quinta-feira, dezembro 01, 2011

Não se comemora a Independência?


Estaremos a passar o último 1º de Dezembro como feriado? Grande número de pessoas desconhece a data e a sua importância, e a comunicação social também não lhe dá grande importância. quando figuras políticas de relevo a menorizam, pondo em destaque o 5 de Outubro, e quando não há comemorações oficiais, fica tudo dito. Esperemos pela confirmação - ou não - da "passagem para o Domingo". Apesar de tudo, se o Estado se voltar a lembrar de comemorar a data condignamente, será menos mau. Os conjurados que puseram em risco a vida é que muitas voltas devem dar nos túmulos.

terça-feira, novembro 29, 2011

Fado


Não sei bem se a distinção do Fado como Património Imaterial da Humanidade será assim tão boa. À partida é, mas depois dos festejos, o que restará? E não poderão estas distinções feitas "em série" acabar por nivelar tudo, retirando-lhe importância? É uma questão que terá resposta daqui a uns dez anos. Até lá, saudemos a qualificação e ouçamos.


domingo, novembro 27, 2011

Já neste fim de semana


Por muito que alguns adeptos da burocracia não gostem da "caridade", reconheçamos que os temos são mesmo para olhar para o próximo e fazer alguma coisa. não é dar um amoeda ao "pobrezinho" que pede na rua e desviarmos o olhar. Há formas bem mais eficazes de o fazer. Tanto com o dinheiro como com o nosso voluntariado.




PS: temia-se uma diminuição drástica nas doações, mas a coisa compôs-se, e no cômputo geral, 2011 acabou por superar 2009, embora não tivesse atingido os números excepcionais de 2010. Resultado global positivo, tendo em conta as circunstâncias. O número de voluntários, esse, não cessa de crescer. Bons sinais, quando a solidariedade e caridade são mais necessárias.



sexta-feira, novembro 25, 2011

Dúvidas paradoxais


Carvalho da Silva, João Proença, Ana Avoila, Mário Nogueira e outros exercem profissionalmente a actividade de sindicalistas a tempo inteiro, há já longos anos. No entanto, estiveram ontem em frenética actividade profissional, furando a greve geral que eles próprios convocaram e publicitaram. Não haverá um insanável paradoxo entre a profissão de sindicalista e a (não) participação numa greve? Ou em solidariedade para com as colunas de grevistas que comandam de megafone em punho, prescindem do seu vencimento nesse dia?

Mudança num vinte de Novembro

 
Como acontece fatalmente em qualquer país europeu ameaçado pela crise financeira, também o partido do governo em Espanha acabou por cair. Era tão previsível que Rodriguez Zapatero já tinha dado à sola, entregando o problema a Rubalcaba, um bom ministro do interior que ainda teve a compensação de ver a ETA renunciar à luta armada a um mês das eleições. Mas a Espanha deve estar mesmo em baixo, porque esse êxito não lhe serviu de nada: o PSOE foi corrido sem apelo nem agravo do poder, com o pior resultado desde os anos setenta.

Mariano Rajoy, um incrível sobrevivente político (lembra-me por isso mesmo Durão Barroso, o que não é grande cartão de visita), chega ao poder oito anos depois deste lhe ter escapado entre os dedos por causa dos atentados de Atocha e das estúpidas autorias com que o PP então as justificou. Ganhou com larga maioria, em quase todas as províncias, mesmo nos bastiões socialistas da Andaluzia e das Astúrias, numa altura em que a Espanha está sob o turbilhão dos juros crescentes, do desemprego assustador e da convulsão social. Não é decerto a melhor altura para se assumir a presidência do governo. Depois, Rajoy tem um ar simpático (é galego e tudo, o que para mim aumenta a simpatia) e até conhece e aprecia o Norte de Portugal, mas tem uma imensa falta de carisma e não se lhe conhecem ideias para comandar a nau espanhola, limitando-se a balbuciar descidas de impostos sobre as pequenas empresas. Não parece ser, manifestamente, o líder mais capaz de que os nossos vizinhos precisam nesta altura, mas por vezes podem vir dali surpresas. E além da crise financeira e económica, podia já agora desfazer algumas das medidas "fracturantes" que Zapatero, por irresponsabilidade ou canalhice, implementou para afrontar a Espanha mais conservadora. Aquela incrível lei do aborto, em que meninas podem abortar livremente sem autorização dos pais a partir dos 16 anos, ou as aulas de "educação cívica", em que censores ensinam aos alunos que dizer que fulano é "gordo" ou "feio" pode ser motivo de punição, ou ainda aquela treta do baptismo cívico e laico, um acto formal para rivalizar com os baptizados católicos, bem podiam ir à vida, até porque desenterram velhos fantasmas e lembram as tensões pré-1936.

