quinta-feira, abril 28, 2011

Escolheram bem o dia


Há publicações que ou sofrem de falta de oportunidade, ou então lançam provocações propositadas, disfarçando a coincidência: no Domingo de Páscoa, dia da Ressurreição, do triunfo da Vida sobre a Morte, é que a Pública decide fazer uma reportagem (com direito a capa) sobre o suicídio assistido e a "necessidade de se lançar o debate"?!? Não havia mais domingos disponíveis ou apeteceu-lhes "quebrar tabus"?

quarta-feira, abril 27, 2011

A foleirização da bancada do PS



José Lello escreveu, na sua página de Facebook, que Cavaco Silva era "um presidente foleiro". Já se sabe que deste porta-voz das mensagens (ainda mais) sujas de Sócrates não se pode esperar grande coisa, mas mesmo assim não deixa de espantar pela leviandade. Em sua defesa, Lello diz que escreveu "involuntariamente", que se soubesse que era pública diria que "o presidente devia ser mais abrangente nos seus convites"...involuntariamente, quando se publica numa página visível por milhares? Além de grosseiro, o deputado do PS faz das pessoas parvas com as suas desculpas esfarrapadas.



Cheguei a achar que possuía um certo sentido de humor quando todos os anos, no Expresso, dedicava sempre livros a determinadas personalidades que se identificassem com os seus títulos. Provavelmente limitava-se a procurar em catálogos. Mas a situação não incomoda apenas por causa de Lello, que já nos habituou às suas faltas de respeito e aos seus truquezinhos: o problema é que grande parte dos deputados dos principais grupos parlamentares não são assim tão diferentes. A grosseria e a crispação instalaram-se em S. Bento, em boa parte devido ao estilo de Sócrates, mas sem pinga de irreverência ou humor que caracterizavam gente como Francisco Sousa Tavares ou Natália Correia. Os funcionários partidários promovidos à cadeira limitam-se a espalhar ditos sem graça e sem nível. Neste particular, o PS tem dado o maior exemplo, e a sua bancada é uma sombra de antigamente. Vejam-se os principais candidatos pelo Porto: além de Lello, temos ainda o eterno bonzo Alberto Martins e o deprimente Renato Sampaio, outro yes man que mal sabe escrever e cuja ideia mais brilhante que se lhe conhece foi a proposta de proibição de piercings. Safa-se Francisco Assis e pouco mais. Apesar de tudo, ver Ferro Rodrigues e Basílio Horta naquela bancada será um oásis naquela manada de gentinha rasca, constituída por Lellos, Renatos e Telmos. E faço figas para que os outros grupos parlamentares sejam, como me parece que são, bastante melhores.



domingo, abril 24, 2011

O discípulo traído



Na Semana Santa, a notícia de que há um traidor entre um grupo que entrega o meste não podia ser mais oportuna. Mas neste caso, o Judas confunde-se com o Mestre: depois de usar o discípulo para as tarefas mais espinhosas, eis que, quando este assume a única opção possível ao abismo, acaba traído e apunhalado pelos outros - ou remetido ao silêncio.





Fernando Teixeira dos Santos decerto terá aprendido uma grande lição nos últimos dias, antes de se regressar ao seu lugar na Faculdade de Economia do Porto. Espero que o país também, e que os eleitores decidam por fim que o oportunismo puro e a falta de princípios total tenham um custo.


Boa Páscoa a todos.

sexta-feira, abril 22, 2011

A época acabou


Aguento muita coisa, mas não tudo. Desde Agosto que já tive de ver e ouvir muito. Mas esta última é demais. Bem sei que o Benfica 2010/2011 torto nasceu e por isso não podia endireitar-se. Mas uma coisa é não ganhar o campeonato; outra é ficar privado de ir ao Jamor depois de uma primeira mão com vantagem confortável. O jogo da Luz foi mau demais; os dois meses de distância entre duas mãos revelaram-se fatais. Na última semana, o Benfica perdeu Salvio e depois Gaitan, as autênticas "asas" que moviam o seu jogo. Sem eles, perde qualquer eficácia ofensiva. E quando sofreu os golos a equipa mostrou-se apática, sem ideias; quanto ao adversário, e sem desprimor para a forma em que se encontram e a capacidade de "remontada" que apresentaram, tudo lhes correu bem. Depois de terem chegado às meias finais da Taça a jogar apenas com clubes de divisões secundárias, e de jogarem com mais um durante meia hora na primeira mão, beneficiaram de um golo em fora de jogo e das ausências fatais dos argentinos do Benfica. Por isso, e apesar de reconhecer que não estivemos nada bem, também fica um sentimento de alguma injustiça pela não ida ao Jamor (e logo este ano, em que me queria estrear no Estádio Nacional, antes que "ordens superiores" o encerrem). Sim, há alturas em que nada corre bem, mesmo.



