal e ideológica nos países anglo-saxónicos entre liberais e conservadores. A rotatividade entre estas duas forças seguiu-se por várias décadas, durante as quais os liberais chegaram ao governo do país, e figuras como Gladstone, Asquith e Llloyd George governaram o império Britânico, com os dois últimos a comandar o país durante a 1ª Guerra. Lloyd George tornou-se um dos vencedores do conflito, mas as suas ideias mais brandas para com a Alemanha foram recusadas por Clemenceau e Wilson, com os resultados conhecidos. Assinou também o tratado que criou o Estado Livre Irlandês.

A partir de 1922, os liberais saem do governo para não voltar, excepto em efémeras coligações. O crescimento do Partido Trabalhista, que arrastava as classes operárias e os sindicatos, e começava também a atrair a classe média, minou a sua base eleitoral, e a partir dos anos trinta o partido sofreu uma enorme erosão na sua representação parlamentar. Com a ascensão definitiva dos trabalhistas a um dos dois partido da rotatividade, com os conservadores, sobretudo depois da estrondosa vitória de Attlee em 1945, o Partido Liberal viu-se remetido a um apagado terceiro lugar, sem real peso na vida política.


Nos anos oitenta, já com o Reino Unido na CEE (de que foram ardentes defensores), fizeram uma aliança com o novo Partido Social Democrata, com o qual se fundiriam em 1988, originando o moderno Partido Liberal Democrata (os Lib Dems). Alguns dos seus membros tornaram-se notórios, como Paddy Ashdown, que deppos de dez anos a liderar o partido alcançou o cargo de Alto Comissário para a Bósnia. Seguiu-se os escoceses Charles Kennedy e Sir Menzies Campbell, até à actual revelação política britânica, Nick Clegg.
Com a indefinição governativa, David Cameron poderá muito bem ser obrigado a aceitar o apoio de Clegg, apesar de algumas incompatibilidades, como a Europa e a reforma do sistema eleitoral. No entanto, os Trabalhistas podem aproveitar qualquer suspensão nas negociações e intrometer-se, mas já sem Gordon Brown, condição prévia para qualquer acordo com os Lib Dems. E talvez entre em cena outra das jovens estrelas políticas do outro lado da Mancha, e rival à altura de Clegg: o ministro dos Negócios Estrangeiros David Miliband. De uma ou de outra forma, parece certo que os liberais recuperem a sua histórica importância, depois de noventa anos de espera e de hibernação.

sexta-feira, maio 07, 2010

Tories are back



À hora a que escrevo, há apenas uma certeza, que de resto era tão previsível como os impostos: Gordon Brown está já a arrumar os tarecos de Downing Street para dar lugar a David Cameron. Não conseguiu segurar o desgaste do Labour nem a herança de Blair. Treze anos depois deste ter iniciado a fecundo período de governação do New Labour, os conservadores regressam ao poder, ainda que reciclados do thatcherismo. Para isso precisaram de queimar três líderes distintos mas sem carisma, até ao novato, etonian e apreciador dos Smiths Cameron, um compassive conservative, segundo o próprio. Resta agora saber com que maioria vão os tories ficar (ao que tudo indica, não é absoluta), e qual o peso político dos liberais-Democratas, da nova estrela política na Grã-Bretanha, Nick Clegg, mas do partido laranja falarei mais tarde.

E, claro, saber o que vai fazer agora Gordon Brown.
Aconselhável também este artigo de Francisco Mendes da Silva, no 31 da Armada, que contextualiza o blairismo. Não estou necessariamente de acordo com todas as suas premissas e conclusões, mas é interessante, porque ajuda a perceber a época em que o New Labour vingou, entre a Britpop e um novo cosmopolitismo londrino.

quinta-feira, maio 06, 2010

A Expo de Xangai
Abriu oficialmente há dias a Expo 2010 em Xangai, a exposição mundial que sucede à de Saragoça, em 2008. Estive na cerimónia de apresentação a Portugal, no Casino de Lisboa, Parque das Nações, cenário apropriado e propositado por ter sido também uma outra exposição mundial. Esta Expo 2010 tem como tema "Melhor cidade, Melhor Vida", o que mais do que um exemplo, deverá constituir um desafio para a china, tendo em conta a forma repentina e caótica como crescem as suas urbes, cujos mapas mudam em poucos meses. E Xangai é precisamente a maior das cidades chineses, uma megalópolis a caminho de se tornar a maior do Mundo, e também a mais cosmopolita do país, por razões históricas.

