quarta-feira, março 02, 2011

Uma semana muito proveitosa

Os triunfos recentes do Benfica foram particularmente saborosos, todos por razões diferentes.


O do Sporting terá sido o mais tranquilo, conhecendo-se a crise aguda por que passa a agremiação verde, mas é sempre gratificante ganhar em casa do eterno rival, e a jogar meio desafio com 10 jogadores. Mas como ouvi dizer, este ano todos ganham em Alvalade excepto o Sporting.


O jogo do fim de semana acabou numa emoção tremenda. Houve de tudo, mas o "minuto a minuto" ainda proporcionou mais emoção. O Benfica a todo o vapor tentando marcar, o guarda-redes maritimista a defender o possível e o impossível, o golo do novo reforço portista a gelar a Luz, Salvio a repor o empate, e mesmo ao cair do pano, Coentrão a fazer explodir uma Luz apinhada, quase se afogando no meio da turba para a qual correu para festejar. E ainda houve tempo para confusões e empurrões. Todos os ingredientes dignos de um grande jogo.




Mas a mim, deu-me mais alegria a vitória em Estugarda, a meio da semana. É verdade que o clube da casa, mormente jogar no imponente estádio Mercedes-Benz, não é o que era há três anos, quando ganhou a Bundesliga, capitaneado por Fernando Meira, e até está muito mal colocado no campeonato. Mas clube alemão é sempre complicado. E mais do que ultrapassar a eliminatória, com mais calma até neste jogo fora, o importante é que se matou definitivamente o borrego, afastando-se duas maldições. Sim, duas: a primeira, mais urgente, era a que revelava o Benfica nunca tinha ganho em solo alemão; a segunda, para os esquecidos, era de que além de ter sido batido por pesados 3-0 em tempos de Trapatonni, o SLB perdeu precisamente neste estádio de Estugarda, em 1988, perante o PSV, a oportunidade de se sagrar campeão europeu pela terceira vez. O penalty do Veloso, aquele terrível momento de desinspiração de uma chuteira...Mas graças aos dois secos de Salvio e Cardozo, são tempos e dificuldades que já lá vão. Não há maldição que sempre dure, e um dia também a de Bella Guttman esfumar-se-à.

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Acabem com os "mídia"
 
Uma das coisas que mais solenemente me irrita é ouvir falar dos media pronunciado como "mídia". É verdade que os brasileiros, talvez por influência americana, não só falam como escrevem assim mesmo, com "i" (muitos locutores portugueses cometem esse erro, e por vezes outros ainda piores, como referir a cidade francesa Troyes pronunciando /trói"). Simplesmente, a palavra é latina, não anglo-saxónica, e deve ser pronunciada como tal. Parece que finalmente alguém reparou nisso publicamente. Ricardo Araújo Pereira, na sua crónica da Visão Boca do Inferno de há uns dias, recorda isso mesmo, com o humor oportuno do costume.

As queixas de um dos candidatos acerca dos "mídia" vieram reforçar uma espécie de preceito ligeiramente babilónico que estipula que as palavras de uma língua sejam pronunciadas com sotaque de outra. "Mídia" mais não é do que a palavra latina "media" pronunciada com sotaque inglês. Se optasse pela pronúncia correta "media", o candidato estaria apenas a revelar ao eleitorado que sabia latim. Pronunciando "mídia", mostra que sabe latim e inglês - só com uma palavra. É o máximo de erudição com o mínimo de meios, o que pode constituir vantagem política na medida em que documenta uma capacidade extraordinária para a gestão e aproveitamento de recursos.
É isto mesmo. Aprendam, senhores lusófonos.

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

O regresso do "cão raivoso"

A repressão dos rebeldes e revoltosos na Líbia, com recurso a mercenários de todas as partes de África e bombardeamentos da força aérea, revela que Kadhafi não deixou de ser o "cão raivoso", como lhe chamou Reagan, que era antes da sua "regeneração" táctica.


Recordemos. Muammar al Kadhafi, filho de beduínos e oficial do exército, chefiou um golpe de estado em 1969 que depôs o velho rei Idris e aboliu a Monarquia. Impôs uma república em que se auto proclamou "guiada revolução líbia", baseada nas "assembleias do Povo", com uma ideologia simultaneamente pan-arabista, socialista e islamita, em que na prática ele era a figura tutelar e inquestionável. Os opositores foram encarcerados aos milhares, e muitos foram publicamente enforcados.
Com os fundos das enormes reservas de petróleo, Kadhafi não apenas se lançou em programas de infra-estruturas e irrigação de campos. Na política externa, apoiou tudo o que era grupo terrorista, dos palestinianos (em operações de grande repercussão, como os atentados nos Jogos Olímpicos de Munique), ao IRA, da ETA aos diversos grupos armados que se opunham a regimes africanos rivais, além de ditadores tenebrosos como Idi Amin. Frequentemente recorria à "prestação de serviços" de gente como Abu Nidal e Carlos, o Chacal. Tornou-se assim um dos principais inimigos do Ocidente, particularmente dos Estados Unidos. A gota de água aconteceu quando uma discoteca em Berlim explodiu, vitimando soldados americanos. O atentado tinha sido ordenado pelo ditador líbio. Os americanos não hesitaram e bombardearam Tripoli e Bengazi, em 1986, neutralizando a máquina de guerra líbia e aterrorizando Kadhafi, que viu o seu palácio ser destruído e desde então passou a habitar exclusivamente em tendas. Esse valente susto parece que produziu os seus efeitos, não sem antes se verificar um último e terrível caso: a bomba que explodiu num avião sobre a aldeia escocesa de Lockerbie, matando todos os seus tripulantes. Depois disso, o coronel líbio apostou numa estratégia de moderação e conciliação, abrindo a economia da Líbia ao mundo e passando a ocupar um lugar "respeitável" entre as nações, como o velho líder excêntrico com trajes típicos e guardado por mulheres oferecendo boas perspectivas de negócio, particularmente do petróleo. Além de se reconciliar com a Itália, a antiga colonizadora, veio a Portugal na cimeira UE-África, em 2007, instalando-se na célebre tenda na forte de S. Julião da Barra. José Sócrates tornar-se-ia então um dos aliados preferenciais na Europa.

Agora, cercado, acossado e ameaçado, Kadhafi regressa à sua faceta mais temida e odiada e reage com extrema violência, o que originou ainda mais tumultos. A Líbia enfrenta uma autêntica guerra civil. Os rebeldes controlam a Cirenaica e a segunda cidade, Bengazi, onde flutua a bandeira da monarquia, e avançam para oeste, para Tripoli, guardada pela guarda pretoriana do regime verde e pelos mercenários. Tudo pode acontecer, desde o esmagamento da rebelião (e os muitos mortos não auguram nada de bom) até ao colapso do regime, cenário em que Kadhafi não hesitaria em rebentar tudo à sua volta, além da divisão do país em duas ou mais partes, dadas as diferenças tribais. Até há pouco mais de uma semana, este cenário era inimaginável.


A rebelião prolonga-se, com um crescente número de vítimas, os estrangeiros fogem apressadamente de barco, o valor do petróleo sobe e o futuro da Líbia não augura nada de bom. O seu coronel "guia da revolução" está disposto a levar o país consigo para o inferno.
PS: perdoem-me a imodéstia, mas ou muito me engano, ou este artigo do Público inspirou-se neste post.

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Trinta anos depois do "23-F"

Passam hoje 30 anos sobre a tentativa de golpe de estado pelos militares comandados pelo tragico e patético Tejero Molina, que tomaram as Cortes espanholas e fizeram os deputados reféns. A 23 de Fevereiro de 1981, a soldadesca aproveitou a sessão de tomada de posse de Leopoldo Calvo Sotelo como Presidente do Governo para raptar o poder legislativo e estabelecer um regime semelhante ao que acabara poucos anos antes. Contava ainda com divisões armadas em Valência e um conjunto de oficiais saudosistas do franquismo.


O sequestro durou todo o dia, mas o Rei frustrou os planos. À noite, Juan Carlos I, trajando o uniforme de chefe supremo das forças armadas espanholas, falou em directo na televisão para o país, mostrando a sua desaprovação ao golpe e reafirmando o seu apoio ao processo democrático. Depois disso, os golpistas desmoralizaram. Não havia mais nada que pudessem fazer. O franquismo esgotava o seu último fôlego, a Espanha consolidava o novo regime e Juan Carlos afirmava-se definitivamente como monarca firme, respeitador das leis gerais e respeitado pelo seu povo.


O mar e as suas razias

As tempestades que na semana passada fustigaram a costa portuguesa, com ondas que chegaram aos dez metros, não pouparam nenhuma região.

As vagas atacaram as dunas de Moledo (que já de si estavam vulneráveis, e que há vinte anos que têm vindo a recuar), derrubaram o passadiço de madeira e a marca das milhas, uma sentinela de pedra que ali estava para lá da memória, e por pouca não fizeram o mesmo ao moinho que serve de abrigo de veraneantes. O mar merece sempre respeito, especialmente no Inverno e em estâncias balneares, mas neste caso, e para quem conhece Moledo, provoca sobretudo temor. As imagens da duna tão frágil e do moinho sobre o precipício são angustiantes. Urge reconstruí-la e devolver a imagem de marca e a dignidade da praia mais setentrional de Portugal.



Fotografias retiradas de A Origem das Espécies.

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Depois de Mubarak

A saída de cena de Hosni Mubarak deixou no ar muitas certezas e algumas dúvidas. As certezas dividem-se em dois grupos de ideias opostas: uns estão certos de que a democracia á ocidental vai frutificar na república árabe, sem sombra de dúvidas; os outros dizem que o Egipto vai ser "o novo Irão", e que lá a democracia com a entendemos é uma ficção. Pela minha parte, prefiro ser prudente. Até agora sempre tinha visto Mubarak como um estadista autoritário mas longe dos piores, e que além do mais travava os avanços do radicalismo islâmico saído da Irmandade Muçulmana, inspirada por Qutb. Aliás, nunca era referido como "ditador" (ao contrário de Ben Ali, por exemplo), talvez por ser o sucessor de Nasser e Sadate. Bastou que o povo viesse à rua para as mais infames classificações lhe caírem em cima.
Certo é que já há muito havia descontentamento, e mesmo muitos do que já estavam acomodados diziam em surdina não gostar do velho militar. Mas tal como ocorreu noutros países, não foram as condições políticas a fazer cair Mubarak, mas a situação económica e a subida dos preços, aliada à corrupção. A revolta atraiu mais e mais apoiantes, perante a placidez do exército. Depois de muitos contorcionismos, Mubarak caiu mesmo. Não nos esqueçamos de outro precedente, também ele num grande país muçulmano controlado por militares: a Indonésia. Suharto governou com uma mão bem mais férrea até a situação económica o derrubar.