Por mim, e depois da desilusão de ontem, esta época encerra aqui. Quero lá saber da Taça da Liga e da Liga Europa, mais a hipotética "final em Dublin" (mas alguém acredita que o Benfica a possa ganhar?). A final era ontem, e não correu bem. Futebol, agora, só o externo, que o português fica para a próxima época.

quinta-feira, abril 21, 2011

Uma patética dor de cabeça


Como se já não bastassem os enganos, falsidades, meias confissões e acusações que rodeiam o actual momento político português, e que só a describilizam internacionalmente, ainda assistimos a todos os OVNIS que nela aterram e cuja surpresa inicial dá lugar a uma espécie de tragédia burlesca.

Quando Pedro Passos Coelho anunciou Fernando Nobre como cabeça de cartaz por Lisboa para as legislativas, espantei-me verdadeiramente. O discurso de Nobre contra os partidos e o "sistema" era tão radical e arreigado que parecia que faria tudo menos ligar-se a uma formação partidária. Assim, a reviravolta intelectual espantou, e o convite parecia uma manobra impensada para ganhar uma fatia dos votos que o dinamizador da AMI obtiver nas presidenciais.



Claro que grande parte das críticas que lhe lançaram a seguir faziam parte de um populismo e de uma maledicência comuns em Portugal. Ao discurso contra os "políticos" junta-se o dos "que vão atrás de um tacho". Se a política partidária precisa de alguma coisa é de gente de fora e sem vícios de aparelhismo, que refresquem os movimentos e tragam mais qualidade aos quadros. A turba que enxameia os fóruns da net e o Facebook assim não o entende, e acha que quem vai para a política é porque é "malandro" e "quer o tacho". Por norma, entendo que quem vem com a conversa dos "tachos" é porque deles tem inveja, mas por incompetência, ignorância ou total falta de preparação (até para militância partidária), não chega lá perto e responde com calúnias coletivas.


A ideia de agregar gente sem vínculo partidário é boa, mas neste caso, a opção escolhida tem-se revelado desastrosa. Além do discurso anti-partidário (outrora) recorrente e dos múltiplos apoios anteriores a figuras de diversos quadrantes políticos, Nobre tem ideias nebulosas ou vagas, que roçam a contraditoriedade e que pouco têm que ver com o PSD. Aliás, as suas declarações afirmando que desconhecia o programa do partido laranja são outra argolada tremenda.


A história da presidência da Assembleia da República é outra fábula difícil de crer. Não só seria absurdo colocar em tal cargo alguém sem qualquer experiência parlamentar, como é impossível assegurar a sua eleição. E pelas intenções reveladas pelos partidos representados, "impossível" é neste caso o termo indicado. Não sei quem teve esta brilhante lembrança, se Passos Coelho ou quem quer que fosse, mas de todos, é o maior tiro no pé. E Nobre continua a não ajudar, dizendo que renuncia ao cargo de deputado se não chegar a ser a segunda figura do estado. Provavelmente pensou que seria a oportunidade de chegar a Belém em dias de ausência de Cavaco Silva. Seria a forma mais tranquila, mas pelo meio esqueceu-se dos necessários "requisitos formais".

Agora, ouve-se António Capucho dizendo (com acerto) que reconhece o seu valor à frente da AMI, mas não a sua capacidade política. Foram talvez as declarações mais sucintamente esclarecedoras sobre o caso.

A ideia muito particular de "missionário político" de Nobre ainda vai dar muitas dores de cabeça ao PSD.


PS: em compensação, as escolhas de Carlos Abreu Amorim (desconheço as suas ligações a Viana)e de Francisco José Viegas (um duriense com vivência transmontana) pareceram-me muito felizes.

terça-feira, abril 12, 2011

12 de Abril de 1961

"Contemplo a terra. Só posso exprimir com uma palavra: júbilo".
Desventuras da política portuguesa

O fim de semana político que passou não deixa antever nada de bom. O congresso do PS não passou de uma união de forças em torno do líder, com brados guerreiros ribombando pelas estruturas da Exponor, promessas de sangue, estandartes e bandas sonoras de épicos. Dizia Daniel Oliveira, com certa piada, que cetos congressos do PCP eram um modelo de pluralismo ao lado daquele, e que só faltava aparecer um qualquer membro da família Kim Il da Coreia do Norte. E até Mário Soares reconheceu que aquilo era mais um comício do que um congresso onde se debatiam moções...