O espectáculo de apresentação teve uns números musicais mornos. Bem mais megalómano é o espaço da exposição, a maior de sempre, dez vezes a área da Expo 98. O tema poderá ser algo em que os chineses não serão um grande exemplo, mas a extensão tem tudo a ver com o gigantismo tão próprio da China e das suas ambições. Como compete a qualquer grande potência emergente, a organização deste tipo de eventos é mais uma forma de afirmação mundial, como o fora os Jogos olímpicos, como o Brasil também o demonstra. Já Portugal também tem uma representação bem à sua medida, numa pavilhão de cortiça. Se servir de incremento ao consumo de vinho português e à cortiça sempre servirá para alguma coisa.

domingo, maio 02, 2010

Portugal: o sentimento de fracasso dos catalães


Analisando o assunto do post anterior - o triunfo do Inter sobre o Barcelona - e as reacções culés, e olhando para o ódio a Mourinho, fico a pensar que os catalães não olham para os portugueses com bons olhos. Repare-se de novo no futebol: Mourinho é o que se vê (e a imprensa local trata-o por "tradutor"), Figo teve a pior recepção que um profissional da bola jamais teve no Nou Camp (até cabeças de porco lhe atiraram), a Baía, Quaresma e Simão as coisas nunca correram particularmente bem, e Fernando Couto teve uma passagem discreta. 

Não tenho grande conhecimento de passagens de notáveis de portugueses por outras áreas na Catalunha, mas o futebol, tão mediatizado, poderá ser um bom exemplo da maneira como se olha para nós nessas paragens. Olhando com alguma atenção, a História, parece explicar porquê.

O Condado de Barcelona uniu-se ao Reino de Aragão no Século XII, que por sua vez, com o casamento entre os Reis Católicos, se uniu a Castela, dando início à moderna Espanha. Com a chegada de Castela às Américas e a afluência dos metais preciosos, Sevilha tornou-se o grande entreposto comercial, relegando Barcelona para plano inferior. Até aí, a cidade catalã era um dos grandes portos do Mediterrâneo e dominava grande parte do seu comércio, até porque Aragão possuía ainda Valência, as Baleares, a Sardenha, Nápoles e a Sicília, e alguns territórios na Grécia. Mas as descobertas de novas paragens levaram o grosso do comércio do Mediterrâneo para o Atlântico, e para novos centros, como Sevilha, Antuérpia e Lisboa. Assim, o início da época de ouro portuguesa coincidiu com o declínio catalão. 

Muito mais tarde, na Guerra da Sucessão de Espanha, a Catalunha apoiou o Arquiduque da Áustria, candidato dos Habsburgos ao trono espanhol, contra as pretensões da França de Luís XIV. Também Portugal estava do lado dos Habsburgos, e o Marquês das Minas chegou mesmo a entrar em Madrid, mas isolado, acabou por sofrer sérios revezes e a França lograria atingir os seus objectivos, ainda que à custa de inúmeros territórios, colocando no trono um Bourbon, que aliás ainda hoje reinam. Quase toda a Espanha apoiava o candidato de França, o Duque de Anjou, neto de Luís XIV, excepto a Catalunha. Pagou caro o apoio aos Habsburgos, com a perda dos seus direitos e a abolição das suas Constituições, bem como o apagamento da sua língua, menorizada e posta de lado. O que resultou do Tratado de Utreque constitui uma enorme machadada na autonomia catalã, e a sua dissolução em Castela, de que demoraria dois séculos a recuperar.

Depois, há que não esquecer que na Guerra civil de Espanha a Catalunha esteve do lado Republicano, que lhe garantia autonomia, ao passo que Portugal dava apoio não-oficial ao campo nacionalista. Com a vitória destes e o advento do franquismo, o estatuto e a língua voltaram a ser suprimidos. Franco evocava os Reis Católicos, mas ao contrário destes, jamais recuperou o aceitou as Constituições catalãs.

