segunda-feira, outubro 17, 2011

Coisas que realmente indignam



Olho as imagens dos "indignados". São exactamente as que esperava: uma mescla de militantes do PCP (alguns deles com boinas que passaram seguramente pelo PREC) com o discurso na ponta da língua, uma data de gente com fisionomia de votantes do BE (piercings, tranças, roupas de saltimbancos, etc), e os habituais anarcas dos nossos dias, de bandeira negra e capuz. Pelo meio, algumas pessoas com ar normal, provavelmente funcionários públicos ainda atónitos pelas contas que têm de fazer.


Percebo que haja muita gente preocupada com o seu futuro e os seus empregos - eu também estou. Que haja funcionário públicos inquietos é óbvio. E percebo igualmente que as crises tragam a necessidade de alguma catarse. As manifestações podem servir para isso.


O que eu não admito é que venha um punhado de gente aparentando fobia à higiene falar em "democracias reais", organizar "assembleias populares" e dizer que representa "99% do povo". Mas quem é que deu àqueles aprendizes de artistas de circo legitimidade para representar o povo português? Eu não sou, não quero nem me sinto minimamente representado por aquela gente. Sim, isso a mim indigna-me. Já agora, por onde andavam eles quando as taxas de juro eram baixas e se consumia a crédito a torto e a direito? Julgarão eles que a culpa se resume apenas aos bancos e ao sistema financeiro? Pergunto-me que drogas circularão por ali quando vejo gente a falar num "novo 25 de Abril", como se este regime não fosse produto do original, ou numa "revolução mundial" (em Pequim também?). A representação popular está dentro do edifício que cerca, o palácio de S. Bento, e para os colocar lá houve eleições em Junho. Os partidos que apoiam estes "indignados" tiveram no total pouco mais de 15% dos votos. Agora querem ganhar na rua o que não ganharam nas urnas, falando em "maioria social" (ou seja, a maioria dos que andam nestas marchas). Acharão que os restantes eleitores, aqueles que fizeram outras escolhas e não se abstiveram, não se indignarão?

Entretanto, aparece um mancebo de grandes tranças, roupas largas e coçadas, tocando viola e "sonhando com outro futuro". Inquiro-me se aquele indivíduo trabalhará, se andará á procura de trabalho e se se atreverá a ir a alguma entrevista de emprego naqueles modos.

Depois, vemos as televisões a falar do "protesto global popular", e quando passam por Roma, vêem-se os habituais agentes do Black Block a incendiar carros, prédios, até a vandalizar uma igreja do século XVII. Encapuzados de cara escondida, como de costume. São referidos pelos locutores como "alguns jovens que protestaram de forma mais violenta". Porque raio não chamam os bois pelos nomes? De selvagens, membros da extrema-esquerda do submundo, ou mais precisamente, anarquistas? Ou terá a comunicação social medo de lhes chamar o que realmente são? Isto sim, é de deixar uma pessoa indignada.

segunda-feira, outubro 10, 2011

Pequena leitura das eleições madeirenses


Afinal as sondagens não eram produto de nenhuma conspiração do continente, da Internacional Socialista ou do que quer que fosse: o PSD Madeira obteve o seu pior resultado de sempre em eleições regionais, abaixo dos 50%, e conseguiu à risca a maioria absoluta na assembleia regional. A descoberta da tramóia das contas públicas tirou inevitavelmente votos ao PSD. A partir de agora, com a obrigatoriedade de se fazer um plano de austeridade severo, e sem verba para os inúmeros subsídios e obras a torto e a direito, será bem mais complicado governar o arquipélago. Pode-se dizer que é o início do fim do jardinismo: há quem aposte que Jardim não ficará até ao fim do mandato, e mesmo o discurso de vitória, de pólo, a ler uma folha escrita sobre o joelho, sem óculos, e pleno de acusações delirantes aos "socialistas do Ministério das Finanças" e ao "capitalismo selvagem", parece ser uma prova de resignação.



Mas houve mais derrotados: note-se que o PS conseguiu perder votos na maior derrota do jardinismo, o que demonstra bem a fraqueza de uma campanha sem a menor chama, em que se viu o candidato socialista a desejar absurdamente que houvesse maioria absoluta no parlamento regional, deixando todos a pensar o que quereria o PS deste acto eleitoral. A declaração oficial do partido em Lisboa deu-se numa sala em que até se ouvia o eco das palavras do anónimo porta-voz, o que diz tudo sobre a importância que o partido deu às eleições. Mereceu a despromoção a terceiro lugar. Seguro que se cuide.


O CDS aproveitou bem as fraquezas e teve um fantástico resultado, passando a liderar a oposição madeirense. Uma campanha mais vincada e um líder que, talvez por ser deputado na AR, já tem alguma notoriedade, levaram ao salto para o segundo lugar e a quadruplicar o número de deputados. O partido liderado por Paulo Portas tem tido um ano em grande: cresceu nas legislativas, voltou a fazer parte de um governo nacional e passou a segunda força política na Madeira.


Em sentido oposto está a esquerda mais radical. A CDU perde um deputado e cai para o quinto lugar. O Bloco de Esquerda continua o descalabro iniciado nas legislativas, e desta vez de forma humilhante: conseguiu ser o único partido concorrente a estas eleições a não eleger um único deputado e quedou-se no último lugar. Convirá recordar que em tempos que já lá vão, a UDP, um dos movimentos que formou o BE, era uma força interventiva que conseguia sempre lugares na assembleia regional. Longe, muito longe vão essas eras.


Os votos que esvaziaram o BE e a restante esquerda foram directamente aproveitados por outros partidos. José Manuel coelho não repetiu a incrível votação das presidenciais, mas ainda assim a sua notoriedade desbragada serviu para conquistar três lugares e quase 7% para o minúsculo Partido Trabalhista. Ficou a perder a Nova Democracia, que se mantivesse Coelho teria tido uma votação de respeito. Ainda assim, manteve o lugar e cresceu em votos, graças às suas acções, mais de sabotagem dos símbolos jardinistas do que de campanha própria. O Partido da Terra, de Quartin Graça e João Isidoro, manteve o lugar in extremis. O Partido dos Animais voltou a surpreender e entrou também na Assembleia, provavelmente às custas do Bloco, que ficou, como se disse, com zero representantes.