Tivemos também as infelicidades de Cavaco, ao dizer que "teria de haver alguma imaginação de Bruxelas" para encontrar "um programa interino de ajuda financeira a Portugal". Na volta, teve de ouvir a sibilina e grave resposta do comissário Ollie Rhen: "Já mostrámos muita imaginação e especialmente responsabilidade na forma como devemos superar as dificuldades económicas de Portugal. Preferia não ter um diálogo público todos os dias com os actores políticos portugueses, por quem tenho grande estima"


No meio disto tudo, o líder da oposição lembrou-se de convidar a mais incrível alternativa possível (de quem ninguém se lembraria) para encabeçar a lista do PSD por Lisboa. Por mais um punhado de votos, mas pensando num repente, com o plano em cima do joelho.


E o FMI já aí está.

sábado, abril 09, 2011

Psicadelismo na Laguna Veneta


A propósito do espectáculo The Wall live, que passou por Lisboa há dias, sem que tivesse podido ir vê-lo, perdendo assim muito provavelmente a última oportunidade de ver ao vivo o que restava dos Pink Floyd e seus shows únicos, lembrei-me de um exemplar da megalomania do supergrupo britânico.
No Verão de 1989, os Pink Floyd actuaram em Veneza, para encerrar a tourné do álbum A Momentary Lapse of Reason (aquele da capa da praia com camas a perder de vista). Não na cidade, obviamente, tendo em conta o equilíbrio da Serenissima sobre a laguna, mas num palco-barcaça entre a praça de San Marco e a Giudecca. Entretanto tinha saído Roger Waters, o artífice de The Wall, e David Gilmour, que era já o principal vocalista, liderava agora o grupo.

Naturalmente, acorreram autênticas multidões para presenciar o inédito espectáculo, que reerguia assim o esplendor cénico da cidade dos Doges, há muito que reduzida a uma peça de museu. Ao anoitecer, o psicadelisdmo e o habitual sistema de luzes da banda invadiu a laguna, e o público também. Apinhados na Piazza, nas gôndolas, nas lanchas e demais estruturas flutuantes, centenas de milhares de pessoas viram os Pink Floyd actuar sobre as águas.

O evento seria filmado e ficaria testemunhado em VHS e DVD. Todos os que o viram ficaram com uma recordação memorável. E ao show seguiu-se um enorme fogo de artifício, sobre as águas da laguna. Mas a factura seria pesada para os venezianos: o lixo acumulado no dia seguinte era imenso, alguns canais viraram autênticas latrinas, e acima de tudo a concentração de tamanha multidão teve o efeito mais temido: as estruturas da cidade afundaram-se cerca de 3 centímetros. A partir de então, nunca mais foram permitidos espectáculos tão desproporcionados na Serenissima. A megalomania dos Pink Floyd ficou assim ligada ao afundamento de Veneza e à restrição de grandes concertos.

Como já se disse, ficou o registo em video. Nunca o vi, a não ser em excertos do Youtube, mas conto assistir qualquer dia a uma transmissão.


quinta-feira, março 31, 2011

E continua a guerra, agora com a NATO ao barulho

Deixa-me intrigado, a forma como está a ser aplicada a Resolução 1973 da ONU, aprovada há menos de duas semanas. O que nela constava era a imposição de uma zona de exclusão área, que impedisse a aviação líbia de bombardear os insurgentes, a protecção dos civis e o embargo de armas. Como se vê de há 15 dias para cá, a coisa é um bocadinho mais extensiva do que isso. A zona de exclusão aérea foi decretada, impedindo que a aviação kadhafiana continuasse a bombardear os revoltosos. Depois, as esquadrilhas combinadas de França, Reino Unido e Itália desbarataram as colunas de blindados que se preparavam para o assalto a Benghazi, impedindo um longo cerco, uma dura batalha e um provável banho de sangue. A rebelião/revolução agradeceu. Desde aí, a aviação multinacional tem bombardeado constantemente Tripoli e as forças do regime, sejam terrestres, navais ou aéreas. Kadhafi, que estava prestes a desbaratar o inimigo interno (depois de todos profetizarem o seu fim próximo), teve de recuar e assistir ao rápido avanço dos rebeldes, cobertos pela aviação em seu socorro. A sua cidade natal de Sirte, que lhe permaneceu fiel, esteve quase a cair, mas resistiu. Ao mesmo tempo, reocupou Ras Lanuf, que tinha sido tomada pelos rebeldes, caído de novo em poder "verde" e reconquistada pela revolta.

