quinta-feira, novembro 04, 2010

Wall Street de regresso



Desde que vi o anúncio da sequela de Wall Street, filme de Oliver Stone de 1987, fiquei atento à sua chegada. Tinha gostado muito do original, e até o revi de propósito numa das sessões de Verão na esplanada da cinemateca. Quem o tenha visto conhece a sua crítica feroz ao sistema capitalista pronto-a-vestir e especulativo, a caracterização de uma época e dos seus traços distintivos, e da nova classe emergente dos anos oitenta, os corretores, com os fatos cruzados por suspensórios, os gadjets, os sinais de riqueza, a vida num corrupio imparável, etc. E uma espécie de vilão do sistema vigente, Gordon Gekko, financeiro sem escrúpulos, que não sendo a personagem principal consegue dominar o protagonista Bud Fox/Charlie Sheen e arrebatar o Óscar de Melhor Actor desse ano para o seu intérprete, Michael Douglas. Dele ficou para a antologia cinematográfica a máxima "Greed is good", que tão bem assentava naqueles anos antes do crash da bolsa de 1987, que marcou o fim daquela época. O filme é todo ele um conjunto de símbolos de uma época, recriados ou inventados. Os anos oitenta novaiorquinos estão ali espelhados, como se pode verificar pela banda sonora tão new wave dos Talking Heads.

A sequela dos anos dois mil e zero, merecendo mais do que a estrela solitária da crítica do género, desaponta um pouco. Ou a nossa era é demasiado desinteressante (e ainda mais cínica), ou Stone não conseguiu captar o mesmo espírito de época. Há alguns paralelismos interessantes entre as duas obras, tal como o financeiro escrupuloso mas desiludido com o sistema, que no primeiro filme era um Hal Holbrook amargamente irónico, e no segundo um Frank Langella bem mais trágico. A saída de Gekko da prisão logo no início, com o seu tijolo celular na mão tem a sua piada. Com a apêndice "Greed was good, now It´s legal" e o pequeno reencontro com Bud Fox (Charlie Sheen lá arranhou tempo entre um divórcio e uma bebedeira), é dos momentos mais interessantes da fita. Mas falta muito mais a Wall Street dos nossos anos; ao correctorzinho bem intencionado e ecolo de Shia Leboeuf falta a vertigem de ganhar dinheiro rápido e de fazer pequenos truques, como Bud Fox; os "maus da fita" não têm um centésimo da espessura cínica do original Gekko (apesar dos esforços de Josh Brolin), mesmo que a fasquia da pose de obras de arte tenha subido - os promissores quadros pop art são substituídos por Goyas autênticos. E ainda aparece, um pouco enfiada a martelo (provavelmente para mostrar que os filhos não têm de seguir os maus exemplos dos progenitores), a filha de Gordon Gekko, uma jovem idealista que é noiva do seu novo discípulo, precisamente a personagem de LeBoeuf, e que não fala com o pai há anos. A tentativa de reconciliação será uma das tramas principais do filme, o que dá a Gekko um ar mais humano, juntamente com o passado de ex-recluso e o cabelo grisalho, mas a coisa começa a dar para o torto quando o jovem casal pensa que os sonhos se vão cumprir e o corretor aproveita para "to back in business" com o espírito de tubarão que lhe víramos no primeiro filme. Só que o a voz do sangue fala mais alto, e afinal Gekko até tem alma e coração. A coisa acaba com um happy end digno de um "filme para toda a família", literalmente falando. Dá ideia que não haverá um Wall Street 3, até porque o efeito surpresa, ou coque, como quiserem, desvaneceu-se com a sequela. O capitalismo anda à solta, precisa de ser regulado, o dinheiro dá a volta à cabeça das pessoas, mas no fundo, no fundo, há sempre uma réstia de humanidade. Se a mensagem de Oliver Stone não era esta, anda lá perto.


Já agora, as cenas com mais charme são as passadas em Londres. Waal Street é ainda poderosa, mas Saville Row deixa-a K.O. em classe e elegância.

sábado, outubro 30, 2010

A guerra eleitoral brasileira - o homem da segurança

E que dizer dos candidatos provindos da polícia? O Coronel Gondim "viu mais bandidagem em dois meses na política do que em 33 anos de polícia militar". E deixa mensagens claras e directas ao eleitorado. Resta saber se a "vagabundagem" a que se refere não seria uma grossa fatia dos eleitores, suficiente para alterar uma votação.

A guerra eleitoral brasileira - Eneas Carneiro
Nas vésperas da segunda volta das presidenciais brasileiras, que vão escolher o novo chefe de estado e de executivo brasileiro (muito provavelmente Dilma roussef, por quem não nutro a menor simpatia, mas isso é outra história), relembro algumas figuras de campanhas anteriores. Nas eleições para os orgãos legislativos e estaduais deste ano muito se falou de Tiririca e da sua campanha ("pior do que tá não fica"), assim como a da "mulher-pêra", de candidatos evangélicos ou da eleição de Romário e Bebeto para o Congresso. Mas a comicidade ou excentricidade das guerras eleitorais brasileiras já vem de longe. Lemas fortes, ideias surpreendentes, dezenas de partidos com momes parecidos ou ideologias ambíguas, de tudo se encontra nas eleições de Vera-Cruz.
Um dos mais destacados era Eneas Carneiro, que aliava uma figura singular a um discurso erudito mas violento e supersónico. Baixo e magro, de enormes óculos de massa, careca e com uma enorme barba negra, Eneas ganhou imensa popularidade e lugares de destaque nas presidenciais, antes de se tornar deputado federal. Ameaçava os corruptos, prometia a bomba atómica para o Brasil e proclamava a suma importância do conhecimento. Era já uma personalidade conhecida em todo o Brasil, até à sua morte, em 2007, de um linfoma. O seu minúsculo partido, o PRONA, não resistiu ao seu desaparecimento e fundiu-se com outro movimento. Mas de Eneas ficaram os discursos inflamados e a sua frase-chave, que o tornou conhecido em todo o Brasil: Meu nome é Eneas!


Eneas Carneiro em 1989

...e a última campanha de Eneas

sexta-feira, outubro 29, 2010

Loucuras em livro
Depois de mais de um ano de cartas atrevidas e bem humoradas enviadas a todo o tipo de entidades (e respectivas respostas, das secas às delirantes), de boa-disposição e seguramente muitos nervos, Mário Dias, a.k.a. João Pinto Costa, vê agora as suas loucuras publicadas em livro. o Mail de um Louco passa ao papel, mas não deixa de estar online. E de todas as formas de humor, o nonsense é sempre um excelente antídoto contra os enfados e as micro-depressões quotidianas. Façam bom proveito.

quinta-feira, outubro 28, 2010

A queda final do Império Romano



Via Delito de Opinião cheguei a este texto pormenorizado, intenso e angustiante, recordando uma dos temas que mais me fascina e me assombra: a queda de Constantinopla às mãos dos Otomanos. Lá encontra-se a magnificência final das cerimónias da igreja oriental e dos Imperadores bizantinos, a defesa desesperada das muralhas pelos seus habitantes, a entrada cataclísmica dos turcos na cidade, perante a qual o Basileus Constantino XI Paleólogo e os seus últimos fieis se atiraram de armas na mão, para perecer juntamente com o império, e todos os massacres, violações, pilhagens e demais atrocidades perpetrados pelos invasores. Para que a leitura ficasse ainda mais completa, aconselharia um texto de Stephan Zweig, incluído numa obra do autor (qualquer coisa como "Momentos Decisivos da Humanidade"), editado recentemente, em que mostra a escassíssima ajuda dos cristãos do ocidente, as técnicas usadas pelos otomanos para ultrapassar a inexpugnável corrente de ferro que fechava o Bósforo e o patético, e autenticamente bizantino descuido que permitiu que os turcos aí entrassem: uma minúscula porta (a Kerkaporta) aberta entre as muralhas, por distracção dos defensores. Assim caiu Constantinopla, e acabou definitivamente o Império Romano, mil anos depois do do ocidente. Uma página negra da história da Europa, que, e por muito que isso desagrade ao senhor Erdogan, convém sempre relembrar.

segunda-feira, outubro 25, 2010

No Conselho de Segurança



Como nem tudo pode ser mau, Portugal conseguiu uma importante vitória externa, ao ser eleito para membro não-permanente do conselho de Segurança da ONU. Com adversários como a Alemanha e o Canadá, ambos membros do G8, a tarefa não era fácil, mas superaram-se as barreiras (e os canadianos). Para isso, tivemos de contar com os votos de países como a China e a Rússia, que por quaisquer razões, porventura estratégicas, preferiram ver Portugal como interlocutor temporário no Conselho de Segurança. Há que agradecer também à Espanha pelo apoio dado e por convencer os estados sul-americanos a votar em nós. Em contrapartida, estados houve da União Europeia que votaram no Canadá. Mais uma prova de que a solidariedade comunitária é mais um véu institucional que outra coisa qualquer.

É certo que os canadianos desistiram antes da terceira ronda, mas apenas porque ficaram muito abaixo de Portugal na segunda rodada. Recorde-se que o Canadá, além de ser membro do G8, é o segundo maior país do Mundo em área e já tinha estado por seis vezes (todas a que se candidatou) no conselho de Segurança.

A importância desta eleição para Portugal é significativa. Para já, porque apesar de tudo mostra que nem tudo corre mal e dá uma pequena balão de oxigénio no amor-próprio. Depois, por causa do prestígio e da imagem externa do país, numa altura em que é acossado por agências de rating e periódicos financeiros. E por fim (esta é a razão porque escrevo agora, quase duas semanas depois do feito), porque pode influenciar a permanência do quartel-general regional da NATO em Portugal, a poucas semanas da cimeira, e cuja saída, perfeitamente plausível, seria prejudicial ao nosso país. É uma indiscutível vitória da diplomacia portuguesa, por muito que isso perturbe os adeptos do "quanto pior, melhor", mais fiéis a esquemas partidários do que ao Bem Comum do país. Agora veremos os frutos que se vão colher. E se Oeiras mantém a sua importância estratégica.

sexta-feira, outubro 22, 2010

O Oeste anda todo ligado
A polícia prendeu hoje no Bombarral um capo da Cosa Nostra siciliana, que estava fugido de Itália. Ao que parece, o indivíduo dedicava-se no nosso país ao mesmo tipo de actividades comuns às máfias, nomeadamente extorsão a empresas. Mas atente-se ao local da detenção: se puxarmos ligeiramente pela memória, damos conta de que há não muito tempo, um elemento da ETA foi preso em Óbidos, ali mesmo ao lado. Não digo que a localização dos dois criminosos não seja uma coincidência; mas pelo sim pelo não, se fosse o ministro Rui Pereira não estava preocupado apenas com a cimeira da NATO e aumentava a vigilância no Oeste: é que não é novidade nenhuma que máfias e organizações terroristas têm estreitas ligações (é ver o que diz Roberto Saviano) e os negócios de uns confundem-se, ou pelo menos favorecem com as actividades de outros. Espero que daqui a pouco tempo não venha a ser descoberto um covil das FARC nas redondezas.

quarta-feira, outubro 20, 2010

O Benfica do presenteAinda não me tinha debruçado aqui sobre o Benfica desta época. Poderá soar a alguma cobardia escrita, tendo em conta o início desastroso da equipa. Na verdade, já há tempos que pretendia falar sobre isso.

