sábado, junho 04, 2011

O bloco central em Santa Catarina



Na quinta-feira, pretextando uma volta pela Feira do Livro, de novo na placa cinzenta dos Aliados, assisti às duas arruadas dos partidos do Bloco Central. Se à volta dos aliados as jotinhas laranjas, montadas em autocarros de dois andares, já ensaiavam as bandeiras e megafones, em Santa Catarina desfilava o cortejo socialista, com Sócrates acenando no meio. Uma fila extensa, com bandeiras de várias cores (já não apenas o rosa e branco), o mulherio da Sé em transe com o ainda primeiro-ministro, tentando beijá-lo, ou em alternativa a fotografia, e com a secção do PS de Santo Ildefonso a aplaudir à varanda.



Meia hora depois, a caravana laranja, com os mesmos adereços, as jotas em êxtase, mais ainda quando chegou Passos coelho, que mal se via entre as câmaras e os microfones entre os quais se desdobrava-se freneticamente. Deu-me ideia que os cortejos tinham uma extensão mais ou menos semelhante, mas o do PSD era mais compacto, coisa que os jornais no dia seguinte confirmavam. No resto, poucas diferenças. As caravanas lembravam uma claque de futebol, com bandeiras gigantes, os militantes a envergar as camisolas do partido e alguns chefes de secção com microfone a entoar slogans para a turba repetir.






No artigo de Sexta, Vasco Pulido Valente acertava em pleno. De facto, Sócrates anda em campanha rodeado de seguranças, só permitindo alguns furos ocasionais de fãs histéricas. Tudo dentro do profissionalismo eleitoral da "máquina rosa". Como também recorda VPV, Mário Soares andava alegremente no meio da multidão, até na praia fazia campanha, entre os campistas, e por causa disso aconteceu o episódio da Marinha Grande, que lhe deu um élan inesperado nas presidenciais de 1986. Ao colunista só lhe faltou um pormenor: é que tal como Pinto de Sousa, Passos Coelho também anda rodeado de um cordão de forças e de guarda-costas profissionais, que pouco o aproxima dos transeuntes, e que não fica bem com a sua bonomia. Até nisso, as campanhas do centro-esquerda e do centro-direita do bloco central são idênticas.

sexta-feira, junho 03, 2011

Os não representados

 
As campanhas dos partidos com assento parlamentar não fogem muito à rotina habitual, ao contrário do que esperava, tirando aquela renúncia aos outdoors, que sobraram para os pequenos. Estes fazem o que podem. O debate na RTP é uma migalha, mas sempre serviu para ver quem é que tinha ideias para discutir. O MPT de Pedro Quartin Graça , o MEP de Rui Marques, o PPM de Paulo Estêvão e mesmo o MRPP do "veterano" mas sempre activo Garcia Pereira foram os que expuseram ideias mais claras, e acima de tudo mais soluções concretas, por vezes coincidentes. Nem todas serão exequíveis, mas nenhum vende gato por lebre. Ouvi um pouco Paulo Borges, do Partido dos Animais, mas perdi um pouco a paciência com a conversa da união entre todos os seres vivos e que todos os valores dos outros candidatos eram relativos em comparação com o ideal que defendia (estava a ver que ia propor que os animais tivessem o direito ao voto). José Pinto Coelho não deixou de culpar os emigrantes pelos estragos do estrito conceito que ele tem de Nação; quanto ao outro Coelho, o da Madeira, começou logo desde o início a sabotar a conversa com o seu lençol de slogans, ao qual chamava"os ideais de Abril" (calculo o que Quartin Graça não terá aguentado).


As sondagens dão números interessantes aos pequenos partidos, o que pode indiciar que entrem no Parlamento. Garcia Pereira estaria na calha para isso, mas a incompreensível decisão de deixar todos os outros candidatos à sua espera em vão depois de ganhar uma providência cautelar que obrigava as televisões a transmitir debates entre eles pôs seguramente em risco a sua eleição. É pena, porque tanta persistência merecia um lugar ao velho MRPP em São Bento, mas estas atitudes pagam-se caro. Diferente posição teve o MEP, que ganhou idêntico direito ao debate, e Rui Marques não perdeu a sua oportunidade. É possível que tenha marcado pontos. quem sabe se não teremos o verde do MEP e do MPT no parlamento, levando algum ar fresco aos Passos Perdidos.


Quanto a José Manuel Coelho, duvido que a transferência para o invisível Partido Trabalhista, liderado por um senhor chamado Amândio Madaleno, sirva para segurar os surpreendentes votos das presidenciais. No fundo, os candidatos independentes à presidência nunca seguram a sua votação. a prestação no debate também não ajudou.




Ps: a Nova Democracia está transformada em partido regional madeirense, ou a passagem de José Manuel Coelho deixou o vírus da paródia no partido? É que ouvir aqueles tempos de antena, metade eles ocupados por musiquinhas pretensiosamente satirizantes, sem apresentar uma única ideia, tira logo a paciência a um santo.

terça-feira, maio 31, 2011

Bodas de Ouro


Há cinquenta anos, o Real Madrid era apeado do seu trono de único campeão europeu por uns rapazes de camisola vermelha e águia ao peito. E nada voltou a ser como dantes.
Os legítimos detentores da "resolução"



A campanha eleitoral decorre sem grandes rasgos ou novidades de maior, excepto a quase ausência de outdoors. Qualquer declaração potencialmente mais abrasiva ou "politicamente incorrecta" é uma notícia em si. Assim, não surpreende que as respostas de Pedro Passos Coelho às questões levantadas pela Rádio Renascença sobre a questão ao aborto tivessem causado um turbilhão de recriminações, aproveitamentos descarados e urros indignados, não sei se por deficiências interpretativas ou por mera total ausência de aceitar ideias alheias.


Passos Coelho é a favor da actual lei, como esclareceu aos microfones, e não pretende alterá-la mas tão somente melhorar a sua supervisão e analisar se está ou não a ser correctamente aplicada, de forma a não tornar o aborto num meio contraceptivo. Não é, claro está, a minha opinião, já que discordo da actual lei onde o aborto não é meramente despenalizado, tendo-se tornado uma prática comum financiada pelo estado. e como não acho que um feto de 10 semanas seja meramente um apêndice sem vida, moralmente não podia discordar mais disso.

Mas consigo perceber a ideia de Passos Coelho, e mais ainda o comentário de tolerância para quem não pensa da mesma forma: a legitimidade de um grupo que perdeu uma causa em referendo poder voltar a exigir nova consulta popular (com algum intervalo de tempo).


Essa legitimidade é recusada por muitos que defendem a actual lei, e que consideram que qualquer mudança seria um "retrocesso" e o regresso "às trevas" e à "Idade Média". Isso verificou-se no habitual censor da esquerda radical, Francisco Louçã, que acha que a lei anterior "só é defendida por uma minoria ultra-reaccionária" e que Portugal "já está no século XXI". Deixando de lado os habituais determinismos temporais de que "a sociedade não volta para trás", seria bom saber em que é que o coordenador do Bloco se baseia para falar em "minorias" (que de resto está habituado a apoiar, por mais ridículas que sejam). Se pensarmos que em 2007, num referendo cuja abstenção foi superior a 50%, 41% dos eleitores votaram "não", é caso para perguntar qual é o conceito de minorias para Louçã. Semelhante ideia exprimiram outros conhecidos defensores do aborto livre, como Vital Moreira, ainda hoje no Público, e mesmo o editorial deste diário, que ultimamente anda a resvalar para o absurdo.


De todo este "caso" retive duas ideias, cada uma mais inquietante do que a outra: a de que não falta gente que, ao contrário do que dizia na campanha dos referendos, e a fazer fé nos comentários facebookeanos à notícia, são "a favor da aborto", e não meramente à sua despenalização; e que os que se opõem à legalização dessa prática não têm o direito nem a legitimidade de exigir alterações à lei nem um hipotético futuro referendo, ainda que os seus defensores o tenham feito durante anos a fio, mesmo depois de derrotados, porque era preciso "resolver a questão".


Estará a questão resolvida? Quem é que decide isso? Os senhores defensores da "IVG" têm o exclusivo? Às vezes retroceder não é pior, sobretudo se se tiver com um precipício em frente.

sábado, maio 28, 2011

Não culpem o dia


Creio que nunca tinha havido um caso tão grave no Dia da Defesa Nacional como o que aconteceu há dias à rapariga que morreu de uma queda quando fazia slide. Pelo menos é o que asseguram os responsáveis das forças Armadas que, diga-se em abono da verdade, não perderam tempo a ordenar um inquérito imediato do sucedido. Aproveitando o drama do Quartel da Serra do Pilar, alguns "pacifistas" já vieram exigir o fim do Dia da Defesa Nacional (instituído no seguimento do fim do serviço militar obrigatório, e a que todos os jovens têm de comparecer no ano em que chegam à maioridade). Não estão sós: alguns periódicos, como o Público, seguem a mesma ideia, como se pode comprovar na coluna da última página de Sábado deste jornal, que considera que a tragédia "vem dar razão aos que querem acabar com essa absurda obrigatoriedade".


Absurda, pergunto eu? Talvez para os que julguem que o mundo é um lugar muito pacífico, que basta não haver forças armadas e nada, em tempo algum, nos poderá acontecer, que são "práticas medievais", etc. Acontece que apesar de há quase dois séculos não sofrermos nenhuma invasão, não fazemos ideia do que o futuro nos reserva. Podiam também recordar que temos uma grande Zona Económica Exclusiva, que convém vigiar, que não raras vezes a nossa força aérea precisa de ir buscar cidadãos portugueses em apuros, como aconteceu recentemente na Líbia, que fazemos parte de organizações e que temos obrigações a cumprir em intervenções externas, etc. (talvez este último ponto não seja grande argumento perante quem grafite e grite "Portugal fora da NATO!"). em suma, as forças armadas são necessárias e são um dos pilares de um país. não havendo serviço militar obrigatório, entende-se perfeitamente a necessidade de uma jornada semelhante. Não fosse isso, e as novas gerações nem saberiam que temos umas forças armadas.


