quinta-feira, março 31, 2011

E continua a guerra, agora com a NATO ao barulho

Deixa-me intrigado, a forma como está a ser aplicada a Resolução 1973 da ONU, aprovada há menos de duas semanas. O que nela constava era a imposição de uma zona de exclusão área, que impedisse a aviação líbia de bombardear os insurgentes, a protecção dos civis e o embargo de armas. Como se vê de há 15 dias para cá, a coisa é um bocadinho mais extensiva do que isso. A zona de exclusão aérea foi decretada, impedindo que a aviação kadhafiana continuasse a bombardear os revoltosos. Depois, as esquadrilhas combinadas de França, Reino Unido e Itália desbarataram as colunas de blindados que se preparavam para o assalto a Benghazi, impedindo um longo cerco, uma dura batalha e um provável banho de sangue. A rebelião/revolução agradeceu. Desde aí, a aviação multinacional tem bombardeado constantemente Tripoli e as forças do regime, sejam terrestres, navais ou aéreas. Kadhafi, que estava prestes a desbaratar o inimigo interno (depois de todos profetizarem o seu fim próximo), teve de recuar e assistir ao rápido avanço dos rebeldes, cobertos pela aviação em seu socorro. A sua cidade natal de Sirte, que lhe permaneceu fiel, esteve quase a cair, mas resistiu. Ao mesmo tempo, reocupou Ras Lanuf, que tinha sido tomada pelos rebeldes, caído de novo em poder "verde" e reconquistada pela revolta.

No meio desta confusão sangrenta, que certamente não poupará as cidades líbias da quase destruição, a NATO e a Liga Árabe têm tomado posições ambíguas. Uns acham que é suficiente a vigilância aérea; outros, que há que prestar auxílio mais eficaz aos rebeldes. Há mesmo uns que defendem uma intervenção terrestre, directa, se bem que esta posição seja posta de parte pela maior parte dos estados envolvidos. Não admira: as intervenções na Afeganistão e sobretudo no Iraque tornaram este tipo de acções muito impopulares (e no mundo árabes mais ainda), e a crise económica não permite muitas aventuras custosas. Mesmo que se argumentasse com uma interpretação extensiva da resolução 1973 e o apoio da Liga Árabe. Seria o primeiro passo para uma violenta retaliação.

O que é irónico é que os que bombardeiam o regime de Tripoli sejam precisamente os que tinham relações mais próximas com o Mad Dog. Ver Sarkozy, os britânicos, e acima de tudo a Itália (quando Berlusconi outrora andava de braço dado com Kadhafi) declarar que o seu regime é ilegítimo e que é preciso "negociar a saída", ao mesmo tempo que reconhecem o novo "conselho de Transição" líbio, é demonstrativo da mais despudorada realpolitik e de uma fuga para a frente pessimamente disfarçada. Até se percebe. Quando viram a rebelião às portas de Tripoli, pensaram que o regime estava por dias, e aproveitando a sua feroz repressão, apressaram-se a apoiar os "desejos de mudança", "respeito pelos direitos humanos e pela democracia", etc. Só que vos ventos mudaram, e observando a recuperação dos homens de Kadhafi no terreno, ao mesmo tempo que as tribos reafirmavam a lealdade ao "Guia da Revolução", deram-se conta de que as coisas se complicariam doravante nas relações diplomáticas com a Líbia, e que a sua confiança foram definitivamente minada. Como reagiria Kadhafi áqueles que lhe retiraram o apoio, depois de esmagada a revolta? Virar-se-ia ainda mais para o resto de África, ou pra a China? Retomaria o apoio ao terrorismo? Seria sempre uma situação demasiado embaraçosa para a NATO (que assumiu o comando das operações, para grande alívio dos Estados Unidos) e Liga Árabe.

Por essa razão, interessa acima de tudo dominar o regime verde e acabar com o poder da família Kadhafi na Líbia. Os ataques aéreos cumpriram a sua parte, mas se isso, só por si, não for suficiente - e pela desorganização dos rebeldes, parece não ser - o mais provável é que se comecem a distribuir armas mais eficazes, mesmo que os destinatários não as saibam usar devidamente. Com o apoio dos meios da NATO, que não dos efectivos, os revoltosos têm francas possibilidades de derrubar o regime, sabendo-se que Kadhafi nunca se renderá. Mas com a conquista e reconquista sucessiva do território, isso arrisca-se a levar umas boas semanas. Entretanto, a cotação do petróleo vai subindo.