Tudo indica que a tempestade inicial já terá passado. Na baliza, o poste Roberto, que tantas piadinhas tem criado aos adversários, parece ter enfim alcançado a serenidade que lhe faltava. Tenho é dúvidas que vá justificar o pesado investimento financeiro nas suas luvas, com prejuízo para Quim. Eu não o teria feito, mas também não tenho estudos nem tarimba de treinador como Jorge Jesus. Fico a pensar que Eduardo poderia não ter rumado a Génova, até porque sempre seria mais um internacional português, mas é capítulo encerrado. quem sabe se daqui a uns tempos Roberto não será um cobiçado guarda-redes.

Na defesa, poucas mudanças subjectivas, mas a intranquilidade parece que se apoderou de David Luiz. Têm sido muitas as falhas ao "macarrão", logo agora que o convocaram para a Canarinha. Coentrão ficou com o elan do Mundial, a atacar e a defender, ao contrário de Maxi, e Luisão está sereno e autoritário. Bastante desiquilíbrio neste sector, como se vê.

Meio-campo: é óbvio que a saída de Ramires não ficou suficientemente compensada. Javi parece uns furos abaixo do ano passado, mas Airton está aí para compensar. Já Aimar está bem e recomenda-se, e quando não tem lesões é uma maravilha vê-lo jogar. Com Carlos Martins passa-se o mesmo, mas este, além das lesões, é constantemente prejudicado pelo geniozinho, que tanto dá para passes do outro mundo como para andar aos berros com os bandeirinhas. Mas o seu potente chuto está aí.

Por fim, o ataque, sector onde o Benfica é tradicionalmente forte e que tantas redes moveu na época passada. Cardoso está ausente (agora literalmente, com a lesão), abúlico, sem convicção; Kardec bem tenta agarrar a oportunidade, mas não é fácil para quem vem de lesão prolongada. Saviola continua a ser o rato atómico, só que tem tido pouca sorte a facturar. Nuno Gomes está lá para mostrar que há "gente da casa" no balneário, e Weldon espera ser tão útil como no último ano. Depois, os reforços: Jara não tem ido ao relvado, e pouco se percebeu do seu valor tirando alguma "raça". Depois, surge-nos um daqueles casos de incompetência corrigida à pressa: emprestaram o promissor Urreta, e quando perceberam que precisavam mesmo de alguém para o lugar do agora merengue Di Maria foram à pressa buscar Sálvio ao Atlético. Sem resultados práticos, até ao momento. Sobra Gaitan; ao contrário do que diz o preclaro arquitecto José António Saraiva, está longe de ser um jogador "banal", e mostra muita técnica e qualidade de passe. Precisa de aprender a jogar à europeia, de ganhar experiência, de rematar com outra calma, e então será de grande qualidade. Mas para isso precisa de tempo...

No campeonato, as coisas parece que estabilizaram. Na Liga dos Campeões, a derrota em Gelsenkirchen obriga a cuidados redobrados. O Benfica entra hoje em campo em Lyon, uma cidade neste momento a ferro e fogo, para defrontar o poderoso Olympique local, hepta-campeão francês nesta década. Empatar seria bom, ganhar magnífico, perder aborrecido, mas longe de ser letal, com os jogos que faltam. O que se quer é que se lembrem do jogo em Marselha do ano passada e que honrem a camisola. Já chega de resultados falhados.

segunda-feira, outubro 18, 2010

Mineiros, analogias e lições
Já tanto se falou na operação de salvamentos dos mineiros da mina de S. José, no Chile, que pouco mais há a dizer (ou a mostrar). Depois de tantas notícias de desastres relacionados com minas, particularmente na China, é grato pensar que estes ao menos se salvaram, talvez porque todo o Mundo estivesse atento e um país inteiro se tivesse empenhado no seu resgate. A forma como tudo decorreu, e o tempo em que se conseguiu trazer os mineiros à superfície (os primeiros cálculos previam que isso só aconteceria pelo Natal) também é um bom indicador de que o Chile está realmente um país terceiro-mundista, muito embora haja sempre as habituais colagens "latino-americanas". Mas este caso, que pôs o planeta à frente dos ecrãs e que até já está a inspirar Hollywood para um filme - fala-se inclusive em Javier Barden para um dos papeis - recordou-me duas situações que datam de há dez anos: a tragédia do submarino Kursk, imobilizado no fundo dos mares depois de uma explosão, e em que pereceram asfixiados mais de cem marinheiros russos, que o seu país não conseguiu salvar (em parte também pela orgulhosa recusa em aceitar ajuda estrangeira); e, com um final mais feliz mas à custa de muito sangue, a crise em Timor-Leste após o referendo pela independência, quando as milícias pró-indonésias espalharam o terror e a morte, e que levantou uma onda de solidariedade em Portugal para com a antiga colónia. Terá sido a única vez em que António Guterres assumiu por inteiro os seus galões de estadista. Então como agora, viu-se um país unido por uma causa própria. Infelizmente, e ao contrário do que alguns optimistas ainda pensaram na altura, Portugal não mudou para melhor. Talvez o Chile ainda vá a tempos de aproveitar em benefício próprio esta união pelos seus mineiros.

terça-feira, outubro 12, 2010

Hoje, no Delito

Hoje sou o convidado do blogue Delito de Opinião. Respondendo ao seu amável convite, escrevi sobre a visita de Sophia Loren a Lamego, e da sua homenagem no festival de cinema Douro Film Harvest. No fundo, um texto sobre o encontro entre o cinema e uma das mais fantásticas regiões de Portugal.

Resta-me agradecer ao Delito de Opinião (e particularmente ao Pedro Correia), que já por si era um blogue diversificado, mas que consegue sê-lo ainda mais ao permitir que tantos "bloguista" lá escrevam livremente.

domingo, outubro 10, 2010

Um cinco de Outubro em Guimarães

A proclamação de lealdade a D. Duarte, em Guimarães, no dia em que se (deveria) comemora(r) o Tratado de Zamora, em em que as entidades oficiais, mais do que o povo, celebra o "5 de Outubro" de 1910, foi talvez o acto mais marcante dos movimentos monárquicos desde a homenagem às vítimas do Regicídio, em 2008.

(Fotos recolhidas da Guimarães TV)

Fiquei um pouco temeroso à chegada ao Paço dos Duques de Bragança, porque quase só via turistas, até encontrar os primeiros traços do evento e perceber que estavam todos no pátio e salas daquele edifício construído pelo filho de D. João I e fundador da Casa que viria a reinar em Portugal. Não consegui quase ouvir as palavras de D. Duarte, com toda aquela gente, mas acompanhei a marcha que precedeu o momento mais solene. Nela seguia um pouco de tudo: pessoas mais vestidas a rigor, com os seus melhores trajes (alguns com o habitual "bigode retorcido" à finais de oitocentos), outros com um estilo mais fashion, outros ainda de t-shirt com as armas reais; a bandeira azul e branca do liberalismo e as da Restauração; anciãos, jovens, crianças, gente com ar mais institucional ou mais "activista": em suma, para ouvir as palavras do Duque de Bragança estavam pessoas de todo o tipo e de várias zonas do país.


Há já vários anos que não ia a Guimarães (coisa indesculpável para quem vive a apenas cinquenta quilómetros), mas tencionava lá ir antes de 2012, quando a Cidade-Berço for Capital Europeia da Cultura. Surgiu a oportunidade no melhor dia possível. E reconheça-se que é a urbe ideal para uma manifestação monárquica. Todo o enquadramento do centro histórico ajuda, com as suas apertadas ruelas de traço medieval, as casas brasonadas, o granito a espreitar sempre. Os nomes e decoração de alguns bares e restaurantes também ("El-Rei", "Cara e Coroa", etc). Mas a quantidade de bandeiras de D. Afonso Henriques em janelas e varandas espanta; nalguns casos, via-se a bandeira com a cruz de Santiago. As tabuletas com os nomes de alguns estabelecimentos comerciais pareciam estar ali de propósito, com inúmeras alusões aos reis, às armas, etc. E ao espanto inicial dos transeuntes que vinham à janela ver que marcha era aquela começaram a chegar as primeiras palmas e "vivas".

O cortejo continuou até ao largo da Oliveira, onde se ergue o Padrão do Salado, mandado construir por D. Afonso IV para recordar a vitória que lhe deu o cognome de O Bravo, e a Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, obra do tempo de D. João I, em agradecimento à vitória de Aljubarrota. Mas naquele espaço, dos mais característicos da cidade, também existe, numa das esquinas o edifício dos antigos paços do concelho, e sob a suas arcadas, que dão para a Praça de Santiago, havia uma mini-exposição da república organizada pelo PCP local. Como os bolcheviques normalmente só apreciam "monarquias" do jaez da Coreia do Norte, uma meia dúzia de camaradas desatou aos berros, dando vivas à república ou contra as "provocações". A marcha acabou aí, com uma evocação à Senhora da Oliveira, e talvez tenha sido a altura ideal, por causa de algumas discussões que se levantaram entre os "provocadores" e os "provocados". Naquele momento, mais uma vez se revelava a tolerância tão democrática dos defensores de 1910, e mais ainda, dos vencidos de 1975. Uma tresloucada fazia exclamações vitoriosas sobre o Regicídio, e um indivíduo com ar de quem trabalha em duvidosas actividades nocturnas inquiria sobre a "legalidade" da manifestação; claro que quando lhe perguntaram onde estava a legalidade das alterações ocorridas em 1910, respondeu com tíbias referências ao "povo".


