quarta-feira, setembro 29, 2010

A papafobia britânica

O Papa Bento XVI regressou a Roma da sua visita ao Reino Unido sem qualquer tentativa de prisão, atentado terrorista ou ataque isolado. Já não nada é mau.

Aproveitou-se um pouco de tudo para criticar a visita: os gastos com o acontecimento em si, a memória histórica, os casos de pedofilia recentemente encontrados, medo de proselitismo, etc. Os conhecidos militantes radicais ateístas Dawkins e Hitchens tentaram obter um mandato de captura de Bento XVI por "cometer crimes contra a humanidade" e não "ser um chefe de estado reconhecido", apesar de haver relações diplomáticas entre o Reino Unido e o Vaticano (ou não havia visita, tout court). Conseguiu-se, durante os dias em que o Sumo Pontífice permaneceu nas ilhas britânicas, organizar autênticas manifestações com toda uma coligação negativa anti-papista, reunindo associações ateístas e seculares, activistas dos "direitos da mulher", famílias de vítimas da pedofilia, nacionalistas ingleses e protestantes fanáticos, como o Reverendo Paisley, que em tempos dirigiu-se a João Paulo II no Parlamento Europeu, bradando que o Papa era o "Anticristo". O perfeito contraste com a visita papal de Maio a Portugal.
O Reino Unido tem os seus paradoxos. O puritanismo e a rigidez vitoriana são do mesmo país onde nasceram a pop e o punk. Em terras em que o parlamentarismo tem tantas raízes, ainda subsiste o espírito catolofóbico criado no século XVI por Henrique VIII. Sabia que os ingleses tinham um sentimento anti-católico, mas não ao nível do que se viu - ou do que se falou. Aos casos de pedofilia na Igreja Católica juntou-se a polémica dos gastos com as visitas, as "causas fracturantes", a beatificação de John Henry Newman, e todas as causas possíveis para justificar um poderoso sentimento anti-católico, tido como manifestação de liberdade contra as "trevas". Uma liberdade legada por um tiranete como Henrique VIII, que por razões políticas e libertinas, rompeu com a Igreja de Roma. Depois, os católicos foram perseguidos e afastados, com métodos tão cruéis como os da Inquisição, até praticamente ao século XIX, com algumas notórias excepções por razões políticas, como o casamento de Carlos II com Dona Catarina de Bragança. Ainda assim, membro da família real que por qualquer razão se aproximasse do catolicismo seria excluído da sucessão. Mas mesmo a partir de oitocentos, em que os seus direitos foram sendo progressivamente reconhecidos, nem assim deixaram de ser vistos como inferiores pelos britânicos. Os irlandeses desde Crommwell que foram tratados como gente de terceira. Oscar Wilde sofreu humilhações e o calabouço não somente pelas suas provocações e libertinagem, mas também por ser católico e irlandês.


O anti-catolicismo oficial que durava desde o início da igreja inglesa esbateu-se, mas existe. Quando o príncipe de Gales esteve presente nas cerimónias fúnebres de João Paulo II, ouviu críticas por causa da "submissão à igreja de Roma". Curiosamente, sendo o Reino Unido um estado oficialmente Anglicano, é também um dos que mais se afasta da prática religiosa. A igreja que a Rainha chefia tem enfraquecido, cedendo ao multiculturalismo reinante e a novas práticas e credos. Os ingleses conservam-na como uma tradição, mas a sua heterodoxia afasta-os. Talvez seja por irem em busca de algo mais que surgiram alguns interessantes grupos de católicos ingleses, como a tendência que tocou alguns escritores contemporâneos - Greene, Chesterton e Waugh, para destacar os mais conhecidos. Mas apesar disso, e de um crescente número de católicos, vê-se um anti-papismo que não há em mais país nenhum na Europa. Tradição enraizada, inimizades históricas, medo de que o Bispo de Roma seja um mentor do IRA ou de proselitismo? Ou a ideia de ver um Papa católico e alemão a ser recebido pela Rainha é duplamente dolorosa? Confesso que não sei qual será exactamente a raíz do problema, e que essa aversão mais histórica que social devia ser matéria de estudo mais aprofundado. O que sei é que Bento XVI falou mais contundentemente dos casos de pedofilia na Igreja, encontrou-se com as suas vítimas, homenageou os caídos na batalha na luta contra o nazismo (que provinha, não nos esqueçamos, do seu país) e beatificou John Henry Newman, e conseguiu voltar para Roma sem uma beliscadura. Convenhamos que para um Papa, alemão e que lutou na Segunda Guerra com o uniforme da Whermacht, é uma missão cumprida digna de Hércules.

sábado, setembro 25, 2010

Opostos que se atraem

Olho para as manifestações em França, contra o aumento da idade da reforma para os sessenta e dois anos, que levam atrás de si multidões em protesto. Ouvem-se acusações de "neoliberais", "fascismo", "atentados aos direitos inalienáveis" e ao "estado social", etc. Parece-me tudo um perfeito exagero, mas aquelas multidões socorrem-se de argumentos datados, ignorando a realidade, vituperando quem a contradiga. Em França, isto é perfeitamente comum. Então lembro-me de um movimento novo, do lado de lá do Atlântico, de ideias e lógica opostas. O Tea Party americano acusa Obama de ser "socialista" por causa do seu novo plano nacional de saúde, de ser um soviético encapotado (e para alguns, muçulmano), de querer subjugar a sociedade civil a um estado omnipresente, etc. Os sindicalistas franceses e os redneck americanos podem estar de lados diferentes da barricada e do oceano, mas na retórica, nas ideias fixas e no anti-pluralismo são assustadoramente parecidos.


Voltarei ao tema da França em breve.

sexta-feira, setembro 17, 2010

O fim do Arsenal em Braga?


Os resultados das equipas portuguesas nas competições europeias foram pouco surpreendentes: as equipas grandes e experientes venceram adversários inferiores, e a equipa mais "pequena" e inexperiente perdeu com uma equipa de nome sonante. Mas é curioso pensar que neste último caso o Sporting de Braga estreou-se na milionária Liga dos Campeões (coisa que há meia dúzia de anos seria impensável) em casa do clube ao qual roubou as cores e a camisola, o Arsenal de Londres. Durante muitos anos, os jogadores e os adeptos do Braga foram conhecidos como "arsenalistas" e tiveram mesmo, por breves tempos, uma equipa B chamada Arsenal de Braga. Agora, os gunners de Arsène Wenger fizeram-se pagar pela imitação e deram implacável meia dúzia de golos aos pobres bracarenses, que apesar do brilhante triunfo de Sevilha, mostraram ser ainda muito inexperientes nestas andanças europeias, revelando um medo cénico (também conhecido como "síndrome Tavares") fatal. Será que depois da goleada passaremos definitivamente a ouvir falar dos braguistas ou a expressão arsenalistas continuará a ser empregue, podendo sempre trazer negras recordações, a ser usadas pelos adversários em futuras discussões em que cada uma puxará da memória a derrota mais humilhante do outro?

quarta-feira, setembro 15, 2010

O aterro federativo
O outro caso da época, evidentemente, é o da novela da Selecção, que parece estar perto do fim, se bem que pouco feliz. Nunca fui adepto de Carlos Queiroz, e só desejava que ele tivesse ficado há dois anos em Manchester, a planear tranquilamente as tácticas de Sir Alex, sem se maçar em ir para o relvado. Mas já que o contrataram por quatro anos (supremo disparate), ficava-se com ele até ao término do contrato. O Mundial foi modestozinho, mas sempre passamos a fase de grupos, e cumpridos os mínimos, o técnico deveria permanecer. A história dos testes antidoping e das discussões de Queiroz na Covilhã são uma pretexto mal disfarçado para o pôr fora sem lhe pagar muito. Se servisse para alguma coisa, seria bom recordar que deve haver um mínimo de ética e que a Federação é que resolveu ir buscar o ex-seleccionador. A partida que lhe fizeram é demasiado indecente para passar sem mais. Como é óbvio, os chicos-espertos federativos estão-se a marimbar para tudo isso e querem é livrar-se do homem por qualquer meio, com a cumplicidade bem explícito do bonzo Laurentino. O que se segue é facilmente previsível: contrata-se novo técnico, dá-se uma indemnização - que remédio - a Queiroz e tenta-se apanhar os cacos dos primeiros jogos da equipa nacional para o Europeu de 2012. Só que todo este caso já

a causou mossa, como se viu no pontinho ganho em dois jogos, num vergonhoso empate caseiro com Chipre, que nos marcaram quatro golos. E parece-me que nem Paulo Bento, o mais que provável futuro seleccionador, possa vir a trazer qualquer tipo de tranquilidade à equipa.


O maior drama é pensar que os actuais elementos federativos (Madaíl, o inamovível Amândio de Carvalho, etc) vão permanecer no cargo. Isso mesmo afirmou Lourenço Pinto, presidente a Associação de Futebol do Porto, que assegurou que todas as associações distritais estão com Madaíl. conclusão: não haverá sequer espaço para candidaturas diferentes, e teremos que gramar com a tralha federativa toda, fazendo campanha pelo aviltante e parolo "mundial ibérico" e figas pela qualificação para a Polónia/Ucrânia, com o beneplácito do dispensável Laurentino Dias. Ah, não haver um "Apito Dourado" na Federação, com resultados palpáveis, para tapar esse autêntico aterro sanitário desportivo

sexta-feira, setembro 10, 2010

As trevas da Casa Pia
Ao fim de oito anos, tivemos finalmente a sentença do Processo Casa Pia. Tempo a mais, mas surtiu os seus efeitos, ainda que em primeira instância. Para além das vítimas, dos acusados e de todos os outros que de outra forma estavam ligados ao caso, o dia da sentença terá sido fantástico para donas de casa, transeuntes de Moscavide, e sobretudo para a comunicação social, no seu todo. Provavelmente, estes últimos só terão tido pena de não ser possível um exclusivo, a ser atribuído a quem pagasse mais. De qualquer forma, o que ficou destes dias, além de um resultado concreto, terá sido o imenso eco propagado pelas queixas dos condenados, em especial de Carlos Cruz, que não é à toa que é conhecido como o "Senhor Televisão". Dele e do seu advogado Ricardo Sá Fernandes ouviram-se queixas, lágrimas, recriminações, etc. Mas retive a expressão usada após a leitura da sentença: esta era, segundo Sá Fernandes, "o reino das trevas". Ora Carlos Cruz poderá dizer o que quiser em sua defesa, dentro de certos limites verbais, que foram claramente ultrapassados. Mas, inocente ou culpado, é bom não esquecer que o processo existiu porque ao longo dos anos inúmeras crianças sem família nem ninguém que as protegesse foram submetidas a sevícias e terrores que as marcaram para sempre. Foram as autênticas vítimas, e não houve televisões que se compadecessem da sua tortura permanente. Isso sim, é o autêntico reino das trevas. Finalmente encontraram quem as ouvisse.

sexta-feira, setembro 03, 2010

Estão de volta



Com novidades na bagagem, duetos previstos e o espírito épico e romântico que já os caracterizava nas primeiras músicas, Os Golpes dão o segundo passo. E há concertos agendados para breve, no Porto e em Lisboa, depois de um sugestivo espectáculo de garagem nas caves do Técnico de Lisboa, no 10 de Junho, assim à laia de aperitivo. O autêntico pope roque transpirando portugalidade desce às cidades.

terça-feira, agosto 24, 2010

A conquista de Arzila e a "Invenção da Glória"
24 de Agosto é uma data fértil em acontecimentos. Uma delas foi a conquista de Arzila, em 1471, etapa relevante do plano expansionista de D. Afonso V por terras mouras. O Africano quis que o feito militar ficasse registado para a posteridade e encomendou às oficinas flamengas de Tournai (hoje na Valónia) um conjunto monumental de tapeçarias que retratassem os vários momentos da tomada da cidade.

