sexta-feira, maio 06, 2011

Breve nota sobre o real enlace


Os acontecimentos, internos e externos, sucedem-se a um ritmo vertiginoso, e eu sem tempo (ou paciência) para alimentar o blogue. Contudo, para honrar o subtítulo deste espaço (na parte que diz "monárquico" e "católico"), impõe-se que deixe uns ligeiros comentários sobre o casamento real britânico e da beatificação do Papa João Paulo II.


Sobre o enlace, registei com agrado a enorme recepção aos noivos. Das "demonstrações de protesto", nem vê-las. Republicanos, islamitas, nacionalistas ingleses ou simples chatos foram submergidos pelas multidões que aclamavam William e Catherine. Desconfio que houve mais azedume nos comentários da net, dos suburbanos micro-burgueses soltando os costumeiros "estes inúteis a gastar o dinheiro do povo", do que nas ruas. O príncipe favorito dos britânicos está casado, o que é um enorme sinal de alívio. O facto da sua agora mulher vir da classe média não é factor negativo: ajuda a limpar o sangue - e todos sabem os problemas que a consanguinidade já trouxe a tantas dinastias - e dá uma imagem mais terrena, ou mais próxima "de todos nós", à família real. William já de si era próximo, porque os tempos mudam e os media são implacáveis, particularmente naquelas paragens. Em todo o caso, parece-me um casal bem diferente do que se casou há trinta anos. qualquer semelhança entre Diana e Middleton é pura coincidência resultante da intriga de revista cor de rosa. Kate tem um ar que em nada fica a dever à aristocracia, uma cara assaz simpática, e, como disse Pedro Mexia, aquela "cintura impossível".



Na cerimónia reparei no contraste entre a solenidade e a cor (havia lá parentes da família real que podiam perfeitamente lavar escadas em Baguim do Monte). David Beckham era o único de chapéu alto, gravata sem colarinho e colete negro, como exige a etiqueta em cerimónias religiosas. Curioso como um futebolista demonstra ser o mais clássico de uma tal cerimónia. Suponho que o Professor Espada terá apreciado.

quarta-feira, maio 04, 2011

E agora, Muammar?





Há no entanto uma pessoa para quem o desaparecimento de Osama Bin Laden deve deixar sentimentos ambivalentes: Muammar Kadhafi. Se por um lado vê um adversário feroz (e potencial inspirador de movimentos jihadistas na líbia) liquidado, por outro perde o argumento de que os rebeldes eram "jovens drogados" apoiados por Bin Laden, que pretenderiam estabelecer um "emirado islâmico" na Líbia. Pode é ser mais um pretexto para o seu derrube. Do mal o menos, por agora o coronel sobreviveu ao criador da Al Qaeda.
O fim de um mito do terror





As reacções à morte de Osama Bin Laden são sobretudo de júbilo, mas nas notícias veiculadas pelo Facebook encontrei muito azedume. Desde a desconfiança à morte do inspirador da Jihad até ao já clássicos "terroristas são os americanos", e "se quisessem justiça levavam era o Bush para o tribunal", havia de tudo. Calculo que tenha havido muita gente que ficou de trombas com a bombástica notícia. Mas acredito que a maioria se tenha regozijado com o fim do homem que na última década personificava o terrorismo e o medo. Pode-se sempre dizer que "não deve haver alegria pela morte de ninguém". Assim devia ser, cristã e moralmente. Mas as pessoas não são de ferro, e os nervos também não. Daí perceber perfeitamente as multidões que no Ground Zero e em Washington saíram à rua a festejar o acontecimento. Aquela gente sofreu os planos de Bin Laden na pele, viu aviões a estampar-se nas suas cidades, guiados por fanáticos; nada mais natural que comemorar o fim do homem que deu azo a tudo isso. Não garanto que se estivesse lá, não faria sairia também à rua.


Para lá das ameaças que se têm de enfrentar e dos inevitáveis actos de vingança por parte das redes islâmicas, há que reconhecer que se tratou de uma operação extremamente bem sucedida. Até o anúncio esteve muitos furos acima da cowboyada indigna que tinha sido a captura de Saddam. Barack Obama vê a sua popularidade subir enormemente à conta de liquidar o inimigo nº 1 da América. Até os habituais falcões se tiveram de render a este êxito colossal. Esperemos que muitos dos entusiastas da Jihad se rendam também, desmoralizados com o fim da sua figura inspiradora.

segunda-feira, maio 02, 2011

G produzido em série


Houve tempo em que pensei que G era um meio álbum limitado oferecido pel´Os Golpes a todos os que se dispuseram a ir ver a apresentação ao vivo de Vá Lá Senhora, com Rui Pregal da Cunha vestido à Napoleão e tudo. Pensava que era um dos felizes contemplados com o CD em capa de couro, com o monograma "G" gravado e os esboços da ponte Luiz I no próprio disco, recordação de uma noite superlativa no Hard Club. E que mais tarde seria uma recordação rara de um registo de uma banda marcante inícios dos anos 10 deste século.



Acontece que Vá Lá, Senhora galgou Youtubes, passou por galas de televisões e pela Operação Triunfo, até que chegou às telenovelas. Aí, Os Golpes renderam-se aos pedidos das massas e colocaram G à venda nas lojas. Agora, todo aquele que estiver munido de menos de 10 €uros pode ficar com o suporte materal e mais um versão de Paixão, dos Herois do Mar. Acabou-se a exclusividade de que pensava ser um dos raros detentores. Mas fica pelo menos o consolo de saber que capa em pele, só os nossos. O disco agora lançado não tem a beleza gráfica nem o pormenor deluxe do álbum primordial. Há que separar o artefacto original do produto industrial em série.


quinta-feira, abril 28, 2011

Escolheram bem o dia


Há publicações que ou sofrem de falta de oportunidade, ou então lançam provocações propositadas, disfarçando a coincidência: no Domingo de Páscoa, dia da Ressurreição, do triunfo da Vida sobre a Morte, é que a Pública decide fazer uma reportagem (com direito a capa) sobre o suicídio assistido e a "necessidade de se lançar o debate"?!? Não havia mais domingos disponíveis ou apeteceu-lhes "quebrar tabus"?

quarta-feira, abril 27, 2011

A foleirização da bancada do PS



José Lello escreveu, na sua página de Facebook, que Cavaco Silva era "um presidente foleiro". Já se sabe que deste porta-voz das mensagens (ainda mais) sujas de Sócrates não se pode esperar grande coisa, mas mesmo assim não deixa de espantar pela leviandade. Em sua defesa, Lello diz que escreveu "involuntariamente", que se soubesse que era pública diria que "o presidente devia ser mais abrangente nos seus convites"...involuntariamente, quando se publica numa página visível por milhares? Além de grosseiro, o deputado do PS faz das pessoas parvas com as suas desculpas esfarrapadas.



Cheguei a achar que possuía um certo sentido de humor quando todos os anos, no Expresso, dedicava sempre livros a determinadas personalidades que se identificassem com os seus títulos. Provavelmente limitava-se a procurar em catálogos. Mas a situação não incomoda apenas por causa de Lello, que já nos habituou às suas faltas de respeito e aos seus truquezinhos: o problema é que grande parte dos deputados dos principais grupos parlamentares não são assim tão diferentes. A grosseria e a crispação instalaram-se em S. Bento, em boa parte devido ao estilo de Sócrates, mas sem pinga de irreverência ou humor que caracterizavam gente como Francisco Sousa Tavares ou Natália Correia. Os funcionários partidários promovidos à cadeira limitam-se a espalhar ditos sem graça e sem nível. Neste particular, o PS tem dado o maior exemplo, e a sua bancada é uma sombra de antigamente. Vejam-se os principais candidatos pelo Porto: além de Lello, temos ainda o eterno bonzo Alberto Martins e o deprimente Renato Sampaio, outro yes man que mal sabe escrever e cuja ideia mais brilhante que se lhe conhece foi a proposta de proibição de piercings. Safa-se Francisco Assis e pouco mais. Apesar de tudo, ver Ferro Rodrigues e Basílio Horta naquela bancada será um oásis naquela manada de gentinha rasca, constituída por Lellos, Renatos e Telmos. E faço figas para que os outros grupos parlamentares sejam, como me parece que são, bastante melhores.



domingo, abril 24, 2011

O discípulo traído



Na Semana Santa, a notícia de que há um traidor entre um grupo que entrega o meste não podia ser mais oportuna. Mas neste caso, o Judas confunde-se com o Mestre: depois de usar o discípulo para as tarefas mais espinhosas, eis que, quando este assume a única opção possível ao abismo, acaba traído e apunhalado pelos outros - ou remetido ao silêncio.





Fernando Teixeira dos Santos decerto terá aprendido uma grande lição nos últimos dias, antes de se regressar ao seu lugar na Faculdade de Economia do Porto. Espero que o país também, e que os eleitores decidam por fim que o oportunismo puro e a falta de princípios total tenham um custo.


Boa Páscoa a todos.

sexta-feira, abril 22, 2011

A época acabou


Aguento muita coisa, mas não tudo. Desde Agosto que já tive de ver e ouvir muito. Mas esta última é demais. Bem sei que o Benfica 2010/2011 torto nasceu e por isso não podia endireitar-se. Mas uma coisa é não ganhar o campeonato; outra é ficar privado de ir ao Jamor depois de uma primeira mão com vantagem confortável. O jogo da Luz foi mau demais; os dois meses de distância entre duas mãos revelaram-se fatais. Na última semana, o Benfica perdeu Salvio e depois Gaitan, as autênticas "asas" que moviam o seu jogo. Sem eles, perde qualquer eficácia ofensiva. E quando sofreu os golos a equipa mostrou-se apática, sem ideias; quanto ao adversário, e sem desprimor para a forma em que se encontram e a capacidade de "remontada" que apresentaram, tudo lhes correu bem. Depois de terem chegado às meias finais da Taça a jogar apenas com clubes de divisões secundárias, e de jogarem com mais um durante meia hora na primeira mão, beneficiaram de um golo em fora de jogo e das ausências fatais dos argentinos do Benfica. Por isso, e apesar de reconhecer que não estivemos nada bem, também fica um sentimento de alguma injustiça pela não ida ao Jamor (e logo este ano, em que me queria estrear no Estádio Nacional, antes que "ordens superiores" o encerrem). Sim, há alturas em que nada corre bem, mesmo.



