segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Acabem com os "mídia"
 
Uma das coisas que mais solenemente me irrita é ouvir falar dos media pronunciado como "mídia". É verdade que os brasileiros, talvez por influência americana, não só falam como escrevem assim mesmo, com "i" (muitos locutores portugueses cometem esse erro, e por vezes outros ainda piores, como referir a cidade francesa Troyes pronunciando /trói"). Simplesmente, a palavra é latina, não anglo-saxónica, e deve ser pronunciada como tal. Parece que finalmente alguém reparou nisso publicamente. Ricardo Araújo Pereira, na sua crónica da Visão Boca do Inferno de há uns dias, recorda isso mesmo, com o humor oportuno do costume.

As queixas de um dos candidatos acerca dos "mídia" vieram reforçar uma espécie de preceito ligeiramente babilónico que estipula que as palavras de uma língua sejam pronunciadas com sotaque de outra. "Mídia" mais não é do que a palavra latina "media" pronunciada com sotaque inglês. Se optasse pela pronúncia correta "media", o candidato estaria apenas a revelar ao eleitorado que sabia latim. Pronunciando "mídia", mostra que sabe latim e inglês - só com uma palavra. É o máximo de erudição com o mínimo de meios, o que pode constituir vantagem política na medida em que documenta uma capacidade extraordinária para a gestão e aproveitamento de recursos.
É isto mesmo. Aprendam, senhores lusófonos.

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

O regresso do "cão raivoso"

A repressão dos rebeldes e revoltosos na Líbia, com recurso a mercenários de todas as partes de África e bombardeamentos da força aérea, revela que Kadhafi não deixou de ser o "cão raivoso", como lhe chamou Reagan, que era antes da sua "regeneração" táctica.


Recordemos. Muammar al Kadhafi, filho de beduínos e oficial do exército, chefiou um golpe de estado em 1969 que depôs o velho rei Idris e aboliu a Monarquia. Impôs uma república em que se auto proclamou "guiada revolução líbia", baseada nas "assembleias do Povo", com uma ideologia simultaneamente pan-arabista, socialista e islamita, em que na prática ele era a figura tutelar e inquestionável. Os opositores foram encarcerados aos milhares, e muitos foram publicamente enforcados.
Com os fundos das enormes reservas de petróleo, Kadhafi não apenas se lançou em programas de infra-estruturas e irrigação de campos. Na política externa, apoiou tudo o que era grupo terrorista, dos palestinianos (em operações de grande repercussão, como os atentados nos Jogos Olímpicos de Munique), ao IRA, da ETA aos diversos grupos armados que se opunham a regimes africanos rivais, além de ditadores tenebrosos como Idi Amin. Frequentemente recorria à "prestação de serviços" de gente como Abu Nidal e Carlos, o Chacal. Tornou-se assim um dos principais inimigos do Ocidente, particularmente dos Estados Unidos. A gota de água aconteceu quando uma discoteca em Berlim explodiu, vitimando soldados americanos. O atentado tinha sido ordenado pelo ditador líbio. Os americanos não hesitaram e bombardearam Tripoli e Bengazi, em 1986, neutralizando a máquina de guerra líbia e aterrorizando Kadhafi, que viu o seu palácio ser destruído e desde então passou a habitar exclusivamente em tendas. Esse valente susto parece que produziu os seus efeitos, não sem antes se verificar um último e terrível caso: a bomba que explodiu num avião sobre a aldeia escocesa de Lockerbie, matando todos os seus tripulantes. Depois disso, o coronel líbio apostou numa estratégia de moderação e conciliação, abrindo a economia da Líbia ao mundo e passando a ocupar um lugar "respeitável" entre as nações, como o velho líder excêntrico com trajes típicos e guardado por mulheres oferecendo boas perspectivas de negócio, particularmente do petróleo. Além de se reconciliar com a Itália, a antiga colonizadora, veio a Portugal na cimeira UE-África, em 2007, instalando-se na célebre tenda na forte de S. Julião da Barra. José Sócrates tornar-se-ia então um dos aliados preferenciais na Europa.

Agora, cercado, acossado e ameaçado, Kadhafi regressa à sua faceta mais temida e odiada e reage com extrema violência, o que originou ainda mais tumultos. A Líbia enfrenta uma autêntica guerra civil. Os rebeldes controlam a Cirenaica e a segunda cidade, Bengazi, onde flutua a bandeira da monarquia, e avançam para oeste, para Tripoli, guardada pela guarda pretoriana do regime verde e pelos mercenários. Tudo pode acontecer, desde o esmagamento da rebelião (e os muitos mortos não auguram nada de bom) até ao colapso do regime, cenário em que Kadhafi não hesitaria em rebentar tudo à sua volta, além da divisão do país em duas ou mais partes, dadas as diferenças tribais. Até há pouco mais de uma semana, este cenário era inimaginável.