Assim sucedeu, mas por razões misteriosas as tapeçarias foram parar ao Ducado de Infantado, que os cedeu posteriormente à Colegiada de Pastrana, onde se mantiveram durante séculos. A grande questão é que a "transferência" não se deu durante o reinado da dinastia dos Habsburgos, entre 1580 e 1640, mas sim na primeira metade do século XVI, e não consta que fosse qualquer oferenda de casamento a uma qualquer infanta castelhana. Até hoje, não se percebe como é que as tapeçarias foram parar à colegiada da pequena cidade perdida no meio de Castela.

Nelas se retratam o desembarque atribulado, o cerco a Arzila e a tomada da cidade. Em todas, o Africano é representado em destaque, com uma armadura reluzente, distinguindo-se também o Príncipe D. João. Numa quarta tapeçaria representa-se ainda a tomada pacífica de Tânger, cuja anterior tentativa de conquista anos antes redundara num fracasso e custara a liberdade a D. Fernando, o Infante Santo.

Depois de séculos em Espanha, as quatro tapeçarias estão expostas do Museu Nacional de Arte antiga, em Lisboa. Impressionam pela sua monumentalidade e minúcia, retratando todos os passos dos acontecimentos da época. Os Painéis de São Vicente foram temporariamente retirados do seu lugar habitual e colocados mais à frente, para completar o conjunto. A exposição, intitulada "D. Afonso V e a Invenção da Glória", pode ser vista nas Janelas Verdes até 12 de Setembro. E garanto, vale imenso a pena ver aqueles lindíssimos e imponentes tecidos, comparáveis às célebres tapeçarias de Bayeux, que depois de tanto tempo encerrados num obscuro mosteiro espanhol, nos relatam com grande pormenor e arte esse período de conquistas que iniciou a época de ouro de Portugal

sábado, agosto 21, 2010

Cento e dez anos sem Eça

No meio da autêntica silly season, e com uma festa de centenário pelo meio (não, não era o da república), valham os blogues para nos recordar as grandes efemérides. Por acaso não tenho nenhum Eça à mão, mas estou a ver ali um Machado de Assis a espreitar por baixo do Ipsilon de ontem. Dadas as matérias e a contemporaneidade, tenho esperança que seja suficiente para afastar a vergonha.


segunda-feira, agosto 09, 2010

Um submarino vogando no Tejo


Os novos submarinos comprados ao consórcio alemão HDW podem ser de utilidade escassa ou duvidosa, podem ser caros e as suas contrapartidas um logro, podem ser excessivos para as funções a que se destinam, pode haver sucedâneos mais eficazes e mais económicos, mas uma coisa é certa: é (ao menos o primeiro chegar, o Tridente) um autêntico espectáculo visual, vê-lo perfilado navegando face ao Terreiro do Paço. Uma imagem de elegância, pompa naval e circunstância, como agora raramente se vê em Portugal. Os mil milhões de euros sempre deram para uma boa fotografia.

quarta-feira, agosto 04, 2010

Saramago só depois
As homenagens artísticas tanto podem ser legítimas e compreensíveis como se podem revestir de um oportunismo com intenções várias, a começar pelas ideológicas. A recente proposta da
CDU de de dar o nome o nome de Saramago a uma rua do Porto encaixa-se nas duas. Já a sua recusa pela câmara tanto se pode justificar por ressabiamento político como por sensatez numa altura em que a morte do escritor é muito recente, e dá azo a qualquer aproveitamento ideológico e a análise sem a devida distância.
Não me aquece nem me arrefece que Saramago tenha uma artéria com o seu nome no município, desde que seja um novo arruamento e não uma rua central, como os seus camaradas fizeram por breves dias, quando em pleno PREC trocaram os nomes das Ruas Júlio Dinis e D. Manuel II por rua Catarina Eufémia e rua...José Estaline (toponímia que como é óbvio, não colou). Também acho que a desculpa da câmara para não dar esse nome, em "apenas aceitar nomes de cidadãos com ligação directa ao Porto para ruas da cidade", escudando-se numa mais que discutível e limitativa decisão da Comissão de Toponímia, é patética e apenas ridiculariza a cidade. A seguir esse critério,a rua de Camões teria de mudar de nome.
Mas se tomarmos em devida conta a decisão da comissão, conjugada com o súbito entusiasmo da CDU na atribuição de novos nomes de ruas, é caso para se perguntar porque é que ninguém propôs os nomes de Sophia de Mello Breyner e de Eugénio de Andrade? Não só tiveram uma ligação directa com o Porto como foram vultos literários ilustres. Curiosamente, os seus nomes não constam da toponímia portuense, ao passo que noutros concelhos, como Lisboa (mais precisamente o miradouro da Graça), ou Matosinhos, já lá estão. Assim, permita-se algum hiato de tempo após a morte de Saramago, dê-se-lhe a devida distância, e já agora, altere-se a bizarra decisão da Comissão de Toponímia. Entretanto, vamos imortalizar Sophia e Eugénio no Porto, como eles merecem. E depois, mas só depois, é que o nome do homem de Azinhaga poderá ser tido na devida conta.

sábado, julho 31, 2010

Confronto



O livro Confronto - História de uma Cooperativa Cultural, de Mário Brochado Coelho, foi lançado há dias, no Porto. É uma espécie de resenha histórica, cronológica e onomástica, com extensos dados, apesar de ser um livro relativamente pequeno, recordando uma cooperativa cultural de oposição ao Estado Novo. A Confronto surgiu nos anos sessenta, pela mão de sectores católicos oposicionistas, inspirada pelo Concílio do Vaticano II e pelo afastado Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, e durante a sua existência teve extensa actividade cultural e social, para além dos problemas inerentes a qualquer instituição que não estivesse nas boas graças do regime vigente, o que deu origem a várias atribulações e diversas mudanças de sede. Dela fizeram parte, além do autor do livro, pessoas como Francisco Sá Carneiro, Artur Santos Silva, coisa que já sabia, e outros que ignorava de todo em todo, como Jardim Gonçalves. Teve existência efémera - acabou antes do 25 de Abril - e posteriormente os seus membros dispersaram-se por várias formações partidárias saídas da Revolução, da UDP ao PSD. Todavia, sua memória e a sua história são dados importantes para se perceber melhor os circuitos da oposição ao regime fora da área de influência do PCP nos últimos tempos do salazarismo e na era marcelista.

terça-feira, julho 20, 2010

Mundial - notas, identidades e coincidências


Uma das coisas que dá certo gozo acompanhar nas competições futebolísticas para amantes de bizantinices como eu é acompanhar o despique político, histórico ou sociológico por trás de alguns jogos de futebol. O Mundial que agora acabou não constituiu excepção. Assim, revimos alguns clássicos inter (e extra) futebolísticos, como o Alemanha-Inglaterra, o Portugal-Espanha e até a final, com uma carga histórica completamente ignorada.
Uma das maiores rivalidades entre nações do mundo da bola é a que existe entre Inglaterra e Alemanha. A febre pelo desporto coincidiu com a adversidade política e bélica, quando o Reich rivalizava com o British Empire no número de fábricas. Como se sabe, deu em tremendas guerras entre as duas potências, com a subsequente vitória britânica. Ao triunfo nos teatros de guerra, os ingleses juntaram a supremacia nos relvados. Na maioria dos casos suplantavam os germânicos, cujo desporto favorito era mesmo a ginástica. Isso durou até ao Mundial de 1966, cuja final os bretões ganharam com o polémico golo de Geoffrey Hurst. A partir daí, nos confrontos entre as duas equipas, quase só deu Alemanha, que também teve muito maior sucesso em competições internacionais, arrebatando troféus, finais e terceiros lugares. Os ingleses, apesar de continuarem a pensar que têm uma relação única com a bola e jogadores superlativos, nunca vão muito longe, e quando estão perto do fim, apanham com o velho inimigo teutónico, que até nos penaltis os vencem. Comprovam-no o Mundial de 1990 e a desolação de Gascoigne, Stuart Pearce, Southgate, e até o "hino" dos Lightning Seeds, indiscutivelmente festivo mas com um toque agridoce de melancolia da derrota. Já Lineker resumia tudo numa das mais famosas máximas do mundo da bola: "o futebol são 11 contra 11, e no fim ganha a Alemanha". Notável excepção: o Alemanha-Inglaterra de 2001, para a qualificação do Mundial 2002, partida que os ingleses venceram por impressionantes 5-1 no Estádio Olímpico de Munique, e que se tornou um troféu que doravante puderam exibir nas discussões com os alemães.