Para além do mais, os desportos mais radicais, como o que vitimou a infeliz rapariga, nem são obrigatórios. Não houve qualquer ordem no sentido de deslizarem num cordame de aço nos pátios do histórico quartel de Gaia. Por isso, os opositores ou cépticos do Dia da Defesa Nacional gastariam menos esforços se não usassem jargões pouco convincentes (e já agora, se não usassem a torpeza de utilizar dramas para os seus objectivos ideológicos) e se cingissem às verdadeiras causas dos acidentes que merecem um tratamento o mais rigorosos possível, o apuramento de responsabilidades e a certeza de que não voltarão a repetir-se. Tudo resto é conversa fiada de gentinha irresponsável.

terça-feira, maio 24, 2011

Do isqueiros ao i-phone


No soberbo concerto que os National deram ontem no coliseu, não faltou a já previsível comunhão da banda com o público, com o vocalista Matt Berninger a percorrer as coxias e a ir até ao fundo da sala, convivendo efusivamente com a plateia em delírio, e o final acústico, um clímax sereno. Mas dei-me conta de uma marca dos tempos: os tradicionais isqueiros, que costumavam acompanhar as baladas, desapareceram, substituídos pelos telemóveis e i-phones. Não há concerto hoje que não tenha um testemunho de três minutos. As luzes permanecem, mas sutentadas em baterias e digitalismos, e não mais em combustível. Terríveis tempos tecnológicos, estes.




Apenas ficou a faltar isto:

segunda-feira, maio 23, 2011

As gracinhas de Frau Merckel





As recentes declarações de Angela Merckel sobre a quantidade de dias de férias e a idade da reforma em Portugal, entre outros países, trazem consigo os germes do populismo e do autoritarismo encapotado. Fazer acusações tão levianas sem dados rigorosos nem ao menos próximos da realidade mostram que a actual Chanceler continua na senda da caça - ou manutenção - dos votos depois dos desastres que foram as eleições nos Lander, onde até os Verdes suplantaram a CDU, e que não hesita em recorrer ao mais patético populismo para o conseguir, mesmo que os resultados saiam pela culatra, como o provam as imediatas críticas da oposição.


Para além disso, e da óbvia humilhação que tenta lançar aos visados (mostra clarissimamente o que é a solidariedade europeia hoje em dia), arroga-se no direito de dizer aos outros como devem regular os seus sistemas sociais internos. Tanto Portugal como a Grécia, e outros, precisam de fazer reformas na administração pública, segurança social (aqui precisam todos, sob pena de falirem em poucas décadas) e economia, nos seus variados sectores. Mas quem o pode fazer são os respectivos governantes, supervisionados pelos orgãos comunitários competentes, ou por instituições com as quais tenham celebrados acordos, como aconteceu recentemente com o FMI e o BCE. Que Merckel, essa ambígua frau em cujas mãos os alemães depositaram o poder executivo, se ache no direito de mandar bocas para o seu eleitorado sem sequer estar na posse de dados válidos, demonstra apenas mais uma vez esta tendência alemã de viragem para o autoritarismo, não já com Anchluss e Panzers, mas enviando ordens económicas de longe, desdenhosa e altiva. Khol e Schmidt, estadistas com obra, bem se fartam de dar preciosos avisos, mas esta Bundesrepublik parece bem diferente da que existiu nos últimos sessenta anos, e certas decisões da política externa, como o veto no conselho de Segurança da ONU à intervenção na Líbia, são mais prova cabal disso mesmo. Fazer comparações com o Terceiro Reich será abusivo, mas o vírus autoritário e expannsionista, ainda que sob outras formas menos belicistas, está lá.


Bem esteve o MNE ao chamar o embaixador alemão para lhe comunicar o desagrado com a gracinha de frau Merckel. Há um limite para tudo, mas nem sempre os teutões o respeitam.

quinta-feira, maio 19, 2011

Boataria

Ouvi falar, nos últimos dias, da "ausência do Benfica de Dublin". Quem disse?


terça-feira, maio 17, 2011

Sarko, le rigolos, ou os pecados de DSK?



O escândalo Strauss-Kahn apanhou toda a gente desprevenida, excepto os que lhe conheciam a fama. Lê-se um pouco de tudo, desde os que conheciam e já temiam as suas investidas bruscas (como Sarkozy) sobre o "sexo fraco", aos que rapidamente se apressaram a bradar que tudo não passava de uma conspiração para arrasar a carreira de DSK. Mas de quem? De Sarkozy, que assim afastaria o seu provável adversário nas presidenciais, com enormes probabilidades, segundo reza(va)m as sondagens, de o retirar do Eliseu, como não acontecia desde 1981? Dos Estados Unidos, que urdindo um golpes de cadeiras no FMI, conseguiriram tirar um europeu - para mais um francês - da cadeira da famosa instituição financeira? De inimigos internos no PS francês?


Desgraçadamente para Strauss-Kahn, parece que o único culpado é o próprio. A sua fama precedia-o, e os pormenores do caso de perseguição da empregada do quarto do hotel só a vêm confirmar. Sabe-se que os americanos são implacáveis nestes questões (lembram-se de Clinton e as estagiárias?), e não perderam tempo a deter o garboso Dominic, de forma particularmente humilhante, quando ele já se encontrava dentro do avião, levando-o para o exterior devidamente algemado. Mais do que quaisquer explicações, as imagens de DSK a ser levado pela polícia, ou na barra do tribunal, com a barba por fazer, são fatais. Sejam quais forem as sentenças, o seu cargo à frente do FMI já era, e a enorme probabilidade de se candidatar (e ganhar) à presidência do Hexágono caiu por terra. Parece que em matéria de eleições presidenciais, Miterrand deixou uma autêntica maldição aos seus sucessores partidários: nunca mais o PS conseguiu entrar no Eliseu, e depois da recusa inesperada de Delors em 1995, da humilhação de Jospin em 2002, e da derrota de Segolène em 2007, esboroaram-se agora as probabilidades que tinha em lá chegar, com um escândalo como não se via desde o Caso Profumo. Sarko não será tão rigolos a ponto de tramar tudo isso, mas tem enormíssimas razões para abrir uma garrafa de Veuve-Cliquot. ainda para mais quando se sabe que Carla Bruni está grávida. O que significa que quase de certeza que os franceses terão que aguentar com o frenético magiar-descendente durante mais uns anos.

segunda-feira, maio 16, 2011

Alegre espanto

 




Devo dizer que recebi a notícia da atribuição do Prémio Camões a Manuel António Pina com certo espanto. E mais espantado fiquei quando soube que a decisão tinha sido tomada por unanimidade, e com curta duração na escolha. Talvez pela familiaridade que o autor me desperta, por julgar sempre que estes prémios vão para nomes consagradíssimos conhecidos no mundo inteiro, parecia-me complicado ser ele o galardoado.


Ou então por, algo alheio à poesia, não conhecer tão bem a sua obra poética como o seu talento de cronista. No tasco onde habitualmente tomo o café da manhã, pego muitas vezes no policial JN de propósito para ler as suas crónicas na coluna direita da última página, e raras vezes saio arrependido. Uma das últimas, aliás, sobre Marinho Pinto, é deliciosa no seu sarcasmo prudente com que mimoseia o Bastonário. Mas que a leitura de Pina não se fique por aqui e se estenda ao resto da sua obra - obrigação que eu próprio deveria seguir.


O que interessa é que o maior prémio literário de língua portuguesa fica com ele. Não sei a opinião da maior parte dos homens de letras (essa classe tão complicada e dada às invejazinhas de carreira) lusófonos, mas por mim fiquei radiante, depois do pasmo inicial, e se o encontrar aí pela Boavista, ou numa qualquer sessão da Feira do Livro, dou-lhe imediatamente os parabéns. É mais um prémio de grande vulto para uma figura da cultura portuense, depois do galardão de Eduardo Souto Moura, embora a maioria ignore e prefira dar relevo às diatribes do sr. Pinto da Costa e sus muchachos.


Um grande bem haja, Manuel António Pina.
O futuro do acordo


Decididamente, não se percebe. Agora que os homens da Troika (horrível termo, que muito deve agradar a Jerónimo de Sousa mas que devia dar uma processo disciplinar a quem o cunhou para esta situação), os partidos que aprovaram o plano não se entendem não só quanto à sua aplicação, mas também sobre alguns pontos acordados. O PSD quer ir mais além, o PS distorce vários pontos - já desde o anúncio do "excelente acordo", em que se revelou o que não se ia fazer, escondendo o pior - o CDS-PP já tinha proposto tudo "mas ninguém quis saber na altura". Abstraindo da extrema-esquerda, que como sempre nada apresenta de alternativo (ou então são coisas de fazer arrepiar o maior leigo em questões económicas), dir-se-ia que se prossegue no caminho da demência.


Para mais, e muito embora o plano acordado tenha alguns pontos positivos, embora duros, que podem alterar realmente a pesadíssima super-estrutura estadual, trazem alguns pontos controversos, como a da reestruturação local. Extinguir municípios seria a maior estupidez possível, mas disso falaremos mais tarde. Para já, fiquemo-nos pelas taxas elevadas cobradas pela UE, que implicam um esforço considerável para pagar o empréstimo, coisa que Sócrates não disse logo ao país para nos fazer crer no melhor dos mundos. Irónico como o FMI é sempre tratado como o mau da fita (embora já não sejam os "homens sem rosto"), e a simpática UE, sempre tão pródiga em fundos, é quem nos cobra a maior taxa. Que dirá o Dr. Constâncio?

quinta-feira, maio 12, 2011

De novo os Harlan


Tinha falado há pouco tempo sobre a vida e obra de Thomas Harlan. Hoje, no suplemento P2 do Público, Ivan Nunes deixa um extenso artigo com a mesma matéria, revista e aumentada, e a perturbadora relação entre o realizador de esquerda radical e o seu pai, cineasta dilecto do nazismo. Vale a pena a leitura.

sábado, maio 07, 2011

Uma beatificação a pedido?