A rebelião prolonga-se, com um crescente número de vítimas, os estrangeiros fogem apressadamente de barco, o valor do petróleo sobe e o futuro da Líbia não augura nada de bom. O seu coronel "guia da revolução" está disposto a levar o país consigo para o inferno.
PS: perdoem-me a imodéstia, mas ou muito me engano, ou este artigo do Público inspirou-se neste post.

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Trinta anos depois do "23-F"

Passam hoje 30 anos sobre a tentativa de golpe de estado pelos militares comandados pelo tragico e patético Tejero Molina, que tomaram as Cortes espanholas e fizeram os deputados reféns. A 23 de Fevereiro de 1981, a soldadesca aproveitou a sessão de tomada de posse de Leopoldo Calvo Sotelo como Presidente do Governo para raptar o poder legislativo e estabelecer um regime semelhante ao que acabara poucos anos antes. Contava ainda com divisões armadas em Valência e um conjunto de oficiais saudosistas do franquismo.


O sequestro durou todo o dia, mas o Rei frustrou os planos. À noite, Juan Carlos I, trajando o uniforme de chefe supremo das forças armadas espanholas, falou em directo na televisão para o país, mostrando a sua desaprovação ao golpe e reafirmando o seu apoio ao processo democrático. Depois disso, os golpistas desmoralizaram. Não havia mais nada que pudessem fazer. O franquismo esgotava o seu último fôlego, a Espanha consolidava o novo regime e Juan Carlos afirmava-se definitivamente como monarca firme, respeitador das leis gerais e respeitado pelo seu povo.


O mar e as suas razias

As tempestades que na semana passada fustigaram a costa portuguesa, com ondas que chegaram aos dez metros, não pouparam nenhuma região.

As vagas atacaram as dunas de Moledo (que já de si estavam vulneráveis, e que há vinte anos que têm vindo a recuar), derrubaram o passadiço de madeira e a marca das milhas, uma sentinela de pedra que ali estava para lá da memória, e por pouca não fizeram o mesmo ao moinho que serve de abrigo de veraneantes. O mar merece sempre respeito, especialmente no Inverno e em estâncias balneares, mas neste caso, e para quem conhece Moledo, provoca sobretudo temor. As imagens da duna tão frágil e do moinho sobre o precipício são angustiantes. Urge reconstruí-la e devolver a imagem de marca e a dignidade da praia mais setentrional de Portugal.



Fotografias retiradas de A Origem das Espécies.

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Depois de Mubarak

A saída de cena de Hosni Mubarak deixou no ar muitas certezas e algumas dúvidas. As certezas dividem-se em dois grupos de ideias opostas: uns estão certos de que a democracia á ocidental vai frutificar na república árabe, sem sombra de dúvidas; os outros dizem que o Egipto vai ser "o novo Irão", e que lá a democracia com a entendemos é uma ficção. Pela minha parte, prefiro ser prudente. Até agora sempre tinha visto Mubarak como um estadista autoritário mas longe dos piores, e que além do mais travava os avanços do radicalismo islâmico saído da Irmandade Muçulmana, inspirada por Qutb. Aliás, nunca era referido como "ditador" (ao contrário de Ben Ali, por exemplo), talvez por ser o sucessor de Nasser e Sadate. Bastou que o povo viesse à rua para as mais infames classificações lhe caírem em cima.
Certo é que já há muito havia descontentamento, e mesmo muitos do que já estavam acomodados diziam em surdina não gostar do velho militar. Mas tal como ocorreu noutros países, não foram as condições políticas a fazer cair Mubarak, mas a situação económica e a subida dos preços, aliada à corrupção. A revolta atraiu mais e mais apoiantes, perante a placidez do exército. Depois de muitos contorcionismos, Mubarak caiu mesmo. Não nos esqueçamos de outro precedente, também ele num grande país muçulmano controlado por militares: a Indonésia. Suharto governou com uma mão bem mais férrea até a situação económica o derrubar.

A situação está demasiado nublada para que se possam fazer vatícinios sem olhar para o lado. A Irmandade Muçulmana é heterogénea, e tanto tem no seu interior radicais que sonham com o Califado (de lá saíram os assassinos de Sadate, por exemplo, que agora estão na Al Qaeda), como pragmáticos que preferem o exemplo turco de Erdogan. Os principais líderes dizem inspirar-se nesta última linha, mas nem isso afasta as desconfianças. Os liberais do Wafd parecem ser poucos, e El Baradei surgiu de repente, depois de toda uma vida de serviços externos na ONU. Desconhece-se absolutamente o que quer a maioria da população.