Outra razão para a vitória clara do PP podem ser as recentes manifestações dos "indignados". Desde o Maio de 68 que grandes acções de rua mais ou menos ligadas à esquerda radical levam o eleitorado, por temor e necessidade de ordem, a votar à direita. Verificou-se isso mais uma vez, o que não impediu a Izquierda Unida (misto de PC e Bloco) de crescer bastante, assim como a União para o Progresso, de Savater, que quer quebrar o bipartidarismo. Outra subida esperada: a coligação Amaiur, que reúne a esquerda nacionalista basca, que tolerava ou representava mesmo a ETA, parece que beneficiou do fim do terrorismo e conseguiu interessantes resultados no País Vasco, ultrapassando em número de votos o tradicional Partido Nacionalista Vasco. Uma curiosidade, que provavelmente terá a sua resposta sociológica: os radicais nacionalistas de esquerda ganham na província de Guipuzkoa, ou seja, na bela, aristocrática, cinematográfica San Sebastian, cuja municipalidade tinham igualmente conquistado há meses (e onde começaram com escândalo, retirando o retrato do Rei). E na mais operária Biscaia, sediada na laboriosa Bilbao, ganhou o PNV, partido de ideologia conservadora e católica.

Toda esta macedónia partidária não afectará o futuro governo nas Cortes, mas pode tentar influenciá-lo na rua, como agora parece ser moda. Será interessante verificar o choque entre o novo governo conservador, resguardado numa sólida maioria parlamentar, e as acções dos "indignados".

A Espanha permanece politicamente fracturada, também por culpa de Zapatero, embora longe da tensão dos anos 30, quando só se podia ser facha ou rojo. Os mais extremistas ainda usam essa terminologia felizmente ultrapassada pela maioria. Para a esquerda radical, o PP é ainda um agrupamento de fachas e de franquistas. Ora muitos não deixaram de reparar na coincidência destas eleições se terem realizado num dia vinte de Novembro, que por sinal é uma espécie de dia santo para os falangistas e saudosistas do Caudillo. A vinte de Novembro morreram precisamente José António Primo de Rivera (1936) e Francisco Franco (1975). A data em questão, agora temperada com a vitória dos populares, não deixará de ser invocada em novos "No pasaran" de rua por todos os que quiserem impedir reformas mais dolorosas no Reino de Espanha. Aí sim, saberemos do que Rajoy é capaz.

quinta-feira, novembro 24, 2011

Feriados


Bem sei que ainda não se decidiu que feriados suprimir, e que só se sabe que serão quatro, dois religiosos e dois civis. Se sobre os dois primeiros há pouca discussão, já que a Igreja tomou a dianteira e lançou o corpo de Deus e a Assunção como candidatos principais, não parece haver acordo fácil sobre os outros. Fala-se no 5 de Outubro, o mais óbvio, para fúria dos velhos "republicanos", da maçonaria e dos jacobinos existentes. Mas também o 1º de Maio e o 1 de Dezembro vierem à tona. Com a ignorância que por aí corre sobre a data da Independência, e pelos srs iberistas-niilistas que falam sempre de "patriotismos bacocos", não ficaria demasiado admirado se optassem por essa data. Já o dia do Trabalhador será complicado suprimir. Mas sejamos claros: tendo em conta que 5 de Outubro é a provável data do Tratado de Zamora, não seria uma metáfora dolorosa e de mau prenúncio pensar que os feriados relativos às duas datas da independência de Portugal desapareceriam? Deixo uma sugestão: deixemos-nos de radicalismos e medidas drásticas e acabem-se apenas com dois feriados, Corpo de Deus (o dia mantém-se só para efeitos eclesiais e mudam-se as comunhões para o Domingo seguinte) e 5 de Outubro, o menos significativo. não será por se poupar mais dois que a produtividade do país irá arrancar para níveis imparáveis.