A situação está demasiado nublada para que se possam fazer vatícinios sem olhar para o lado. A Irmandade Muçulmana é heterogénea, e tanto tem no seu interior radicais que sonham com o Califado (de lá saíram os assassinos de Sadate, por exemplo, que agora estão na Al Qaeda), como pragmáticos que preferem o exemplo turco de Erdogan. Os principais líderes dizem inspirar-se nesta última linha, mas nem isso afasta as desconfianças. Os liberais do Wafd parecem ser poucos, e El Baradei surgiu de repente, depois de toda uma vida de serviços externos na ONU. Desconhece-se absolutamente o que quer a maioria da população.


Entre os medos de que ocorra o mesmo que no Irão em 1979, surgindo ali uma república sunita (que ironicamente seria um rival de peso para os persas), ou a chamada de atenção para os democratas-islâmicos turcos, vem-me à cabeça outro exemplo, igualmente turco: o de Kemal Ataturk. Saiu Mubarak, mas as forças armadas controlam a situação e gozam de grande popularidade entre o povo. Provavelmente farão a gestão da casa, e caso achem que há caminho para um regime com um certo grau de liberdade, permitirão que haja eleições mais ou menos livres. Mas não deverão sair de cena. E não sendo permissivos com islamitas, serão também mais duros nas suas posições para com Israel.

Entre euforias e cinismos, pode-se tirar de tudo um pouco e tentar prever esta situação confusa, que não deixará de influenciar todo o Médio-Oriente e o Norte de África.

Ao certo, e das poucas certezas absolutas que tenho neste momento sobre o assunto, é que o editorial do Público de sábado passado - "O dia em que o século XXI recomeçou", "a Praça Tahrir foi o símbolo das aspirações de toda a humanidade", "uma nova geração rejeitou para sempre o autoritarismo e a ditadura", "o 11 de Setembro acabou na Praça Tahrir" - é das coisas mais estúpidas que li nos últimos anos, em todos os periódicos possíveis e imagináveis.
O adeus do fenómeno


Ronaldo, o Fenómeno, o Ronaldinho que encantou Eindhoven, Barcelona, Milão e Madrid, entre outras, o melhor marcador de sempre de fases finais de Mundiais, campeão de Selecções por duas vezes (em 1994 e 2002), anunciou ontem a despedida dos relvados. Um problema de tiróide, que o impedia de perder peso, obrigou à arrumação das chuteiras. As lesões graves que teve na carreira já o tinham remetido para segundo plano nos seus últimos anos. Curiosamente, ganhou quase tudo mas nunca logrou vencer uma Taça dos Campeões Europeus, chegando ou partindo sempre no ano errado. Para a memória fica um dos mais geniais jogadores de sempre, os seus arranques supersónicos, as suas fintas como quem dança samba, os problemas que teve no dia da final do Mundial de 1998 (onde acabou batido por outro gigante da bola, Zidane), as lágrimas quando sofreu uma grave lesão nos ligamentos, a euforia dos golos da final do Mundial asiático. E golos como este, que correram Mundo nos anos em que encantava o futebol espanhol, e que ficaram para a história do desporto.


segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Legado precioso

Os White Stripes decidiram separar-se e encerrar actividades, antes que se tornassem anacrónicos, ou pior ainda, que se "reinventassem" sem ideias. Deixaram-nos no entanto hinos de estádio (literalmente) e algumas obras sonoras e visuais para a posteridade. Nem Kate Moss quis ficar de fora. Vede, confirmai e admirai.


sexta-feira, fevereiro 11, 2011

O triste caso de Augusta Martinho


A notícia da idosa encontrada morta em casa, após nove anos de silêncio, atordoou o país. Desgraçadamente, nem devia espantar muito. O abandono a que são votados os velhos e a enfastiada e emperrada burocracia a que estamos submetidos, os verdadeiros causadores desta descoberta terrível, levam a estes desfechos aberrantes. Não é a primeira vez que ouço falar de pessoas que morrem sozinhas e só tempos depois são descobertas. Mas nunca imaginei que alguém pudesse ficar tanto tempo ignorada para além da morte. O que choca mesmo é a indiferença e esquecimento total a que a idosa esteve votada, tirando uma vizinha ou uma outra pessoa mais escrupulosa.

Nesta nossa sociedade que despreza tudo o que é velho e "do passado" em detrimento do novo e "moderno", que cultiva a juventude esticada ao máximo e a devoção à saúde eterna, os velhos são um estorvo e não ficam bem entre a mobília. Algumas famílias tendem muitas vezes a esquecê-los, e noutros casos nem restam familiares próximos, tendo então de se entregar à sua sorte. Os poucos voluntários que propositadamente os visitam para aliviar a sua solidão não chegam. Muitos vivem no centro das cidades, em casas decrépitas, ou em subúrbios uniformizados e deprimentes, como a senhora deste caso. São apesar de tudo aqueles que vivem nas aldeias e pequenas vilas que recebem mais atenção dos que os rodeiam. Mas com o decréscimo da natalidade e o aumento da esperança de vida, a situação tende a piorar. No futuro haverá um batalhão de idosos a cuidar. Muitos dos que hoje desprezam os velhos muito provavelmente receberão a dobrar o mesmo tratamento. Só se deseja que daqui a uns anos não invente qualquer forma de "eutanásia involuntária" para impedir o colapso da segurança social que restar.
Espero contudo que esta notícia chocante possa servir para alertar para casos semelhantes e para a extrema solidão que acompanha tantos idosos deste país. Quem sabe se a mulher que nem depois de morta teve tratamento condigno possa afinal chamar a atenção pra a indignidade das pessoas mais velhas. E já que (quase) ninguém quis saber dela, ao menos que se recorde que era uma pessoa, e que tinha nome. Chamava-se Augusta Martinho.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

Streap tease com os Smiths

 
Curiosa cena, esta, do filme Closer, a que mais me intrigou quando o vi, há já uns anos. Não me refiro à frase de inteligência evidente e bem menos sincera do que parece à primeira (quem viu a fita perceberá porquê). O que me interessa mesmo para além do diálogo e da perfomance dos actores é o som de fundo. Trata-se de How Soon is Now?, uma das músicas mais emblemáticas dos Smiths. E é curioso, porque o líder desta extinta banda, Morrissey, parece ser  - ou dá a entender que é - um ser assexuado, e nada faria prever que alguma vez as canções dos Smiths, que tanto falam de desilusões amorosas (e muitas delas foram expoentes urbano-depressivas dos anos 80), pudessem ser escolhidas como música de fundo de uma casa de streap. Mas, neste caso, as letras angustiadas e a música tortuosa de How soon is Now, com os seus riffs industriais e a voz sofredora de Morrissey, combinam perfeitamente com a cena, e particularmente com o estado de espírito da personagem de Clive Owen, que já não sabe em quem confiar, ou no que acreditar. É uma banda sonora inesperada, mas dificilmente poderia ser melhor apanhada.


quarta-feira, fevereiro 02, 2011

O futuro da república do Nilo


Acompanho a par e passo a situação no Egipto. Hoje, no Cairo, em Alexandria e noutras cidades, ultrapassou-se em muito o milhão de manifestantes previsto. Hosni Mubarak tenta ganhar tempo, mas recebeu um ultimato para se retirar até sexta-feira. Depois disso, ninguém sabe o que se passará. Certo é que os egípcios ja passaram por convulsões, como a revolução de 1952 ou a nacionalização do Sueza, ambos protagonizados por Nasser, até hoje um herói nacional.

A oposição ao seu regime está momentaneamente unida, dos liberais do Waft até à poderosa Irmandade Muçulmana, organização inspirada por Qutb, o teórico do moderno jihadismo. El Baradei, pelo prestígio internacional conquistado, parece ser o rosto da liderança desse movimento remendado. Mas ainda é cedo para saber o que vai emergir. Certo é que este movimento é irreversível e algo vai mudar no país. Há dois cenários que se colocam, e todos fazem os seus vaticínios.

OU
David Luiz
Sabia que David Luiz sairia em breve, mas já pensava que só seria no fim da época. Mesmo em cima do fecho do "mercado de Inverno", o nosso "macarrão" deixou a Luz e mudou-se para a nevoenta Londres e para os Chesea de Abramovic, de novo em grande prodigalidade em jogadores. Se do ponto de vista é satisfatório (restando saber o que vale o trinco Matic que vem envolvido no negócio), desportivamente é uma péssima notícia. Uma das regras de primária dos clubes que querem ganhar é jamais venderem jogadores da espinha dorsal no decorrer da época. Vendendo David Luiz, manda-se qualquer hipótese de ganhar um título às malvas, a começar pela Taça de Portugal, troféu que gostaria tanto que regressasse à Luz este ano. O jogo no Porto está entregue ao gang de Villas-Boas, e bom será se o resultado for menos pesado que o de Dezembro. Agora, com este rombo na defesa, há que dizer adeus aos títulos e segurar o segundo lugar, tarefa menos complicada. Já se provou que Sidney não é o companheiro ideal para Luisão, Jardel só agora chegou e Roderick é mais verde que qualquer comentador sportinguista. O eixo da defesa ficou coxo. Pede-se sorte e reflexos aos guarda-redes.