Entre os medos de que ocorra o mesmo que no Irão em 1979, surgindo ali uma república sunita (que ironicamente seria um rival de peso para os persas), ou a chamada de atenção para os democratas-islâmicos turcos, vem-me à cabeça outro exemplo, igualmente turco: o de Kemal Ataturk. Saiu Mubarak, mas as forças armadas controlam a situação e gozam de grande popularidade entre o povo. Provavelmente farão a gestão da casa, e caso achem que há caminho para um regime com um certo grau de liberdade, permitirão que haja eleições mais ou menos livres. Mas não deverão sair de cena. E não sendo permissivos com islamitas, serão também mais duros nas suas posições para com Israel.

Entre euforias e cinismos, pode-se tirar de tudo um pouco e tentar prever esta situação confusa, que não deixará de influenciar todo o Médio-Oriente e o Norte de África.

Ao certo, e das poucas certezas absolutas que tenho neste momento sobre o assunto, é que o editorial do Público de sábado passado - "O dia em que o século XXI recomeçou", "a Praça Tahrir foi o símbolo das aspirações de toda a humanidade", "uma nova geração rejeitou para sempre o autoritarismo e a ditadura", "o 11 de Setembro acabou na Praça Tahrir" - é das coisas mais estúpidas que li nos últimos anos, em todos os periódicos possíveis e imagináveis.
O adeus do fenómeno


Ronaldo, o Fenómeno, o Ronaldinho que encantou Eindhoven, Barcelona, Milão e Madrid, entre outras, o melhor marcador de sempre de fases finais de Mundiais, campeão de Selecções por duas vezes (em 1994 e 2002), anunciou ontem a despedida dos relvados. Um problema de tiróide, que o impedia de perder peso, obrigou à arrumação das chuteiras. As lesões graves que teve na carreira já o tinham remetido para segundo plano nos seus últimos anos. Curiosamente, ganhou quase tudo mas nunca logrou vencer uma Taça dos Campeões Europeus, chegando ou partindo sempre no ano errado. Para a memória fica um dos mais geniais jogadores de sempre, os seus arranques supersónicos, as suas fintas como quem dança samba, os problemas que teve no dia da final do Mundial de 1998 (onde acabou batido por outro gigante da bola, Zidane), as lágrimas quando sofreu uma grave lesão nos ligamentos, a euforia dos golos da final do Mundial asiático. E golos como este, que correram Mundo nos anos em que encantava o futebol espanhol, e que ficaram para a história do desporto.


segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Legado precioso

Os White Stripes decidiram separar-se e encerrar actividades, antes que se tornassem anacrónicos, ou pior ainda, que se "reinventassem" sem ideias. Deixaram-nos no entanto hinos de estádio (literalmente) e algumas obras sonoras e visuais para a posteridade. Nem Kate Moss quis ficar de fora. Vede, confirmai e admirai.


sexta-feira, fevereiro 11, 2011

O triste caso de Augusta Martinho


A notícia da idosa encontrada morta em casa, após nove anos de silêncio, atordoou o país. Desgraçadamente, nem devia espantar muito. O abandono a que são votados os velhos e a enfastiada e emperrada burocracia a que estamos submetidos, os verdadeiros causadores desta descoberta terrível, levam a estes desfechos aberrantes. Não é a primeira vez que ouço falar de pessoas que morrem sozinhas e só tempos depois são descobertas. Mas nunca imaginei que alguém pudesse ficar tanto tempo ignorada para além da morte. O que choca mesmo é a indiferença e esquecimento total a que a idosa esteve votada, tirando uma vizinha ou uma outra pessoa mais escrupulosa.

Nesta nossa sociedade que despreza tudo o que é velho e "do passado" em detrimento do novo e "moderno", que cultiva a juventude esticada ao máximo e a devoção à saúde eterna, os velhos são um estorvo e não ficam bem entre a mobília. Algumas famílias tendem muitas vezes a esquecê-los, e noutros casos nem restam familiares próximos, tendo então de se entregar à sua sorte. Os poucos voluntários que propositadamente os visitam para aliviar a sua solidão não chegam. Muitos vivem no centro das cidades, em casas decrépitas, ou em subúrbios uniformizados e deprimentes, como a senhora deste caso. São apesar de tudo aqueles que vivem nas aldeias e pequenas vilas que recebem mais atenção dos que os rodeiam. Mas com o decréscimo da natalidade e o aumento da esperança de vida, a situação tende a piorar. No futuro haverá um batalhão de idosos a cuidar. Muitos dos que hoje desprezam os velhos muito provavelmente receberão a dobrar o mesmo tratamento. Só se deseja que daqui a uns anos não invente qualquer forma de "eutanásia involuntária" para impedir o colapso da segurança social que restar.
Espero contudo que esta notícia chocante possa servir para alertar para casos semelhantes e para a extrema solidão que acompanha tantos idosos deste país. Quem sabe se a mulher que nem depois de morta teve tratamento condigno possa afinal chamar a atenção pra a indignidade das pessoas mais velhas. E já que (quase) ninguém quis saber dela, ao menos que se recorde que era uma pessoa, e que tinha nome. Chamava-se Augusta Martinho.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

