
terça-feira, junho 14, 2011
Rescaldo - pequenos


Mais uma vez os "pequenos partidos" não conseguiram entrar no Parlamento. Até subiram, na sua globalidade, mas ficaram de fora. Desde 1991 que nenhuma formação pequena consegue furar os números. Nesse ano, o PSN do professor Manuel Sérgio conseguiu uma proeza improvável, antes de se afundar na irrelevância. Tirando o caso da federação de partidos que, com sucesso, formou o Bloco de Esquerda, nenhum consegue lá chegar.
O Miguel Vaz já analisou com minúcia os resultados dos não-representados, mas já agora deixo aqui a minha achega.
O MRPP, velho partido de murais épicos e militância estudantil famosa, é sempre o primeiro dos últimos. Até hoje, e apesar da sua história e de ser conhecido, não conseguiu um único representante. Garcia Pereira é persistente, mas tudo tem os seus limites.
O MEP é a grande desilusão. Com os focos dos debates a incidirem sobre Rui Marques, teve ainda menos votos do que em 2009, e muitos menos do que aquela coisa dos animais. Essa nóvel formação conseguiu surpreender, talvez por causa do apoio de algumas caras conhecidas, ou da mobilização dos budistas, vegans e alguns votos habitualmente bloquistas. Quanto ao MEP, não sei qual o seu futuro, ou sequer se o tem. É que a desolação de resultados levou Marques a abandonar a liderança do movimento, e sem ele, tenho sérias dúvidas que se aguentem.
O MPT, em nome próprio, cresceu, mas terá de ambicionar mais se quiser chamar a atenção para os valores que defende. O PNR também subiu (terá sido o temor e a reacção aos indianos usados pelo PS?), mas por este andar ainda faltará muito tempo até Pinto-Coelho chegar à A.R.
O PPM, apesar da sobriedade de Paulo Estêvão e da graciosidade de Aline Hall, ficou-se por um resultado desolador, nada digno de quem já esteve no governo. De resto, o costume: POUS, Portugal Pró-Vida e Partido Humanista fecharam o pelotão. O Partido do Norte, do tronitruante Pedro Baptista, que se albergou no PDA, essa micro-entidade açoriana (que não é a primeira vez que serve de barriga de aluguer a um partido regional, se se lembrarem do alentejano Movimento Amigos da Planície), saldou-se por números irrelevantes. E já que se fala em partidos regionais, tivemos pelo meio a Nova Democracia, que agora praticamente só aposta na Madeira, e o Partido Trabalhista, do ex-PND José Manuel Coelho, que não chegou aos calcanhares do resultado das presidenciais, há apenas 5 meses. Tivesse ficado no antigo partido de Manuel Monteiro, e as perspectivas para as regionais eram interessantes. Assim, desbaratou os votos que lhe poderiam ser preciosos mais tarde. O pecado da gula é aquele que mais depressa acarreta punição.
sábado, junho 11, 2011
Rescaldo (à esquerda)
A subida do PSD é directamente proporcional à queda do PS. A conversa de que a queda do governo era culpa da oposição não convenceu minimamente o eleitorado. Como aconteceu na Grécia e na Irlanda, o recurso ao FMI, aliado ao desgaste de Sócrates, levou à derrota do partido no poder. O PS voltou a números que não tinha desde Sampaio, no auge das maiorias cavaquistas, abaixo dos 30%, coisa que sondagem alguma indicou. E com graves riscos internos. A união à volta do "líder" secou as vozes internas e as tendências ideológicas. O poder tem destas coisas, e Sócrates ajuda.
Estava bastante combalido, embora o tentasse disfarçar. A sua renúncia motivou muitos "nãos" de aflição, como costuma acontecer aos líderes aditivos, mas não podia fazer outra coisa. Ao menos na sua despedida, o PM cessante mostrou a humildade e o desprendimento que lhe faltaram nestes anos todos. Deixa o seu partido com uma disputa da sucessão pela frente, assumida oportunisticamente minutos depois por António José Seguro, que vê chegado o seu momento, secundado dias depois por Francisco Assis. António Costa, do seu gabinete no Intendente, preferiu ficar como "reserva futura. Veremos se o PS atravessa o vazio desértico pós-socratista, sendo certo que terá umas palavras a dizer no novo ciclo.
A CDU mantém os votos e ganhou mesmo um deputado por Faro. Desde que Jerónimo chegou que a hemorragia inexorável estancou. Bom aproveitamento da crise, renovação da militância, a "genuinidade" de Jerónimo? Não perguntem. Só sei que depois de duas décadas em queda, a coligação vermelha-verde se consegue aguentar.
O Bloco de Esquerda é um dos grandes temas de conversa pós-eleições. Previa-se a descida, apanhou por tabela e teve uma resultado desastroso. Perdeu metade dos deputados, entre os quais José Manuel Pureza, que lhe fará muita falta. Francisco Louçã não quer sair da "coordenação", o que revela bem a sua propensão totalitária, mas já se ouvem vozes nesse sentido. A verdade é que Louçã é o rosto do Bloco desde o início, e o seu afastamento poderia ser ainda pior para o partido. não se vislumbram grandes alternativas, excepto talvez Miguel Portas (como se tratariam doravante CDS e Bloco?)Em todo o caso, conviria pensar em mudanças internas. Mas talvez seja demasiado prematuro fazer já o enterro do movimento. Se aproveitar bem os tempos difíceis que se avizinham, e não cometer demasiados erros estratégicos, como a história da moção de censura de opereta, talvez cresça em escrutínios futuros. Até lá, está confinado ao núcleo duro no parlamento.
quarta-feira, junho 08, 2011
Rescaldo (à direita)
Esta análise vem com dois dias de atraso, bem sei. Mas gosto de fazê-las com calma, e o tempo é um bem escasso.