No meio desta confusão sangrenta, que certamente não poupará as cidades líbias da quase destruição, a NATO e a Liga Árabe têm tomado posições ambíguas. Uns acham que é suficiente a vigilância aérea; outros, que há que prestar auxílio mais eficaz aos rebeldes. Há mesmo uns que defendem uma intervenção terrestre, directa, se bem que esta posição seja posta de parte pela maior parte dos estados envolvidos. Não admira: as intervenções na Afeganistão e sobretudo no Iraque tornaram este tipo de acções muito impopulares (e no mundo árabes mais ainda), e a crise económica não permite muitas aventuras custosas. Mesmo que se argumentasse com uma interpretação extensiva da resolução 1973 e o apoio da Liga Árabe. Seria o primeiro passo para uma violenta retaliação.

O que é irónico é que os que bombardeiam o regime de Tripoli sejam precisamente os que tinham relações mais próximas com o Mad Dog. Ver Sarkozy, os britânicos, e acima de tudo a Itália (quando Berlusconi outrora andava de braço dado com Kadhafi) declarar que o seu regime é ilegítimo e que é preciso "negociar a saída", ao mesmo tempo que reconhecem o novo "conselho de Transição" líbio, é demonstrativo da mais despudorada realpolitik e de uma fuga para a frente pessimamente disfarçada. Até se percebe. Quando viram a rebelião às portas de Tripoli, pensaram que o regime estava por dias, e aproveitando a sua feroz repressão, apressaram-se a apoiar os "desejos de mudança", "respeito pelos direitos humanos e pela democracia", etc. Só que vos ventos mudaram, e observando a recuperação dos homens de Kadhafi no terreno, ao mesmo tempo que as tribos reafirmavam a lealdade ao "Guia da Revolução", deram-se conta de que as coisas se complicariam doravante nas relações diplomáticas com a Líbia, e que a sua confiança foram definitivamente minada. Como reagiria Kadhafi áqueles que lhe retiraram o apoio, depois de esmagada a revolta? Virar-se-ia ainda mais para o resto de África, ou pra a China? Retomaria o apoio ao terrorismo? Seria sempre uma situação demasiado embaraçosa para a NATO (que assumiu o comando das operações, para grande alívio dos Estados Unidos) e Liga Árabe.

Por essa razão, interessa acima de tudo dominar o regime verde e acabar com o poder da família Kadhafi na Líbia. Os ataques aéreos cumpriram a sua parte, mas se isso, só por si, não for suficiente - e pela desorganização dos rebeldes, parece não ser - o mais provável é que se comecem a distribuir armas mais eficazes, mesmo que os destinatários não as saibam usar devidamente. Com o apoio dos meios da NATO, que não dos efectivos, os revoltosos têm francas possibilidades de derrubar o regime, sabendo-se que Kadhafi nunca se renderá. Mas com a conquista e reconquista sucessiva do território, isso arrisca-se a levar umas boas semanas. Entretanto, a cotação do petróleo vai subindo.

Boas e más novas nas artes portuguesas

É sempre bom saber que mesmo no meio da tormenta de juros crescentes e cortes de rating, e na crise política vigente, ainda há reconhecimento pelo que de melhor se faz em Portugal.




sexta-feira, março 25, 2011

A Morte de Sócrates, por Jacques-Louis David. O Mestre explicando aos seus assessores e "boys" chorosos que a cicuta, de tipo PEC, é consequência da crise internacional e que a "direita neoliberal" e a "esquerda radical" é que agravaram a situação, apesar de todas as Apologias e virtudes filosóficas (TGV, Magalhães, "racionalização das estruturas escolares", etc).
A maior irresponsabilidade

A cara de pau que o núcleo duro socratista assume quando fala na "irresponsabilidade da oposição" seria uma boa piada se a situação não fosse tão grave. Se houve irresponsáveis foram os que permitiram que a situação financeira, política e moral chegasse a este ponto. Andar a prometer mundos e fundos, e TGVs, e barragens, e aeroportos, e a aumentar salários antes das eleições deu na tenebrosa situação a que estamos sujeitos, quase a pedir ao FMI que venha cá e que os juros monstruosos e incomportáveis baixem um pouco, finalmente. É verdade que culpados houve muitos, antes de Sócrates e os seus muchachos. Mas nunca como aqui a irresponsabilidade e a sede de poder tinham ido tão longe (se bem que Santana Lopes tenha dado mostras disso em apenas seis meses de governação).