A sobranceria inglesa reside portanto no pensamento enraizado da "pátria do futebol". Não por acaso os melhores resultados recentes da Selecção deveram-se a técnicos de fora, como o mal amado (?) Eriksson. Mas agora nem com Capello a coisa correu bem. Outro dos erros comuns dos ingleses é confiarem na qualidade individual dos seus jogadores, esquecendo que um Lampard e um Gerrard não jogam necessariamente bem juntos, ou que um Rooney também pode atravessar dias maus. Se o capitão Beckham e o poste Rio Ferdinand se lesionam, a coisa tende a dar para o torto. E tendo em conta que desde o quarentão Peter Shilton não arranjam um keeper de qualidade, apesar dos esforços de David Seaman, é com naturalidade que sofrem golos. Para seu azar, o velho inimigo germânico, despojado de estrelas, mostrou a sua máxima eficácia com jogos terrivelmente colectivos. Em mais um jogo que opôs as duas equipas, aquele golo anulado num momento em que a equipa de arbitragem sofria de alucinações momentâneas poderia ter mudado os números da goleada, mas não a vitória alemã. Os jogadas extremamente rápidas e combinadas dos alemães teriam abatido a Inglaterra em qualquer ocasião. Jogo físico, sem rodriguinhos, de uma simplicidade absurdamente eficaz: eis a Mannschaft quase tradicional, no seu máximo esplendor. E escrevo "quase" porque faltou um elemento tão próprio das selecções alemãs vencedoras: o líbero. Beckenbauer, Matthaus e Sammer, comandando as respectivas gerações, mostraram como esta posição indefinida era a peça essencial para o triunfo nas competições internacionais. O último terá sido Olaf Thon, uma peça menos preciosa na nobre linhagem germânica dos líberos. Desta vez, o capitão era um defesa lateral, Lham. Por isso a Alemanha, com todo o seu bloco colectivo, não chegou ao fim.

Mas antes da queda frente à Espanha tiveram tempo de cilindrar a orgulhosa Argentina, depois da goleada à Inglaterra. Mais uma vez o jogo colectivo e mecânico não deu hipóteses às jogadas individuais da turma de Maradona, que para além do superlativo Messi tinha o melhor naipe de avançados da prova. Reeditou-se mais um clássico dos Mundiais (com o seu auge entre os anos oitenta e noventa, quando estas duas equipas dominavam o Mundo), depois dos penaltis de 2006.
Mas um clássico apesar de tudo morno se comparado com o que teria tido lugar caso por milagre de S. Jorge os ingleses tivessem eliminado a Alemanha. Entre argentinos e alemães nunca houve hostilidade mútua, fosse pela comunidade germânica no país das Pampas, pelas relações comerciais estabelecidas entre ambos os países, e pela formação militar de oficiais argentinos na Prússia antes da 1ª Guerra. E não era à toa que muitos refugiados nazis se acolheram na Argentina depois da 2ª Guerra, aproveitando as simpatias germanófilas dos seus líderes, entre os quais Juan Peron.
Já a inimizade entre argentinos e britânicos, como se sabe, incendiou-se depois da Guerra das Malvinas. O jogo da "mão de Deus" e o golo depois de não sei quantas fintas de Maradona tornou-se o ex-líbris dessa inimizade, normalmente ganha pelos sul-americanos, com excepção de 2002, em que os comandados de Beckham venceram de penalti Batistuta & Companhia, deixando ainda mais de rastos um país então em gravíssima crise económica e social, que olhava para os seus jogadores de futebol como portadores de uma redenção que não veio.
Caso se tivessem encontrado novamente, teríamos as provocações em catadupa do rubicundo Maradona a Beckham, no seu fato Savile Row versão urban-chic, sob a fleuma habitual de Capello, Terry a envolver-se com Tevez e Rooney com Demichelis, tensão entre os milhares de adeptos, expulsões em barda e golos de antologia. Em suma, um grande jogo. Pena que não tenha sido possível.

domingo, julho 11, 2010

Um moço de recados desprestigiante


 
Se há político que pelas suas atitudes mancha absolutamente a sua classe, tem um nome em Portugal: José Lello. Mancha que espalha, aliás, reiteradamente, como se nada fosse. Depois de dizer que Manuel Alegre tinha aproveitado voos pagos pelo seu partido para fazer acções de promoção dos seus livros nos Açores (coisa que era mentira), e de vir em socorro a Vital Moreira, quando este acusou o PSD de estar ligado às "roubalheiras do BPN", mandando pelo caminho recadinhos a Maria de Belém quando esta disse não se rever em tais declarações, vem agora com a sua última bojarda. Um projecto recente do Parlamento previa que os deputados viajassem em voos de classe económica em viagens de tempo inferior a três horas, excluindo o Presidente da AR. Todavia, Jaime Gama renunciou à regalia e colocou-se ao nível dos restantes deputados. Não se sabe vindo de onde, Lello surgiu dizendo que seria "desprestigiante"o Presidente da AR não viajar sempre em executiva.

Não sei o que leva a criatura a dizer tantos disparates. Será o porta-voz das coisas que a cúpula pensa e não pode dizer? Terá alguma propensão clínica para a asneira? Ou acumulará tantos ódios de estimação que não se contém e revela-os publicamente? Seja como for, cada vez que fala queima-se publicamente. Estranho que não perceba que a atitude de Gama revela sentido de estado e cai bem na opinião pública. Não sei como Lello se mantém no Parlamento, ou que valia trará actualmente ao PS, mas este ofício de moço dos recados estapafúrdios e trauliteiros (agora a visar o próprio Jaime Gama) não deve trazer muitos votos. Alguém lhe diga, com todas as letras, que desprestigiante é a sua figura quando se lembra de abrir a boca com um microfone à frente.

domingo, julho 04, 2010

O mítico Uruguai revive


E a Celeste ganhou mesmo. Com lesionados e expulsos à mistura, com um estádio todo a puxar pelos adversário, ultrapassou o Gana, depois de estar à beira da eliminação no último minuto do prolongamento. Os seus jogadores voltaram a exibir uma resistência sobre humana às adversidades, que já não mostravam há muito, mas que os levou aos grandes momentos da sua história futebolística.

Também em 1950, na final do Campeonato do Mundo, num Maracanã a abarrotar de gente (o jogo com mais espectadores de sempre), apoiando furiosamente o Brasil, ao qual bastava o empate para se sagrar pela primeira vez campeão mundial, os uruguaios pareciam meros convidados formais, condenados a ser parte de uma mera formalidade a que toda aquela multidão tinha vindo assistir. Mas não era isso que estava escrito, e, comandados pelo capitão Obdúlio Varela, resistindo a um ambiente adverso e a um golo de avanço do Brasil, entraram mesmo na baliza à guarda de Barbosa, pelo grande avançado da equipa Juan Alberto Schiaffino, primeiro, e depois por Ghiggia, que deu a estocada final. O Brasil não mais conseguiu marcar e perdeu a final num silêncio sepulcral, ao passo que os uruguaios, por quem ninguém dava nada, levaram com eles a Taça. Houve suicídios, lágrimas e culpas para muitos, a começar no guarda-redes. Desde então, s selecção brasileira deixou a camisola branca e adoptou o amarelo, com a qual ainda hoje se veste.

O Uruguai ainda disputou as meias finais quatro anos depois, na Suíça, caindo perante a fabulosa Hungria de Puskas. Muitos dos seus jogadores foram depois jogar para Itália e passaram mesmo a jogar pela selecção transalpina, numa altura em que isso era possível, dado que muitos eram filhos de imigrantes italianos. Com isso, a Celeste perdeu a sua força anterior, começou a falhar Mundiais, e só em 1970 voltaria a umas meias finais. Conseguiu-o de novo agora, numa campanha épica e de muito sofrimento. É pouco provável que consiga ir mais além, com uma moralizada Holanda pela frente, e sem alguns elementos importantes, mas se conseguiram vencer o Brasil no Rio de Janeiro, quem é que pode assegurar que os sucessores de Schiaffino & Companhia não voltam a surpreender?

sexta-feira, julho 02, 2010

Clássicos à vista


Entretanto, os jogos dos quartos prometem. Um Brasil-Holanda é sempre apetecível. Em confrontos anteriores, os canarinhos levaram sempre a melhor, mas com enorme dificuldade, em jogos memoráveis (ainda me lembro do de 1994, com Bebeto a inventar uma nova forma de comemorar um golo). Depois, a única equipa africana em prova tenta pela primeira vez chegar às meias finais, mas pela frente aparece uma equipa que em tempos idos sagrou-se campeã mundial por duas vezes. Aliás, agora que Portugal não está em prova, já sei quem vou apoiar.


A escolha é simples: prefiro sempre os clássicos, e este clássico, campeão e anfitrião do primeiro Mundial, em 1930, tem apenas três milhões de habitantes e mede forças com grandes potências. Caso não se supere, o sucedâneo nas minhas escolhas é o seu grande vizinho de baixo, que mede depois forças com os panzers, esses velhos inimigos de finais que até os eliminaram há 4 anos, em penaltys. Será pois o gênio dos rapazes de Maradona contra as arrancadas letais da Mannschaft.

O Adamastor espanhol



Não passámos à fase seguinte, afinal. O adversário também não ajudava. Provou-se que a Espanha é realmente forte, e não o produto de um Campeonato Europeu ganho por mera felicidade. Esta selecção espanhola congrega uma grupo de jogadores que estão no auge das suas capacidades, e quererá mostrar isso aos habituais candidatos ao título mundial.
 

Cair nos oitavos de final perante a Espanha, com apenas um golo sofrido, e depois de se temer o pior na fase de grupos está longe de ser vergonhoso. O que me dá pena nem é a derrota em si, mas a absoluta incapacidade e falta de audácia para tentar dar a volta ao resultado. Portugal não só não atacou depois do golo de Villa como ainda podia ter sofrido mais. Valeu-nos um par de centrais competentes e com experiência, um lateral esquerdo irreverente e um guarda-redes gigante. Fosse a equipa constituída por 11 Eduardos e a história teria acabado de outra maneira.


A primeira razão do desaire é a Espanha ser uma equipa superior. A segunda, quase tão importante, é que Portugal não tem um técnico à altura do evento. Isso já se sabia, mas a passagem aos oitavos camuflou um pouco. Carlos Queiroz não tem autoridade nem consegue fazer alterações necessárias a meio de um jogo, sobretudo quando perde. Ficou provado (espero que definitivamente) que não é de maneira nenhuma um bom treinador principal. Desde a sua passagem pelo Real Madrid que se percebeu isso. A propósito, o treinador de Espanha, Vicente del Bosque, uma velha raposa do futebol, antecedeu-o como técnico dos Merengues, na complicada altura em que os Galácticos queriam sobressair. Ganhou dois campeonatos de Espanha, duas Ligas dos Campeões, uma supertaça europeia e uma Taça Intercontinental. Queiroz deixou a equipa em quarto lugar. Diferença pequena, não é?


Depois tivemos um Cristiano Ronaldo entre o abúlico e o desamparado. Pouco se viu, tirando o "golo de mochila" contra a Coreia e algumas bolas na barra. Fica como o craque desilusão do certame, ao lado de Rooney.