quinta-feira, novembro 17, 2011

Assobios


A tão badalada selecção bósnia, com o temível Dzeko à cabeça, acabou por ser despachada da Catedral da Luz por expressiva goleada, e assim a Selecção Portuguesa lá irá a mais um Europeu de futebol, evento que não falha desde 1996. Mas desagradou-me ver o público português assobiar o hino da Bósnia-Herzegovina. Por pior que fosse o estado do relvado do recinto em que nos acolheram (quando havia melhor em Sarajevo), o volume dos insultos com que brindaram a Selecção, as provocações a Ronaldo, a intensidade dos laseres para os olhos e os seus próprios assobios, os hinos devem ser sempre preservados. Representam todo um povo, incluindo os respectivos bárbaros, mesmo que sejam a maioria, e são a expressão musical da sua alma. É um dos raros símbolos com que os nacionais de um país ainda se identificam. Por isso, as assobiadelas não fizeram sentido, ao contrário da goleada e de algumas brincadeiras supervinientes. Um povo antigo como o português jamais devia descer ao nível dos balcânicos e do seu atabalhoado e artificial estado com menos de vinte anos. O insulto tem atenuantes, mas não desculpas.

terça-feira, novembro 15, 2011

Aniversário no Coliseu

 

No concerto que os GNR deram no último Sábado, no Coliseu do Porto, para comemorar os seus trinta anos, notou-se a arriscada aposta em tocar alguns clássicos alterados do seu último Voos Domésticos, um álbum aconselhado para ouvir com headphones nos ouvidos (e em viagem, segundo me disseram). Pronúncia do Norte, por exemplo, acabou com um ritmo chill out mais digna de Hall de hotel do que da melodia poética telúrica que emociona plateias(que saudades de Isabel Silvestre!). Podia ter sido uma sessão desenxabida, que não ficaria na memória, e pena seria, já que a banda comemorava três décadas entre os "seus". Mas o final salvou tudo o resto, Dunas pôr milhares de pé, e mais um punhado de clássicos antigos e modernos deixou o público em comunhão com a Rui Reininho e companheiros, que despediram-se a brindar com espumante. Daqui a dez lá estaremos para comemorar os quarenta (com direito a nova placa no átrio do Coliseu?), mas esperemos que as músicas de sempre não estejam travestidas. Os GNR, esses, pela energia que mostraram, provavelmente estarão iguais.


(Fotografias recolhidas graças a uma Zona Franca)

sábado, novembro 12, 2011

O tonto do costume

Desde que esteve na mesa das operações que levaram ao efectivo derrube do Estado Novo, permitiu-se tudo a Otelo Saraiva de Carvalho: promoções à pressa na carreira, ídolo da extrema esquerda, capa da Time (como membro da "troika vermelha"), candidato à presidência pelas "massas populares", terrorista ligado às FP-25, solto da prisão por amnistia presidencial, etc, incluindo todos os disparates e bravatas que lhe passaram pela cabeça, desde a sinistra referência aos fuzilamentos no Campo Pequeno até a uma certa complacência para com Salazar (há quem diga que Otelo era um dos militares que transportou o caixão do ditador), passando pelos habituais desejos de "fazer um novo 25 de Abril". Começa a ser demais. Agora, acha que se os limites dos direitos dos militares forem ultrapassados a tropa deve fazer um golpe de estado contra o actual governo.

Para quem ainda tinha ilusões sobre qualquer traço de credencial democrática de Otelo, as ilusões perderam-se em defnitivo. O "capitão de Abril" revela que afinal os seus interesses são, como eram em 1974, meramente corporativos. Quais liberdades, quais quê. E que as espingardas podem ir contra a vontade de milhões de eleitores. Pouco lhe importa que o actual executivo tenha toda a legitimidade democrática: o que o incomoda são os tais "direitos dos militares".