Por mim, e depois da desilusão de ontem, esta época encerra aqui. Quero lá saber da Taça da Liga e da Liga Europa, mais a hipotética "final em Dublin" (mas alguém acredita que o Benfica a possa ganhar?). A final era ontem, e não correu bem. Futebol, agora, só o externo, que o português fica para a próxima época.

quinta-feira, abril 21, 2011

Uma patética dor de cabeça


Como se já não bastassem os enganos, falsidades, meias confissões e acusações que rodeiam o actual momento político português, e que só a describilizam internacionalmente, ainda assistimos a todos os OVNIS que nela aterram e cuja surpresa inicial dá lugar a uma espécie de tragédia burlesca.

Quando Pedro Passos Coelho anunciou Fernando Nobre como cabeça de cartaz por Lisboa para as legislativas, espantei-me verdadeiramente. O discurso de Nobre contra os partidos e o "sistema" era tão radical e arreigado que parecia que faria tudo menos ligar-se a uma formação partidária. Assim, a reviravolta intelectual espantou, e o convite parecia uma manobra impensada para ganhar uma fatia dos votos que o dinamizador da AMI obtiver nas presidenciais.



Claro que grande parte das críticas que lhe lançaram a seguir faziam parte de um populismo e de uma maledicência comuns em Portugal. Ao discurso contra os "políticos" junta-se o dos "que vão atrás de um tacho". Se a política partidária precisa de alguma coisa é de gente de fora e sem vícios de aparelhismo, que refresquem os movimentos e tragam mais qualidade aos quadros. A turba que enxameia os fóruns da net e o Facebook assim não o entende, e acha que quem vai para a política é porque é "malandro" e "quer o tacho". Por norma, entendo que quem vem com a conversa dos "tachos" é porque deles tem inveja, mas por incompetência, ignorância ou total falta de preparação (até para militância partidária), não chega lá perto e responde com calúnias coletivas.


A ideia de agregar gente sem vínculo partidário é boa, mas neste caso, a opção escolhida tem-se revelado desastrosa. Além do discurso anti-partidário (outrora) recorrente e dos múltiplos apoios anteriores a figuras de diversos quadrantes políticos, Nobre tem ideias nebulosas ou vagas, que roçam a contraditoriedade e que pouco têm que ver com o PSD. Aliás, as suas declarações afirmando que desconhecia o programa do partido laranja são outra argolada tremenda.


A história da presidência da Assembleia da República é outra fábula difícil de crer. Não só seria absurdo colocar em tal cargo alguém sem qualquer experiência parlamentar, como é impossível assegurar a sua eleição. E pelas intenções reveladas pelos partidos representados, "impossível" é neste caso o termo indicado. Não sei quem teve esta brilhante lembrança, se Passos Coelho ou quem quer que fosse, mas de todos, é o maior tiro no pé. E Nobre continua a não ajudar, dizendo que renuncia ao cargo de deputado se não chegar a ser a segunda figura do estado. Provavelmente pensou que seria a oportunidade de chegar a Belém em dias de ausência de Cavaco Silva. Seria a forma mais tranquila, mas pelo meio esqueceu-se dos necessários "requisitos formais".

Agora, ouve-se António Capucho dizendo (com acerto) que reconhece o seu valor à frente da AMI, mas não a sua capacidade política. Foram talvez as declarações mais sucintamente esclarecedoras sobre o caso.

A ideia muito particular de "missionário político" de Nobre ainda vai dar muitas dores de cabeça ao PSD.


PS: em compensação, as escolhas de Carlos Abreu Amorim (desconheço as suas ligações a Viana)e de Francisco José Viegas (um duriense com vivência transmontana) pareceram-me muito felizes.

terça-feira, abril 12, 2011

12 de Abril de 1961

"Contemplo a terra. Só posso exprimir com uma palavra: júbilo".
Desventuras da política portuguesa

O fim de semana político que passou não deixa antever nada de bom. O congresso do PS não passou de uma união de forças em torno do líder, com brados guerreiros ribombando pelas estruturas da Exponor, promessas de sangue, estandartes e bandas sonoras de épicos. Dizia Daniel Oliveira, com certa piada, que cetos congressos do PCP eram um modelo de pluralismo ao lado daquele, e que só faltava aparecer um qualquer membro da família Kim Il da Coreia do Norte. E até Mário Soares reconheceu que aquilo era mais um comício do que um congresso onde se debatiam moções...


Tivemos também as infelicidades de Cavaco, ao dizer que "teria de haver alguma imaginação de Bruxelas" para encontrar "um programa interino de ajuda financeira a Portugal". Na volta, teve de ouvir a sibilina e grave resposta do comissário Ollie Rhen: "Já mostrámos muita imaginação e especialmente responsabilidade na forma como devemos superar as dificuldades económicas de Portugal. Preferia não ter um diálogo público todos os dias com os actores políticos portugueses, por quem tenho grande estima"


No meio disto tudo, o líder da oposição lembrou-se de convidar a mais incrível alternativa possível (de quem ninguém se lembraria) para encabeçar a lista do PSD por Lisboa. Por mais um punhado de votos, mas pensando num repente, com o plano em cima do joelho.


E o FMI já aí está.

sábado, abril 09, 2011

Psicadelismo na Laguna Veneta


A propósito do espectáculo The Wall live, que passou por Lisboa há dias, sem que tivesse podido ir vê-lo, perdendo assim muito provavelmente a última oportunidade de ver ao vivo o que restava dos Pink Floyd e seus shows únicos, lembrei-me de um exemplar da megalomania do supergrupo britânico.
No Verão de 1989, os Pink Floyd actuaram em Veneza, para encerrar a tourné do álbum A Momentary Lapse of Reason (aquele da capa da praia com camas a perder de vista). Não na cidade, obviamente, tendo em conta o equilíbrio da Serenissima sobre a laguna, mas num palco-barcaça entre a praça de San Marco e a Giudecca. Entretanto tinha saído Roger Waters, o artífice de The Wall, e David Gilmour, que era já o principal vocalista, liderava agora o grupo.

Naturalmente, acorreram autênticas multidões para presenciar o inédito espectáculo, que reerguia assim o esplendor cénico da cidade dos Doges, há muito que reduzida a uma peça de museu. Ao anoitecer, o psicadelisdmo e o habitual sistema de luzes da banda invadiu a laguna, e o público também. Apinhados na Piazza, nas gôndolas, nas lanchas e demais estruturas flutuantes, centenas de milhares de pessoas viram os Pink Floyd actuar sobre as águas.

O evento seria filmado e ficaria testemunhado em VHS e DVD. Todos os que o viram ficaram com uma recordação memorável. E ao show seguiu-se um enorme fogo de artifício, sobre as águas da laguna. Mas a factura seria pesada para os venezianos: o lixo acumulado no dia seguinte era imenso, alguns canais viraram autênticas latrinas, e acima de tudo a concentração de tamanha multidão teve o efeito mais temido: as estruturas da cidade afundaram-se cerca de 3 centímetros. A partir de então, nunca mais foram permitidos espectáculos tão desproporcionados na Serenissima. A megalomania dos Pink Floyd ficou assim ligada ao afundamento de Veneza e à restrição de grandes concertos.

Como já se disse, ficou o registo em video. Nunca o vi, a não ser em excertos do Youtube, mas conto assistir qualquer dia a uma transmissão.


quinta-feira, março 31, 2011

E continua a guerra, agora com a NATO ao barulho

Deixa-me intrigado, a forma como está a ser aplicada a Resolução 1973 da ONU, aprovada há menos de duas semanas. O que nela constava era a imposição de uma zona de exclusão área, que impedisse a aviação líbia de bombardear os insurgentes, a protecção dos civis e o embargo de armas. Como se vê de há 15 dias para cá, a coisa é um bocadinho mais extensiva do que isso. A zona de exclusão aérea foi decretada, impedindo que a aviação kadhafiana continuasse a bombardear os revoltosos. Depois, as esquadrilhas combinadas de França, Reino Unido e Itália desbarataram as colunas de blindados que se preparavam para o assalto a Benghazi, impedindo um longo cerco, uma dura batalha e um provável banho de sangue. A rebelião/revolução agradeceu. Desde aí, a aviação multinacional tem bombardeado constantemente Tripoli e as forças do regime, sejam terrestres, navais ou aéreas. Kadhafi, que estava prestes a desbaratar o inimigo interno (depois de todos profetizarem o seu fim próximo), teve de recuar e assistir ao rápido avanço dos rebeldes, cobertos pela aviação em seu socorro. A sua cidade natal de Sirte, que lhe permaneceu fiel, esteve quase a cair, mas resistiu. Ao mesmo tempo, reocupou Ras Lanuf, que tinha sido tomada pelos rebeldes, caído de novo em poder "verde" e reconquistada pela revolta.

No meio desta confusão sangrenta, que certamente não poupará as cidades líbias da quase destruição, a NATO e a Liga Árabe têm tomado posições ambíguas. Uns acham que é suficiente a vigilância aérea; outros, que há que prestar auxílio mais eficaz aos rebeldes. Há mesmo uns que defendem uma intervenção terrestre, directa, se bem que esta posição seja posta de parte pela maior parte dos estados envolvidos. Não admira: as intervenções na Afeganistão e sobretudo no Iraque tornaram este tipo de acções muito impopulares (e no mundo árabes mais ainda), e a crise económica não permite muitas aventuras custosas. Mesmo que se argumentasse com uma interpretação extensiva da resolução 1973 e o apoio da Liga Árabe. Seria o primeiro passo para uma violenta retaliação.