Boas e más novas nas artes portuguesas

É sempre bom saber que mesmo no meio da tormenta de juros crescentes e cortes de rating, e na crise política vigente, ainda há reconhecimento pelo que de melhor se faz em Portugal.




sexta-feira, março 25, 2011

A Morte de Sócrates, por Jacques-Louis David. O Mestre explicando aos seus assessores e "boys" chorosos que a cicuta, de tipo PEC, é consequência da crise internacional e que a "direita neoliberal" e a "esquerda radical" é que agravaram a situação, apesar de todas as Apologias e virtudes filosóficas (TGV, Magalhães, "racionalização das estruturas escolares", etc).
A maior irresponsabilidade

A cara de pau que o núcleo duro socratista assume quando fala na "irresponsabilidade da oposição" seria uma boa piada se a situação não fosse tão grave. Se houve irresponsáveis foram os que permitiram que a situação financeira, política e moral chegasse a este ponto. Andar a prometer mundos e fundos, e TGVs, e barragens, e aeroportos, e a aumentar salários antes das eleições deu na tenebrosa situação a que estamos sujeitos, quase a pedir ao FMI que venha cá e que os juros monstruosos e incomportáveis baixem um pouco, finalmente. É verdade que culpados houve muitos, antes de Sócrates e os seus muchachos. Mas nunca como aqui a irresponsabilidade e a sede de poder tinham ido tão longe (se bem que Santana Lopes tenha dado mostras disso em apenas seis meses de governação).

Isto verificou-se de forma cristalina na apresentação traiçoeira do PEC 4, passando por cima de acordos anteriores com o PSD sem avisar nem o Presidente, a oposição, ou qualquer outro orgão de sobernia, incluindo o próprio grupo parlamentar. Uma tão grande partida merecia, como mereceu, que toda a gente passasse a desrespeitar o governo e a entender que o prazo de validade se esgotara. Continuo sem saber se Sócrates acreditava que à última o PEC iria passar ou se era uma partida para fugir sob a capa da vitimização (ou reforçar o seu poder numa eventual reeleição). Apesar de muito se falar numa provocação para causar a fuga, talvez a primeira hipótese não seja descabida. A cara dele no debate no Parlamento dizia tudo, o que talvez explique a saída abrupta com menos de meia hora de sessão. Talvez essa imagem seja a mais elucidativa. No momento mais delicado, quando o seu governo corria seriíssimos riscos de caír, quando Teixeira dos Santos começou a falar, o Primeiro-Ministro, com ar vexado, de quem sabia que tudo estava prestes a acabar, abandonou o palco de combate, deixando as tarefas mais espinhosas ao seu mais atacado ministro e a um resistente Francisco Assis. Apesar de tudo, julgava que Sócrates mantinha uma réstia de coragem. Quem não consegue enffrentar os adversários políticos no Parlamento quando está em baixo não se pode vangloriar de enfrentar a "crise internacional". Entre todas as outras, esta terá sido a sua irresponsabilidade mais notória e eloquente.

quinta-feira, março 24, 2011

Os anti-portugueses cá da terra

 
Sobre o discurso de Cavaco Silva dos cinquenta anos da Guerra colonial, fico um pouco dividido. O entusiasmo e a determinação da grande maioria dos soldados que ia para África, onde nunca antes tinham posto os pés, não deviam ser muito elevadas. Nesses aspecto, as palavras de Cavaco foram despropositadas.

Mas piores terão sido as reacções de Louçã e restantes camaradas ideológicos, que logo se apressaram a vir com as palavras de ordem do costume. O "anti-colonialismo" e a "denúncia da fascismo" este sempre presente. Nunca lhes ouvimos, no entanto, uma palavra de consolo a todos os que viviam em África e tiveram de fugir com a roupa do corpo, sob o perigo de acabar a golpes de catana. Como aconteceu às vítimas dos massacres da responsabilidade da UPA de Holden Roberto, detonador da guerra. Também sobre esses não lhes ouvimos palavras de condenação.

Podemos achar que não se conduziu bem a guerra, que Portugal terá sido muito intransigente, que era apenas uma questão de tempo e que as colónias (ou províncias ultramarinas) acabariam por se separar. Da minha parte, acho até que se justificava muito mais a deslocação de tropas para a Índia portuguesa, que não tinha mais a ver com a União Indiana do que com Portugal, e que mais não era do que uma troca de colonialismos.

O que não se pode é negar que as hostilidades em Angola começaram com horrorosos massacres da UPA - depois FNLA - nos territórios perto do Zaire, nos quais morreram milhares de pessoas (brancas e negras), além de uma quantidade infinda de outros horrores. E que perante isso, tornava-se imperioso usar a força e reagir militarmente - alguém acha que se podia simplesmente "negociar" com gente daquela? Ao que parece, há em Portugal quem ache que esses milhares de portugueses mortos nada valiam, e que em nome do anti-colonialismo tudo era legítimo, até as mais horrorosas barbáries. É assim, a "Culpa do Homem Branco" conjugada com "causas nobres" e a "solidariedade dos povos oprimidos": gera as mais ignóbeis criaturas, que não hesitam em trair os compatriotas. Se é que estes os podem tratar assim.

sexta-feira, março 18, 2011

Losing my Religion


Há vinte anos, por esta altura, os REM lançavam o álbum Out of Time, que os catapultou do estatuto indie que ainda detinham para um lugar de topo entre as maiores bandas do Mundo. Mais country do que rock (os dois estilos mais óbvios da banda), a sua popularidade deveu-se muito a Losing My Religion, o primeiro single. A música tornou-se um dos cartões de visita da banda, que chegou a afirmar ser a única que nunca poderia falhar em nenhum concerto, e o seu videoclip era, pelo menos até há poucos anos, o segundo mais rodado de sempre da MTV (o primeiro lugar cabia a Smells Like Teen Spirits, dos Nirvana). E além da importância pessoal que tinha para a banda, nunca deixou de ser o seu single mais popular e reconhecível, um autêntico som de marca.