E assim ficou o parlamento regional fraccionado em oito partidos, com o PSD em maioria, como sempre, o CDS muito reforçado, o PS enfraquecido e desorientado, um José Coelho que promete animação e o resto a disputar as deixas a que tiverem direito. Com a austeridade severa que se avizinha e um Jardim a pensar na reforma, os tempos que se avizinham prometem ser turbulentos.

domingo, outubro 09, 2011

Free Amanda




É verdade que a decisão do recurso do caso da morte de Meredith Kercher deixa imensas dúvidas. Há quatro anos, a primeira sentença considerava os acusados culpados do sórdido assassínio da estudante em Perugia, um crime que toda a Itália e boa parte do Mundo acompanharam febrilmente, dada a violência do crime e a juventude dos réus. Agora, a americana Amanda Knox e o companheiro italiano foram absolvidos do crime por erros durante o processo (coisa comum cá na terra) e consequentemente libertados, depois de mais de três anos de prisão - que se reflectiram no seu aspecto físico. É bem possível que sejam inocentes, mas certo é que Kercher foi morta com requintes de malvadez e de tara sexual. O outro condenado, um estudante marfinense, continua preso. E a beleza, ora angélica, ora com uma pontinha de perversão e fatalidade, de Amanda Knox, fazia dela uma suspeita em potência, digna de um film noir. Certo é que já voltou aos Estados Unidos e não deverá tão cedo colocar os pés em Itália. E convenhamos que há razões de fundo para se desejar que ela não seja mesmo culpada...



sexta-feira, outubro 07, 2011

E mais uma vez não houve comemorações oficiais do nascimento de Portugal


A propósito das comemorações do 5 de Outubro, onde acham que houve mais entusiasmo? No casamento da Duquesa de Alba, Grande dos Grandes de Espanha, com os seus 85 anos? Ou nos discursos da Praça do Município de Lisboa, ouvindo Cavaco e aquela pueril estudante da Maia que "convidou os jovens a abraçar os ideais republicanos" (deviam estar imensos a ouvi-la)?


O Nuno Castelo Branco criou um heterónimo/homónimo e colocou-o na Lisboa de Outubro de 1910. Leiam, que vale a pena.

quinta-feira, outubro 06, 2011

A Pluma Caprichosa na sua torre de marfim



A propósito de Meia Noite em Paris, o último de Woody Allen (que vale todas as estrelas que lhe derem, mais o preço do bilhete, e é pura magia inserida no quotidiano prosaico, sem cair no realismo mágico), Clara Ferreira Alves escreveu na revista do Expresso de 24 de Setembro uma das páginas mais pretensiosas que tive a oportunidade de ler desde algumas crónicas de José António Saraiva (no mesmo jornal, antes de se agarrar ao Sol). Aqui ficam algumas partes esclarecedoras: "Comíamos cinema clássico e filmes russos e alemães com sete horas (...), papávamos Bergman ao pequeno-almoço, e ninguém podia chegar à puberdade sem ter lido pelo menos um romance de Tolstoi e Dostoievsky, de Stendhal e Flaubert(...)Tínhamos de saber distinguir entre a sonoridade melancólica de Chopin e a alegria cantante de Mozart, entre quintas e nonas fossem as de Beethoven ou as de Mhaler (...)Tínhamos de saber as subtilezas de Nietzche e Schopenhauer..." O resto do texto é todo ele assim, e termina com lamentos de que a tecnologia e os economistas extinguiram a cultura europeia.

"Tinham"? Mesmo achando que há aqui um grande exagero nas obras e autores citados, imagino que Clara Ferreira Alves tivesse apenas um limitado número de amigos com os quais pudesse competir. Mesmo entre os mais eruditos, dificilmente se consumiriam todos estes autores e obras na juventude (até durante toda a vida é duvidoso). E depois, a ser exactamente assim,em que mundo vivia Ferreira Alves? Imaginaria que nas nos bairros pobres urbanos, periferias nascentes das cidades, nos campos, nas aldeias piscatórias, nos bairros de operários, as pessoas seriam mais ávidas de leitura, de música, de discussões sobre a origem do universo? Ou mesmo nas universidades, nos liceus, nos cafés? Não passaria de uma ilusão de um grupo absolutamente restrito?


É que além da pretensão a abarcar toda a "Alta Cultura", há ainda uma crítica explícita às "novas gerações", que não são como a de Clara, muito naquele tom de "no meu tempo é que era". Eu bem sei que o ensino para os resultados produz muitas aberrações e uma quantidade infinda de ignorantes, mas será porventura porque mais gente tem acesso à escolaridade e ao conhecimento do que há trinta ou quarenta anos, quando as distinções sociais estavam bem vincadas e a instrução não era massificada. Mas o número de leitores (de livros) cresceu, por exemplo, e crê-se que os padrões não diminuíram assim tanto. Estão é mais indistintos.

Eu também tenho alguns pruridos contra o total domínio da sociedade pela pura economia, e mais ainda pela tecnologia, que parece insaciável, não dando tempo para recuperar o fôlego. Mas também é graças ao crescimento económico (R.I.P.) que este país teve durante uns anos, e aos avanços tecnológicos, que o conhecimento e a cultura chegaram a muito mais gente. Sim, há variados perigos, mas também inúmeras oportunidades. Hoje, qualquer pessoa pode tirar uma dúvida factual na Wikipédia, ao passo que há poucas décadas essa mesma dúvida subsistiria por mais tempo.