O que é irónico é que os que bombardeiam o regime de Tripoli sejam precisamente os que tinham relações mais próximas com o Mad Dog. Ver Sarkozy, os britânicos, e acima de tudo a Itália (quando Berlusconi outrora andava de braço dado com Kadhafi) declarar que o seu regime é ilegítimo e que é preciso "negociar a saída", ao mesmo tempo que reconhecem o novo "conselho de Transição" líbio, é demonstrativo da mais despudorada realpolitik e de uma fuga para a frente pessimamente disfarçada. Até se percebe. Quando viram a rebelião às portas de Tripoli, pensaram que o regime estava por dias, e aproveitando a sua feroz repressão, apressaram-se a apoiar os "desejos de mudança", "respeito pelos direitos humanos e pela democracia", etc. Só que vos ventos mudaram, e observando a recuperação dos homens de Kadhafi no terreno, ao mesmo tempo que as tribos reafirmavam a lealdade ao "Guia da Revolução", deram-se conta de que as coisas se complicariam doravante nas relações diplomáticas com a Líbia, e que a sua confiança foram definitivamente minada. Como reagiria Kadhafi áqueles que lhe retiraram o apoio, depois de esmagada a revolta? Virar-se-ia ainda mais para o resto de África, ou pra a China? Retomaria o apoio ao terrorismo? Seria sempre uma situação demasiado embaraçosa para a NATO (que assumiu o comando das operações, para grande alívio dos Estados Unidos) e Liga Árabe.

Por essa razão, interessa acima de tudo dominar o regime verde e acabar com o poder da família Kadhafi na Líbia. Os ataques aéreos cumpriram a sua parte, mas se isso, só por si, não for suficiente - e pela desorganização dos rebeldes, parece não ser - o mais provável é que se comecem a distribuir armas mais eficazes, mesmo que os destinatários não as saibam usar devidamente. Com o apoio dos meios da NATO, que não dos efectivos, os revoltosos têm francas possibilidades de derrubar o regime, sabendo-se que Kadhafi nunca se renderá. Mas com a conquista e reconquista sucessiva do território, isso arrisca-se a levar umas boas semanas. Entretanto, a cotação do petróleo vai subindo.

Boas e más novas nas artes portuguesas

É sempre bom saber que mesmo no meio da tormenta de juros crescentes e cortes de rating, e na crise política vigente, ainda há reconhecimento pelo que de melhor se faz em Portugal.




sexta-feira, março 25, 2011

A Morte de Sócrates, por Jacques-Louis David. O Mestre explicando aos seus assessores e "boys" chorosos que a cicuta, de tipo PEC, é consequência da crise internacional e que a "direita neoliberal" e a "esquerda radical" é que agravaram a situação, apesar de todas as Apologias e virtudes filosóficas (TGV, Magalhães, "racionalização das estruturas escolares", etc).
A maior irresponsabilidade

A cara de pau que o núcleo duro socratista assume quando fala na "irresponsabilidade da oposição" seria uma boa piada se a situação não fosse tão grave. Se houve irresponsáveis foram os que permitiram que a situação financeira, política e moral chegasse a este ponto. Andar a prometer mundos e fundos, e TGVs, e barragens, e aeroportos, e a aumentar salários antes das eleições deu na tenebrosa situação a que estamos sujeitos, quase a pedir ao FMI que venha cá e que os juros monstruosos e incomportáveis baixem um pouco, finalmente. É verdade que culpados houve muitos, antes de Sócrates e os seus muchachos. Mas nunca como aqui a irresponsabilidade e a sede de poder tinham ido tão longe (se bem que Santana Lopes tenha dado mostras disso em apenas seis meses de governação).

Isto verificou-se de forma cristalina na apresentação traiçoeira do PEC 4, passando por cima de acordos anteriores com o PSD sem avisar nem o Presidente, a oposição, ou qualquer outro orgão de sobernia, incluindo o próprio grupo parlamentar. Uma tão grande partida merecia, como mereceu, que toda a gente passasse a desrespeitar o governo e a entender que o prazo de validade se esgotara. Continuo sem saber se Sócrates acreditava que à última o PEC iria passar ou se era uma partida para fugir sob a capa da vitimização (ou reforçar o seu poder numa eventual reeleição). Apesar de muito se falar numa provocação para causar a fuga, talvez a primeira hipótese não seja descabida. A cara dele no debate no Parlamento dizia tudo, o que talvez explique a saída abrupta com menos de meia hora de sessão. Talvez essa imagem seja a mais elucidativa. No momento mais delicado, quando o seu governo corria seriíssimos riscos de caír, quando Teixeira dos Santos começou a falar, o Primeiro-Ministro, com ar vexado, de quem sabia que tudo estava prestes a acabar, abandonou o palco de combate, deixando as tarefas mais espinhosas ao seu mais atacado ministro e a um resistente Francisco Assis. Apesar de tudo, julgava que Sócrates mantinha uma réstia de coragem. Quem não consegue enffrentar os adversários políticos no Parlamento quando está em baixo não se pode vangloriar de enfrentar a "crise internacional". Entre todas as outras, esta terá sido a sua irresponsabilidade mais notória e eloquente.

quinta-feira, março 24, 2011

Os anti-portugueses cá da terra

 
Sobre o discurso de Cavaco Silva dos cinquenta anos da Guerra colonial, fico um pouco dividido. O entusiasmo e a determinação da grande maioria dos soldados que ia para África, onde nunca antes tinham posto os pés, não deviam ser muito elevadas. Nesses aspecto, as palavras de Cavaco foram despropositadas.

Mas piores terão sido as reacções de Louçã e restantes camaradas ideológicos, que logo se apressaram a vir com as palavras de ordem do costume. O "anti-colonialismo" e a "denúncia da fascismo" este sempre presente. Nunca lhes ouvimos, no entanto, uma palavra de consolo a todos os que viviam em África e tiveram de fugir com a roupa do corpo, sob o perigo de acabar a golpes de catana. Como aconteceu às vítimas dos massacres da responsabilidade da UPA de Holden Roberto, detonador da guerra. Também sobre esses não lhes ouvimos palavras de condenação.

Podemos achar que não se conduziu bem a guerra, que Portugal terá sido muito intransigente, que era apenas uma questão de tempo e que as colónias (ou províncias ultramarinas) acabariam por se separar. Da minha parte, acho até que se justificava muito mais a deslocação de tropas para a Índia portuguesa, que não tinha mais a ver com a União Indiana do que com Portugal, e que mais não era do que uma troca de colonialismos.

O que não se pode é negar que as hostilidades em Angola começaram com horrorosos massacres da UPA - depois FNLA - nos territórios perto do Zaire, nos quais morreram milhares de pessoas (brancas e negras), além de uma quantidade infinda de outros horrores. E que perante isso, tornava-se imperioso usar a força e reagir militarmente - alguém acha que se podia simplesmente "negociar" com gente daquela? Ao que parece, há em Portugal quem ache que esses milhares de portugueses mortos nada valiam, e que em nome do anti-colonialismo tudo era legítimo, até as mais horrorosas barbáries. É assim, a "Culpa do Homem Branco" conjugada com "causas nobres" e a "solidariedade dos povos oprimidos": gera as mais ignóbeis criaturas, que não hesitam em trair os compatriotas. Se é que estes os podem tratar assim.

sexta-feira, março 18, 2011

Losing my Religion


Há vinte anos, por esta altura, os REM lançavam o álbum Out of Time, que os catapultou do estatuto indie que ainda detinham para um lugar de topo entre as maiores bandas do Mundo. Mais country do que rock (os dois estilos mais óbvios da banda), a sua popularidade deveu-se muito a Losing My Religion, o primeiro single. A música tornou-se um dos cartões de visita da banda, que chegou a afirmar ser a única que nunca poderia falhar em nenhum concerto, e o seu videoclip era, pelo menos até há poucos anos, o segundo mais rodado de sempre da MTV (o primeiro lugar cabia a Smells Like Teen Spirits, dos Nirvana). E além da importância pessoal que tinha para a banda, nunca deixou de ser o seu single mais popular e reconhecível, um autêntico som de marca.

Provavelmente, e dado o meu escasso interesse por música na altura, não lhe dei grande atenção. Com o tempo, tornou-se uma das minhas canções favoritas. Ouvi-a obsessivamente, decorei a letra e os ritmos, vi-a duas vezes tocada ao vivo nas duas visitas da banda a Portugal, só nunca a aprendi a tocar. O ritmo sulista do bandolim, a melodia serpenteante, a letra que evoca uma utopia perdida ou uma desilusão, o video ousado e barroco, formam todo um conjunto viciante e mágico, uma composição que raramente se consegue juntar.

Já não a ouço tanto, mas ainda hoje é uma das minhas preferidas. As músicas intemporais nunca passam de moda, ainda que passem décadas ou séculos.


quinta-feira, março 17, 2011

Eleito antes da votação


Na crise política novinha em folha causada pela chantagem de Sócrates, ao apresentar unilateralmente novo PEC, ignorando todo e qualquer agente político relevante (e depois de garantir que não haveria mais cortes, embora provavelmente estivesse a falar do golfe), houve um pormenor que só hoje me fizeram notar. Na entrevista dada à SIC, o ainda PM diz que vai ser candidato pelo PS às futuras eleições legislativas. Todavia, ainda nem se realizou o próximo congresso do partido, para o qual outros candidatos já se perfilaram. Bem sei que as hipóteses de destronar Pinto de Sousa da liderança do PS são de 0,0001%, mas mandam o bom senso e as mais básicas regras de cortesia para com os adversários que não se considere uma eleição já ganha antes dos votos em urna, a não ser que estes estejam controlados. Mas tais qualidades não abundam em Sócrates. Nem essas nem muitas outras. Mais uma vez, a arrogância e a deselegância (apesar dos fatos "da moda") que lhe são típicas voltaram a sobressair. Não merecemos melhor?

quarta-feira, março 16, 2011

Crepúsculo nipónico

Depois do terramoto e do arrasador tsunami, as explosões em centrais nucleares e a ameaça radioactiva que já chegou a Tóquio relembram o pesadelo de Tchernobyl. Faz sentido perguntar que mal terá feito aquele povo a Deus para ser vergastado desta forma apocalíptica. É que além dos desastres naturais, são de novo vítimas, como mais ninguém, da energia atómica, quase setenta anos depois do Enola Gay. Pode juntar-se a isso a previsível recessão económica. O fantasma de Hiroshima e Nagasaki paira de novo sobre o país do sol Nascente. E os japoneses bem precisam do seu brilho e da sua energia, muito menos danoso que a atómica, no momento mais difícil que atravessam desde a Segunda Guerra Mundial.