Acabada a marcha e as histerias que nem por isso a estragaram, andei um pouco por aquela cidade que tanto diz a Portugal. A região tem sido das mais afectadas pelo declínio da indústria portuguesa, há já largos anos, mas conserva a altivez das suas pedras e é prodigioso observar como está arranjada. Do Toural ao Castelo, passando pela alameda de S. Gualter, tudo está limpo e organizado, e por toda a parte se encontram plantas do centro histórico e informações sobre os monumentos relevantes. Antes de partir, ainda vi um traço da cerimónia protagonizada por D. Duarte: uma coroa de flores aos pés da estátua de D. Afonso Henriques. Para muitos vimaranenses, soube-o nesse dia, a nacionalidade nasceu com a batalha de S. Mamede, ali ao lado. Mas a verdade é que se não houvesse o reconhecimento por parte de Castela em Zamora, o país provavelmente não teria passado daí. Deve-o a esse tratado, firmado num longínquo 5 de Outubro.

sexta-feira, outubro 08, 2010

G revelado no Porto

Já tinha deixado aqui no blogue a música, mas entretanto surgiu o respectivo (e soberbo) videoclip do novo single dos Golpes, Vá Lá Senhora, onde têm a companhia de Rui Pregal da Cunha, o carismático vocalista e showman dos Heróis do Mar. Para apresentar as suas novas músicas, Os Golpes deram dois concertos, em Lisboa e no Porto, onde se distribuiu em exclusivo o seu novo "meio CD", intitulado muito simplesmente G, em edição limitada e capa em pele, com a supracitada Vá Lá Senhora logo no início.
Num Hard Club novo em folha, aconchegado no mais que centenário mercado Ferreira Borges, que domina o Infante e a Bolsa, a banda ofereceu um espectáculo que começou morno e acabou em êxtase. Também acabou alagado em suor, por causa da falta de refrigeração, mas nem isso impediu que fosse uma hora e tal extremamente bem conseguida, que teve o seu ponto alto quando Rui Pregal da Cunha (com um traje napoleónico!) entrou em palco, para entoar o novo single, e ainda, como brinde, a velhinha Paixão, dos Heróis do Mar. Como se pode imaginar, a sala ficou ainda mais ao rubro. E deu para perceber que Os Golpes já têm um pequeno culto atrás de si, e que a sua pose revivalista e as suas referências dos anos oitenta - uma delas, por sinal, estava ali em carne e osso - os vão continuar a caracterizar e acompanhar, na sua Marcha levada pela nova vaga de música pop cantada em português.

Ah, e o "meio cd" limitado a quem fosse aos concertos, com o nome gravado no couro, G, além de ser muito bonito a nível estético (o cd em si parece personalizado para aquele concerto, com uma ponte D. Luiz gravada), será com certeza um dia uma peça de colecção, extremamente difícil de encontrar. Espero conservá-lo, nesses tempos, para me recordar deste concerto dos Golpes numa noite chuvosa, no velhinho Ferreira Borges.


terça-feira, outubro 05, 2010

Descomemoremos

Vejo comemorações largas pelas praças do meu país. Há paradas, discursos oficiais, musicata, teatrada, desportos radicais, etc. Dizem eles que comemoram a "implantação da república". Mas comemoram o quê, exactamente? A tomada do poder violenta por parte de insurrectos, apoiados num partido que tinha 7% dos votos em eleições gerais. E o regime fundado por esse partido, que usurpou as cores à bandeira nacional, impondo as suas; que destruiu todo quanto era símbolo de Portugal (vá lá, deixaram as quinas); que diminuiu o universo de eleitores, permitiu o direito à greve mas voltou a proibi-lo quando começaram a ser demais, meteu os opositores na cadeia, reagiu ao tiro, partiu as redacções de jornais que lhe eram adversos e nunca cumpriu as suas promessas sociais. Como se não bastasse, perseguiu os católicos e enfiou o país num guerra sangrenta, para a qual não estava preparado, e que num só dia ceifou milhares de vidas nas lamacentas trincheiras da Flandres.


Isso, e muito mais, é o resultado do que se comemora hoje. Uma comemoração marcada pela propaganda massiva e pela falta de memória. A única coisa que se pode fazer hoje para atenuar é deixar à vista a verdadeira bandeira de Portugal.

domingo, outubro 03, 2010

Sobre os restos da festa outubrina, o Rei
Juan Carlos de Espanha prepara nova visita a Portugal, no dia 6. Não deixa de ter a sua piada pensar que depois do 5 de Outubro vem aí o Rei . Sempre é um bom prenúncio.

sábado, outubro 02, 2010

Os tempos mudam, o pop-rock também
Coimbra está uma rebaldaria inédita por causa do duplo concerto dos U2. É certo que os Rolling Stones também já por lá passaram (até inauguraram o estádio), mas era só uma noite. Desta vez, o quarteto de Dublin leva dezenas de milhares à Lusa Atenas, para ver o seu palco aracnídeo e o espectáculo megalómano. Nunca vi os U2, e ainda tive ideias de ir a um dos concertos, mas a loucura em seu redor (até com fanáticos a querer ir aos dois dias), a falta de paciência para estar horas para comprar um bilhete para daí a um ano e o elevado preço dos que restavam tirou-me quaisquer veleidades. Fico por isso à espera de futuras digressões, com esperança que depois de Vilar de Mouros, em 1982, e as tournées da Zoo TV, Pop, a de 2005 e esta, queiram regressar e haja mais bilhetes disponíveis.
Só que o cartaz de concertos de bandas pop-rock e afins em Portugal não se fica pelos U2. Não faltam espectáculos para todos os gostos nos tempos mais próximos. E se os U2 têm a mesma popularidade que há vinte anos, outros há que decresceram, embora o seu nome continue a arrastar multidões, casos do R.E.M., que mereciam mais, e dos Gun n´Roses. Como muitos se recordarão, os Guns foram a banda mais popular de início do anos noventa, e levaram milhares a Alvalade, em 1992, num concerto atribulado. Agora, Axel Rose e nova companhia regressam a Portugal , ao Pavilhão Atlântico, no dia 6. Se fosse há 15 anos, provavelmente precisariam de um dois estádios. Muita gente deve dar graças a Deus e ao passar dos tempos: é que se os concertos das duas bandas coincidissem na mesma semana em princípios dos anos noventa, teriam de fazer contas à vida e lá se ia metade do orçamento nos primeiros dias do mês.

quinta-feira, setembro 30, 2010

Ainda em Inglaterra, a contenda entre irmãos



Na luta fratricida pela liderança do Partido Trabalhista, recentemente caído do poder, Ed Miliband bateu com alguma surpresa o seu irmão mais velho (e mediático), David, que esteve à frente da política externa britânica no governo de Gordon Brown. Ed pertence à ala esquerda do partido, e ganhou a contenda com o apoio dos sindicatos, que ainda têm peso considerável no partido, se bem que algo esvaziado nos últimos quinze anos. Adivinha-se que seja a martelada final no New Labour, personificado em Tony Blair. Ainda assim, Miliband tenta descolar da imagem esquerdista com que está rotulado. É naturalíssimo que o faça. Provavelmente começou a interessar-se pela política no início da adolescência, quando o Labour sofreu uma das suas piores derrotas sob a liderança de Michael Foot, morto há apenas uns meses, e que foi o líder mais esquerdista do partido de que há memória. Depois dessa inclinação para a esquerda, Neil Kinnock começou a puxar os trabalhistas para o centro, até que o malogrado John Smith, Blair e Brown enveredaram definitivamente pelo Third Way, com o sucesso que se conhece. Ed tem a sombra do seu pai, o intelectual marxista Ralph Miliband, a toldar-lhe qualquer eventual aproximação aos eleitores mais centristas. Resta-lhe esperar que parte do eleitorado liberal se aborreça com a coligação com os conservadores e se vire para este new old Labour.

quarta-feira, setembro 29, 2010

A papafobia britânica

O Papa Bento XVI regressou a Roma da sua visita ao Reino Unido sem qualquer tentativa de prisão, atentado terrorista ou ataque isolado. Já não nada é mau.

Aproveitou-se um pouco de tudo para criticar a visita: os gastos com o acontecimento em si, a memória histórica, os casos de pedofilia recentemente encontrados, medo de proselitismo, etc. Os conhecidos militantes radicais ateístas Dawkins e Hitchens tentaram obter um mandato de captura de Bento XVI por "cometer crimes contra a humanidade" e não "ser um chefe de estado reconhecido", apesar de haver relações diplomáticas entre o Reino Unido e o Vaticano (ou não havia visita, tout court). Conseguiu-se, durante os dias em que o Sumo Pontífice permaneceu nas ilhas britânicas, organizar autênticas manifestações com toda uma coligação negativa anti-papista, reunindo associações ateístas e seculares, activistas dos "direitos da mulher", famílias de vítimas da pedofilia, nacionalistas ingleses e protestantes fanáticos, como o Reverendo Paisley, que em tempos dirigiu-se a João Paulo II no Parlamento Europeu, bradando que o Papa era o "Anticristo". O perfeito contraste com a visita papal de Maio a Portugal.
O Reino Unido tem os seus paradoxos. O puritanismo e a rigidez vitoriana são do mesmo país onde nasceram a pop e o punk. Em terras em que o parlamentarismo tem tantas raízes, ainda subsiste o espírito catolofóbico criado no século XVI por Henrique VIII. Sabia que os ingleses tinham um sentimento anti-católico, mas não ao nível do que se viu - ou do que se falou. Aos casos de pedofilia na Igreja Católica juntou-se a polémica dos gastos com as visitas, as "causas fracturantes", a beatificação de John Henry Newman, e todas as causas possíveis para justificar um poderoso sentimento anti-católico, tido como manifestação de liberdade contra as "trevas". Uma liberdade legada por um tiranete como Henrique VIII, que por razões políticas e libertinas, rompeu com a Igreja de Roma. Depois, os católicos foram perseguidos e afastados, com métodos tão cruéis como os da Inquisição, até praticamente ao século XIX, com algumas notórias excepções por razões políticas, como o casamento de Carlos II com Dona Catarina de Bragança. Ainda assim, membro da família real que por qualquer razão se aproximasse do catolicismo seria excluído da sucessão. Mas mesmo a partir de oitocentos, em que os seus direitos foram sendo progressivamente reconhecidos, nem assim deixaram de ser vistos como inferiores pelos britânicos. Os irlandeses desde Crommwell que foram tratados como gente de terceira. Oscar Wilde sofreu humilhações e o calabouço não somente pelas suas provocações e libertinagem, mas também por ser católico e irlandês.