Por fim, há a razão do fado lusitano, desta vez bem personificado. O jogo realizou-se na Cidade do Cabo. No primeiro, o tal contra os norte-coreanos, Madaíl e Queiroz deixaram uma coroa de flores na estátua de Bartolomeu Dias. Uma acção de louvar, rara nestes meios. Mas imediatamente começaram as frases fáceis, como "vamos voltar a ganhar na Boa Esperança e dobrar o Cabo das Tormentas". Se se lembrassem da história, talvez não tivessem invocado o nome do Cabo em vão. Sim, fomos os primeiros europeus a arribar à zona, e Bartolomeu Dias ultrapassou o mítico obstáculo, abrindo o caminho para as Índias. Mas nunca haveria de lá chegar. Acompanhou Vasco da Gama na sua viagem até certo ponto, e em 1500, na expedição de Pedro Álvares Cabral, depois do desvio pelo Brasil, seguiu para Oriente. Ao passar o cabo, as tempestades afundaram quatro navios, entre os quais o de Dias, que pereceu ao largo do Cabo que tinha ultrapassado em primeiro, e que legaria o seu nome à história. As Tormentas com que o tinha baptizado foram-lhe fatais.

Também na nossa segunda passagem pelo Cabo, neste Mundial, acabamos por naufragar, e logo perante o velho adversário castelhano (bem guarnecido de catalães, é certo). A nossa carreira no Campeonato do Mundo teve um estranho paralelo com o destino de Bartolomeu Dias. Os Descobrimentos fazem parte da nossa História, mas o Adamastor pertence à nossa Mitologia, e agora apareceu com vestes castelhanas. Falta-nos é um Camões que reze esta nova e tímida gesta.

terça-feira, junho 29, 2010

Passemos à próxima fase
Passamos o grupo, e isso é que importava. Sem golos sofridos, sem perder contra o Brasil, com um bombardeamento intenso ao território de Kim Jong Il (que pena que não seja de metralha, com o "Querido Líder" à frente), a única dúvida a pesar na consciência é o que acontecerá aos pobres jogadores norte-coreanos.
Emergiram algumas revelações, como um super-sónico Coentrão (espero que não apareça nos próximos tempos algum clube a cobrir a sua cláusula de rescisão) e um super-seguro Eduardo.Queiroz ficou em boa parte reabilitado. O perigo é que se seguirmos em frente, ele pode muito bem continuar no seu posto. Se eu troco a vitória sobre a Espanha pela sua saída? Nunca na vida. Amanhã, o distintivo de campeão europeu em título do adversário é para esquecer; amanhã, só fica um representante da Península Ibérica, e tem de ser o do costa Oeste.

segunda-feira, junho 28, 2010

Notas do S. João 2010

Este ano voltei às folias sanjoaninas, depois de cinco anos de ausência da enorme festa popular. Entre os habituais martelos, os temíveis alhos-porros (um até me cravaram nos olhos!) e as estreantes vuvuzelas, que espero que tenha sido caso único, ficam algumas observações particulares:
- Na pista de helicóptero da Douro Azul, debruçados sobre o rio, entre música, inúmeros barcos e fogo de artifício, havia quem estendesse as suas canas, a pescar. É de pensar se naquelas circunstâncias haveria peixe nas redondezas. Mesmo a pesca amadora tem os seus fanáticos, que nem em plena noite de S. João pousam as canas.
- O coktail de martelos, vuvuzelas e gritaria no túnel da Ribeira é bastante mais ensurdecedor do que uma fila de camiões com música electrónica em altos berros no mesmo espaço. Pasmem, mas é verdade.
- Confirma-se que a ponte Luiz I abana quando é atravessada por multidões. Já me tinham contado que isso se sentia no tabuleiro superior, mas nunca pensei que o inferior oscilasse assim tanto. Quem já sentiu um sismo mediano (como o de Dezembro passado) poderá imaginar a sensação, com a diferença de que é por cima do rio. O tabuleiro inferior abana ao ritmo dos passos que nem um baloiço.
- Lembro-me, quando tinha 17 ou 18 anos, que já o sol se mostrava e havia ainda imensa gente nas praias da Foz. Este ano, no entanto, notei bastante menos pessoas dessa e de outras idades, embora o Molhe não estivesse propriamente vazio. Seria pela manhã encoberta, uma hora mais tardia do que pensava, ou estava simplesmente toldado pela nostalgia do S. João do passado?
Controleiros culturais
Nesta coisa da morte de personalidades ligadas à literatura há sempre episódios menos edificantes por razões extra-literárias. Se o artigo do Observatore Romano era infeliz, que dizer do que se passou com a proposta de voto de pesar pela morte de António Manuel Couto Viana, que antecedeu em poucos dias a de Saramago? O caso passou despercebido, mas Eduardo Pitta resume-o aqui: alguns deputados do PS apresentaram a proposta, mas retiraram-na depois da recusa e dos protestos do Bloco e do PCP com o pretexto de que tinha combatido na Guerra Civil Espanhola ao lado dos Nacionalistas (ou seja, quando era um adolescente). Não sei de onde vem essa desinformação; mesmo que fosse verdade, estou certo de tais partidos que aplaudiriam outrém que fosse veterano das fileiras republicanas (que também cometeram as suas atrocidades). O que é certo é que a mesma gente que se indignou com a ausência de Cavaco Silva no funeral de Saramago vem agora invocar razões políticas - e falsas - para recusar um mero voto de pesar a um vulto respeitável da poesia e do teatro. Um voto de pesar, note-se, não uma homenagem, ou dias de luto. Ficaram claros os argumentos culturais desta gente: se não pertencem à sua trincheira, devem ser esquecidos e ostracizados. É a velha tara marxista de que a arte será sempre um meio para atingir objectivos "sociais", nunca um fim em si. E ainda se atrevem a zurzir quem não se curvou perante Saramago. Mal estiveram igualmente os proponentes, que deviam ter insistido na votação. Mas bom será que este caso não caia no esquecimento, e que seja recordado o seu papel de controleiros culturais quando os excelentíssimos deputados bloquistas e comunistas invocarem qualquer "perseguição" a algum vulto do respectivo "sector intelectual".

quarta-feira, junho 23, 2010

Odiozinhos desnecessários


Entre as numerosas reacções da morte de Saramago, houve um pouco de tudo, desde as loas esperadas ou as comparações com Camões, até manifestações de maior azedume. A ausência de Cavaco parece-me pouco significativa. Talvez devesse lá comparecer, mas não vale a pena esbracejar, como o tentou fazer Louçã e uns quantos jornalistas, até porque na altura estava nos Açores. Chamou-me mais a atenção uma outra reacção e um contraste. O Observatore Romano comentou a morte do escritor de forma extremamente dura e amarga, referindo-se-lhe como "populista e extremista", de "ideologia anti-religiosa e marxista", sem "nenhuma admissão metafísica".

Bem sei que a relação entre o escritor e a Igreja era difícil e até hostil. Para além de alguns dos seus livros, ainda houve os constantes remoques de Saramago, como as picardias a propósito do seu último livro, ou quando disse, num acesso de primarismo, que "as religiões só serviram para dividir os homens". Nunca simpatizei particularmente com a criatura. Mas a Igreja tem como missão salvar as almas e espalhar a Boa Nova, procurar a conciliação e o perdão. Deve procurar que qualquer criatura humana atinja a salvação, mesmo que tenha tido toda uma vida contrário aos valores cristãos. Não é fazendo obituários ressentidos que dá o bom exemplo. Só consegue assim mostrar espírito vingativo e prolongar as querelas para além da morte do velho adversário. Para mais, numa altura em que o Papa tenta a reaproximação entre a Igreja e a Cultura, esta atitude atira por terra uma boa parte desse esforço, qual Sísifo ressabiado. Não é possível querer chegar aos agentes culturais atirando-se àqueles que a vituperam na hora da sua morte.

Em claro contraste com o artigo do jornal, a Igreja católica portuguesa, através do comunicado emitido pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, lamentou a morte do escritor, e muito embora recordasse as polémicas que com ele manteve, não deixou de o considerar um "grande criador da língua portuguesa e expoente da nossa cultura", aludindo ainda ao seu interesse pelo texto bíblico e a "vivacidade do debate" que daí decorreu. Não deixou que as suas amargas críticas se sobrepusessem à criação literária e à relevância artística do autor. Deu um salautar exemplo de cristinianismo - caridade, sensibilidade cultural, conciliação - que devia fazer pensar os jornalistas do Observatore Romano.

Bento XVI veio a Portugal também com o intuito de mostrar aos nossos prelados alguns exemplos de boa prática eclesial, universalidade do catolicismo e divulgação cristã, para além de discursos redondos e cerimoniazinhas sem nexo que por cá se vêem. Mas por uma vez, a Igreja portuguesa mostrou-se à altura de dar algumas lições a Roma. Que a aproveitem.

sexta-feira, junho 18, 2010

José Saramago 1922 - 2010
Morreu Saramago. É sim dúvida uma referência literária contemporânea, além de original, e que deve ser enaltecida por isso. Mas não façam dele, como já se ouve, o que manifestamente não era: um "combatente, toda a vida, pela liberdade". Sem esquecer, claro está, que uma referência literária não é necessariamente, uma referência moral. São aliás duas coisas que raramente se encontram numa mesma pessoa.
Ióiós
Eu disse no post anterior que o México era razoável? Acho que os subvalorizei. Ou então, a França, que perdeu 2-0 com eles, é que é bem pior do que se pensava. Os Mundiais dos gauleses são sempre uns autênticos ióiós: não se qualificam (1994, cortesia de Kostadinov), ganham a Taça (1998), são arredados na fase de grupos (2002), chegam à final (2006), voltam a desiludir (2010). Pelo sim pelo não, apostava neles para daqui a quatro anos.

quinta-feira, junho 17, 2010

Mundial


O Mundial começou, e até já entrou na segunda ronda. Não tenho seguido com o mesmo interesse de outros certames. O facto de ser em terras africanas não me dá qualquer acréscimo de interesse. Até acho que mo tira, e não é só por causa daquele infernal tubo de plástico que imita um enxame de vespas durante hora e meia. Se uma vuvuzela já é irritante, uns milhares ao mesmo tempo devem ser insuportáveis. é um dos preços a pagar por se querer levar este tipo de eventos a terras distantes. Os outros são algumas vergonhas, como manifestações de stewards por não serem pagos, e já nem falo da crónica insegurança daquele país.