A beatificação de João Paulo II foi não só uma massiva demonstração de apreço pelo anterior Papa, bem demonstrado pelas imensas multidões que pernoitaram em vigília, mas também um momento de emoção, daqueles que só personalidades carismáticas, que carregam a força da fé, podem transmitir. Mas aqui pode também residir um problema ao processo de beatificação, além de outras críticas à mesma, que não conheço bem ou não subscrevo. O Papa Bento XVI reconheceu que tinha prescindido do tempo necessário para iniciar o necessário processo (cinco anos após a morte), excepcionalmente rápido. Ao recordar-me do enorme brado "Santo Subito" por alturas das cerimónias fúnebres do Papa polaco vindo das massas de fieis, pergunto-me se a Igreja não terá cedido ao "apelo popular" e à vontade pontual e emocional, em lugar de conduzir os normais procedimentos destes casos, contidos no direito canónico e nas regras para as causas dos Santos. Em suma, se não terá corrido atrás da espuma dos tempos para agradar a uns tantos, como quando acontece quando acaba (desnecessariamente, por vezes) com algumas tradições, ou cede a histerias ou manifestações fáceis por compensações de ocasião. Não sei se é o caso, mas espero que haja algum cuidado. Mal estaremos se a Igreja correr atrás de modas sem razões substantivas para isso.

sexta-feira, maio 06, 2011

Breve nota sobre o real enlace


Os acontecimentos, internos e externos, sucedem-se a um ritmo vertiginoso, e eu sem tempo (ou paciência) para alimentar o blogue. Contudo, para honrar o subtítulo deste espaço (na parte que diz "monárquico" e "católico"), impõe-se que deixe uns ligeiros comentários sobre o casamento real britânico e da beatificação do Papa João Paulo II.


Sobre o enlace, registei com agrado a enorme recepção aos noivos. Das "demonstrações de protesto", nem vê-las. Republicanos, islamitas, nacionalistas ingleses ou simples chatos foram submergidos pelas multidões que aclamavam William e Catherine. Desconfio que houve mais azedume nos comentários da net, dos suburbanos micro-burgueses soltando os costumeiros "estes inúteis a gastar o dinheiro do povo", do que nas ruas. O príncipe favorito dos britânicos está casado, o que é um enorme sinal de alívio. O facto da sua agora mulher vir da classe média não é factor negativo: ajuda a limpar o sangue - e todos sabem os problemas que a consanguinidade já trouxe a tantas dinastias - e dá uma imagem mais terrena, ou mais próxima "de todos nós", à família real. William já de si era próximo, porque os tempos mudam e os media são implacáveis, particularmente naquelas paragens. Em todo o caso, parece-me um casal bem diferente do que se casou há trinta anos. qualquer semelhança entre Diana e Middleton é pura coincidência resultante da intriga de revista cor de rosa. Kate tem um ar que em nada fica a dever à aristocracia, uma cara assaz simpática, e, como disse Pedro Mexia, aquela "cintura impossível".



Na cerimónia reparei no contraste entre a solenidade e a cor (havia lá parentes da família real que podiam perfeitamente lavar escadas em Baguim do Monte). David Beckham era o único de chapéu alto, gravata sem colarinho e colete negro, como exige a etiqueta em cerimónias religiosas. Curioso como um futebolista demonstra ser o mais clássico de uma tal cerimónia. Suponho que o Professor Espada terá apreciado.

quarta-feira, maio 04, 2011

E agora, Muammar?





Há no entanto uma pessoa para quem o desaparecimento de Osama Bin Laden deve deixar sentimentos ambivalentes: Muammar Kadhafi. Se por um lado vê um adversário feroz (e potencial inspirador de movimentos jihadistas na líbia) liquidado, por outro perde o argumento de que os rebeldes eram "jovens drogados" apoiados por Bin Laden, que pretenderiam estabelecer um "emirado islâmico" na Líbia. Pode é ser mais um pretexto para o seu derrube. Do mal o menos, por agora o coronel sobreviveu ao criador da Al Qaeda.
O fim de um mito do terror





As reacções à morte de Osama Bin Laden são sobretudo de júbilo, mas nas notícias veiculadas pelo Facebook encontrei muito azedume. Desde a desconfiança à morte do inspirador da Jihad até ao já clássicos "terroristas são os americanos", e "se quisessem justiça levavam era o Bush para o tribunal", havia de tudo. Calculo que tenha havido muita gente que ficou de trombas com a bombástica notícia. Mas acredito que a maioria se tenha regozijado com o fim do homem que na última década personificava o terrorismo e o medo. Pode-se sempre dizer que "não deve haver alegria pela morte de ninguém". Assim devia ser, cristã e moralmente. Mas as pessoas não são de ferro, e os nervos também não. Daí perceber perfeitamente as multidões que no Ground Zero e em Washington saíram à rua a festejar o acontecimento. Aquela gente sofreu os planos de Bin Laden na pele, viu aviões a estampar-se nas suas cidades, guiados por fanáticos; nada mais natural que comemorar o fim do homem que deu azo a tudo isso. Não garanto que se estivesse lá, não faria sairia também à rua.


Para lá das ameaças que se têm de enfrentar e dos inevitáveis actos de vingança por parte das redes islâmicas, há que reconhecer que se tratou de uma operação extremamente bem sucedida. Até o anúncio esteve muitos furos acima da cowboyada indigna que tinha sido a captura de Saddam. Barack Obama vê a sua popularidade subir enormemente à conta de liquidar o inimigo nº 1 da América. Até os habituais falcões se tiveram de render a este êxito colossal. Esperemos que muitos dos entusiastas da Jihad se rendam também, desmoralizados com o fim da sua figura inspiradora.

segunda-feira, maio 02, 2011

G produzido em série


Houve tempo em que pensei que G era um meio álbum limitado oferecido pel´Os Golpes a todos os que se dispuseram a ir ver a apresentação ao vivo de Vá Lá Senhora, com Rui Pregal da Cunha vestido à Napoleão e tudo. Pensava que era um dos felizes contemplados com o CD em capa de couro, com o monograma "G" gravado e os esboços da ponte Luiz I no próprio disco, recordação de uma noite superlativa no Hard Club. E que mais tarde seria uma recordação rara de um registo de uma banda marcante inícios dos anos 10 deste século.



Acontece que Vá Lá, Senhora galgou Youtubes, passou por galas de televisões e pela Operação Triunfo, até que chegou às telenovelas. Aí, Os Golpes renderam-se aos pedidos das massas e colocaram G à venda nas lojas. Agora, todo aquele que estiver munido de menos de 10 €uros pode ficar com o suporte materal e mais um versão de Paixão, dos Herois do Mar. Acabou-se a exclusividade de que pensava ser um dos raros detentores. Mas fica pelo menos o consolo de saber que capa em pele, só os nossos. O disco agora lançado não tem a beleza gráfica nem o pormenor deluxe do álbum primordial. Há que separar o artefacto original do produto industrial em série.


quinta-feira, abril 28, 2011

Escolheram bem o dia


Há publicações que ou sofrem de falta de oportunidade, ou então lançam provocações propositadas, disfarçando a coincidência: no Domingo de Páscoa, dia da Ressurreição, do triunfo da Vida sobre a Morte, é que a Pública decide fazer uma reportagem (com direito a capa) sobre o suicídio assistido e a "necessidade de se lançar o debate"?!? Não havia mais domingos disponíveis ou apeteceu-lhes "quebrar tabus"?

quarta-feira, abril 27, 2011

A foleirização da bancada do PS



José Lello escreveu, na sua página de Facebook, que Cavaco Silva era "um presidente foleiro". Já se sabe que deste porta-voz das mensagens (ainda mais) sujas de Sócrates não se pode esperar grande coisa, mas mesmo assim não deixa de espantar pela leviandade. Em sua defesa, Lello diz que escreveu "involuntariamente", que se soubesse que era pública diria que "o presidente devia ser mais abrangente nos seus convites"...involuntariamente, quando se publica numa página visível por milhares? Além de grosseiro, o deputado do PS faz das pessoas parvas com as suas desculpas esfarrapadas.



Cheguei a achar que possuía um certo sentido de humor quando todos os anos, no Expresso, dedicava sempre livros a determinadas personalidades que se identificassem com os seus títulos. Provavelmente limitava-se a procurar em catálogos. Mas a situação não incomoda apenas por causa de Lello, que já nos habituou às suas faltas de respeito e aos seus truquezinhos: o problema é que grande parte dos deputados dos principais grupos parlamentares não são assim tão diferentes. A grosseria e a crispação instalaram-se em S. Bento, em boa parte devido ao estilo de Sócrates, mas sem pinga de irreverência ou humor que caracterizavam gente como Francisco Sousa Tavares ou Natália Correia. Os funcionários partidários promovidos à cadeira limitam-se a espalhar ditos sem graça e sem nível. Neste particular, o PS tem dado o maior exemplo, e a sua bancada é uma sombra de antigamente. Vejam-se os principais candidatos pelo Porto: além de Lello, temos ainda o eterno bonzo Alberto Martins e o deprimente Renato Sampaio, outro yes man que mal sabe escrever e cuja ideia mais brilhante que se lhe conhece foi a proposta de proibição de piercings. Safa-se Francisco Assis e pouco mais. Apesar de tudo, ver Ferro Rodrigues e Basílio Horta naquela bancada será um oásis naquela manada de gentinha rasca, constituída por Lellos, Renatos e Telmos. E faço figas para que os outros grupos parlamentares sejam, como me parece que são, bastante melhores.



domingo, abril 24, 2011

O discípulo traído



Na Semana Santa, a notícia de que há um traidor entre um grupo que entrega o meste não podia ser mais oportuna. Mas neste caso, o Judas confunde-se com o Mestre: depois de usar o discípulo para as tarefas mais espinhosas, eis que, quando este assume a única opção possível ao abismo, acaba traído e apunhalado pelos outros - ou remetido ao silêncio.





Fernando Teixeira dos Santos decerto terá aprendido uma grande lição nos últimos dias, antes de se regressar ao seu lugar na Faculdade de Economia do Porto. Espero que o país também, e que os eleitores decidam por fim que o oportunismo puro e a falta de princípios total tenham um custo.