O anti-catolicismo oficial que durava desde o início da igreja inglesa esbateu-se, mas existe. Quando o príncipe de Gales esteve presente nas cerimónias fúnebres de João Paulo II, ouviu críticas por causa da "submissão à igreja de Roma". Curiosamente, sendo o Reino Unido um estado oficialmente Anglicano, é também um dos que mais se afasta da prática religiosa. A igreja que a Rainha chefia tem enfraquecido, cedendo ao multiculturalismo reinante e a novas práticas e credos. Os ingleses conservam-na como uma tradição, mas a sua heterodoxia afasta-os. Talvez seja por irem em busca de algo mais que surgiram alguns interessantes grupos de católicos ingleses, como a tendência que tocou alguns escritores contemporâneos - Greene, Chesterton e Waugh, para destacar os mais conhecidos. Mas apesar disso, e de um crescente número de católicos, vê-se um anti-papismo que não há em mais país nenhum na Europa. Tradição enraizada, inimizades históricas, medo de que o Bispo de Roma seja um mentor do IRA ou de proselitismo? Ou a ideia de ver um Papa católico e alemão a ser recebido pela Rainha é duplamente dolorosa? Confesso que não sei qual será exactamente a raíz do problema, e que essa aversão mais histórica que social devia ser matéria de estudo mais aprofundado. O que sei é que Bento XVI falou mais contundentemente dos casos de pedofilia na Igreja, encontrou-se com as suas vítimas, homenageou os caídos na batalha na luta contra o nazismo (que provinha, não nos esqueçamos, do seu país) e beatificou John Henry Newman, e conseguiu voltar para Roma sem uma beliscadura. Convenhamos que para um Papa, alemão e que lutou na Segunda Guerra com o uniforme da Whermacht, é uma missão cumprida digna de Hércules.

sábado, setembro 25, 2010

Opostos que se atraem

Olho para as manifestações em França, contra o aumento da idade da reforma para os sessenta e dois anos, que levam atrás de si multidões em protesto. Ouvem-se acusações de "neoliberais", "fascismo", "atentados aos direitos inalienáveis" e ao "estado social", etc. Parece-me tudo um perfeito exagero, mas aquelas multidões socorrem-se de argumentos datados, ignorando a realidade, vituperando quem a contradiga. Em França, isto é perfeitamente comum. Então lembro-me de um movimento novo, do lado de lá do Atlântico, de ideias e lógica opostas. O Tea Party americano acusa Obama de ser "socialista" por causa do seu novo plano nacional de saúde, de ser um soviético encapotado (e para alguns, muçulmano), de querer subjugar a sociedade civil a um estado omnipresente, etc. Os sindicalistas franceses e os redneck americanos podem estar de lados diferentes da barricada e do oceano, mas na retórica, nas ideias fixas e no anti-pluralismo são assustadoramente parecidos.


Voltarei ao tema da França em breve.

sexta-feira, setembro 17, 2010

O fim do Arsenal em Braga?


Os resultados das equipas portuguesas nas competições europeias foram pouco surpreendentes: as equipas grandes e experientes venceram adversários inferiores, e a equipa mais "pequena" e inexperiente perdeu com uma equipa de nome sonante. Mas é curioso pensar que neste último caso o Sporting de Braga estreou-se na milionária Liga dos Campeões (coisa que há meia dúzia de anos seria impensável) em casa do clube ao qual roubou as cores e a camisola, o Arsenal de Londres. Durante muitos anos, os jogadores e os adeptos do Braga foram conhecidos como "arsenalistas" e tiveram mesmo, por breves tempos, uma equipa B chamada Arsenal de Braga. Agora, os gunners de Arsène Wenger fizeram-se pagar pela imitação e deram implacável meia dúzia de golos aos pobres bracarenses, que apesar do brilhante triunfo de Sevilha, mostraram ser ainda muito inexperientes nestas andanças europeias, revelando um medo cénico (também conhecido como "síndrome Tavares") fatal. Será que depois da goleada passaremos definitivamente a ouvir falar dos braguistas ou a expressão arsenalistas continuará a ser empregue, podendo sempre trazer negras recordações, a ser usadas pelos adversários em futuras discussões em que cada uma puxará da memória a derrota mais humilhante do outro?

quarta-feira, setembro 15, 2010

O aterro federativo
O outro caso da época, evidentemente, é o da novela da Selecção, que parece estar perto do fim, se bem que pouco feliz. Nunca fui adepto de Carlos Queiroz, e só desejava que ele tivesse ficado há dois anos em Manchester, a planear tranquilamente as tácticas de Sir Alex, sem se maçar em ir para o relvado. Mas já que o contrataram por quatro anos (supremo disparate), ficava-se com ele até ao término do contrato. O Mundial foi modestozinho, mas sempre passamos a fase de grupos, e cumpridos os mínimos, o técnico deveria permanecer. A história dos testes antidoping e das discussões de Queiroz na Covilhã são uma pretexto mal disfarçado para o pôr fora sem lhe pagar muito. Se servisse para alguma coisa, seria bom recordar que deve haver um mínimo de ética e que a Federação é que resolveu ir buscar o ex-seleccionador. A partida que lhe fizeram é demasiado indecente para passar sem mais. Como é óbvio, os chicos-espertos federativos estão-se a marimbar para tudo isso e querem é livrar-se do homem por qualquer meio, com a cumplicidade bem explícito do bonzo Laurentino. O que se segue é facilmente previsível: contrata-se novo técnico, dá-se uma indemnização - que remédio - a Queiroz e tenta-se apanhar os cacos dos primeiros jogos da equipa nacional para o Europeu de 2012. Só que todo este caso já

a causou mossa, como se viu no pontinho ganho em dois jogos, num vergonhoso empate caseiro com Chipre, que nos marcaram quatro golos. E parece-me que nem Paulo Bento, o mais que provável futuro seleccionador, possa vir a trazer qualquer tipo de tranquilidade à equipa.


O maior drama é pensar que os actuais elementos federativos (Madaíl, o inamovível Amândio de Carvalho, etc) vão permanecer no cargo. Isso mesmo afirmou Lourenço Pinto, presidente a Associação de Futebol do Porto, que assegurou que todas as associações distritais estão com Madaíl. conclusão: não haverá sequer espaço para candidaturas diferentes, e teremos que gramar com a tralha federativa toda, fazendo campanha pelo aviltante e parolo "mundial ibérico" e figas pela qualificação para a Polónia/Ucrânia, com o beneplácito do dispensável Laurentino Dias. Ah, não haver um "Apito Dourado" na Federação, com resultados palpáveis, para tapar esse autêntico aterro sanitário desportivo

sexta-feira, setembro 10, 2010

As trevas da Casa Pia
Ao fim de oito anos, tivemos finalmente a sentença do Processo Casa Pia. Tempo a mais, mas surtiu os seus efeitos, ainda que em primeira instância. Para além das vítimas, dos acusados e de todos os outros que de outra forma estavam ligados ao caso, o dia da sentença terá sido fantástico para donas de casa, transeuntes de Moscavide, e sobretudo para a comunicação social, no seu todo. Provavelmente, estes últimos só terão tido pena de não ser possível um exclusivo, a ser atribuído a quem pagasse mais. De qualquer forma, o que ficou destes dias, além de um resultado concreto, terá sido o imenso eco propagado pelas queixas dos condenados, em especial de Carlos Cruz, que não é à toa que é conhecido como o "Senhor Televisão". Dele e do seu advogado Ricardo Sá Fernandes ouviram-se queixas, lágrimas, recriminações, etc. Mas retive a expressão usada após a leitura da sentença: esta era, segundo Sá Fernandes, "o reino das trevas". Ora Carlos Cruz poderá dizer o que quiser em sua defesa, dentro de certos limites verbais, que foram claramente ultrapassados. Mas, inocente ou culpado, é bom não esquecer que o processo existiu porque ao longo dos anos inúmeras crianças sem família nem ninguém que as protegesse foram submetidas a sevícias e terrores que as marcaram para sempre. Foram as autênticas vítimas, e não houve televisões que se compadecessem da sua tortura permanente. Isso sim, é o autêntico reino das trevas. Finalmente encontraram quem as ouvisse.

sexta-feira, setembro 03, 2010

Estão de volta



Com novidades na bagagem, duetos previstos e o espírito épico e romântico que já os caracterizava nas primeiras músicas, Os Golpes dão o segundo passo. E há concertos agendados para breve, no Porto e em Lisboa, depois de um sugestivo espectáculo de garagem nas caves do Técnico de Lisboa, no 10 de Junho, assim à laia de aperitivo. O autêntico pope roque transpirando portugalidade desce às cidades.

terça-feira, agosto 24, 2010

A conquista de Arzila e a "Invenção da Glória"
24 de Agosto é uma data fértil em acontecimentos. Uma delas foi a conquista de Arzila, em 1471, etapa relevante do plano expansionista de D. Afonso V por terras mouras. O Africano quis que o feito militar ficasse registado para a posteridade e encomendou às oficinas flamengas de Tournai (hoje na Valónia) um conjunto monumental de tapeçarias que retratassem os vários momentos da tomada da cidade.

Assim sucedeu, mas por razões misteriosas as tapeçarias foram parar ao Ducado de Infantado, que os cedeu posteriormente à Colegiada de Pastrana, onde se mantiveram durante séculos. A grande questão é que a "transferência" não se deu durante o reinado da dinastia dos Habsburgos, entre 1580 e 1640, mas sim na primeira metade do século XVI, e não consta que fosse qualquer oferenda de casamento a uma qualquer infanta castelhana. Até hoje, não se percebe como é que as tapeçarias foram parar à colegiada da pequena cidade perdida no meio de Castela.

Nelas se retratam o desembarque atribulado, o cerco a Arzila e a tomada da cidade. Em todas, o Africano é representado em destaque, com uma armadura reluzente, distinguindo-se também o Príncipe D. João. Numa quarta tapeçaria representa-se ainda a tomada pacífica de Tânger, cuja anterior tentativa de conquista anos antes redundara num fracasso e custara a liberdade a D. Fernando, o Infante Santo.