Como já tinha dito, estas eleições não trouxeram nada de especificamente surpreendente, tirando a diferença entre PSD e PS. Num ou noutro caso, no essencial, houve algumas surpresas, mas não há eleição que não as tenha. No essencial, nada espantou.
O PSD é o grande vencedor mais pelos números do que pela vitória em si. Como tinha notado na arruada que presenciei em Santa Catarina, os sociais democratas levavam já uma dinâmica de vitória, ao passo que o PS estava já pouco entusiasmado. Tudo isso depois de semanas de "empates técnicos". Até Abril/Maio, o PSD tinha uma vantagem muito confortável nas sondagens. Perdeu-a quando o discurso começou a tergiversar, com vários dirigentes a falar cá para fora a diversas vozes, por vezes em contradição com Passos Coelho. Mais do que o debate (onde Passos não se deixou intimidar por Sócrates e que marcou alguns pontos), o silenciamento de algumas figuras, como Catroga ou Leite Campos, e a união em volta do líder foram fundamentais.
Antes do anúncio dos resultados, o PSD já sabia seguramente que tinha vencido as eleições, mas talvez não por aquela margem. o número de deputados conquistados, que ainda vão aumentar com a emigração, permite-lhe um certo desafogo nas negociações já em curso com o CDS-PP e se for necessário, prescindir dos votos madeirenses para impedir qualquer veleidade chantagista a Alberto João Jardim.
Há números curiosos. Para além das habituais zonas de implantação laranja de Trás-os-Montes, Beira Interior e Leiria, o PSD ganhou em todos os concelhos do Algarve, onde obteve mais um deputado (o meu antigo companheiro de quiz, Cristóvão Norte, filho do deputado homónimo que nos anos setenta era o único deputado laranja do distrito). Em Setúbal, onde em 1975 estava impedido de fazer comícios, o PSD também ganhou. Em Beja recuperou o deputado perdido há vinte anos. E até venceu no "Socraquistão" de Castelo Branco e Portalegre (aqui com apenas mais 14 votos).
Como seria de esperar, em Vila Real, Passos coelho obteve o seu segundo melhor resultado. Num distrito fortemente PSD, a proveniência do líder só podia reforçar as contas. Melhor só mesmo em Bragança. Há que felicitar o cabeça de lista vencedor. Ainda por cima, o distrito já há algum tempo que não vota tanto à direita como no início, quando se dizia que os comunistas comiam criancinhas e os socialistas roubavam galinhas.
Até por estes números simbólicos, Pedro Passos coelho é um vencedor inequívoco. Apesar de todas as gaffes, confusões e polémicas. Não tendo grande biografia (Cavaco também não tinha, segundo Soares), parece-me antes de mais um indivíduo decente e correcto, ideia que também recolhi de conhecimentos familiares de Vila Real. Claro que o carácter nem sempre é tudo num líder que se quer forte e corajoso, mais a mais numa situação como a actual, mas é sempre o princípio de tudo. O resto dependerá do apoio que tiver.
E o CDS-PP? Conseguiu alcançar todos os objectivos a que se propunha, mas as expectativas nos votos (cheguei a ouvir alucinações de "17%") foram goradas, não há que disfarçá-lo. Não percebi se a relativa calma que se vivia no Caldas e a prudência de Paulo Portas no seu discurso tinham directamente a ver com isso ou se era já o pensamento no dia seguinte, mas parece-me indissociável a água na fervura das expectativas e a placidez dos militantes na noite eleitoral. Em 2009, se bem se lembram, foi um delírio com os "dois dígitos". As sondagens voltaram a enganar-se, mas ao contrário. Agora, a entrada no governo está assegurada e corre os seus termos, e a esquerda radical está lá para trás. Mas os populares fariam bem em dar atenção a um aspecto. É verdade que cresceram em votos sobretudo nas zonas urbanas, e ao que parece, também no voto "jovem". Isso reflectiu-se nas enormes subidas em Setúbal e Lisboa. Em contrapartida, noutros círculos com votações tradicionalmente interessantes, como Viseu, Braga, Leiria e Aveiro, o CDS estagnou ou perdeu mesmo votos - é o caso de Aveiro, por onde corre Portas. Se num escrutínio nacional o partido pode captar mais votos graças a algumas ideias, a um líder carismático ou a razões circunstanciais, já nas locais a coisa tende a cair por terra, como as autárquicas muito bem o comprovam de eleição para eleição. O CDS já teve um bom número de câmaras, incluindo várias capitais de distrito. Hoje está reduzido a Ponte de Lima. As estruturas locais ou são fracas ou não têm capacidade de atracção de figuras de prestígio e eleitores, e o triste facto dos municípios estarem convertidos em agências de emprego. Um partido que pretende ser influente na vida nacional precisa de assentar nalgumas estruturas municipais, regionais ou sociais (o PCP tem os sindicatos e algumas regiões de grande peso). Se os militantes do CDs não pensarem nisso, arriscam-se a ter sérios dissabores daqui a uns anos.
