quarta-feira, julho 27, 2011

Em que ficheiro está arquivado o Mal?


As notícias bombásticas têm ainda mais impacto quando são recebidas num contexto absolutamente diferente, sem meios de comunicação em redor, por simples aviso. Assim, sem tempo para ver as notícias dos jornais e sem ir à net ou ver televisão, tive conhecimento dos atentados na Noruega ao mesmo tempo, no dia do massacre perpetrado pelo inquietante assassino.


Discute-se as razões, a ideologia, as motivações, o manifesto político anti-marxista, etc. Discute-se demais, mas a inquietação e os números da matança a isso justificam. Mas são tantas as informações ou desinformações que a confusão se torna ainda maior. Fundamentalista cristão (mas sem motivos estritamente religiosos, nem ligações fortes a qualquer igreja), maçon (de que loja?), "neo-templário", inimigo do multiculturalismo, do marxismo, do Islamismo crescente, de extrema-direita...os epítetos são tantos que a principal preocupação é mesmo arrumá-lo num grupo ideológico definido. Desgraçadamente, é quase impossível. São demasiadas coisas e o seu contrário para o podermos enquadrar num grupo "tradicional". A enorme preocupação é essa: saber de onde vem o Mal o perigo, sabermos quem é o inimigo. Mas tal como o próprio Mundo, completamente fragmentado e confuso, a sua origem é ambígua e misteriosa, sem uma conotação precisa. Não, não temos um 3º Reich, uma URSS nem sequer uma Al-Qaeda para identificar o ovo da serpente. O Mal a enfrentar pode ser personificado em Anders Breivick, mas está bem longe de poder ser arrumado numa arquivo com etiqueta. Seria tão mais fácil de enfrentar...e se ele não tivesse partido de dentro.



PS: aparentemente, para os maníacos do ateísmo, a culpa está toda na religião e em particular no cristianismo, muito embora o responsável pelos crimes não só não invoque fundamentos religiosos, passagens da Bíblia ou qualquer igreja cristã, e até teça comentários pouco simpáticos para com estas, como apela mesmo a que agnósticos, "humanistas seculares" e ateus de "cultura cristã" se juntem à sua luta. As coisas nem sempre são o que parecem ao primeiro grito.

segunda-feira, julho 18, 2011

As agências nunca se enganam e raramente têm dúvidas.



A última classificação da agência de notação Moody´s da dívida portuguesa pôs finalmente toda a classe política e a sociedade em quase unanimidade contra tal passo, traiçoeiro e de fraca credibilidade. Mesmo as instituições europeias concordaram, falando agora na urgência na criação de uma "agência de notação europeia independente" (mas é a UE que cria?). Escrevi "quase unanimidade" porque alguns zelotas do liberalismo económico destoaram. Não, para eles a classificação da Moody ´s é justíssima e isenta, nada tem de parcial, e apenas reflecte a dificuldade do país em cumprir os seus compromissos, por mais que se esforce. Ou seja, as agências de notação são absolutamente honestas e objectivas e não têm segundas intenções políticas. a fora como se diz isto, e a total crença no auto-regulação e na mão invisível parece-me cada vez mais panglossiana: tudo corre no melhor dos mundos, e as coisas passar-se-iam sempre obrigatoriamente assim. O fado dos mercados que não se enganam não muda. Os ultra-liberais, em termos de fidelidade ideológica, acabam por estar próximos dos comunistas, na barricado inversa, lembrando também uma igreja evangélica. O Mundo pode cair, mas os mercados terão sempre razão e quem os classifica também. A cataláxia não falha. Os mercados são grandes, e os austríacos os seus profetas.



sexta-feira, julho 15, 2011

Que apareçam outras como ela



Às voltas pelo Nordeste Trasmontano, só no dia seguinte é que soube da morte de Maria José Nogueira Pinto. impressionado, diga-se. Na véspera, lembrei-me que a tinha visto semanas antes num debate de opinião, na televisão, e tinha-a a achado com um ar muito estranho. Confirmaram-se os piores receios, e Nogueira Pinto sucumbiu a um cancro no pâncreas.





Devo ter ouvido falar dela pela primeira vez aquando do célebre caso da pala de Alvalade, quando era sub-Secretária de Estado da Cultura, em que depois de ter interditado o estádio do Sporting para concertos musicais, numa altura em que eram aí frequentes, viu-se desautorizada pelo então Secretário de Estado, Santana Lopes que poucos dias depois fazia um acordo com Sousa Cintra revogando a interdição. Não esteve com meias medidas e bateu com a porta.


O episódio mostra o carácter de uma mulher que muitas vezes se incompatibilizou na política. Conhecia ao de leve o seu percurso de vida, a casa de família do Campo Grande, onde nasceu (e morreu), o seu casamento, ainda muito nova, com Jaime Nogueira Pinto, a ida de ambos para África, as fugas à guerra, a vida no campo de refugiados sul-africano, que cimentou essa relação que duraria até ao fim, e que pôde ser revisitada numa entrevista que ambos deram em Outubro, à revista Pública. Depois, o serviço público, executado com competência e dinamismo, no Instituto Português de Cinema, na Maternidade Alfredo da Costa e na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, e, claro, na Secretaria de Estado da Cultura. Depois, a aventura política, como deputada pelo CDs a convite de Manuel Monteiro, a candidatura à liderança do partido, que perdeu para Paulo Portas, num congresso em que teve o apoio dos monteiristas e em que protagonizou algumas tiradas inesquecíveis (a da "Rato Mickey" e "eu sei que ele sabe que eu sei que ele sabe que eu sei"). O regresso à política, candidatando-se à câmara de Lisboa, onde seria eleita vereadora, e a posterior ruptura com o partido, com o regresso de Portas, e o regresso ao Parlamento pela mão da Manuela Ferreira Leite marcaram a carreira política.