Outro motivo de pouco interesse é a nossa Selecção, que continua a ser aquele bocejo com Cristiano Ronaldo a fazer que joga. Contra uma Costa do Marfim surpreendentemente bem organizada e com boa defesa (consequências de Mr Eriksson ou já era assim?), tivemos a sorte de Drogba arriscar pouco por causa do braço. As equipas de Queiroz continuam a ser a mesma coisa insípida e sem garra do costume, e sem Nani isso torna.se mais visível. Só um surpreendente Coentrão consegui agitar um pouco as laterais. Viu-se futebol a espaços, como se tem visto neste Mundial. Eis talvez o outro motivo para a minha falta de interesse. Quantos grandes jogos se viram até agora? E com tal escassez de golos, quantos registará o melhor marcador da prova? Parece-me que o facto de haver tantas selecções "exóticas", de que os senhores da FIFA tanto gostam, e que marcam presença como já não se via desde o Mundial de 1982, levam o jogo a esta pobreza franciscana. Se em Espanha 82 tínhamos coisas como o El Salvador e o Kuweit, agora temos as duas Coreias numa mesma prova, a Eslováquia, e os repetentes Nova Zelândia e Honduras.


Até agora, viu-se uma Alemanha digna do seu nome, uma Holanda a tentar imitá-la, ainda pouco certa do seu rumo, interessantes Coreia do Sul, Gana e Chile, e uma Argentina que com um treinador a sério daria cartas. Grandes desilusões até agora foram a Inglaterra e a Espanha, que por várias vezes ficou arredada mais cedo quando era considerada favorita. A Itália empatou com um complicado Paraguai, e os restantes adversários são fraquitos, por isso nem terá muito com que se preocupar.




Paradoxalmente, há um mesmo grupo onde as desilusões se misturam com as maiores emoções. Trata-se do Grupo A, que acolhe a anfitriã, o México, que me parece uma equipa muito razoável, a antiga campeão França e o outrora temível Uruguai. Um dos poucos jogos que segui foi precisamente o confronto entre estas duas últimas equipas, que já ergueram a Taça do Mundo. Entre dois azuis, torci pelo celeste, tendo em conta as más recordações que os Bleus franceses nos dão. Vi um jogo quezilento, sem grandes oportunidades de golo, em que os gauleses nem contra dez conseguiram marcar. Sem Zizou as coisas tornam-se complicadas. Quanto aos uruguaios, há já muito que não conseguem surpreender. Até hoje, em que aplicaram chapa 3 à África do Sul, comandada pelo técnico ex-campeão do Mundo Carlos Alberto Parreira. Não terá sido um Maracanazzo como na dramática final de 1950, mas deixou os da casa quase em estado de choque e em sérios riscos de não se apurarem para a fase seguinte. E notou-se que as vuvuzelas diminuíram de tom. Se isto servir para as calar, os Celestes levam já o meu apoio para a conquista da Taça dourada, excepto no momento em que enfrentarem Portugal. Quem cala aqueles instrumentos do demónio só pode ser uma selecção abençoada.




terça-feira, junho 15, 2010

As medidas para a desertificação



Depois das promessas iniciais, Isabel Alçada já está a descarrilar. As decisões dos últimos tempos foram valentes tiros no pé, um a seguir ao outro. tivemos primeiro a história da passagem dos alunos do oitavo ano para o décimo mediante alguns exames, que é um belíssimo desincentivo às faltas e ao copianço. Depois, a decisão, que já começou a ser concretizada, de fechar todas as escolas com menos de vinte alunos. Parece que tais situações são "criminosas" e causa de "abandono", "exclusão" e "insucesso escolar". Não se percebe bem porquê, excepto se pensarmos nos critérios habituais do socratismo.


A desculpa do "insucesso escolar" é apenas areia para os olhos. As verdadeiras razões são outras. Uma é a de economia de recursos, humanos e materiais. Até se perceberia caso se tratasse de escolas com menos de cinco ou dez alunos, mas nunca de vinte. A outra razão prende-se com o fecho de inúmeras estruturas locais. Para além das razões de gestão, há a ideia não confessada, mas explícita, de se acabar com as aldeias e o mundo rural. É quase impossível encontrar uma aldeia com mais de vinte crianças em idade escolar. Os propósitos de José Sócrates são os de "modernizar o país", como ele afincadamente repete. Ligada a esta ideia está a de vida urbana, que obviamente exclui toda e qualquer marca de ruralidade, considerada "atrasada", "ignorante" e "medieval". Acelerou-se a extinção de serviços de saúde, de instrução, etc, com os mesmos argumentos de "racionalização de meios". Já se fala em extinção de comarcas e até em fusão de concelhos. A desertificação do interior, iniciada nos anos sessenta, está em marcha.




Como acontece a muita gente que nasceu nesse interior, Sócrates tenta camuflar o melhor que pode as suas origens, pretendendo passar por homem moderno, cosmopolita, desempoeirado e sofisticado. Essa preocupação em atirá-las para as costas é visível na sua obsessão com as novas tecnologias, cujo corolário é o famoso Magalhães.


Outra marca é este afã anti-rural, que tenta disfarçar com a construção de meia dúzia de estradas. Mas todos sabem no que resultarão medidas como as do fecho destas escolas: as crianças terão de se levantar ainda mais cedo para ir para a vila e a pequena cidade, ganharão a ideia de que viver na aldeia não é "moderno" (ainda para mais quando nelas impera a velhice, esse transtorno dos tempos contemporâneos), e forçosamente abandonarão a aldeia, com os pais ou logo que tenham de trabalhar. Os pequenos povoados envelhecerão e desaparecerão. A terra ficará deserta, semeada de ruínas esquecidas, charnecas, mato e montes, entrecortadas por estradas entre uma e outra cidade. A agricultura tenderá a ser ainda mais marginalizada, excepto algumas culturas específicas, como o vinho, ou as hortas comunitárias, ou ainda os campos de golfe dos resorts turísticos em redor das barragens resultantes do respectivo plano nacional, que afundará mais campos e estruturas centenárias como a Linha do Tua. Assim se realizará a tão ansiada "modernização do país", que nos aproximará fatalmente, como nos tentam convencer, dos "índices de desenvolvimento humano" dos "países civilizados". Mas quando isso acontecer, e os subúrbios estiverem insuportáveis e incomportáveis, as pessoas lembrar-se-ão que precisam de produtos da terra para comer, e de espaço para viver. Nessa altura, José Sócrates já não governará Portugal.


sexta-feira, junho 11, 2010

Schwarzenbach em Ukhaidir


Entre os autores dos obras de viagens de que falei há dias destaca-se Annemarie Schwarzenbach, a viajante suíça que passou pelo Europa Central, em tempos de ascensão do nazismo, pelo Médio Oriente anterior aos nacionalismos, e pelos Estados Unidos da Grande Depressão. Pelo meio também esteve em Portugal nos primórdios do Estado Novo.
O CCB organizou há não muito tempo uma exposição do seu legado fotográfico, onde constam as paragens atrás descritas. Dela constavam tanto fotografias da autora como com a própria. Annemarie surge quase sempre com ar melancólico, como se as suas inúmeras viagens lhe atribuíssem um eterno estatuto de exilada da Suíça, que tão pequena e pacata era para si. O seu ar andrógino mas belo (não tinha reparado devidamente no seu rosto, que recorda, por exemplo, Cate Blanchett) distinguiam-na como um ser único, sem contar com a sua queda pela exploração de terras exóticas, prática tão pouco comum às mulheres da altura e de agora...




No Médio Oriente circulou entre a Mesopotâmia e a Pérsia, descobrindo e dando a descobrir aos europeus imagens que eles só conheciam dos relatos dos seus antepassados. Através das suas fotografias e dos seus artigos, recordou de novo paragens esquecidas ou desconhecidas. Entre elas contava-se a fortaleza-palácio de Ukhaidir, ou Ukhaidar, no coração do Iraque, uma enorme construção do século VII, isto é, dos tempos de maior expansão do Islão e do surgimento do Califado dos Abássidas, de Bagdad. Tinha como objectivo não só a de protecção de eventuais perigos como também de caravançarai, ou paragem para viajantes.


A imagem da fortaleza, num território inóspito e deserto, impressiona pela sua grandiosidade e dimensão. Dir-se-ia que aterrou ali de repente, atirado por Alá qual Kaaba iraquiana. A UNESCO classificou-a como património da Humanidade aqui há uns anos, ainda em tempos de Saddam, mas inexplicavelmente, ou talvez por o Iraque ser um destino tão recomendável pela sua segurança como a África do Sul, os registos que se encontram, mesmo na net (e na Wikipedia) são mais que escassos. Será um local obscuro para a grande maioria das pessoas, e seria também para mim caso não tivesse visto a sua imagem a ocre e branco, tirada nos anos trinta, surgido do nada.


A importância dos exploradores é também essa: registar para a posteridade locais e situações que no futuro, mesmo como novas tecnologias, dificilmente se poderiam descortinar. No caso do Iraque, por causa da sua situação política e social. As fotos e os artigos, chegando até aos nossos dias, encarregaram-se de os testemunhar

Schwarzembach assistiu aos grande fenómenos sociais do seu tempo, ainda se casou (e separou), ainda passou por África, antes de regressar à Suíça, já com a 2ª Guerra em marcha. Morreu aos 34 anos, nos anos da Guerra, ela, que tinha percorrido paragens tão inóspitas e perigosas, na neutral Suíça, de ferimentos resultantes de uma queda de bicicleta.

domingo, junho 06, 2010

A invocação civilizacional levada ao extremo

 

As notícias foram tantas que acabei por não ficar com uma opinião sólida sobre o caso do navio apresado pelas forças navais de Israel. Ou por outra, fiquei com a mesma: nesta questão não se pode ficar completamente de um lado. O navio era mais que suspeito, transportava armas e os soldados israelitas foram atacados por um bando de "activistas dos direitos humanos" também eles armados. O activismo a favor de Gaza é uma uma coisa muito estranha, porque parece contrariar os seus propósitos pacíficos. E todos sabem quem manda em Gaza e quem distribui a ajuda humanitária que lá chega.