A frase mais badalada da noite, sem a menor dúvida, era o "cumpriu-se o sonho de Sá Carneiro: um governo, uma maioria, um presidente". Formalmente, cumpriu-se neste 5 de Junho, sim. Mas na prática o objectivo do fundador do PSD já tinha sido atingido post mortem em 1982, com a primeira revisão constitucional, que afastou os generais do poder e transformou o Conselho da Revolução em Conselho de Estado. No Domingo, apenas se cumpriu o slogan da AD. Saberemos nos capítulos seguintes quais as suas consequências práticas.


segunda-feira, junho 06, 2011
Resultado
A vitória do PSD não terá surpreendido ninguém que estivesse minimamente atento na última semana. Mas não esperava uma diferença tão grande entre os partidos do "bloco central". Um pouco menos do PSD, um pouco mais do PS e do CDS, e que o bloco não ficaria abaixo dos 7%. só acertei com a CDU, que se manteve nos 8%, O seu eleitorado é mesmo fiel.
A diferença nas previsões (e nas sondagens) não altera o essencial: o PS perdeu, o PSD ganhou com maioria relativa e terá de se aliar com o CDS-PP, que aumentou a votação e o número de deputados. a esquerda radical perdeu votos e vozes. Sócrates abandona a liderança mais cedo do que poderia pensar (mas não Miguel Sousa Tavares, que previu que às 21:30 Sócrates já não seria secretário-geral do PS; enganou-se por dez minutos...), e deixa assim caminho livre para um sucessor mais flexível com a oposição, perante as duras políticas que se antevêem e que precisarão de ser negociadas.
Como recordavam alguns, está cumprido o sonho de Sá Carneiro: um governo, uma maioria, um presidente.
Amanhã haverá tempo de se analisar os resultados mais ao pormenor.
domingo, junho 05, 2011
Alcântara e o regresso de um símbolo
Quando há uns anos me mudei para Lisboa (mudança essa retrocedida pelo regresso ao Porto), imediatamente iniciei o processo de reconhecimento da cidade onde ia ficar indefinidamente. Vivi em várias zonas, de Telheiras a Arroios, e pelo meio com um desvio para a Linha. Mas à parte as deambulações iniciais, a zona de Lisboa que mais me marcou nos primeiros tempos foi Alcântara, por trabalhar aí e por viver nas proximidades, na Infante Santo. A descida das Necessidades, de cujo jardim se avistava toda a zona, através da estreita rampa até ao largo da Armada, era um prenúncio da zona com eixos viários mais ou menos amplos, irrigados por vielas e becos de onde saíam gatos ou marinheiros para tomar um dos inúmeros bagaços do dia. Não faltavam aí restaurantes, desde snacks e tascos modestos até grandes marisqueiras, de letreiros bem visíveis. Havia casas degradadas, baldios decrépitos, esperando a eternamente adiada intervenção de Siza, e ruelas de idade respeitável, como a Travessa da Trabuqueta, que, a crer nas primeiras páginas de A Cidade e as Serras, existia já em tempos de D. João VI e constituía um perigo para os Jacintos da época.

Alcântara está dividida pela Avenida de Ceuta e pelo movimentado cruzamento entre essa parte que acompanha o eixo da Prior do Crato e a que se estende à volta do Largo do Calvário. A homenagem toponímica nessa zona ao pretendente ao trono é de fácil explicação: precisamente nesse local, as forças mal armadas e treinadas que apoiavam D. António, comandadas pelo refugo do refugo de Alcácer Quibir, enfrentaram aí os poderosos Tercios do temível Duque de Alba, e claro está, foram obviamente desbaratadas, permitindo a entrada dos castelhanos na capital e a consequente subida de Filipe II ao trono português. Na altura, havia uma ponte que atravessava a ribeira de Alcântara, que separava Monsanto da cidade, e assim permaneceu até ao Século XX, altura em que se encanou o curso de água.
A arquitectura industrial, com maioria de fábricas abandonadas, e as casas oitocentistas (podendo-se ver uns poucos exemplares de art nouveau) convivem agora com as Docas, espaços ribeirinhos cuja noite já teve melhores dias, e novos projectos como o Alcantara LX, uma construção moderna e claramente destacada da envolvente de antigas fábricas. A sucursal lisboeta do Twins fica por ali, e do outro lado o Garage deu cartas durante uns tempos. A frente do edifício industrial que o acolhia era meia tapada por uma estrutura metálica que ligava a estação de Alcântara-Terra a Alcantâra-Mar, da linha de Cascais, vizinha da Gare Marítima e do Museu do Oriente, já ao lado do rio todos com arquitectura modernista dos anos quarenta e com recordações de Almada Negreiros.