Mas o que é realmente irónico é que Ferreira Alves focou-se na catadupa de artistas que figuravam em Meia Noite em Paris e passou ao lado do filme de Allen. Um cidadão americano do século XXI gostaria de ter vivido na Paris dos anos vinte, onde por sua vez havia quem de bom grado os trocaria pelo último quartel do século XIX, e aí surgem Gauguin e Degas suspirando pelo Renascimento. A moral (chamemos-lhe assim) que se extrai do filme é que por muito que não apreciemos o nosso presente, e achemos que houve uma qualquer era passada muito superior, quem viveu nessa era dourada achará sempre que antes disso é que se vivia, numa cadeia constante. E o que Clara Ferreira Alves faz é suspirar por uma qualquer época em que todos liam os mais complexos autores, ouviam os músicos mais eruditos e discutiam os pensadores mais profundos, antes da "imbecilização" do Mundo. Eu, que ate sofro de nostalgias e revivalismos vários, sempre prestei mais atenção ao filme, ao passo que a autora da Pluma Caprichosa não achou nada melhor do que usá-lo numa coluna para mostrar às massas o quão culta é, ela e a sua geração. Que diria se soubesse que Woody Allen tem como passatempo favorito ver futebol americano na televisão?

domingo, outubro 02, 2011

Quatro anos de Estado Sentido


O Estado Sentido, para o qual já tive o prazer de colaborar, está de parabéns: faz hoje quatro anos. O que quer dizer que para um blogue já atingiu uma idade de respeito, aí entre a maturidade e a "sabedoria".

segunda-feira, setembro 26, 2011

O Benfica regressa à Roménia


Amanhã o Glorioso volta à Roménia, que já lhe trouxe boas recordações. Nunca perdemos nesse país, já lá tivemos reviravoltas históricas e empates que nos levaram a finais europeias. Terá o Benfica de Jesus capacidade para triunfar fora de casa na competição rainha entre clubes? Tudo indica que sim. Os últimos jogos foram auspiciosos. O empate no Inferno da Luz com o Manchester, que antes do jogo seria motivo de satisfação pela força como os mancunians têm arrasado tudo o que lhes aparece à frente, acabou por saber a pouco. Já a igualdade a dois em casa do Porto é um resultado positivo, dado que tivemos de recuperar duas vezes de situações de desvantagem, perante um adversário que acabou sem ideias e a queixar-se, em estratégia claramente combinada para ver se convencia a maralha, que não ganhou porque o árbitro não se deixou ir nas suas ridículas teatradas. Um Benfica inteligente ganha perfeitamente aos romenos.


Acresce que o jogo é em Bucareste, no novíssimo Stadionul National (julgo mesmo que é o primeiro jogo oficial que recebe), o que poupa os jogadores a uma viagem maçadora até aos confins da Moldávia, para burgos banhados por rios que nem ponte têm e só se atravessam de barcaça (ver o fim deste post). Sempre é um descanso, mas traz o risco de vermos um estádio semi-despido; tudo depende da força de vontade das claques de Galati. Mas com dificuldades ou não, é um jogo a sério a ser encarado com tanto respeito como contra o Manchester. Saiba Jorge Jesus explicar isso aos jogadores, para manter a tradição de resultados positivos na Roménia.
It´the end of REM as we know it



Os REM anunciaram oficialmente que se vão separar. Sim, os REM, a banda de Michael Stip, Mike Mills e Peter Buke (e outrora de Bill Berry), a que nos deu Losing My Religion, Daysleeper, Radio Free Europe, the One I Love e Imitation of Life vai encerrar actividades, legando como seu último álbum Collapse into Now. 31 anos que fizeram parte da história da música pop-rock acabam agora. Talvez poucos tenham a mesma apreciação, mas os REM foram a maior banda do Mundo nos anos noventa, a par dos U2, (durante curto tempo também os Oasis e Smashing Pumpkins) e dos Rolling Stones, estes porque a idade é um posto. Com o tempo perderam mediatismo, que nunca procuraram, em detrimento de grupos menores. Passaram por Portugal duas vezes, ambas no Pavilhão Atlântico, em Lisboa, e em ambas os pude ver (só não vieram antes por causa de uma série de desventuras). Fechou-se uma era na música moderna norte-americana. Talvez um dia se reúnam de novo.


quinta-feira, setembro 22, 2011

Júlio Resende 1917-2011




A morte de Júlio Resende não me surpreendeu, dada a sua provecta idade, mas comoveu-me. Um dos grandes antistas portugueses do último século, cujas obras, ora expressionista, ora com um travo neo-realista (embora não tanto como alguma imprensa o tenha classificado), não deixam de continuar a espantar. Isso e a sua generosidade e paciência.


Tive um encontro com o Mestre quando tinha os meus oito ou nove anos. Como acontecia muitas vezes nas férias, a minha mãe levava-me para o liceu onde dava aulas, e eu percorria tudo, pavilhões, salas, bibliotecas, campos de jogos, etc. Júlio Resende encontrava-se lá uma tarde, com a sua mulher, a convite dos alunos de educação visual; sem saber quem era aquele senhor de bigode branco, entabulei conversa com ele, e falei-lhe do meu enorme gosto em desenhar (coisa que ainda conservo um pouco, mas a que tenho votado tempo a meno). Não sei se fui eu que propus ou se ele é que me desafiou, mas o certo é que o Mestre posou para que eu lhe desenhasse a cara a giz no quadro negro de uma sala de aula; consegui acabá-lo antes que a minha mãe chegasse e demonstrasse o seu embraço, perante o visível divertimento do artista. A "obra", essa, não durou muito, mas nunca me esqueci dela.


Só lamento não ter conhecido ao seu Lugar do Desenho, em Valbom, como várias vezes planeei, e onde morreu ontem. Deixou-nos a suas obras e a mim, pessoalmente, aquela memória do dia em que um pintor ilustre posou para que eu o desenhasse. E legou-nos aquela fabulosa Ribeira Negra, cujo original viu ainda ser exposto permanentemente no edifício da Alfândega, e que nos interpela à saída do túnel, antes da Ponte, de forma inquietante e sentida.


sexta-feira, setembro 16, 2011

É desta?




