domingo, outubro 02, 2011

Quatro anos de Estado Sentido


O Estado Sentido, para o qual já tive o prazer de colaborar, está de parabéns: faz hoje quatro anos. O que quer dizer que para um blogue já atingiu uma idade de respeito, aí entre a maturidade e a "sabedoria".

segunda-feira, setembro 26, 2011

O Benfica regressa à Roménia


Amanhã o Glorioso volta à Roménia, que já lhe trouxe boas recordações. Nunca perdemos nesse país, já lá tivemos reviravoltas históricas e empates que nos levaram a finais europeias. Terá o Benfica de Jesus capacidade para triunfar fora de casa na competição rainha entre clubes? Tudo indica que sim. Os últimos jogos foram auspiciosos. O empate no Inferno da Luz com o Manchester, que antes do jogo seria motivo de satisfação pela força como os mancunians têm arrasado tudo o que lhes aparece à frente, acabou por saber a pouco. Já a igualdade a dois em casa do Porto é um resultado positivo, dado que tivemos de recuperar duas vezes de situações de desvantagem, perante um adversário que acabou sem ideias e a queixar-se, em estratégia claramente combinada para ver se convencia a maralha, que não ganhou porque o árbitro não se deixou ir nas suas ridículas teatradas. Um Benfica inteligente ganha perfeitamente aos romenos.


Acresce que o jogo é em Bucareste, no novíssimo Stadionul National (julgo mesmo que é o primeiro jogo oficial que recebe), o que poupa os jogadores a uma viagem maçadora até aos confins da Moldávia, para burgos banhados por rios que nem ponte têm e só se atravessam de barcaça (ver o fim deste post). Sempre é um descanso, mas traz o risco de vermos um estádio semi-despido; tudo depende da força de vontade das claques de Galati. Mas com dificuldades ou não, é um jogo a sério a ser encarado com tanto respeito como contra o Manchester. Saiba Jorge Jesus explicar isso aos jogadores, para manter a tradição de resultados positivos na Roménia.
It´the end of REM as we know it



Os REM anunciaram oficialmente que se vão separar. Sim, os REM, a banda de Michael Stip, Mike Mills e Peter Buke (e outrora de Bill Berry), a que nos deu Losing My Religion, Daysleeper, Radio Free Europe, the One I Love e Imitation of Life vai encerrar actividades, legando como seu último álbum Collapse into Now. 31 anos que fizeram parte da história da música pop-rock acabam agora. Talvez poucos tenham a mesma apreciação, mas os REM foram a maior banda do Mundo nos anos noventa, a par dos U2, (durante curto tempo também os Oasis e Smashing Pumpkins) e dos Rolling Stones, estes porque a idade é um posto. Com o tempo perderam mediatismo, que nunca procuraram, em detrimento de grupos menores. Passaram por Portugal duas vezes, ambas no Pavilhão Atlântico, em Lisboa, e em ambas os pude ver (só não vieram antes por causa de uma série de desventuras). Fechou-se uma era na música moderna norte-americana. Talvez um dia se reúnam de novo.


quinta-feira, setembro 22, 2011

Júlio Resende 1917-2011




A morte de Júlio Resende não me surpreendeu, dada a sua provecta idade, mas comoveu-me. Um dos grandes antistas portugueses do último século, cujas obras, ora expressionista, ora com um travo neo-realista (embora não tanto como alguma imprensa o tenha classificado), não deixam de continuar a espantar. Isso e a sua generosidade e paciência.


Tive um encontro com o Mestre quando tinha os meus oito ou nove anos. Como acontecia muitas vezes nas férias, a minha mãe levava-me para o liceu onde dava aulas, e eu percorria tudo, pavilhões, salas, bibliotecas, campos de jogos, etc. Júlio Resende encontrava-se lá uma tarde, com a sua mulher, a convite dos alunos de educação visual; sem saber quem era aquele senhor de bigode branco, entabulei conversa com ele, e falei-lhe do meu enorme gosto em desenhar (coisa que ainda conservo um pouco, mas a que tenho votado tempo a meno). Não sei se fui eu que propus ou se ele é que me desafiou, mas o certo é que o Mestre posou para que eu lhe desenhasse a cara a giz no quadro negro de uma sala de aula; consegui acabá-lo antes que a minha mãe chegasse e demonstrasse o seu embraço, perante o visível divertimento do artista. A "obra", essa, não durou muito, mas nunca me esqueci dela.


Só lamento não ter conhecido ao seu Lugar do Desenho, em Valbom, como várias vezes planeei, e onde morreu ontem. Deixou-nos a suas obras e a mim, pessoalmente, aquela memória do dia em que um pintor ilustre posou para que eu o desenhasse. E legou-nos aquela fabulosa Ribeira Negra, cujo original viu ainda ser exposto permanentemente no edifício da Alfândega, e que nos interpela à saída do túnel, antes da Ponte, de forma inquietante e sentida.


sexta-feira, setembro 16, 2011

É desta?