Depois de séculos em Espanha, as quatro tapeçarias estão expostas do Museu Nacional de Arte antiga, em Lisboa. Impressionam pela sua monumentalidade e minúcia, retratando todos os passos dos acontecimentos da época. Os Painéis de São Vicente foram temporariamente retirados do seu lugar habitual e colocados mais à frente, para completar o conjunto. A exposição, intitulada "D. Afonso V e a Invenção da Glória", pode ser vista nas Janelas Verdes até 12 de Setembro. E garanto, vale imenso a pena ver aqueles lindíssimos e imponentes tecidos, comparáveis às célebres tapeçarias de Bayeux, que depois de tanto tempo encerrados num obscuro mosteiro espanhol, nos relatam com grande pormenor e arte esse período de conquistas que iniciou a época de ouro de Portugal

sábado, agosto 21, 2010

Cento e dez anos sem Eça

No meio da autêntica silly season, e com uma festa de centenário pelo meio (não, não era o da república), valham os blogues para nos recordar as grandes efemérides. Por acaso não tenho nenhum Eça à mão, mas estou a ver ali um Machado de Assis a espreitar por baixo do Ipsilon de ontem. Dadas as matérias e a contemporaneidade, tenho esperança que seja suficiente para afastar a vergonha.


segunda-feira, agosto 09, 2010

Um submarino vogando no Tejo


Os novos submarinos comprados ao consórcio alemão HDW podem ser de utilidade escassa ou duvidosa, podem ser caros e as suas contrapartidas um logro, podem ser excessivos para as funções a que se destinam, pode haver sucedâneos mais eficazes e mais económicos, mas uma coisa é certa: é (ao menos o primeiro chegar, o Tridente) um autêntico espectáculo visual, vê-lo perfilado navegando face ao Terreiro do Paço. Uma imagem de elegância, pompa naval e circunstância, como agora raramente se vê em Portugal. Os mil milhões de euros sempre deram para uma boa fotografia.

quarta-feira, agosto 04, 2010

Saramago só depois
As homenagens artísticas tanto podem ser legítimas e compreensíveis como se podem revestir de um oportunismo com intenções várias, a começar pelas ideológicas. A recente proposta da
CDU de de dar o nome o nome de Saramago a uma rua do Porto encaixa-se nas duas. Já a sua recusa pela câmara tanto se pode justificar por ressabiamento político como por sensatez numa altura em que a morte do escritor é muito recente, e dá azo a qualquer aproveitamento ideológico e a análise sem a devida distância.
Não me aquece nem me arrefece que Saramago tenha uma artéria com o seu nome no município, desde que seja um novo arruamento e não uma rua central, como os seus camaradas fizeram por breves dias, quando em pleno PREC trocaram os nomes das Ruas Júlio Dinis e D. Manuel II por rua Catarina Eufémia e rua...José Estaline (toponímia que como é óbvio, não colou). Também acho que a desculpa da câmara para não dar esse nome, em "apenas aceitar nomes de cidadãos com ligação directa ao Porto para ruas da cidade", escudando-se numa mais que discutível e limitativa decisão da Comissão de Toponímia, é patética e apenas ridiculariza a cidade. A seguir esse critério,a rua de Camões teria de mudar de nome.
Mas se tomarmos em devida conta a decisão da comissão, conjugada com o súbito entusiasmo da CDU na atribuição de novos nomes de ruas, é caso para se perguntar porque é que ninguém propôs os nomes de Sophia de Mello Breyner e de Eugénio de Andrade? Não só tiveram uma ligação directa com o Porto como foram vultos literários ilustres. Curiosamente, os seus nomes não constam da toponímia portuense, ao passo que noutros concelhos, como Lisboa (mais precisamente o miradouro da Graça), ou Matosinhos, já lá estão. Assim, permita-se algum hiato de tempo após a morte de Saramago, dê-se-lhe a devida distância, e já agora, altere-se a bizarra decisão da Comissão de Toponímia. Entretanto, vamos imortalizar Sophia e Eugénio no Porto, como eles merecem. E depois, mas só depois, é que o nome do homem de Azinhaga poderá ser tido na devida conta.

sábado, julho 31, 2010

Confronto



O livro Confronto - História de uma Cooperativa Cultural, de Mário Brochado Coelho, foi lançado há dias, no Porto. É uma espécie de resenha histórica, cronológica e onomástica, com extensos dados, apesar de ser um livro relativamente pequeno, recordando uma cooperativa cultural de oposição ao Estado Novo. A Confronto surgiu nos anos sessenta, pela mão de sectores católicos oposicionistas, inspirada pelo Concílio do Vaticano II e pelo afastado Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, e durante a sua existência teve extensa actividade cultural e social, para além dos problemas inerentes a qualquer instituição que não estivesse nas boas graças do regime vigente, o que deu origem a várias atribulações e diversas mudanças de sede. Dela fizeram parte, além do autor do livro, pessoas como Francisco Sá Carneiro, Artur Santos Silva, coisa que já sabia, e outros que ignorava de todo em todo, como Jardim Gonçalves. Teve existência efémera - acabou antes do 25 de Abril - e posteriormente os seus membros dispersaram-se por várias formações partidárias saídas da Revolução, da UDP ao PSD. Todavia, sua memória e a sua história são dados importantes para se perceber melhor os circuitos da oposição ao regime fora da área de influência do PCP nos últimos tempos do salazarismo e na era marcelista.

terça-feira, julho 20, 2010

Mundial - notas, identidades e coincidências


Uma das coisas que dá certo gozo acompanhar nas competições futebolísticas para amantes de bizantinices como eu é acompanhar o despique político, histórico ou sociológico por trás de alguns jogos de futebol. O Mundial que agora acabou não constituiu excepção. Assim, revimos alguns clássicos inter (e extra) futebolísticos, como o Alemanha-Inglaterra, o Portugal-Espanha e até a final, com uma carga histórica completamente ignorada.
Uma das maiores rivalidades entre nações do mundo da bola é a que existe entre Inglaterra e Alemanha. A febre pelo desporto coincidiu com a adversidade política e bélica, quando o Reich rivalizava com o British Empire no número de fábricas. Como se sabe, deu em tremendas guerras entre as duas potências, com a subsequente vitória britânica. Ao triunfo nos teatros de guerra, os ingleses juntaram a supremacia nos relvados. Na maioria dos casos suplantavam os germânicos, cujo desporto favorito era mesmo a ginástica. Isso durou até ao Mundial de 1966, cuja final os bretões ganharam com o polémico golo de Geoffrey Hurst. A partir daí, nos confrontos entre as duas equipas, quase só deu Alemanha, que também teve muito maior sucesso em competições internacionais, arrebatando troféus, finais e terceiros lugares. Os ingleses, apesar de continuarem a pensar que têm uma relação única com a bola e jogadores superlativos, nunca vão muito longe, e quando estão perto do fim, apanham com o velho inimigo teutónico, que até nos penaltis os vencem. Comprovam-no o Mundial de 1990 e a desolação de Gascoigne, Stuart Pearce, Southgate, e até o "hino" dos Lightning Seeds, indiscutivelmente festivo mas com um toque agridoce de melancolia da derrota. Já Lineker resumia tudo numa das mais famosas máximas do mundo da bola: "o futebol são 11 contra 11, e no fim ganha a Alemanha". Notável excepção: o Alemanha-Inglaterra de 2001, para a qualificação do Mundial 2002, partida que os ingleses venceram por impressionantes 5-1 no Estádio Olímpico de Munique, e que se tornou um troféu que doravante puderam exibir nas discussões com os alemães.

A sobranceria inglesa reside portanto no pensamento enraizado da "pátria do futebol". Não por acaso os melhores resultados recentes da Selecção deveram-se a técnicos de fora, como o mal amado (?) Eriksson. Mas agora nem com Capello a coisa correu bem. Outro dos erros comuns dos ingleses é confiarem na qualidade individual dos seus jogadores, esquecendo que um Lampard e um Gerrard não jogam necessariamente bem juntos, ou que um Rooney também pode atravessar dias maus. Se o capitão Beckham e o poste Rio Ferdinand se lesionam, a coisa tende a dar para o torto. E tendo em conta que desde o quarentão Peter Shilton não arranjam um keeper de qualidade, apesar dos esforços de David Seaman, é com naturalidade que sofrem golos. Para seu azar, o velho inimigo germânico, despojado de estrelas, mostrou a sua máxima eficácia com jogos terrivelmente colectivos. Em mais um jogo que opôs as duas equipas, aquele golo anulado num momento em que a equipa de arbitragem sofria de alucinações momentâneas poderia ter mudado os números da goleada, mas não a vitória alemã. Os jogadas extremamente rápidas e combinadas dos alemães teriam abatido a Inglaterra em qualquer ocasião. Jogo físico, sem rodriguinhos, de uma simplicidade absurdamente eficaz: eis a Mannschaft quase tradicional, no seu máximo esplendor. E escrevo "quase" porque faltou um elemento tão próprio das selecções alemãs vencedoras: o líbero. Beckenbauer, Matthaus e Sammer, comandando as respectivas gerações, mostraram como esta posição indefinida era a peça essencial para o triunfo nas competições internacionais. O último terá sido Olaf Thon, uma peça menos preciosa na nobre linhagem germânica dos líberos. Desta vez, o capitão era um defesa lateral, Lham. Por isso a Alemanha, com todo o seu bloco colectivo, não chegou ao fim.

Mas antes da queda frente à Espanha tiveram tempo de cilindrar a orgulhosa Argentina, depois da goleada à Inglaterra. Mais uma vez o jogo colectivo e mecânico não deu hipóteses às jogadas individuais da turma de Maradona, que para além do superlativo Messi tinha o melhor naipe de avançados da prova. Reeditou-se mais um clássico dos Mundiais (com o seu auge entre os anos oitenta e noventa, quando estas duas equipas dominavam o Mundo), depois dos penaltis de 2006.
Mas um clássico apesar de tudo morno se comparado com o que teria tido lugar caso por milagre de S. Jorge os ingleses tivessem eliminado a Alemanha. Entre argentinos e alemães nunca houve hostilidade mútua, fosse pela comunidade germânica no país das Pampas, pelas relações comerciais estabelecidas entre ambos os países, e pela formação militar de oficiais argentinos na Prússia antes da 1ª Guerra. E não era à toa que muitos refugiados nazis se acolheram na Argentina depois da 2ª Guerra, aproveitando as simpatias germanófilas dos seus líderes, entre os quais Juan Peron.
Já a inimizade entre argentinos e britânicos, como se sabe, incendiou-se depois da Guerra das Malvinas. O jogo da "mão de Deus" e o golo depois de não sei quantas fintas de Maradona tornou-se o ex-líbris dessa inimizade, normalmente ganha pelos sul-americanos, com excepção de 2002, em que os comandados de Beckham venceram de penalti Batistuta & Companhia, deixando ainda mais de rastos um país então em gravíssima crise económica e social, que olhava para os seus jogadores de futebol como portadores de uma redenção que não veio.
Caso se tivessem encontrado novamente, teríamos as provocações em catadupa do rubicundo Maradona a Beckham, no seu fato Savile Row versão urban-chic, sob a fleuma habitual de Capello, Terry a envolver-se com Tevez e Rooney com Demichelis, tensão entre os milhares de adeptos, expulsões em barda e golos de antologia. Em suma, um grande jogo. Pena que não tenha sido possível.

domingo, julho 11, 2010

Um moço de recados desprestigiante


 
Se há político que pelas suas atitudes mancha absolutamente a sua classe, tem um nome em Portugal: José Lello. Mancha que espalha, aliás, reiteradamente, como se nada fosse. Depois de dizer que Manuel Alegre tinha aproveitado voos pagos pelo seu partido para fazer acções de promoção dos seus livros nos Açores (coisa que era mentira), e de vir em socorro a Vital Moreira, quando este acusou o PSD de estar ligado às "roubalheiras do BPN", mandando pelo caminho recadinhos a Maria de Belém quando esta disse não se rever em tais declarações, vem agora com a sua última bojarda. Um projecto recente do Parlamento previa que os deputados viajassem em voos de classe económica em viagens de tempo inferior a três horas, excluindo o Presidente da AR. Todavia, Jaime Gama renunciou à regalia e colocou-se ao nível dos restantes deputados. Não se sabe vindo de onde, Lello surgiu dizendo que seria "desprestigiante"o Presidente da AR não viajar sempre em executiva.