Parece que depois de tantas reclamações, desabafos, rezas, alguém vai mesmo pôr travão aos desatinos de Alberto João Jardim e da sua trupe. A brincadeira que a Madeira tem feito ao longo dos anos com os dinheiros públicos, gozando com contribuintes e autoridades nacionais, parece estar com os dias contados. Em tempo de eleições regionais, são declarações (e actos, espera-se) corajosas da parte de Passos Coelho, que olha por cima das vantagens eleitorais. Pena é que precisemos de ter chegado a este ponto e de receber puxões de orelhas "lá de fora" para que alguma coisa fosse feita. Depois, bem pode Jardim vociferar contra os "cubanos", a" maçonaria", "a Internacional Socialista" os os "fascistas do contenente", que de nada lhe adiantará. Espera-se é que os madeirenses percebam de uma vez por todas a situação em que ele e os seus correligionários os meteram.

terça-feira, setembro 13, 2011

Cais de Verão


Os velhos GNR voltaram com um dos temas em destaque neste Verão. Não chegaram às tabelas como as dezenas de versões da Lambada, ou as centenas de "Dançar kuduro" que proliferaram em tudo quanto era bar, discoteca ou casa de alterne. Mas alcançaram uma notoriedade discreta, com a sabedoria e o desprendimento que os anos lhes deram. A música, Cais, nem sequer é inédita: é antes um rearranjo tirada do álbum Mosquito, de 1998, incluída num disco de versões regravadas com outras sonoridades e tons, de sua graça Voos Domésticos, que chegou ao número um do top de vendas. A música inspiradora e suave, o videoclip tem uma elegância clássica, e ainda nos traz a curiosidade de ver Rui Reininho como sósia de Billy Bob Thornton.


domingo, setembro 11, 2011

10 anos do 11




Este é daqueles dias em fatalmente se pergunta "onde estavas tu no 11 de Setembro"? Acho que todos se lembrarão do contexto e do que sentiram (provavelmente a maioria olhou com inquietação para os edifícios mais altos que tinha por perto). Em todo o caso, a importância do fatídico acontecimento revela-se na identificação que se faz com o dia. Tirando as de revoluções, muito poucos cunham o nome da data em que ocorreram. O 11 de Setembro é daqueles momentos que serão recordados mais pelo que aconteceu naquele dia, com aquele espectáculo e aquela violência, em Nova Yorque, a mais marcante cidade do século XX e sede da ONU, do que pelas suas consequências. Poderia agora desatar a falar nelas, mas disso se encarregaram os media, até à exaustão. A recordação, essa, não nos sai da cabeça. Assim começou o século XXI. Esperemos que os atentados de 11 de Setembro de 2001 sejam apenas um acto inicial, e não aquele que marcará indelevelmente o século.

segunda-feira, setembro 05, 2011

Estrunfes, Smurfs e a sua utopia estalinista



A silly season deste ano justificou amplamente o nome. Fosse porque era preciso abstrair da crise, fosse porque o executivo mudou, houve discussões que circularam entre o disparate e o humor. A medida da ministra Assunção Cristas, por exemplo, de dispensar os funcionários de levar gravatas durante o verão para os ministérios que tutela, exceptuando situações mais formais, levou a uma intensa discussão sobre se a gravata estava na moda, se estaria em declínio, ou se era um símbolo fálico que anunciava uma decadente masculinidade. Aproveitando este último mote, houve mesmo uma ex-secretária de estado da "igualdade" que aproveitou a deixa para exprimir o desejo que aquelas simples orientações se traduzissem "na emergência de novas masculinidades", que seriam "fundamentais para mudar de paradigma" e para uma "nova civilização", para além das "diferenças reprodutivas e biológicas". Que alguém que ache que entre homens e mulheres não deva haver diferenças (ou que se transformem em seres hermafroditas) chegou ao governo provoca alguns arrepios. Espero que não tenha muitas seguidoras, ou veremos nova vaga de feminismo radical, e do histérico.


Um dos casos mais curiosos da estação foi a indignação, seguida de uma vaga de saudosismo, com a estreia do filme Os Smurfs. Devo dizer que partilho de ambos, ou não tivesse tido uma imensa dificuldade em escrever o nome dos duendes azuis com aquela designação anglo-saxónica, usada também no Brasil, tão longe do original, e que ao que parece se deve ao facto dos detentores dos direitos dos bonecos quererem "uniformizar" os nomes em cada língua, o que significa que em Espanha eles têm mais do que uma designação, como nos conta Ricardo Araújo Pereira . Por azar, impingiram-nos a designação que os brasileiros usam, como se já não bastasse o famigerado Acordo Ortográfico, em lugar de fazer o contrário, isto é, pôr os brasileiros a usar o nosso Estrumpfe, que ao fim e ao cabo segue o original francês Schtroumpfs. Chamemos-lhes estrunfes, já que ainda podemos usar a nossa língua.


A afronta pode-se medir pela quantidade de artigos em jornais (além do supracitado do RAP) reclamando contra a nova designação e sobretudo contra o ataque à infância de toda uma geração, que por acaso também é a minha. Confesso: ver os estrunfes de sempre serem agora apelidados de smurfs revolve-me as vísceras. Seria como mudarem-me o nome de João para Jeremias. Se alguém acha o exemplo exagerado, pode sempre imaginar os nomes de Tintin, Astérix ou Lucky Luke alterados e ver a diferença. Ou ver o cómico exemplo da Estrunfina, agora chamada...Smurfina.