Quanto a David Luiz, resta-me desejar-lhe boa sorte e agradecer a sua passagem. Um dos melhores centrais que já passou pela Luz, provável titular dos Canarinhos no Mundial de 2014, tem agora a oportunidade de singrar nos azuis de Londres (Fernando Santos sabia do que falava quando o comparava a Ricardo Carvalho). Quando chegou, era promissor e nada mais. Entrou no meio de um jogo em Paris, de má memória, jogou a defesa esquerdo, deixou crescer a melena e na época passada tornou-se um esteio do Benfica. Criou enorme empatia com os adeptos e chegou à Selecção brasileira, mostrando ser de longe o melhor central em Portugal. Era uma questão de tempo até sair. Esse dia, para nossa infelicidade, chegou.

segunda-feira, janeiro 31, 2011

O mito Leonce Viiktorya
Esta história da filha de Luciana Abreu e Djalló se chamar Leonce Viiktorya (é assim que se escreve?) deixa-me de pé atrás. Alguém já viu o nome no registo? Alguém já surpreendeu "Lucy" embalando a filha, e dizendo-lhe "Leonce Viiktorya, porta-te bem senão a mãe não te leva a ver o papá no estádio"? só mesmo no site do casal é que se anunciou tal coisa. Estou em crer que é um qualquer truque para chamar as atenções, e que a pequena tem um nome mais normal, senão vejamos: Leonce é justificada como sendo o cruzamento entre Luciana e Djalló, coisa que qualquer criança da primária sabe que não é; e Viiktorya parece que é "um grito de revolta contra as injustiças do Mundo", ou coisa parecida, embora não explique a nítida influência escandinava. Eu diria mais que é uma razão de revolta futura da pobrezinha Leonce pela injustiça da cruz que tem de carregar. Mas as justificações são de tal maneira absurdas que não dá para acreditar. Por isso, estou alegremente céptico, e acredito que tal nome seja produto de ficção científica.

Enquanto não fica desvendada a questão, sempre se podem colocar outras interrogações, como a da forma correcta como se escreve tal coisa.

A linha interrompida

Como se não bastassem as centenas de quilómetros de caminho de ferro fechados nos últimos vinte e tal anos, deparamos-nos agora com esta indigente história do cancelamento do metro (que já não vai haver) no antigo ramal da Lousã. Parece que se chegou ao fundo da incompetência e do desrespeito do Estado pelas pessoas.

A falta de respeito materializa-se na ideia peregrina de se alterar toda uma linha de quarenta quilómetros que servia vários concelhos da região de Coimbra (e a própria Coimbra), encerrando-a durante anos, mesmo com dúvidas levantadas pelos utentes e pelas autarquias, e trocando-a por autocarros. A incompetência é chegar-se perto do termo dos trabalhos na linha e vir-se com o argumento de que afinal o projecto é "megalómano", custa balúrdios na sua execução e na sua manutenção, e que foi sobrevalorizada em "estudos anteriores". Lê-se e não se acredita que uma coisa destas possa ser afirmada sem o menor pedido de desculpas por aqueles que tiveram a brilhante ideia da conversão total da linha. Ou seja, os responsáveis pelo serviço que as populações nunca pediram abandonam-no a meio como se não fosse nada com eles, sem assumir a mínima responsabilidade.


Nunca andei no ramal da Lousã, mas numa altura da vida ia muito à Lusa Atenas e vi muita gente a despachar-se na estação de Coimbra-A para ir apanhar o comboio para a Lousã na estação do Parque (cheguei a ver uma composição a ir de uma estação para a outra, atravessando o parque e o largo das Ameias, a meio da madrugada, única hora em que tal acontecia). Por isso, o argumento da escassez de gente parece-me pouco sustentável. Mais a mais, os concelhos atravessados pelo comboio, Lousã e Miranda do Corvo, ao contrário do que acontece na maior parte das terras do interior (i.e. para leste de Coimbra) têm visto a sua população aumentar ao longo dos anos.

Já se sabe que o governo e boa parte das "elites" querem, antes de mais, a modernização do país a toda a força, e não hesitam em acabar com qualquer custo superviniente nas linhas férreas secundárias apenas para construir o utópico TGV, esse "cavalo de ferro" branco utópico que se tornou no novo desígnio nacional, mesmo que seja um sorvedouro de recursos. Nos últimos vinte anos foram destruídos centenas de quilómetros de caminho de ferro, muitas vezes sem prévio aviso, com os vagões a serem levados pela calada da noite. Agora, acabam com um serviço, começam a construir um sucedâneo, e deixam as obras em três quartos por culpa de contas mal feitas.


O ministro António Mendonça, um dos maiores erros de casting num executivo onde eles abundam, já veio dizer que não se trata da suspensão das obras, mas da sua "recalendarização" e alteração do programa de trabalhos. é bom que seja apenas isso. Porque se isto significar fim efectivo da linha da Lousã, por pura incompetência dos poderes públicos, será a sua cabeça a rolar. A sua e outras, porque nem pode haver culpas solteiras nem salteadores travestidos de autoridades dos transportes que não saibam assumir as suas culpas.

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Discursos

Nota de referência na noite eleitoral foram os discursos dos candidatos e líderes presidenciais. Entre a falta de respeito de Defensor Moura, a "mesmice" de Francisco Lopes e Jerónimo de Sousa (deve haver um modelo escrito que só é preciso decorar), a esperança hesitante de Fernando Nobre, e o ímpeto do costume de josé Manuel coelho, sobraram discursos de variados tipos. Louçã teve, com aspecto lívido, teve das piores saídas da noite, como referências à "direita a afiar as facas", mas conhecendo o seu historial de acusações e recriminações, nem espanta nada. Tivemos um Manuel Alegre derrotado mas digno, e até com ar mais aliviado, um Portas calculista e um pouco ao ataque, mas sem excessos. Sócrates disse umas vagas palavras de consolação que o seu ar descontraído traíam. Não convenceu ninguém a não ser os incautos, e mesmo esses...Passos Coelho teve o melhor discurso da noite, sensato, frugal, polido, desmentindo as suspeitas que Louçã atirara. Pode não ser um grande estadista, mas é minimamente decente.


O pior ficou reservado para o fim. Cavaco Silva, aplaudido pelas jotas e pelos apoiantes que a máquina da sua candidatura deslocara para o CCB, o monumento símbolo do cavaquismo, resolveu enaltecer certas áreas a que ele próprio jamais deu a atenção devida, como a agricultura, e lançar violentos ataques rancorosos aos que lhe "lançaram infâmias", sem saudar os adversários, antes achincalhando-os sem nunca referir os seus nomes (viu-se no repetido "foram cinco contra um", o que além de não ser verdade revela que, com esta curiosa expressão, Cavaco tem uma noção do cargo ainda mais solitária e unipessoal do que se julgava). O reeleito, que se calou durante grande parte da campanha, como é seu hábito - como se um candidato não devesse ser o mais transparente possível - aproveitou o momento em que já nada lhe podia acontecer, e em que os ex-adversários já se tinham pronunciado, para os atacar da pior forma, alçando-se em grande referência moral, lançando ainda suspeitas de que havia uma campanha da comunicação social contra ele, fonte de "calúnias". Nunca um seu antecessor chegara a tais extremos, nem Sócrates, com a sua "campanha negra" (recorde-se que em 1996, quando ganhou, Jorge Sampaio, entre as comemorações, ordenou que fosse retirado um gigantone que ridicularizava Cavaco Silva). E no fim não houve sequer possibilidade dos jornalistas lhe fazerem perguntas. O pior do cavaquismo (arrogância, covardia, falta de transparência, até o novo-riquismo da pompa) ficou exposto ali.

Mas ao fazer semelhantes ataques, Cavaco mostrou, até explicitamente, que não era presidente de todos os portugueses, mas apenas de uma facção. O embuste do cargo de presidente da república como líder uno de um país e de um povo caiu assim, definitivamente, por terra. Já havia indícios, mas esta é a prova definitiva, magnificamente servida por Cavaco. Um chefe partidário, que é reconhecido pelos seus eleitores e odiado pelos adversários: eis a essência do cargo. A falta de confiança em tal figura cresceu ainda mais com a abstenção e os votos nulos e brancos, de tal forma que há até quem proponha que seja eleito no Parlamento. Seria o total descrédito e o golpe final na 3ª república.

terça-feira, janeiro 25, 2011

Resultados



O país (o minimamente interessado, claro está) fala ainda das presidenciais. Tirando os números alcançados na Madeira por Coelho, os resultados não me espantaram muito. Muitos ficaram admirados com os valores da abstenção e dos votos brancos e nulos, como se não fosse uma forte hipótese que se previa lendo blogues, fóruns de opinião e ouvindo conversas de café e autocarro. Só por grande autismo e enorme afastamento da população é que se pode ficar espantado com esse resultado.






Avaliemos, como é regra, os vencedores. Primeiro, Cavaco, porque ganhou, obteve maioria absoluta dos votos expressos em urna e conseguiu ser reeleito à primeira volta, para seu alívio. Na recta final da campanha parecia estar à beira do desespero, mas para sua felicidade esta acabou antes dos eleitores decidirem prolongá-la por mais uns dias. Em Setembro de 2009, depois da sua declaração de que suspeitava de escutas, muitos previam que a sua recandidatura tinha ido por água abaixo. Prova-se agora que esses juízos eram precipitados.



Depois, Fernando Nobre. Apesar de ter ficado em terceiro lugar, figura na galeria dos vencedores por mérito próprio. Sem apoios partidários, com nítidas dificuldades no início da campanha e vatícinios ruins (sem falar nas sondagens), ficou acima do que todos os números previam. Não vai à segunda volta mas é um sério prenúncio para o futuro, ao conseguir reunir na sua candidatura uma paleta muito diferente de apoiantes, muito, muito para além do clã Soares, que muitos opinadores diziam ser o sustentáculo subterrâneo.E, claro, José Manuel Coelho. O deputado regional da Nova Democracia que se diz comunista (!) entrou mesmo à última na corrida, mas, sem grandes apoios nem sequer direito a participar nos debates televisivos, desenvolveu uma campanha em que era simultaneamente o cómico e a melga de serviço, granjeou simpatias por onde passou e ganhou popularidade em todo o país. Também ele ficou à frente de qualquer sondagem, e, coisa inimaginável, por pouco não ficou à frente de Cavaco na Madeira, com impensáveis 38%. Ainda assim, ganhou no Funchal e nos concelhos mais populosos e arreliou seguramente o convalescente Jardim. É o melhor resultado de sempre da oposição madeirense frente ao eterno soba laranja.