PS: facto raríssimo, o Imperador falou em directo na televisão, demonstrando a sua enorme preocupação pelas catástrofes que assolam o Império do Sol Nascente. E quando o soberano se dirige directamente pela comunicação social aos japoneses, é manifestamente um sinal de apreensão e de gravidade extrema.


terça-feira, março 15, 2011

O regresso da manifestação dos "rascas"


Estive na manifestação "apartidária, laica e pacífica" da "geração à rasca". Estive seriamente para não aparecer, pela mensagem vaga e ambígua, pela falta de substância já esperada nos protestos e por estar à espera de ver gente que tudo exige e nada quer dar.
Mas à última da hora compareci nos Aliados - porque a multidão já tinha transbordado do "ponto de encontro" inicial, na praça da Batalha. Fi-lo porque apesar de tudo a maior parte dos que protestavam faziam parte da "Geração Rasca", da qual sou membro de pleno e flagrante direito, uma vez que participei nas manifestações contra as provas globais no longínquo Maio de 1994, cujos excessos escritos e escatológicos levaram a que no dia seguinte Vicente Jorge Silva inventasse a classificação.


Estava realmente uma enorme multidão, de várias idades e aparências. Claro que o que se fazia notar eram os cartazes mais ousados ou originais, e, para não variar, os sempiternos anarquistas, que entre tranças e fumos duvidosos não perdem uma ocasião para reclamar pela "auto-gestão" e clamar contra a "exploração capitalista". Havia quem levasse animais de estimação, bandeiras, fatiotas bizarras e as suas reivindicações pessoais em cartaz. Havia também um microfone para que todos os que o desejassem pudessem falar. Aí percebia-se melhor o ecletismo da massa. Havia quem se queixasse de não arranjar emprego e andar a recibos verdes, e também quem carpia mágoas por não conseguir montar a sua própria empresa ("o simplex não passa de uma treta", ouvi a certa altura a um orador). Havia empresários desiludidos e ociosos exigentes. Provavelmente estariam ali ideias muito divergentes quanto às soluções para que a sociedade se "desenrascasse" (e também quem queria simplesmente acabar com a sociedade, como os anarcas). Por fim, havia os curiosos, a tirar fotografias, num misto de solidariedade e curiosidade sociológica.


Devo dizer que não me senti exactamente entre "os meus", até pelos poucos conhecidos que encontrei. Muito do que vi e ouvi nada tinha a ver comigo nem o defendia minimamente. Mas toda aquela multidão, a do Porto e de todas as outras cidades, por muito vaga e equívoca que estivesse, não pode ser ignorada nem menosprezada. Representa boa parte da sociedade civil activa (oportunismos das juventudes partidárias à parte), uma fatia de leão da faixa etária entre 20 e 35 anos, e personifica um mal-estar colectivo que se detecta em qualquer café de bairro ou transporte público. É a esse mal-estar que, embora pacífico, convém estar atento e dar-lhe muita atenção, sob pena de se tornar explosivo num futuro não muito longínquo e de uma geração inteira se perder. A ela e ao país.

segunda-feira, março 14, 2011

Não há solidez que resista ao inevitável



 


As imagens desastre de proporções bíblicas que atingiu o Japão são um murro no estômago. As primeiras notícias que ouvi na rádio já eram inquietantes, e falavam de um enorme terramoto, com "refinarias a arder" e tsunamis. Mas com a terra a tremer estão os nipónicos habituados, como se regista pelos edifícios de pé e pela forma com as pessoas reagiram, sem entrar em pânico, com aquela paciência muito oriental e uma competente preparação para este tipo de acidentes (já os ocidentais tiveram reacções de provocar ataques de coração). Nota-se como as estruturas estão prontas para responder a terramotos desta magnitude, sem querer sequer fazer comparações com o de um estado destruído como o Haiti, no ano passado, mas já podendo fazê-las com o da Nova Zelândia, do mês passado.

Já o tsunami é matéria para a qual não há resposta. A massa disforme e imparável que tudo arrasta e tudo leva à frente arrasou a costa nordeste do país de uma forma que não se imagina nem nas piores previsões. As notícias de povoações inteiras engolidas e comboios e barcos desaparecidos chocam pela sua dimensão e fazem esperar o pior quanto ao número de vítimas. Como se não bastasse, e além das refinarias que arderam, duas centrais nucleares foram atingidas, uma delas a escassos duzentos e tal quilómetros de Tóquio, e deixaram escapar nuvens radioactividade. Não houve mal que acontecesse aos japoneses. Em contrapartida, os portugueses lá residentes parecem estar a salvo, embora ainda haja algumas dúvidas.
Pode-se impedir que um terramoto cause estragos, reforçando estruturas, pode-se fazer protecções contra tempestades e o mar revolto, pode-se ir para longe de vulcões. Mas um marremoto e consequente tsunami é coisa a que quem habite no litoral não consegue escapar. Por muita tecnologia que se tenha - e os japoneses percebem bem do assunto - e por muito ciência que nos proponha a vida eterna, mesmo que nos tornemos biónicos, há coisas contra as quais não se pode lutar e não é possível escapar. O homem é mortal, é frágil, e definitivamente não é Deus, por muito que o queira.
 

sexta-feira, março 11, 2011

A sorte de Galliano



O caso mundano deste curto ano é até ver o de John Galliano, com as suas declarações pretensiosas e voluntariamente insultuosas. É óbvio que estava com uns valentes copos de absinto a mais, e escândalos no mundo da moda por causa dos inúmeros vícios que o atravessam são tão corriqueiros quanto os desfiles. Em parte vive disso (as revistas "cor-de-rosa", por exemplo). O problema é que Galliano afirmou que "ama Hitler", o que será uma das declarações mais politicamente incorrectas dos nossos tempos (podia também dizer que amava W. Bush ou Bin Laden que daria o mesmo), e que os pais da sua interlocutora deviam ser "gaseados". Para além de toda a carga chocante das declarações, o que causa espanto é que sendo um indivíduo notória e ostensivamente gay, até mesmo queer, não se dê conta de que se tivesse vivido nos anos quarenta na mesmíssima Paris que lhe serve de casa, teria ido parar a um campo de concentração com um triângulo cor de rosa na lapela e dificilmente regressaria para contar. Até porque na altura as SA do brutal e homossexual Ernst Röhm já tinham sido varridas do mapa. A sorte do estilista gibraltarino é que nasceu e viveu em épocas depois do desaparecimento do seu admirado Hitler.

quarta-feira, março 09, 2011

Óscares 2011 (com atraso)


Como a colheita não é das melhores de sempre e a manhã não perdoa, vi apenas uma pequena parte dos Óscares deste ano. Ao contrário do que se opinou, achei que o par Franco-Hatthaway esteve bem, e gostei de ver o regresso das rábulas dos apresentadores fazendo medleys participativos dos filmes, a la Billy Cristal. Deu ainda para testemunhar as entregas dos galardões aos secundários, a (para mim desconhecida) Melissa Leo, que ainda levou um piropo (absolutamente certeiro) da lenda viva Kirk Douglas, e a Christian Bale. Não vi o filme de ambos, mas os habituais desempenhos do rapazinho de O Império do Sol fazem com que o Óscar seja merecido ao menos como prémio de carreira. Pena é que, fazendo a conjugação com quem tem ganho ultimamente, ajude a contrariar fortemente as minhas previsões nestas categorias.
A tradução que vi depois é que deixou muito a desejar. Entre outras imprecisões fartei-me de ver nas legendas o nome de "Trent Reznoe", quando o galardoado com o Óscar de Melhor Banda Sonora Original se chama Trent Reznor, e nem é assim tão pouco conhecido.


Devo dizer que dos principais só vi A Rede Social e O Discurso do Rei. Da génese do Facebook pode-se dizer que é um filme bem montado, bem interpretado, sem falhas, embora longe de ser uma obra-prima. Mas não deixa de ser um mostruário interessante da vida contemporânea, dos seus valores e das suas obsessões e oportunidades. Curioso como David Fincher, realizador que ficou conhecido por fitas como Seven e Alien, tem estado tão mais suave (ou menos maníaco) nas suas últimas obras. A Rede Social não teve grandes triunfos, tirando o argumentista Aaron Sorkin, mas não saiu de mãos a abanar, como Indomável, que levou um banho.
O grande vencedor, O Discurso do Rei, não é, como já se dizia, um enorme filme. Pega numa faceta, ou numa "aresta" de Jorge VI de Inglaterra (e todas as outras possessões) - e aproveita-a para a mostrar como um obstáculo intransponível ultrapassado pelo monarca na hora de maior necessidade. O Rei, que não tinha sido educado para reinar, teve de suportar o caso de Eduardo VII, a sua estroinice que o levou a casar com a impopular Wallys Simpson, e as suas ideias políticas, demasiado simpatizantes do emergente líder alemão, que se tornaria num implacável inimigo do seu país. O ambiente é um tanto sombrio, com cores carregadas, como que a ilustrar as incertezas e angústias daquele tempo, em especial do seu protagonista, que parece carregar todas as desgraças que se abatem sobre o Império Britânico. O filme pega nesse episódio pouco conhecido e mostra a dura luta de Jorge VI (Albert), os seus traumas de infância, em boa parte devidos ao pai Jorge V, a sua amizade com o "professor" Logan, e a determinação de Elizabeth, sua mulher, que ficou para sempre conhecida como Rainha-Mãe. Foca também o caso Eduardo VIII-Simpson, e a discreta influência de Winston Churchill (embora não a sua fidelidade para com o Rei que abdicava).
A tenacidade e as indecisões (ultrapassadas) do Rei são o tema central do filme. A sua união com o povo britânico, ao lado do qual esteve sempre durante os anos de chumbo, é percepcionada no fim. Uma espécie de homenagem ao casal real da Segunda Guerra e a Logan, com alguns temas que podiam ser explorados com menos pressa, que merece umas três estrelas e meia, quatro, mas que no mesmo britishgenre fica um pouco atrás de A Rainha.