Boa Páscoa a todos.

sexta-feira, abril 22, 2011

A época acabou


Aguento muita coisa, mas não tudo. Desde Agosto que já tive de ver e ouvir muito. Mas esta última é demais. Bem sei que o Benfica 2010/2011 torto nasceu e por isso não podia endireitar-se. Mas uma coisa é não ganhar o campeonato; outra é ficar privado de ir ao Jamor depois de uma primeira mão com vantagem confortável. O jogo da Luz foi mau demais; os dois meses de distância entre duas mãos revelaram-se fatais. Na última semana, o Benfica perdeu Salvio e depois Gaitan, as autênticas "asas" que moviam o seu jogo. Sem eles, perde qualquer eficácia ofensiva. E quando sofreu os golos a equipa mostrou-se apática, sem ideias; quanto ao adversário, e sem desprimor para a forma em que se encontram e a capacidade de "remontada" que apresentaram, tudo lhes correu bem. Depois de terem chegado às meias finais da Taça a jogar apenas com clubes de divisões secundárias, e de jogarem com mais um durante meia hora na primeira mão, beneficiaram de um golo em fora de jogo e das ausências fatais dos argentinos do Benfica. Por isso, e apesar de reconhecer que não estivemos nada bem, também fica um sentimento de alguma injustiça pela não ida ao Jamor (e logo este ano, em que me queria estrear no Estádio Nacional, antes que "ordens superiores" o encerrem). Sim, há alturas em que nada corre bem, mesmo.



Por mim, e depois da desilusão de ontem, esta época encerra aqui. Quero lá saber da Taça da Liga e da Liga Europa, mais a hipotética "final em Dublin" (mas alguém acredita que o Benfica a possa ganhar?). A final era ontem, e não correu bem. Futebol, agora, só o externo, que o português fica para a próxima época.

quinta-feira, abril 21, 2011

Uma patética dor de cabeça


Como se já não bastassem os enganos, falsidades, meias confissões e acusações que rodeiam o actual momento político português, e que só a describilizam internacionalmente, ainda assistimos a todos os OVNIS que nela aterram e cuja surpresa inicial dá lugar a uma espécie de tragédia burlesca.

Quando Pedro Passos Coelho anunciou Fernando Nobre como cabeça de cartaz por Lisboa para as legislativas, espantei-me verdadeiramente. O discurso de Nobre contra os partidos e o "sistema" era tão radical e arreigado que parecia que faria tudo menos ligar-se a uma formação partidária. Assim, a reviravolta intelectual espantou, e o convite parecia uma manobra impensada para ganhar uma fatia dos votos que o dinamizador da AMI obtiver nas presidenciais.



Claro que grande parte das críticas que lhe lançaram a seguir faziam parte de um populismo e de uma maledicência comuns em Portugal. Ao discurso contra os "políticos" junta-se o dos "que vão atrás de um tacho". Se a política partidária precisa de alguma coisa é de gente de fora e sem vícios de aparelhismo, que refresquem os movimentos e tragam mais qualidade aos quadros. A turba que enxameia os fóruns da net e o Facebook assim não o entende, e acha que quem vai para a política é porque é "malandro" e "quer o tacho". Por norma, entendo que quem vem com a conversa dos "tachos" é porque deles tem inveja, mas por incompetência, ignorância ou total falta de preparação (até para militância partidária), não chega lá perto e responde com calúnias coletivas.


A ideia de agregar gente sem vínculo partidário é boa, mas neste caso, a opção escolhida tem-se revelado desastrosa. Além do discurso anti-partidário (outrora) recorrente e dos múltiplos apoios anteriores a figuras de diversos quadrantes políticos, Nobre tem ideias nebulosas ou vagas, que roçam a contraditoriedade e que pouco têm que ver com o PSD. Aliás, as suas declarações afirmando que desconhecia o programa do partido laranja são outra argolada tremenda.


A história da presidência da Assembleia da República é outra fábula difícil de crer. Não só seria absurdo colocar em tal cargo alguém sem qualquer experiência parlamentar, como é impossível assegurar a sua eleição. E pelas intenções reveladas pelos partidos representados, "impossível" é neste caso o termo indicado. Não sei quem teve esta brilhante lembrança, se Passos Coelho ou quem quer que fosse, mas de todos, é o maior tiro no pé. E Nobre continua a não ajudar, dizendo que renuncia ao cargo de deputado se não chegar a ser a segunda figura do estado. Provavelmente pensou que seria a oportunidade de chegar a Belém em dias de ausência de Cavaco Silva. Seria a forma mais tranquila, mas pelo meio esqueceu-se dos necessários "requisitos formais".

Agora, ouve-se António Capucho dizendo (com acerto) que reconhece o seu valor à frente da AMI, mas não a sua capacidade política. Foram talvez as declarações mais sucintamente esclarecedoras sobre o caso.

A ideia muito particular de "missionário político" de Nobre ainda vai dar muitas dores de cabeça ao PSD.


PS: em compensação, as escolhas de Carlos Abreu Amorim (desconheço as suas ligações a Viana)e de Francisco José Viegas (um duriense com vivência transmontana) pareceram-me muito felizes.

terça-feira, abril 12, 2011

12 de Abril de 1961

"Contemplo a terra. Só posso exprimir com uma palavra: júbilo".
Desventuras da política portuguesa

O fim de semana político que passou não deixa antever nada de bom. O congresso do PS não passou de uma união de forças em torno do líder, com brados guerreiros ribombando pelas estruturas da Exponor, promessas de sangue, estandartes e bandas sonoras de épicos. Dizia Daniel Oliveira, com certa piada, que cetos congressos do PCP eram um modelo de pluralismo ao lado daquele, e que só faltava aparecer um qualquer membro da família Kim Il da Coreia do Norte. E até Mário Soares reconheceu que aquilo era mais um comício do que um congresso onde se debatiam moções...


Tivemos também as infelicidades de Cavaco, ao dizer que "teria de haver alguma imaginação de Bruxelas" para encontrar "um programa interino de ajuda financeira a Portugal". Na volta, teve de ouvir a sibilina e grave resposta do comissário Ollie Rhen: "Já mostrámos muita imaginação e especialmente responsabilidade na forma como devemos superar as dificuldades económicas de Portugal. Preferia não ter um diálogo público todos os dias com os actores políticos portugueses, por quem tenho grande estima"


No meio disto tudo, o líder da oposição lembrou-se de convidar a mais incrível alternativa possível (de quem ninguém se lembraria) para encabeçar a lista do PSD por Lisboa. Por mais um punhado de votos, mas pensando num repente, com o plano em cima do joelho.


E o FMI já aí está.

sábado, abril 09, 2011

Psicadelismo na Laguna Veneta


A propósito do espectáculo The Wall live, que passou por Lisboa há dias, sem que tivesse podido ir vê-lo, perdendo assim muito provavelmente a última oportunidade de ver ao vivo o que restava dos Pink Floyd e seus shows únicos, lembrei-me de um exemplar da megalomania do supergrupo britânico.
No Verão de 1989, os Pink Floyd actuaram em Veneza, para encerrar a tourné do álbum A Momentary Lapse of Reason (aquele da capa da praia com camas a perder de vista). Não na cidade, obviamente, tendo em conta o equilíbrio da Serenissima sobre a laguna, mas num palco-barcaça entre a praça de San Marco e a Giudecca. Entretanto tinha saído Roger Waters, o artífice de The Wall, e David Gilmour, que era já o principal vocalista, liderava agora o grupo.

Naturalmente, acorreram autênticas multidões para presenciar o inédito espectáculo, que reerguia assim o esplendor cénico da cidade dos Doges, há muito que reduzida a uma peça de museu. Ao anoitecer, o psicadelisdmo e o habitual sistema de luzes da banda invadiu a laguna, e o público também. Apinhados na Piazza, nas gôndolas, nas lanchas e demais estruturas flutuantes, centenas de milhares de pessoas viram os Pink Floyd actuar sobre as águas.

O evento seria filmado e ficaria testemunhado em VHS e DVD. Todos os que o viram ficaram com uma recordação memorável. E ao show seguiu-se um enorme fogo de artifício, sobre as águas da laguna. Mas a factura seria pesada para os venezianos: o lixo acumulado no dia seguinte era imenso, alguns canais viraram autênticas latrinas, e acima de tudo a concentração de tamanha multidão teve o efeito mais temido: as estruturas da cidade afundaram-se cerca de 3 centímetros. A partir de então, nunca mais foram permitidos espectáculos tão desproporcionados na Serenissima. A megalomania dos Pink Floyd ficou assim ligada ao afundamento de Veneza e à restrição de grandes concertos.

Como já se disse, ficou o registo em video. Nunca o vi, a não ser em excertos do Youtube, mas conto assistir qualquer dia a uma transmissão.


quinta-feira, março 31, 2011

E continua a guerra, agora com a NATO ao barulho

Deixa-me intrigado, a forma como está a ser aplicada a Resolução 1973 da ONU, aprovada há menos de duas semanas. O que nela constava era a imposição de uma zona de exclusão área, que impedisse a aviação líbia de bombardear os insurgentes, a protecção dos civis e o embargo de armas. Como se vê de há 15 dias para cá, a coisa é um bocadinho mais extensiva do que isso. A zona de exclusão aérea foi decretada, impedindo que a aviação kadhafiana continuasse a bombardear os revoltosos. Depois, as esquadrilhas combinadas de França, Reino Unido e Itália desbarataram as colunas de blindados que se preparavam para o assalto a Benghazi, impedindo um longo cerco, uma dura batalha e um provável banho de sangue. A rebelião/revolução agradeceu. Desde aí, a aviação multinacional tem bombardeado constantemente Tripoli e as forças do regime, sejam terrestres, navais ou aéreas. Kadhafi, que estava prestes a desbaratar o inimigo interno (depois de todos profetizarem o seu fim próximo), teve de recuar e assistir ao rápido avanço dos rebeldes, cobertos pela aviação em seu socorro. A sua cidade natal de Sirte, que lhe permaneceu fiel, esteve quase a cair, mas resistiu. Ao mesmo tempo, reocupou Ras Lanuf, que tinha sido tomada pelos rebeldes, caído de novo em poder "verde" e reconquistada pela revolta.