Não sei o que leva a criatura a dizer tantos disparates. Será o porta-voz das coisas que a cúpula pensa e não pode dizer? Terá alguma propensão clínica para a asneira? Ou acumulará tantos ódios de estimação que não se contém e revela-os publicamente? Seja como for, cada vez que fala queima-se publicamente. Estranho que não perceba que a atitude de Gama revela sentido de estado e cai bem na opinião pública. Não sei como Lello se mantém no Parlamento, ou que valia trará actualmente ao PS, mas este ofício de moço dos recados estapafúrdios e trauliteiros (agora a visar o próprio Jaime Gama) não deve trazer muitos votos. Alguém lhe diga, com todas as letras, que desprestigiante é a sua figura quando se lembra de abrir a boca com um microfone à frente.

domingo, julho 04, 2010

O mítico Uruguai revive


E a Celeste ganhou mesmo. Com lesionados e expulsos à mistura, com um estádio todo a puxar pelos adversário, ultrapassou o Gana, depois de estar à beira da eliminação no último minuto do prolongamento. Os seus jogadores voltaram a exibir uma resistência sobre humana às adversidades, que já não mostravam há muito, mas que os levou aos grandes momentos da sua história futebolística.

Também em 1950, na final do Campeonato do Mundo, num Maracanã a abarrotar de gente (o jogo com mais espectadores de sempre), apoiando furiosamente o Brasil, ao qual bastava o empate para se sagrar pela primeira vez campeão mundial, os uruguaios pareciam meros convidados formais, condenados a ser parte de uma mera formalidade a que toda aquela multidão tinha vindo assistir. Mas não era isso que estava escrito, e, comandados pelo capitão Obdúlio Varela, resistindo a um ambiente adverso e a um golo de avanço do Brasil, entraram mesmo na baliza à guarda de Barbosa, pelo grande avançado da equipa Juan Alberto Schiaffino, primeiro, e depois por Ghiggia, que deu a estocada final. O Brasil não mais conseguiu marcar e perdeu a final num silêncio sepulcral, ao passo que os uruguaios, por quem ninguém dava nada, levaram com eles a Taça. Houve suicídios, lágrimas e culpas para muitos, a começar no guarda-redes. Desde então, s selecção brasileira deixou a camisola branca e adoptou o amarelo, com a qual ainda hoje se veste.

O Uruguai ainda disputou as meias finais quatro anos depois, na Suíça, caindo perante a fabulosa Hungria de Puskas. Muitos dos seus jogadores foram depois jogar para Itália e passaram mesmo a jogar pela selecção transalpina, numa altura em que isso era possível, dado que muitos eram filhos de imigrantes italianos. Com isso, a Celeste perdeu a sua força anterior, começou a falhar Mundiais, e só em 1970 voltaria a umas meias finais. Conseguiu-o de novo agora, numa campanha épica e de muito sofrimento. É pouco provável que consiga ir mais além, com uma moralizada Holanda pela frente, e sem alguns elementos importantes, mas se conseguiram vencer o Brasil no Rio de Janeiro, quem é que pode assegurar que os sucessores de Schiaffino & Companhia não voltam a surpreender?

sexta-feira, julho 02, 2010

Clássicos à vista


Entretanto, os jogos dos quartos prometem. Um Brasil-Holanda é sempre apetecível. Em confrontos anteriores, os canarinhos levaram sempre a melhor, mas com enorme dificuldade, em jogos memoráveis (ainda me lembro do de 1994, com Bebeto a inventar uma nova forma de comemorar um golo). Depois, a única equipa africana em prova tenta pela primeira vez chegar às meias finais, mas pela frente aparece uma equipa que em tempos idos sagrou-se campeã mundial por duas vezes. Aliás, agora que Portugal não está em prova, já sei quem vou apoiar.


A escolha é simples: prefiro sempre os clássicos, e este clássico, campeão e anfitrião do primeiro Mundial, em 1930, tem apenas três milhões de habitantes e mede forças com grandes potências. Caso não se supere, o sucedâneo nas minhas escolhas é o seu grande vizinho de baixo, que mede depois forças com os panzers, esses velhos inimigos de finais que até os eliminaram há 4 anos, em penaltys. Será pois o gênio dos rapazes de Maradona contra as arrancadas letais da Mannschaft.

O Adamastor espanhol



Não passámos à fase seguinte, afinal. O adversário também não ajudava. Provou-se que a Espanha é realmente forte, e não o produto de um Campeonato Europeu ganho por mera felicidade. Esta selecção espanhola congrega uma grupo de jogadores que estão no auge das suas capacidades, e quererá mostrar isso aos habituais candidatos ao título mundial.
 

Cair nos oitavos de final perante a Espanha, com apenas um golo sofrido, e depois de se temer o pior na fase de grupos está longe de ser vergonhoso. O que me dá pena nem é a derrota em si, mas a absoluta incapacidade e falta de audácia para tentar dar a volta ao resultado. Portugal não só não atacou depois do golo de Villa como ainda podia ter sofrido mais. Valeu-nos um par de centrais competentes e com experiência, um lateral esquerdo irreverente e um guarda-redes gigante. Fosse a equipa constituída por 11 Eduardos e a história teria acabado de outra maneira.


A primeira razão do desaire é a Espanha ser uma equipa superior. A segunda, quase tão importante, é que Portugal não tem um técnico à altura do evento. Isso já se sabia, mas a passagem aos oitavos camuflou um pouco. Carlos Queiroz não tem autoridade nem consegue fazer alterações necessárias a meio de um jogo, sobretudo quando perde. Ficou provado (espero que definitivamente) que não é de maneira nenhuma um bom treinador principal. Desde a sua passagem pelo Real Madrid que se percebeu isso. A propósito, o treinador de Espanha, Vicente del Bosque, uma velha raposa do futebol, antecedeu-o como técnico dos Merengues, na complicada altura em que os Galácticos queriam sobressair. Ganhou dois campeonatos de Espanha, duas Ligas dos Campeões, uma supertaça europeia e uma Taça Intercontinental. Queiroz deixou a equipa em quarto lugar. Diferença pequena, não é?


Depois tivemos um Cristiano Ronaldo entre o abúlico e o desamparado. Pouco se viu, tirando o "golo de mochila" contra a Coreia e algumas bolas na barra. Fica como o craque desilusão do certame, ao lado de Rooney.


Por fim, há a razão do fado lusitano, desta vez bem personificado. O jogo realizou-se na Cidade do Cabo. No primeiro, o tal contra os norte-coreanos, Madaíl e Queiroz deixaram uma coroa de flores na estátua de Bartolomeu Dias. Uma acção de louvar, rara nestes meios. Mas imediatamente começaram as frases fáceis, como "vamos voltar a ganhar na Boa Esperança e dobrar o Cabo das Tormentas". Se se lembrassem da história, talvez não tivessem invocado o nome do Cabo em vão. Sim, fomos os primeiros europeus a arribar à zona, e Bartolomeu Dias ultrapassou o mítico obstáculo, abrindo o caminho para as Índias. Mas nunca haveria de lá chegar. Acompanhou Vasco da Gama na sua viagem até certo ponto, e em 1500, na expedição de Pedro Álvares Cabral, depois do desvio pelo Brasil, seguiu para Oriente. Ao passar o cabo, as tempestades afundaram quatro navios, entre os quais o de Dias, que pereceu ao largo do Cabo que tinha ultrapassado em primeiro, e que legaria o seu nome à história. As Tormentas com que o tinha baptizado foram-lhe fatais.

Também na nossa segunda passagem pelo Cabo, neste Mundial, acabamos por naufragar, e logo perante o velho adversário castelhano (bem guarnecido de catalães, é certo). A nossa carreira no Campeonato do Mundo teve um estranho paralelo com o destino de Bartolomeu Dias. Os Descobrimentos fazem parte da nossa História, mas o Adamastor pertence à nossa Mitologia, e agora apareceu com vestes castelhanas. Falta-nos é um Camões que reze esta nova e tímida gesta.

terça-feira, junho 29, 2010

Passemos à próxima fase
Passamos o grupo, e isso é que importava. Sem golos sofridos, sem perder contra o Brasil, com um bombardeamento intenso ao território de Kim Jong Il (que pena que não seja de metralha, com o "Querido Líder" à frente), a única dúvida a pesar na consciência é o que acontecerá aos pobres jogadores norte-coreanos.
Emergiram algumas revelações, como um super-sónico Coentrão (espero que não apareça nos próximos tempos algum clube a cobrir a sua cláusula de rescisão) e um super-seguro Eduardo.Queiroz ficou em boa parte reabilitado. O perigo é que se seguirmos em frente, ele pode muito bem continuar no seu posto. Se eu troco a vitória sobre a Espanha pela sua saída? Nunca na vida. Amanhã, o distintivo de campeão europeu em título do adversário é para esquecer; amanhã, só fica um representante da Península Ibérica, e tem de ser o do costa Oeste.