Parece que depois de tantas reclamações, desabafos, rezas, alguém vai mesmo pôr travão aos desatinos de Alberto João Jardim e da sua trupe. A brincadeira que a Madeira tem feito ao longo dos anos com os dinheiros públicos, gozando com contribuintes e autoridades nacionais, parece estar com os dias contados. Em tempo de eleições regionais, são declarações (e actos, espera-se) corajosas da parte de Passos Coelho, que olha por cima das vantagens eleitorais. Pena é que precisemos de ter chegado a este ponto e de receber puxões de orelhas "lá de fora" para que alguma coisa fosse feita. Depois, bem pode Jardim vociferar contra os "cubanos", a" maçonaria", "a Internacional Socialista" os os "fascistas do contenente", que de nada lhe adiantará. Espera-se é que os madeirenses percebam de uma vez por todas a situação em que ele e os seus correligionários os meteram.

terça-feira, setembro 13, 2011

Cais de Verão


Os velhos GNR voltaram com um dos temas em destaque neste Verão. Não chegaram às tabelas como as dezenas de versões da Lambada, ou as centenas de "Dançar kuduro" que proliferaram em tudo quanto era bar, discoteca ou casa de alterne. Mas alcançaram uma notoriedade discreta, com a sabedoria e o desprendimento que os anos lhes deram. A música, Cais, nem sequer é inédita: é antes um rearranjo tirada do álbum Mosquito, de 1998, incluída num disco de versões regravadas com outras sonoridades e tons, de sua graça Voos Domésticos, que chegou ao número um do top de vendas. A música inspiradora e suave, o videoclip tem uma elegância clássica, e ainda nos traz a curiosidade de ver Rui Reininho como sósia de Billy Bob Thornton.


domingo, setembro 11, 2011

10 anos do 11




Este é daqueles dias em fatalmente se pergunta "onde estavas tu no 11 de Setembro"? Acho que todos se lembrarão do contexto e do que sentiram (provavelmente a maioria olhou com inquietação para os edifícios mais altos que tinha por perto). Em todo o caso, a importância do fatídico acontecimento revela-se na identificação que se faz com o dia. Tirando as de revoluções, muito poucos cunham o nome da data em que ocorreram. O 11 de Setembro é daqueles momentos que serão recordados mais pelo que aconteceu naquele dia, com aquele espectáculo e aquela violência, em Nova Yorque, a mais marcante cidade do século XX e sede da ONU, do que pelas suas consequências. Poderia agora desatar a falar nelas, mas disso se encarregaram os media, até à exaustão. A recordação, essa, não nos sai da cabeça. Assim começou o século XXI. Esperemos que os atentados de 11 de Setembro de 2001 sejam apenas um acto inicial, e não aquele que marcará indelevelmente o século.

segunda-feira, setembro 05, 2011

Estrunfes, Smurfs e a sua utopia estalinista



A silly season deste ano justificou amplamente o nome. Fosse porque era preciso abstrair da crise, fosse porque o executivo mudou, houve discussões que circularam entre o disparate e o humor. A medida da ministra Assunção Cristas, por exemplo, de dispensar os funcionários de levar gravatas durante o verão para os ministérios que tutela, exceptuando situações mais formais, levou a uma intensa discussão sobre se a gravata estava na moda, se estaria em declínio, ou se era um símbolo fálico que anunciava uma decadente masculinidade. Aproveitando este último mote, houve mesmo uma ex-secretária de estado da "igualdade" que aproveitou a deixa para exprimir o desejo que aquelas simples orientações se traduzissem "na emergência de novas masculinidades", que seriam "fundamentais para mudar de paradigma" e para uma "nova civilização", para além das "diferenças reprodutivas e biológicas". Que alguém que ache que entre homens e mulheres não deva haver diferenças (ou que se transformem em seres hermafroditas) chegou ao governo provoca alguns arrepios. Espero que não tenha muitas seguidoras, ou veremos nova vaga de feminismo radical, e do histérico.


Um dos casos mais curiosos da estação foi a indignação, seguida de uma vaga de saudosismo, com a estreia do filme Os Smurfs. Devo dizer que partilho de ambos, ou não tivesse tido uma imensa dificuldade em escrever o nome dos duendes azuis com aquela designação anglo-saxónica, usada também no Brasil, tão longe do original, e que ao que parece se deve ao facto dos detentores dos direitos dos bonecos quererem "uniformizar" os nomes em cada língua, o que significa que em Espanha eles têm mais do que uma designação, como nos conta Ricardo Araújo Pereira . Por azar, impingiram-nos a designação que os brasileiros usam, como se já não bastasse o famigerado Acordo Ortográfico, em lugar de fazer o contrário, isto é, pôr os brasileiros a usar o nosso Estrumpfe, que ao fim e ao cabo segue o original francês Schtroumpfs. Chamemos-lhes estrunfes, já que ainda podemos usar a nossa língua.


A afronta pode-se medir pela quantidade de artigos em jornais (além do supracitado do RAP) reclamando contra a nova designação e sobretudo contra o ataque à infância de toda uma geração, que por acaso também é a minha. Confesso: ver os estrunfes de sempre serem agora apelidados de smurfs revolve-me as vísceras. Seria como mudarem-me o nome de João para Jeremias. Se alguém acha o exemplo exagerado, pode sempre imaginar os nomes de Tintin, Astérix ou Lucky Luke alterados e ver a diferença. Ou ver o cómico exemplo da Estrunfina, agora chamada...Smurfina.


Mas a polémica desta nova versão é apenas mais uma num ano atribulado para as criaturas azuis. Não sei se por coincidência ou por estranho golpe publicitário em ano de filme, em Junho surgiu um pitoresco estudo de um ensaísta francês, de seu nome Antoine Buéno,que concluía que os bonecos azuis representavam uma "utopia estalinista e totalitária", além de exprimirem "anti-semitismo". Tudo porque "cada um se veste da mesma maneira, tem uma casa igual à do seu vizinho, e exerce a profissão mais adequada às suas habilidades, não sendo conhecidos pelo seu nome mas sim pela sua função na sociedade. Eis o velho jargão de Marx "de cada um as suas capacidades..." usado para caracterizar a aldeia dos estrunfes, juntamente com a homogenia arquitectónica e das vestes. Sempre pensei que as casas-cogumelos fossem um delicioso pormenor da série, mas afinal há quem pense que não. Assim como seria complicado desenhar as criaturas de forma diferente (é verdade que eles nem se distinguem), mas apanhar nomes para cada um deles seria tarefa complicada e desnecessária. A única coisa que noto vagamente aparentado com o marxismo é algum utilitarismo.