A principal marca desportiva de Alcântara é o Atlético clube de Portugal, fusão do Carcavelinhos e do União de Lisboa. Jogou inúmeras vezes na primeira divisão, chegou a finais da Taça, e até aos anos setenta era um habituée do escalão principal. Afastado desde aí dos grandes jogos, o Atlético teve um momento de glória quando eliminou o Porto da Taça de Portugal, em 2007, em pleno Dragão. Os alcantarenses festejaram efusivamente o feito, e o periódico da colectividade até emitiu uma edição especial. Mesmo os Gato Fedorento se lembraram de parodiar esse jogo. O seu estádio, a Tapadinha, fica nos altos de Alcântara. É um recinto envelhecido, um pouco à imagem do clube, sem cadeiras nem cobertura, mas com uma bela vista sobre o Tejo. As suas assistências são até satisfatórias para as divisões secundárias
Cheguei a assistir a um desafio com outro histórico do futebol português, o Barreirense, pouco tempo depois desse tomba-gigantes protagonizado pelo Atlético nas barbas de Jesualdo e Pinto da Costa. O confronto com os vizinhos da margem Sul, de onde saíram várias lendas do nosso futebol, teve muitos episódios na primeira divisão, em tempos que já há muito lá vão. Hoje são dois clubes semi-profissionais, que vivem das memórias, dos sócios e de alguma publicidade local.
Segundo os alcantarenses, uma das razões que ditou o declínio do Atlético foi a construção da Ponte sobre o Tejo, que passa por cima da zona, aliás mesmo ao lado da Tapadinha. Talvez porque se tornou um mero atravessadouro, e perdeu o movimento dos passageiros que seguiam de cacilheiro, e toda a indústria local, relacionada com o rio. Não sei se é a verdadeira razão ou não - com a profissionalização, os clubes de bairro tenderam a decair, e as receitas não devem abundar.
O que é certo é que o Atlético teve mais um momento histórico há dias: depois de ficar em primeiro lugar na 2ª divisão B-Sul, venceu na liguilha de subida o Padroense e subiu à divisão de Honra, agora Segunda Liga, ou seja, aos campeonatos profissionais. Fará companhia o União da Madeira, aquela agremiação quer era normalmente composta por Dragans, Miltons Mendes e Simics naturalizados, mas não já pela turma do Padrão da Légua, por causa das estúpidas regras que regem estas promoções. Assim, além do Benfica-Sporting, haverá outro derby lisboeta, na divisão inferior: o clube de Alcântara contra o seu rival (e antigo "Grande") Belenenses. Saúda-se este regresso do Atlético Clube de Portugal, e sobretudo, a animação que não será na Tapadinha a recepção aos vizinhos de Belém e da Ajuda. Os alcantarenses já mereciam.
sábado, junho 04, 2011
O bloco central em Santa Catarina

Meia hora depois, a caravana laranja, com os mesmos adereços, as jotas em êxtase, mais ainda quando chegou Passos coelho, que mal se via entre as câmaras e os microfones entre os quais se desdobrava-se freneticamente. Deu-me ideia que os cortejos tinham uma extensão mais ou menos semelhante, mas o do PSD era mais compacto, coisa que os jornais no dia seguinte confirmavam. No resto, poucas diferenças. As caravanas lembravam uma claque de futebol, com bandeiras gigantes, os militantes a envergar as camisolas do partido e alguns chefes de secção com microfone a entoar slogans para a turba repetir.

Na quinta-feira, pretextando uma volta pela Feira do Livro, de novo na placa cinzenta dos Aliados, assisti às duas arruadas dos partidos do Bloco Central. Se à volta dos aliados as jotinhas laranjas, montadas em autocarros de dois andares, já ensaiavam as bandeiras e megafones, em Santa Catarina desfilava o cortejo socialista, com Sócrates acenando no meio. Uma fila extensa, com bandeiras de várias cores (já não apenas o rosa e branco), o mulherio da Sé em transe com o ainda primeiro-ministro, tentando beijá-lo, ou em alternativa a fotografia, e com a secção do PS de Santo Ildefonso a aplaudir à varanda.

Meia hora depois, a caravana laranja, com os mesmos adereços, as jotas em êxtase, mais ainda quando chegou Passos coelho, que mal se via entre as câmaras e os microfones entre os quais se desdobrava-se freneticamente. Deu-me ideia que os cortejos tinham uma extensão mais ou menos semelhante, mas o do PSD era mais compacto, coisa que os jornais no dia seguinte confirmavam. No resto, poucas diferenças. As caravanas lembravam uma claque de futebol, com bandeiras gigantes, os militantes a envergar as camisolas do partido e alguns chefes de secção com microfone a entoar slogans para a turba repetir.

No artigo de Sexta, Vasco Pulido Valente acertava em pleno. De facto, Sócrates anda em campanha rodeado de seguranças, só permitindo alguns furos ocasionais de fãs histéricas. Tudo dentro do profissionalismo eleitoral da "máquina rosa". Como também recorda VPV, Mário Soares andava alegremente no meio da multidão, até na praia fazia campanha, entre os campistas, e por causa disso aconteceu o episódio da Marinha Grande, que lhe deu um élan inesperado nas presidenciais de 1986. Ao colunista só lhe faltou um pormenor: é que tal como Pinto de Sousa, Passos Coelho também anda rodeado de um cordão de forças e de guarda-costas profissionais, que pouco o aproxima dos transeuntes, e que não fica bem com a sua bonomia. Até nisso, as campanhas do centro-esquerda e do centro-direita do bloco central são idênticas.