Streap tease com os Smiths

 
Curiosa cena, esta, do filme Closer, a que mais me intrigou quando o vi, há já uns anos. Não me refiro à frase de inteligência evidente e bem menos sincera do que parece à primeira (quem viu a fita perceberá porquê). O que me interessa mesmo para além do diálogo e da perfomance dos actores é o som de fundo. Trata-se de How Soon is Now?, uma das músicas mais emblemáticas dos Smiths. E é curioso, porque o líder desta extinta banda, Morrissey, parece ser  - ou dá a entender que é - um ser assexuado, e nada faria prever que alguma vez as canções dos Smiths, que tanto falam de desilusões amorosas (e muitas delas foram expoentes urbano-depressivas dos anos 80), pudessem ser escolhidas como música de fundo de uma casa de streap. Mas, neste caso, as letras angustiadas e a música tortuosa de How soon is Now, com os seus riffs industriais e a voz sofredora de Morrissey, combinam perfeitamente com a cena, e particularmente com o estado de espírito da personagem de Clive Owen, que já não sabe em quem confiar, ou no que acreditar. É uma banda sonora inesperada, mas dificilmente poderia ser melhor apanhada.


quarta-feira, fevereiro 02, 2011

O futuro da república do Nilo


Acompanho a par e passo a situação no Egipto. Hoje, no Cairo, em Alexandria e noutras cidades, ultrapassou-se em muito o milhão de manifestantes previsto. Hosni Mubarak tenta ganhar tempo, mas recebeu um ultimato para se retirar até sexta-feira. Depois disso, ninguém sabe o que se passará. Certo é que os egípcios ja passaram por convulsões, como a revolução de 1952 ou a nacionalização do Sueza, ambos protagonizados por Nasser, até hoje um herói nacional.

A oposição ao seu regime está momentaneamente unida, dos liberais do Waft até à poderosa Irmandade Muçulmana, organização inspirada por Qutb, o teórico do moderno jihadismo. El Baradei, pelo prestígio internacional conquistado, parece ser o rosto da liderança desse movimento remendado. Mas ainda é cedo para saber o que vai emergir. Certo é que este movimento é irreversível e algo vai mudar no país. Há dois cenários que se colocam, e todos fazem os seus vaticínios.

OU
David Luiz
Sabia que David Luiz sairia em breve, mas já pensava que só seria no fim da época. Mesmo em cima do fecho do "mercado de Inverno", o nosso "macarrão" deixou a Luz e mudou-se para a nevoenta Londres e para os Chesea de Abramovic, de novo em grande prodigalidade em jogadores. Se do ponto de vista é satisfatório (restando saber o que vale o trinco Matic que vem envolvido no negócio), desportivamente é uma péssima notícia. Uma das regras de primária dos clubes que querem ganhar é jamais venderem jogadores da espinha dorsal no decorrer da época. Vendendo David Luiz, manda-se qualquer hipótese de ganhar um título às malvas, a começar pela Taça de Portugal, troféu que gostaria tanto que regressasse à Luz este ano. O jogo no Porto está entregue ao gang de Villas-Boas, e bom será se o resultado for menos pesado que o de Dezembro. Agora, com este rombo na defesa, há que dizer adeus aos títulos e segurar o segundo lugar, tarefa menos complicada. Já se provou que Sidney não é o companheiro ideal para Luisão, Jardel só agora chegou e Roderick é mais verde que qualquer comentador sportinguista. O eixo da defesa ficou coxo. Pede-se sorte e reflexos aos guarda-redes.


Quanto a David Luiz, resta-me desejar-lhe boa sorte e agradecer a sua passagem. Um dos melhores centrais que já passou pela Luz, provável titular dos Canarinhos no Mundial de 2014, tem agora a oportunidade de singrar nos azuis de Londres (Fernando Santos sabia do que falava quando o comparava a Ricardo Carvalho). Quando chegou, era promissor e nada mais. Entrou no meio de um jogo em Paris, de má memória, jogou a defesa esquerdo, deixou crescer a melena e na época passada tornou-se um esteio do Benfica. Criou enorme empatia com os adeptos e chegou à Selecção brasileira, mostrando ser de longe o melhor central em Portugal. Era uma questão de tempo até sair. Esse dia, para nossa infelicidade, chegou.