Otelo é um tonto do regime com pretensões messiânicas insuportáveis, a quem ninguém deve nada, é ele que deve o perdão dos seus dislates e crimes. Como tal, devia guardar algum senso. Não sei se a sua posição na reserva implica que não possa ser punido disciplinarmente, ao menos com uma reprimenda. Mas se pudesse, era tempo de as autoridades militares lhe abrirem um processo por insubordinação. Já chega de ouvirmos constantemente as ameaças e bravatas deste logro vivo que meia dúzia de lunáticos erigiram como referência moral sem que ninguém lhe diga nada.

sexta-feira, novembro 11, 2011

E os mercados derrubaram Berlusconi




Nem os inúmeros processos por crimes fiscais e incompatibilidade com o cargo, nem as histórias de festas indecorosas e relações com prostitutas menores de idade, nem as inúmeras manifestações de rua, nem a traição a Kadhafi, nem as campanhas de Nani Moretti, nem as declarações politicamente incorrectas, nem sequer a perda substancial de boa parte seu grupo parlamentar, que seguiram a cisão de Fini, conseguiram derrubar Berlusconi. Sua Emittenza perdeu duas eleições, mas conseguiu sempre voltar a ganhar, e nos últimos dezassete anos ocupou o poder durante dez. Só os "mercados", essa entidade sem rosto mas de cujos humores dependem os juros dos empréstimos necessários à sobrevivência de qualquer entidade nos dias que correm, seja o estado ou uma família, levaram à queda do Cavaliere. Esta adivinhou-se ao longo dos anos, mas ele sempre se aguentou, o que num país de comediantes e líricos como é a Itália, que inventou um Mussolini e acolheu uma Cicciolina, nem devia espantar. Agora, acabou-se. Aos 75 anos, envolvido em escândalos, com o partido dividido e sem credibilidade internacional, Berlusconi acaba a sua carreira política deixando a Itália num caos financeiro, económico e político. Não deixa de ser irónico que um empresário de sucesso e supostamente liberal seja derrotado pelo seu estrondoso fracasso económico.

sexta-feira, novembro 04, 2011

Tudo ao molho pela "nova ordem"


Que os extremos se tocam é uma verdade lapalissiana que volta e meia ganha novo incremento. Um colunista do Avante conseguiu acentuá-la ainda mais, ao invocar, no vetusto jornal comunista, os Protocolos dos Sábios de Sião, para afirmar que uma "nova ordem mundial" se prepara. E quem vai erigir essa "máquina da morte"? Nada mais nada menos que "os jesuítas e os Illuminati" que "repartem ligações entre a Santa Sé, a Maçonaria, o Pentágono e Wall Street, além dos "sionistas", que calçam "a botifarra nazi". Catolicismo, judaísmo, maçonaria, americanos, tudo no mesmo saco, juntamente com calçado nacional-socialista. Tenho ouvido falar dos tais apócrifos "Protocolos", que foram também usados por Hitler e pelos anti-semitas do último século, mas dificilmente imaginaria que fossem invocados no Avante, que em 1948 saudou a criação do Estado de Israel (a concretização do sionismo) contra "as monarquias feudais árabes". E daí talvez pudesse apelar à imaginação, já que a partir daí, e com o lento declínio do sistema dos kibbutzim colectivos, os comunistas começaram a virar-se contra Israel, e tornaram-se dos mais virulentos anti-semitas. O anti-semitismo, recordemo-lo, chegou a ser uma das diferenças mais vincadas entre esquerda e direita na altura do caso Dreyfus. O comunismo e o esquerdismo mais lunáticos insistem em parecer-se cada vez mais com a extrema-direita. Que o digam nos países do ex-Pacto de Varsóvia e os nacional bolcheviques. e o pior é que as suas teorias coincidentes não têm graça nenhuma, a não ser que não saiam de artigos como os do Avante.

quarta-feira, novembro 02, 2011

A caminho do abismo ou de evitar novos coronéis?


Não sei se é dos ares de Atenas e da inspiração da Democracia (se bem que o que lá vigore actualmente seja mais a anarquia), ou se de ter nascido nos Estados Unidos, uma democracia ininterrupta desde o século XVIII, o que é certo é que a decisão de George Papandreou de levar a proposta de ajuda e reestruturação da Grécia que já havia sido aprovada em cimeira a ser referendada pelos helenos deixou tudo de boca aberta e mãos na cabeça. Não haja dúvida que depois de promessas de referendo não cumpridas (sim, estou a pensar em Sócrates) e de vermos constantemente decisões relevantes da UE ou da Zona Euro tomadas ao telefone pelos Srs Sarkozy e Merkel, como se o resto fosse paisagem, tivemos finalmente o assomo de uma decisão verdadeiramente democrática, e não também de uma "democracia real", como exigem os "indignados", até porque a "rua" não se pode agora queixar de que as decisões não são tomadas pelo povo.