Provavelmente, e dado o meu escasso interesse por música na altura, não lhe dei grande atenção. Com o tempo, tornou-se uma das minhas canções favoritas. Ouvi-a obsessivamente, decorei a letra e os ritmos, vi-a duas vezes tocada ao vivo nas duas visitas da banda a Portugal, só nunca a aprendi a tocar. O ritmo sulista do bandolim, a melodia serpenteante, a letra que evoca uma utopia perdida ou uma desilusão, o video ousado e barroco, formam todo um conjunto viciante e mágico, uma composição que raramente se consegue juntar.

Já não a ouço tanto, mas ainda hoje é uma das minhas preferidas. As músicas intemporais nunca passam de moda, ainda que passem décadas ou séculos.


quinta-feira, março 17, 2011

Eleito antes da votação


Na crise política novinha em folha causada pela chantagem de Sócrates, ao apresentar unilateralmente novo PEC, ignorando todo e qualquer agente político relevante (e depois de garantir que não haveria mais cortes, embora provavelmente estivesse a falar do golfe), houve um pormenor que só hoje me fizeram notar. Na entrevista dada à SIC, o ainda PM diz que vai ser candidato pelo PS às futuras eleições legislativas. Todavia, ainda nem se realizou o próximo congresso do partido, para o qual outros candidatos já se perfilaram. Bem sei que as hipóteses de destronar Pinto de Sousa da liderança do PS são de 0,0001%, mas mandam o bom senso e as mais básicas regras de cortesia para com os adversários que não se considere uma eleição já ganha antes dos votos em urna, a não ser que estes estejam controlados. Mas tais qualidades não abundam em Sócrates. Nem essas nem muitas outras. Mais uma vez, a arrogância e a deselegância (apesar dos fatos "da moda") que lhe são típicas voltaram a sobressair. Não merecemos melhor?

quarta-feira, março 16, 2011

Crepúsculo nipónico

Depois do terramoto e do arrasador tsunami, as explosões em centrais nucleares e a ameaça radioactiva que já chegou a Tóquio relembram o pesadelo de Tchernobyl. Faz sentido perguntar que mal terá feito aquele povo a Deus para ser vergastado desta forma apocalíptica. É que além dos desastres naturais, são de novo vítimas, como mais ninguém, da energia atómica, quase setenta anos depois do Enola Gay. Pode juntar-se a isso a previsível recessão económica. O fantasma de Hiroshima e Nagasaki paira de novo sobre o país do sol Nascente. E os japoneses bem precisam do seu brilho e da sua energia, muito menos danoso que a atómica, no momento mais difícil que atravessam desde a Segunda Guerra Mundial.

PS: facto raríssimo, o Imperador falou em directo na televisão, demonstrando a sua enorme preocupação pelas catástrofes que assolam o Império do Sol Nascente. E quando o soberano se dirige directamente pela comunicação social aos japoneses, é manifestamente um sinal de apreensão e de gravidade extrema.


terça-feira, março 15, 2011

O regresso da manifestação dos "rascas"


Estive na manifestação "apartidária, laica e pacífica" da "geração à rasca". Estive seriamente para não aparecer, pela mensagem vaga e ambígua, pela falta de substância já esperada nos protestos e por estar à espera de ver gente que tudo exige e nada quer dar.
Mas à última da hora compareci nos Aliados - porque a multidão já tinha transbordado do "ponto de encontro" inicial, na praça da Batalha. Fi-lo porque apesar de tudo a maior parte dos que protestavam faziam parte da "Geração Rasca", da qual sou membro de pleno e flagrante direito, uma vez que participei nas manifestações contra as provas globais no longínquo Maio de 1994, cujos excessos escritos e escatológicos levaram a que no dia seguinte Vicente Jorge Silva inventasse a classificação.


Estava realmente uma enorme multidão, de várias idades e aparências. Claro que o que se fazia notar eram os cartazes mais ousados ou originais, e, para não variar, os sempiternos anarquistas, que entre tranças e fumos duvidosos não perdem uma ocasião para reclamar pela "auto-gestão" e clamar contra a "exploração capitalista". Havia quem levasse animais de estimação, bandeiras, fatiotas bizarras e as suas reivindicações pessoais em cartaz. Havia também um microfone para que todos os que o desejassem pudessem falar. Aí percebia-se melhor o ecletismo da massa. Havia quem se queixasse de não arranjar emprego e andar a recibos verdes, e também quem carpia mágoas por não conseguir montar a sua própria empresa ("o simplex não passa de uma treta", ouvi a certa altura a um orador). Havia empresários desiludidos e ociosos exigentes. Provavelmente estariam ali ideias muito divergentes quanto às soluções para que a sociedade se "desenrascasse" (e também quem queria simplesmente acabar com a sociedade, como os anarcas). Por fim, havia os curiosos, a tirar fotografias, num misto de solidariedade e curiosidade sociológica.