segunda-feira, janeiro 31, 2011

O mito Leonce Viiktorya
Esta história da filha de Luciana Abreu e Djalló se chamar Leonce Viiktorya (é assim que se escreve?) deixa-me de pé atrás. Alguém já viu o nome no registo? Alguém já surpreendeu "Lucy" embalando a filha, e dizendo-lhe "Leonce Viiktorya, porta-te bem senão a mãe não te leva a ver o papá no estádio"? só mesmo no site do casal é que se anunciou tal coisa. Estou em crer que é um qualquer truque para chamar as atenções, e que a pequena tem um nome mais normal, senão vejamos: Leonce é justificada como sendo o cruzamento entre Luciana e Djalló, coisa que qualquer criança da primária sabe que não é; e Viiktorya parece que é "um grito de revolta contra as injustiças do Mundo", ou coisa parecida, embora não explique a nítida influência escandinava. Eu diria mais que é uma razão de revolta futura da pobrezinha Leonce pela injustiça da cruz que tem de carregar. Mas as justificações são de tal maneira absurdas que não dá para acreditar. Por isso, estou alegremente céptico, e acredito que tal nome seja produto de ficção científica.

Enquanto não fica desvendada a questão, sempre se podem colocar outras interrogações, como a da forma correcta como se escreve tal coisa.

A linha interrompida

Como se não bastassem as centenas de quilómetros de caminho de ferro fechados nos últimos vinte e tal anos, deparamos-nos agora com esta indigente história do cancelamento do metro (que já não vai haver) no antigo ramal da Lousã. Parece que se chegou ao fundo da incompetência e do desrespeito do Estado pelas pessoas.

A falta de respeito materializa-se na ideia peregrina de se alterar toda uma linha de quarenta quilómetros que servia vários concelhos da região de Coimbra (e a própria Coimbra), encerrando-a durante anos, mesmo com dúvidas levantadas pelos utentes e pelas autarquias, e trocando-a por autocarros. A incompetência é chegar-se perto do termo dos trabalhos na linha e vir-se com o argumento de que afinal o projecto é "megalómano", custa balúrdios na sua execução e na sua manutenção, e que foi sobrevalorizada em "estudos anteriores". Lê-se e não se acredita que uma coisa destas possa ser afirmada sem o menor pedido de desculpas por aqueles que tiveram a brilhante ideia da conversão total da linha. Ou seja, os responsáveis pelo serviço que as populações nunca pediram abandonam-no a meio como se não fosse nada com eles, sem assumir a mínima responsabilidade.


Nunca andei no ramal da Lousã, mas numa altura da vida ia muito à Lusa Atenas e vi muita gente a despachar-se na estação de Coimbra-A para ir apanhar o comboio para a Lousã na estação do Parque (cheguei a ver uma composição a ir de uma estação para a outra, atravessando o parque e o largo das Ameias, a meio da madrugada, única hora em que tal acontecia). Por isso, o argumento da escassez de gente parece-me pouco sustentável. Mais a mais, os concelhos atravessados pelo comboio, Lousã e Miranda do Corvo, ao contrário do que acontece na maior parte das terras do interior (i.e. para leste de Coimbra) têm visto a sua população aumentar ao longo dos anos.

Já se sabe que o governo e boa parte das "elites" querem, antes de mais, a modernização do país a toda a força, e não hesitam em acabar com qualquer custo superviniente nas linhas férreas secundárias apenas para construir o utópico TGV, esse "cavalo de ferro" branco utópico que se tornou no novo desígnio nacional, mesmo que seja um sorvedouro de recursos. Nos últimos vinte anos foram destruídos centenas de quilómetros de caminho de ferro, muitas vezes sem prévio aviso, com os vagões a serem levados pela calada da noite. Agora, acabam com um serviço, começam a construir um sucedâneo, e deixam as obras em três quartos por culpa de contas mal feitas.


O ministro António Mendonça, um dos maiores erros de casting num executivo onde eles abundam, já veio dizer que não se trata da suspensão das obras, mas da sua "recalendarização" e alteração do programa de trabalhos. é bom que seja apenas isso. Porque se isto significar fim efectivo da linha da Lousã, por pura incompetência dos poderes públicos, será a sua cabeça a rolar. A sua e outras, porque nem pode haver culpas solteiras nem salteadores travestidos de autoridades dos transportes que não saibam assumir as suas culpas.