E como de vencedores estamos falados, passemos ao empatado: Francisco Lopes. Só ganhou mesmo entre os seus, mas no geral cumpriu, aguentando o eleitorado PC e saindo da penumbra do comité central. Sempre com ar grave e austero, com raras excepções, que lhe terão valido alguns votos, mostrou estar bem preparado e acabou por cumprir o objectivo de uma votação razoável. Faltou-lhe o da segunda volta...






Derrotados: Manuel Alegre, pois claro. Cinco anos depois, conseguiu a proeza de baixar as percentagens de 2006, ainda que apoiado por PS (que só o apoiou devido ao facto consumado), Bloco e MRPP. Um balde de água fria no último combate do bardo das Trovas do Vento que Passa, mas todo o discurso do "estado social" e causas afins parecia perdido nos anos setenta, como ele próprio, para não falar nas acusações a Cavaco e na vitimização, pouco próprias dele. O tal milhão de votos que reivindicava como seus escapou-se-lhe, talvez porque nunca fosse pertença sua, mas sim de todos os que apostaram numa candidatura independente, e que lhos retiraram quando apareceu o apoio partidário. Só mesmo Alegre e alguns líricos é que não tinham percebido isso. Quebrou-se a ilusão. Saiu com a dignidade possível.






Defensor Moura: a campanha excessivamente centrada no Alto Minho e os excessivos ataques a Cavaco tornaram-no irrelevante e antipático, e castigaram-no nas urnas. Algumas das causas que advogava (descentralização, desburocratização) mereciam alguma discussão, mas nem isso conseguiu. Os amigos dos animais não valeram ao ex-autarca que, sem perguntar nada à população, declarou Viana "cidade anti-touradas". Podia-se ter explorado melhor esse seu lado totalitário, mas já não vale a pena. Terá tempo agora para estudar pela enésima vez a melhor forma de dar solução ao prédio Coutinho.






Ao que parece, também o Ministério da Justiça se pode considerar perdedor, pelas confusões que houve com o Cartão de Cidadão e as impossibilidades decorrentes de votar. Na minha secção de voto vi alguns zunzuns, mas como levei igualmente o cartão de eleitor, não tive problemas. Por isso, não me alongo em situações que desconheço.






Conclusões: vale a pena apresentar candidaturas independentes. As forças partidárias já não têm a força que tinham. Nem as jotas ajudam.



Por outro lado, a abstenção mostrou o quanto os portugueses dão a devida importência À república e aos seus cem aninhos...



domingo, janeiro 23, 2011

Presidenciais
Cavaco ganhou. Ficou abaixo da abstenção e é o candidato reeleito com menos votos de sempre, mas ganhou. Apesar de Alegre ser apoiado por vários partidos, e das candidaturas independentes, que granjearam um boa quota de popularidade. Mas no seu discurso de vitória revelou revanchismo (neste aspecto teve a companhia de Louçã) e falta de sentido de vitória, e, para cúmulo, não permitiu que os jornalistas fizessem perguntas. Mostrou os mesmos silêncios e as questões sem resposta de que já dera mostras na campanha. Mas isso não admira. Já há muito que Cavaco evita as perguntas quando não está para isso, usando os meios que tem mais à mão.




Amanhã falarei mais demoradamente sobre estas eleições.

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Blogoleaks! Escândalo!

A intimidade dos candidatos, completamente devassada por vis armadilhas de luxúria(mais comuns no futebol), revelando terríveis segredos sobre o seu carácter! Ou então não...

domingo, janeiro 16, 2011

Sete


Este blogue faz hoje sete anos. É normalmente tido como número da sorte, e é igualmente uma idade bonita neste meio, que teve os seus primórdios em 2002/03. Pode-se dizer que A Ágora data da segunda vaga da blogoesfera, de princípios de 2004. Olhando para trás, parece-me que começou num tempo já longínquo, com um template sóbrio e primitivo (ainda hoje o é, sem a quantidade de mariquices musicais e de "causas" que apareceram entretanto e que só atrasam a abertura dos blogues), com uma escrita mais gongórica e menos cínica, se é que lhe posso chamar assim. A "filofrancofonia" e o "filohelenismo" reclamadas no início ficaram um pouco gorados (preparo-me mesmo nos próximos dias para escrever uma coisa pouco laudatória da França). A Administração Bush, um dos primeiros alvos, passou à história, mas os seus efeitos permaneceram no Iraque. Hoje sou um pouco mais céptico (não no sentido religioso), e um tudo de nada mais conservador e mais neurótico. O Mundo mudou, a minha vida também, e este espaço, necessariamente, sofreu ligeiras modificações estilísticas e de pensamento. Conservo todavia os principais traços de identificação que marcam este blogue no seu subtítulo - continuo monárquico, católico, benfiquista e discorrendo pontualmente sobre o Porto, depois de uns anos em Lisboa, por razões pessoais e laborais. Enquanto A Ágora existir, continuará assim, à imagem do seu autor.

A arma dos pequenos

Nestas eleições presidenciais marcadas pelo total deserto de ideias e pelas acusações quasi pessoais, a única coisa que me tem interessado é o folclore e as frases para recordar. Mas mesmo aquele tem andado em baixo (ao contrário das frases, que as há para todos os gostos), com pouca adesão e desfiles tristonhos. Um dos que tem lutado contra essa taciturna corrente é José Manuel Coelho, que mesmo com poucos apoios lá conseguiu chegar à última ao boletim de voto. O deputado regional da Nova Democracia é simultaneamente cínico e bonacheirão, usa uma palavreado simples e populista, mas eficaz, e as suas acções desconcertantes granjearam-lhe alguma popularidade ( aposto que maioria das pessoas o identifica mais depressa do que a Francisco Lopes, por exemplo). Saliente-se que é o primeiro madeirense a candidatar-se ao cargo, o que diz muito da qualidade de políticos do arquipélago.


Um dos grandes propósitos de Coelho é ganhar notoriedade para afrontar Alberto João Jardim, já com as eleições regionais deste ano à vista. Uma sondagem recente colocava-o como o mais bem posicionado para derrotar o eterno "Bokassa" da Madeira, à frente dos líderes do PS. É curioso notar como a oposição mais eficaz ao "jardinismo" parte exactamente de movimentos mais marginais, ou menos notórios a nível nacional. Em tempos, a UDP assumia esse papel, obtendo bons resultados eleitorais (à frente do PCP, por exemplo, cujo espaço ideológico na prática ocupava), e tendo mesmo conquistado a câmara do Machico, com o célebre Padre Martins Júnior, um clérigo incompatibilizado com a Diocese do Funchal, que nos anos oitenta era o rosto daquele formação de esquerda radical, antes se passar para o PS. Depois, a UDP dissolveu-se no Bloco de Esquerda e perdeu grande número de votos, e com isso visibilidade.

Agora, é a Nova Democracia que ocupa esse papel. O partido que Manuel Monteiro formou como dissidência do CDS-PP não teve grande êxito no país, na sua intenção de passar à frente de Paulo Portas. Mas na Madeira, o cunhado de Monteiro e um punhado de opositores a Jardim conseguiram entrar no Parlamento Regional com as cores do PND, fazendo desde então uma oposição mediática e subversiva, que mostrou bem mais do que os adormecidos partidos tradicionais. Essas facetas acentuaram-se com a entrada de um dos responsáveis do jornal satírico madeirense (e anti-Jardim) O Garajau, José Manuel Coelho, que protagonizou o célebre episódio da bandeira nazi, entre muitos outros.
É com humor, histrionismo e subversão que as pequenas formações partidárias captam atenções e votos. A Nova Democracia conseguiu-o num contexto regional. Não deixa de ser irónico que possa obter maior visibilidade a nível nacional não com Manuel Monteiro, outrora o rosto da direita em Portugal, mas com um candidato que militou no PCP e que se diz ainda "comunista"

quarta-feira, janeiro 12, 2011

A vida imita a ficção (uma vez mais)



O caso do homicídio de Carlos Castro e todos os pormenores do sórdido caso fazem-me recordar este inquietante filme, adaptação do livro de Patricia Highsmith. Assemelha-se-lhe na amoralidade do autor do crime, na vontade de subir a todo o custo, na absoluta ausência de escrúpulos em busca da ascensão social ou de manutenção de um certo estilo de vida, nem que isso implique eliminar outrém.

É certo que também recorda um pouco a obra de baixo, no delírio de um aspirante a super-homem que mais tarde se redime. Mas para isso, seria necessário que o criminoso em questão expiasse os seus pecados, buscando a redenção. Mas até agora, nem ele nem os mais próximos parecem importar-se muito com isso.


Tempos inquietantes, estes. E tivesse as manias que tivesse, ou mesmo fosse o autor de um sem número de intrigazinhas sociais menores, Castro é uma vítima desta amoralidade vigente.

domingo, janeiro 09, 2011

No cinema em 2010

Se há coisa de que me farto de ano para ano são os balanços de "melhor" e "pior" do ano. Houve tempo em que achava piada à coisa, sim, mas com o tempo e a constante repetição, aquilo perdeu a graça. Mas às vezes, se a lista for curta, até a vejo.