segunda-feira, junho 28, 2010

Notas do S. João 2010

Este ano voltei às folias sanjoaninas, depois de cinco anos de ausência da enorme festa popular. Entre os habituais martelos, os temíveis alhos-porros (um até me cravaram nos olhos!) e as estreantes vuvuzelas, que espero que tenha sido caso único, ficam algumas observações particulares:
- Na pista de helicóptero da Douro Azul, debruçados sobre o rio, entre música, inúmeros barcos e fogo de artifício, havia quem estendesse as suas canas, a pescar. É de pensar se naquelas circunstâncias haveria peixe nas redondezas. Mesmo a pesca amadora tem os seus fanáticos, que nem em plena noite de S. João pousam as canas.
- O coktail de martelos, vuvuzelas e gritaria no túnel da Ribeira é bastante mais ensurdecedor do que uma fila de camiões com música electrónica em altos berros no mesmo espaço. Pasmem, mas é verdade.
- Confirma-se que a ponte Luiz I abana quando é atravessada por multidões. Já me tinham contado que isso se sentia no tabuleiro superior, mas nunca pensei que o inferior oscilasse assim tanto. Quem já sentiu um sismo mediano (como o de Dezembro passado) poderá imaginar a sensação, com a diferença de que é por cima do rio. O tabuleiro inferior abana ao ritmo dos passos que nem um baloiço.
- Lembro-me, quando tinha 17 ou 18 anos, que já o sol se mostrava e havia ainda imensa gente nas praias da Foz. Este ano, no entanto, notei bastante menos pessoas dessa e de outras idades, embora o Molhe não estivesse propriamente vazio. Seria pela manhã encoberta, uma hora mais tardia do que pensava, ou estava simplesmente toldado pela nostalgia do S. João do passado?
Controleiros culturais
Nesta coisa da morte de personalidades ligadas à literatura há sempre episódios menos edificantes por razões extra-literárias. Se o artigo do Observatore Romano era infeliz, que dizer do que se passou com a proposta de voto de pesar pela morte de António Manuel Couto Viana, que antecedeu em poucos dias a de Saramago? O caso passou despercebido, mas Eduardo Pitta resume-o aqui: alguns deputados do PS apresentaram a proposta, mas retiraram-na depois da recusa e dos protestos do Bloco e do PCP com o pretexto de que tinha combatido na Guerra Civil Espanhola ao lado dos Nacionalistas (ou seja, quando era um adolescente). Não sei de onde vem essa desinformação; mesmo que fosse verdade, estou certo de tais partidos que aplaudiriam outrém que fosse veterano das fileiras republicanas (que também cometeram as suas atrocidades). O que é certo é que a mesma gente que se indignou com a ausência de Cavaco Silva no funeral de Saramago vem agora invocar razões políticas - e falsas - para recusar um mero voto de pesar a um vulto respeitável da poesia e do teatro. Um voto de pesar, note-se, não uma homenagem, ou dias de luto. Ficaram claros os argumentos culturais desta gente: se não pertencem à sua trincheira, devem ser esquecidos e ostracizados. É a velha tara marxista de que a arte será sempre um meio para atingir objectivos "sociais", nunca um fim em si. E ainda se atrevem a zurzir quem não se curvou perante Saramago. Mal estiveram igualmente os proponentes, que deviam ter insistido na votação. Mas bom será que este caso não caia no esquecimento, e que seja recordado o seu papel de controleiros culturais quando os excelentíssimos deputados bloquistas e comunistas invocarem qualquer "perseguição" a algum vulto do respectivo "sector intelectual".

quarta-feira, junho 23, 2010

Odiozinhos desnecessários


Entre as numerosas reacções da morte de Saramago, houve um pouco de tudo, desde as loas esperadas ou as comparações com Camões, até manifestações de maior azedume. A ausência de Cavaco parece-me pouco significativa. Talvez devesse lá comparecer, mas não vale a pena esbracejar, como o tentou fazer Louçã e uns quantos jornalistas, até porque na altura estava nos Açores. Chamou-me mais a atenção uma outra reacção e um contraste. O Observatore Romano comentou a morte do escritor de forma extremamente dura e amarga, referindo-se-lhe como "populista e extremista", de "ideologia anti-religiosa e marxista", sem "nenhuma admissão metafísica".

Bem sei que a relação entre o escritor e a Igreja era difícil e até hostil. Para além de alguns dos seus livros, ainda houve os constantes remoques de Saramago, como as picardias a propósito do seu último livro, ou quando disse, num acesso de primarismo, que "as religiões só serviram para dividir os homens". Nunca simpatizei particularmente com a criatura. Mas a Igreja tem como missão salvar as almas e espalhar a Boa Nova, procurar a conciliação e o perdão. Deve procurar que qualquer criatura humana atinja a salvação, mesmo que tenha tido toda uma vida contrário aos valores cristãos. Não é fazendo obituários ressentidos que dá o bom exemplo. Só consegue assim mostrar espírito vingativo e prolongar as querelas para além da morte do velho adversário. Para mais, numa altura em que o Papa tenta a reaproximação entre a Igreja e a Cultura, esta atitude atira por terra uma boa parte desse esforço, qual Sísifo ressabiado. Não é possível querer chegar aos agentes culturais atirando-se àqueles que a vituperam na hora da sua morte.

Em claro contraste com o artigo do jornal, a Igreja católica portuguesa, através do comunicado emitido pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, lamentou a morte do escritor, e muito embora recordasse as polémicas que com ele manteve, não deixou de o considerar um "grande criador da língua portuguesa e expoente da nossa cultura", aludindo ainda ao seu interesse pelo texto bíblico e a "vivacidade do debate" que daí decorreu. Não deixou que as suas amargas críticas se sobrepusessem à criação literária e à relevância artística do autor. Deu um salautar exemplo de cristinianismo - caridade, sensibilidade cultural, conciliação - que devia fazer pensar os jornalistas do Observatore Romano.

Bento XVI veio a Portugal também com o intuito de mostrar aos nossos prelados alguns exemplos de boa prática eclesial, universalidade do catolicismo e divulgação cristã, para além de discursos redondos e cerimoniazinhas sem nexo que por cá se vêem. Mas por uma vez, a Igreja portuguesa mostrou-se à altura de dar algumas lições a Roma. Que a aproveitem.

sexta-feira, junho 18, 2010

José Saramago 1922 - 2010
Morreu Saramago. É sim dúvida uma referência literária contemporânea, além de original, e que deve ser enaltecida por isso. Mas não façam dele, como já se ouve, o que manifestamente não era: um "combatente, toda a vida, pela liberdade". Sem esquecer, claro está, que uma referência literária não é necessariamente, uma referência moral. São aliás duas coisas que raramente se encontram numa mesma pessoa.
Ióiós
Eu disse no post anterior que o México era razoável? Acho que os subvalorizei. Ou então, a França, que perdeu 2-0 com eles, é que é bem pior do que se pensava. Os Mundiais dos gauleses são sempre uns autênticos ióiós: não se qualificam (1994, cortesia de Kostadinov), ganham a Taça (1998), são arredados na fase de grupos (2002), chegam à final (2006), voltam a desiludir (2010). Pelo sim pelo não, apostava neles para daqui a quatro anos.

quinta-feira, junho 17, 2010

Mundial


O Mundial começou, e até já entrou na segunda ronda. Não tenho seguido com o mesmo interesse de outros certames. O facto de ser em terras africanas não me dá qualquer acréscimo de interesse. Até acho que mo tira, e não é só por causa daquele infernal tubo de plástico que imita um enxame de vespas durante hora e meia. Se uma vuvuzela já é irritante, uns milhares ao mesmo tempo devem ser insuportáveis. é um dos preços a pagar por se querer levar este tipo de eventos a terras distantes. Os outros são algumas vergonhas, como manifestações de stewards por não serem pagos, e já nem falo da crónica insegurança daquele país.


Outro motivo de pouco interesse é a nossa Selecção, que continua a ser aquele bocejo com Cristiano Ronaldo a fazer que joga. Contra uma Costa do Marfim surpreendentemente bem organizada e com boa defesa (consequências de Mr Eriksson ou já era assim?), tivemos a sorte de Drogba arriscar pouco por causa do braço. As equipas de Queiroz continuam a ser a mesma coisa insípida e sem garra do costume, e sem Nani isso torna.se mais visível. Só um surpreendente Coentrão consegui agitar um pouco as laterais. Viu-se futebol a espaços, como se tem visto neste Mundial. Eis talvez o outro motivo para a minha falta de interesse. Quantos grandes jogos se viram até agora? E com tal escassez de golos, quantos registará o melhor marcador da prova? Parece-me que o facto de haver tantas selecções "exóticas", de que os senhores da FIFA tanto gostam, e que marcam presença como já não se via desde o Mundial de 1982, levam o jogo a esta pobreza franciscana. Se em Espanha 82 tínhamos coisas como o El Salvador e o Kuweit, agora temos as duas Coreias numa mesma prova, a Eslováquia, e os repetentes Nova Zelândia e Honduras.


Até agora, viu-se uma Alemanha digna do seu nome, uma Holanda a tentar imitá-la, ainda pouco certa do seu rumo, interessantes Coreia do Sul, Gana e Chile, e uma Argentina que com um treinador a sério daria cartas. Grandes desilusões até agora foram a Inglaterra e a Espanha, que por várias vezes ficou arredada mais cedo quando era considerada favorita. A Itália empatou com um complicado Paraguai, e os restantes adversários são fraquitos, por isso nem terá muito com que se preocupar.




Paradoxalmente, há um mesmo grupo onde as desilusões se misturam com as maiores emoções. Trata-se do Grupo A, que acolhe a anfitriã, o México, que me parece uma equipa muito razoável, a antiga campeão França e o outrora temível Uruguai. Um dos poucos jogos que segui foi precisamente o confronto entre estas duas últimas equipas, que já ergueram a Taça do Mundo. Entre dois azuis, torci pelo celeste, tendo em conta as más recordações que os Bleus franceses nos dão. Vi um jogo quezilento, sem grandes oportunidades de golo, em que os gauleses nem contra dez conseguiram marcar. Sem Zizou as coisas tornam-se complicadas. Quanto aos uruguaios, há já muito que não conseguem surpreender. Até hoje, em que aplicaram chapa 3 à África do Sul, comandada pelo técnico ex-campeão do Mundo Carlos Alberto Parreira. Não terá sido um Maracanazzo como na dramática final de 1950, mas deixou os da casa quase em estado de choque e em sérios riscos de não se apurarem para a fase seguinte. E notou-se que as vuvuzelas diminuíram de tom. Se isto servir para as calar, os Celestes levam já o meu apoio para a conquista da Taça dourada, excepto no momento em que enfrentarem Portugal. Quem cala aqueles instrumentos do demónio só pode ser uma selecção abençoada.




terça-feira, junho 15, 2010

As medidas para a desertificação



Depois das promessas iniciais, Isabel Alçada já está a descarrilar. As decisões dos últimos tempos foram valentes tiros no pé, um a seguir ao outro. tivemos primeiro a história da passagem dos alunos do oitavo ano para o décimo mediante alguns exames, que é um belíssimo desincentivo às faltas e ao copianço. Depois, a decisão, que já começou a ser concretizada, de fechar todas as escolas com menos de vinte alunos. Parece que tais situações são "criminosas" e causa de "abandono", "exclusão" e "insucesso escolar". Não se percebe bem porquê, excepto se pensarmos nos critérios habituais do socratismo.