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Discursos

Nota de referência na noite eleitoral foram os discursos dos candidatos e líderes presidenciais. Entre a falta de respeito de Defensor Moura, a "mesmice" de Francisco Lopes e Jerónimo de Sousa (deve haver um modelo escrito que só é preciso decorar), a esperança hesitante de Fernando Nobre, e o ímpeto do costume de josé Manuel coelho, sobraram discursos de variados tipos. Louçã teve, com aspecto lívido, teve das piores saídas da noite, como referências à "direita a afiar as facas", mas conhecendo o seu historial de acusações e recriminações, nem espanta nada. Tivemos um Manuel Alegre derrotado mas digno, e até com ar mais aliviado, um Portas calculista e um pouco ao ataque, mas sem excessos. Sócrates disse umas vagas palavras de consolação que o seu ar descontraído traíam. Não convenceu ninguém a não ser os incautos, e mesmo esses...Passos Coelho teve o melhor discurso da noite, sensato, frugal, polido, desmentindo as suspeitas que Louçã atirara. Pode não ser um grande estadista, mas é minimamente decente.


O pior ficou reservado para o fim. Cavaco Silva, aplaudido pelas jotas e pelos apoiantes que a máquina da sua candidatura deslocara para o CCB, o monumento símbolo do cavaquismo, resolveu enaltecer certas áreas a que ele próprio jamais deu a atenção devida, como a agricultura, e lançar violentos ataques rancorosos aos que lhe "lançaram infâmias", sem saudar os adversários, antes achincalhando-os sem nunca referir os seus nomes (viu-se no repetido "foram cinco contra um", o que além de não ser verdade revela que, com esta curiosa expressão, Cavaco tem uma noção do cargo ainda mais solitária e unipessoal do que se julgava). O reeleito, que se calou durante grande parte da campanha, como é seu hábito - como se um candidato não devesse ser o mais transparente possível - aproveitou o momento em que já nada lhe podia acontecer, e em que os ex-adversários já se tinham pronunciado, para os atacar da pior forma, alçando-se em grande referência moral, lançando ainda suspeitas de que havia uma campanha da comunicação social contra ele, fonte de "calúnias". Nunca um seu antecessor chegara a tais extremos, nem Sócrates, com a sua "campanha negra" (recorde-se que em 1996, quando ganhou, Jorge Sampaio, entre as comemorações, ordenou que fosse retirado um gigantone que ridicularizava Cavaco Silva). E no fim não houve sequer possibilidade dos jornalistas lhe fazerem perguntas. O pior do cavaquismo (arrogância, covardia, falta de transparência, até o novo-riquismo da pompa) ficou exposto ali.

Mas ao fazer semelhantes ataques, Cavaco mostrou, até explicitamente, que não era presidente de todos os portugueses, mas apenas de uma facção. O embuste do cargo de presidente da república como líder uno de um país e de um povo caiu assim, definitivamente, por terra. Já havia indícios, mas esta é a prova definitiva, magnificamente servida por Cavaco. Um chefe partidário, que é reconhecido pelos seus eleitores e odiado pelos adversários: eis a essência do cargo. A falta de confiança em tal figura cresceu ainda mais com a abstenção e os votos nulos e brancos, de tal forma que há até quem proponha que seja eleito no Parlamento. Seria o total descrédito e o golpe final na 3ª república.

terça-feira, janeiro 25, 2011

Resultados



O país (o minimamente interessado, claro está) fala ainda das presidenciais. Tirando os números alcançados na Madeira por Coelho, os resultados não me espantaram muito. Muitos ficaram admirados com os valores da abstenção e dos votos brancos e nulos, como se não fosse uma forte hipótese que se previa lendo blogues, fóruns de opinião e ouvindo conversas de café e autocarro. Só por grande autismo e enorme afastamento da população é que se pode ficar espantado com esse resultado.






Avaliemos, como é regra, os vencedores. Primeiro, Cavaco, porque ganhou, obteve maioria absoluta dos votos expressos em urna e conseguiu ser reeleito à primeira volta, para seu alívio. Na recta final da campanha parecia estar à beira do desespero, mas para sua felicidade esta acabou antes dos eleitores decidirem prolongá-la por mais uns dias. Em Setembro de 2009, depois da sua declaração de que suspeitava de escutas, muitos previam que a sua recandidatura tinha ido por água abaixo. Prova-se agora que esses juízos eram precipitados.



Depois, Fernando Nobre. Apesar de ter ficado em terceiro lugar, figura na galeria dos vencedores por mérito próprio. Sem apoios partidários, com nítidas dificuldades no início da campanha e vatícinios ruins (sem falar nas sondagens), ficou acima do que todos os números previam. Não vai à segunda volta mas é um sério prenúncio para o futuro, ao conseguir reunir na sua candidatura uma paleta muito diferente de apoiantes, muito, muito para além do clã Soares, que muitos opinadores diziam ser o sustentáculo subterrâneo.E, claro, José Manuel Coelho. O deputado regional da Nova Democracia que se diz comunista (!) entrou mesmo à última na corrida, mas, sem grandes apoios nem sequer direito a participar nos debates televisivos, desenvolveu uma campanha em que era simultaneamente o cómico e a melga de serviço, granjeou simpatias por onde passou e ganhou popularidade em todo o país. Também ele ficou à frente de qualquer sondagem, e, coisa inimaginável, por pouco não ficou à frente de Cavaco na Madeira, com impensáveis 38%. Ainda assim, ganhou no Funchal e nos concelhos mais populosos e arreliou seguramente o convalescente Jardim. É o melhor resultado de sempre da oposição madeirense frente ao eterno soba laranja.