Isto verificou-se de forma cristalina na apresentação traiçoeira do PEC 4, passando por cima de acordos anteriores com o PSD sem avisar nem o Presidente, a oposição, ou qualquer outro orgão de sobernia, incluindo o próprio grupo parlamentar. Uma tão grande partida merecia, como mereceu, que toda a gente passasse a desrespeitar o governo e a entender que o prazo de validade se esgotara. Continuo sem saber se Sócrates acreditava que à última o PEC iria passar ou se era uma partida para fugir sob a capa da vitimização (ou reforçar o seu poder numa eventual reeleição). Apesar de muito se falar numa provocação para causar a fuga, talvez a primeira hipótese não seja descabida. A cara dele no debate no Parlamento dizia tudo, o que talvez explique a saída abrupta com menos de meia hora de sessão. Talvez essa imagem seja a mais elucidativa. No momento mais delicado, quando o seu governo corria seriíssimos riscos de caír, quando Teixeira dos Santos começou a falar, o Primeiro-Ministro, com ar vexado, de quem sabia que tudo estava prestes a acabar, abandonou o palco de combate, deixando as tarefas mais espinhosas ao seu mais atacado ministro e a um resistente Francisco Assis. Apesar de tudo, julgava que Sócrates mantinha uma réstia de coragem. Quem não consegue enffrentar os adversários políticos no Parlamento quando está em baixo não se pode vangloriar de enfrentar a "crise internacional". Entre todas as outras, esta terá sido a sua irresponsabilidade mais notória e eloquente.

quinta-feira, março 24, 2011

Os anti-portugueses cá da terra

 
Sobre o discurso de Cavaco Silva dos cinquenta anos da Guerra colonial, fico um pouco dividido. O entusiasmo e a determinação da grande maioria dos soldados que ia para África, onde nunca antes tinham posto os pés, não deviam ser muito elevadas. Nesses aspecto, as palavras de Cavaco foram despropositadas.

Mas piores terão sido as reacções de Louçã e restantes camaradas ideológicos, que logo se apressaram a vir com as palavras de ordem do costume. O "anti-colonialismo" e a "denúncia da fascismo" este sempre presente. Nunca lhes ouvimos, no entanto, uma palavra de consolo a todos os que viviam em África e tiveram de fugir com a roupa do corpo, sob o perigo de acabar a golpes de catana. Como aconteceu às vítimas dos massacres da responsabilidade da UPA de Holden Roberto, detonador da guerra. Também sobre esses não lhes ouvimos palavras de condenação.

Podemos achar que não se conduziu bem a guerra, que Portugal terá sido muito intransigente, que era apenas uma questão de tempo e que as colónias (ou províncias ultramarinas) acabariam por se separar. Da minha parte, acho até que se justificava muito mais a deslocação de tropas para a Índia portuguesa, que não tinha mais a ver com a União Indiana do que com Portugal, e que mais não era do que uma troca de colonialismos.

O que não se pode é negar que as hostilidades em Angola começaram com horrorosos massacres da UPA - depois FNLA - nos territórios perto do Zaire, nos quais morreram milhares de pessoas (brancas e negras), além de uma quantidade infinda de outros horrores. E que perante isso, tornava-se imperioso usar a força e reagir militarmente - alguém acha que se podia simplesmente "negociar" com gente daquela? Ao que parece, há em Portugal quem ache que esses milhares de portugueses mortos nada valiam, e que em nome do anti-colonialismo tudo era legítimo, até as mais horrorosas barbáries. É assim, a "Culpa do Homem Branco" conjugada com "causas nobres" e a "solidariedade dos povos oprimidos": gera as mais ignóbeis criaturas, que não hesitam em trair os compatriotas. Se é que estes os podem tratar assim.

sexta-feira, março 18, 2011

Losing my Religion


Há vinte anos, por esta altura, os REM lançavam o álbum Out of Time, que os catapultou do estatuto indie que ainda detinham para um lugar de topo entre as maiores bandas do Mundo. Mais country do que rock (os dois estilos mais óbvios da banda), a sua popularidade deveu-se muito a Losing My Religion, o primeiro single. A música tornou-se um dos cartões de visita da banda, que chegou a afirmar ser a única que nunca poderia falhar em nenhum concerto, e o seu videoclip era, pelo menos até há poucos anos, o segundo mais rodado de sempre da MTV (o primeiro lugar cabia a Smells Like Teen Spirits, dos Nirvana). E além da importância pessoal que tinha para a banda, nunca deixou de ser o seu single mais popular e reconhecível, um autêntico som de marca.