A aposta é muito arriscada, e as dúvidas são compreensíveis. Se ganhar o referendo, Papandreou legitima o seu governo e a sua política e ganha nova consideração entre os homólogos europeus. Se perder - e é para aí que as sondagens apontam - falham os planos de resgate do país,, e na melhor das hipóteses, faltará o dinheiro para coisas tão simples como pagar salários; na pior, a Grécia sai do Euro, com todas as consequências que daí advêm, a banca é arrastada e será o princípio do fim da Moeda Única




A demissão das chefias dos ramos das Forças Armadas pode também não ser estranho a isso. A decisão foi tomada de rompante, o que indicia um certo temor de que houvesse uma acção das altas instâncias militares. Seria facto inédito na UE, embora não na Grécia. Apesar dos desmentidos, tudo leva a crer que não se tratou de mera coincidência burocrática. Se realmente os militares tivessem dicidido passar à acção, seriam mais da tendência "junta dos coronéis", ou mais "Vasco Lourenço", e a sua promessa anual de "se for preciso fazemos um novo 25 de Abril"? Certo é que Papandreou, contestado pelo seu próprio partido, vituperado pela rua grega, tratado de forma condescendente pelo "directório" e agora ameaçado pelos militares, tratou de pôr cobro à ameaça mais imediata através de uma cartada muitíssimo arriscada. E vale a pena recordar que a Grécia tem um arsenal de respeito - enquanto aqui se discute pela compra de dois submarinos, os helenos compraram seis - e muitos dos gastos dos últimos anos foram em armamento bélico, o que de certa forma ajuda, entre outras coisas, a explicar como é que caíram no abismo financeiro, e agora político.




domingo, outubro 30, 2011

Questão que me ocorreu neste tempo outonal

O que é feito de João Coração e do seu neo-trovadorismo?

quinta-feira, outubro 27, 2011

Uma sobreposição de acontecimentos simbólica




Depois de cinquenta anos de malfeitorias, assassínios, raptos, extorsões através de "taxas revolucionárias" dignas da Cosa Nostra e outras ameaças, a famigerada Euskadi Ta Askatasuna renunciou à luta armada. Parece ser um momento histórico, mas será bom desconfiar, não só porque os terroristas bascos não são de confiança, mas também porque mesmo que a declaração das cúpulas seja sincera, poderão sempre subsistir alguns grupúsculos violentos, como aconteceu com o IRA, isso para não falar da marginal Kalle Borroka. Mas não deixa de ser curioso o timing em que a ETA anunciou a renúncia à luta armada: no dia a seguir à morte de um seu antigo admirador e patrocinador (sim, Kadhafi, o próprio, que apoiou os nacionalistas bascos e tudo quanto era organização terrorista). Coincidência? Provavelmente não, porque a organização já estava enfraquecida e debilitada, e já teria decidido o novo rumo em Julho. Mas não haja dúvida de que a sobreposição de acontecimentos tem o quê de simbólico. Alguns dos pesadelos dos anos oitenta acabaram esta semana. Duvida-se é que os actuais sejam melhores. E as previsões para o futuro político do País Vasco já começaram, com as habituais interrogações sobre se este gesto fortalecera ou enfraquecerá o nacionalismo da zona.

segunda-feira, outubro 24, 2011

Tiranicídio anunciado




Kadhafi, o "cão raivoso", decidiu entrincheirar-se na sua cidade de Sirte e aí pereceu, da forma que todos vimos. Fugiu de Tripoli, que jurara incendiar, e estava incógnito desde então. A sua tribo protegeu-o até à entrada dos guerrilheiros do CNT na cidade. Daí até à sua fuga numa caravana, aos bombardeamento desta pela NATO, ao refúgio num cano e posterior descoberta e morte, demorou poucas horas. Fica a dúvida sobre a versão real da morte do ditador e os videos incómodos e pouco tranquilizadores sobre os furutos poderes do país.