E como de vencedores estamos falados, passemos ao empatado: Francisco Lopes. Só ganhou mesmo entre os seus, mas no geral cumpriu, aguentando o eleitorado PC e saindo da penumbra do comité central. Sempre com ar grave e austero, com raras excepções, que lhe terão valido alguns votos, mostrou estar bem preparado e acabou por cumprir o objectivo de uma votação razoável. Faltou-lhe o da segunda volta...






Derrotados: Manuel Alegre, pois claro. Cinco anos depois, conseguiu a proeza de baixar as percentagens de 2006, ainda que apoiado por PS (que só o apoiou devido ao facto consumado), Bloco e MRPP. Um balde de água fria no último combate do bardo das Trovas do Vento que Passa, mas todo o discurso do "estado social" e causas afins parecia perdido nos anos setenta, como ele próprio, para não falar nas acusações a Cavaco e na vitimização, pouco próprias dele. O tal milhão de votos que reivindicava como seus escapou-se-lhe, talvez porque nunca fosse pertença sua, mas sim de todos os que apostaram numa candidatura independente, e que lhos retiraram quando apareceu o apoio partidário. Só mesmo Alegre e alguns líricos é que não tinham percebido isso. Quebrou-se a ilusão. Saiu com a dignidade possível.






Defensor Moura: a campanha excessivamente centrada no Alto Minho e os excessivos ataques a Cavaco tornaram-no irrelevante e antipático, e castigaram-no nas urnas. Algumas das causas que advogava (descentralização, desburocratização) mereciam alguma discussão, mas nem isso conseguiu. Os amigos dos animais não valeram ao ex-autarca que, sem perguntar nada à população, declarou Viana "cidade anti-touradas". Podia-se ter explorado melhor esse seu lado totalitário, mas já não vale a pena. Terá tempo agora para estudar pela enésima vez a melhor forma de dar solução ao prédio Coutinho.






Ao que parece, também o Ministério da Justiça se pode considerar perdedor, pelas confusões que houve com o Cartão de Cidadão e as impossibilidades decorrentes de votar. Na minha secção de voto vi alguns zunzuns, mas como levei igualmente o cartão de eleitor, não tive problemas. Por isso, não me alongo em situações que desconheço.






Conclusões: vale a pena apresentar candidaturas independentes. As forças partidárias já não têm a força que tinham. Nem as jotas ajudam.



Por outro lado, a abstenção mostrou o quanto os portugueses dão a devida importência À república e aos seus cem aninhos...



domingo, janeiro 23, 2011

Presidenciais
Cavaco ganhou. Ficou abaixo da abstenção e é o candidato reeleito com menos votos de sempre, mas ganhou. Apesar de Alegre ser apoiado por vários partidos, e das candidaturas independentes, que granjearam um boa quota de popularidade. Mas no seu discurso de vitória revelou revanchismo (neste aspecto teve a companhia de Louçã) e falta de sentido de vitória, e, para cúmulo, não permitiu que os jornalistas fizessem perguntas. Mostrou os mesmos silêncios e as questões sem resposta de que já dera mostras na campanha. Mas isso não admira. Já há muito que Cavaco evita as perguntas quando não está para isso, usando os meios que tem mais à mão.




Amanhã falarei mais demoradamente sobre estas eleições.

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Blogoleaks! Escândalo!

A intimidade dos candidatos, completamente devassada por vis armadilhas de luxúria(mais comuns no futebol), revelando terríveis segredos sobre o seu carácter! Ou então não...