No meio desta confusão sangrenta, que certamente não poupará as cidades líbias da quase destruição, a NATO e a Liga Árabe têm tomado posições ambíguas. Uns acham que é suficiente a vigilância aérea; outros, que há que prestar auxílio mais eficaz aos rebeldes. Há mesmo uns que defendem uma intervenção terrestre, directa, se bem que esta posição seja posta de parte pela maior parte dos estados envolvidos. Não admira: as intervenções na Afeganistão e sobretudo no Iraque tornaram este tipo de acções muito impopulares (e no mundo árabes mais ainda), e a crise económica não permite muitas aventuras custosas. Mesmo que se argumentasse com uma interpretação extensiva da resolução 1973 e o apoio da Liga Árabe. Seria o primeiro passo para uma violenta retaliação.

O que é irónico é que os que bombardeiam o regime de Tripoli sejam precisamente os que tinham relações mais próximas com o Mad Dog. Ver Sarkozy, os britânicos, e acima de tudo a Itália (quando Berlusconi outrora andava de braço dado com Kadhafi) declarar que o seu regime é ilegítimo e que é preciso "negociar a saída", ao mesmo tempo que reconhecem o novo "conselho de Transição" líbio, é demonstrativo da mais despudorada realpolitik e de uma fuga para a frente pessimamente disfarçada. Até se percebe. Quando viram a rebelião às portas de Tripoli, pensaram que o regime estava por dias, e aproveitando a sua feroz repressão, apressaram-se a apoiar os "desejos de mudança", "respeito pelos direitos humanos e pela democracia", etc. Só que vos ventos mudaram, e observando a recuperação dos homens de Kadhafi no terreno, ao mesmo tempo que as tribos reafirmavam a lealdade ao "Guia da Revolução", deram-se conta de que as coisas se complicariam doravante nas relações diplomáticas com a Líbia, e que a sua confiança foram definitivamente minada. Como reagiria Kadhafi áqueles que lhe retiraram o apoio, depois de esmagada a revolta? Virar-se-ia ainda mais para o resto de África, ou pra a China? Retomaria o apoio ao terrorismo? Seria sempre uma situação demasiado embaraçosa para a NATO (que assumiu o comando das operações, para grande alívio dos Estados Unidos) e Liga Árabe.

Por essa razão, interessa acima de tudo dominar o regime verde e acabar com o poder da família Kadhafi na Líbia. Os ataques aéreos cumpriram a sua parte, mas se isso, só por si, não for suficiente - e pela desorganização dos rebeldes, parece não ser - o mais provável é que se comecem a distribuir armas mais eficazes, mesmo que os destinatários não as saibam usar devidamente. Com o apoio dos meios da NATO, que não dos efectivos, os revoltosos têm francas possibilidades de derrubar o regime, sabendo-se que Kadhafi nunca se renderá. Mas com a conquista e reconquista sucessiva do território, isso arrisca-se a levar umas boas semanas. Entretanto, a cotação do petróleo vai subindo.

Boas e más novas nas artes portuguesas

É sempre bom saber que mesmo no meio da tormenta de juros crescentes e cortes de rating, e na crise política vigente, ainda há reconhecimento pelo que de melhor se faz em Portugal.




sexta-feira, março 25, 2011

A Morte de Sócrates, por Jacques-Louis David. O Mestre explicando aos seus assessores e "boys" chorosos que a cicuta, de tipo PEC, é consequência da crise internacional e que a "direita neoliberal" e a "esquerda radical" é que agravaram a situação, apesar de todas as Apologias e virtudes filosóficas (TGV, Magalhães, "racionalização das estruturas escolares", etc).
A maior irresponsabilidade

A cara de pau que o núcleo duro socratista assume quando fala na "irresponsabilidade da oposição" seria uma boa piada se a situação não fosse tão grave. Se houve irresponsáveis foram os que permitiram que a situação financeira, política e moral chegasse a este ponto. Andar a prometer mundos e fundos, e TGVs, e barragens, e aeroportos, e a aumentar salários antes das eleições deu na tenebrosa situação a que estamos sujeitos, quase a pedir ao FMI que venha cá e que os juros monstruosos e incomportáveis baixem um pouco, finalmente. É verdade que culpados houve muitos, antes de Sócrates e os seus muchachos. Mas nunca como aqui a irresponsabilidade e a sede de poder tinham ido tão longe (se bem que Santana Lopes tenha dado mostras disso em apenas seis meses de governação).

Isto verificou-se de forma cristalina na apresentação traiçoeira do PEC 4, passando por cima de acordos anteriores com o PSD sem avisar nem o Presidente, a oposição, ou qualquer outro orgão de sobernia, incluindo o próprio grupo parlamentar. Uma tão grande partida merecia, como mereceu, que toda a gente passasse a desrespeitar o governo e a entender que o prazo de validade se esgotara. Continuo sem saber se Sócrates acreditava que à última o PEC iria passar ou se era uma partida para fugir sob a capa da vitimização (ou reforçar o seu poder numa eventual reeleição). Apesar de muito se falar numa provocação para causar a fuga, talvez a primeira hipótese não seja descabida. A cara dele no debate no Parlamento dizia tudo, o que talvez explique a saída abrupta com menos de meia hora de sessão. Talvez essa imagem seja a mais elucidativa. No momento mais delicado, quando o seu governo corria seriíssimos riscos de caír, quando Teixeira dos Santos começou a falar, o Primeiro-Ministro, com ar vexado, de quem sabia que tudo estava prestes a acabar, abandonou o palco de combate, deixando as tarefas mais espinhosas ao seu mais atacado ministro e a um resistente Francisco Assis. Apesar de tudo, julgava que Sócrates mantinha uma réstia de coragem. Quem não consegue enffrentar os adversários políticos no Parlamento quando está em baixo não se pode vangloriar de enfrentar a "crise internacional". Entre todas as outras, esta terá sido a sua irresponsabilidade mais notória e eloquente.

quinta-feira, março 24, 2011

Os anti-portugueses cá da terra

 
Sobre o discurso de Cavaco Silva dos cinquenta anos da Guerra colonial, fico um pouco dividido. O entusiasmo e a determinação da grande maioria dos soldados que ia para África, onde nunca antes tinham posto os pés, não deviam ser muito elevadas. Nesses aspecto, as palavras de Cavaco foram despropositadas.

Mas piores terão sido as reacções de Louçã e restantes camaradas ideológicos, que logo se apressaram a vir com as palavras de ordem do costume. O "anti-colonialismo" e a "denúncia da fascismo" este sempre presente. Nunca lhes ouvimos, no entanto, uma palavra de consolo a todos os que viviam em África e tiveram de fugir com a roupa do corpo, sob o perigo de acabar a golpes de catana. Como aconteceu às vítimas dos massacres da responsabilidade da UPA de Holden Roberto, detonador da guerra. Também sobre esses não lhes ouvimos palavras de condenação.

Podemos achar que não se conduziu bem a guerra, que Portugal terá sido muito intransigente, que era apenas uma questão de tempo e que as colónias (ou províncias ultramarinas) acabariam por se separar. Da minha parte, acho até que se justificava muito mais a deslocação de tropas para a Índia portuguesa, que não tinha mais a ver com a União Indiana do que com Portugal, e que mais não era do que uma troca de colonialismos.

O que não se pode é negar que as hostilidades em Angola começaram com horrorosos massacres da UPA - depois FNLA - nos territórios perto do Zaire, nos quais morreram milhares de pessoas (brancas e negras), além de uma quantidade infinda de outros horrores. E que perante isso, tornava-se imperioso usar a força e reagir militarmente - alguém acha que se podia simplesmente "negociar" com gente daquela? Ao que parece, há em Portugal quem ache que esses milhares de portugueses mortos nada valiam, e que em nome do anti-colonialismo tudo era legítimo, até as mais horrorosas barbáries. É assim, a "Culpa do Homem Branco" conjugada com "causas nobres" e a "solidariedade dos povos oprimidos": gera as mais ignóbeis criaturas, que não hesitam em trair os compatriotas. Se é que estes os podem tratar assim.

sexta-feira, março 18, 2011

Losing my Religion


Há vinte anos, por esta altura, os REM lançavam o álbum Out of Time, que os catapultou do estatuto indie que ainda detinham para um lugar de topo entre as maiores bandas do Mundo. Mais country do que rock (os dois estilos mais óbvios da banda), a sua popularidade deveu-se muito a Losing My Religion, o primeiro single. A música tornou-se um dos cartões de visita da banda, que chegou a afirmar ser a única que nunca poderia falhar em nenhum concerto, e o seu videoclip era, pelo menos até há poucos anos, o segundo mais rodado de sempre da MTV (o primeiro lugar cabia a Smells Like Teen Spirits, dos Nirvana). E além da importância pessoal que tinha para a banda, nunca deixou de ser o seu single mais popular e reconhecível, um autêntico som de marca.

Provavelmente, e dado o meu escasso interesse por música na altura, não lhe dei grande atenção. Com o tempo, tornou-se uma das minhas canções favoritas. Ouvi-a obsessivamente, decorei a letra e os ritmos, vi-a duas vezes tocada ao vivo nas duas visitas da banda a Portugal, só nunca a aprendi a tocar. O ritmo sulista do bandolim, a melodia serpenteante, a letra que evoca uma utopia perdida ou uma desilusão, o video ousado e barroco, formam todo um conjunto viciante e mágico, uma composição que raramente se consegue juntar.