Mas a polémica desta nova versão é apenas mais uma num ano atribulado para as criaturas azuis. Não sei se por coincidência ou por estranho golpe publicitário em ano de filme, em Junho surgiu um pitoresco estudo de um ensaísta francês, de seu nome Antoine Buéno,que concluía que os bonecos azuis representavam uma "utopia estalinista e totalitária", além de exprimirem "anti-semitismo". Tudo porque "cada um se veste da mesma maneira, tem uma casa igual à do seu vizinho, e exerce a profissão mais adequada às suas habilidades, não sendo conhecidos pelo seu nome mas sim pela sua função na sociedade. Eis o velho jargão de Marx "de cada um as suas capacidades..." usado para caracterizar a aldeia dos estrunfes, juntamente com a homogenia arquitectónica e das vestes. Sempre pensei que as casas-cogumelos fossem um delicioso pormenor da série, mas afinal há quem pense que não. Assim como seria complicado desenhar as criaturas de forma diferente (é verdade que eles nem se distinguem), mas apanhar nomes para cada um deles seria tarefa complicada e desnecessária. A única coisa que noto vagamente aparentado com o marxismo é algum utilitarismo.

Outras comparações que o estudioso faz é a do Grande Estrunfe (com as suas barbas e o seu barrete vermelho) com Estaline, ou a dos Estrunfe dos Óculos com Trotsky. Aqui, a pressa é visível: o Grande Estrunfe é tudo menos um tirano, apesar da sua autoridade e dos seus poderes alquímicos, e o dos Óculos está longe de ser um opositor, sendo antes um seguidor até ao limite do primeiro da aldeia, seguindo à risca (e de forma particularmente graxista) as suas ordens. A ausência de propriedade e de iniciativa privada, bem como de "mercados", é outra coisa que não faz espécie à maior parte dos mortais, mas alguém se lembrou disso, como se os autores não tivessem mais nada que fazer.

As acusações de anti-semitismo são mais compreensíveis. O inimigo mortal dos estrunfes, Gargamel (na antiga versão, Gasganete), tem nome e fisionomia judias, com o típico nariz adunco, e o seu malvado gato chama-se Azrael. Poderiam ser reminiscências sub-conscientes do anti-semitismo que atravessou a Europa até aos anos quarenta? É possível. Hergé também sofreu acusações semelhantes. Mas nunca, na minha infância, ao ver os seus desenhos animados e os álbuns dos estrunfes, essa ideia se me introduziu no espírito. Já as acusações de racismo e colonialismo por causa do álbum Os Estrunfes Negros é mais palha para alimentar a discussão do que outra razão qualquer. Numa história centrada numa epidemia com elementos vampíricos (ou da mosca tsé-tsé), teria o mesmo impacto se se tornassem brancos? Ou vermelhos? A juntar a isso, a pobre da Estrunfina leva por tabela, por ser loura, ou seja um modelo "ariano". Em criaturas azuis, convenhamos que louro sobressai mais. Uma estrunfina morena jamais teria semelhante impacto.



O filho de Peyo, o criador belga dos bonecos, já veio desdramatizar a polémica. Ao que parece, o pai nunca esteve ligado à política, nem demonstrou grande interesse. Mas os editores com quem trabalhava, em especial o co-autor Yvan Delporte, tinham algumas simpatias anarquistas, que como se sabe nunca se deram bem com a disciplina estalinista (vide a Guerra de Espanha). Em todo o caso, o livro colheu alguma polémica, que poderá até ser um veículo para o filme. Mas pensar que os estrunfes seguiam aquele modelo de sociedade e que Peyo tinha secretas intenções de construir na BD a sua utopia colectivista e totalitária já parece demasiado rebuscado. Lembra aquelas desconfianças em relação a Vasco Granja, de que ele estaria a doutrinar as criancinhas com os seus bonecos do Leste. Bom seria retirar essa hipotética (e absurda) carga ideológica e as teorias da conspiração que se levantaram e considerá-los os bonecos divertidos e desastrados que sempre foram. Se quiserem, atribuam-nas aos "smurfs". Mas nunca aos estrunfes.

terça-feira, agosto 30, 2011

O início da nova Líbia


De súbito, o regime verde da Líbia caiu como um castelo de cartas. Seis meses de guerra civil, que começou com a revolta a partir de Bengazi, prometendo sucesso rápido, seguida da resposta das forças do regime, que quase aniquilaram os rebeldes, não fosse a intervenção da NATO e a destruição do armamento pesado das tropas leais a Kadhafi. Depois, tímidos avanços dos revoltosos, de tal forma que a Líbia deixou as primeiras páginas e em breve quase nem se falava do conflito que minava a antiga colónia italiana. Até que de súbito os rebeldes fizeram notáveis avanços. Aproveitando o enfraquecimento das forças do regime e seus mercenários, minadas pelos ataques cirúrgicos vindos do ar, abriram caminho e entraram em Trípoli. O cenário verificado em Fevereiro cumpriu-se, enfim. Por terra, com o auxílio dos apelos do clero islâmico, e também por mar, em que forças vindas de outras cidades completaram o cerco, provavelmente com auxílio de meios navais da NATO. Embora houvesse alguma resistência, os pontos fulcrais, como os meios de difusão, foram prontamente tomados. Quando o aeroporto e o complexo de habitação de Kadhafi ainda resistiam, a Praça Verde, local simbólico onde o regime verde organizava as suas "manifestações" de apoio, era ocupada pelos rebeldes. Depois disso, percebia-se que o regime tinha caído. Era, e é, só uma questão de dias.

Quando apenas Sirte ergue a bandeira verde, pergunta-se onde estará Kadhafi e seus filhos, subitamente evaporados. A hipótese mais provável é que esteja acantonado em parte incerta. Duvido que tenha fugido para o estrangeiro - para o feudo do amigo Mugabe, por exemplo, ou para a Venezuela - e será mais provável que esteja em Sirte ou noutro ponto da Líbia. Ver-se-à agora se resistirá até ao fim, como prometeu, e perecerá em combate, ou se fugirá para um estado "amigo", juntamente com a sua família. Os milhões do petróleo que acumulou durante quarenta anos devem ser suficientes.