Outras comparações que o estudioso faz é a do Grande Estrunfe (com as suas barbas e o seu barrete vermelho) com Estaline, ou a dos Estrunfe dos Óculos com Trotsky. Aqui, a pressa é visível: o Grande Estrunfe é tudo menos um tirano, apesar da sua autoridade e dos seus poderes alquímicos, e o dos Óculos está longe de ser um opositor, sendo antes um seguidor até ao limite do primeiro da aldeia, seguindo à risca (e de forma particularmente graxista) as suas ordens. A ausência de propriedade e de iniciativa privada, bem como de "mercados", é outra coisa que não faz espécie à maior parte dos mortais, mas alguém se lembrou disso, como se os autores não tivessem mais nada que fazer.

As acusações de anti-semitismo são mais compreensíveis. O inimigo mortal dos estrunfes, Gargamel (na antiga versão, Gasganete), tem nome e fisionomia judias, com o típico nariz adunco, e o seu malvado gato chama-se Azrael. Poderiam ser reminiscências sub-conscientes do anti-semitismo que atravessou a Europa até aos anos quarenta? É possível. Hergé também sofreu acusações semelhantes. Mas nunca, na minha infância, ao ver os seus desenhos animados e os álbuns dos estrunfes, essa ideia se me introduziu no espírito. Já as acusações de racismo e colonialismo por causa do álbum Os Estrunfes Negros é mais palha para alimentar a discussão do que outra razão qualquer. Numa história centrada numa epidemia com elementos vampíricos (ou da mosca tsé-tsé), teria o mesmo impacto se se tornassem brancos? Ou vermelhos? A juntar a isso, a pobre da Estrunfina leva por tabela, por ser loura, ou seja um modelo "ariano". Em criaturas azuis, convenhamos que louro sobressai mais. Uma estrunfina morena jamais teria semelhante impacto.



O filho de Peyo, o criador belga dos bonecos, já veio desdramatizar a polémica. Ao que parece, o pai nunca esteve ligado à política, nem demonstrou grande interesse. Mas os editores com quem trabalhava, em especial o co-autor Yvan Delporte, tinham algumas simpatias anarquistas, que como se sabe nunca se deram bem com a disciplina estalinista (vide a Guerra de Espanha). Em todo o caso, o livro colheu alguma polémica, que poderá até ser um veículo para o filme. Mas pensar que os estrunfes seguiam aquele modelo de sociedade e que Peyo tinha secretas intenções de construir na BD a sua utopia colectivista e totalitária já parece demasiado rebuscado. Lembra aquelas desconfianças em relação a Vasco Granja, de que ele estaria a doutrinar as criancinhas com os seus bonecos do Leste. Bom seria retirar essa hipotética (e absurda) carga ideológica e as teorias da conspiração que se levantaram e considerá-los os bonecos divertidos e desastrados que sempre foram. Se quiserem, atribuam-nas aos "smurfs". Mas nunca aos estrunfes.

terça-feira, agosto 30, 2011

O início da nova Líbia


De súbito, o regime verde da Líbia caiu como um castelo de cartas. Seis meses de guerra civil, que começou com a revolta a partir de Bengazi, prometendo sucesso rápido, seguida da resposta das forças do regime, que quase aniquilaram os rebeldes, não fosse a intervenção da NATO e a destruição do armamento pesado das tropas leais a Kadhafi. Depois, tímidos avanços dos revoltosos, de tal forma que a Líbia deixou as primeiras páginas e em breve quase nem se falava do conflito que minava a antiga colónia italiana. Até que de súbito os rebeldes fizeram notáveis avanços. Aproveitando o enfraquecimento das forças do regime e seus mercenários, minadas pelos ataques cirúrgicos vindos do ar, abriram caminho e entraram em Trípoli. O cenário verificado em Fevereiro cumpriu-se, enfim. Por terra, com o auxílio dos apelos do clero islâmico, e também por mar, em que forças vindas de outras cidades completaram o cerco, provavelmente com auxílio de meios navais da NATO. Embora houvesse alguma resistência, os pontos fulcrais, como os meios de difusão, foram prontamente tomados. Quando o aeroporto e o complexo de habitação de Kadhafi ainda resistiam, a Praça Verde, local simbólico onde o regime verde organizava as suas "manifestações" de apoio, era ocupada pelos rebeldes. Depois disso, percebia-se que o regime tinha caído. Era, e é, só uma questão de dias.

Quando apenas Sirte ergue a bandeira verde, pergunta-se onde estará Kadhafi e seus filhos, subitamente evaporados. A hipótese mais provável é que esteja acantonado em parte incerta. Duvido que tenha fugido para o estrangeiro - para o feudo do amigo Mugabe, por exemplo, ou para a Venezuela - e será mais provável que esteja em Sirte ou noutro ponto da Líbia. Ver-se-à agora se resistirá até ao fim, como prometeu, e perecerá em combate, ou se fugirá para um estado "amigo", juntamente com a sua família. Os milhões do petróleo que acumulou durante quarenta anos devem ser suficientes.