sexta-feira, junho 03, 2011
Os não representados
As campanhas dos partidos com assento parlamentar não fogem muito à rotina habitual, ao contrário do que esperava, tirando aquela renúncia aos outdoors, que sobraram para os pequenos. Estes fazem o que podem. O debate na RTP é uma migalha, mas sempre serviu para ver quem é que tinha ideias para discutir. O MPT de Pedro Quartin Graça , o MEP de Rui Marques, o PPM de Paulo Estêvão e mesmo o MRPP do "veterano" mas sempre activo Garcia Pereira foram os que expuseram ideias mais claras, e acima de tudo mais soluções concretas, por vezes coincidentes. Nem todas serão exequíveis, mas nenhum vende gato por lebre. Ouvi um pouco Paulo Borges, do Partido dos Animais, mas perdi um pouco a paciência com a conversa da união entre todos os seres vivos e que todos os valores dos outros candidatos eram relativos em comparação com o ideal que defendia (estava a ver que ia propor que os animais tivessem o direito ao voto). José Pinto Coelho não deixou de culpar os emigrantes pelos estragos do estrito conceito que ele tem de Nação; quanto ao outro Coelho, o da Madeira, começou logo desde o início a sabotar a conversa com o seu lençol de slogans, ao qual chamava"os ideais de Abril" (calculo o que Quartin Graça não terá aguentado).
As sondagens dão números interessantes aos pequenos partidos, o que pode indiciar que entrem no Parlamento. Garcia Pereira estaria na calha para isso, mas a incompreensível decisão de deixar todos os outros candidatos à sua espera em vão depois de ganhar uma providência cautelar que obrigava as televisões a transmitir debates entre eles pôs seguramente em risco a sua eleição. É pena, porque tanta persistência merecia um lugar ao velho MRPP em São Bento, mas estas atitudes pagam-se caro. Diferente posição teve o MEP, que ganhou idêntico direito ao debate, e Rui Marques não perdeu a sua oportunidade. É possível que tenha marcado pontos. quem sabe se não teremos o verde do MEP e do MPT no parlamento, levando algum ar fresco aos Passos Perdidos.
Quanto a José Manuel Coelho, duvido que a transferência para o invisível Partido Trabalhista, liderado por um senhor chamado Amândio Madaleno, sirva para segurar os surpreendentes votos das presidenciais. No fundo, os candidatos independentes à presidência nunca seguram a sua votação. a prestação no debate também não ajudou.
Ps: a Nova Democracia está transformada em partido regional madeirense, ou a passagem de José Manuel Coelho deixou o vírus da paródia no partido? É que ouvir aqueles tempos de antena, metade eles ocupados por musiquinhas pretensiosamente satirizantes, sem apresentar uma única ideia, tira logo a paciência a um santo.
terça-feira, maio 31, 2011
Os legítimos detentores da "resolução"
A campanha eleitoral decorre sem grandes rasgos ou novidades de maior, excepto a quase ausência de outdoors. Qualquer declaração potencialmente mais abrasiva ou "politicamente incorrecta" é uma notícia em si. Assim, não surpreende que as respostas de Pedro Passos Coelho às questões levantadas pela Rádio Renascença sobre a questão ao aborto tivessem causado um turbilhão de recriminações, aproveitamentos descarados e urros indignados, não sei se por deficiências interpretativas ou por mera total ausência de aceitar ideias alheias.
Passos Coelho é a favor da actual lei, como esclareceu aos microfones, e não pretende alterá-la mas tão somente melhorar a sua supervisão e analisar se está ou não a ser correctamente aplicada, de forma a não tornar o aborto num meio contraceptivo. Não é, claro está, a minha opinião, já que discordo da actual lei onde o aborto não é meramente despenalizado, tendo-se tornado uma prática comum financiada pelo estado. e como não acho que um feto de 10 semanas seja meramente um apêndice sem vida, moralmente não podia discordar mais disso.
Mas consigo perceber a ideia de Passos Coelho, e mais ainda o comentário de tolerância para quem não pensa da mesma forma: a legitimidade de um grupo que perdeu uma causa em referendo poder voltar a exigir nova consulta popular (com algum intervalo de tempo).
Essa legitimidade é recusada por muitos que defendem a actual lei, e que consideram que qualquer mudança seria um "retrocesso" e o regresso "às trevas" e à "Idade Média". Isso verificou-se no habitual censor da esquerda radical, Francisco Louçã, que acha que a lei anterior "só é defendida por uma minoria ultra-reaccionária" e que Portugal "já está no século XXI". Deixando de lado os habituais determinismos temporais de que "a sociedade não volta para trás", seria bom saber em que é que o coordenador do Bloco se baseia para falar em "minorias" (que de resto está habituado a apoiar, por mais ridículas que sejam). Se pensarmos que em 2007, num referendo cuja abstenção foi superior a 50%, 41% dos eleitores votaram "não", é caso para perguntar qual é o conceito de minorias para Louçã. Semelhante ideia exprimiram outros conhecidos defensores do aborto livre, como Vital Moreira, ainda hoje no Público, e mesmo o editorial deste diário, que ultimamente anda a resvalar para o absurdo.
De todo este "caso" retive duas ideias, cada uma mais inquietante do que a outra: a de que não falta gente que, ao contrário do que dizia na campanha dos referendos, e a fazer fé nos comentários facebookeanos à notícia, são "a favor da aborto", e não meramente à sua despenalização; e que os que se opõem à legalização dessa prática não têm o direito nem a legitimidade de exigir alterações à lei nem um hipotético futuro referendo, ainda que os seus defensores o tenham feito durante anos a fio, mesmo depois de derrotados, porque era preciso "resolver a questão".