Já não a ouço tanto, mas ainda hoje é uma das minhas preferidas. As músicas intemporais nunca passam de moda, ainda que passem décadas ou séculos.


quinta-feira, março 17, 2011

Eleito antes da votação


Na crise política novinha em folha causada pela chantagem de Sócrates, ao apresentar unilateralmente novo PEC, ignorando todo e qualquer agente político relevante (e depois de garantir que não haveria mais cortes, embora provavelmente estivesse a falar do golfe), houve um pormenor que só hoje me fizeram notar. Na entrevista dada à SIC, o ainda PM diz que vai ser candidato pelo PS às futuras eleições legislativas. Todavia, ainda nem se realizou o próximo congresso do partido, para o qual outros candidatos já se perfilaram. Bem sei que as hipóteses de destronar Pinto de Sousa da liderança do PS são de 0,0001%, mas mandam o bom senso e as mais básicas regras de cortesia para com os adversários que não se considere uma eleição já ganha antes dos votos em urna, a não ser que estes estejam controlados. Mas tais qualidades não abundam em Sócrates. Nem essas nem muitas outras. Mais uma vez, a arrogância e a deselegância (apesar dos fatos "da moda") que lhe são típicas voltaram a sobressair. Não merecemos melhor?

quarta-feira, março 16, 2011

Crepúsculo nipónico

Depois do terramoto e do arrasador tsunami, as explosões em centrais nucleares e a ameaça radioactiva que já chegou a Tóquio relembram o pesadelo de Tchernobyl. Faz sentido perguntar que mal terá feito aquele povo a Deus para ser vergastado desta forma apocalíptica. É que além dos desastres naturais, são de novo vítimas, como mais ninguém, da energia atómica, quase setenta anos depois do Enola Gay. Pode juntar-se a isso a previsível recessão económica. O fantasma de Hiroshima e Nagasaki paira de novo sobre o país do sol Nascente. E os japoneses bem precisam do seu brilho e da sua energia, muito menos danoso que a atómica, no momento mais difícil que atravessam desde a Segunda Guerra Mundial.

PS: facto raríssimo, o Imperador falou em directo na televisão, demonstrando a sua enorme preocupação pelas catástrofes que assolam o Império do Sol Nascente. E quando o soberano se dirige directamente pela comunicação social aos japoneses, é manifestamente um sinal de apreensão e de gravidade extrema.


terça-feira, março 15, 2011

O regresso da manifestação dos "rascas"


Estive na manifestação "apartidária, laica e pacífica" da "geração à rasca". Estive seriamente para não aparecer, pela mensagem vaga e ambígua, pela falta de substância já esperada nos protestos e por estar à espera de ver gente que tudo exige e nada quer dar.
Mas à última da hora compareci nos Aliados - porque a multidão já tinha transbordado do "ponto de encontro" inicial, na praça da Batalha. Fi-lo porque apesar de tudo a maior parte dos que protestavam faziam parte da "Geração Rasca", da qual sou membro de pleno e flagrante direito, uma vez que participei nas manifestações contra as provas globais no longínquo Maio de 1994, cujos excessos escritos e escatológicos levaram a que no dia seguinte Vicente Jorge Silva inventasse a classificação.


Estava realmente uma enorme multidão, de várias idades e aparências. Claro que o que se fazia notar eram os cartazes mais ousados ou originais, e, para não variar, os sempiternos anarquistas, que entre tranças e fumos duvidosos não perdem uma ocasião para reclamar pela "auto-gestão" e clamar contra a "exploração capitalista". Havia quem levasse animais de estimação, bandeiras, fatiotas bizarras e as suas reivindicações pessoais em cartaz. Havia também um microfone para que todos os que o desejassem pudessem falar. Aí percebia-se melhor o ecletismo da massa. Havia quem se queixasse de não arranjar emprego e andar a recibos verdes, e também quem carpia mágoas por não conseguir montar a sua própria empresa ("o simplex não passa de uma treta", ouvi a certa altura a um orador). Havia empresários desiludidos e ociosos exigentes. Provavelmente estariam ali ideias muito divergentes quanto às soluções para que a sociedade se "desenrascasse" (e também quem queria simplesmente acabar com a sociedade, como os anarcas). Por fim, havia os curiosos, a tirar fotografias, num misto de solidariedade e curiosidade sociológica.


Devo dizer que não me senti exactamente entre "os meus", até pelos poucos conhecidos que encontrei. Muito do que vi e ouvi nada tinha a ver comigo nem o defendia minimamente. Mas toda aquela multidão, a do Porto e de todas as outras cidades, por muito vaga e equívoca que estivesse, não pode ser ignorada nem menosprezada. Representa boa parte da sociedade civil activa (oportunismos das juventudes partidárias à parte), uma fatia de leão da faixa etária entre 20 e 35 anos, e personifica um mal-estar colectivo que se detecta em qualquer café de bairro ou transporte público. É a esse mal-estar que, embora pacífico, convém estar atento e dar-lhe muita atenção, sob pena de se tornar explosivo num futuro não muito longínquo e de uma geração inteira se perder. A ela e ao país.

segunda-feira, março 14, 2011

Não há solidez que resista ao inevitável



 


As imagens desastre de proporções bíblicas que atingiu o Japão são um murro no estômago. As primeiras notícias que ouvi na rádio já eram inquietantes, e falavam de um enorme terramoto, com "refinarias a arder" e tsunamis. Mas com a terra a tremer estão os nipónicos habituados, como se regista pelos edifícios de pé e pela forma com as pessoas reagiram, sem entrar em pânico, com aquela paciência muito oriental e uma competente preparação para este tipo de acidentes (já os ocidentais tiveram reacções de provocar ataques de coração). Nota-se como as estruturas estão prontas para responder a terramotos desta magnitude, sem querer sequer fazer comparações com o de um estado destruído como o Haiti, no ano passado, mas já podendo fazê-las com o da Nova Zelândia, do mês passado.

Já o tsunami é matéria para a qual não há resposta. A massa disforme e imparável que tudo arrasta e tudo leva à frente arrasou a costa nordeste do país de uma forma que não se imagina nem nas piores previsões. As notícias de povoações inteiras engolidas e comboios e barcos desaparecidos chocam pela sua dimensão e fazem esperar o pior quanto ao número de vítimas. Como se não bastasse, e além das refinarias que arderam, duas centrais nucleares foram atingidas, uma delas a escassos duzentos e tal quilómetros de Tóquio, e deixaram escapar nuvens radioactividade. Não houve mal que acontecesse aos japoneses. Em contrapartida, os portugueses lá residentes parecem estar a salvo, embora ainda haja algumas dúvidas.
Pode-se impedir que um terramoto cause estragos, reforçando estruturas, pode-se fazer protecções contra tempestades e o mar revolto, pode-se ir para longe de vulcões. Mas um marremoto e consequente tsunami é coisa a que quem habite no litoral não consegue escapar. Por muita tecnologia que se tenha - e os japoneses percebem bem do assunto - e por muito ciência que nos proponha a vida eterna, mesmo que nos tornemos biónicos, há coisas contra as quais não se pode lutar e não é possível escapar. O homem é mortal, é frágil, e definitivamente não é Deus, por muito que o queira.
 

sexta-feira, março 11, 2011

A sorte de Galliano



O caso mundano deste curto ano é até ver o de John Galliano, com as suas declarações pretensiosas e voluntariamente insultuosas. É óbvio que estava com uns valentes copos de absinto a mais, e escândalos no mundo da moda por causa dos inúmeros vícios que o atravessam são tão corriqueiros quanto os desfiles. Em parte vive disso (as revistas "cor-de-rosa", por exemplo). O problema é que Galliano afirmou que "ama Hitler", o que será uma das declarações mais politicamente incorrectas dos nossos tempos (podia também dizer que amava W. Bush ou Bin Laden que daria o mesmo), e que os pais da sua interlocutora deviam ser "gaseados". Para além de toda a carga chocante das declarações, o que causa espanto é que sendo um indivíduo notória e ostensivamente gay, até mesmo queer, não se dê conta de que se tivesse vivido nos anos quarenta na mesmíssima Paris que lhe serve de casa, teria ido parar a um campo de concentração com um triângulo cor de rosa na lapela e dificilmente regressaria para contar. Até porque na altura as SA do brutal e homossexual Ernst Röhm já tinham sido varridas do mapa. A sorte do estilista gibraltarino é que nasceu e viveu em épocas depois do desaparecimento do seu admirado Hitler.

quarta-feira, março 09, 2011

Óscares 2011 (com atraso)


Como a colheita não é das melhores de sempre e a manhã não perdoa, vi apenas uma pequena parte dos Óscares deste ano. Ao contrário do que se opinou, achei que o par Franco-Hatthaway esteve bem, e gostei de ver o regresso das rábulas dos apresentadores fazendo medleys participativos dos filmes, a la Billy Cristal. Deu ainda para testemunhar as entregas dos galardões aos secundários, a (para mim desconhecida) Melissa Leo, que ainda levou um piropo (absolutamente certeiro) da lenda viva Kirk Douglas, e a Christian Bale. Não vi o filme de ambos, mas os habituais desempenhos do rapazinho de O Império do Sol fazem com que o Óscar seja merecido ao menos como prémio de carreira. Pena é que, fazendo a conjugação com quem tem ganho ultimamente, ajude a contrariar fortemente as minhas previsões nestas categorias.
A tradução que vi depois é que deixou muito a desejar. Entre outras imprecisões fartei-me de ver nas legendas o nome de "Trent Reznoe", quando o galardoado com o Óscar de Melhor Banda Sonora Original se chama Trent Reznor, e nem é assim tão pouco conhecido.