A desculpa do "insucesso escolar" é apenas areia para os olhos. As verdadeiras razões são outras. Uma é a de economia de recursos, humanos e materiais. Até se perceberia caso se tratasse de escolas com menos de cinco ou dez alunos, mas nunca de vinte. A outra razão prende-se com o fecho de inúmeras estruturas locais. Para além das razões de gestão, há a ideia não confessada, mas explícita, de se acabar com as aldeias e o mundo rural. É quase impossível encontrar uma aldeia com mais de vinte crianças em idade escolar. Os propósitos de José Sócrates são os de "modernizar o país", como ele afincadamente repete. Ligada a esta ideia está a de vida urbana, que obviamente exclui toda e qualquer marca de ruralidade, considerada "atrasada", "ignorante" e "medieval". Acelerou-se a extinção de serviços de saúde, de instrução, etc, com os mesmos argumentos de "racionalização de meios". Já se fala em extinção de comarcas e até em fusão de concelhos. A desertificação do interior, iniciada nos anos sessenta, está em marcha.




Como acontece a muita gente que nasceu nesse interior, Sócrates tenta camuflar o melhor que pode as suas origens, pretendendo passar por homem moderno, cosmopolita, desempoeirado e sofisticado. Essa preocupação em atirá-las para as costas é visível na sua obsessão com as novas tecnologias, cujo corolário é o famoso Magalhães.


Outra marca é este afã anti-rural, que tenta disfarçar com a construção de meia dúzia de estradas. Mas todos sabem no que resultarão medidas como as do fecho destas escolas: as crianças terão de se levantar ainda mais cedo para ir para a vila e a pequena cidade, ganharão a ideia de que viver na aldeia não é "moderno" (ainda para mais quando nelas impera a velhice, esse transtorno dos tempos contemporâneos), e forçosamente abandonarão a aldeia, com os pais ou logo que tenham de trabalhar. Os pequenos povoados envelhecerão e desaparecerão. A terra ficará deserta, semeada de ruínas esquecidas, charnecas, mato e montes, entrecortadas por estradas entre uma e outra cidade. A agricultura tenderá a ser ainda mais marginalizada, excepto algumas culturas específicas, como o vinho, ou as hortas comunitárias, ou ainda os campos de golfe dos resorts turísticos em redor das barragens resultantes do respectivo plano nacional, que afundará mais campos e estruturas centenárias como a Linha do Tua. Assim se realizará a tão ansiada "modernização do país", que nos aproximará fatalmente, como nos tentam convencer, dos "índices de desenvolvimento humano" dos "países civilizados". Mas quando isso acontecer, e os subúrbios estiverem insuportáveis e incomportáveis, as pessoas lembrar-se-ão que precisam de produtos da terra para comer, e de espaço para viver. Nessa altura, José Sócrates já não governará Portugal.


sexta-feira, junho 11, 2010

Schwarzenbach em Ukhaidir


Entre os autores dos obras de viagens de que falei há dias destaca-se Annemarie Schwarzenbach, a viajante suíça que passou pelo Europa Central, em tempos de ascensão do nazismo, pelo Médio Oriente anterior aos nacionalismos, e pelos Estados Unidos da Grande Depressão. Pelo meio também esteve em Portugal nos primórdios do Estado Novo.
O CCB organizou há não muito tempo uma exposição do seu legado fotográfico, onde constam as paragens atrás descritas. Dela constavam tanto fotografias da autora como com a própria. Annemarie surge quase sempre com ar melancólico, como se as suas inúmeras viagens lhe atribuíssem um eterno estatuto de exilada da Suíça, que tão pequena e pacata era para si. O seu ar andrógino mas belo (não tinha reparado devidamente no seu rosto, que recorda, por exemplo, Cate Blanchett) distinguiam-na como um ser único, sem contar com a sua queda pela exploração de terras exóticas, prática tão pouco comum às mulheres da altura e de agora...




No Médio Oriente circulou entre a Mesopotâmia e a Pérsia, descobrindo e dando a descobrir aos europeus imagens que eles só conheciam dos relatos dos seus antepassados. Através das suas fotografias e dos seus artigos, recordou de novo paragens esquecidas ou desconhecidas. Entre elas contava-se a fortaleza-palácio de Ukhaidir, ou Ukhaidar, no coração do Iraque, uma enorme construção do século VII, isto é, dos tempos de maior expansão do Islão e do surgimento do Califado dos Abássidas, de Bagdad. Tinha como objectivo não só a de protecção de eventuais perigos como também de caravançarai, ou paragem para viajantes.


A imagem da fortaleza, num território inóspito e deserto, impressiona pela sua grandiosidade e dimensão. Dir-se-ia que aterrou ali de repente, atirado por Alá qual Kaaba iraquiana. A UNESCO classificou-a como património da Humanidade aqui há uns anos, ainda em tempos de Saddam, mas inexplicavelmente, ou talvez por o Iraque ser um destino tão recomendável pela sua segurança como a África do Sul, os registos que se encontram, mesmo na net (e na Wikipedia) são mais que escassos. Será um local obscuro para a grande maioria das pessoas, e seria também para mim caso não tivesse visto a sua imagem a ocre e branco, tirada nos anos trinta, surgido do nada.


A importância dos exploradores é também essa: registar para a posteridade locais e situações que no futuro, mesmo como novas tecnologias, dificilmente se poderiam descortinar. No caso do Iraque, por causa da sua situação política e social. As fotos e os artigos, chegando até aos nossos dias, encarregaram-se de os testemunhar

Schwarzembach assistiu aos grande fenómenos sociais do seu tempo, ainda se casou (e separou), ainda passou por África, antes de regressar à Suíça, já com a 2ª Guerra em marcha. Morreu aos 34 anos, nos anos da Guerra, ela, que tinha percorrido paragens tão inóspitas e perigosas, na neutral Suíça, de ferimentos resultantes de uma queda de bicicleta.

domingo, junho 06, 2010

A invocação civilizacional levada ao extremo

 

As notícias foram tantas que acabei por não ficar com uma opinião sólida sobre o caso do navio apresado pelas forças navais de Israel. Ou por outra, fiquei com a mesma: nesta questão não se pode ficar completamente de um lado. O navio era mais que suspeito, transportava armas e os soldados israelitas foram atacados por um bando de "activistas dos direitos humanos" também eles armados. O activismo a favor de Gaza é uma uma coisa muito estranha, porque parece contrariar os seus propósitos pacíficos. E todos sabem quem manda em Gaza e quem distribui a ajuda humanitária que lá chega.


Por outro lado, Israel normalmente reage sempre à bruta, matando dez por cada ferido do seu lado, lançando uma expedição ofensiva à sobrelotada faixa por cada rocket que cai no quintal de um colonato. Os resultados são pior emenda que o soneto. E com Netanyahu no poder, em coligação com os ultra-sionistas de origem russa, a coisa tende a piorar. Mas o que me faz mais espécie é que os defensores de toda e qualquer acção israelita invocam amiude que Israel, na sua luta contra vizinhos e árabes que os querem empurrar para o mar, está a "defender a civilização ocidental das hordas bárbaras dos sarracenos". Até certo ponto é verdade. Mas o argumento de "defensor da civilização ocidental" torna-se perigoso se levado ao extremo. A civilização que cresceu entre a Europa e os Estados Unidos, inspirada na antiguidade greco-romana, no Cristianismo e no Iluminismo é com certeza superior às outras pelos valores que defende, pelos ideais que inspirou e pelas vias que escolhe. Mas convém não exagerar na sua defesa a todo o custo: bem vimos os desmandos no Iraque sob esse argumento. Podemos também falar das Guerras Mundiais e de alguns exemplos miseráveis do colonialismo, como a destruição das sociedades pré-colombianas pelos espanhóis, ou a forma como os belgas dominaram o Congo. E recordar que também os nazis, ao invadir a URSS, diziam defender "a civilização ocidental" contra "as hordas mongólicas comunistas". Por isso, defendam-se os valores do Ocidente, mas não de uma forma sine qua non. Até porque o fanatismo acaba por ser a negação desses mesmos valores.

sexta-feira, junho 04, 2010

O TGV também se pinta de vermelho

 

As manifestações sindicalistas do passado fim de semana, em Lisboa, tiveram o apoio do PCP e do Bloco de Esquerda, ou não fossem as mesmas organizadas pela CGTP, pelo que estranho seria que os citados partidos não as apoiassem, em especial o primeiro (se bem que o Bloco também tivesse as suas razões, até porque pelo meio andou um grupo de radicais anarquistas, mais preocupados em atirar objectos à polícia). A manif destinava-se a protestar contra as recentes medidas de austeridade do Governo.

Entre as reivindicações do costume neste tipo de eventos contavam-se o aumento de salários, a manutenção "dos direitos que Abril nos deu", a não privatização de empresas públicas, etc, etc. Mas quando se trata de saber como há de o governo diminuir o défice, a resposta ou é uma evasiva lírica para demonstrar que isso é um assunto "secundário", ou fala-se logo na diminuição de proveitos de políticos ou administradores de empresas, pelo menos a avaliar por um recente outdoor bloquista, que aponta uma série de empresários, mesmo que alguns sejam do sector privado (que curiosamente são os que auferem menores rendimentos, se as contas do Bloco baterem certas).

Mas foram precisamente estes partidos que ainda há dias reiteraram o seu apoio ao avanço das grandes obras públicas, a começar pelo TGV, de entre todas a de rentabilidade mais que duvidosa. Para mais, os que irão utilizar tal transporte serão certamente aqueles que têm mais posses, e não os que participaram nas manifestações. Não é por haver TGV que as chusmas de pessoas que viajam em Intercidades entre Lisboa e Porto o vão deixar de fazer - caso contrário, fá-lo-iam de avião (o Alfa foi pensado para fazer as vezes do transporte aéreo, em versão um pouco mais vagarosa). Será que os dirigentes comunistas e bloquistas estariam a pensar em exclusivo neles próprios? Nesse caso, trata-se de uma inapelável traição aos valores colectivistas que apregoam e a rendição ao consumo puro. E uma coisa é certa: eles, que apontam sempre o dedo ao PS, PSD e CDS pelos males do país ficam a partir de agora co-responsáveis pelas futuras crises orçamentais e pelos atascanços nas finanças que tivermos. Quem se lança em aventuras deste calibre, contrariando descaradamente a sua doutrina, só tem que ser responsabilizado pelos seus actos. Ao lado dos partidos do "arco governamental", os partidos de esquerda radical e autoritária têm desde já a sua quota parte quando o défice nos voltar a bater à porta. é bom que ninguém se esqueça disso, na hora em que se pedir contas.