Ontem ouvi uma qualquer estatística em que se anunciava que a frequência dos portugueses no cinema em 2010 tinha superado largamente os anos anteriores. É uma inversão do abandono progressivo das grandes salas. Mas das razões invocadas para esse crescimento, ou seja, os blockbusters, só tinha visto um ou outro. Começou em Avatar, uma maravilha de 3D que emprestava graça a um pastelão New Age ecológico, e que teve um êxito retumbante em todo o Mundo, prosseguiu com um conjunto de filmes-documentário portugueses, com uma ou outra fita de interesse (O Escritor Fantasma, ou O Caso Farewell, por exemplo), alguns equívocos (Knight and Day, uma rebaldaria sem tempo para respirar em que colocaram as Sanfermines em Sevilha), e outros que nem consegui ver, como A Rede Social (Dos Homens e dos Deuses já o apanhei em 2011, quase a sair de cena. Aconselhá-lo-ia se ainda estivesse em exibição, mas assim só em DVD).
Um dos mais curiosos é precisamente um dos blockbusters mais badalados do início do Verão: a versão de Robin Wood, de Ridley Scott. O mítico herói de Sherwood já teve muitas caras na tela, em média uma por década. O mais famoso é certamente o de Errol Flynn, o aventureiro por excelência, mas depois disso já vimos Sean Connery a interpretar um Robin envelhecido e desencantado com a vida pós-salteador, e Kevin Costner, no auge da carreira, que era o herói possível (ou o "princípe dos ladrões" macambúzio) em inícios dos anos noventa. Agora, Scott ofereceu a personagem ao seu actor-fetiche, Russell Crowe. Mas as semelhanças com o mito que regressava das cruzadas e enfrentava o xerife de Nottingham, valete de João Sem Terra, roubando os ricos (e os cobradores) para dar aos pobres, são mínimas. O Robin de Crowe é um desertor das cruzadas que se faz passar pelo desaparecido filho do senhor de Loxley, apenas para salvar a pele. Com o desenrolar da trama, assume o papel como se fosse a sua real identidade, enfrenta a desconfiança inicial de Lady Marian (aqui interpretada por Cate Blanchett, que já se sabe que pode fazer qualquer papel mas que na minha opinião fica melhor em personagens mais "femininas", não tanto em mulheres de armas), antes da previsível paixão entre ambos, e acaba a auxiliar João Sem Terra (agora rei) da invasão francesa. As cenas épicas não são as dos salteadores contra soldados "oficiais", mas uma batalha convencional nas praias inglesas, uma espécie de Dia D invertido.

Os aspectos históricos (e o facto de Ricardo coração de Leão estar morto) que tanto influenciaram a Inglaterra posteriormente, aliados a este Robin ser inicialmente um peão desertor, não um nobre regressado, marcam a diferença em relação ao que nos habituámos a ver na mítica personagem. É também mais duro, seco, um fora-da-lei que quer acima de tudo salvar a pele, e não o herói justiceiro frequentemente evocado, papel que assenta nas sete quintas a Russell Crowe. Não sendo uma obra-prima, Ridley Scott conseguiu uma viragem em relação à lenda, muito mais realista e (relativamente) fiel à história da época. E o fim deixa adivinhar um futura sequela. Mas só pela originalidade e desvio do arqueiro de chapéu verde, o filme merece uma vista de olhos. Em DVD também se deve ver.

quinta-feira, janeiro 06, 2011

Dia de Reis



segunda-feira, janeiro 03, 2011

2011
Com o novo ano, vêm necessariamente coisas boas e más.
Ente as boas está desde já a eleição do Estado Sentido como blogue revelação nos Prémios Combate de Blogs, com uma votação confortável, e a entrada do Benfica com o pé direito (ao mesmo tempo que se deixa de falar na "invencibilidade potista").
Pelas más contam-se mais atentados contra cristãos, agora no Egipto, no seguimento de ameaças de fanáticos islâmicos, os aumentos dos preços de quase tudo, da tributação e das taxas, uma recessão económica anunciada, umas presidenciais quase dispensáveis, etc.
Apesar do evidente desequilíbrio, há que olhar para a frente, para este ano de estranho número. Algumas coisa boas há de trazer. A imprevisibilidade também pode ser boa. Em determinados casos, é uma bênção.

segunda-feira, dezembro 27, 2010

Duas gerações de Harlan



Já passou algum tempo, mas a notícia da morte de Thomas Harlan, em Outubro passado, num sanatório da Baviera onde já se encontrava há uns anos, só foi anunciada semanas depois e passou despercebida. O nome não será dos que mais facilmente virá à memória. Harlan era um realizador alemão, politicamente engajado na extrema-esquerda, que depois da 2º Guerra e de servir na Kriegsmarine, estudou em Paris e tornou-se amigo de Klaus Kinsky, mais tarde o actor fetiche de Werner Herzog. Viajou pela Polónia, atrás de nazis fugidos, por Itália e por inúmeros países, dentro e fora da Europa, onde colaborou com diversos movimentos de extrema-esquerda. Como tantos outros intelectuais esquerdistas, não perdeu a oportunidade de vir a Portugal em 1975 (na altura um destino turístico para activistas do gênero) para observar, estudar e filmar algumas acções mais simbólicas do PREC. Acabou por realizar um documentário sobre a ocupação das terras do Duque de Lafões, perto da Azambuja, por trabalhadores agrícolas, no processo de colectivização de latifúndios, documentário esse que ficou conhecido como Torre Bela, e que teve exibição comercial entre nós apenas em 2007. Na altura, algumas cenas de um realismo burlesco acabaram por ganhar alguma notoriedade, como a da "comprativa". A ocupação terminaria algum tempo depois, mas o filme tornar-se-ia um bom testemunho dos loucos meses do PREC.

Porém, a notoriedade de Thomas Harlan não se fica pela sua obra ou militância. Esta será antes um complemento dos antecedentes familiares. O seu pai era também ele realizador de cinema. Mas ao passo que o filho era activista da extrema-esquerda, Veit Harlan terá sido o mais famoso cineasta do III Reich, a par de Leni Riefenstahl. A autora de O Triunfo da Vontade ficava com o quinhão onde se difundia a glória e superioridade da "raça ariana", enquanto Harlan se encarregava do cinema "negativo", ou seja, da propaganda contra as "raças inferiores", particularmente os judeus. Realizou o tristemente célebre Jud Süß, o expoente máximo do anti-semitismo filmado (todo esse processo foi narrado num filme alemão deste ano, que ignoro se terá distribuição comercial em Portugal, embora torça para que venha).


A família Harlan personifica os sentimentos radicais de duas gerações alemãs. A do pai aderiu ao Nacional-Socialismo e colocou-se à sua disposição, oferecendo os seus talentos na depuração anti-semita. O filho, que conviveu de perto com altas figuras nazis, escolheu a barricada do lado oposto, abraçou as causas de extrema-esquerda, como tantos outros da sua geração (e alguns da seguinte, que nos anos setenta revelavam "simpatia" pelo grupo terrorista de Baader-Meinhof), que combatiam os resquícios da ideologia dos pais, tentando desinfectar a Alemanha de qualquer rasto de nazismo, e faziam-no recorrendo por vezes à violência armada, ao crime e à traição. Não sei se antes algum avô combateu nas trincheiras da Iª Guerra, mas em todo o caso os Harlan, com uma geração de extrema-esquerda sucedendo a outra de extrema-direita, são a face trágica da Alemanha dos últimos oitenta anos. Um e outro corresponderam a respostas desesperadas às catástrofes sofridas pelo seu país por responsabilidade das gerações anteriores. Nenhum o conseguiu. Acabaram por se confundir com o que de mais violento e fanático havia nas respectivas épocas no seu país. A morte discreta de Thomas Harlan dá-se numa altura em que os excessos de violência urbana dos anos setenta contra a próspera República de Bona foram esquecidos, e em que a Alemanha volta a afirmar-se como potência política, para a qual todos se voltam, e não já só económica.

sexta-feira, dezembro 24, 2010

A causa dos dias correntes

«Por aqueles dias, saiu um édito da parte de César Augusto para ser recenseada toda a terra.
Este recenseamento foi o primeiro que se fez, sendo Quirino governador da Síria. Todos iam
recensear-se, cada qual à sua própria cidade. Também José, deixando a cidade de Nazaré, na
Galileia, subiu até à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e linhagem de
David, a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que se encontrava grávida. E, quando
eles ali se encontravam, completaram-se os dias de ela dar à luz e teve o seu filho
primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para
eles na hospedaria. Na mesma região encontravam-se uns pastores que pernoitavam nos
campos, guardando os seus rebanhos durante a noite. Um anjo do Senhor apareceu-lhes, e a
glória do Senhor refulgiu em volta deles; e tiveram muito medo. O anjo disse-lhes: «Não
temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de
David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor. Isto vos servirá de sinal:
encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura.» De repente, juntouse
ao anjo uma multidão do exército celeste, louvando a Deus e dizendo: «Glória a Deus nas
alturas e paz na terra aos homens do seu agrado.»
Evangelho de S. Lucas, 2, 1 - 14




quarta-feira, dezembro 22, 2010

Voou


O divórcio entre o Benfica e Juan Bernabé e a águia Vitória é um caso triste e dispensável. Estive no jogo de Sábado e não imaginava que ao mesmo tempo se davam confusões envolvendo seguranças e advogados. E as versões das partes são contraditórias. O tratador diz que o impediram de entrar no estádio e que há "sportinguistas" infiltrados nos corpos dirigentes. A SAD afirma que o espanhol é que agrediu um guarda e que há tempos que vinha demonstrando "comportamentos menos próprios". Não sei quem está mais próximo da verdade. O que é certo é que o magnífico voo da águia Vitória, revelado há sete anos na inauguração da nova Luz, não voltará ao estádio. Diz-se que se vai contratar um novo tratador, que virá uma nova águia, etc. é possível, mas ainda falta tempo. E nunca será a águia original, aquela que voou sobre o estádio no seu primeiro jogo, contra o Nacional Montevideu. Muitas vezes vi esse número, com uma criancinha a fazer o chamamento de sempre ("Vitória, vem!"), e com os visitantes, particularmente os estrangeiros, estupefactos e deslumbrados. Numa ocasião, salvo erro contra a Naval, quando eu ainda estava a chegar ao estádio, alguma coisa assustou a ave, que esvoaçava em volta dos prédios vizinhos da Luz.
Ao que parece, o conflito estará relacionado com o facto de Bernabé ter oferecido os seus serviços a outros clubes que usam aves no símbolo, como a Lázio (ver vídeo abaixo) e Flamengo. Esperemos agora pelo sucessor, mas com saudades da original, e mágoa por este caso acabar assim.