Devo dizer que não me senti exactamente entre "os meus", até pelos poucos conhecidos que encontrei. Muito do que vi e ouvi nada tinha a ver comigo nem o defendia minimamente. Mas toda aquela multidão, a do Porto e de todas as outras cidades, por muito vaga e equívoca que estivesse, não pode ser ignorada nem menosprezada. Representa boa parte da sociedade civil activa (oportunismos das juventudes partidárias à parte), uma fatia de leão da faixa etária entre 20 e 35 anos, e personifica um mal-estar colectivo que se detecta em qualquer café de bairro ou transporte público. É a esse mal-estar que, embora pacífico, convém estar atento e dar-lhe muita atenção, sob pena de se tornar explosivo num futuro não muito longínquo e de uma geração inteira se perder. A ela e ao país.

segunda-feira, março 14, 2011

Não há solidez que resista ao inevitável



 


As imagens desastre de proporções bíblicas que atingiu o Japão são um murro no estômago. As primeiras notícias que ouvi na rádio já eram inquietantes, e falavam de um enorme terramoto, com "refinarias a arder" e tsunamis. Mas com a terra a tremer estão os nipónicos habituados, como se regista pelos edifícios de pé e pela forma com as pessoas reagiram, sem entrar em pânico, com aquela paciência muito oriental e uma competente preparação para este tipo de acidentes (já os ocidentais tiveram reacções de provocar ataques de coração). Nota-se como as estruturas estão prontas para responder a terramotos desta magnitude, sem querer sequer fazer comparações com o de um estado destruído como o Haiti, no ano passado, mas já podendo fazê-las com o da Nova Zelândia, do mês passado.

Já o tsunami é matéria para a qual não há resposta. A massa disforme e imparável que tudo arrasta e tudo leva à frente arrasou a costa nordeste do país de uma forma que não se imagina nem nas piores previsões. As notícias de povoações inteiras engolidas e comboios e barcos desaparecidos chocam pela sua dimensão e fazem esperar o pior quanto ao número de vítimas. Como se não bastasse, e além das refinarias que arderam, duas centrais nucleares foram atingidas, uma delas a escassos duzentos e tal quilómetros de Tóquio, e deixaram escapar nuvens radioactividade. Não houve mal que acontecesse aos japoneses. Em contrapartida, os portugueses lá residentes parecem estar a salvo, embora ainda haja algumas dúvidas.
Pode-se impedir que um terramoto cause estragos, reforçando estruturas, pode-se fazer protecções contra tempestades e o mar revolto, pode-se ir para longe de vulcões. Mas um marremoto e consequente tsunami é coisa a que quem habite no litoral não consegue escapar. Por muita tecnologia que se tenha - e os japoneses percebem bem do assunto - e por muito ciência que nos proponha a vida eterna, mesmo que nos tornemos biónicos, há coisas contra as quais não se pode lutar e não é possível escapar. O homem é mortal, é frágil, e definitivamente não é Deus, por muito que o queira.
 

sexta-feira, março 11, 2011

A sorte de Galliano



O caso mundano deste curto ano é até ver o de John Galliano, com as suas declarações pretensiosas e voluntariamente insultuosas. É óbvio que estava com uns valentes copos de absinto a mais, e escândalos no mundo da moda por causa dos inúmeros vícios que o atravessam são tão corriqueiros quanto os desfiles. Em parte vive disso (as revistas "cor-de-rosa", por exemplo). O problema é que Galliano afirmou que "ama Hitler", o que será uma das declarações mais politicamente incorrectas dos nossos tempos (podia também dizer que amava W. Bush ou Bin Laden que daria o mesmo), e que os pais da sua interlocutora deviam ser "gaseados". Para além de toda a carga chocante das declarações, o que causa espanto é que sendo um indivíduo notória e ostensivamente gay, até mesmo queer, não se dê conta de que se tivesse vivido nos anos quarenta na mesmíssima Paris que lhe serve de casa, teria ido parar a um campo de concentração com um triângulo cor de rosa na lapela e dificilmente regressaria para contar. Até porque na altura as SA do brutal e homossexual Ernst Röhm já tinham sido varridas do mapa. A sorte do estilista gibraltarino é que nasceu e viveu em épocas depois do desaparecimento do seu admirado Hitler.

quarta-feira, março 09, 2011

Óscares 2011 (com atraso)


Como a colheita não é das melhores de sempre e a manhã não perdoa, vi apenas uma pequena parte dos Óscares deste ano. Ao contrário do que se opinou, achei que o par Franco-Hatthaway esteve bem, e gostei de ver o regresso das rábulas dos apresentadores fazendo medleys participativos dos filmes, a la Billy Cristal. Deu ainda para testemunhar as entregas dos galardões aos secundários, a (para mim desconhecida) Melissa Leo, que ainda levou um piropo (absolutamente certeiro) da lenda viva Kirk Douglas, e a Christian Bale. Não vi o filme de ambos, mas os habituais desempenhos do rapazinho de O Império do Sol fazem com que o Óscar seja merecido ao menos como prémio de carreira. Pena é que, fazendo a conjugação com quem tem ganho ultimamente, ajude a contrariar fortemente as minhas previsões nestas categorias.
A tradução que vi depois é que deixou muito a desejar. Entre outras imprecisões fartei-me de ver nas legendas o nome de "Trent Reznoe", quando o galardoado com o Óscar de Melhor Banda Sonora Original se chama Trent Reznor, e nem é assim tão pouco conhecido.