Mais o maior motivo de inveja, ou de desagrado dos catalães em relação aos portugueses, é anterior, e terão sido as revoltas quase simultâneas, em 1640. A que ficou conhecida como Guerra dos Segadores (imagem acima) ergueu-se contra Castela e as medidas do Conde-Duque de Olivarez, primeiro-ministro de Filipe IV/III, proclamou a república e depois ofereceu a coroa condal a Luís XIII de França. Castela reagiu, venceu os catalães e os franceses e apoderou-se de novo da região, apenas cedendo à França algumas partes a norte. Os conjurados portugueses aproveitaram-se desta revolta e da "distracção" espanhola, defenestraram Miguel de Vasconcelos a 1 de Dezembro e coroaram Rei o Duque de Bragança. A guerra subsequente durou 28 anos, mas depois de pesadas derrotas os castelhanos reconheceram a sua perda. Já a Catalunha ficou subjugada e jamais recuperou qualquer traço de independência, embora goze hoje de uma larga autonomia. 

Mas fico com a impressão de que os catalães, mesmos que saibam pouca história, têm no seu subconsciente uma certa inveja e uma acrimónia contra Portugal, pelo facto da nossa existência enquanto país ser uma das razões do seu estatuto regional, e porque nos olham como uma nação que "recuperou" a sua independência, ao passo que a Catalunha regrediu na sua autonomia. No fundo, Portugal é a outra face da moeda catalã, o país que eles gostariam de ser e não são, desde que a sua revolta falhou e a nossa teve tanto sucesso que quase quatrocentos anos depois continuamos independentes e com as mesmas fronteiras.
Figo e Mourinho sentiram no ar esse sentimento de oportunidade perdida para outros.

sexta-feira, abril 30, 2010

O catenaccio, esse grande definidor de resultados (seguido de "tristeza de final da UEFA)

Por muito que se critique o "autocarro" que José Mourinho colocou em frente à baliza em Barcelona, não havia outra maneira de chegar ultrapassar os culés, ainda por cima com um jogador a menos ainda na primeira parte e com uma arbitragem caseira. Só com um sólido muro de betão é que passaria, e conseguiu-o, à custa de muita concentração e alguma sorte. Estimo o feito, porque não simpatizo muito com o clube blaugrana nem com a prodigalidade de elogios que tanto lhe fazem, e ver o Nou Camp sem um pio no final tem bastante graça. E o Inter já não ia a uma destas finais desde os anos setenta, por isso é sempre bom ver emblemas novos. E não esquecer: em Barcelona podem residir o ataque mais poderoso e temeroso e o futebol actualmente mais atraente do planeta (embora o do Benfica se lhe compare), mas o Inter é que inventou o catenaccio, e sabe usá-lo sempre como mais ninguém. Mourinho apenas segue a tradição do clube, conforme atestam os mestres.


Assim, o Barcelona fica a ver a final da Champions na televisão e perde a oportunidade única de erguer a taça em pleno Santiago Bernabéu, casa dos seus rivais e inimigos de sempre. Uma desilusão em terras condais, e um alívio para os merengues.


Em compensação, e para mal do futebol, o Atlético de Madrid, com apenas duas vitórias este ano em competições europeias, vai à final da "Euroliga" com o Fulham. Para trás ficaram o Liverpool e o histórico Hamburgo, que falha também a hipótese de jogar o último jogo em casa, que palco escolhido para o confronto. Atlético de Madrid e Fulham...Que raio de final havia de estar destinada! E pensar que o Benfica podia perfeitamente estar lá. Resta-me desejar boa sorte a Simão Sabrosa.
A greve e a falsa colisão de direitos



O direito à greve é coisa que não me entra na cabeça. Falo em sentido amplo, bem entendido. Que um grupo de pessoas se manifeste por um direito que entende merecer ou contra uma situação presumivelmente injusta é coisa que percebo perfeitamente, mesmo que discorde. O que eu francamente não entendo é o direito à greve tal como está plasmado na actual Constituição. Dá-se mais direitos aos grevistas do que a quem quer trabalhar. E estes últimos podem fazê-lo por uma quantidade de razões, como a de precisar mesmo de trabalhar por atravessar uma situação económica grave, ou não concordar com os motivos da greve. Assim, a permissão constitucional a piquetes de greve é uma aberração completa, que só prejudica quem trabalha. Os "vermelhos" acabam por ter mais direitos que os "amarelos" por razões que deviam ser inversas.