E a nova Líbia? Até agora, tem-se conseguido razoavelmente evitar pilhagens e vinganças. Com ajuda internacional e o descongelamento de contas avultadas, o país tem recursos para se reerguer. Resta conseguir formar um novo sistema político, obter acordos e consensos entre tribos, reconciliar Tripoli com Bengazi unir o país. Depois de décadas de regime "verde" personificado no coronel, será uma tarefa difícil. Mas é possível, com a representação dos vários grupos e tribos nas decisões do país. E já que se restaurou a antiga bandeira dos Senussis, porque não restaurar a monarquia dos mesmos? Tivesse Kadhafi falhado o golpe de 1969, e quem sabe o que seria a Líbia de hoje? A solução para a união da país pode e deve passar pelo regresso da dinastia e dos reis que lhe deram a independência.







Por razões de reestruturação daquele blogue, e também pela participação cada vez mais escassa(que também se repercute aqui), deixei a minha colaboração com o Estado Sentido. Como é óbvio, continuarei a acompanhá-lo, desejando-lhe as maiores felicidades e que mantenha a qualidade a que habituou os seus leitores, não deixando de fazer-lhe devidas as ligações quando julgar necessário. A partir de agora, escreverei apenas neste espaço.

terça-feira, agosto 23, 2011

Os bravos sub-20


Fui dos que pouco liguei no início. Depois, vi parte do fraquíssimo jogo com o Guatemala e temi o pior no confronto com a Argentina. Aí, teve lugar uma emocionante disputa de penaltys em que da desvantagem de dois se chegou ao triunfo sobre as Pampas. Não vi as meias contra a França, nossa velha bête noir nestas coisas, mas finalmente levámos a melhor e chegamos à final. Não quis do destino nem as forças físicas que imitássemos 1989 e 1991, mas esta Selecção de sub-20, pela qual poucos davam alguma coisa, portou-se à altura de um campeão e provavelmente merecia mais. O jogo contra o Brasil podia ter sido ganho, mas algumas falhas e o esgotamento visível nos jogadores levou ao desfecho a favor dos brasileiros. Mas as palmas que receberam à chegada a Portugal são totalmente merecidas. Agora espero que os seus clubes olhem mais para eles e que os aproveitem devidamente, ainda que com algumas rodagens pelo meio. Acima de tudo, espero que o Benfica aproveite Nélson Oliveira (cuidado, Cardozo) e Mika já este ano e não se esqueça de Roderick e Luís Martins, para que não sigam o caminho de Danilo ou Mário Rui. Fica o grande consolo de que afinal de contas o futuro da Selecção Nacional pós-Cristiano Ronaldo pode estar assegurado.

sábado, agosto 20, 2011

Let´s all meet up at the year 2011




Em meados dos anos noventa, a Britpop tomou o Mundo (ou melhor, o Reino unido, mas os autóctones confundem as duas coisas) de assalto. Entre a working class dos Oasis e a upper-middle-class do Blur, formou-se uma terceira via - numa altura em que o conceito era muito popular e levaria Blair ao poder - constituído pelos Pulp, que representavam a middle class. Embora mais antigos que os outros, os Pulp, liderados pelo desengonçado Jarvis Cocker, pouca visibilidade tinham no panorama musical, até 1994, e sobretudo, 1995/96, quando chegaram ao primeiro lugar dos tops britânicos com o seu Different Class. Desilusões amorosas de juventude, fantasias impossíveis de concretizar e aspirações de classe média, inseridas em hinos pop e seus telediscos retro como Common People e Disco 2000 (provavelmente uma das melhores canções pop de sempre) deram-lhes popularidade e fama naquela onda musical que varreu o Reino Unido. Pelo meio, Jarvis cocker aproveitou para deixar Michael Jackson malvisto em público. Depois, This is Hardcore, um álbum mais difícil, mas digno de ser descoberto (o tema título tem também um excelente videoclip e poderia ser uma banda sonora de um film noir) arrefeceu um pouco a ascensão comercial. Entrou o novo século como We Love Life, e pouco tempo depois a banda separou-se, tendo Cocker iniciado uma carreira a solo.


Mas estamos em época de reuniões de antigos grupos e de regressos esperados. Por isso, também os Pulp voltaram ao terreno este ano e mostraram-se ao público. Felizmente, quiseram fazê-lo também em Portugal, para mais em Agosto e em Paredes de Coura, não longe de onde me encontro habitualmente nesta altura. Reapareceram assim em todo o seu esplendor, no palco ao fundo do anfiteatro natural que desce até ao rio Coura (essa massa fluvial que inspira festivais de Verão, como o sabem os veteranos de Vilar de Mouros), entre algum psicadelismo luminoso e mensagens de boas-vindas. Jarvis Cocker tem mais cabelo e barba, mas agora não tira os óculos de massa por nada e conserva os mesmos gestos de dança de uma sensualidade desengonçada de desenho animado. As músicas que lhes conhecíamos desfiaram pela noite fora - é emocionante ouvir os primeiros riffs de Disco 2000 ao vivo. E quem se deu ao trabalho de ir ao Alto Minho interior não deu o tempo por perdido. O bom gosto acabar sempre por imperar. Long Life aos Pulp!

domingo, agosto 14, 2011

Razões para a barbárie


Mais de uma semana depois de começarem os motins em Londres, que se estenderam a toda a Inglaterra, limpam-se os cacos e contabilizam-se os estragos (e os mortos, que infelizmente também os houve). E fazem-se as normais dissecações da coisa: os "excluídos", a "violência policial", a "brandura policial", o "protesto dos marginais", os "cortes do governo", o "multiculturalismo", "o Cameron que estava de férias", etc.
 
Antes de mais, seria bom abandonar aquela ideia proto-marxista de ver nas causas de tudo razões meramente económicas. Quem tiver boa memória dos motins em França em finais de 2005 (despoletados por razões análogas), recordará que na altura se atirou muito as culpas para o "modelo social francês" e os seus subsídios. Uma inteligência brasileira qualquer disse que as "favelas" em França ardiam porque a França não tinha um modelo "liberal". Agora, vem a desforra, a culpar-se o "modelo neoliberal britânico". Nem um nem outro me parecem ser a razão principal, embora possam apresentar indícios de. É mais uma querela estéril entre defensores de modelos económicos diferentes, incapazes de ver mais além dos números.