Devo dizer que dos principais só vi A Rede Social e O Discurso do Rei. Da génese do Facebook pode-se dizer que é um filme bem montado, bem interpretado, sem falhas, embora longe de ser uma obra-prima. Mas não deixa de ser um mostruário interessante da vida contemporânea, dos seus valores e das suas obsessões e oportunidades. Curioso como David Fincher, realizador que ficou conhecido por fitas como Seven e Alien, tem estado tão mais suave (ou menos maníaco) nas suas últimas obras. A Rede Social não teve grandes triunfos, tirando o argumentista Aaron Sorkin, mas não saiu de mãos a abanar, como Indomável, que levou um banho.
O grande vencedor, O Discurso do Rei, não é, como já se dizia, um enorme filme. Pega numa faceta, ou numa "aresta" de Jorge VI de Inglaterra (e todas as outras possessões) - e aproveita-a para a mostrar como um obstáculo intransponível ultrapassado pelo monarca na hora de maior necessidade. O Rei, que não tinha sido educado para reinar, teve de suportar o caso de Eduardo VII, a sua estroinice que o levou a casar com a impopular Wallys Simpson, e as suas ideias políticas, demasiado simpatizantes do emergente líder alemão, que se tornaria num implacável inimigo do seu país. O ambiente é um tanto sombrio, com cores carregadas, como que a ilustrar as incertezas e angústias daquele tempo, em especial do seu protagonista, que parece carregar todas as desgraças que se abatem sobre o Império Britânico. O filme pega nesse episódio pouco conhecido e mostra a dura luta de Jorge VI (Albert), os seus traumas de infância, em boa parte devidos ao pai Jorge V, a sua amizade com o "professor" Logan, e a determinação de Elizabeth, sua mulher, que ficou para sempre conhecida como Rainha-Mãe. Foca também o caso Eduardo VIII-Simpson, e a discreta influência de Winston Churchill (embora não a sua fidelidade para com o Rei que abdicava).
A tenacidade e as indecisões (ultrapassadas) do Rei são o tema central do filme. A sua união com o povo britânico, ao lado do qual esteve sempre durante os anos de chumbo, é percepcionada no fim. Uma espécie de homenagem ao casal real da Segunda Guerra e a Logan, com alguns temas que podiam ser explorados com menos pressa, que merece umas três estrelas e meia, quatro, mas que no mesmo britishgenre fica um pouco atrás de A Rainha.

A título de curiosidade, Helena Bonham Carter, que interpreta o papel da Rainha, é bisneta de Asquith, o Primeiro-Ministro liberal sob o reinado de Jorge V (sogro da sua personagem).

terça-feira, março 08, 2011

Carnaval

Nesta época de excessos, há máscaras para todos os gostos, algumas delas com poriginalidade e graça. Mas faz-me espécie ver tantos homens vestidos de mulher, em especial de freira. Fico sempre com a ideia de que falharam uma carreira, ou então guardam as suas obsessões e taras durante todo o ano e libertam-nas neste dia.
Outra coisa que provoca estranheza é a invasão de samba e imitações de brasileiras numa época ainda tão fria, como se desfilassem noutro hemisfério e as festividades não fossem também adaptadas ao clima e à estação.
Carnaval português que se preze é assim.

quinta-feira, março 03, 2011

Já não é só uma revolta, é uma guerra

O regime verde do coronel Kadhafi vive, ao que tudo indica, os seus últimos dias. Acantonado em Tripóli, quando as cidades da região foram conquistadas pelos revoltosos, resiste graças às tropas de elite ainda fieis e aos mercenários contratados por chorudas somas na Nigéria, Burkina Faso ou Congo. Todos os dias soldados regulares e polícias passam-se para o lado dos revoltosos, que se apoderaram dos depósitos de armas existentes em Benghazi e em toda a Cirenaica.


Há dias, Kadhafi, que desde o início dos tumultos apenas aparecera fugazmente na televisão em duas ocasiões com fraca imagem, surgiu em finalmente em público. Da muralha do castelo de Tripoli, rodeado pela sua guarda pretoriana, falou aos seus apoiantes que na Praça Verde, dominada pela fortaleza, ostentavam a bandeira verde do regime e inúmeros cartazes com a efígie do "guia da revolução". Muitos seriam sinceros devotos do "cão raivoso", mas como sempre acontece nos ajuntamentos organizados por ditaduras, havia inúmeros"profissionais" a soldo. Notava-se a certa altura nas imagens televisivas nalguns negros envergando sweats desportivas da Juventus, o que condiz com a descrição dos mercenários africanos, além de que os Kadhafi têm acções na Vechia Segnora de Turim. Ou seja, os apoios fictícios também partem de gente de fora do país.