E o mesmo se pode dizer de todos os que são torpedeados pelas greves na função pública. A simples proibição da CRP de não haver alternativas aos transportes públicos é não apenas uma vénia aos senhores que por qualquer razão resolveram parar as suas actividades, mas também uma quebra de compromissos para com os utentes. Um serviço público não é uma agência de empregos nem uma associação sindical: serve para desempenhar determinada tarefa considerada essencial para a fruição da população, para prosseguir uma finalidade considerada necessária, e que exige por isso determinadas atenções. Assim, se aos grevistas é permitido formar piquetes e não se pode assegurar serviços mínimos que permitam que as pessoas se desloquem para os seus locais de trabalho, quando muitas vezes não têm qualquer alternativa, o Estado penaliza quem nada tem que ver com as birras grevistas e ainda tem que aguentar por vezes com penalizações salariais. Por causa de uma pequena classe profissional, como os maquinistas da CP, centenas de milhares de pessoas vêem-se prejudicadas, quando muitas vezes não podem elas próprias "furar" o trabalho. Qual a sua legitimidade, pergunta-se? E já agora porquê a proibição a alternativas? O direito à greve da minoria sobrepõe-se ao direito ao trabalho, à remuneração e ao transporte da maioria? Não sei quais os fundamentos politico-ideológicos de tais preceitos constitucionais que ainda existam, mas bem podiam ser objecto de uma revisão constitucional futura, dada a sobreposição de direitos, que por isso mesmo, nem sequer colidem.

E não esperem os senhores dos sindicatos de transportes públicos qualquer "solidariedade" para com a "sua luta". Quem não respeita os outros não pode pedir qualquer tipo de compreensão.

quarta-feira, abril 28, 2010

Mil


Mil é um número mágico. É sinónimo de grande quantidade, de conta difícil de se fazer. A palavra "milénio" provoca temores e ansiedades - é ver a quantidade de músicas, séries e filmes que a nossa cultura pop produziu na última década, baseada talvez na profecia " de mil passarás, a dois mil não chegarás". É um número difícil de atingir, uma passagem para um estádio superior, uma espécie de dobragem do Cabo das Tormentas.
Este é o post Mil de A Ágora. Mas foram precisos seis anos e tal para isso. É um atestado de experiência, mas também de alguma irregularidade. Tenho por isso algumas dúvidas de chegar aos dois mil posts.

segunda-feira, abril 26, 2010

Antes do título nacional, o europeu

Com a vitória do Braga na Figueira por expressivos 0-4, o título nacional de futebol volta a ser adiado. O Benfica pode conquistá-lo para a semana, no Porto, ou no fim de semana seguinte, frente ao Rio Ave. Entretanto, e para compensar, o Glorioso sagrou-se campeão europeu de futsal, ao vencer o Interviú por 3-2, após prolongamento, no Pavilhão Atlântico. Não sendo o êxtase, tratando-se de futsal, a taça UEFA é ainda assim uma conquista muito agradável e um bom tónico para os próximos dias, no futebol de relva.

sábado, abril 24, 2010

Memórias do futebol trasmontano

A propósito do inédito apuramento do Desportivo de Chaves para a final da Taça de Portugal, Francisco José Viegas recorda tempos idos do clube, quando ainda não jogava na 1ª divisão e os seus adversários eram invariavelmente clubes da mesma região. Também me lembro de ouvir falar de desafios entre o Vila Real e o Desportivo, no velhinho campo do Calvário, um recinto pelado no centro da cidade ainda hoje usado para os escalões de base. Se os jogos não corriam de feição ao "Bila", qualquer condutor que apanhasse a N2, a estrada para Chaves, nem que fosse para ir para a freguesia a seguir, era invariavelmente insultado pelos passantes.


Do Chaves não me recordo dos tempos anteriores à primeira divisão. Lembro-me de alguns históricos, como Paulo Alexandre, Manuel Correia, António Jesus, Karoglan, da trupe de espanhóis, como Toniño e Baston, e dos mais recentesRicardo Chaves João Alves, esse ex-next big thing do futebol português. E das claques "Força Azul-Grenat" e "Frente Flaviense", cujo nome ainda se pode ver graffitado nos viadutos do IP-4. Já não sou do tempo dos épicos confrontos entre equipas nortenhas, e fico mesmo surpreendido ao saber que o Régua usava camisolas em losangos (um padrão que podia fazer moda, ou então influência british dos produtores ingleses de vinho do Porto), mas acho que o fim dos campos de terra, esmagados pelos relvados, é motivo para um requiem.


Hoje, o Chaves está na Honra e em real perigo de voltar à segunda B. O Vila Real vegeta nos distritais, o Régua também, e o Riopele nem equipa tem, actualmente, ainda que a fábrica se mantenha. Raúl Águas, por sinal um bom técnico, já não treina. O que é certo é que nenhuma equipa trasmontana chegou onde o Chaves chegou. E que apesar de todas as antigas rivalidades, todas as pessoas da região, de todos os clubes, se devem regozijar por esta final (e quem sabe, com algo mais). Mesmo em Vila Real.