Estará a questão resolvida? Quem é que decide isso? Os senhores defensores da "IVG" têm o exclusivo? Às vezes retroceder não é pior, sobretudo se se tiver com um precipício em frente.
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sábado, maio 28, 2011
Não culpem o dia
Creio que nunca tinha havido um caso tão grave no Dia da Defesa Nacional como o que aconteceu há dias à rapariga que morreu de uma queda quando fazia slide. Pelo menos é o que asseguram os responsáveis das forças Armadas que, diga-se em abono da verdade, não perderam tempo a ordenar um inquérito imediato do sucedido. Aproveitando o drama do Quartel da Serra do Pilar, alguns "pacifistas" já vieram exigir o fim do Dia da Defesa Nacional (instituído no seguimento do fim do serviço militar obrigatório, e a que todos os jovens têm de comparecer no ano em que chegam à maioridade). Não estão sós: alguns periódicos, como o Público, seguem a mesma ideia, como se pode comprovar na coluna da última página de Sábado deste jornal, que considera que a tragédia "vem dar razão aos que querem acabar com essa absurda obrigatoriedade".
Absurda, pergunto eu? Talvez para os que julguem que o mundo é um lugar muito pacífico, que basta não haver forças armadas e nada, em tempo algum, nos poderá acontecer, que são "práticas medievais", etc. Acontece que apesar de há quase dois séculos não sofrermos nenhuma invasão, não fazemos ideia do que o futuro nos reserva. Podiam também recordar que temos uma grande Zona Económica Exclusiva, que convém vigiar, que não raras vezes a nossa força aérea precisa de ir buscar cidadãos portugueses em apuros, como aconteceu recentemente na Líbia, que fazemos parte de organizações e que temos obrigações a cumprir em intervenções externas, etc. (talvez este último ponto não seja grande argumento perante quem grafite e grite "Portugal fora da NATO!"). em suma, as forças armadas são necessárias e são um dos pilares de um país. não havendo serviço militar obrigatório, entende-se perfeitamente a necessidade de uma jornada semelhante. Não fosse isso, e as novas gerações nem saberiam que temos umas forças armadas.
Para além do mais, os desportos mais radicais, como o que vitimou a infeliz rapariga, nem são obrigatórios. Não houve qualquer ordem no sentido de deslizarem num cordame de aço nos pátios do histórico quartel de Gaia. Por isso, os opositores ou cépticos do Dia da Defesa Nacional gastariam menos esforços se não usassem jargões pouco convincentes (e já agora, se não usassem a torpeza de utilizar dramas para os seus objectivos ideológicos) e se cingissem às verdadeiras causas dos acidentes que merecem um tratamento o mais rigorosos possível, o apuramento de responsabilidades e a certeza de que não voltarão a repetir-se. Tudo resto é conversa fiada de gentinha irresponsável.
terça-feira, maio 24, 2011
Do isqueiros ao i-phone
No soberbo concerto que os National deram ontem no coliseu, não faltou a já previsível comunhão da banda com o público, com o vocalista Matt Berninger a percorrer as coxias e a ir até ao fundo da sala, convivendo efusivamente com a plateia em delírio, e o final acústico, um clímax sereno. Mas dei-me conta de uma marca dos tempos: os tradicionais isqueiros, que costumavam acompanhar as baladas, desapareceram, substituídos pelos telemóveis e i-phones. Não há concerto hoje que não tenha um testemunho de três minutos. As luzes permanecem, mas sutentadas em baterias e digitalismos, e não mais em combustível. Terríveis tempos tecnológicos, estes.
Apenas ficou a faltar isto:
Apenas ficou a faltar isto:
segunda-feira, maio 23, 2011
As gracinhas de Frau Merckel


As recentes declarações de Angela Merckel sobre a quantidade de dias de férias e a idade da reforma em Portugal, entre outros países, trazem consigo os germes do populismo e do autoritarismo encapotado. Fazer acusações tão levianas sem dados rigorosos nem ao menos próximos da realidade mostram que a actual Chanceler continua na senda da caça - ou manutenção - dos votos depois dos desastres que foram as eleições nos Lander, onde até os Verdes suplantaram a CDU, e que não hesita em recorrer ao mais patético populismo para o conseguir, mesmo que os resultados saiam pela culatra, como o provam as imediatas críticas da oposição.
Para além disso, e da óbvia humilhação que tenta lançar aos visados (mostra clarissimamente o que é a solidariedade europeia hoje em dia), arroga-se no direito de dizer aos outros como devem regular os seus sistemas sociais internos. Tanto Portugal como a Grécia, e outros, precisam de fazer reformas na administração pública, segurança social (aqui precisam todos, sob pena de falirem em poucas décadas) e economia, nos seus variados sectores. Mas quem o pode fazer são os respectivos governantes, supervisionados pelos orgãos comunitários competentes, ou por instituições com as quais tenham celebrados acordos, como aconteceu recentemente com o FMI e o BCE. Que Merckel, essa ambígua frau em cujas mãos os alemães depositaram o poder executivo, se ache no direito de mandar bocas para o seu eleitorado sem sequer estar na posse de dados válidos, demonstra apenas mais uma vez esta tendência alemã de viragem para o autoritarismo, não já com Anchluss e Panzers, mas enviando ordens económicas de longe, desdenhosa e altiva. Khol e Schmidt, estadistas com obra, bem se fartam de dar preciosos avisos, mas esta Bundesrepublik parece bem diferente da que existiu nos últimos sessenta anos, e certas decisões da política externa, como o veto no conselho de Segurança da ONU à intervenção na Líbia, são mais prova cabal disso mesmo. Fazer comparações com o Terceiro Reich será abusivo, mas o vírus autoritário e expannsionista, ainda que sob outras formas menos belicistas, está lá.