O comício parecia ser o canto do cisne do regime que dura há já mais de quarenta anos. A "comunidade internacional", a ONU, União Europeia, Estados Unidos, Rússia, etc, todos se apressaram a condenar os actos de retaliação das forças leais ao que resta do estado, por vezes com encantadora hipocrisia, como bem demonstrou o Ministro Luís Amado ao pedir o fim "do anacrónico regime"... cujos quarenta anos ele tinha comemorado na tenda de Kadhafi. Só mesmo o patético Hugo Chavez e o calculista macróbio Fdel Castro vieram em socorro do dilecto amigo, proferindo discursos contra a "tentativa de ingerência ocidental". Se do cubano não se espera nada, quem tinha ainda ilusões sobre Chavez bem pode perdê-las definitivamente.

Mas apesar de toda a oposição internacional, da expulsão da Líbia da Comissão dos Direitos Humanos da ONU (uma aberração que deveria servir de exemplo para que no futuro se definam melhor os estados a compô-la), da crise humanitária provocada pelo Êxodo em massa de líbios e estrangeiros, das inúmeras deserções e do cerco cada vez mais apertado, Kadhafi conseguiu resistir nos últimos dias em Tripoli e Sirte, e já lança contra-ofensivas a leste, com recurso à aviação e à artilharia pesada. Hoje discursou perante algum público, comemorando os 34 anos da Jamahiriya, altura em que "entregou o poder ao povo" ficando apenas como "guia da revolução", e ameaçou uma hipotética intervenção internacional com "milhares de mortos". De um psicopata como Kadhafi é de esperar tudo, até que tenha secretamente conservado armas de destruição massiva alegadamente destruídas, e usá-la em último e desesperado recurso. A sua aviação militar aí está para mostrar que não se importa de destruir toda a líbia para conservar o poder. E o que é realmente mau é que tem de se dar razão ao seu filho mais velho (e putativo sucessor), que preveniu no início da revolta para a probabilidade de uma guerra civil. Ela aí está, não sabemos por quanto tempo mais, e pior ainda, quem a vencerá.

quarta-feira, março 02, 2011

Uma semana muito proveitosa

Os triunfos recentes do Benfica foram particularmente saborosos, todos por razões diferentes.


O do Sporting terá sido o mais tranquilo, conhecendo-se a crise aguda por que passa a agremiação verde, mas é sempre gratificante ganhar em casa do eterno rival, e a jogar meio desafio com 10 jogadores. Mas como ouvi dizer, este ano todos ganham em Alvalade excepto o Sporting.


O jogo do fim de semana acabou numa emoção tremenda. Houve de tudo, mas o "minuto a minuto" ainda proporcionou mais emoção. O Benfica a todo o vapor tentando marcar, o guarda-redes maritimista a defender o possível e o impossível, o golo do novo reforço portista a gelar a Luz, Salvio a repor o empate, e mesmo ao cair do pano, Coentrão a fazer explodir uma Luz apinhada, quase se afogando no meio da turba para a qual correu para festejar. E ainda houve tempo para confusões e empurrões. Todos os ingredientes dignos de um grande jogo.




Mas a mim, deu-me mais alegria a vitória em Estugarda, a meio da semana. É verdade que o clube da casa, mormente jogar no imponente estádio Mercedes-Benz, não é o que era há três anos, quando ganhou a Bundesliga, capitaneado por Fernando Meira, e até está muito mal colocado no campeonato. Mas clube alemão é sempre complicado. E mais do que ultrapassar a eliminatória, com mais calma até neste jogo fora, o importante é que se matou definitivamente o borrego, afastando-se duas maldições. Sim, duas: a primeira, mais urgente, era a que revelava o Benfica nunca tinha ganho em solo alemão; a segunda, para os esquecidos, era de que além de ter sido batido por pesados 3-0 em tempos de Trapatonni, o SLB perdeu precisamente neste estádio de Estugarda, em 1988, perante o PSV, a oportunidade de se sagrar campeão europeu pela terceira vez. O penalty do Veloso, aquele terrível momento de desinspiração de uma chuteira...Mas graças aos dois secos de Salvio e Cardozo, são tempos e dificuldades que já lá vão. Não há maldição que sempre dure, e um dia também a de Bella Guttman esfumar-se-à.

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Acabem com os "mídia"
 
Uma das coisas que mais solenemente me irrita é ouvir falar dos media pronunciado como "mídia". É verdade que os brasileiros, talvez por influência americana, não só falam como escrevem assim mesmo, com "i" (muitos locutores portugueses cometem esse erro, e por vezes outros ainda piores, como referir a cidade francesa Troyes pronunciando /trói"). Simplesmente, a palavra é latina, não anglo-saxónica, e deve ser pronunciada como tal. Parece que finalmente alguém reparou nisso publicamente. Ricardo Araújo Pereira, na sua crónica da Visão Boca do Inferno de há uns dias, recorda isso mesmo, com o humor oportuno do costume.