PS: Pôncio Monteiro sempre me irritou, com o seu fanatismo e as suas tiradas despropositadas. Mas há que confessar que sem ele aquele pequeno Mundo tão mediatizado do comentário futebolístico televisivo fica muito a perder, sem o seu estilo inconfundível, as suas atoardas e a sua pronúncia com "zs". E recorde-se também o desaparecimento de Aurélio Márcio, um dos mais isentos e justos comentadores que me habituei a ouvir na rádio (assim reconhecido por todos), e um dos históricos fundadores de A Bola.

terça-feira, dezembro 21, 2010

De Yaoundé ao Monte Ararat

Apoula Edel é um guarda-redes nascido nos Camarões, que cedo se mudou para o Pyunik Yerevan, clube da capital da Arménia, e que depois de alguns anos se naturalizou arménio, passando a defender a baliza da selecção daquele estado do Cáucaso. Passou ainda pelos romenos do Rapid de Bucarest, antes de desembocar no Paris Saint-Germain. Actualmente é titular na equipa da capital francesa.


Dificilmente conseguirei encontrar melhor caso para exemplificar a globalização. Perfeito era que o keeper passasse ainda pelo Atletico de Cali, da Colômbia, pelo South Perth, da Austrália, antes de acabar a carreira no Qatar. Isso sim, era O futebolista global (ou sem pátria, se quiserem) por excelência. Mas assim como está já é bom.


Só mesmo o futebol, para nos mostrar arménios nascidos nos Camarões, que trocam a humidade do Equador pela sombra do Ararat. Também assim se comprova a beleza deste desporto.
A Esperança encontra-se até nas filas à chuva

Como em tudo na vida, há momentos de azar. Estar na bilheteira do estádio a apanhar chuva e perder dois golos dos nossos é um exemplo entre milhões de outros. Mas conseguir ainda ver outros cinco (três dos quais dos nossos) já é uma reviravolta da sorte, sobretudo se o bilhete estiver a preço reduzido. Não sei se isto contribui para a esperança do leitor destas linhas, mas a intenção também era essa. Afinal, estamos no Natal, e os sentimentos cristãos, como a Fé e a Esperança no Advento, são para ser invocados nestas alturas.

quinta-feira, dezembro 16, 2010

E assim aconteceu...


Além de grande promotor da cultura em Portugal, com o inesquecível Acontece (o tal programa que, segundo Nuno Morais Sarmento, o seu coveiro, custava tanto que "dava para pagar uma volta ao Mundo a cada português"), e de jornalista facilmente reconhecível, Carlos Pinto Coelho divulgou também as novidades da África lusófona, a sua paixão pela fotografia, e acabou por inspirar Carlos Filinto Botelho, uma das personagens mais antigas de Herman. Também por esse humor indirecto, mas não só, que descanse em paz e que não seja esquecido.


In dubio contra Assange

Falou-se tanto nestas últimas semanas sobre o WikiLeaks e o seu mentor, Julian Assange, que pouco ficou para dizer. Há opiniões contra, a favor e assim-assim. Falar de todo o caso tornou-se um exercício quase repetitivo. O que é que se pode dizer do fenómeno? Que tanto pode ser útil e realmente justo, como quando denuncia delitos praticados por estadistas, fraudes monumentais e crimes encobertos, como demagógico e perigoso, ao desvendar tudo quanto os diplomatas enviam nas suas missivas. Faz com que a tensão cresça desnecessariamente entre os estados. Os defensores furiosos do WikiLeaks referem a "hipocrisia" dos diplomatas; custa-me a crer que tenham sempre dito na cara o que realmente pensam das pessoas, que nunca tivessem dito nada de menos abonatório na ausência do visado ou que não se importem de ver a caixa de correio devassada.
Quanto a Assange, o homem do momento (e do Ano), é óbvio que a sua prisão por "delitos sexuais" não convence nem a velhinha do 3º Direito e é uma desculpa esfarrapada para o deter. Mas aquela face aparentemente calma desvenda um auto-intitulado profeta da informação verdadeira, uma espécie de pregoeiro messiânico da net, anunciando o pior dos tempos aos americanos, e apenas a esses. Alguém que acha que tem uma missão atribuída por sabe-se lá que divindade e a quer levar a cabo contra a Babel americana, desprezando a diplomacia e as relações internacionais. Esse homem, evidentemente, é um fanático. A maioria dos fanáticos messiânicos apresenta uma figura calma e uma voz melíflua (Hitler era uma excepção). Na dúvida, estou do lado contrário ao dele.
PS: ao menos o caso serviu para alguma coisa: por exemplo, para ganhar ainda mais consideração pelo actual MNE, que soube conservar as alianças sem deixar cair princípios básicos. Sim, falo dos voos americanos.

terça-feira, dezembro 14, 2010

Escatologia na porta da net
Há tempos, falava-se aqui da literatura escatológica de porta de casa de banho. Mas isso são marcas que se vão apagando com o tempo. A escatologia escrita (e a rasquice em geral) permanecem e até se expandiram, mas alojaram-se completamente em tudo quanto é fórum ou caixa de comentários da net. É ver para crer. As maiores taras, os ódios mais ressabiados, as frustrações mais dissimuladas, a estupidez mais incontroladas, acabam todas ali, em especial quando o assunto toca bola, questões de fé ou ódios ancestrais. Nisso o Sousa Tavares tem toda a razão.

segunda-feira, dezembro 06, 2010

Mais um disparate ultrapassado


A famosa "candidatura ibérica" suportada pelas federações futebolísticas de Espanha e Portugal perdeu. Ainda bem. Quando ouvi o nome do vencedor pela rádio fiquei satisfeito (mas não surpreso, porque nos corredores da FIFA já se sussurava que a Rússia tinha ganho). Como já aqui escrevi há mais de um ano, estava totalmente contra este projecto, pela mentira inicial - a de que serviria para aproveitar os estádios menos usados construídos para 2004 - pela subserviência a Espanha, como atesta a pouca importância votada aos recintos de Portugal, que nem o jogo inicial receberiam, e até o termo "ibérico", que conduz directamente ao país vizinho - e também pela razão moral de que se um país (neste caso, dois) atravessa uma grave crise financeira e económica, não se deve lançar em mega projectos desta natureza para o futuro. Além de que assim o TGV já pode ficar adiado sine die (o Mundial seria um bom pretexto para se avançar com a sua construção).


Ao mesmo tempo, já tinha tomado partido pela Rússia. A candidatura da Bélgica/Holanda já estava de fora, e os ingleses, como é tradição desde Francis Drake, fizeram uma autêntica acção de pirataria mediática, lançando através dos seus influentes jornais suspeitas sobre todos os outros candidatos. No fim, saíram pela porta pequena, e nem a presença do cómico Boris Johnson lhes valeu para que o football comes home. Terão de esperar mais uns anos antes de tentarem repetir a proeza concedida em 1966.

Assim, a velha pátria dos czares vai ser a anfitriã em 2018. Embora tenham organizado os Jogos Olímpicos de 1980 (os do ursinho Mischa, boicotados por meio mundo), não têm grande experiência na matéria, mas julgo que, ao contrário do que imaginam os perspicazes Zapatero e Sócrates, a causa da sua vitória é mesmo a possibilidade de um grande país ter a oportunidade de organizar um evento destes partindo do zero e erguendo novas infra-estruturas. Não precisaram de Putin nem de Medvedev na cerimónia para nada, e por via disso houve quem suspeitasse logo de subornos e rublodólares por baixo da mesa, não se sabe se com informações fidedignas ou se por inveja. Certo é que novos e grandiosos estádios surgirão em Moscovo, São Petersburgo e Kazan, com o apoio da Gazprom, e circular-se-à pelas imensas estepes entre estas cidades em comboios gratuitos (promessa da organização). Se não for antes, até pode ser um bom motivo para conhecer finalmente o país de Pedro O Grande.

sábado, dezembro 04, 2010

4 de Dezembro


A cada 4 de Dezembro, e mais ainda de dez em dez anos, é-se bombardeado com a memória de Sá Carneiro (e mais modestamente, Amaro da Costa). Discute-se se a tragédia que os levou se tratou de acidente ou atentado, milhentos barões e respectivos assessores falam na "herança de Sá Carneiro", mostram-se enésimas imagens dos amores felizes do fundador do PPD e de Snu Abecassis. Não vale a pena discutir essa avalanche, porque é uma fatalidade conhecida, e as fatalidades são imunes a qualquer discussão. Saúdam-se no entanto as novas biografias de Sá Carneiro, entre as quais uma reedição do livro de Maria João Avilez, muito embora a de Amaro da Costa me pareça uma obra epistolar que pouco revela da sua visão do Mundo. Mas podia-se então aproveitar para mudar boa parte da toponímia urbana que se apoderou de praças tão respeitáveis como a Velasquez e a do Areeiro. Dê-se o nome de Sá Carneiro a novos arruamentos e retomem-se os nomes originais (isto vale para o aeroporto de Pedras Rubras, cujo nome oficial parece uma brincadeira de mau gosto). Quanto a Amaro da Costa, julgo que não haverá grandes alterações a fazer, embora o Largo do Caldas seja conhecido assim por todos, a começar pelas gentes do seu partido. Mais útil seria recuperar o seu arquivo, perdido nalguma sede partidária do CDS do distrito de Beja, onde como se sabe, são às centenas...

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Ernâni Lopes 1942 - 2010


Desapareceu hoje, vitimado pela doença que já em tempos o apoquentara, o melhor Ministro das Finanças das últimas décadas, um dos poucos que não escondeu a situação caótica das contas públicas aos portugueses. Exerceu o cargo no mais impopular governo da III República, o do Bloco Central. Teve de recorrer ao FMI, adoptar uma autêntica política de austeridade e tomar medidas draconianas. Foram tempos atribulados, mas graças a ele e à entrada de Portugal na CEE, com os fundos subsequentes, seguiram-se anos de prosperidade e estabilidade como o país já não se lembrava. Cavaco Silva deve-lhe uma fatia de leão das suas maiorias absolutas pela trabalho realizado, mas lamentavelmente sempre o ignorou. Numa altura em que atravessamos uma grave crise financeira, económica e moral, não é apenas triste perdermos homens assim: é desolador.

terça-feira, novembro 30, 2010

Notas catalãs


Não haja dúvida que a Catalunha passa por dias animados, neste gélido início de Inverno. No Domingo, a velha CiU voltou a ser maioritária no parlamento regional e ocupará por certo a Generalilat. A experiência da esquerda tripartida à frente do governo não correu muito bem, e o PSOE pagou por isso, com muitos a verem o fim de um ciclo e a prever o princípio do fim do governo de Zapatero. Pior ainda ficou a Esquerda Republicana Catalã, reduzida a menos de metade pelas tolices do inenarrável Carod Rovira, e que ainda se viu ultrapassada pelo PP. Mais atrás ainda ficaram os comunistas e umas franjas de independentistas. Será que os anarquistas da CNT votaram em alguém?