Bem esteve o MNE ao chamar o embaixador alemão para lhe comunicar o desagrado com a gracinha de frau Merckel. Há um limite para tudo, mas nem sempre os teutões o respeitam.
quinta-feira, maio 19, 2011
terça-feira, maio 17, 2011
Sarko, le rigolos, ou os pecados de DSK?
O escândalo Strauss-Kahn apanhou toda a gente desprevenida, excepto os que lhe conheciam a fama. Lê-se um pouco de tudo, desde os que conheciam e já temiam as suas investidas bruscas (como Sarkozy) sobre o "sexo fraco", aos que rapidamente se apressaram a bradar que tudo não passava de uma conspiração para arrasar a carreira de DSK. Mas de quem? De Sarkozy, que assim afastaria o seu provável adversário nas presidenciais, com enormes probabilidades, segundo reza(va)m as sondagens, de o retirar do Eliseu, como não acontecia desde 1981? Dos Estados Unidos, que urdindo um golpes de cadeiras no FMI, conseguiriram tirar um europeu - para mais um francês - da cadeira da famosa instituição financeira? De inimigos internos no PS francês?
Desgraçadamente para Strauss-Kahn, parece que o único culpado é o próprio. A sua fama precedia-o, e os pormenores do caso de perseguição da empregada do quarto do hotel só a vêm confirmar. Sabe-se que os americanos são implacáveis nestes questões (lembram-se de Clinton e as estagiárias?), e não perderam tempo a deter o garboso Dominic, de forma particularmente humilhante, quando ele já se encontrava dentro do avião, levando-o para o exterior devidamente algemado. Mais do que quaisquer explicações, as imagens de DSK a ser levado pela polícia, ou na barra do tribunal, com a barba por fazer, são fatais. Sejam quais forem as sentenças, o seu cargo à frente do FMI já era, e a enorme probabilidade de se candidatar (e ganhar) à presidência do Hexágono caiu por terra. Parece que em matéria de eleições presidenciais, Miterrand deixou uma autêntica maldição aos seus sucessores partidários: nunca mais o PS conseguiu entrar no Eliseu, e depois da recusa inesperada de Delors em 1995, da humilhação de Jospin em 2002, e da derrota de Segolène em 2007, esboroaram-se agora as probabilidades que tinha em lá chegar, com um escândalo como não se via desde o Caso Profumo. Sarko não será tão rigolos a ponto de tramar tudo isso, mas tem enormíssimas razões para abrir uma garrafa de Veuve-Cliquot. ainda para mais quando se sabe que Carla Bruni está grávida. O que significa que quase de certeza que os franceses terão que aguentar com o frenético magiar-descendente durante mais uns anos.

segunda-feira, maio 16, 2011
Alegre espanto

Devo dizer que recebi a notícia da atribuição do Prémio Camões a Manuel António Pina com certo espanto. E mais espantado fiquei quando soube que a decisão tinha sido tomada por unanimidade, e com curta duração na escolha. Talvez pela familiaridade que o autor me desperta, por julgar sempre que estes prémios vão para nomes consagradíssimos conhecidos no mundo inteiro, parecia-me complicado ser ele o galardoado.
Ou então por, algo alheio à poesia, não conhecer tão bem a sua obra poética como o seu talento de cronista. No tasco onde habitualmente tomo o café da manhã, pego muitas vezes no policial JN de propósito para ler as suas crónicas na coluna direita da última página, e raras vezes saio arrependido. Uma das últimas, aliás, sobre Marinho Pinto, é deliciosa no seu sarcasmo prudente com que mimoseia o Bastonário. Mas que a leitura de Pina não se fique por aqui e se estenda ao resto da sua obra - obrigação que eu próprio deveria seguir.
O que interessa é que o maior prémio literário de língua portuguesa fica com ele. Não sei a opinião da maior parte dos homens de letras (essa classe tão complicada e dada às invejazinhas de carreira) lusófonos, mas por mim fiquei radiante, depois do pasmo inicial, e se o encontrar aí pela Boavista, ou numa qualquer sessão da Feira do Livro, dou-lhe imediatamente os parabéns. É mais um prémio de grande vulto para uma figura da cultura portuense, depois do galardão de Eduardo Souto Moura, embora a maioria ignore e prefira dar relevo às diatribes do sr. Pinto da Costa e sus muchachos.
Um grande bem haja, Manuel António Pina.
O futuro do acordo
Decididamente, não se percebe. Agora que os homens da Troika (horrível termo, que muito deve agradar a Jerónimo de Sousa mas que devia dar uma processo disciplinar a quem o cunhou para esta situação), os partidos que aprovaram o plano não se entendem não só quanto à sua aplicação, mas também sobre alguns pontos acordados. O PSD quer ir mais além, o PS distorce vários pontos - já desde o anúncio do "excelente acordo", em que se revelou o que não se ia fazer, escondendo o pior - o CDS-PP já tinha proposto tudo "mas ninguém quis saber na altura". Abstraindo da extrema-esquerda, que como sempre nada apresenta de alternativo (ou então são coisas de fazer arrepiar o maior leigo em questões económicas), dir-se-ia que se prossegue no caminho da demência.