Devo dizer que dos principais só vi A Rede Social e O Discurso do Rei. Da génese do Facebook pode-se dizer que é um filme bem montado, bem interpretado, sem falhas, embora longe de ser uma obra-prima. Mas não deixa de ser um mostruário interessante da vida contemporânea, dos seus valores e das suas obsessões e oportunidades. Curioso como David Fincher, realizador que ficou conhecido por fitas como Seven e Alien, tem estado tão mais suave (ou menos maníaco) nas suas últimas obras. A Rede Social não teve grandes triunfos, tirando o argumentista Aaron Sorkin, mas não saiu de mãos a abanar, como Indomável, que levou um banho.
O grande vencedor, O Discurso do Rei, não é, como já se dizia, um enorme filme. Pega numa faceta, ou numa "aresta" de Jorge VI de Inglaterra (e todas as outras possessões) - e aproveita-a para a mostrar como um obstáculo intransponível ultrapassado pelo monarca na hora de maior necessidade. O Rei, que não tinha sido educado para reinar, teve de suportar o caso de Eduardo VII, a sua estroinice que o levou a casar com a impopular Wallys Simpson, e as suas ideias políticas, demasiado simpatizantes do emergente líder alemão, que se tornaria num implacável inimigo do seu país. O ambiente é um tanto sombrio, com cores carregadas, como que a ilustrar as incertezas e angústias daquele tempo, em especial do seu protagonista, que parece carregar todas as desgraças que se abatem sobre o Império Britânico. O filme pega nesse episódio pouco conhecido e mostra a dura luta de Jorge VI (Albert), os seus traumas de infância, em boa parte devidos ao pai Jorge V, a sua amizade com o "professor" Logan, e a determinação de Elizabeth, sua mulher, que ficou para sempre conhecida como Rainha-Mãe. Foca também o caso Eduardo VIII-Simpson, e a discreta influência de Winston Churchill (embora não a sua fidelidade para com o Rei que abdicava).
A tenacidade e as indecisões (ultrapassadas) do Rei são o tema central do filme. A sua união com o povo britânico, ao lado do qual esteve sempre durante os anos de chumbo, é percepcionada no fim. Uma espécie de homenagem ao casal real da Segunda Guerra e a Logan, com alguns temas que podiam ser explorados com menos pressa, que merece umas três estrelas e meia, quatro, mas que no mesmo britishgenre fica um pouco atrás de A Rainha.

A título de curiosidade, Helena Bonham Carter, que interpreta o papel da Rainha, é bisneta de Asquith, o Primeiro-Ministro liberal sob o reinado de Jorge V (sogro da sua personagem).

terça-feira, março 08, 2011

Carnaval

Nesta época de excessos, há máscaras para todos os gostos, algumas delas com poriginalidade e graça. Mas faz-me espécie ver tantos homens vestidos de mulher, em especial de freira. Fico sempre com a ideia de que falharam uma carreira, ou então guardam as suas obsessões e taras durante todo o ano e libertam-nas neste dia.
Outra coisa que provoca estranheza é a invasão de samba e imitações de brasileiras numa época ainda tão fria, como se desfilassem noutro hemisfério e as festividades não fossem também adaptadas ao clima e à estação.
Carnaval português que se preze é assim.

quinta-feira, março 03, 2011

Já não é só uma revolta, é uma guerra

O regime verde do coronel Kadhafi vive, ao que tudo indica, os seus últimos dias. Acantonado em Tripóli, quando as cidades da região foram conquistadas pelos revoltosos, resiste graças às tropas de elite ainda fieis e aos mercenários contratados por chorudas somas na Nigéria, Burkina Faso ou Congo. Todos os dias soldados regulares e polícias passam-se para o lado dos revoltosos, que se apoderaram dos depósitos de armas existentes em Benghazi e em toda a Cirenaica.


Há dias, Kadhafi, que desde o início dos tumultos apenas aparecera fugazmente na televisão em duas ocasiões com fraca imagem, surgiu em finalmente em público. Da muralha do castelo de Tripoli, rodeado pela sua guarda pretoriana, falou aos seus apoiantes que na Praça Verde, dominada pela fortaleza, ostentavam a bandeira verde do regime e inúmeros cartazes com a efígie do "guia da revolução". Muitos seriam sinceros devotos do "cão raivoso", mas como sempre acontece nos ajuntamentos organizados por ditaduras, havia inúmeros"profissionais" a soldo. Notava-se a certa altura nas imagens televisivas nalguns negros envergando sweats desportivas da Juventus, o que condiz com a descrição dos mercenários africanos, além de que os Kadhafi têm acções na Vechia Segnora de Turim. Ou seja, os apoios fictícios também partem de gente de fora do país.

O comício parecia ser o canto do cisne do regime que dura há já mais de quarenta anos. A "comunidade internacional", a ONU, União Europeia, Estados Unidos, Rússia, etc, todos se apressaram a condenar os actos de retaliação das forças leais ao que resta do estado, por vezes com encantadora hipocrisia, como bem demonstrou o Ministro Luís Amado ao pedir o fim "do anacrónico regime"... cujos quarenta anos ele tinha comemorado na tenda de Kadhafi. Só mesmo o patético Hugo Chavez e o calculista macróbio Fdel Castro vieram em socorro do dilecto amigo, proferindo discursos contra a "tentativa de ingerência ocidental". Se do cubano não se espera nada, quem tinha ainda ilusões sobre Chavez bem pode perdê-las definitivamente.

Mas apesar de toda a oposição internacional, da expulsão da Líbia da Comissão dos Direitos Humanos da ONU (uma aberração que deveria servir de exemplo para que no futuro se definam melhor os estados a compô-la), da crise humanitária provocada pelo Êxodo em massa de líbios e estrangeiros, das inúmeras deserções e do cerco cada vez mais apertado, Kadhafi conseguiu resistir nos últimos dias em Tripoli e Sirte, e já lança contra-ofensivas a leste, com recurso à aviação e à artilharia pesada. Hoje discursou perante algum público, comemorando os 34 anos da Jamahiriya, altura em que "entregou o poder ao povo" ficando apenas como "guia da revolução", e ameaçou uma hipotética intervenção internacional com "milhares de mortos". De um psicopata como Kadhafi é de esperar tudo, até que tenha secretamente conservado armas de destruição massiva alegadamente destruídas, e usá-la em último e desesperado recurso. A sua aviação militar aí está para mostrar que não se importa de destruir toda a líbia para conservar o poder. E o que é realmente mau é que tem de se dar razão ao seu filho mais velho (e putativo sucessor), que preveniu no início da revolta para a probabilidade de uma guerra civil. Ela aí está, não sabemos por quanto tempo mais, e pior ainda, quem a vencerá.

quarta-feira, março 02, 2011

Uma semana muito proveitosa

Os triunfos recentes do Benfica foram particularmente saborosos, todos por razões diferentes.


O do Sporting terá sido o mais tranquilo, conhecendo-se a crise aguda por que passa a agremiação verde, mas é sempre gratificante ganhar em casa do eterno rival, e a jogar meio desafio com 10 jogadores. Mas como ouvi dizer, este ano todos ganham em Alvalade excepto o Sporting.


O jogo do fim de semana acabou numa emoção tremenda. Houve de tudo, mas o "minuto a minuto" ainda proporcionou mais emoção. O Benfica a todo o vapor tentando marcar, o guarda-redes maritimista a defender o possível e o impossível, o golo do novo reforço portista a gelar a Luz, Salvio a repor o empate, e mesmo ao cair do pano, Coentrão a fazer explodir uma Luz apinhada, quase se afogando no meio da turba para a qual correu para festejar. E ainda houve tempo para confusões e empurrões. Todos os ingredientes dignos de um grande jogo.




Mas a mim, deu-me mais alegria a vitória em Estugarda, a meio da semana. É verdade que o clube da casa, mormente jogar no imponente estádio Mercedes-Benz, não é o que era há três anos, quando ganhou a Bundesliga, capitaneado por Fernando Meira, e até está muito mal colocado no campeonato. Mas clube alemão é sempre complicado. E mais do que ultrapassar a eliminatória, com mais calma até neste jogo fora, o importante é que se matou definitivamente o borrego, afastando-se duas maldições. Sim, duas: a primeira, mais urgente, era a que revelava o Benfica nunca tinha ganho em solo alemão; a segunda, para os esquecidos, era de que além de ter sido batido por pesados 3-0 em tempos de Trapatonni, o SLB perdeu precisamente neste estádio de Estugarda, em 1988, perante o PSV, a oportunidade de se sagrar campeão europeu pela terceira vez. O penalty do Veloso, aquele terrível momento de desinspiração de uma chuteira...Mas graças aos dois secos de Salvio e Cardozo, são tempos e dificuldades que já lá vão. Não há maldição que sempre dure, e um dia também a de Bella Guttman esfumar-se-à.

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Acabem com os "mídia"
 
Uma das coisas que mais solenemente me irrita é ouvir falar dos media pronunciado como "mídia". É verdade que os brasileiros, talvez por influência americana, não só falam como escrevem assim mesmo, com "i" (muitos locutores portugueses cometem esse erro, e por vezes outros ainda piores, como referir a cidade francesa Troyes pronunciando /trói"). Simplesmente, a palavra é latina, não anglo-saxónica, e deve ser pronunciada como tal. Parece que finalmente alguém reparou nisso publicamente. Ricardo Araújo Pereira, na sua crónica da Visão Boca do Inferno de há uns dias, recorda isso mesmo, com o humor oportuno do costume.

As queixas de um dos candidatos acerca dos "mídia" vieram reforçar uma espécie de preceito ligeiramente babilónico que estipula que as palavras de uma língua sejam pronunciadas com sotaque de outra. "Mídia" mais não é do que a palavra latina "media" pronunciada com sotaque inglês. Se optasse pela pronúncia correta "media", o candidato estaria apenas a revelar ao eleitorado que sabia latim. Pronunciando "mídia", mostra que sabe latim e inglês - só com uma palavra. É o máximo de erudição com o mínimo de meios, o que pode constituir vantagem política na medida em que documenta uma capacidade extraordinária para a gestão e aproveitamento de recursos.
É isto mesmo. Aprendam, senhores lusófonos.

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

O regresso do "cão raivoso"

A repressão dos rebeldes e revoltosos na Líbia, com recurso a mercenários de todas as partes de África e bombardeamentos da força aérea, revela que Kadhafi não deixou de ser o "cão raivoso", como lhe chamou Reagan, que era antes da sua "regeneração" táctica.