domingo, janeiro 16, 2011

Sete


Este blogue faz hoje sete anos. É normalmente tido como número da sorte, e é igualmente uma idade bonita neste meio, que teve os seus primórdios em 2002/03. Pode-se dizer que A Ágora data da segunda vaga da blogoesfera, de princípios de 2004. Olhando para trás, parece-me que começou num tempo já longínquo, com um template sóbrio e primitivo (ainda hoje o é, sem a quantidade de mariquices musicais e de "causas" que apareceram entretanto e que só atrasam a abertura dos blogues), com uma escrita mais gongórica e menos cínica, se é que lhe posso chamar assim. A "filofrancofonia" e o "filohelenismo" reclamadas no início ficaram um pouco gorados (preparo-me mesmo nos próximos dias para escrever uma coisa pouco laudatória da França). A Administração Bush, um dos primeiros alvos, passou à história, mas os seus efeitos permaneceram no Iraque. Hoje sou um pouco mais céptico (não no sentido religioso), e um tudo de nada mais conservador e mais neurótico. O Mundo mudou, a minha vida também, e este espaço, necessariamente, sofreu ligeiras modificações estilísticas e de pensamento. Conservo todavia os principais traços de identificação que marcam este blogue no seu subtítulo - continuo monárquico, católico, benfiquista e discorrendo pontualmente sobre o Porto, depois de uns anos em Lisboa, por razões pessoais e laborais. Enquanto A Ágora existir, continuará assim, à imagem do seu autor.

A arma dos pequenos

Nestas eleições presidenciais marcadas pelo total deserto de ideias e pelas acusações quasi pessoais, a única coisa que me tem interessado é o folclore e as frases para recordar. Mas mesmo aquele tem andado em baixo (ao contrário das frases, que as há para todos os gostos), com pouca adesão e desfiles tristonhos. Um dos que tem lutado contra essa taciturna corrente é José Manuel Coelho, que mesmo com poucos apoios lá conseguiu chegar à última ao boletim de voto. O deputado regional da Nova Democracia é simultaneamente cínico e bonacheirão, usa uma palavreado simples e populista, mas eficaz, e as suas acções desconcertantes granjearam-lhe alguma popularidade ( aposto que maioria das pessoas o identifica mais depressa do que a Francisco Lopes, por exemplo). Saliente-se que é o primeiro madeirense a candidatar-se ao cargo, o que diz muito da qualidade de políticos do arquipélago.


Um dos grandes propósitos de Coelho é ganhar notoriedade para afrontar Alberto João Jardim, já com as eleições regionais deste ano à vista. Uma sondagem recente colocava-o como o mais bem posicionado para derrotar o eterno "Bokassa" da Madeira, à frente dos líderes do PS. É curioso notar como a oposição mais eficaz ao "jardinismo" parte exactamente de movimentos mais marginais, ou menos notórios a nível nacional. Em tempos, a UDP assumia esse papel, obtendo bons resultados eleitorais (à frente do PCP, por exemplo, cujo espaço ideológico na prática ocupava), e tendo mesmo conquistado a câmara do Machico, com o célebre Padre Martins Júnior, um clérigo incompatibilizado com a Diocese do Funchal, que nos anos oitenta era o rosto daquele formação de esquerda radical, antes se passar para o PS. Depois, a UDP dissolveu-se no Bloco de Esquerda e perdeu grande número de votos, e com isso visibilidade.

Agora, é a Nova Democracia que ocupa esse papel. O partido que Manuel Monteiro formou como dissidência do CDS-PP não teve grande êxito no país, na sua intenção de passar à frente de Paulo Portas. Mas na Madeira, o cunhado de Monteiro e um punhado de opositores a Jardim conseguiram entrar no Parlamento Regional com as cores do PND, fazendo desde então uma oposição mediática e subversiva, que mostrou bem mais do que os adormecidos partidos tradicionais. Essas facetas acentuaram-se com a entrada de um dos responsáveis do jornal satírico madeirense (e anti-Jardim) O Garajau, José Manuel Coelho, que protagonizou o célebre episódio da bandeira nazi, entre muitos outros.
É com humor, histrionismo e subversão que as pequenas formações partidárias captam atenções e votos. A Nova Democracia conseguiu-o num contexto regional. Não deixa de ser irónico que possa obter maior visibilidade a nível nacional não com Manuel Monteiro, outrora o rosto da direita em Portugal, mas com um candidato que militou no PCP e que se diz ainda "comunista"

quarta-feira, janeiro 12, 2011

A vida imita a ficção (uma vez mais)



O caso do homicídio de Carlos Castro e todos os pormenores do sórdido caso fazem-me recordar este inquietante filme, adaptação do livro de Patricia Highsmith. Assemelha-se-lhe na amoralidade do autor do crime, na vontade de subir a todo o custo, na absoluta ausência de escrúpulos em busca da ascensão social ou de manutenção de um certo estilo de vida, nem que isso implique eliminar outrém.

É certo que também recorda um pouco a obra de baixo, no delírio de um aspirante a super-homem que mais tarde se redime. Mas para isso, seria necessário que o criminoso em questão expiasse os seus pecados, buscando a redenção. Mas até agora, nem ele nem os mais próximos parecem importar-se muito com isso.


Tempos inquietantes, estes. E tivesse as manias que tivesse, ou mesmo fosse o autor de um sem número de intrigazinhas sociais menores, Castro é uma vítima desta amoralidade vigente.