E a nova Líbia? Até agora, tem-se conseguido razoavelmente evitar pilhagens e vinganças. Com ajuda internacional e o descongelamento de contas avultadas, o país tem recursos para se reerguer. Resta conseguir formar um novo sistema político, obter acordos e consensos entre tribos, reconciliar Tripoli com Bengazi unir o país. Depois de décadas de regime "verde" personificado no coronel, será uma tarefa difícil. Mas é possível, com a representação dos vários grupos e tribos nas decisões do país. E já que se restaurou a antiga bandeira dos Senussis, porque não restaurar a monarquia dos mesmos? Tivesse Kadhafi falhado o golpe de 1969, e quem sabe o que seria a Líbia de hoje? A solução para a união da país pode e deve passar pelo regresso da dinastia e dos reis que lhe deram a independência.







Por razões de reestruturação daquele blogue, e também pela participação cada vez mais escassa(que também se repercute aqui), deixei a minha colaboração com o Estado Sentido. Como é óbvio, continuarei a acompanhá-lo, desejando-lhe as maiores felicidades e que mantenha a qualidade a que habituou os seus leitores, não deixando de fazer-lhe devidas as ligações quando julgar necessário. A partir de agora, escreverei apenas neste espaço.

terça-feira, agosto 23, 2011

Os bravos sub-20


Fui dos que pouco liguei no início. Depois, vi parte do fraquíssimo jogo com o Guatemala e temi o pior no confronto com a Argentina. Aí, teve lugar uma emocionante disputa de penaltys em que da desvantagem de dois se chegou ao triunfo sobre as Pampas. Não vi as meias contra a França, nossa velha bête noir nestas coisas, mas finalmente levámos a melhor e chegamos à final. Não quis do destino nem as forças físicas que imitássemos 1989 e 1991, mas esta Selecção de sub-20, pela qual poucos davam alguma coisa, portou-se à altura de um campeão e provavelmente merecia mais. O jogo contra o Brasil podia ter sido ganho, mas algumas falhas e o esgotamento visível nos jogadores levou ao desfecho a favor dos brasileiros. Mas as palmas que receberam à chegada a Portugal são totalmente merecidas. Agora espero que os seus clubes olhem mais para eles e que os aproveitem devidamente, ainda que com algumas rodagens pelo meio. Acima de tudo, espero que o Benfica aproveite Nélson Oliveira (cuidado, Cardozo) e Mika já este ano e não se esqueça de Roderick e Luís Martins, para que não sigam o caminho de Danilo ou Mário Rui. Fica o grande consolo de que afinal de contas o futuro da Selecção Nacional pós-Cristiano Ronaldo pode estar assegurado.

sábado, agosto 20, 2011

Let´s all meet up at the year 2011




Em meados dos anos noventa, a Britpop tomou o Mundo (ou melhor, o Reino unido, mas os autóctones confundem as duas coisas) de assalto. Entre a working class dos Oasis e a upper-middle-class do Blur, formou-se uma terceira via - numa altura em que o conceito era muito popular e levaria Blair ao poder - constituído pelos Pulp, que representavam a middle class. Embora mais antigos que os outros, os Pulp, liderados pelo desengonçado Jarvis Cocker, pouca visibilidade tinham no panorama musical, até 1994, e sobretudo, 1995/96, quando chegaram ao primeiro lugar dos tops britânicos com o seu Different Class. Desilusões amorosas de juventude, fantasias impossíveis de concretizar e aspirações de classe média, inseridas em hinos pop e seus telediscos retro como Common People e Disco 2000 (provavelmente uma das melhores canções pop de sempre) deram-lhes popularidade e fama naquela onda musical que varreu o Reino Unido. Pelo meio, Jarvis cocker aproveitou para deixar Michael Jackson malvisto em público. Depois, This is Hardcore, um álbum mais difícil, mas digno de ser descoberto (o tema título tem também um excelente videoclip e poderia ser uma banda sonora de um film noir) arrefeceu um pouco a ascensão comercial. Entrou o novo século como We Love Life, e pouco tempo depois a banda separou-se, tendo Cocker iniciado uma carreira a solo.


Mas estamos em época de reuniões de antigos grupos e de regressos esperados. Por isso, também os Pulp voltaram ao terreno este ano e mostraram-se ao público. Felizmente, quiseram fazê-lo também em Portugal, para mais em Agosto e em Paredes de Coura, não longe de onde me encontro habitualmente nesta altura. Reapareceram assim em todo o seu esplendor, no palco ao fundo do anfiteatro natural que desce até ao rio Coura (essa massa fluvial que inspira festivais de Verão, como o sabem os veteranos de Vilar de Mouros), entre algum psicadelismo luminoso e mensagens de boas-vindas. Jarvis Cocker tem mais cabelo e barba, mas agora não tira os óculos de massa por nada e conserva os mesmos gestos de dança de uma sensualidade desengonçada de desenho animado. As músicas que lhes conhecíamos desfiaram pela noite fora - é emocionante ouvir os primeiros riffs de Disco 2000 ao vivo. E quem se deu ao trabalho de ir ao Alto Minho interior não deu o tempo por perdido. O bom gosto acabar sempre por imperar. Long Life aos Pulp!

domingo, agosto 14, 2011

Razões para a barbárie


Mais de uma semana depois de começarem os motins em Londres, que se estenderam a toda a Inglaterra, limpam-se os cacos e contabilizam-se os estragos (e os mortos, que infelizmente também os houve). E fazem-se as normais dissecações da coisa: os "excluídos", a "violência policial", a "brandura policial", o "protesto dos marginais", os "cortes do governo", o "multiculturalismo", "o Cameron que estava de férias", etc.
 