Aceita-se o tiranicídio em inúmeros casos, é não é difícil crer que muitos líbios quisessem enviar o homem que os oprimiu durante mais de quarenta anos para os infernos, mas não pode deixar de incomodar que tenham tratado daquela forma como um cão alguém ferido e que pediu que não disparassem. As imagens mostram um homem ferido e ensanguentado, de olhar perdido, entre guerrilheiros gritando Allah Akbar, antes de o porem numa ambulância e de um deles lhe desfechar o "tiro de misericórdia" (nunca esta expressão soou tão mal). Por uma vez tive alguma comiseração por aquele homem em tempos todo-poderoso, agora em farrapos. Não que esperasse qualquer cumprimento de Direitos Humanos, Convenções de Genebra quanto ao tratamento dos prisioneiros, etc, daqueles bandos, coisa com que aliás o coronel pouco se importava, mas ao que parece houve muito boa gente sinceramente admirada por crer que ceras normas tinham chegado à Líbia, trazidas pelos ventos da NATO.

Em boa medida, esta gente não é melhor do que os carrascos do regime verde, e muitos provavelmente também o serviram. Kadhafi colheu o que plantou: um regime brutal, centralizado na sua pessoa, uma opressão violenta de décadas e um enorme culto de personalidade. Com a pulverização do seu regime, teme-se o que o possa substituir, dada a anarquia reinante e o provável aproveitamento pelos islamitas radicais. Mas com a sua morte, a jamahiriya nele corporizada acabou definitivamente. Pudessem os Senussis que ele destronou regressar e talvez o problema da autoridade se resolvesse...



O fim violento de ditadores e outros chefes de facção não é exactamente uma novidade. As imagens de Kadhafi ensanguentado e do seu corpo estendido não são muito diferentes do de Mussolini, pendurado na Piazza Loreto, do de Ceausescu, de olhos abertos, ou de Savimbi, atraindo as moscas. São despojos de um regime e de uma guerra que prolongaram até ao limite. Do tirano da Líbia sempre se pode dizer que não fugiu do país, combateu até poder e morreu na sua cidade. Os seus crime ficaram assim lavados, tanto os internos - aí estão as valas comuns para o comprovar - como os externos (Lockerbie, a discoteca em Berlim, e os que resultaram da ajuda que prestou a tudo quanto era grupo terrorista). Talvez só se sinta a falta dos seus trajes e costumes excêntricos.

PS: pior que a ingenuidade de tanta gente em descobrir que afinal os "direitos humanos" ainda não chegaram à Líbia, foram as reacções de júbilo à morte de Kadhafi de vários estadistas que em tempos posaram na fotografia com ele. O facto das relações internacionais se pautarem pelo realismo não significa que tenham de cair na mais despudorada hipocrisia. Ao menos Berlusconi, que se encontrou por diversas vezes com o coronel e cujo governo tinha muitas relações com a antiga colónia, limitou-se a suspirar um conclusivo Sic Transit Gloria Mundi. Talvez antecipasse o seu próprio fim político. Teve alguma sobriedade nas declarações, ao contrário do habitual, mas duvido que ele próprio, e menos ainda pessoas como Sarkozy ou Cameron, tivessem a capacidade de resistência de Kadhafi.

quinta-feira, outubro 20, 2011

O Borrusia expiatório

Ontem viveu-se um dia agitado em Atenas - um pleonasmo nos últimos tempos - com dezenas de milhares na rua em protesto, anarquistas a incendiar objectos e a meter-se em refregas com a polícia, uma greve geral de dois dias, enquanto o parlamento, com os uivos que se ouviam da Praça Syntagma, aprovava novas e duras medidas de austeridade. Apesar de greve geral, que incluía os transportes, nem por isso o estádio do Olympiacos (o clube do Pireu e tradicionalmente das "classes trabalhadoras") deixou de encher para o jogo da Liga dos Campeões. Não sei como o fizeram, com a míngua de transportes públicos e de Euros nos bolsos, mas o certo é que o jogo serviu como excelente e simbólica catarse: o Olympiacos ganhou por 3-1, e logo frente ao campeão alemão. Certamente que a rapaziada do Borrussia de Dortmund não estava à espera que fosse a sua classificação no grupo a servir de bode expiatório ao momento conturbado dos gregos e às indecisões e declarações da Chanceler do seu país.

segunda-feira, outubro 17, 2011

Coisas que realmente indignam



Olho as imagens dos "indignados". São exactamente as que esperava: uma mescla de militantes do PCP (alguns deles com boinas que passaram seguramente pelo PREC) com o discurso na ponta da língua, uma data de gente com fisionomia de votantes do BE (piercings, tranças, roupas de saltimbancos, etc), e os habituais anarcas dos nossos dias, de bandeira negra e capuz. Pelo meio, algumas pessoas com ar normal, provavelmente funcionários públicos ainda atónitos pelas contas que têm de fazer.