A título de curiosidade, Helena Bonham Carter, que interpreta o papel da Rainha, é bisneta de Asquith, o Primeiro-Ministro liberal sob o reinado de Jorge V (sogro da sua personagem).

terça-feira, março 08, 2011

Carnaval

Nesta época de excessos, há máscaras para todos os gostos, algumas delas com poriginalidade e graça. Mas faz-me espécie ver tantos homens vestidos de mulher, em especial de freira. Fico sempre com a ideia de que falharam uma carreira, ou então guardam as suas obsessões e taras durante todo o ano e libertam-nas neste dia.
Outra coisa que provoca estranheza é a invasão de samba e imitações de brasileiras numa época ainda tão fria, como se desfilassem noutro hemisfério e as festividades não fossem também adaptadas ao clima e à estação.
Carnaval português que se preze é assim.

quinta-feira, março 03, 2011

Já não é só uma revolta, é uma guerra

O regime verde do coronel Kadhafi vive, ao que tudo indica, os seus últimos dias. Acantonado em Tripóli, quando as cidades da região foram conquistadas pelos revoltosos, resiste graças às tropas de elite ainda fieis e aos mercenários contratados por chorudas somas na Nigéria, Burkina Faso ou Congo. Todos os dias soldados regulares e polícias passam-se para o lado dos revoltosos, que se apoderaram dos depósitos de armas existentes em Benghazi e em toda a Cirenaica.


Há dias, Kadhafi, que desde o início dos tumultos apenas aparecera fugazmente na televisão em duas ocasiões com fraca imagem, surgiu em finalmente em público. Da muralha do castelo de Tripoli, rodeado pela sua guarda pretoriana, falou aos seus apoiantes que na Praça Verde, dominada pela fortaleza, ostentavam a bandeira verde do regime e inúmeros cartazes com a efígie do "guia da revolução". Muitos seriam sinceros devotos do "cão raivoso", mas como sempre acontece nos ajuntamentos organizados por ditaduras, havia inúmeros"profissionais" a soldo. Notava-se a certa altura nas imagens televisivas nalguns negros envergando sweats desportivas da Juventus, o que condiz com a descrição dos mercenários africanos, além de que os Kadhafi têm acções na Vechia Segnora de Turim. Ou seja, os apoios fictícios também partem de gente de fora do país.

O comício parecia ser o canto do cisne do regime que dura há já mais de quarenta anos. A "comunidade internacional", a ONU, União Europeia, Estados Unidos, Rússia, etc, todos se apressaram a condenar os actos de retaliação das forças leais ao que resta do estado, por vezes com encantadora hipocrisia, como bem demonstrou o Ministro Luís Amado ao pedir o fim "do anacrónico regime"... cujos quarenta anos ele tinha comemorado na tenda de Kadhafi. Só mesmo o patético Hugo Chavez e o calculista macróbio Fdel Castro vieram em socorro do dilecto amigo, proferindo discursos contra a "tentativa de ingerência ocidental". Se do cubano não se espera nada, quem tinha ainda ilusões sobre Chavez bem pode perdê-las definitivamente.

Mas apesar de toda a oposição internacional, da expulsão da Líbia da Comissão dos Direitos Humanos da ONU (uma aberração que deveria servir de exemplo para que no futuro se definam melhor os estados a compô-la), da crise humanitária provocada pelo Êxodo em massa de líbios e estrangeiros, das inúmeras deserções e do cerco cada vez mais apertado, Kadhafi conseguiu resistir nos últimos dias em Tripoli e Sirte, e já lança contra-ofensivas a leste, com recurso à aviação e à artilharia pesada. Hoje discursou perante algum público, comemorando os 34 anos da Jamahiriya, altura em que "entregou o poder ao povo" ficando apenas como "guia da revolução", e ameaçou uma hipotética intervenção internacional com "milhares de mortos". De um psicopata como Kadhafi é de esperar tudo, até que tenha secretamente conservado armas de destruição massiva alegadamente destruídas, e usá-la em último e desesperado recurso. A sua aviação militar aí está para mostrar que não se importa de destruir toda a líbia para conservar o poder. E o que é realmente mau é que tem de se dar razão ao seu filho mais velho (e putativo sucessor), que preveniu no início da revolta para a probabilidade de uma guerra civil. Ela aí está, não sabemos por quanto tempo mais, e pior ainda, quem a vencerá.

quarta-feira, março 02, 2011

Uma semana muito proveitosa

Os triunfos recentes do Benfica foram particularmente saborosos, todos por razões diferentes.


O do Sporting terá sido o mais tranquilo, conhecendo-se a crise aguda por que passa a agremiação verde, mas é sempre gratificante ganhar em casa do eterno rival, e a jogar meio desafio com 10 jogadores. Mas como ouvi dizer, este ano todos ganham em Alvalade excepto o Sporting.


O jogo do fim de semana acabou numa emoção tremenda. Houve de tudo, mas o "minuto a minuto" ainda proporcionou mais emoção. O Benfica a todo o vapor tentando marcar, o guarda-redes maritimista a defender o possível e o impossível, o golo do novo reforço portista a gelar a Luz, Salvio a repor o empate, e mesmo ao cair do pano, Coentrão a fazer explodir uma Luz apinhada, quase se afogando no meio da turba para a qual correu para festejar. E ainda houve tempo para confusões e empurrões. Todos os ingredientes dignos de um grande jogo.




Mas a mim, deu-me mais alegria a vitória em Estugarda, a meio da semana. É verdade que o clube da casa, mormente jogar no imponente estádio Mercedes-Benz, não é o que era há três anos, quando ganhou a Bundesliga, capitaneado por Fernando Meira, e até está muito mal colocado no campeonato. Mas clube alemão é sempre complicado. E mais do que ultrapassar a eliminatória, com mais calma até neste jogo fora, o importante é que se matou definitivamente o borrego, afastando-se duas maldições. Sim, duas: a primeira, mais urgente, era a que revelava o Benfica nunca tinha ganho em solo alemão; a segunda, para os esquecidos, era de que além de ter sido batido por pesados 3-0 em tempos de Trapatonni, o SLB perdeu precisamente neste estádio de Estugarda, em 1988, perante o PSV, a oportunidade de se sagrar campeão europeu pela terceira vez. O penalty do Veloso, aquele terrível momento de desinspiração de uma chuteira...Mas graças aos dois secos de Salvio e Cardozo, são tempos e dificuldades que já lá vão. Não há maldição que sempre dure, e um dia também a de Bella Guttman esfumar-se-à.

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Acabem com os "mídia"
 
Uma das coisas que mais solenemente me irrita é ouvir falar dos media pronunciado como "mídia". É verdade que os brasileiros, talvez por influência americana, não só falam como escrevem assim mesmo, com "i" (muitos locutores portugueses cometem esse erro, e por vezes outros ainda piores, como referir a cidade francesa Troyes pronunciando /trói"). Simplesmente, a palavra é latina, não anglo-saxónica, e deve ser pronunciada como tal. Parece que finalmente alguém reparou nisso publicamente. Ricardo Araújo Pereira, na sua crónica da Visão Boca do Inferno de há uns dias, recorda isso mesmo, com o humor oportuno do costume.

As queixas de um dos candidatos acerca dos "mídia" vieram reforçar uma espécie de preceito ligeiramente babilónico que estipula que as palavras de uma língua sejam pronunciadas com sotaque de outra. "Mídia" mais não é do que a palavra latina "media" pronunciada com sotaque inglês. Se optasse pela pronúncia correta "media", o candidato estaria apenas a revelar ao eleitorado que sabia latim. Pronunciando "mídia", mostra que sabe latim e inglês - só com uma palavra. É o máximo de erudição com o mínimo de meios, o que pode constituir vantagem política na medida em que documenta uma capacidade extraordinária para a gestão e aproveitamento de recursos.
É isto mesmo. Aprendam, senhores lusófonos.

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

O regresso do "cão raivoso"

A repressão dos rebeldes e revoltosos na Líbia, com recurso a mercenários de todas as partes de África e bombardeamentos da força aérea, revela que Kadhafi não deixou de ser o "cão raivoso", como lhe chamou Reagan, que era antes da sua "regeneração" táctica.


Recordemos. Muammar al Kadhafi, filho de beduínos e oficial do exército, chefiou um golpe de estado em 1969 que depôs o velho rei Idris e aboliu a Monarquia. Impôs uma república em que se auto proclamou "guiada revolução líbia", baseada nas "assembleias do Povo", com uma ideologia simultaneamente pan-arabista, socialista e islamita, em que na prática ele era a figura tutelar e inquestionável. Os opositores foram encarcerados aos milhares, e muitos foram publicamente enforcados.
Com os fundos das enormes reservas de petróleo, Kadhafi não apenas se lançou em programas de infra-estruturas e irrigação de campos. Na política externa, apoiou tudo o que era grupo terrorista, dos palestinianos (em operações de grande repercussão, como os atentados nos Jogos Olímpicos de Munique), ao IRA, da ETA aos diversos grupos armados que se opunham a regimes africanos rivais, além de ditadores tenebrosos como Idi Amin. Frequentemente recorria à "prestação de serviços" de gente como Abu Nidal e Carlos, o Chacal. Tornou-se assim um dos principais inimigos do Ocidente, particularmente dos Estados Unidos. A gota de água aconteceu quando uma discoteca em Berlim explodiu, vitimando soldados americanos. O atentado tinha sido ordenado pelo ditador líbio. Os americanos não hesitaram e bombardearam Tripoli e Bengazi, em 1986, neutralizando a máquina de guerra líbia e aterrorizando Kadhafi, que viu o seu palácio ser destruído e desde então passou a habitar exclusivamente em tendas. Esse valente susto parece que produziu os seus efeitos, não sem antes se verificar um último e terrível caso: a bomba que explodiu num avião sobre a aldeia escocesa de Lockerbie, matando todos os seus tripulantes. Depois disso, o coronel líbio apostou numa estratégia de moderação e conciliação, abrindo a economia da Líbia ao mundo e passando a ocupar um lugar "respeitável" entre as nações, como o velho líder excêntrico com trajes típicos e guardado por mulheres oferecendo boas perspectivas de negócio, particularmente do petróleo. Além de se reconciliar com a Itália, a antiga colonizadora, veio a Portugal na cimeira UE-África, em 2007, instalando-se na célebre tenda na forte de S. Julião da Barra. José Sócrates tornar-se-ia então um dos aliados preferenciais na Europa.