Antes de mais, seria bom abandonar aquela ideia proto-marxista de ver nas causas de tudo razões meramente económicas. Quem tiver boa memória dos motins em França em finais de 2005 (despoletados por razões análogas), recordará que na altura se atirou muito as culpas para o "modelo social francês" e os seus subsídios. Uma inteligência brasileira qualquer disse que as "favelas" em França ardiam porque a França não tinha um modelo "liberal". Agora, vem a desforra, a culpar-se o "modelo neoliberal britânico". Nem um nem outro me parecem ser a razão principal, embora possam apresentar indícios de. É mais uma querela estéril entre defensores de modelos económicos diferentes, incapazes de ver mais além dos números.

O problema é, acima de todos os outros, ético, moral e civilizacional. Os motins são a expressão de um sentimento de ganância e materialismo feroz, combinados com uma nefasta sensação de impunidade. Não apenas nas ruas: é transversal à sociedade. Vai desde os usurários, financeiros sem rosto economistas de casino, suportados em abstractas bolhas económicas, a toda esta gangada niilista. Todos roubam com o sentimento de que não serão punidos.



Entre todos os artigos que encontrei, Miguel Sousa Tavares disse no Expresso uma coisa que me parece acertadíssima: que os bárbaros que semearam o pânico e a destruição na Albion são "meninos" aos quais falta não segurança social nem bens materiais, mas sim pais que os eduquem, e que "acham um desafio fantástico destruir o que têm e o que devem a outros". A ideia de que se tem direito a tudo sem os respectivos deveres, seja de que forma for, mina os alicerces de qualquer sociedade fundada no Direito, na justiça e na (legítima) propriedade privada. Fora isso, temos o caos, tão "justificado" pelos imbecis que desculpam sempre e sempre os criminosos, fazendo recair as culpas em terceiros. E mais uma vez, tal como fiz com o assassino em massa norueguês, gostava de saber como é que os pais educaram estes filhos. Bem sei que por vezes há coisas que escapam à educação, para vergonha e desgosto de tantos progenitores que se esforçaram por ensinar e educar o melhor que sabiam e podiam. Mas parece-me estranho que uma massa descontrolada, violenta e entusiasmada em fazer arder carros e assaltar lojas de tudo e mais alguma coisa (menos produtos de primeira necessidade e livros, que bens supérfluos era coisa em que não havia tempo para levar), tenha recebido toda uma educação exemplar - e por educação falo em valores, normas de comportamento e sociabilidade, etc, não mera instrução, e que tornaram célebre a Grã-Bretanha. Infelizmente, tudo isso parece estar ultrapassado, em nome do respeito cego ao "outro", e desta pós-modernidade asséptica.

Por isso, esqueçam lá a ladainha dos "excluídos", ou do desemprego juvenil (quando grande parte destes delinquentes nem idade têm para trabalhar). Os tais clubes juvenis que fecharam são importantes, mas há muito quem sobreviva sem eles. Dêem antes de mais educação às novas gerações. De contrário, teremos bárbaros a fazer o que muito bem lhes apetece, e que provocarão guerras devastadoras, já que a barbárie só se trava com força. Aí, talvez se recordem que os bárbaros fizeram cair Roma e a sua civilização.


PS: e talvez seja igualmente importante lembrar que os modelos anglo-saxónicos não são todos exemplares. Se não estivessem ocupados com problemas de outra ordem, o franceses deviam estar a gozar que nem uns perdidos, pensando no que deles disseram em 2005 do outro lado da Mancha e do Atlântico.

terça-feira, agosto 09, 2011

Benfica 2011/12


O Benfica da época 2011/12 continua a deixar-me sentimentos ambíguos e confusos. Parece-me que está claramente a melhorar, e que há mais soluções, mas continuo a desconfiar de tanta contratação e a desanimar com tão escasso número de portugueses, em tempos que já lá vão ponto de honra do clube.

A saída de Coentrão seria de evitar há uns meses, mas com tanto assédio e com a cabeça do rapaz das Caxinas em Madrid, a ida para os merengues em troca de 30 milhões de Euros não é nada má. Já a saída de Moreira é de torcer o nariz; de Nuno Gomes já falei, e vamos a ver se Carlos Martins fica ou se procura trabalho na Moscóvia. De resto, houve uma limpeza da comunidade brasileira mais ociosa que me parece satisfatória. Mas o idioma luso tem agora de rivalizar com o castelhano. Bem sei que os tempos são diferentes e que é quase impossível conservar uma equipa de qualidade só com portugueses, mas que Diabo, há limites! não se podia apostar um pouco mais na formação? É que as políticas contratuais actuais (não só do Benfica, entenda-se) vão-se repercutir, cedo ou tarde, na Selecção Nacional...

O entrosamento não se compra, vai-se fazendo com paciência. O Benfica deste ano terá de tê-la em abundância. Entretanto, despachou-se Roberto com um negócio duvidoso (eu preferia o empréstimo), mas resolveu-se o problema com um seguro Artur e um Eduardo que quer manter o seu lugar na baliza nacional, o que dada a concorrência, não será fácil. Temos também um jovem Mika, cuja qualidade desconheço. Gostaria de saber onde vão jogar Júlio César e Oblak.

Na defesa, a melhor notícia é a permanência de Luisão. Garay parece ser uma das boas contratações da época, e Jardel e Miguel Vítor são bons suplentes. Mas a saída de Coentrão parece complicada de colmatar. Capdevilla, campeão mundial no ano passado, parece ser uma excelente solução (aliás, surpreendeu-me muito), pelo menos enquanto a concorrência está verde, mas ignora-se qual a forma física actual do internacional espanhol. Mas interrogo-me se seria mesmo preciso trazer emerso, quando havia Carole e César Peixoto.