Percebo que haja muita gente preocupada com o seu futuro e os seus empregos - eu também estou. Que haja funcionário públicos inquietos é óbvio. E percebo igualmente que as crises tragam a necessidade de alguma catarse. As manifestações podem servir para isso.


O que eu não admito é que venha um punhado de gente aparentando fobia à higiene falar em "democracias reais", organizar "assembleias populares" e dizer que representa "99% do povo". Mas quem é que deu àqueles aprendizes de artistas de circo legitimidade para representar o povo português? Eu não sou, não quero nem me sinto minimamente representado por aquela gente. Sim, isso a mim indigna-me. Já agora, por onde andavam eles quando as taxas de juro eram baixas e se consumia a crédito a torto e a direito? Julgarão eles que a culpa se resume apenas aos bancos e ao sistema financeiro? Pergunto-me que drogas circularão por ali quando vejo gente a falar num "novo 25 de Abril", como se este regime não fosse produto do original, ou numa "revolução mundial" (em Pequim também?). A representação popular está dentro do edifício que cerca, o palácio de S. Bento, e para os colocar lá houve eleições em Junho. Os partidos que apoiam estes "indignados" tiveram no total pouco mais de 15% dos votos. Agora querem ganhar na rua o que não ganharam nas urnas, falando em "maioria social" (ou seja, a maioria dos que andam nestas marchas). Acharão que os restantes eleitores, aqueles que fizeram outras escolhas e não se abstiveram, não se indignarão?

Entretanto, aparece um mancebo de grandes tranças, roupas largas e coçadas, tocando viola e "sonhando com outro futuro". Inquiro-me se aquele indivíduo trabalhará, se andará á procura de trabalho e se se atreverá a ir a alguma entrevista de emprego naqueles modos.

Depois, vemos as televisões a falar do "protesto global popular", e quando passam por Roma, vêem-se os habituais agentes do Black Block a incendiar carros, prédios, até a vandalizar uma igreja do século XVII. Encapuzados de cara escondida, como de costume. São referidos pelos locutores como "alguns jovens que protestaram de forma mais violenta". Porque raio não chamam os bois pelos nomes? De selvagens, membros da extrema-esquerda do submundo, ou mais precisamente, anarquistas? Ou terá a comunicação social medo de lhes chamar o que realmente são? Isto sim, é de deixar uma pessoa indignada.

segunda-feira, outubro 10, 2011

Pequena leitura das eleições madeirenses


Afinal as sondagens não eram produto de nenhuma conspiração do continente, da Internacional Socialista ou do que quer que fosse: o PSD Madeira obteve o seu pior resultado de sempre em eleições regionais, abaixo dos 50%, e conseguiu à risca a maioria absoluta na assembleia regional. A descoberta da tramóia das contas públicas tirou inevitavelmente votos ao PSD. A partir de agora, com a obrigatoriedade de se fazer um plano de austeridade severo, e sem verba para os inúmeros subsídios e obras a torto e a direito, será bem mais complicado governar o arquipélago. Pode-se dizer que é o início do fim do jardinismo: há quem aposte que Jardim não ficará até ao fim do mandato, e mesmo o discurso de vitória, de pólo, a ler uma folha escrita sobre o joelho, sem óculos, e pleno de acusações delirantes aos "socialistas do Ministério das Finanças" e ao "capitalismo selvagem", parece ser uma prova de resignação.



Mas houve mais derrotados: note-se que o PS conseguiu perder votos na maior derrota do jardinismo, o que demonstra bem a fraqueza de uma campanha sem a menor chama, em que se viu o candidato socialista a desejar absurdamente que houvesse maioria absoluta no parlamento regional, deixando todos a pensar o que quereria o PS deste acto eleitoral. A declaração oficial do partido em Lisboa deu-se numa sala em que até se ouvia o eco das palavras do anónimo porta-voz, o que diz tudo sobre a importância que o partido deu às eleições. Mereceu a despromoção a terceiro lugar. Seguro que se cuide.