As queixas de um dos candidatos acerca dos "mídia" vieram reforçar uma espécie de preceito ligeiramente babilónico que estipula que as palavras de uma língua sejam pronunciadas com sotaque de outra. "Mídia" mais não é do que a palavra latina "media" pronunciada com sotaque inglês. Se optasse pela pronúncia correta "media", o candidato estaria apenas a revelar ao eleitorado que sabia latim. Pronunciando "mídia", mostra que sabe latim e inglês - só com uma palavra. É o máximo de erudição com o mínimo de meios, o que pode constituir vantagem política na medida em que documenta uma capacidade extraordinária para a gestão e aproveitamento de recursos.
É isto mesmo. Aprendam, senhores lusófonos.

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

O regresso do "cão raivoso"

A repressão dos rebeldes e revoltosos na Líbia, com recurso a mercenários de todas as partes de África e bombardeamentos da força aérea, revela que Kadhafi não deixou de ser o "cão raivoso", como lhe chamou Reagan, que era antes da sua "regeneração" táctica.


Recordemos. Muammar al Kadhafi, filho de beduínos e oficial do exército, chefiou um golpe de estado em 1969 que depôs o velho rei Idris e aboliu a Monarquia. Impôs uma república em que se auto proclamou "guiada revolução líbia", baseada nas "assembleias do Povo", com uma ideologia simultaneamente pan-arabista, socialista e islamita, em que na prática ele era a figura tutelar e inquestionável. Os opositores foram encarcerados aos milhares, e muitos foram publicamente enforcados.
Com os fundos das enormes reservas de petróleo, Kadhafi não apenas se lançou em programas de infra-estruturas e irrigação de campos. Na política externa, apoiou tudo o que era grupo terrorista, dos palestinianos (em operações de grande repercussão, como os atentados nos Jogos Olímpicos de Munique), ao IRA, da ETA aos diversos grupos armados que se opunham a regimes africanos rivais, além de ditadores tenebrosos como Idi Amin. Frequentemente recorria à "prestação de serviços" de gente como Abu Nidal e Carlos, o Chacal. Tornou-se assim um dos principais inimigos do Ocidente, particularmente dos Estados Unidos. A gota de água aconteceu quando uma discoteca em Berlim explodiu, vitimando soldados americanos. O atentado tinha sido ordenado pelo ditador líbio. Os americanos não hesitaram e bombardearam Tripoli e Bengazi, em 1986, neutralizando a máquina de guerra líbia e aterrorizando Kadhafi, que viu o seu palácio ser destruído e desde então passou a habitar exclusivamente em tendas. Esse valente susto parece que produziu os seus efeitos, não sem antes se verificar um último e terrível caso: a bomba que explodiu num avião sobre a aldeia escocesa de Lockerbie, matando todos os seus tripulantes. Depois disso, o coronel líbio apostou numa estratégia de moderação e conciliação, abrindo a economia da Líbia ao mundo e passando a ocupar um lugar "respeitável" entre as nações, como o velho líder excêntrico com trajes típicos e guardado por mulheres oferecendo boas perspectivas de negócio, particularmente do petróleo. Além de se reconciliar com a Itália, a antiga colonizadora, veio a Portugal na cimeira UE-África, em 2007, instalando-se na célebre tenda na forte de S. Julião da Barra. José Sócrates tornar-se-ia então um dos aliados preferenciais na Europa.

Agora, cercado, acossado e ameaçado, Kadhafi regressa à sua faceta mais temida e odiada e reage com extrema violência, o que originou ainda mais tumultos. A Líbia enfrenta uma autêntica guerra civil. Os rebeldes controlam a Cirenaica e a segunda cidade, Bengazi, onde flutua a bandeira da monarquia, e avançam para oeste, para Tripoli, guardada pela guarda pretoriana do regime verde e pelos mercenários. Tudo pode acontecer, desde o esmagamento da rebelião (e os muitos mortos não auguram nada de bom) até ao colapso do regime, cenário em que Kadhafi não hesitaria em rebentar tudo à sua volta, além da divisão do país em duas ou mais partes, dadas as diferenças tribais. Até há pouco mais de uma semana, este cenário era inimaginável.


A rebelião prolonga-se, com um crescente número de vítimas, os estrangeiros fogem apressadamente de barco, o valor do petróleo sobe e o futuro da Líbia não augura nada de bom. O seu coronel "guia da revolução" está disposto a levar o país consigo para o inferno.
PS: perdoem-me a imodéstia, mas ou muito me engano, ou este artigo do Público inspirou-se neste post.

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Trinta anos depois do "23-F"

Passam hoje 30 anos sobre a tentativa de golpe de estado pelos militares comandados pelo tragico e patético Tejero Molina, que tomaram as Cortes espanholas e fizeram os deputados reféns. A 23 de Fevereiro de 1981, a soldadesca aproveitou a sessão de tomada de posse de Leopoldo Calvo Sotelo como Presidente do Governo para raptar o poder legislativo e estabelecer um regime semelhante ao que acabara poucos anos antes. Contava ainda com divisões armadas em Valência e um conjunto de oficiais saudosistas do franquismo.