Depois, o povoado meio-campo. Outro jogador cuja vinda parece supérflua: Bruno César. Encosta Carlos Martins ao banco e precisará de tempo para adquirir rotinas. É muito promissor bem sei, mas não impede que tenha as minhas dúvidas. Outro que precisa de se ambientar e de ganhar ritmo é Enzo Perez. O seu antecessor, Salvio, também precisou, e se o reforço atingir o mesmo nível, é aposta ganha.

Como que a demonstrar que os reforços europeus precisam de menos tempo do que os sul-americanos para se integrarem e compreender o jogo, Witsel chegou, viu, e aparentemente venceu. Nolito também, e com três golos em outros tantos jogos, já é um ídolo dos adeptos. Com a manutenção de Gaitan, Saviola, Jara e do mágico Aimar, mais o regresso de Urreta (enfim!), a coisa está mais do que composta na construção de jogo e nas alas. Resta portanto o imbróglio Cardozo, que parece estar insatisfeito. O Besiktas acena com uns milhões e Hugo Almeida, mas tendo em conta a média de golos do internacional português, a troca seria certamente desfavorável para o Benfica. Nelson Oliveira e Rodrigo ainda são verdes para agarrar o lugar.

Fiquei com razoável/boa impressão nos jogos com o Trabzonspor, salvo na finalização, onde surge de novo o problema do ponta de lança. A equipa do Ponto ficou em segundo lugar, ex aqueo com o primeiro, no seu campeonato, e reforçou-se significativamente, recordemos. A única coisa que tive realmente pena foi não poder ir ver lá o Benfica, já que aquela região do Mar Negro e do antigo Império de Trebizonda era um dos meus motivos de interesse de viagem...


Contra os gunners, na Taça Eusébio, deu para ver que a equipa, com os seus titulares habituais, é fiável e até marca golos. Mas a construção continua a ser bastante superior à concretização. Confirma-se que é matéria a rever. Para já só se têm como certezas que as melhores contratações até ao momento foram Garay, Nolito e Witsel.


Veremos daqui a dias, em Barcelos, como correm as coisas.

PS: para começar, Barcelos desiludiu. Recordou-me a Póvoa do Varzim, ali perto, há dez anos, com um marcador exactamente igual, só que na altura reduzidos a nove. Falhar golos de baliza aberta dá nisto (e aquele Laionel deve entusiasmar-se à brava em jogos contra o Benfica).

quinta-feira, agosto 04, 2011

A ascensão de Seguro


Com as minhas falhas actuais, ainda nem tinha comentado a nova liderança do PS. Aliás, com os acontecimentos na Noruega, a crise económica, etc, parece que ficou para segundo plano.


Mas sim, o Partido Socialista tem um novo líder, depois da era de José Sócrates, que coincidiu quase na totalidade com o domínio do executivo. A luta entre Francisco Assis e António José Seguro prometia no início, com a não candidatura de António Costa. Mas o antigo líder da JS tinha o aparelho socialista nas mãos. Há muito aliás, que Seguro parecia conhecer os meandros do partido e as suas estruturas, como o seu ar pouco expectante e tranquilo fazia supor. Assis reuniu à sua volta algumas figuras de relevo e as distritais do Porto e de Lisboa, mas nem assim logrou aproximar-se do seu adversário. O prestígio angariado como líder parlamentar e a sua postura respeitável não só foram insuficientes como pareceram mesmo ser um obstáculo na corrida à liderança. Quando Assis resolveu pegar no assunto do clientelismo partidário e lançá-lo na praça pública, afirmando que o PS tinha-o em demasia e que dele precisava de se libertar, o tiro de canhão saiu pela culatra directamente para o pé. Dizer alto e bom som que um partido que depende do poder e de um sem fim de prebendas e de clientelas que se deve livrar deles é obviamente uma táctica suicida. Só mesmo por desespero de causa é que um político experiente como Assis pode tê-lo feito. Se as coisas não lhe estavam a correr bem, com essa atitude entregou o partido a Seguro.



Com a coincidência, recordada por todos os jornais e revistas, de que os dois maiores partidos têm agora à frente antigos líderes das respectivas jotas, para mais coincidentes no tempo, parece que a geração que era adolescente ou criança no 25 de Abril tomou enfim conta dos destinos do país. Não sei se é bom ou mau. Tenho as minhas esperanças, mas já não fico tão optimista quando vejo pessoas que cresceram chefiando um grupo de políticos juvenis mais preocupados (já nesse tempo) com eventuais cargos do que com combates ideológicos à frente dos destinos nacionais ou respectivas oposições.



Seguro deu uma razoável imagem de elemento contra a corrente neste período em que o PS era poder e o socratismo imperava. Vê-se agora que era sobretudo uma estratégica paciente mas eficaz de alcançar a liderança do PS, recolhendo os cacos deixados a 5 de Junho, que ele sabia que forçosamente teriam de ser apanhados. As frases que pronunciou com a maior cara de pau, declarando (numa declaração semi-oficial) estar aos dispor do que o partido precisasse, mal Sócrates anunciou a retirada, revelaram cristalinamente as suas intenções. Seguro estava morto por apanhar a liderança, e preparou-se bem para o efeito. Arrisca-se é a ficar demasiado tempo na oposição e a ser imolado em futuras eleições, ainda que as autárquicas de 2013 lhe possam correr bem. Mas se ganhou o aparelho partidário, a ausência de carisma e de currículo fora do partido e alguma desconfiança do público pela avidez do rapaz de Penamacor serão obstáculos difíceis de ultrapassar. A não ser que o poder um dia lhe caia no regaço, coisa que não é assim tão raro acontecer (Sócrates, Durão e Santana sabem-no bem).