Recordemos. Muammar al Kadhafi, filho de beduínos e oficial do exército, chefiou um golpe de estado em 1969 que depôs o velho rei Idris e aboliu a Monarquia. Impôs uma república em que se auto proclamou "guiada revolução líbia", baseada nas "assembleias do Povo", com uma ideologia simultaneamente pan-arabista, socialista e islamita, em que na prática ele era a figura tutelar e inquestionável. Os opositores foram encarcerados aos milhares, e muitos foram publicamente enforcados.
Com os fundos das enormes reservas de petróleo, Kadhafi não apenas se lançou em programas de infra-estruturas e irrigação de campos. Na política externa, apoiou tudo o que era grupo terrorista, dos palestinianos (em operações de grande repercussão, como os atentados nos Jogos Olímpicos de Munique), ao IRA, da ETA aos diversos grupos armados que se opunham a regimes africanos rivais, além de ditadores tenebrosos como Idi Amin. Frequentemente recorria à "prestação de serviços" de gente como Abu Nidal e Carlos, o Chacal. Tornou-se assim um dos principais inimigos do Ocidente, particularmente dos Estados Unidos. A gota de água aconteceu quando uma discoteca em Berlim explodiu, vitimando soldados americanos. O atentado tinha sido ordenado pelo ditador líbio. Os americanos não hesitaram e bombardearam Tripoli e Bengazi, em 1986, neutralizando a máquina de guerra líbia e aterrorizando Kadhafi, que viu o seu palácio ser destruído e desde então passou a habitar exclusivamente em tendas. Esse valente susto parece que produziu os seus efeitos, não sem antes se verificar um último e terrível caso: a bomba que explodiu num avião sobre a aldeia escocesa de Lockerbie, matando todos os seus tripulantes. Depois disso, o coronel líbio apostou numa estratégia de moderação e conciliação, abrindo a economia da Líbia ao mundo e passando a ocupar um lugar "respeitável" entre as nações, como o velho líder excêntrico com trajes típicos e guardado por mulheres oferecendo boas perspectivas de negócio, particularmente do petróleo. Além de se reconciliar com a Itália, a antiga colonizadora, veio a Portugal na cimeira UE-África, em 2007, instalando-se na célebre tenda na forte de S. Julião da Barra. José Sócrates tornar-se-ia então um dos aliados preferenciais na Europa.

Agora, cercado, acossado e ameaçado, Kadhafi regressa à sua faceta mais temida e odiada e reage com extrema violência, o que originou ainda mais tumultos. A Líbia enfrenta uma autêntica guerra civil. Os rebeldes controlam a Cirenaica e a segunda cidade, Bengazi, onde flutua a bandeira da monarquia, e avançam para oeste, para Tripoli, guardada pela guarda pretoriana do regime verde e pelos mercenários. Tudo pode acontecer, desde o esmagamento da rebelião (e os muitos mortos não auguram nada de bom) até ao colapso do regime, cenário em que Kadhafi não hesitaria em rebentar tudo à sua volta, além da divisão do país em duas ou mais partes, dadas as diferenças tribais. Até há pouco mais de uma semana, este cenário era inimaginável.


A rebelião prolonga-se, com um crescente número de vítimas, os estrangeiros fogem apressadamente de barco, o valor do petróleo sobe e o futuro da Líbia não augura nada de bom. O seu coronel "guia da revolução" está disposto a levar o país consigo para o inferno.
PS: perdoem-me a imodéstia, mas ou muito me engano, ou este artigo do Público inspirou-se neste post.

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Trinta anos depois do "23-F"

Passam hoje 30 anos sobre a tentativa de golpe de estado pelos militares comandados pelo tragico e patético Tejero Molina, que tomaram as Cortes espanholas e fizeram os deputados reféns. A 23 de Fevereiro de 1981, a soldadesca aproveitou a sessão de tomada de posse de Leopoldo Calvo Sotelo como Presidente do Governo para raptar o poder legislativo e estabelecer um regime semelhante ao que acabara poucos anos antes. Contava ainda com divisões armadas em Valência e um conjunto de oficiais saudosistas do franquismo.


O sequestro durou todo o dia, mas o Rei frustrou os planos. À noite, Juan Carlos I, trajando o uniforme de chefe supremo das forças armadas espanholas, falou em directo na televisão para o país, mostrando a sua desaprovação ao golpe e reafirmando o seu apoio ao processo democrático. Depois disso, os golpistas desmoralizaram. Não havia mais nada que pudessem fazer. O franquismo esgotava o seu último fôlego, a Espanha consolidava o novo regime e Juan Carlos afirmava-se definitivamente como monarca firme, respeitador das leis gerais e respeitado pelo seu povo.


O mar e as suas razias

As tempestades que na semana passada fustigaram a costa portuguesa, com ondas que chegaram aos dez metros, não pouparam nenhuma região.

As vagas atacaram as dunas de Moledo (que já de si estavam vulneráveis, e que há vinte anos que têm vindo a recuar), derrubaram o passadiço de madeira e a marca das milhas, uma sentinela de pedra que ali estava para lá da memória, e por pouca não fizeram o mesmo ao moinho que serve de abrigo de veraneantes. O mar merece sempre respeito, especialmente no Inverno e em estâncias balneares, mas neste caso, e para quem conhece Moledo, provoca sobretudo temor. As imagens da duna tão frágil e do moinho sobre o precipício são angustiantes. Urge reconstruí-la e devolver a imagem de marca e a dignidade da praia mais setentrional de Portugal.



Fotografias retiradas de A Origem das Espécies.

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Depois de Mubarak

A saída de cena de Hosni Mubarak deixou no ar muitas certezas e algumas dúvidas. As certezas dividem-se em dois grupos de ideias opostas: uns estão certos de que a democracia á ocidental vai frutificar na república árabe, sem sombra de dúvidas; os outros dizem que o Egipto vai ser "o novo Irão", e que lá a democracia com a entendemos é uma ficção. Pela minha parte, prefiro ser prudente. Até agora sempre tinha visto Mubarak como um estadista autoritário mas longe dos piores, e que além do mais travava os avanços do radicalismo islâmico saído da Irmandade Muçulmana, inspirada por Qutb. Aliás, nunca era referido como "ditador" (ao contrário de Ben Ali, por exemplo), talvez por ser o sucessor de Nasser e Sadate. Bastou que o povo viesse à rua para as mais infames classificações lhe caírem em cima.
Certo é que já há muito havia descontentamento, e mesmo muitos do que já estavam acomodados diziam em surdina não gostar do velho militar. Mas tal como ocorreu noutros países, não foram as condições políticas a fazer cair Mubarak, mas a situação económica e a subida dos preços, aliada à corrupção. A revolta atraiu mais e mais apoiantes, perante a placidez do exército. Depois de muitos contorcionismos, Mubarak caiu mesmo. Não nos esqueçamos de outro precedente, também ele num grande país muçulmano controlado por militares: a Indonésia. Suharto governou com uma mão bem mais férrea até a situação económica o derrubar.

A situação está demasiado nublada para que se possam fazer vatícinios sem olhar para o lado. A Irmandade Muçulmana é heterogénea, e tanto tem no seu interior radicais que sonham com o Califado (de lá saíram os assassinos de Sadate, por exemplo, que agora estão na Al Qaeda), como pragmáticos que preferem o exemplo turco de Erdogan. Os principais líderes dizem inspirar-se nesta última linha, mas nem isso afasta as desconfianças. Os liberais do Wafd parecem ser poucos, e El Baradei surgiu de repente, depois de toda uma vida de serviços externos na ONU. Desconhece-se absolutamente o que quer a maioria da população.


Entre os medos de que ocorra o mesmo que no Irão em 1979, surgindo ali uma república sunita (que ironicamente seria um rival de peso para os persas), ou a chamada de atenção para os democratas-islâmicos turcos, vem-me à cabeça outro exemplo, igualmente turco: o de Kemal Ataturk. Saiu Mubarak, mas as forças armadas controlam a situação e gozam de grande popularidade entre o povo. Provavelmente farão a gestão da casa, e caso achem que há caminho para um regime com um certo grau de liberdade, permitirão que haja eleições mais ou menos livres. Mas não deverão sair de cena. E não sendo permissivos com islamitas, serão também mais duros nas suas posições para com Israel.

Entre euforias e cinismos, pode-se tirar de tudo um pouco e tentar prever esta situação confusa, que não deixará de influenciar todo o Médio-Oriente e o Norte de África.

Ao certo, e das poucas certezas absolutas que tenho neste momento sobre o assunto, é que o editorial do Público de sábado passado - "O dia em que o século XXI recomeçou", "a Praça Tahrir foi o símbolo das aspirações de toda a humanidade", "uma nova geração rejeitou para sempre o autoritarismo e a ditadura", "o 11 de Setembro acabou na Praça Tahrir" - é das coisas mais estúpidas que li nos últimos anos, em todos os periódicos possíveis e imagináveis.
O adeus do fenómeno


Ronaldo, o Fenómeno, o Ronaldinho que encantou Eindhoven, Barcelona, Milão e Madrid, entre outras, o melhor marcador de sempre de fases finais de Mundiais, campeão de Selecções por duas vezes (em 1994 e 2002), anunciou ontem a despedida dos relvados. Um problema de tiróide, que o impedia de perder peso, obrigou à arrumação das chuteiras. As lesões graves que teve na carreira já o tinham remetido para segundo plano nos seus últimos anos. Curiosamente, ganhou quase tudo mas nunca logrou vencer uma Taça dos Campeões Europeus, chegando ou partindo sempre no ano errado. Para a memória fica um dos mais geniais jogadores de sempre, os seus arranques supersónicos, as suas fintas como quem dança samba, os problemas que teve no dia da final do Mundial de 1998 (onde acabou batido por outro gigante da bola, Zidane), as lágrimas quando sofreu uma grave lesão nos ligamentos, a euforia dos golos da final do Mundial asiático. E golos como este, que correram Mundo nos anos em que encantava o futebol espanhol, e que ficaram para a história do desporto.


segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Legado precioso

Os White Stripes decidiram separar-se e encerrar actividades, antes que se tornassem anacrónicos, ou pior ainda, que se "reinventassem" sem ideias. Deixaram-nos no entanto hinos de estádio (literalmente) e algumas obras sonoras e visuais para a posteridade. Nem Kate Moss quis ficar de fora. Vede, confirmai e admirai.