Agora, cercado, acossado e ameaçado, Kadhafi regressa à sua faceta mais temida e odiada e reage com extrema violência, o que originou ainda mais tumultos. A Líbia enfrenta uma autêntica guerra civil. Os rebeldes controlam a Cirenaica e a segunda cidade, Bengazi, onde flutua a bandeira da monarquia, e avançam para oeste, para Tripoli, guardada pela guarda pretoriana do regime verde e pelos mercenários. Tudo pode acontecer, desde o esmagamento da rebelião (e os muitos mortos não auguram nada de bom) até ao colapso do regime, cenário em que Kadhafi não hesitaria em rebentar tudo à sua volta, além da divisão do país em duas ou mais partes, dadas as diferenças tribais. Até há pouco mais de uma semana, este cenário era inimaginável.


A rebelião prolonga-se, com um crescente número de vítimas, os estrangeiros fogem apressadamente de barco, o valor do petróleo sobe e o futuro da Líbia não augura nada de bom. O seu coronel "guia da revolução" está disposto a levar o país consigo para o inferno.
PS: perdoem-me a imodéstia, mas ou muito me engano, ou este artigo do Público inspirou-se neste post.

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Trinta anos depois do "23-F"

Passam hoje 30 anos sobre a tentativa de golpe de estado pelos militares comandados pelo tragico e patético Tejero Molina, que tomaram as Cortes espanholas e fizeram os deputados reféns. A 23 de Fevereiro de 1981, a soldadesca aproveitou a sessão de tomada de posse de Leopoldo Calvo Sotelo como Presidente do Governo para raptar o poder legislativo e estabelecer um regime semelhante ao que acabara poucos anos antes. Contava ainda com divisões armadas em Valência e um conjunto de oficiais saudosistas do franquismo.


O sequestro durou todo o dia, mas o Rei frustrou os planos. À noite, Juan Carlos I, trajando o uniforme de chefe supremo das forças armadas espanholas, falou em directo na televisão para o país, mostrando a sua desaprovação ao golpe e reafirmando o seu apoio ao processo democrático. Depois disso, os golpistas desmoralizaram. Não havia mais nada que pudessem fazer. O franquismo esgotava o seu último fôlego, a Espanha consolidava o novo regime e Juan Carlos afirmava-se definitivamente como monarca firme, respeitador das leis gerais e respeitado pelo seu povo.


O mar e as suas razias

As tempestades que na semana passada fustigaram a costa portuguesa, com ondas que chegaram aos dez metros, não pouparam nenhuma região.

As vagas atacaram as dunas de Moledo (que já de si estavam vulneráveis, e que há vinte anos que têm vindo a recuar), derrubaram o passadiço de madeira e a marca das milhas, uma sentinela de pedra que ali estava para lá da memória, e por pouca não fizeram o mesmo ao moinho que serve de abrigo de veraneantes. O mar merece sempre respeito, especialmente no Inverno e em estâncias balneares, mas neste caso, e para quem conhece Moledo, provoca sobretudo temor. As imagens da duna tão frágil e do moinho sobre o precipício são angustiantes. Urge reconstruí-la e devolver a imagem de marca e a dignidade da praia mais setentrional de Portugal.



Fotografias retiradas de A Origem das Espécies.

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Depois de Mubarak

A saída de cena de Hosni Mubarak deixou no ar muitas certezas e algumas dúvidas. As certezas dividem-se em dois grupos de ideias opostas: uns estão certos de que a democracia á ocidental vai frutificar na república árabe, sem sombra de dúvidas; os outros dizem que o Egipto vai ser "o novo Irão", e que lá a democracia com a entendemos é uma ficção. Pela minha parte, prefiro ser prudente. Até agora sempre tinha visto Mubarak como um estadista autoritário mas longe dos piores, e que além do mais travava os avanços do radicalismo islâmico saído da Irmandade Muçulmana, inspirada por Qutb. Aliás, nunca era referido como "ditador" (ao contrário de Ben Ali, por exemplo), talvez por ser o sucessor de Nasser e Sadate. Bastou que o povo viesse à rua para as mais infames classificações lhe caírem em cima.
Certo é que já há muito havia descontentamento, e mesmo muitos do que já estavam acomodados diziam em surdina não gostar do velho militar. Mas tal como ocorreu noutros países, não foram as condições políticas a fazer cair Mubarak, mas a situação económica e a subida dos preços, aliada à corrupção. A revolta atraiu mais e mais apoiantes, perante a placidez do exército. Depois de muitos contorcionismos, Mubarak caiu mesmo. Não nos esqueçamos de outro precedente, também ele num grande país muçulmano controlado por militares: a Indonésia. Suharto governou com uma mão bem mais férrea até a situação económica o derrubar.

A situação está demasiado nublada para que se possam fazer vatícinios sem olhar para o lado. A Irmandade Muçulmana é heterogénea, e tanto tem no seu interior radicais que sonham com o Califado (de lá saíram os assassinos de Sadate, por exemplo, que agora estão na Al Qaeda), como pragmáticos que preferem o exemplo turco de Erdogan. Os principais líderes dizem inspirar-se nesta última linha, mas nem isso afasta as desconfianças. Os liberais do Wafd parecem ser poucos, e El Baradei surgiu de repente, depois de toda uma vida de serviços externos na ONU. Desconhece-se absolutamente o que quer a maioria da população.


Entre os medos de que ocorra o mesmo que no Irão em 1979, surgindo ali uma república sunita (que ironicamente seria um rival de peso para os persas), ou a chamada de atenção para os democratas-islâmicos turcos, vem-me à cabeça outro exemplo, igualmente turco: o de Kemal Ataturk. Saiu Mubarak, mas as forças armadas controlam a situação e gozam de grande popularidade entre o povo. Provavelmente farão a gestão da casa, e caso achem que há caminho para um regime com um certo grau de liberdade, permitirão que haja eleições mais ou menos livres. Mas não deverão sair de cena. E não sendo permissivos com islamitas, serão também mais duros nas suas posições para com Israel.

Entre euforias e cinismos, pode-se tirar de tudo um pouco e tentar prever esta situação confusa, que não deixará de influenciar todo o Médio-Oriente e o Norte de África.

Ao certo, e das poucas certezas absolutas que tenho neste momento sobre o assunto, é que o editorial do Público de sábado passado - "O dia em que o século XXI recomeçou", "a Praça Tahrir foi o símbolo das aspirações de toda a humanidade", "uma nova geração rejeitou para sempre o autoritarismo e a ditadura", "o 11 de Setembro acabou na Praça Tahrir" - é das coisas mais estúpidas que li nos últimos anos, em todos os periódicos possíveis e imagináveis.
O adeus do fenómeno


Ronaldo, o Fenómeno, o Ronaldinho que encantou Eindhoven, Barcelona, Milão e Madrid, entre outras, o melhor marcador de sempre de fases finais de Mundiais, campeão de Selecções por duas vezes (em 1994 e 2002), anunciou ontem a despedida dos relvados. Um problema de tiróide, que o impedia de perder peso, obrigou à arrumação das chuteiras. As lesões graves que teve na carreira já o tinham remetido para segundo plano nos seus últimos anos. Curiosamente, ganhou quase tudo mas nunca logrou vencer uma Taça dos Campeões Europeus, chegando ou partindo sempre no ano errado. Para a memória fica um dos mais geniais jogadores de sempre, os seus arranques supersónicos, as suas fintas como quem dança samba, os problemas que teve no dia da final do Mundial de 1998 (onde acabou batido por outro gigante da bola, Zidane), as lágrimas quando sofreu uma grave lesão nos ligamentos, a euforia dos golos da final do Mundial asiático. E golos como este, que correram Mundo nos anos em que encantava o futebol espanhol, e que ficaram para a história do desporto.


segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Legado precioso

Os White Stripes decidiram separar-se e encerrar actividades, antes que se tornassem anacrónicos, ou pior ainda, que se "reinventassem" sem ideias. Deixaram-nos no entanto hinos de estádio (literalmente) e algumas obras sonoras e visuais para a posteridade. Nem Kate Moss quis ficar de fora. Vede, confirmai e admirai.


sexta-feira, fevereiro 11, 2011

O triste caso de Augusta Martinho


A notícia da idosa encontrada morta em casa, após nove anos de silêncio, atordoou o país. Desgraçadamente, nem devia espantar muito. O abandono a que são votados os velhos e a enfastiada e emperrada burocracia a que estamos submetidos, os verdadeiros causadores desta descoberta terrível, levam a estes desfechos aberrantes. Não é a primeira vez que ouço falar de pessoas que morrem sozinhas e só tempos depois são descobertas. Mas nunca imaginei que alguém pudesse ficar tanto tempo ignorada para além da morte. O que choca mesmo é a indiferença e esquecimento total a que a idosa esteve votada, tirando uma vizinha ou uma outra pessoa mais escrupulosa.