Por outro lado, Israel normalmente reage sempre à bruta, matando dez por cada ferido do seu lado, lançando uma expedição ofensiva à sobrelotada faixa por cada rocket que cai no quintal de um colonato. Os resultados são pior emenda que o soneto. E com Netanyahu no poder, em coligação com os ultra-sionistas de origem russa, a coisa tende a piorar. Mas o que me faz mais espécie é que os defensores de toda e qualquer acção israelita invocam amiude que Israel, na sua luta contra vizinhos e árabes que os querem empurrar para o mar, está a "defender a civilização ocidental das hordas bárbaras dos sarracenos". Até certo ponto é verdade. Mas o argumento de "defensor da civilização ocidental" torna-se perigoso se levado ao extremo. A civilização que cresceu entre a Europa e os Estados Unidos, inspirada na antiguidade greco-romana, no Cristianismo e no Iluminismo é com certeza superior às outras pelos valores que defende, pelos ideais que inspirou e pelas vias que escolhe. Mas convém não exagerar na sua defesa a todo o custo: bem vimos os desmandos no Iraque sob esse argumento. Podemos também falar das Guerras Mundiais e de alguns exemplos miseráveis do colonialismo, como a destruição das sociedades pré-colombianas pelos espanhóis, ou a forma como os belgas dominaram o Congo. E recordar que também os nazis, ao invadir a URSS, diziam defender "a civilização ocidental" contra "as hordas mongólicas comunistas". Por isso, defendam-se os valores do Ocidente, mas não de uma forma sine qua non. Até porque o fanatismo acaba por ser a negação desses mesmos valores.

sexta-feira, junho 04, 2010

O TGV também se pinta de vermelho

 

As manifestações sindicalistas do passado fim de semana, em Lisboa, tiveram o apoio do PCP e do Bloco de Esquerda, ou não fossem as mesmas organizadas pela CGTP, pelo que estranho seria que os citados partidos não as apoiassem, em especial o primeiro (se bem que o Bloco também tivesse as suas razões, até porque pelo meio andou um grupo de radicais anarquistas, mais preocupados em atirar objectos à polícia). A manif destinava-se a protestar contra as recentes medidas de austeridade do Governo.

Entre as reivindicações do costume neste tipo de eventos contavam-se o aumento de salários, a manutenção "dos direitos que Abril nos deu", a não privatização de empresas públicas, etc, etc. Mas quando se trata de saber como há de o governo diminuir o défice, a resposta ou é uma evasiva lírica para demonstrar que isso é um assunto "secundário", ou fala-se logo na diminuição de proveitos de políticos ou administradores de empresas, pelo menos a avaliar por um recente outdoor bloquista, que aponta uma série de empresários, mesmo que alguns sejam do sector privado (que curiosamente são os que auferem menores rendimentos, se as contas do Bloco baterem certas).

Mas foram precisamente estes partidos que ainda há dias reiteraram o seu apoio ao avanço das grandes obras públicas, a começar pelo TGV, de entre todas a de rentabilidade mais que duvidosa. Para mais, os que irão utilizar tal transporte serão certamente aqueles que têm mais posses, e não os que participaram nas manifestações. Não é por haver TGV que as chusmas de pessoas que viajam em Intercidades entre Lisboa e Porto o vão deixar de fazer - caso contrário, fá-lo-iam de avião (o Alfa foi pensado para fazer as vezes do transporte aéreo, em versão um pouco mais vagarosa). Será que os dirigentes comunistas e bloquistas estariam a pensar em exclusivo neles próprios? Nesse caso, trata-se de uma inapelável traição aos valores colectivistas que apregoam e a rendição ao consumo puro. E uma coisa é certa: eles, que apontam sempre o dedo ao PS, PSD e CDS pelos males do país ficam a partir de agora co-responsáveis pelas futuras crises orçamentais e pelos atascanços nas finanças que tivermos. Quem se lança em aventuras deste calibre, contrariando descaradamente a sua doutrina, só tem que ser responsabilizado pelos seus actos. Ao lado dos partidos do "arco governamental", os partidos de esquerda radical e autoritária têm desde já a sua quota parte quando o défice nos voltar a bater à porta. é bom que ninguém se esqueça disso, na hora em que se pedir contas.
 

segunda-feira, maio 31, 2010

Histórias Etíopes e outros da mesma colecção




Entre a Feira do Livro de Lisboa e a do Porto (que começa a 1 de Junho, e que se realiza nos Aliados, depois de alguma hesitação em enviá-la para a Rotunda), faz-se sempre a lista dos livros que se pretende comprar e que se espera que estejam em saldo.


Este ano tinha uns quantos em mente, mas na de Lisboa optei por dois ou três, consoante as promoções. Havia no entanto um que me tinhas chegado aos ouvidos e que queria absolutamente apanhar: as Histórias Etíopes, de Manuel João Ramos. Faltava apenas uma hora para o início do decisivo Benfica-Rio Ave, e tinha acabado de chegar a Lisboa, mas apesar do nervosismo fui mesmo asssim comprar o livro. Por duas razões: o fascínio que eu tenho pelas terras do Preste João; e porque se insere na colecção de literatura de viagens que a Tinta da China tem lançado de há uns tempos para cá, sob a direcção de Carlos Vaz Marques. O da Etiópia é apenas o último de algumas pérolas dos últimos cem anos, muitas vezes quase esquecidas, que já passaram por Paris, Índia, Pérsia, Veneza, Japão, Afeganistão, Extremo-Oriente e Nova Iorque, e que me deram a conhecer autores como as excêntricas Annemarie Schwarzenbach ou Jan Morris. A ideia da colecção em si é óptima, aliada ao elegante grafismo dos livros, de capa duras. Não tenho todos (o de Veneza, por exemplo), e ainda tenho vários à frente antes de ler Histórias Etíopes, mas alguns já cá cantam. E fico sempre à espera de novas publicações da colecção, que tem pés para andar e tornar-se uma referência neste tipo de literatura, como a Colecção Vampiro ficou para os policiais (não têm de ser tantos), ou a esquecida Escaravelho de Ouro. E se me fosse permitido, e houver matéria de qualidade sobre isso, tinha já uma lista de locais onde poderiam recair os temas dos próximos volumes - e que gostaria de visitar ou revisitar, claro: Buenos Aires, São Petersburgo, Israel, Rodes, Istambul (e costa sul do Mar Negro), Nápoles e Andaluzia. Ia acrescentar Transilvânia, mas para isso já existe Danúbio. Mas há mais, muitos mais à escolha. O Mundo é imenso, felizmente, e a colecção arrisca-se a também o ser.

domingo, maio 30, 2010

As vuvuzelas da desgraça

A extraordinária turma que o Professor Carlos Queiroz resolveu levar à África do Sul teve a sua primeira "prova de fogo" contra Cabo-Verde, formada sobretudo por jogadores das divisões secundárias do campeonato. O resultado saldou-se por um rotundo zero, e a exibição, que eu não vi, segundo rezam as crónicas, esteve pouco acima da nulidade. Na Covilhã, por entre os bocejos, safaram-se Nani e um Coentrão a querer mostrar serviço. Nada que espante muito de jogadores a querer poupar-se para os jogos a sério; mas espanta ainda menos se pensarmos no grupo em questão, e que o seu treinador é Carlos Queiroz. Uma selecção que pretende ultrapassar a Costa do Marfim, enfrentar o Brasil e dominar a Coreia do Norte não colherá certamente bons augúrios ao não conseguir fazer um golo aos bons ilhéus.
A convocatória tem toda ela disparates que não se percebem, como as chamadas de José Castro e Ricardo Costa, que pouco jogaram este ano, a de Beto que também pouco esteve na baliza, e pior ainda, a de Daniel Fernandes, deixando de fora jogadores como Quim, guarda-redes dos campeões nacionais e o menos batido do campeonato, e Makukula, autor de 21 golos esta temporada, na Turquia. E talvez João Moutinho tivesse lugar. Vá lá que não leva Boa-Morte ou Caneira...
Todas as selecções têm escolhas mais bizarras ou duvidosas, e nenhuma está isenta de polémicas. Há sempre quem fique desiludido por não ir, e quem não compreenda certas chamadas. Mas Queiroz exagera. Há coisas simplesmente estapafúrdias aos olhos de qualquer leigo na matéria. Juntando isso ao facto do seleccionador nacional ser um perdedor profissional, com um currículo inversamente proporcional à importância das equipas que treina, que na sua longa carreira apenas obteve os dois títulos de juniores e uma Taça de Portugal, é de esperar o pior. Para mais, o Mundial será fora da Europa, na África do Sul; talvez os portugueses lá emigrados se disponham a deixar as suas lojas trancadas para apoiar a equipa, mas é bom recordar que nunca fora do seu continente Portugal teve uma prestação positiva num _mundial de futebol (um trauma que se estende às restantes equipas europeias, já que nunca nenhuma conseguiu ganhar a Taça fora do Velho Mundo). A coisa não promete grande sucesso. E as irritantíssimas vuvuzelas são como que trombetas de desgraça. Pode ser no entanto que para nós haja milagres e soem antes as trombetas de Jericó, derrubando as muralhas adversárias. Mas seria melhor sem os Black Eyed Peas na bagagem (outra brilhante escolha do Prof. Queiroz).


quinta-feira, maio 27, 2010

Pão de pobre

O homem, de densa barba grisalha e um fato com remendos, está sentado, encostado à parede de um prédio, quase ao dobrar a esquina, pedindo dinheiro ou um cigarro a quem passa. De repente, cai-lhe um jacto de água em cima. Não se trata de maldade alheia: a água das chuvas dessa manhã soltou-se de um toldo que cobre uma varanda uns andares acima, precipitando-se exactamente onde se encontrava o pedinte. O seu ar é mais de estupefacção que de desanimação. Recordei-me logo daquele provérbio brasileiro que vi certa vez: pão de pobre quando cai, cai com a manteiga para baixo.

sábado, maio 22, 2010

Taças europeias

Depois do Atlético de Madrid de Quique Flores, Simão, Reyes e (ainda que não inscrito nas provas europeias) Tiago ter surpreendentemente conquistado a "Euroliga", com apenas duas vitórias e um sem número de empates salvadores, em Hamburgo, face ao Fullham do sr. Al-Fayed, do Harrods, Madrid intromete-se igualmente na final da Liga dos Campeões. não em clubes, que o Real dos galácticos parte 2.0 não chegou lá, mas porque o palco é o seu Santiago Bernabéu. José Mourinho conseguiu evitar a suprema humilhação do Barcelona lá se sagrar campeão europeu, e com os rumores de que pode treinar Cristiano ronaldo, Kaká & Ciª para o ano, é o homem do momento na capital espanhola. Ninguém apostaria no seu envelhecido Inter de Milão como finalista da prova, até porque os nerrazurri não ganham o troféu há mais de quarenta anos. O adversário também não seria o primeiro das apostas, mas sempre se votaria mais depressa no Bayern para lá chegar. Van Gaal já treinou com Mourinho às suas ordens, e tanto um como outro já foram campeões europeus. Não faço grandes prognósticos sobre o vencedor, mas pela ausência de Ribery da equipa bávara, inclino-me ligeiramente para o Inter. Se os italianos levarem o caneco, estará cumprido o sonho do seu presidente, Massimo Moratti: o de ganhar o máximo título europeu para o clube, imitando assim o seu pai, Angelo Moratti, presidente do Inter nos anos sessenta, no seu período mais glorioso e fecundo (em que inventou o famigerado cattenacio). Moratti filho, também rival de Berlusconi nos negócios e na fortuna, gastou milhões ao longo dos anos em jogadores de renome mas que pouco deram ao clube, cujas equipas estavam constantemente a mudar. Só depois do Calciocaos é que a situação lhe começou a ser favorável. Agora tem a oportunidade de conseguir o mesmo que o seu pai, fazendo da dinastia Moratti um símbolo do clube do Biscione.