Imagem de um Chaves-Vila Real, dos anos sessenta. Tirado daqui, onde se pode ver uma descrição mais completa, e um testemunho da rivalidade referida em cima.

terça-feira, abril 20, 2010

Pare, Escute, Olhe




O cinema documental português está de boa saúde e recomenda-se. Depois de Ruínas chegou agora às salas Pare, Escute, Olhe, de Jorge Pelicano, que realizou anteriormente outra-longa metragem, Ainda Há Pastores, entre as serranias e as ovelhas da Serra da Estrela. Mas enquanto Ruínas era estático, este tem uma dinâmica muito própria. O filme, que ganhou o prémio de melhor documentário em longa metragem no DocLisboa de 2009, volta ao interior profundo, desta vez para revelar a morte lenta da Linha do Tua, desde o fecho do troço entre Mirandela e Bragança, em 1990, as atribulações e desesperos da população e as vacuidades do discurso político e das suas promessas.

Faz-se uma cronologia desde os anos oitenta, em que o problema do fecho da linha se colocou, vê-se o habitual ardil das "suspensões nocturnas" sem aviso, ao ponto de se roubar as locomotivas. Passa-se em revista as promessas de desenvolvimento com barragens, os diálogos entre governantes e altos quadros de empresas públicas, discutindo betão, as contradições, a incúria e as tragédias ferroviárias, quando não as havia antes, os estratagemas para se diminuir o número de utentes do comboio, servindo assim de pretexto ao seu encerramento, a submissão dos representantes eleitos que se submetem aos interesses partidários em lugar de defender os locais.
Pelo meio, o testemunho de um rio, de uma paisagem única, a junção de um património humano e natural únicos, ameaçados pela albufeira de uma barragem que não dará nem empregos nem desenvolvimento à região. E vê-se um povo entre o conformismo e a revolta. Nas conversas de café (como no surreal Lucky Luck), nas viagens na automotora, ou nas reuniões com os seus representantes, o trasmontano está lá bem plasmado: rude, directo, frontal, com alguma comicidade à mistura. Personagem transversal ao filme é o Sr. Abílio, antigo funcionário da CP, que goza os dias de velhice à sombra do apeadeiro de Ribeirinha, testemunha do caminho de ferro, do rio e do que se passa pela linha fora, não se fazendo de rogado a dizer o que pensa, por gestos ou palavras.
Também a fotografia e os cenários naturais são magníficos, e há algumas cenas de antologia, como o discurso de Sócrates, falando no "desenvolvimento", quando atrás da sua imagem desfocada e rebaixada se vêm as escavadoras em movimento. contrapondo ao progresso do betão, usa-se mesmo a arma preferida dos seus apologistas: mostra-se o que se passa "lá fora", nos "países civilizados", em que o comboio é usado como meio de transporte e turístico, e faz-se a terrível comparação com o que se passa no Tua. O contraste é coisa para deixar todos os portugueses corados de vergonha.
As minhas expectativas antes de ver Pare, Escute, Olhe eram razoáveis, mas fiquei agradavelmente surpreendido com esta obra melancólica, séria e irónica, tudo ao mesmo tempo. Além de ser um autêntico serviço público e de mostrar mais uma vez a tendência dos portugueses para abandonarem o que é seu em detrimento do que é "novo". Ainda está em exibição. É bom que o apanhem. Mais difícil será apanhar um comboio da linha do Tua. Mas quem sabe...

domingo, abril 18, 2010

O Marechal




Passou há uma semana o centenário do nascimento de António de Spínola, o homem que recebeu o poder das mãos de Caetano a 25 de Abril de 1974. A sua curta carreira de chefe de estado tê-lo-à tornado mais famoso, mas não será só isso que ficará para a história. Spínola foi das últimas figuras românticas de Portugal, na sua figura de militar respeitado pelos mais próximos, de comandante militar idolatrado pelos soldados, suspeito aos olhos das cúpulas do Estado Novo, e visto como um inimigo e um alvo a abater pela deriva esquerdista do PREC. A sua vida daria um livro talvez mais empolgante do que a extensa biografia de Luís Nuno Rodrigues. Entrou ainda muito cedo para o Colégio Militar (de onde tomou a alcunha "Caco"), enveredou pela carreira das armas e chegou a ser observador da frente alemã no cerco de Leninegrado, em 1941, numa equipa de observadores integrada na Divisão Azul espanhola - se não me engano também teve funções semelhantes na Guerra Civil de Espanha. O espírito castrense devia ser algo de genético, já que a sua família paterna, da Madeira, provinha dos Spinolas de Génova, que dominaram aquela república marítima e da qual saíram notáveis vultos militares, como Ambrogio Spinola, general dos Tercios espanhóis que Velazquez imortalizou na Rendição de Breda.