Para mais, e muito embora o plano acordado tenha alguns pontos positivos, embora duros, que podem alterar realmente a pesadíssima super-estrutura estadual, trazem alguns pontos controversos, como a da reestruturação local. Extinguir municípios seria a maior estupidez possível, mas disso falaremos mais tarde. Para já, fiquemo-nos pelas taxas elevadas cobradas pela UE, que implicam um esforço considerável para pagar o empréstimo, coisa que Sócrates não disse logo ao país para nos fazer crer no melhor dos mundos. Irónico como o FMI é sempre tratado como o mau da fita (embora já não sejam os "homens sem rosto"), e a simpática UE, sempre tão pródiga em fundos, é quem nos cobra a maior taxa. Que dirá o Dr. Constâncio?
quinta-feira, maio 12, 2011
De novo os Harlan
Tinha falado há pouco tempo sobre a vida e obra de Thomas Harlan. Hoje, no suplemento P2 do Público, Ivan Nunes deixa um extenso artigo com a mesma matéria, revista e aumentada, e a perturbadora relação entre o realizador de esquerda radical e o seu pai, cineasta dilecto do nazismo. Vale a pena a leitura.
sábado, maio 07, 2011
Uma beatificação a pedido?


A beatificação de João Paulo II foi não só uma massiva demonstração de apreço pelo anterior Papa, bem demonstrado pelas imensas multidões que pernoitaram em vigília, mas também um momento de emoção, daqueles que só personalidades carismáticas, que carregam a força da fé, podem transmitir. Mas aqui pode também residir um problema ao processo de beatificação, além de outras críticas à mesma, que não conheço bem ou não subscrevo. O Papa Bento XVI reconheceu que tinha prescindido do tempo necessário para iniciar o necessário processo (cinco anos após a morte), excepcionalmente rápido. Ao recordar-me do enorme brado "Santo Subito" por alturas das cerimónias fúnebres do Papa polaco vindo das massas de fieis, pergunto-me se a Igreja não terá cedido ao "apelo popular" e à vontade pontual e emocional, em lugar de conduzir os normais procedimentos destes casos, contidos no direito canónico e nas regras para as causas dos Santos. Em suma, se não terá corrido atrás da espuma dos tempos para agradar a uns tantos, como quando acontece quando acaba (desnecessariamente, por vezes) com algumas tradições, ou cede a histerias ou manifestações fáceis por compensações de ocasião. Não sei se é o caso, mas espero que haja algum cuidado. Mal estaremos se a Igreja correr atrás de modas sem razões substantivas para isso.
sexta-feira, maio 06, 2011
Breve nota sobre o real enlace
Os acontecimentos, internos e externos, sucedem-se a um ritmo vertiginoso, e eu sem tempo (ou paciência) para alimentar o blogue. Contudo, para honrar o subtítulo deste espaço (na parte que diz "monárquico" e "católico"), impõe-se que deixe uns ligeiros comentários sobre o casamento real britânico e da beatificação do Papa João Paulo II.
Sobre o enlace, registei com agrado a enorme recepção aos noivos. Das "demonstrações de protesto", nem vê-las. Republicanos, islamitas, nacionalistas ingleses ou simples chatos foram submergidos pelas multidões que aclamavam William e Catherine. Desconfio que houve mais azedume nos comentários da net, dos suburbanos micro-burgueses soltando os costumeiros "estes inúteis a gastar o dinheiro do povo", do que nas ruas. O príncipe favorito dos britânicos está casado, o que é um enorme sinal de alívio. O facto da sua agora mulher vir da classe média não é factor negativo: ajuda a limpar o sangue - e todos sabem os problemas que a consanguinidade já trouxe a tantas dinastias - e dá uma imagem mais terrena, ou mais próxima "de todos nós", à família real. William já de si era próximo, porque os tempos mudam e os media são implacáveis, particularmente naquelas paragens. Em todo o caso, parece-me um casal bem diferente do que se casou há trinta anos. qualquer semelhança entre Diana e Middleton é pura coincidência resultante da intriga de revista cor de rosa. Kate tem um ar que em nada fica a dever à aristocracia, uma cara assaz simpática, e, como disse Pedro Mexia, aquela "cintura impossível".

Na cerimónia reparei no contraste entre a solenidade e a cor (havia lá parentes da família real que podiam perfeitamente lavar escadas em Baguim do Monte). David Beckham era o único de chapéu alto, gravata sem colarinho e colete negro, como exige a etiqueta em cerimónias religiosas. Curioso como um futebolista demonstra ser o mais clássico de uma tal cerimónia. Suponho que o Professor Espada terá apreciado.
quarta-feira, maio 04, 2011
E agora, Muammar?


Há no entanto uma pessoa para quem o desaparecimento de Osama Bin Laden deve deixar sentimentos ambivalentes: Muammar Kadhafi. Se por um lado vê um adversário feroz (e potencial inspirador de movimentos jihadistas na líbia) liquidado, por outro perde o argumento de que os rebeldes eram "jovens drogados" apoiados por Bin Laden, que pretenderiam estabelecer um "emirado islâmico" na Líbia. Pode é ser mais um pretexto para o seu derrube. Do mal o menos, por agora o coronel sobreviveu ao criador da Al Qaeda.
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