Provavelmente, e dado o meu escasso interesse por música na altura, não lhe dei grande atenção. Com o tempo, tornou-se uma das minhas canções favoritas. Ouvi-a obsessivamente, decorei a letra e os ritmos, vi-a duas vezes tocada ao vivo nas duas visitas da banda a Portugal, só nunca a aprendi a tocar. O ritmo sulista do bandolim, a melodia serpenteante, a letra que evoca uma utopia perdida ou uma desilusão, o video ousado e barroco, formam todo um conjunto viciante e mágico, uma composição que raramente se consegue juntar.

Já não a ouço tanto, mas ainda hoje é uma das minhas preferidas. As músicas intemporais nunca passam de moda, ainda que passem décadas ou séculos.


quinta-feira, março 17, 2011

Eleito antes da votação


Na crise política novinha em folha causada pela chantagem de Sócrates, ao apresentar unilateralmente novo PEC, ignorando todo e qualquer agente político relevante (e depois de garantir que não haveria mais cortes, embora provavelmente estivesse a falar do golfe), houve um pormenor que só hoje me fizeram notar. Na entrevista dada à SIC, o ainda PM diz que vai ser candidato pelo PS às futuras eleições legislativas. Todavia, ainda nem se realizou o próximo congresso do partido, para o qual outros candidatos já se perfilaram. Bem sei que as hipóteses de destronar Pinto de Sousa da liderança do PS são de 0,0001%, mas mandam o bom senso e as mais básicas regras de cortesia para com os adversários que não se considere uma eleição já ganha antes dos votos em urna, a não ser que estes estejam controlados. Mas tais qualidades não abundam em Sócrates. Nem essas nem muitas outras. Mais uma vez, a arrogância e a deselegância (apesar dos fatos "da moda") que lhe são típicas voltaram a sobressair. Não merecemos melhor?

quarta-feira, março 16, 2011

Crepúsculo nipónico

Depois do terramoto e do arrasador tsunami, as explosões em centrais nucleares e a ameaça radioactiva que já chegou a Tóquio relembram o pesadelo de Tchernobyl. Faz sentido perguntar que mal terá feito aquele povo a Deus para ser vergastado desta forma apocalíptica. É que além dos desastres naturais, são de novo vítimas, como mais ninguém, da energia atómica, quase setenta anos depois do Enola Gay. Pode juntar-se a isso a previsível recessão económica. O fantasma de Hiroshima e Nagasaki paira de novo sobre o país do sol Nascente. E os japoneses bem precisam do seu brilho e da sua energia, muito menos danoso que a atómica, no momento mais difícil que atravessam desde a Segunda Guerra Mundial.

PS: facto raríssimo, o Imperador falou em directo na televisão, demonstrando a sua enorme preocupação pelas catástrofes que assolam o Império do Sol Nascente. E quando o soberano se dirige directamente pela comunicação social aos japoneses, é manifestamente um sinal de apreensão e de gravidade extrema.


terça-feira, março 15, 2011

O regresso da manifestação dos "rascas"


Estive na manifestação "apartidária, laica e pacífica" da "geração à rasca". Estive seriamente para não aparecer, pela mensagem vaga e ambígua, pela falta de substância já esperada nos protestos e por estar à espera de ver gente que tudo exige e nada quer dar.
Mas à última da hora compareci nos Aliados - porque a multidão já tinha transbordado do "ponto de encontro" inicial, na praça da Batalha. Fi-lo porque apesar de tudo a maior parte dos que protestavam faziam parte da "Geração Rasca", da qual sou membro de pleno e flagrante direito, uma vez que participei nas manifestações contra as provas globais no longínquo Maio de 1994, cujos excessos escritos e escatológicos levaram a que no dia seguinte Vicente Jorge Silva inventasse a classificação.