Um dia depois, o motivo de todas as conversas: os cinco golos sem resposta do Barcelona ao Real Madrid. Jamais Mourinho tinha encaixado uma derrota por estes números (embora o resultado não seja inédito: basta recuar a 1994 e aos tempos em que Romário fazia levantar o Camp Nou), com um jogo avassalador da cantera culé sem hipótese de reacção dos merengues e de Cristiano Ronaldo, como sempre muito desacompanhado. Barcelona conseguiu por uma vez vingar-se do "tradutor", mas por muito abatido que este estivesse, desconfio que ainda vai virar as contas e retribuír a gentileza no Santiago Bernabéu, onde presumivelmente já contará com Káká. É não conhecê-lo e à sua capacidade de emergir.


Fica uma nota de uma ironia curiosa: a fustigada dupla de centrais do Real era constituída por Pepe e (Ricardo) Carvalho, precisamente o nome do detective criado pelo mais conhecido escritor catalão de livros policiais, Manuel Vazquez-Montálban, que chegou até a fazer parte dos corpos sociais do FC Barcelona. Nos histórias, Carvallo queimava livros; no relvado, a dupla homónima queimou a própria equipa. Se Mourinho tivesse estado mais atento à literatura contemporânea catalã, talvez a coisa não lhe tivesse passado em claro.

O exemplo do Banco Alimentar

O Banco Alimentar recolheu neste fim de semana mais de 3 mil toneladas de alimentos. Ultrapassou os recordes de sempre. Ese sucesso tem várias leituras possíveis: significa que, como se temia, há mais gente com fome a precisar de auxílio. Mas também que as pessoas, mesmo com mais apertos na bolsa, e sabendo das novas realidades do país, foram mais solidárias do que o costume. Em tempo de crise, é uma bela amostra de que a sensibilidade social não está por terra, antes pelo contrário. E quando tantos apregoam por maior intervenção da sociedade civil à margem (ou como complemento) do Estado, o Banco Alimentar é um exemplo maior desse tipo de intervenção, mostrando quão eficaz pode ser o apelo de uma instituição de confiança e sem segundas intenções, para acudir às reais necessidades do país e dos que estão na sua margem.

segunda-feira, novembro 29, 2010

Acabou o Contra


Acabou o Contra Informação. Durante mais de uma década, foi o mais verrinoso programa de humor televisivo, o mais subversivo, o mais inspirado. Os trocadilhos dos nomes dos bonecos eram sempre inventivos, e de lá saíram diálogos e situações brilhantes, como as célebres galas. Não havia figura pública que não estivesse representada, e houve mesmo quem se sentisse posto de lado por não ter o seu próprio boneco. Durante muito tempo era o programa televisivo que mais fazia questão de ver. Ultimamente, já vinha perdendo fôlego e imaginação, e estava reduzido a um discreto bloco semanal. Agora acabou, definitivamente. Pode ser que qualquer dia venha um substituto, porque o modelo está longe de estar esgotado (recorde-se que antes do Contra já tinha havido o Cara Chapada, na SIC). Certo é que a televisão portuguesa fica mais pobre. Ou melhor dizendo, ainda mais pobre, mais sensaborona e mais servil.

quinta-feira, novembro 25, 2010

Goa, quinhentos anos


Só mesmo a leitura ao fim do dia das habituais efemérides do suplemento P2 do Público é que me puseram ao corrente do facto histórico do dia: não, não são os 35 anos do 25 de Novembro de 1975, graças ao qual não ficamos sob o domínio de militares de aspecto cubano e gente demasiado excitada. São antes os 500 anos da tomada de Goa por Afonso de Albuquerque. Meio milénio decorrente da entrada do governador português, que já conquistara Ormuz, no território ao qual o seu nome ficaria indelevelmente ligado e que se tornaria no centro político, religioso e comercial da Índia portuguesa. Ali começou verdadeiramente a "conquista, navegação e comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia". Dali partiram as expedições que conquistariam Malaca e chegariam às Molucas, e também dali São Francisco Xavier iniciou a sua peregrinação pela Ásia. Goa cristianizou-se, ganhou traços arquitectónicos portugueses e, graças aos planos de miscigenação entre os indianos e os portugueses levados a cabo por Albuquerque, nasceu um novo sub-povo: os goeses. Goa pertenceu a Portugal até 1961, quando as muito mais numerosas forças da União Indiana ocuparam o território. Foram 450 anos, desde esse 25 de Novembro de 1500. Uma nova era da história de Portugal e do Oriente começou aí.

terça-feira, novembro 23, 2010

E assim passou a NATO por Lisboa

A NATO lá se reuniu em Lisboa sem problemas de maior e com promessas de reforma e de resolução de casos pendentes. É cedo para se saber se há possibilidade de salvar o Afeganistão das suas muitas ameaças com uma saída airosa (tanto uma como outro hipótese são duvidosas). Por outro lado, a futura cooperação com a Rússia promete desanuviar uma tensão nada desejável no leste da Europa e no Cáucaso e fortalecer ainda mais a aliança contra as novas ameaças globais - o Irão provavelmente entendeu a mensagem. Ver-se-à se Lisboa deste fim de semana ficará para a história.


Um qualquer habitante da cidade poderia passar à margem da Cimeira, desde que não vivesse (ou trabalhasse) na área do Parque das Nações ou não precisasse de usar alguma das vias condicionadas. Estive na capital nestes dias e tirando as entradas vigiadas do Vasco da Gama, restos de barreiras em Belém e de manifestantes no Rossio, nada vi de substancialmente diferente. Ao que parece, o controlo nas fronteiras funcionou bem (apesar dos protestos) e o temido Black Block não conseguiu fazer das suas. É bem possível que muitos dos retidos que se queixavam de não poder entrar no país e da sua "falta de democracia" fossem na realidade membros desse movimento que ocupa o tempo a partir montras e a montar coktails molotov. Mas a coisa seguiu sem problemas, mas revelando uma incrível e variada fauna, que o Miguel Castelo Branco reportou fotograficamente, para nosso gáudio e para deleite da sociologia. Ficamos mesmo a saber que Os Cinco, tão bem comportados e amigos da ordem e dos british values, enveredaram por maus caminhos e foram parar à prisão. Felizmente têm amigos que não se esquecem deles. Ou então eram eles as más companhias. Nunca se sabe.

sexta-feira, novembro 19, 2010

A terceira mais bela


A Livraria Lello foi considerada a terceira mais bela do Mundo pela Lonely Planet. Está longe de ser uma novidade, já quem em 2008 o Guardian deu-lhe o mesmo galardão, e a mesma posição. A diferença é que nessa votação era uma livraria holandesa, estabelecida numa antiga igreja, que estava em primeiro, e agora é uma americana, de S. Francisco. Em segundo permanece a de Buenos Aires, num antigo teatro (pelo que talvez a Lello seja a mais bela das construídas de raiz para a função).
Não é surpresa nenhuma, mas é um orgulho para o Porto e para Portugal. Agora só falta que a Lello se torne numa livraria realmente boa, e não apenas um alfarrabista onde também se compram livros novos, e que a disposição e organização também sejam aperfeiçoadas. Também teria a sua piada ver os livros transportados de novo naqueles carrinhos que circulavam nos carris de metal que ainda são visíveis entre o soalho do centenário estabelecimento.

Eis a Ateneo Grand Spirit, de Buenos Aires

E a nova campeã de beleza das livrarias, em S. Francisco. Pergunto-me quanto terão pago pela distinção, sabendo-se que destronaram a fantástica livraria que se vê em baixo, a Boekhandel Selexyz Dominicanen, de Maastricht.

quarta-feira, novembro 17, 2010

A república dos abutres
Não haja dúvida que esta comissão dos cem anos republicanos tem o dom da oportunidade...ou o vício do oportunismo. Tem razão o Nuno ao chamar a atenção para este disparate. Comemora-se a república homenageando Nuno Gonçalves? Mas no Séc. XV Portugal tinha sistema republicano? Terão confundido com Veneza ou Génova? E as personagens presentes nos Paineis de São Vicente (entre os quais D. Afonso V e D. João II), foram transmutados em figuras da 1ª república? Se a monarquia representava o "atraso", "as trevas", a "desigualdade", o "analfabetismo", os "privilégios de uma casta por causa do seu sangue", etc, etc, porque raio há da efémera (espere-se) comissão de Artur Santos Silva dedicar-se a exibir aquilo que considera serem defeitos de regime? Homessa! Se queriam exaltar a "ética republicana" que fossem mostrar obras dos últimos cem anos, em lugar de fazerem de abutres sem memória.
PS: o jogo particular da selecção portuguesa com a Espanha também se insere nas comemorações. Luminosa ideia, esta, de convidarem uma monarquia, que por acaso é somente a campeã mundial e europeia em título. Porque é que não chamaram antes a inspiradora Republique Française? Tiveram medo dos maus modos dos seus jogadores?

sexta-feira, novembro 12, 2010

Versão pós-1980.
Noutras situações seria um plágio ou um cover. Mas neste caso, que considerar? Trata-se da banda original, só que sem o seu carismático vocalista, e consequentemente com outro nome. Os Joy Division ficaram para trás, e os New Order, mais electrónicos, menos negros, interpretam um dos hinos que marcou a sua anterior encarnação, ao qual falta aqui a voz grave e algo cavernosa de Ian Curtis. Chamemos-lhe então uma versão, ou um cover, de per si.


quarta-feira, novembro 10, 2010

Cobardias e contrastes

Estranhos tempos, estes, e estranho continente, aquele em que habitamos. Vemos chegar o presidente de um estado que não permite a liberdade de expressão, de manifestação, que reprime as religiões e que comete um genocídio cultural sobre o Tibete (para não falar das atrocidades cometidas contra o seu povo por via armada). Quase ninguém se manifesta, e mesmo esses, aliás pacíficos, são afastados para a margem da margem.