O problema é, acima de todos os outros, ético, moral e civilizacional. Os motins são a expressão de um sentimento de ganância e materialismo feroz, combinados com uma nefasta sensação de impunidade. Não apenas nas ruas: é transversal à sociedade. Vai desde os usurários, financeiros sem rosto economistas de casino, suportados em abstractas bolhas económicas, a toda esta gangada niilista. Todos roubam com o sentimento de que não serão punidos.



Entre todos os artigos que encontrei, Miguel Sousa Tavares disse no Expresso uma coisa que me parece acertadíssima: que os bárbaros que semearam o pânico e a destruição na Albion são "meninos" aos quais falta não segurança social nem bens materiais, mas sim pais que os eduquem, e que "acham um desafio fantástico destruir o que têm e o que devem a outros". A ideia de que se tem direito a tudo sem os respectivos deveres, seja de que forma for, mina os alicerces de qualquer sociedade fundada no Direito, na justiça e na (legítima) propriedade privada. Fora isso, temos o caos, tão "justificado" pelos imbecis que desculpam sempre e sempre os criminosos, fazendo recair as culpas em terceiros. E mais uma vez, tal como fiz com o assassino em massa norueguês, gostava de saber como é que os pais educaram estes filhos. Bem sei que por vezes há coisas que escapam à educação, para vergonha e desgosto de tantos progenitores que se esforçaram por ensinar e educar o melhor que sabiam e podiam. Mas parece-me estranho que uma massa descontrolada, violenta e entusiasmada em fazer arder carros e assaltar lojas de tudo e mais alguma coisa (menos produtos de primeira necessidade e livros, que bens supérfluos era coisa em que não havia tempo para levar), tenha recebido toda uma educação exemplar - e por educação falo em valores, normas de comportamento e sociabilidade, etc, não mera instrução, e que tornaram célebre a Grã-Bretanha. Infelizmente, tudo isso parece estar ultrapassado, em nome do respeito cego ao "outro", e desta pós-modernidade asséptica.

Por isso, esqueçam lá a ladainha dos "excluídos", ou do desemprego juvenil (quando grande parte destes delinquentes nem idade têm para trabalhar). Os tais clubes juvenis que fecharam são importantes, mas há muito quem sobreviva sem eles. Dêem antes de mais educação às novas gerações. De contrário, teremos bárbaros a fazer o que muito bem lhes apetece, e que provocarão guerras devastadoras, já que a barbárie só se trava com força. Aí, talvez se recordem que os bárbaros fizeram cair Roma e a sua civilização.


PS: e talvez seja igualmente importante lembrar que os modelos anglo-saxónicos não são todos exemplares. Se não estivessem ocupados com problemas de outra ordem, o franceses deviam estar a gozar que nem uns perdidos, pensando no que deles disseram em 2005 do outro lado da Mancha e do Atlântico.

terça-feira, agosto 09, 2011

Benfica 2011/12


O Benfica da época 2011/12 continua a deixar-me sentimentos ambíguos e confusos. Parece-me que está claramente a melhorar, e que há mais soluções, mas continuo a desconfiar de tanta contratação e a desanimar com tão escasso número de portugueses, em tempos que já lá vão ponto de honra do clube.

A saída de Coentrão seria de evitar há uns meses, mas com tanto assédio e com a cabeça do rapaz das Caxinas em Madrid, a ida para os merengues em troca de 30 milhões de Euros não é nada má. Já a saída de Moreira é de torcer o nariz; de Nuno Gomes já falei, e vamos a ver se Carlos Martins fica ou se procura trabalho na Moscóvia. De resto, houve uma limpeza da comunidade brasileira mais ociosa que me parece satisfatória. Mas o idioma luso tem agora de rivalizar com o castelhano. Bem sei que os tempos são diferentes e que é quase impossível conservar uma equipa de qualidade só com portugueses, mas que Diabo, há limites! não se podia apostar um pouco mais na formação? É que as políticas contratuais actuais (não só do Benfica, entenda-se) vão-se repercutir, cedo ou tarde, na Selecção Nacional...

O entrosamento não se compra, vai-se fazendo com paciência. O Benfica deste ano terá de tê-la em abundância. Entretanto, despachou-se Roberto com um negócio duvidoso (eu preferia o empréstimo), mas resolveu-se o problema com um seguro Artur e um Eduardo que quer manter o seu lugar na baliza nacional, o que dada a concorrência, não será fácil. Temos também um jovem Mika, cuja qualidade desconheço. Gostaria de saber onde vão jogar Júlio César e Oblak.

Na defesa, a melhor notícia é a permanência de Luisão. Garay parece ser uma das boas contratações da época, e Jardel e Miguel Vítor são bons suplentes. Mas a saída de Coentrão parece complicada de colmatar. Capdevilla, campeão mundial no ano passado, parece ser uma excelente solução (aliás, surpreendeu-me muito), pelo menos enquanto a concorrência está verde, mas ignora-se qual a forma física actual do internacional espanhol. Mas interrogo-me se seria mesmo preciso trazer emerso, quando havia Carole e César Peixoto.

Depois, o povoado meio-campo. Outro jogador cuja vinda parece supérflua: Bruno César. Encosta Carlos Martins ao banco e precisará de tempo para adquirir rotinas. É muito promissor bem sei, mas não impede que tenha as minhas dúvidas. Outro que precisa de se ambientar e de ganhar ritmo é Enzo Perez. O seu antecessor, Salvio, também precisou, e se o reforço atingir o mesmo nível, é aposta ganha.

Como que a demonstrar que os reforços europeus precisam de menos tempo do que os sul-americanos para se integrarem e compreender o jogo, Witsel chegou, viu, e aparentemente venceu. Nolito também, e com três golos em outros tantos jogos, já é um ídolo dos adeptos. Com a manutenção de Gaitan, Saviola, Jara e do mágico Aimar, mais o regresso de Urreta (enfim!), a coisa está mais do que composta na construção de jogo e nas alas. Resta portanto o imbróglio Cardozo, que parece estar insatisfeito. O Besiktas acena com uns milhões e Hugo Almeida, mas tendo em conta a média de golos do internacional português, a troca seria certamente desfavorável para o Benfica. Nelson Oliveira e Rodrigo ainda são verdes para agarrar o lugar.