E agora, poder-se-à falar no "segurismo"? O soarismo está quase acabado, o gamismo extinguiu-se há muito, o guterrismo é coisa rara, e boa parte dos seus adeptos desertaram para o socratismo. "Assismo" é coisa que não parece existir. Parece, no entanto, que o sampaismo ainda mexe, transmutado no ferrismo. Uma corrente de migrantes do antigo MES que desaguou no PS e formou uma corrente mais à esquerda, primeiro com Jorge Sampaio e depois com Ferro Rodrigues (embora Manuel Alegre não se insira nesse grupo). Disse-se que Assis era a continuidade de Sócrates, numa linha mais pragmática e menos ideológica. Tenho as minhas dúvidas, embora o encaixe nalgum guterrismo não declarado. Já Seguro, sinceramente, não o consigo rotular. Nalgum socratismo de discurso mais ponderado e suave? Decididamente, o PS é um partido complicado e dividido em inúmeras franjas. Ao menos já houve um resultado prático: os debates no Parlamento estão muito menos crispados do que no tempo de Sócrates, e os pequenos desafios ad hominem deram lugar a mais discussão política. Valha-nos isso.

sexta-feira, julho 29, 2011

Auto-destruição anunciada




A morte de Amy Winhouse surpreende à primeira, mas apesar da "bomba", é perceptível após a surpresa inicial. A cantora já vinha num longo processo de auto-destruição há muito tempo (lembram-se do fiasco no Rock in Rio de Lisboa, há três anos?). O seu desaparecimento é de certa forma um corolário lógico, indiciado pelas tristes figuras, pelas passagens pelas clínicas e pelos apelos da família para que a deixassem. Nunca fui grande fã de Amy nem dos seus despropósitos, mas não posso deixar de sentir piedade por ela. É o caso, já clássico, da incapacidade de fazer conviver o talento (e a voz) com a fama e o sucesso mediático. Amy pagou caro. Mas de certa forma, premonitoriamente, ela recusou o afastamento dos vícios e do caminho para a ruína, quando na sua canção mais conhecida dizia não à reabilitação. Paz à sua Alma, já que em vida teve pouca.

A falta que um pai faz







Um pormenor que me chamou a atenção no caso do duplo atentado mortífero na Noruega: um dos entrevistados foi o pai de Anders Breivik, o terrorista do momento. Ao que parece, o senhor, um diplomata na reforma a viver no Sul de França, separou-se da mãe do autor dos atentados quando ele tinha um ano e não tem contacto com ele há 15. Diz-se agora "absolutamente chocado" e espera que o filho "se suicide".



Mas já que ele aprova o suicídio, talvez estivesse na altura de comprar cianeto, uma corda resistente ou um par de balas. É que um pai que corta o contacto com um adolescente quando este tem dezassete anos tem no mínimo as suas responsabilidades. Sabe-se que os nórdicos têm uma visão dos laços familiares bem diferente da que temos no Sul da Europa. Se a emancipação precoce é largamente fomentada, também a quebra de relações familiares se tornou regra. Não só se pretende que os jovens se "façam à vida" muito novos, como ao que parece, devem cortar definitivamente com as origens. Um caso na minha família, através de um casamento, demonstrou-me como o afastamento das raízes familiares pode ser perverso e doloroso. É dos tais casos em que os sistemas nórdicos nada têm de "civilizados" ou "superiores". O corte e o enfraquecimento das relações familiares representa antes decadência, individualismo extremo, e talvez explique em parte a alta taxa de suicídios na região. A referência paterna, o apoio familiar em ocasiões de crise, a inculcação de valores de pais para filhos é vital para qualquer desenvolvimento são. E nenhum pai que se preze corta simplesmente os contactos com um filho de dezassete anos. Para mais, não parece padecer de problemas económicos. Ao que parece, o progenitor "biológico" não pensou nem pensa nisso. Já que os noruegueses estão em reflexão, recuperando do choque, talvez fosse uma boa ocasião para pensar se não terão falhado no espezinhamento dos seus valores familiares.

quarta-feira, julho 27, 2011

Em que ficheiro está arquivado o Mal?


As notícias bombásticas têm ainda mais impacto quando são recebidas num contexto absolutamente diferente, sem meios de comunicação em redor, por simples aviso. Assim, sem tempo para ver as notícias dos jornais e sem ir à net ou ver televisão, tive conhecimento dos atentados na Noruega ao mesmo tempo, no dia do massacre perpetrado pelo inquietante assassino.


Discute-se as razões, a ideologia, as motivações, o manifesto político anti-marxista, etc. Discute-se demais, mas a inquietação e os números da matança a isso justificam. Mas são tantas as informações ou desinformações que a confusão se torna ainda maior. Fundamentalista cristão (mas sem motivos estritamente religiosos, nem ligações fortes a qualquer igreja), maçon (de que loja?), "neo-templário", inimigo do multiculturalismo, do marxismo, do Islamismo crescente, de extrema-direita...os epítetos são tantos que a principal preocupação é mesmo arrumá-lo num grupo ideológico definido. Desgraçadamente, é quase impossível. São demasiadas coisas e o seu contrário para o podermos enquadrar num grupo "tradicional". A enorme preocupação é essa: saber de onde vem o Mal o perigo, sabermos quem é o inimigo. Mas tal como o próprio Mundo, completamente fragmentado e confuso, a sua origem é ambígua e misteriosa, sem uma conotação precisa. Não, não temos um 3º Reich, uma URSS nem sequer uma Al-Qaeda para identificar o ovo da serpente. O Mal a enfrentar pode ser personificado em Anders Breivick, mas está bem longe de poder ser arrumado numa arquivo com etiqueta. Seria tão mais fácil de enfrentar...e se ele não tivesse partido de dentro.