No mesmo dia, um Papa é recebido em Barcelona com insultos, provocações e cartazes de protesto. Os opositores estão longe de ser uma multidão, mas os diversos órgãos de comunicação social dão mais ênfase a isso do que aos muitos mais que o acolhem. A viagem papal tinha o duplo objectivo de visitar Santiago de Compostela em ano de Xacobeo e de consagrar a Catedral da Sagrada Família como Basílica. A obra-prima de Gáudi, eternamente incompleta, é já o símbolo máximo da cidade condal, mas nem sempre os seus habitantes a respeitaram ou preservaram. Os anarquistas já foram a maioria em Barcelona, em alturas da guerra civil, por isso o seu anti-clericalismo já vem de longe. Os manifestantes que vimos nas imagens são descendentes da miscelânea de anarquistas, comunistas, trotsquistas, socialistas e demais republicanos que se juntaram um pouco contra natura para combater os nacionalistas de Franco (e entretanto, para se combater entre si). Coragem teve o Papa em passar entre fileiras de gente que o odiava, de um lado, e que o aclamava, do outro - uma boa metáfora da Espanha actual. A Sagrada Família (porventura a única verdadeira razão que me levaria àquela cidade) e mestre Gaudi mereciam-no, e a mensagem cristã, para ser espalhada, também exige coragem. Mas é espantoso como muitos vêem o Papa como uma real ameaça física, como se os Estados Pontifícios ainda existissem e tivessem a prerrogativa de organizar Cruzadas, a não ser que o vejam como uma ameaça no campo das ideias e de influência moral, e aí já lhes mais razão. Mas a prova do limitado poder terreno do Sumo Pontífice é exactamente o exibicionismo dos seus contestatários e os órgãos de comunicação social, mostrando-os até à medula, levados pelos airs du temps. Caso contrário, nem se atreviam a mostrar o nariz num raio de dez quilómetros. Como aconteceu com Hu Jintao, cujo regime foi olimpicamente ignorado por quase todos por mero temor reverencial e económico e em troca de alguns yuans. Com esses os "corajosos" apupadores do Vaticano não tugem nem mugem.

terça-feira, novembro 09, 2010

Hara Kiri

A táctica que Jorge Jesus usou ontem no Porto confirmou-se como uma autêntico suicídio. Ao ver David Luiz na esquerda e Sidnei no meio, palpitou-me que a coisa ia correr mal, até porque me recordei da última ida a Liverpool. Na altura, o Benfica despediu-se da Euro Liga. Agora pode muito bem ter-se despedido da luta pelo campeonato, e pelos mesmos erros. E pior, sofrendo uma goleada copiosa do grande adversário, sem ponta de garra, demonstrando apatia e nervos à flor da pele (que renderam um penalti e uma expulsão, logo a do capitão), com três castigados para o próximo jogo, que vá lá, é contra a Naval...dificilmente podia ser um cenário mais negro. Contra um Hulk em plena forma pôr um David Luiz numa posição com a qual não se dá bem é pura loucura. Assim se ganha um passador e se perde um grande central. Jorge Jesus bem pode meditar para não mais repetir o erro, salvar o resto da época. Ainda para mais depois de uma grande exibição de contra o Lyon, a meio da semana, em que nem os erros dos suplentes tiraram brilho, apanhar com um resultado destes é duro, e logo do clube cujos adeptos mais ódio sentem pelo Benfica. Agora, há que lamber as feridas e preparar os próximos jogos sem invenções imbecis. É que as ideias "luminosas" têm custos incalculáveis, e não é Roberto que vai fazer sempre de bode expiatório. Até porque não merece.


P.S.: que quer dizer André Villas-Boas com os seus "gestos de revolta" pela "época passada"? Há algum regulamento que proíba o Benfica de ser campeão? O Porto tem direitos naturais na matéria? A avaliar pelas reacções e pelas palavras de um ex-guarda-redes daquele clube, agora adjunto despedido, parece que acham isso mesmo. Razões de revolta tem o Benfica, e de sobra.

domingo, novembro 07, 2010

De novo a subserviência com a China

Pelos vistos, até houve alguns protestos de meia dúzia de membros da Amnistia Internacional e de um ou outro indivíduo com a bandeira do Tibete às costas. Mas ainda assim o Governador Civil de Lisboa não esteve com meias medidas, proibiu a acção e desterrou-a para as imediações da Torre de Belém, com o argumento de que se tratava de uma "contra-manifestação" e que no local já estavam as associações luso-chinesas, para aclamar Hu Jintao. Os manifestantes eram poucos e pacifíssimos, mas o peso da China na política externa e sobretudo os interesses económicos prevaleceram sobre quaisquer princípios de "respeito pelos direitos humanos" tão apregoados nesta republicazinha das (de) bananas. Nem os Falun Gong puderam fazer os seus exercícios meditativos em paz. Mas já tínhamos visto algo de semelhante, quando o governo, há não muitos anos, se recusou a receber o Dalai Lama. Para memória futura, fica o nome do autor de mais um acto de subserviência total perante a China comuno-capitalista selvagem. Chama-se António Galamba. A não esquecer.

sexta-feira, novembro 05, 2010

Aguardam-se protestos
Hu Jintao, Presidente da República Popular da China e homem mais poderoso do mundo, segundo publicações recentes, está a chegar a Portugal. Espero, obviamente, que os profissionais da manifestação e do activismo radical a favor de "causas nobres", como a de apupar continuamente Israel, não deixem o crédito por mãos alheias e venham para a rua protestar contra ao chefe de um estado semi-totalitário que reprime de forma brutal as aspirações do povo tibetano e todas as formas de protesto na China. Nem outra hipótese me vem à cabeça.

quinta-feira, novembro 04, 2010

Wall Street de regresso



Desde que vi o anúncio da sequela de Wall Street, filme de Oliver Stone de 1987, fiquei atento à sua chegada. Tinha gostado muito do original, e até o revi de propósito numa das sessões de Verão na esplanada da cinemateca. Quem o tenha visto conhece a sua crítica feroz ao sistema capitalista pronto-a-vestir e especulativo, a caracterização de uma época e dos seus traços distintivos, e da nova classe emergente dos anos oitenta, os corretores, com os fatos cruzados por suspensórios, os gadjets, os sinais de riqueza, a vida num corrupio imparável, etc. E uma espécie de vilão do sistema vigente, Gordon Gekko, financeiro sem escrúpulos, que não sendo a personagem principal consegue dominar o protagonista Bud Fox/Charlie Sheen e arrebatar o Óscar de Melhor Actor desse ano para o seu intérprete, Michael Douglas. Dele ficou para a antologia cinematográfica a máxima "Greed is good", que tão bem assentava naqueles anos antes do crash da bolsa de 1987, que marcou o fim daquela época. O filme é todo ele um conjunto de símbolos de uma época, recriados ou inventados. Os anos oitenta novaiorquinos estão ali espelhados, como se pode verificar pela banda sonora tão new wave dos Talking Heads.

A sequela dos anos dois mil e zero, merecendo mais do que a estrela solitária da crítica do género, desaponta um pouco. Ou a nossa era é demasiado desinteressante (e ainda mais cínica), ou Stone não conseguiu captar o mesmo espírito de época. Há alguns paralelismos interessantes entre as duas obras, tal como o financeiro escrupuloso mas desiludido com o sistema, que no primeiro filme era um Hal Holbrook amargamente irónico, e no segundo um Frank Langella bem mais trágico. A saída de Gekko da prisão logo no início, com o seu tijolo celular na mão tem a sua piada. Com a apêndice "Greed was good, now It´s legal" e o pequeno reencontro com Bud Fox (Charlie Sheen lá arranhou tempo entre um divórcio e uma bebedeira), é dos momentos mais interessantes da fita. Mas falta muito mais a Wall Street dos nossos anos; ao correctorzinho bem intencionado e ecolo de Shia Leboeuf falta a vertigem de ganhar dinheiro rápido e de fazer pequenos truques, como Bud Fox; os "maus da fita" não têm um centésimo da espessura cínica do original Gekko (apesar dos esforços de Josh Brolin), mesmo que a fasquia da pose de obras de arte tenha subido - os promissores quadros pop art são substituídos por Goyas autênticos. E ainda aparece, um pouco enfiada a martelo (provavelmente para mostrar que os filhos não têm de seguir os maus exemplos dos progenitores), a filha de Gordon Gekko, uma jovem idealista que é noiva do seu novo discípulo, precisamente a personagem de LeBoeuf, e que não fala com o pai há anos. A tentativa de reconciliação será uma das tramas principais do filme, o que dá a Gekko um ar mais humano, juntamente com o passado de ex-recluso e o cabelo grisalho, mas a coisa começa a dar para o torto quando o jovem casal pensa que os sonhos se vão cumprir e o corretor aproveita para "to back in business" com o espírito de tubarão que lhe víramos no primeiro filme. Só que o a voz do sangue fala mais alto, e afinal Gekko até tem alma e coração. A coisa acaba com um happy end digno de um "filme para toda a família", literalmente falando. Dá ideia que não haverá um Wall Street 3, até porque o efeito surpresa, ou coque, como quiserem, desvaneceu-se com a sequela. O capitalismo anda à solta, precisa de ser regulado, o dinheiro dá a volta à cabeça das pessoas, mas no fundo, no fundo, há sempre uma réstia de humanidade. Se a mensagem de Oliver Stone não era esta, anda lá perto.


Já agora, as cenas com mais charme são as passadas em Londres. Waal Street é ainda poderosa, mas Saville Row deixa-a K.O. em classe e elegância.