PS: esta ideia peregrina da final ser ao Sábado deve-se a quê? Às imposições dos canais televisivos? A alguma incompatibilidade no estádio madrileno? a razões ligadas ao Mundial? Por uma vez experimenta-se, mas espero que seja um ano sem exemplo. final europeia que se preze é para jogar à quarta-feira, e as televisões que se danem.

De Espanha, bons ventos...
O governo espanhol pode até não estar com ideias de o interromper, nem de o deixar em stand-by. Mas adiou-o por um ano, para fazer face à grave crise económica e financeira que o país atravessa, e que não se compadece com torrentes de obras públicas. Por cá, o governo de Sócrates continua a fazer finca-pé e a atirar-se de cabeça, recorrendo como sempre aos contribuintes para fazer face ao défice orçamental. Até poderia ser uma medida razoável caso também se tivesse lembrado de cortar nalgumas obras de vulto, ou ao menos afiá-las para altura mais favorável. Mas não Sócrates é assim mesmo e não muda. Nem com o exemplo do lado, que ele tanto gosta de imitar, perdeu a teimosia e a falta de humildade. Uma atitude que ainda nos trará muitos dissabores.

quarta-feira, maio 19, 2010

Scarlett em palco
No Herdeiro de Aécio recordou-se a magnífica banda sonora de Lost in Translation, talvez uma das melhores trilhas sonoras, ou uma das que melhor se adaptou a um filme. Surgem-nos Girl, dos Death in Vegas, e Just Like Honey, dos Jesus and Mary Chain, esse clássico do "psicadelismo incandescente" dos anos oitenta. É precisamente esta última que encerra o filme, e que, para mim, o recorda de forma mais vincada, dando-lhe o tom melancólico e cinzento que rodeia Scarlett Johansson e Bill Murray, perdidos numa Tóquio de néon. E tanto marcou os cinéfilos que os irmãos Reid, os mentores do grupo, que o reanimaram em 2007, interpretaram o tema nesse ano no festival de Coachella, fazendo dueto com a própria Scarlett Johansson. Eis aqui o testemunho (o video está um pouco tremido e longe do palco, mas não se arranjou melhor).

terça-feira, maio 18, 2010

A redenção do Terreiro do Paço
O espaço que hoje tem o nome oficial de Praça do Comércio, mas que é para todos o Terreiro do Paço, passou ao longo dos séculos por inúmeras convulsões. Invasões, ocupações, defenestrações, sismos, tsunamis, desfiles triunfais, regressos de derrotas, revoluções, regicídios, de tudo assistiu aquela praça, entre a grande mudança cosmética que levou no século XVIII. E também autos-de-fé, ao que consta.
Nunca na sua longa vida tinha tido uma missa rezada pelo Papa. Outros estadistas foram lá recebidos, como Isabel II, com pompa e circunstância, mas nunca o Sumo Pontífice da Igreja Católica. E na semana que passou, a praça teve mais um grande momento na sua história. Sob um céu azul e o ar tépido (parece que São Pedro ajudou mesmo o seu sucessor), com pendões nos edifícios ocres e fragatas e veleiros como cenário de fundo, encheu-se de gente para ver e ouvir o Papa. O altar, simples mas imponente, era o remate ideal para a cerimónia. Viam-se pessoas de todas as idades, estratos e feitios, portugueses e estrangeiros - isto sim, uma autêntica demonstração de pluralidade. Apesar de toda aquela mole humana, não havia a sensação de sardinha em lata; o espaço estava ocupado, mas sem estar compacto. Pode-se descrever o ambiente como de solenidade animada, que percorreu todo aquele imenso espaço quando o Papa rezava a homilia, e que explodiu no fim quando saiu. A destoar naquela manifestação de paz, só mesmo os snipers nos telhados dos ministérios. Mas tanto a emoção da cerimónia como a sua beleza estética e gráfica, enquadrada por uma das mais belas praças da Europa, vestida de gala para receber o ilustre convidado, não saíram beliscadas. Tudo correu na perfeição. Como se depois de tantos infortúnios e tragédias, a praça quisesse agora acolher uma manifestação de harmonia. E redimir-se, purificando-se com uma banho de multidão. Afastar definitivamente as memórias sinistras dos autos-de-fé de outras eras, fazendo as pazes com uma Igreja que lhe devolveu a importância e o seu cargo de sala de visitas dos grandes acontecimentos.

segunda-feira, maio 17, 2010

Uma semana de acontecimentos raros

 
Chega ao fim uma semana estafante mas memorável. Dificilmente verei outra em que possa comemorar um título do Benfica e ver o Papa em Portugal, no espaço de dois dias.
Há uma semana, consegui ver o epicentro dos festejos do título (como de certa forma já vira há cinco anos, no Bessa, no jogo que devolveu o título 11 anos depois) no Marquês de Pombal. Era verdadeiramente alucinante o ambiente que lá se vivia à chegada dos campeões nacionais. O autocarro que levava os jogadores do Benfica no topo parecia uma barca a vogar no meio do oceano, tal era o mar de gente que o rodeava. Pude vê-los de perto quando entraram na Avenida da Liberdade e constatei que os mais eufóricos eram os mais velhos: bastava olhar para a cara extasiada de Rui Costa, ou Jorge Jesus empunhando uma bandeira às riscas vermelhas e brancas, que mais parecia o logótipo da Olá.
Na Terça, vi o Papa duas vezes, de manhã, sem contar, com a ocasião. De tarde avistei-o já mais longe, rezando missa. Não tanta gente como na festa do Benfica, mas ainda assim uma multidão considerável. Se no Domingo havia euforia e vermelho por toda a parte, aqui o ambiente era suave, harmonioso, com o azul e o amarelo a predominarem. A diferença de tons das duas celebrações fazia parecer que se tinha passado do inferno (mas sem monstros) ao céu.
Melhor só mesmo se tivesse podido ir aos Aliados, na celebração que houve no Porto. Mas seria pedir demais. A onda benfiquista e a oportunidade de assistir a uma missa rezada pelo Sumo Pontífice ao ar livre já foram dádivas preciosas em tão curto espaço de tempo.

sexta-feira, maio 14, 2010

Progressos
Como se vê pelos comentários de alguns amigos, a moda agora é dizer que "o Benfica lá ganha um campeonato de cinco em cinco anos". Em 2005, diziam que ganhava um de onze em onze. Já é um progresso. Daqui a nada, dirão que só ganha de dois em dois. Todo o mundo é composto de mudança - ou de ciclos.

terça-feira, maio 11, 2010

É já a partir de hoje


32

Houve algum sofrimento, é certo, porventura desnecessário, mas o Benfica chegou ao seu 32º título de campeão nacional. Um número arrasador em qualquer campeonato. Como arrasador foi o ataque, com 78 golos marcados e 20 sofridos, melhor ataque e melhor defesa em conjunto com o Braga. E como cereja em cima do bolo, o "Tacuara" Cardozo sagrou-se o melhor marcador, com vinte e seis golos, outro galardão que o Benfica não tinha há 19 anos.


Paradoxal parece ser a apreciação do campeão para alguns: dificilmente uma equipa que jogue tão bem, que encha os estádios e que tenha mostrado tanto futebol ao longo de uma época é alvo de tanta contestação como a que aconteceu este ano. Ao que parece, os castigos a alguns jogadores que se entretiveram a praticar pugilismo e a nobre arte da cepa pelas costas seguida de fuga foram considerados uma coisa vergonhosa, dando a entender que bater em adversários é um método lícito para ganhar jogos. Como entendo que não é, e que o Benfica não precisou de bater nos outros jogadores nem de crivá-los com objectos de rua, a começar por pedras, julgo que a justiça deste título não se pode pôr em causa.


A Jorge Jesus se deve o triunfo e o carrossel de ataque da equipa, mas algumas peças já lá estavam, e melhoraram, como David Luís, Di Maria, Carlos Martins e Cardozo, e outras chegaram, para completar a máquina, casos de Saviola, Ramires e Javi Garcia. foram todos inexcedíveis, e mostraram o seu grande valor. Claro que Vieira merece uma palavra, mas é bom não esquecer o jovem director desportivo que permitiu que o título fosse possível: Rui Costa, a mostrar que percebe enormemente do assunto.


E a festa correu lindamente. Nunca tinha comemorado um campeonato do Benfica no Marquês de Pombal. O próprio Papa Bento XVI, no edifício do BES, parecia abençoar aquele título. A multidão em delírio é um espectáculo único, assim como ver Jorge Jesus eufórico, com o cabelo vermelho e com uma bandeira às riscas que mais parecia o antigo símbolo da Olá! Eram aliás os mais velhos aqueles que festejavam efusivamente. Deu para ver quando o bus que transportava os campeões nacionais atravessava com dificuldade a rotunda (que já estava reservada para o efeito) e começava a longa marcha pela Avenida da Liberdade abaixo. A cara de alegria pueril de Rui Costa é absolutamente inesquecível. Mas não irrepetível.

domingo, maio 09, 2010

O regresso dos liberais


Afinal as coisas no Reino Unido complicaram-se mais do que o previsto: houve inúmeras atribulações nas secções de voto, eleitores cujos nomes não constavam dos cadernos eleitorais, o Labour sofreu uma pesada derrota, os conservadores não têm maioria absoluta, e os liberais-democratas ficaram com menos representantes nos comuns do que os que tinham anteriormente.
Acaba por ser um pouco frustrante para os últimos, depois de toda a mediatização em volta de Nick Clegg. Ainda assim deverão ser o fiel da balança e talvez um esteio para David Cameron, apesar de algumas diferenças profundas, o que lhes daria uma importância que não têm desde os anos vinte.