Como se sabe, subiu na hierarquia militar, como oficial de cavalaria, comandou tropas em angola, durante a guerra colonial, e chegou a governador militar da Guiné. O respeito pelos militares e a popularidade que granjeou vêm daí, das suas ideias federalistas e dos seus discursos nas selvas, bem como da publicação de Portugal e o futuro, já em rota de colisão com as posições coloniais do governo de Marcelo Caetano. logo a seguir deu-se a 25 de Abril, a sua breve presidência, à frente da Junta de Salvação Nacional, e o afastamento, em ruptura com a deriva esquerdista do PREC. O que se seguiu, no exílio em Espanha e no Brasil, terá sido porventura a sua menos conseguida e popular fase, quando apoiou e chefiou o MDLP e algumas actividades bombistas, muito embora a sua ideia fosse democratizar o país. Regressou com o fim das convulsões, pela mão de Mário Soares, que o nomeou chanceler das antigas ordens militares portuguesas, adquirindo uma espécie da aura de figura tutelar, embora decorativa, do regime - recebeu por isso mesmo o bastão de Marechal.

Spínola ficará sempre como uma figura controversa, pelo seu papel como mentor do MDLP e da "Maioria Silenciosa", como presidente da Junta de Salvação Nacional e primeiro chefe de estado pós-25 de Abril, pela sua carreira militar e pelas suas ideias de fazer uma Commonwealth à portuguesa. Uns vêem-no como traidor ao Estado novo, outros ao 25 de Abril, outros como um lírico irrealista, outros ainda como um visionário e uma carismático líder. Com o passar dos anos, essas discussões tendem a esbater-se, e a figura de Spínola institucionalizou-se, tendo sido inaugurada, no dia em que faria cem anos, uma avenida em Lisboa com o seu nome (muito embora fosse mais um pretexto do centenário, porque a artéria já existia com esse nome há seis anos).

Da minha parte, e embora as suas actividades à altura do PREC fossem mais que discutíveis, tenho pena que as suas ideias para as colónias não fossem experimentadas, ou ao menos discutidas. Mas quando olho para a sua inconfundível figura não posso deixar de pensar que o posto/título de Marechal dificilmente seria melhor atribuído. Acima de tudo, e embora só nos anos oitenta tenha recebido a distinção (pela antiga condição de chefe de estado), Spínola, com o seu monóculo, o pingalim, o sobretudo militar e as luvas na mão, que tanto recordava os oficiais alemães da 1ª Guerra, era, efectivamente, O Marechal.
 

quarta-feira, abril 14, 2010

Os "termos errados" de Bava




O video já andava por aí há uns dias, mas não quis deixar também de mostrar a "portugalização dos conteúdos" de Zeinal Bava, o presidente executivo da Portugal Telecom, que está preocupado apenas com um termo errado. Se a aposta na portugalidade se exprime em semelhantes e constantes anglicismos, mais valia convidar Gordon Brown para presidir ao Instituto Camões, até porque ele arrisca-se a ficar desempregado brevemente.

segunda-feira, abril 12, 2010

Uma nação trágica

O desastre aéreo que vitimou Lev Kaczynski, a sua mulher, o estado-maior polaco, o presidente do Banco da Polónia e inúmeras figuras de relevo, entre as 98 que pereceram, é mais uma das muitas tragédias que ensombram aquele país. Desaparecida por várias vezes, retalhada pelos vizinhos, local de campos de extermínio e pogroms, planície esmagada pela invasão nazi e a contra-invasão soviética, a Polónia sempre sofreu os maiores horrores a que a humanidade se dedicou. A comitiva polaca ia homenagear as vítimas de Katyn, setenta anos após essa outra desgraça polaca, em que os soviéticos assassinaram a tiro mais de vinte mil oficiais e civis polacos. Um erro humano, alguma inadvertência e as condições climatéricas consumaram o desastre. Assim desapareceu boa parte da elite da Polónia, muito perto do local onde iam homenagear esses outras membros de outra elite, de outro tempo. Como disse o ex-presidente Knaswievski, Katyn e a sua envolvente são malditos para os polacos.