O CDS aproveitou bem as fraquezas e teve um fantástico resultado, passando a liderar a oposição madeirense. Uma campanha mais vincada e um líder que, talvez por ser deputado na AR, já tem alguma notoriedade, levaram ao salto para o segundo lugar e a quadruplicar o número de deputados. O partido liderado por Paulo Portas tem tido um ano em grande: cresceu nas legislativas, voltou a fazer parte de um governo nacional e passou a segunda força política na Madeira.


Em sentido oposto está a esquerda mais radical. A CDU perde um deputado e cai para o quinto lugar. O Bloco de Esquerda continua o descalabro iniciado nas legislativas, e desta vez de forma humilhante: conseguiu ser o único partido concorrente a estas eleições a não eleger um único deputado e quedou-se no último lugar. Convirá recordar que em tempos que já lá vão, a UDP, um dos movimentos que formou o BE, era uma força interventiva que conseguia sempre lugares na assembleia regional. Longe, muito longe vão essas eras.


Os votos que esvaziaram o BE e a restante esquerda foram directamente aproveitados por outros partidos. José Manuel coelho não repetiu a incrível votação das presidenciais, mas ainda assim a sua notoriedade desbragada serviu para conquistar três lugares e quase 7% para o minúsculo Partido Trabalhista. Ficou a perder a Nova Democracia, que se mantivesse Coelho teria tido uma votação de respeito. Ainda assim, manteve o lugar e cresceu em votos, graças às suas acções, mais de sabotagem dos símbolos jardinistas do que de campanha própria. O Partido da Terra, de Quartin Graça e João Isidoro, manteve o lugar in extremis. O Partido dos Animais voltou a surpreender e entrou também na Assembleia, provavelmente às custas do Bloco, que ficou, como se disse, com zero representantes.


E assim ficou o parlamento regional fraccionado em oito partidos, com o PSD em maioria, como sempre, o CDS muito reforçado, o PS enfraquecido e desorientado, um José Coelho que promete animação e o resto a disputar as deixas a que tiverem direito. Com a austeridade severa que se avizinha e um Jardim a pensar na reforma, os tempos que se avizinham prometem ser turbulentos.

domingo, outubro 09, 2011

Free Amanda




É verdade que a decisão do recurso do caso da morte de Meredith Kercher deixa imensas dúvidas. Há quatro anos, a primeira sentença considerava os acusados culpados do sórdido assassínio da estudante em Perugia, um crime que toda a Itália e boa parte do Mundo acompanharam febrilmente, dada a violência do crime e a juventude dos réus. Agora, a americana Amanda Knox e o companheiro italiano foram absolvidos do crime por erros durante o processo (coisa comum cá na terra) e consequentemente libertados, depois de mais de três anos de prisão - que se reflectiram no seu aspecto físico. É bem possível que sejam inocentes, mas certo é que Kercher foi morta com requintes de malvadez e de tara sexual. O outro condenado, um estudante marfinense, continua preso. E a beleza, ora angélica, ora com uma pontinha de perversão e fatalidade, de Amanda Knox, fazia dela uma suspeita em potência, digna de um film noir. Certo é que já voltou aos Estados Unidos e não deverá tão cedo colocar os pés em Itália. E convenhamos que há razões de fundo para se desejar que ela não seja mesmo culpada...



sexta-feira, outubro 07, 2011

E mais uma vez não houve comemorações oficiais do nascimento de Portugal


A propósito das comemorações do 5 de Outubro, onde acham que houve mais entusiasmo? No casamento da Duquesa de Alba, Grande dos Grandes de Espanha, com os seus 85 anos? Ou nos discursos da Praça do Município de Lisboa, ouvindo Cavaco e aquela pueril estudante da Maia que "convidou os jovens a abraçar os ideais republicanos" (deviam estar imensos a ouvi-la)?


O Nuno Castelo Branco criou um heterónimo/homónimo e colocou-o na Lisboa de Outubro de 1910. Leiam, que vale a pena.