Os liberais-democratas descendem directamente do Partido Liberal (muito mais do que o Partido Social Democrata, uma dissidência trabalhista dos tempos da liderança esquerdista de Michael Foot), que por sua vez tem como antepassados os Whigs, os opositores históricos ao absolutismo real, que ganharam enorme importância com a Glorious Revolution de 1688, apoiando a nova dinastia dos Hanôver, que continua a ser a reinante, apenas com a alteração patriótica e oportuna do nome para Windsor, ao tempo da 1ª Grande Guerra. Os Whigs apoiavam-se na burguesia comercial e industrial, e em meados do século XIX converteram-se no Partido Liberal, devedor de pensadores como David Ricardo, Bentham e John Stuart Mill. Daí advém a tradicional divisão nominal e ideológica nos países anglo-saxónicos entre liberais e conservadores. A rotatividade entre estas duas forças seguiu-se por várias décadas, durante as quais os liberais chegaram ao governo do país, e figuras como Gladstone, Asquith e Llloyd George governaram o império Britânico, com os dois últimos a comandar o país durante a 1ª Guerra. Lloyd George tornou-se um dos vencedores do conflito, mas as suas ideias mais brandas para com a Alemanha foram recusadas por Clemenceau e Wilson, com os resultados conhecidos. Assinou também o tratado que criou o Estado Livre Irlandês.

A partir de 1922, os liberais saem do governo para não voltar, excepto em efémeras coligações. O crescimento do Partido Trabalhista, que arrastava as classes operárias e os sindicatos, e começava também a atrair a classe média, minou a sua base eleitoral, e a partir dos anos trinta o partido sofreu uma enorme erosão na sua representação parlamentar. Com a ascensão definitiva dos trabalhistas a um dos dois partido da rotatividade, com os conservadores, sobretudo depois da estrondosa vitória de Attlee em 1945, o Partido Liberal viu-se remetido a um apagado terceiro lugar, sem real peso na vida política.


Nos anos oitenta, já com o Reino Unido na CEE (de que foram ardentes defensores), fizeram uma aliança com o novo Partido Social Democrata, com o qual se fundiriam em 1988, originando o moderno Partido Liberal Democrata (os Lib Dems). Alguns dos seus membros tornaram-se notórios, como Paddy Ashdown, que deppos de dez anos a liderar o partido alcançou o cargo de Alto Comissário para a Bósnia. Seguiu-se os escoceses Charles Kennedy e Sir Menzies Campbell, até à actual revelação política britânica, Nick Clegg.
Com a indefinição governativa, David Cameron poderá muito bem ser obrigado a aceitar o apoio de Clegg, apesar de algumas incompatibilidades, como a Europa e a reforma do sistema eleitoral. No entanto, os Trabalhistas podem aproveitar qualquer suspensão nas negociações e intrometer-se, mas já sem Gordon Brown, condição prévia para qualquer acordo com os Lib Dems. E talvez entre em cena outra das jovens estrelas políticas do outro lado da Mancha, e rival à altura de Clegg: o ministro dos Negócios Estrangeiros David Miliband. De uma ou de outra forma, parece certo que os liberais recuperem a sua histórica importância, depois de noventa anos de espera e de hibernação.

sexta-feira, maio 07, 2010

Tories are back



À hora a que escrevo, há apenas uma certeza, que de resto era tão previsível como os impostos: Gordon Brown está já a arrumar os tarecos de Downing Street para dar lugar a David Cameron. Não conseguiu segurar o desgaste do Labour nem a herança de Blair. Treze anos depois deste ter iniciado a fecundo período de governação do New Labour, os conservadores regressam ao poder, ainda que reciclados do thatcherismo. Para isso precisaram de queimar três líderes distintos mas sem carisma, até ao novato, etonian e apreciador dos Smiths Cameron, um compassive conservative, segundo o próprio. Resta agora saber com que maioria vão os tories ficar (ao que tudo indica, não é absoluta), e qual o peso político dos liberais-Democratas, da nova estrela política na Grã-Bretanha, Nick Clegg, mas do partido laranja falarei mais tarde.

E, claro, saber o que vai fazer agora Gordon Brown.
Aconselhável também este artigo de Francisco Mendes da Silva, no 31 da Armada, que contextualiza o blairismo. Não estou necessariamente de acordo com todas as suas premissas e conclusões, mas é interessante, porque ajuda a perceber a época em que o New Labour vingou, entre a Britpop e um novo cosmopolitismo londrino.

quinta-feira, maio 06, 2010

A Expo de Xangai
Abriu oficialmente há dias a Expo 2010 em Xangai, a exposição mundial que sucede à de Saragoça, em 2008. Estive na cerimónia de apresentação a Portugal, no Casino de Lisboa, Parque das Nações, cenário apropriado e propositado por ter sido também uma outra exposição mundial. Esta Expo 2010 tem como tema "Melhor cidade, Melhor Vida", o que mais do que um exemplo, deverá constituir um desafio para a china, tendo em conta a forma repentina e caótica como crescem as suas urbes, cujos mapas mudam em poucos meses. E Xangai é precisamente a maior das cidades chineses, uma megalópolis a caminho de se tornar a maior do Mundo, e também a mais cosmopolita do país, por razões históricas.

O espectáculo de apresentação teve uns números musicais mornos. Bem mais megalómano é o espaço da exposição, a maior de sempre, dez vezes a área da Expo 98. O tema poderá ser algo em que os chineses não serão um grande exemplo, mas a extensão tem tudo a ver com o gigantismo tão próprio da China e das suas ambições. Como compete a qualquer grande potência emergente, a organização deste tipo de eventos é mais uma forma de afirmação mundial, como o fora os Jogos olímpicos, como o Brasil também o demonstra. Já Portugal também tem uma representação bem à sua medida, numa pavilhão de cortiça. Se servir de incremento ao consumo de vinho português e à cortiça sempre servirá para alguma coisa.

domingo, maio 02, 2010

Portugal: o sentimento de fracasso dos catalães


Analisando o assunto do post anterior - o triunfo do Inter sobre o Barcelona - e as reacções culés, e olhando para o ódio a Mourinho, fico a pensar que os catalães não olham para os portugueses com bons olhos. Repare-se de novo no futebol: Mourinho é o que se vê (e a imprensa local trata-o por "tradutor"), Figo teve a pior recepção que um profissional da bola jamais teve no Nou Camp (até cabeças de porco lhe atiraram), a Baía, Quaresma e Simão as coisas nunca correram particularmente bem, e Fernando Couto teve uma passagem discreta. 

Não tenho grande conhecimento de passagens de notáveis de portugueses por outras áreas na Catalunha, mas o futebol, tão mediatizado, poderá ser um bom exemplo da maneira como se olha para nós nessas paragens. Olhando com alguma atenção, a História, parece explicar porquê.

O Condado de Barcelona uniu-se ao Reino de Aragão no Século XII, que por sua vez, com o casamento entre os Reis Católicos, se uniu a Castela, dando início à moderna Espanha. Com a chegada de Castela às Américas e a afluência dos metais preciosos, Sevilha tornou-se o grande entreposto comercial, relegando Barcelona para plano inferior. Até aí, a cidade catalã era um dos grandes portos do Mediterrâneo e dominava grande parte do seu comércio, até porque Aragão possuía ainda Valência, as Baleares, a Sardenha, Nápoles e a Sicília, e alguns territórios na Grécia. Mas as descobertas de novas paragens levaram o grosso do comércio do Mediterrâneo para o Atlântico, e para novos centros, como Sevilha, Antuérpia e Lisboa. Assim, o início da época de ouro portuguesa coincidiu com o declínio catalão. 

Muito mais tarde, na Guerra da Sucessão de Espanha, a Catalunha apoiou o Arquiduque da Áustria, candidato dos Habsburgos ao trono espanhol, contra as pretensões da França de Luís XIV. Também Portugal estava do lado dos Habsburgos, e o Marquês das Minas chegou mesmo a entrar em Madrid, mas isolado, acabou por sofrer sérios revezes e a França lograria atingir os seus objectivos, ainda que à custa de inúmeros territórios, colocando no trono um Bourbon, que aliás ainda hoje reinam. Quase toda a Espanha apoiava o candidato de França, o Duque de Anjou, neto de Luís XIV, excepto a Catalunha. Pagou caro o apoio aos Habsburgos, com a perda dos seus direitos e a abolição das suas Constituições, bem como o apagamento da sua língua, menorizada e posta de lado. O que resultou do Tratado de Utreque constitui uma enorme machadada na autonomia catalã, e a sua dissolução em Castela, de que demoraria dois séculos a recuperar.

Depois, há que não esquecer que na Guerra civil de Espanha a Catalunha esteve do lado Republicano, que lhe garantia autonomia, ao passo que Portugal dava apoio não-oficial ao campo nacionalista. Com a vitória destes e o advento do franquismo, o estatuto e a língua voltaram a ser suprimidos. Franco evocava os Reis Católicos, mas ao contrário destes, jamais recuperou o aceitou as Constituições catalãs.

Mais o maior motivo de inveja, ou de desagrado dos catalães em relação aos portugueses, é anterior, e terão sido as revoltas quase simultâneas, em 1640. A que ficou conhecida como Guerra dos Segadores (imagem acima) ergueu-se contra Castela e as medidas do Conde-Duque de Olivarez, primeiro-ministro de Filipe IV/III, proclamou a república e depois ofereceu a coroa condal a Luís XIII de França. Castela reagiu, venceu os catalães e os franceses e apoderou-se de novo da região, apenas cedendo à França algumas partes a norte. Os conjurados portugueses aproveitaram-se desta revolta e da "distracção" espanhola, defenestraram Miguel de Vasconcelos a 1 de Dezembro e coroaram Rei o Duque de Bragança. A guerra subsequente durou 28 anos, mas depois de pesadas derrotas os castelhanos reconheceram a sua perda. Já a Catalunha ficou subjugada e jamais recuperou qualquer traço de independência, embora goze hoje de uma larga autonomia. 

Mas fico com a impressão de que os catalães, mesmos que saibam pouca história, têm no seu subconsciente uma certa inveja e uma acrimónia contra Portugal, pelo facto da nossa existência enquanto país ser uma das razões do seu estatuto regional, e porque nos olham como uma nação que "recuperou" a sua independência, ao passo que a Catalunha regrediu na sua autonomia. No fundo, Portugal é a outra face da moeda catalã, o país que eles gostariam de ser e não são, desde que a sua revolta falhou e a nossa teve tanto sucesso que quase quatrocentos anos depois continuamos independentes e com as mesmas fronteiras.
Figo e Mourinho sentiram no ar esse sentimento de oportunidade perdida para outros.