O sequestro durou todo o dia, mas o Rei frustrou os planos. À noite, Juan Carlos I, trajando o uniforme de chefe supremo das forças armadas espanholas, falou em directo na televisão para o país, mostrando a sua desaprovação ao golpe e reafirmando o seu apoio ao processo democrático. Depois disso, os golpistas desmoralizaram. Não havia mais nada que pudessem fazer. O franquismo esgotava o seu último fôlego, a Espanha consolidava o novo regime e Juan Carlos afirmava-se definitivamente como monarca firme, respeitador das leis gerais e respeitado pelo seu povo.


O mar e as suas razias

As tempestades que na semana passada fustigaram a costa portuguesa, com ondas que chegaram aos dez metros, não pouparam nenhuma região.

As vagas atacaram as dunas de Moledo (que já de si estavam vulneráveis, e que há vinte anos que têm vindo a recuar), derrubaram o passadiço de madeira e a marca das milhas, uma sentinela de pedra que ali estava para lá da memória, e por pouca não fizeram o mesmo ao moinho que serve de abrigo de veraneantes. O mar merece sempre respeito, especialmente no Inverno e em estâncias balneares, mas neste caso, e para quem conhece Moledo, provoca sobretudo temor. As imagens da duna tão frágil e do moinho sobre o precipício são angustiantes. Urge reconstruí-la e devolver a imagem de marca e a dignidade da praia mais setentrional de Portugal.



Fotografias retiradas de A Origem das Espécies.

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Depois de Mubarak

A saída de cena de Hosni Mubarak deixou no ar muitas certezas e algumas dúvidas. As certezas dividem-se em dois grupos de ideias opostas: uns estão certos de que a democracia á ocidental vai frutificar na república árabe, sem sombra de dúvidas; os outros dizem que o Egipto vai ser "o novo Irão", e que lá a democracia com a entendemos é uma ficção. Pela minha parte, prefiro ser prudente. Até agora sempre tinha visto Mubarak como um estadista autoritário mas longe dos piores, e que além do mais travava os avanços do radicalismo islâmico saído da Irmandade Muçulmana, inspirada por Qutb. Aliás, nunca era referido como "ditador" (ao contrário de Ben Ali, por exemplo), talvez por ser o sucessor de Nasser e Sadate. Bastou que o povo viesse à rua para as mais infames classificações lhe caírem em cima.
Certo é que já há muito havia descontentamento, e mesmo muitos do que já estavam acomodados diziam em surdina não gostar do velho militar. Mas tal como ocorreu noutros países, não foram as condições políticas a fazer cair Mubarak, mas a situação económica e a subida dos preços, aliada à corrupção. A revolta atraiu mais e mais apoiantes, perante a placidez do exército. Depois de muitos contorcionismos, Mubarak caiu mesmo. Não nos esqueçamos de outro precedente, também ele num grande país muçulmano controlado por militares: a Indonésia. Suharto governou com uma mão bem mais férrea até a situação económica o derrubar.

A situação está demasiado nublada para que se possam fazer vatícinios sem olhar para o lado. A Irmandade Muçulmana é heterogénea, e tanto tem no seu interior radicais que sonham com o Califado (de lá saíram os assassinos de Sadate, por exemplo, que agora estão na Al Qaeda), como pragmáticos que preferem o exemplo turco de Erdogan. Os principais líderes dizem inspirar-se nesta última linha, mas nem isso afasta as desconfianças. Os liberais do Wafd parecem ser poucos, e El Baradei surgiu de repente, depois de toda uma vida de serviços externos na ONU. Desconhece-se absolutamente o que quer a maioria da população.


Entre os medos de que ocorra o mesmo que no Irão em 1979, surgindo ali uma república sunita (que ironicamente seria um rival de peso para os persas), ou a chamada de atenção para os democratas-islâmicos turcos, vem-me à cabeça outro exemplo, igualmente turco: o de Kemal Ataturk. Saiu Mubarak, mas as forças armadas controlam a situação e gozam de grande popularidade entre o povo. Provavelmente farão a gestão da casa, e caso achem que há caminho para um regime com um certo grau de liberdade, permitirão que haja eleições mais ou menos livres. Mas não deverão sair de cena. E não sendo permissivos com islamitas, serão também mais duros nas suas posições para com Israel.

Entre euforias e cinismos, pode-se tirar de tudo um pouco e tentar prever esta situação confusa, que não deixará de influenciar todo o Médio-Oriente e o Norte de África.

Ao certo, e das poucas certezas absolutas que tenho neste momento sobre o assunto, é que o editorial do Público de sábado passado - "O dia em que o século XXI recomeçou", "a Praça Tahrir foi o símbolo das aspirações de toda a humanidade", "uma nova geração rejeitou para sempre o autoritarismo e a ditadura", "o 11 de Setembro acabou na Praça Tahrir" - é das coisas mais estúpidas que li nos últimos anos, em todos os periódicos possíveis e imagináveis.