Fiquei com razoável/boa impressão nos jogos com o Trabzonspor, salvo na finalização, onde surge de novo o problema do ponta de lança. A equipa do Ponto ficou em segundo lugar, ex aqueo com o primeiro, no seu campeonato, e reforçou-se significativamente, recordemos. A única coisa que tive realmente pena foi não poder ir ver lá o Benfica, já que aquela região do Mar Negro e do antigo Império de Trebizonda era um dos meus motivos de interesse de viagem...


Contra os gunners, na Taça Eusébio, deu para ver que a equipa, com os seus titulares habituais, é fiável e até marca golos. Mas a construção continua a ser bastante superior à concretização. Confirma-se que é matéria a rever. Para já só se têm como certezas que as melhores contratações até ao momento foram Garay, Nolito e Witsel.


Veremos daqui a dias, em Barcelos, como correm as coisas.

PS: para começar, Barcelos desiludiu. Recordou-me a Póvoa do Varzim, ali perto, há dez anos, com um marcador exactamente igual, só que na altura reduzidos a nove. Falhar golos de baliza aberta dá nisto (e aquele Laionel deve entusiasmar-se à brava em jogos contra o Benfica).

quinta-feira, agosto 04, 2011

A ascensão de Seguro


Com as minhas falhas actuais, ainda nem tinha comentado a nova liderança do PS. Aliás, com os acontecimentos na Noruega, a crise económica, etc, parece que ficou para segundo plano.


Mas sim, o Partido Socialista tem um novo líder, depois da era de José Sócrates, que coincidiu quase na totalidade com o domínio do executivo. A luta entre Francisco Assis e António José Seguro prometia no início, com a não candidatura de António Costa. Mas o antigo líder da JS tinha o aparelho socialista nas mãos. Há muito aliás, que Seguro parecia conhecer os meandros do partido e as suas estruturas, como o seu ar pouco expectante e tranquilo fazia supor. Assis reuniu à sua volta algumas figuras de relevo e as distritais do Porto e de Lisboa, mas nem assim logrou aproximar-se do seu adversário. O prestígio angariado como líder parlamentar e a sua postura respeitável não só foram insuficientes como pareceram mesmo ser um obstáculo na corrida à liderança. Quando Assis resolveu pegar no assunto do clientelismo partidário e lançá-lo na praça pública, afirmando que o PS tinha-o em demasia e que dele precisava de se libertar, o tiro de canhão saiu pela culatra directamente para o pé. Dizer alto e bom som que um partido que depende do poder e de um sem fim de prebendas e de clientelas que se deve livrar deles é obviamente uma táctica suicida. Só mesmo por desespero de causa é que um político experiente como Assis pode tê-lo feito. Se as coisas não lhe estavam a correr bem, com essa atitude entregou o partido a Seguro.



Com a coincidência, recordada por todos os jornais e revistas, de que os dois maiores partidos têm agora à frente antigos líderes das respectivas jotas, para mais coincidentes no tempo, parece que a geração que era adolescente ou criança no 25 de Abril tomou enfim conta dos destinos do país. Não sei se é bom ou mau. Tenho as minhas esperanças, mas já não fico tão optimista quando vejo pessoas que cresceram chefiando um grupo de políticos juvenis mais preocupados (já nesse tempo) com eventuais cargos do que com combates ideológicos à frente dos destinos nacionais ou respectivas oposições.



Seguro deu uma razoável imagem de elemento contra a corrente neste período em que o PS era poder e o socratismo imperava. Vê-se agora que era sobretudo uma estratégica paciente mas eficaz de alcançar a liderança do PS, recolhendo os cacos deixados a 5 de Junho, que ele sabia que forçosamente teriam de ser apanhados. As frases que pronunciou com a maior cara de pau, declarando (numa declaração semi-oficial) estar aos dispor do que o partido precisasse, mal Sócrates anunciou a retirada, revelaram cristalinamente as suas intenções. Seguro estava morto por apanhar a liderança, e preparou-se bem para o efeito. Arrisca-se é a ficar demasiado tempo na oposição e a ser imolado em futuras eleições, ainda que as autárquicas de 2013 lhe possam correr bem. Mas se ganhou o aparelho partidário, a ausência de carisma e de currículo fora do partido e alguma desconfiança do público pela avidez do rapaz de Penamacor serão obstáculos difíceis de ultrapassar. A não ser que o poder um dia lhe caia no regaço, coisa que não é assim tão raro acontecer (Sócrates, Durão e Santana sabem-no bem).


E agora, poder-se-à falar no "segurismo"? O soarismo está quase acabado, o gamismo extinguiu-se há muito, o guterrismo é coisa rara, e boa parte dos seus adeptos desertaram para o socratismo. "Assismo" é coisa que não parece existir. Parece, no entanto, que o sampaismo ainda mexe, transmutado no ferrismo. Uma corrente de migrantes do antigo MES que desaguou no PS e formou uma corrente mais à esquerda, primeiro com Jorge Sampaio e depois com Ferro Rodrigues (embora Manuel Alegre não se insira nesse grupo). Disse-se que Assis era a continuidade de Sócrates, numa linha mais pragmática e menos ideológica. Tenho as minhas dúvidas, embora o encaixe nalgum guterrismo não declarado. Já Seguro, sinceramente, não o consigo rotular. Nalgum socratismo de discurso mais ponderado e suave? Decididamente, o PS é um partido complicado e dividido em inúmeras franjas. Ao menos já houve um resultado prático: os debates no Parlamento estão muito menos crispados do que no tempo de Sócrates, e os pequenos desafios ad hominem deram lugar a mais discussão política. Valha-nos isso.