Nesta nossa sociedade que despreza tudo o que é velho e "do passado" em detrimento do novo e "moderno", que cultiva a juventude esticada ao máximo e a devoção à saúde eterna, os velhos são um estorvo e não ficam bem entre a mobília. Algumas famílias tendem muitas vezes a esquecê-los, e noutros casos nem restam familiares próximos, tendo então de se entregar à sua sorte. Os poucos voluntários que propositadamente os visitam para aliviar a sua solidão não chegam. Muitos vivem no centro das cidades, em casas decrépitas, ou em subúrbios uniformizados e deprimentes, como a senhora deste caso. São apesar de tudo aqueles que vivem nas aldeias e pequenas vilas que recebem mais atenção dos que os rodeiam. Mas com o decréscimo da natalidade e o aumento da esperança de vida, a situação tende a piorar. No futuro haverá um batalhão de idosos a cuidar. Muitos dos que hoje desprezam os velhos muito provavelmente receberão a dobrar o mesmo tratamento. Só se deseja que daqui a uns anos não invente qualquer forma de "eutanásia involuntária" para impedir o colapso da segurança social que restar.
Espero contudo que esta notícia chocante possa servir para alertar para casos semelhantes e para a extrema solidão que acompanha tantos idosos deste país. Quem sabe se a mulher que nem depois de morta teve tratamento condigno possa afinal chamar a atenção pra a indignidade das pessoas mais velhas. E já que (quase) ninguém quis saber dela, ao menos que se recorde que era uma pessoa, e que tinha nome. Chamava-se Augusta Martinho.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

Streap tease com os Smiths

 
Curiosa cena, esta, do filme Closer, a que mais me intrigou quando o vi, há já uns anos. Não me refiro à frase de inteligência evidente e bem menos sincera do que parece à primeira (quem viu a fita perceberá porquê). O que me interessa mesmo para além do diálogo e da perfomance dos actores é o som de fundo. Trata-se de How Soon is Now?, uma das músicas mais emblemáticas dos Smiths. E é curioso, porque o líder desta extinta banda, Morrissey, parece ser  - ou dá a entender que é - um ser assexuado, e nada faria prever que alguma vez as canções dos Smiths, que tanto falam de desilusões amorosas (e muitas delas foram expoentes urbano-depressivas dos anos 80), pudessem ser escolhidas como música de fundo de uma casa de streap. Mas, neste caso, as letras angustiadas e a música tortuosa de How soon is Now, com os seus riffs industriais e a voz sofredora de Morrissey, combinam perfeitamente com a cena, e particularmente com o estado de espírito da personagem de Clive Owen, que já não sabe em quem confiar, ou no que acreditar. É uma banda sonora inesperada, mas dificilmente poderia ser melhor apanhada.


quarta-feira, fevereiro 02, 2011

O futuro da república do Nilo


Acompanho a par e passo a situação no Egipto. Hoje, no Cairo, em Alexandria e noutras cidades, ultrapassou-se em muito o milhão de manifestantes previsto. Hosni Mubarak tenta ganhar tempo, mas recebeu um ultimato para se retirar até sexta-feira. Depois disso, ninguém sabe o que se passará. Certo é que os egípcios ja passaram por convulsões, como a revolução de 1952 ou a nacionalização do Sueza, ambos protagonizados por Nasser, até hoje um herói nacional.

A oposição ao seu regime está momentaneamente unida, dos liberais do Waft até à poderosa Irmandade Muçulmana, organização inspirada por Qutb, o teórico do moderno jihadismo. El Baradei, pelo prestígio internacional conquistado, parece ser o rosto da liderança desse movimento remendado. Mas ainda é cedo para saber o que vai emergir. Certo é que este movimento é irreversível e algo vai mudar no país. Há dois cenários que se colocam, e todos fazem os seus vaticínios.

OU
David Luiz
Sabia que David Luiz sairia em breve, mas já pensava que só seria no fim da época. Mesmo em cima do fecho do "mercado de Inverno", o nosso "macarrão" deixou a Luz e mudou-se para a nevoenta Londres e para os Chesea de Abramovic, de novo em grande prodigalidade em jogadores. Se do ponto de vista é satisfatório (restando saber o que vale o trinco Matic que vem envolvido no negócio), desportivamente é uma péssima notícia. Uma das regras de primária dos clubes que querem ganhar é jamais venderem jogadores da espinha dorsal no decorrer da época. Vendendo David Luiz, manda-se qualquer hipótese de ganhar um título às malvas, a começar pela Taça de Portugal, troféu que gostaria tanto que regressasse à Luz este ano. O jogo no Porto está entregue ao gang de Villas-Boas, e bom será se o resultado for menos pesado que o de Dezembro. Agora, com este rombo na defesa, há que dizer adeus aos títulos e segurar o segundo lugar, tarefa menos complicada. Já se provou que Sidney não é o companheiro ideal para Luisão, Jardel só agora chegou e Roderick é mais verde que qualquer comentador sportinguista. O eixo da defesa ficou coxo. Pede-se sorte e reflexos aos guarda-redes.


Quanto a David Luiz, resta-me desejar-lhe boa sorte e agradecer a sua passagem. Um dos melhores centrais que já passou pela Luz, provável titular dos Canarinhos no Mundial de 2014, tem agora a oportunidade de singrar nos azuis de Londres (Fernando Santos sabia do que falava quando o comparava a Ricardo Carvalho). Quando chegou, era promissor e nada mais. Entrou no meio de um jogo em Paris, de má memória, jogou a defesa esquerdo, deixou crescer a melena e na época passada tornou-se um esteio do Benfica. Criou enorme empatia com os adeptos e chegou à Selecção brasileira, mostrando ser de longe o melhor central em Portugal. Era uma questão de tempo até sair. Esse dia, para nossa infelicidade, chegou.

segunda-feira, janeiro 31, 2011

O mito Leonce Viiktorya
Esta história da filha de Luciana Abreu e Djalló se chamar Leonce Viiktorya (é assim que se escreve?) deixa-me de pé atrás. Alguém já viu o nome no registo? Alguém já surpreendeu "Lucy" embalando a filha, e dizendo-lhe "Leonce Viiktorya, porta-te bem senão a mãe não te leva a ver o papá no estádio"? só mesmo no site do casal é que se anunciou tal coisa. Estou em crer que é um qualquer truque para chamar as atenções, e que a pequena tem um nome mais normal, senão vejamos: Leonce é justificada como sendo o cruzamento entre Luciana e Djalló, coisa que qualquer criança da primária sabe que não é; e Viiktorya parece que é "um grito de revolta contra as injustiças do Mundo", ou coisa parecida, embora não explique a nítida influência escandinava. Eu diria mais que é uma razão de revolta futura da pobrezinha Leonce pela injustiça da cruz que tem de carregar. Mas as justificações são de tal maneira absurdas que não dá para acreditar. Por isso, estou alegremente céptico, e acredito que tal nome seja produto de ficção científica.

Enquanto não fica desvendada a questão, sempre se podem colocar outras interrogações, como a da forma correcta como se escreve tal coisa.

A linha interrompida

Como se não bastassem as centenas de quilómetros de caminho de ferro fechados nos últimos vinte e tal anos, deparamos-nos agora com esta indigente história do cancelamento do metro (que já não vai haver) no antigo ramal da Lousã. Parece que se chegou ao fundo da incompetência e do desrespeito do Estado pelas pessoas.

A falta de respeito materializa-se na ideia peregrina de se alterar toda uma linha de quarenta quilómetros que servia vários concelhos da região de Coimbra (e a própria Coimbra), encerrando-a durante anos, mesmo com dúvidas levantadas pelos utentes e pelas autarquias, e trocando-a por autocarros. A incompetência é chegar-se perto do termo dos trabalhos na linha e vir-se com o argumento de que afinal o projecto é "megalómano", custa balúrdios na sua execução e na sua manutenção, e que foi sobrevalorizada em "estudos anteriores". Lê-se e não se acredita que uma coisa destas possa ser afirmada sem o menor pedido de desculpas por aqueles que tiveram a brilhante ideia da conversão total da linha. Ou seja, os responsáveis pelo serviço que as populações nunca pediram abandonam-no a meio como se não fosse nada com eles, sem assumir a mínima responsabilidade.


Nunca andei no ramal da Lousã, mas numa altura da vida ia muito à Lusa Atenas e vi muita gente a despachar-se na estação de Coimbra-A para ir apanhar o comboio para a Lousã na estação do Parque (cheguei a ver uma composição a ir de uma estação para a outra, atravessando o parque e o largo das Ameias, a meio da madrugada, única hora em que tal acontecia). Por isso, o argumento da escassez de gente parece-me pouco sustentável. Mais a mais, os concelhos atravessados pelo comboio, Lousã e Miranda do Corvo, ao contrário do que acontece na maior parte das terras do interior (i.e. para leste de Coimbra) têm visto a sua população aumentar ao longo dos anos.

Já se sabe que o governo e boa parte das "elites" querem, antes de mais, a modernização do país a toda a força, e não hesitam em acabar com qualquer custo superviniente nas linhas férreas secundárias apenas para construir o utópico TGV, esse "cavalo de ferro" branco utópico que se tornou no novo desígnio nacional, mesmo que seja um sorvedouro de recursos. Nos últimos vinte anos foram destruídos centenas de quilómetros de caminho de ferro, muitas vezes sem prévio aviso, com os vagões a serem levados pela calada da noite. Agora, acabam com um serviço, começam a construir um sucedâneo, e deixam as obras em três quartos por culpa de contas mal feitas.


O ministro António Mendonça, um dos maiores erros de casting num executivo onde eles abundam, já veio dizer que não se trata da suspensão das obras, mas da sua "recalendarização" e alteração do programa de trabalhos. é bom que seja apenas isso. Porque se isto significar fim efectivo da linha da Lousã, por pura incompetência dos poderes públicos, será a sua cabeça a rolar. A sua e outras, porque nem pode haver culpas solteiras nem salteadores travestidos de autoridades dos transportes que não saibam assumir as suas culpas.