Não era admirador de Kaczynski, da sua política de caça às bruxas (em conjunto com o seu gêmeo Jaroslav), que persrguiu gente tão insuspeita como Bonislw Geremek, ele próprio desaparecido recentemente num desastre de viação, e até Walesa, e do seu eurocepticismo, olhando sempre para a Europa (sobretudo a Alemanha) e a Rússia como inimigos, embora a história a isso aconselhasse. Mas um fim assim, em tais circunstâncias e naquele lugar, não deixa de chocar pela coincidência. Como é óbvio, já surgiram as teorias de conspiração apontando para a Rússia. Não creio que os russos estivessem minimamente envolvidos nisto. Mas o contexto e os envolvidos ajudam. Os caçadores de teorias conspirativas devem esfregar as mãos de contentes. E a Polónia soma mais uma tragédia à sua história, da qual, mais do que qualquer outro país, sobejam tragédias humanas.

domingo, abril 11, 2010

A ressaca de Liverpool


No percurso brilhante do Benfica esta época, a derrota em Liverpool acabou por ser atípica. Há meio ano que o SLB não perdia um jogo, em prova alguma. E mesmo assim, a dez minutos do fim estava a um golo de se classificar. A disposição dos defesas, em que apenas Luisão estava no seu lugar, a deficiente condição física de alguns jogadores, um guarda-redes inexperiente contribuíram para o resultado. Depois, um Liverpool com absoluta necessidade de ganhar e um Fernando Torres com espaço fizeram o resto. O segundo e terceiro golo são excelentes e rapidíssimas jogadas de contra-ataque, com trabalho estudado de equipa e passes de primeira. O Benfica, que até tinha começado bem, teve uma ou outra oportunidade desperdiçada e marcou com um livre directo superiormente executado por Cardozo. Depois veio o tal lance em que Júlio César sofreu um traumatismo craniano, e um Moreira ainda frio apanhou com o golpe final do espanhol do costume. Acabou aí o jogo e a eliminatória. O Benfica sofria um desaire justo mas demasiado pesado para o que se passou em campo. Arriscou e pagou por isso.



Claro que não é por essa razão que a boa carreira europeia, que teve o auge na vitória em Marselha, será esquecida. É pena, mas não mais do que isso, embora o número seja desagradável. É bom não esquecer que só à quarta tentativa é que Rafa Benitez conseguiu não perder com o Benfica. O confronto recordou algumas páginas dos anos oitenta, em que o clube da cidade dos Beatles era então a equipa mais forte da Europa, e se defrontou com o Benfica por várias vezes, sempre levando a melhor. Mas apesar da superioridade dos ingleses, nem por isso a equipa portuguesa ficou desprestigiada ou esquecida, como testemunhou há dias o mítico Ian Rush, fenomenal avançado e símbolo do Liverpool daqueles tempos. Há quatro anos, os Reds eram campeões europeus, mas dois golos fabulosos de Simão Sabrosa e Micolli fizeram estrondo perante o público da Kop. Agora, aconteceu o inverso da medalha. A prioridade era o campeonato, como Jorge Jesus se fartou de dizer, mas é sempre pena perder assim.


Fica o amargo de boca, a convicção de uma boa campanha europeia, e a confirmação de que Saviola faz mesmo imensa falta. Facto curioso: Cardozo, com dez golos, ainda pode acabar como o melhor marcador da Euroliga deste ano.

sexta-feira, abril 09, 2010

Ruínas




Há nas salas de cinema um ou outro filme que vale a pena ver. Mas o que diz mais à nossa memória colectiva é sem dúvida Ruínas, de Manuel Mozos, vencedor do último festival Doc Lisboa 8infelizmente só em exibição no cinema King, em Lisboa, e no Teatro do Campo Alegre, no Porto). Talvez ganhasse alguma coisa se identificasse os lugares por onde passa, mas mesmo assim é precioso. Do Cemitério do Prado do Repouso até ao enorme sanatório das Penhas da Saúde, passando por estalagens abandonadas, pelo Douro e pelo restaurante panorâmico do alto de Monsanto, são os restos, outrora prestigiados, de um país que abandona as suas memórias e o seu património e troca o velho, ainda que mais interessante, pelo novo. Uma fatalidade que desde sempre percorreu este país, na sua ânsia de querer parecer moderno e igual ao que vinha "lá de fora". É o Portugal esquecido e ultrapassado, mas com traços físicos que fica para trás, ultrapassado por novos elementos passageiros, que se transformarão um dia, também eles, em ruínas.