Estava realmente uma enorme multidão, de várias idades e aparências. Claro que o que se fazia notar eram os cartazes mais ousados ou originais, e, para não variar, os sempiternos anarquistas, que entre tranças e fumos duvidosos não perdem uma ocasião para reclamar pela "auto-gestão" e clamar contra a "exploração capitalista". Havia quem levasse animais de estimação, bandeiras, fatiotas bizarras e as suas reivindicações pessoais em cartaz. Havia também um microfone para que todos os que o desejassem pudessem falar. Aí percebia-se melhor o ecletismo da massa. Havia quem se queixasse de não arranjar emprego e andar a recibos verdes, e também quem carpia mágoas por não conseguir montar a sua própria empresa ("o simplex não passa de uma treta", ouvi a certa altura a um orador). Havia empresários desiludidos e ociosos exigentes. Provavelmente estariam ali ideias muito divergentes quanto às soluções para que a sociedade se "desenrascasse" (e também quem queria simplesmente acabar com a sociedade, como os anarcas). Por fim, havia os curiosos, a tirar fotografias, num misto de solidariedade e curiosidade sociológica.


Devo dizer que não me senti exactamente entre "os meus", até pelos poucos conhecidos que encontrei. Muito do que vi e ouvi nada tinha a ver comigo nem o defendia minimamente. Mas toda aquela multidão, a do Porto e de todas as outras cidades, por muito vaga e equívoca que estivesse, não pode ser ignorada nem menosprezada. Representa boa parte da sociedade civil activa (oportunismos das juventudes partidárias à parte), uma fatia de leão da faixa etária entre 20 e 35 anos, e personifica um mal-estar colectivo que se detecta em qualquer café de bairro ou transporte público. É a esse mal-estar que, embora pacífico, convém estar atento e dar-lhe muita atenção, sob pena de se tornar explosivo num futuro não muito longínquo e de uma geração inteira se perder. A ela e ao país.

segunda-feira, março 14, 2011

Não há solidez que resista ao inevitável



 


As imagens desastre de proporções bíblicas que atingiu o Japão são um murro no estômago. As primeiras notícias que ouvi na rádio já eram inquietantes, e falavam de um enorme terramoto, com "refinarias a arder" e tsunamis. Mas com a terra a tremer estão os nipónicos habituados, como se regista pelos edifícios de pé e pela forma com as pessoas reagiram, sem entrar em pânico, com aquela paciência muito oriental e uma competente preparação para este tipo de acidentes (já os ocidentais tiveram reacções de provocar ataques de coração). Nota-se como as estruturas estão prontas para responder a terramotos desta magnitude, sem querer sequer fazer comparações com o de um estado destruído como o Haiti, no ano passado, mas já podendo fazê-las com o da Nova Zelândia, do mês passado.

Já o tsunami é matéria para a qual não há resposta. A massa disforme e imparável que tudo arrasta e tudo leva à frente arrasou a costa nordeste do país de uma forma que não se imagina nem nas piores previsões. As notícias de povoações inteiras engolidas e comboios e barcos desaparecidos chocam pela sua dimensão e fazem esperar o pior quanto ao número de vítimas. Como se não bastasse, e além das refinarias que arderam, duas centrais nucleares foram atingidas, uma delas a escassos duzentos e tal quilómetros de Tóquio, e deixaram escapar nuvens radioactividade. Não houve mal que acontecesse aos japoneses. Em contrapartida, os portugueses lá residentes parecem estar a salvo, embora ainda haja algumas dúvidas.
Pode-se impedir que um terramoto cause estragos, reforçando estruturas, pode-se fazer protecções contra tempestades e o mar revolto, pode-se ir para longe de vulcões. Mas um marremoto e consequente tsunami é coisa a que quem habite no litoral não consegue escapar. Por muita tecnologia que se tenha - e os japoneses percebem bem do assunto - e por muito ciência que nos proponha a vida eterna, mesmo que nos tornemos biónicos, há coisas contra as quais não se pode lutar e não é possível escapar. O homem é mortal, é frágil, e definitivamente não é Deus, por muito que o queira.
 

sexta-feira, março 11, 2011

A sorte de Galliano



O caso mundano deste curto ano é até ver o de John Galliano, com as suas declarações pretensiosas e voluntariamente insultuosas. É óbvio que estava com uns valentes copos de absinto a mais, e escândalos no mundo da moda por causa dos inúmeros vícios que o atravessam são tão corriqueiros quanto os desfiles. Em parte vive disso (as revistas "cor-de-rosa", por exemplo). O problema é que Galliano afirmou que "ama Hitler", o que será uma das declarações mais politicamente incorrectas dos nossos tempos (podia também dizer que amava W. Bush ou Bin Laden que daria o mesmo), e que os pais da sua interlocutora deviam ser "gaseados". Para além de toda a carga chocante das declarações, o que causa espanto é que sendo um indivíduo notória e ostensivamente gay, até mesmo queer, não se dê conta de que se tivesse vivido nos anos quarenta na mesmíssima Paris que lhe serve de casa, teria ido parar a um campo de concentração com um triângulo cor de rosa na lapela e dificilmente regressaria para contar. Até porque na altura as SA do brutal e homossexual Ernst Röhm já tinham sido varridas do mapa. A sorte do estilista gibraltarino é que nasceu e viveu em épocas depois do desaparecimento do seu admirado Hitler.