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Discursos

Nota de referência na noite eleitoral foram os discursos dos candidatos e líderes presidenciais. Entre a falta de respeito de Defensor Moura, a "mesmice" de Francisco Lopes e Jerónimo de Sousa (deve haver um modelo escrito que só é preciso decorar), a esperança hesitante de Fernando Nobre, e o ímpeto do costume de josé Manuel coelho, sobraram discursos de variados tipos. Louçã teve, com aspecto lívido, teve das piores saídas da noite, como referências à "direita a afiar as facas", mas conhecendo o seu historial de acusações e recriminações, nem espanta nada. Tivemos um Manuel Alegre derrotado mas digno, e até com ar mais aliviado, um Portas calculista e um pouco ao ataque, mas sem excessos. Sócrates disse umas vagas palavras de consolação que o seu ar descontraído traíam. Não convenceu ninguém a não ser os incautos, e mesmo esses...Passos Coelho teve o melhor discurso da noite, sensato, frugal, polido, desmentindo as suspeitas que Louçã atirara. Pode não ser um grande estadista, mas é minimamente decente.


O pior ficou reservado para o fim. Cavaco Silva, aplaudido pelas jotas e pelos apoiantes que a máquina da sua candidatura deslocara para o CCB, o monumento símbolo do cavaquismo, resolveu enaltecer certas áreas a que ele próprio jamais deu a atenção devida, como a agricultura, e lançar violentos ataques rancorosos aos que lhe "lançaram infâmias", sem saudar os adversários, antes achincalhando-os sem nunca referir os seus nomes (viu-se no repetido "foram cinco contra um", o que além de não ser verdade revela que, com esta curiosa expressão, Cavaco tem uma noção do cargo ainda mais solitária e unipessoal do que se julgava). O reeleito, que se calou durante grande parte da campanha, como é seu hábito - como se um candidato não devesse ser o mais transparente possível - aproveitou o momento em que já nada lhe podia acontecer, e em que os ex-adversários já se tinham pronunciado, para os atacar da pior forma, alçando-se em grande referência moral, lançando ainda suspeitas de que havia uma campanha da comunicação social contra ele, fonte de "calúnias". Nunca um seu antecessor chegara a tais extremos, nem Sócrates, com a sua "campanha negra" (recorde-se que em 1996, quando ganhou, Jorge Sampaio, entre as comemorações, ordenou que fosse retirado um gigantone que ridicularizava Cavaco Silva). E no fim não houve sequer possibilidade dos jornalistas lhe fazerem perguntas. O pior do cavaquismo (arrogância, covardia, falta de transparência, até o novo-riquismo da pompa) ficou exposto ali.

Mas ao fazer semelhantes ataques, Cavaco mostrou, até explicitamente, que não era presidente de todos os portugueses, mas apenas de uma facção. O embuste do cargo de presidente da república como líder uno de um país e de um povo caiu assim, definitivamente, por terra. Já havia indícios, mas esta é a prova definitiva, magnificamente servida por Cavaco. Um chefe partidário, que é reconhecido pelos seus eleitores e odiado pelos adversários: eis a essência do cargo. A falta de confiança em tal figura cresceu ainda mais com a abstenção e os votos nulos e brancos, de tal forma que há até quem proponha que seja eleito no Parlamento. Seria o total descrédito e o golpe final na 3ª república.

terça-feira, janeiro 25, 2011

Resultados



O país (o minimamente interessado, claro está) fala ainda das presidenciais. Tirando os números alcançados na Madeira por Coelho, os resultados não me espantaram muito. Muitos ficaram admirados com os valores da abstenção e dos votos brancos e nulos, como se não fosse uma forte hipótese que se previa lendo blogues, fóruns de opinião e ouvindo conversas de café e autocarro. Só por grande autismo e enorme afastamento da população é que se pode ficar espantado com esse resultado.






Avaliemos, como é regra, os vencedores. Primeiro, Cavaco, porque ganhou, obteve maioria absoluta dos votos expressos em urna e conseguiu ser reeleito à primeira volta, para seu alívio. Na recta final da campanha parecia estar à beira do desespero, mas para sua felicidade esta acabou antes dos eleitores decidirem prolongá-la por mais uns dias. Em Setembro de 2009, depois da sua declaração de que suspeitava de escutas, muitos previam que a sua recandidatura tinha ido por água abaixo. Prova-se agora que esses juízos eram precipitados.



Depois, Fernando Nobre. Apesar de ter ficado em terceiro lugar, figura na galeria dos vencedores por mérito próprio. Sem apoios partidários, com nítidas dificuldades no início da campanha e vatícinios ruins (sem falar nas sondagens), ficou acima do que todos os números previam. Não vai à segunda volta mas é um sério prenúncio para o futuro, ao conseguir reunir na sua candidatura uma paleta muito diferente de apoiantes, muito, muito para além do clã Soares, que muitos opinadores diziam ser o sustentáculo subterrâneo.E, claro, José Manuel Coelho. O deputado regional da Nova Democracia que se diz comunista (!) entrou mesmo à última na corrida, mas, sem grandes apoios nem sequer direito a participar nos debates televisivos, desenvolveu uma campanha em que era simultaneamente o cómico e a melga de serviço, granjeou simpatias por onde passou e ganhou popularidade em todo o país. Também ele ficou à frente de qualquer sondagem, e, coisa inimaginável, por pouco não ficou à frente de Cavaco na Madeira, com impensáveis 38%. Ainda assim, ganhou no Funchal e nos concelhos mais populosos e arreliou seguramente o convalescente Jardim. É o melhor resultado de sempre da oposição madeirense frente ao eterno soba laranja.




E como de vencedores estamos falados, passemos ao empatado: Francisco Lopes. Só ganhou mesmo entre os seus, mas no geral cumpriu, aguentando o eleitorado PC e saindo da penumbra do comité central. Sempre com ar grave e austero, com raras excepções, que lhe terão valido alguns votos, mostrou estar bem preparado e acabou por cumprir o objectivo de uma votação razoável. Faltou-lhe o da segunda volta...






Derrotados: Manuel Alegre, pois claro. Cinco anos depois, conseguiu a proeza de baixar as percentagens de 2006, ainda que apoiado por PS (que só o apoiou devido ao facto consumado), Bloco e MRPP. Um balde de água fria no último combate do bardo das Trovas do Vento que Passa, mas todo o discurso do "estado social" e causas afins parecia perdido nos anos setenta, como ele próprio, para não falar nas acusações a Cavaco e na vitimização, pouco próprias dele. O tal milhão de votos que reivindicava como seus escapou-se-lhe, talvez porque nunca fosse pertença sua, mas sim de todos os que apostaram numa candidatura independente, e que lhos retiraram quando apareceu o apoio partidário. Só mesmo Alegre e alguns líricos é que não tinham percebido isso. Quebrou-se a ilusão. Saiu com a dignidade possível.






Defensor Moura: a campanha excessivamente centrada no Alto Minho e os excessivos ataques a Cavaco tornaram-no irrelevante e antipático, e castigaram-no nas urnas. Algumas das causas que advogava (descentralização, desburocratização) mereciam alguma discussão, mas nem isso conseguiu. Os amigos dos animais não valeram ao ex-autarca que, sem perguntar nada à população, declarou Viana "cidade anti-touradas". Podia-se ter explorado melhor esse seu lado totalitário, mas já não vale a pena. Terá tempo agora para estudar pela enésima vez a melhor forma de dar solução ao prédio Coutinho.






Ao que parece, também o Ministério da Justiça se pode considerar perdedor, pelas confusões que houve com o Cartão de Cidadão e as impossibilidades decorrentes de votar. Na minha secção de voto vi alguns zunzuns, mas como levei igualmente o cartão de eleitor, não tive problemas. Por isso, não me alongo em situações que desconheço.






Conclusões: vale a pena apresentar candidaturas independentes. As forças partidárias já não têm a força que tinham. Nem as jotas ajudam.



Por outro lado, a abstenção mostrou o quanto os portugueses dão a devida importência À república e aos seus cem aninhos...



domingo, janeiro 23, 2011

Presidenciais
Cavaco ganhou. Ficou abaixo da abstenção e é o candidato reeleito com menos votos de sempre, mas ganhou. Apesar de Alegre ser apoiado por vários partidos, e das candidaturas independentes, que granjearam um boa quota de popularidade. Mas no seu discurso de vitória revelou revanchismo (neste aspecto teve a companhia de Louçã) e falta de sentido de vitória, e, para cúmulo, não permitiu que os jornalistas fizessem perguntas. Mostrou os mesmos silêncios e as questões sem resposta de que já dera mostras na campanha. Mas isso não admira. Já há muito que Cavaco evita as perguntas quando não está para isso, usando os meios que tem mais à mão.




Amanhã falarei mais demoradamente sobre estas eleições.

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Blogoleaks! Escândalo!

A intimidade dos candidatos, completamente devassada por vis armadilhas de luxúria(mais comuns no futebol), revelando terríveis segredos sobre o seu carácter! Ou então não...

domingo, janeiro 16, 2011

Sete


Este blogue faz hoje sete anos. É normalmente tido como número da sorte, e é igualmente uma idade bonita neste meio, que teve os seus primórdios em 2002/03. Pode-se dizer que A Ágora data da segunda vaga da blogoesfera, de princípios de 2004. Olhando para trás, parece-me que começou num tempo já longínquo, com um template sóbrio e primitivo (ainda hoje o é, sem a quantidade de mariquices musicais e de "causas" que apareceram entretanto e que só atrasam a abertura dos blogues), com uma escrita mais gongórica e menos cínica, se é que lhe posso chamar assim. A "filofrancofonia" e o "filohelenismo" reclamadas no início ficaram um pouco gorados (preparo-me mesmo nos próximos dias para escrever uma coisa pouco laudatória da França). A Administração Bush, um dos primeiros alvos, passou à história, mas os seus efeitos permaneceram no Iraque. Hoje sou um pouco mais céptico (não no sentido religioso), e um tudo de nada mais conservador e mais neurótico. O Mundo mudou, a minha vida também, e este espaço, necessariamente, sofreu ligeiras modificações estilísticas e de pensamento. Conservo todavia os principais traços de identificação que marcam este blogue no seu subtítulo - continuo monárquico, católico, benfiquista e discorrendo pontualmente sobre o Porto, depois de uns anos em Lisboa, por razões pessoais e laborais. Enquanto A Ágora existir, continuará assim, à imagem do seu autor.