domingo, abril 04, 2010

Páscoa

"E no primeiro dia da semana, muito de madrugada, foram elas ao sepulcro, levando as especiarias que tinham preparado, e algumas outras com elas. E acharam a pedra revolvida do sepulcro. E, entrando não acharam o corpo do Senhor Jesus. E aconteceu que, estando elas muito perplexas a esse respeito, eis que pararam junto delas dois homens, com vestes resplandecentes. E, estando elas muito atemorizadas, e abaixando o rosto para o chão, eles lhes disseram: Porque buscais o vivente entre os mortos? Não está aqui, mas ressuscitou. Lembrai-vos como vos falou, estando ainda na Galiléia, dizendo: Convém que o Filho do Homem seja entregue nas mãos de homens pecadores, e seja crucificado, e ao terceiro dia ressuscite. E lembraram-se das suas palavras.

E, voltando do sepulcro, anunciaram todas estas coisas aos onze e a todos os demais."
Mateus 24, 1 a 9.

sexta-feira, abril 02, 2010

Novo rumo laranja
As eleições para a liderança do PSD foram há já uma semana. Como não trouxeram novidades substanciais, nem sequer referi o assunto, mas não resisto a deixar umas notas.
A vitória de Pedro Passos Coelho sentia-se à légua, mesmo que a sua dimensão possa espantar. Quem tem as "bases" como ele tinha não precisa de temer grandes percalços. Quando as principais distritais, zonas de forte implantação laranja, como Viseu, Leiria ou Vila Real, e régulos partidários como Fernando Ruas ou Marco António apoiam o mesmo candidato, é certo e sabido que será este o vencedor. Mesmo que a Madeira fique de fora. Aliás, as reprimendas de Passos Coelho a Jardim deram-lhe ainda mais apoio, enquanto que algumas atitudes de Paulo Rangel, a começar na facadinha a Aguiar Branco, não caíram bem no partido, tivesse ele o "baronato" que tivesse.
Impressionou-me apenas a baixíssima percentagem de votos de José Pedro Aguiar Branco. Os apoios de Rui Rio e Agostinho Branquinho não foram suficientes para descolar de uma votação residual. Poucos viam nele um líder carismático necessário para levar o partido ao poder. Quanto a Castanheira Barros, a sua candidatura não era para levar a sério.
Fico na dúvida se Rangel saiu reforçado, com aura de alternativa ou "futuro líder", ou se pelo contrário, não acabou chamuscado, desperdiçando o capital que ganhara com a vitória nas Europeias. Pode ser que tenha ganho pelo menos notoriedade, e a sua candidatura seja uma base para voos futuros. Mas antes de mais deve permanecer em Estrasburgo, crescer como político, corrigir erros e ganhar experiência. Não será de todo negativo para ele alguns anos na sombra. Rangel precisa de aprender a conter-se e a conter os seus discursos. Será um bom político se conservar as suas ideias e o deslumbramento inicial lhe passar.
E como será o PSD passoscoelhista? Não creio que o novo rumo liberal fosse a razão de tantos apoios internos. Dificilmente se pode ver o liberalismo, mesmo o de costumes, como uma ideologia popular em Portugal. Poderá refrescar o partido e levar-lhe novas caras, mas como alternativa de governo levanta algum cepticismo. Até porque se arrisca a confundir-se com o actual PS, e Passos Coelho com um Sócrates mais simpático. Como é óbvio, as ideias liberais irão esbater-se, quando a necessidade de ganhar votos vier ao de cima (lembram-se do choque fiscal de Durão Barroso?).
Gostava também de saber o que pensa Paulo Portas disso. À parte o caso dos submarinos, o líder do CDS-PP deve achar este rumo do PSD muito interessante. Dizia um jornal há meses que Portas estava à espera da vitória interna de Passos Coelho para "partir a espinha ao PSD". Exageros à parte, poderá ver uma oportunidade de roubar votos à direita, ao eleitorado mais conservador e desconfiado da liderança laranja. Não creio que os populares se tornem no maior partido de direita. Mas se o PSD roubar suficientes votos ao PS para o suplantar, precisará mais uma vez do CDS-PP para formar governo. E desta vez o partido de Portas terá mais peso do que no tempo de Barroso.