PS: aparentemente, para os maníacos do ateísmo, a culpa está toda na religião e em particular no cristianismo, muito embora o responsável pelos crimes não só não invoque fundamentos religiosos, passagens da Bíblia ou qualquer igreja cristã, e até teça comentários pouco simpáticos para com estas, como apela mesmo a que agnósticos, "humanistas seculares" e ateus de "cultura cristã" se juntem à sua luta. As coisas nem sempre são o que parecem ao primeiro grito.

segunda-feira, julho 18, 2011

As agências nunca se enganam e raramente têm dúvidas.



A última classificação da agência de notação Moody´s da dívida portuguesa pôs finalmente toda a classe política e a sociedade em quase unanimidade contra tal passo, traiçoeiro e de fraca credibilidade. Mesmo as instituições europeias concordaram, falando agora na urgência na criação de uma "agência de notação europeia independente" (mas é a UE que cria?). Escrevi "quase unanimidade" porque alguns zelotas do liberalismo económico destoaram. Não, para eles a classificação da Moody ´s é justíssima e isenta, nada tem de parcial, e apenas reflecte a dificuldade do país em cumprir os seus compromissos, por mais que se esforce. Ou seja, as agências de notação são absolutamente honestas e objectivas e não têm segundas intenções políticas. a fora como se diz isto, e a total crença no auto-regulação e na mão invisível parece-me cada vez mais panglossiana: tudo corre no melhor dos mundos, e as coisas passar-se-iam sempre obrigatoriamente assim. O fado dos mercados que não se enganam não muda. Os ultra-liberais, em termos de fidelidade ideológica, acabam por estar próximos dos comunistas, na barricado inversa, lembrando também uma igreja evangélica. O Mundo pode cair, mas os mercados terão sempre razão e quem os classifica também. A cataláxia não falha. Os mercados são grandes, e os austríacos os seus profetas.



sexta-feira, julho 15, 2011

Que apareçam outras como ela



Às voltas pelo Nordeste Trasmontano, só no dia seguinte é que soube da morte de Maria José Nogueira Pinto. impressionado, diga-se. Na véspera, lembrei-me que a tinha visto semanas antes num debate de opinião, na televisão, e tinha-a a achado com um ar muito estranho. Confirmaram-se os piores receios, e Nogueira Pinto sucumbiu a um cancro no pâncreas.





Devo ter ouvido falar dela pela primeira vez aquando do célebre caso da pala de Alvalade, quando era sub-Secretária de Estado da Cultura, em que depois de ter interditado o estádio do Sporting para concertos musicais, numa altura em que eram aí frequentes, viu-se desautorizada pelo então Secretário de Estado, Santana Lopes que poucos dias depois fazia um acordo com Sousa Cintra revogando a interdição. Não esteve com meias medidas e bateu com a porta.


O episódio mostra o carácter de uma mulher que muitas vezes se incompatibilizou na política. Conhecia ao de leve o seu percurso de vida, a casa de família do Campo Grande, onde nasceu (e morreu), o seu casamento, ainda muito nova, com Jaime Nogueira Pinto, a ida de ambos para África, as fugas à guerra, a vida no campo de refugiados sul-africano, que cimentou essa relação que duraria até ao fim, e que pôde ser revisitada numa entrevista que ambos deram em Outubro, à revista Pública. Depois, o serviço público, executado com competência e dinamismo, no Instituto Português de Cinema, na Maternidade Alfredo da Costa e na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, e, claro, na Secretaria de Estado da Cultura. Depois, a aventura política, como deputada pelo CDs a convite de Manuel Monteiro, a candidatura à liderança do partido, que perdeu para Paulo Portas, num congresso em que teve o apoio dos monteiristas e em que protagonizou algumas tiradas inesquecíveis (a da "Rato Mickey" e "eu sei que ele sabe que eu sei que ele sabe que eu sei"). O regresso à política, candidatando-se à câmara de Lisboa, onde seria eleita vereadora, e a posterior ruptura com o partido, com o regresso de Portas, e o regresso ao Parlamento pela mão da Manuela Ferreira Leite marcaram a carreira política.



Muitas vezes a sua petulância irritava. Muitas vezes discordei dela. Às vezes achei que exagerava, mas ao mesmo tempo achava-lhe graça, caso típico da sessão em que não hesitou em considerar um deputado que a azucrinava como "um palhaço". Mas era uma mulher corajosa, original, activa, imaginativa, e fiel aos seus princípios (e porque não dizê-lo, uma mulher bonita). A sua morte foi legitimamente sentida, à esquerda e à direita, excepto por meia dúzia de micróbios que vagueiam nos fóruns. O último testemunho da sua vida, no DN, em que demonstrava a confiança de sempre no Salvador, comoveu. Deixa uma extensa família e o homem com quem partilhou quase toda a vida. Que descanse em paz. Embora faça muita falta, o seu exemplo prevalecerá e inspirará outras como ela.


PS. uma semana terrível, realmente; desapareceram igualmente Jorge Lima Barreto, com 61 anos, e Diogo Vasconcelos, de apenas 43, um grande empreendedor e optimista convicto, e que foi o primeira presidente a associação de estudantes da faculdade onde me formei - como nenhum jornal referiu isto, quis lembrá-lo eu.