quarta-feira, março 09, 2011

Óscares 2011 (com atraso)


Como a colheita não é das melhores de sempre e a manhã não perdoa, vi apenas uma pequena parte dos Óscares deste ano. Ao contrário do que se opinou, achei que o par Franco-Hatthaway esteve bem, e gostei de ver o regresso das rábulas dos apresentadores fazendo medleys participativos dos filmes, a la Billy Cristal. Deu ainda para testemunhar as entregas dos galardões aos secundários, a (para mim desconhecida) Melissa Leo, que ainda levou um piropo (absolutamente certeiro) da lenda viva Kirk Douglas, e a Christian Bale. Não vi o filme de ambos, mas os habituais desempenhos do rapazinho de O Império do Sol fazem com que o Óscar seja merecido ao menos como prémio de carreira. Pena é que, fazendo a conjugação com quem tem ganho ultimamente, ajude a contrariar fortemente as minhas previsões nestas categorias.
A tradução que vi depois é que deixou muito a desejar. Entre outras imprecisões fartei-me de ver nas legendas o nome de "Trent Reznoe", quando o galardoado com o Óscar de Melhor Banda Sonora Original se chama Trent Reznor, e nem é assim tão pouco conhecido.


Devo dizer que dos principais só vi A Rede Social e O Discurso do Rei. Da génese do Facebook pode-se dizer que é um filme bem montado, bem interpretado, sem falhas, embora longe de ser uma obra-prima. Mas não deixa de ser um mostruário interessante da vida contemporânea, dos seus valores e das suas obsessões e oportunidades. Curioso como David Fincher, realizador que ficou conhecido por fitas como Seven e Alien, tem estado tão mais suave (ou menos maníaco) nas suas últimas obras. A Rede Social não teve grandes triunfos, tirando o argumentista Aaron Sorkin, mas não saiu de mãos a abanar, como Indomável, que levou um banho.
O grande vencedor, O Discurso do Rei, não é, como já se dizia, um enorme filme. Pega numa faceta, ou numa "aresta" de Jorge VI de Inglaterra (e todas as outras possessões) - e aproveita-a para a mostrar como um obstáculo intransponível ultrapassado pelo monarca na hora de maior necessidade. O Rei, que não tinha sido educado para reinar, teve de suportar o caso de Eduardo VII, a sua estroinice que o levou a casar com a impopular Wallys Simpson, e as suas ideias políticas, demasiado simpatizantes do emergente líder alemão, que se tornaria num implacável inimigo do seu país. O ambiente é um tanto sombrio, com cores carregadas, como que a ilustrar as incertezas e angústias daquele tempo, em especial do seu protagonista, que parece carregar todas as desgraças que se abatem sobre o Império Britânico. O filme pega nesse episódio pouco conhecido e mostra a dura luta de Jorge VI (Albert), os seus traumas de infância, em boa parte devidos ao pai Jorge V, a sua amizade com o "professor" Logan, e a determinação de Elizabeth, sua mulher, que ficou para sempre conhecida como Rainha-Mãe. Foca também o caso Eduardo VIII-Simpson, e a discreta influência de Winston Churchill (embora não a sua fidelidade para com o Rei que abdicava).
A tenacidade e as indecisões (ultrapassadas) do Rei são o tema central do filme. A sua união com o povo britânico, ao lado do qual esteve sempre durante os anos de chumbo, é percepcionada no fim. Uma espécie de homenagem ao casal real da Segunda Guerra e a Logan, com alguns temas que podiam ser explorados com menos pressa, que merece umas três estrelas e meia, quatro, mas que no mesmo britishgenre fica um pouco atrás de A Rainha.

A título de curiosidade, Helena Bonham Carter, que interpreta o papel da Rainha, é bisneta de Asquith, o Primeiro-Ministro liberal sob o reinado de Jorge V (sogro da sua personagem).