Muitas vezes a sua petulância irritava. Muitas vezes discordei dela. Às vezes achei que exagerava, mas ao mesmo tempo achava-lhe graça, caso típico da sessão em que não hesitou em considerar um deputado que a azucrinava como "um palhaço". Mas era uma mulher corajosa, original, activa, imaginativa, e fiel aos seus princípios (e porque não dizê-lo, uma mulher bonita). A sua morte foi legitimamente sentida, à esquerda e à direita, excepto por meia dúzia de micróbios que vagueiam nos fóruns. O último testemunho da sua vida, no DN, em que demonstrava a confiança de sempre no Salvador, comoveu. Deixa uma extensa família e o homem com quem partilhou quase toda a vida. Que descanse em paz. Embora faça muita falta, o seu exemplo prevalecerá e inspirará outras como ela.


PS. uma semana terrível, realmente; desapareceram igualmente Jorge Lima Barreto, com 61 anos, e Diogo Vasconcelos, de apenas 43, um grande empreendedor e optimista convicto, e que foi o primeira presidente a associação de estudantes da faculdade onde me formei - como nenhum jornal referiu isto, quis lembrá-lo eu.

sábado, julho 09, 2011

A morte de um Imperador


Morreu Otto de Habsurgo. É impressionante: lembrei-me dele de repente, pensei que já devia andar perto dos cem anos, e meia hora depois, descubro na net que ele morreu.

Otto da Áustria nasceu já como herdeiro da coroa dual dos Habsburgos, herdeiro do milenar Sacro Império. Era sobrinho-neto do velho Imperador Francisco José e filho de Carlos I), que seria o último monarca da Áustria-Hungria, em virtude do assassínio do seu primo em Sarajevo, que desencadeou a 1ª Grande Guerra. Com a queda do império, acompanhou a família no exílio para a Madeira, onde seu pai morreria. Sem possibilidades de aceder ao trono da Hungria, devido ao golpe do Almirante Horthy, o "regente sem reino", Otto mudou-se para para Espanha e formou-se mais tarde em ciências Políticas na Universidade de Lovaina. Tornou-se um firme opositor ao nazismo ascendente e ao Anchluss, reivindincando o trono austríaco e fazendo declarações públicas contra a ocupação alemã. Essas posições valeram uma perseguição massiva aos seus apoiantes e a sua condenação à morte in absentia. Quando a Alemanha invadiu a França residia então em Paris, pelo que se viu obrigado a fugir para os Estados Unidos. Conseguiu-o graças a Aristides de Sousa Mendes, com quem entrou em contacto através do seu secretário, o Conde von Degenfeld, e que lhe proporcionou um visto para Portugal, e daí para a América (o próprio Arquiduque esteve envolvido na fuga de milhares de austríacos da invasão nazi). Viveu em Washington durante a Guerra, até ao regresso à Europa, ainda nos anos quarenta, com um passaporte da Ordem de Malta. Só muitos anos mais tarde ser-lhe-ia atribuída a cidadania austríaca, bem como a húngara e a croata.



Católico devoto, europeísta convicto, presidente da União Pan-Europeia, crítico da divisão europeia, chegando a promover acções para desmoralizar os regimes comunistas, Otto serviu ainda como deputado europeu durante vinte anos, pela CSU bávara, já que a partir dos anos sessenta escolheu a Baviera para viver, e onde morreu, há dias, com 98 anos. Se o Império tivesse subsistido, teria reinado durante 89 anos. Mas nunca chegou a ocupar o trono bicéfalo dos imensos domínios dos Habsburgos, e assistiu à carnificina europeia, sem que por isso baixasse os braços e desistisse de conseguir uma Europa unida, livre, tradicional e moderna, ao mesmo tempo. Em grande parte, conseguiu-o. O Arquiduque cumpriu exemplarmente a sua missão numa vida longuíssima e completa.


quinta-feira, junho 30, 2011

Há governo


Agora sim, há governo. Os Ministros e o Primeiro-ministro já tinham sido empossados na semana passada. Faltavam os secretários de estado, para a composição estar completa. Nos dias anteriores, havia um governo amputado, ou uma cabeça sem corpo. Com as tarefas que aguardam os novos titulares das várias pastas (para alguns, são mesmo várias), os secretários de estado eram essenciais para a boa governação. São 35, em lugar dos anunciados 25, mas com tão poucos ministros via-se logo que as secretarias de estado nunca poderiam ser menos.



Tal como sucedeu com os ministros, há muitos independentes, muitas caras desconhecidas e algumas surpresas. Não soube o que dizer à nomeação de Marco António, até que me informaram que ele já tinha tido uma fugaz passagem pelo sector, além de liderar o aparelho laranja do Porto, o que conta muito. Curioso ver Daniel Campelo na agricultura, mas é uma área em que reúne experiência e conhecimentos, que certamente ajudarão a novata Assunção Cristas. Já de Miguel Morais Leitão (que remete para o seu pai, ministro da AD), estranha-se a pasta, mas entende-se a justificação com a necessidade de "diplomacia económica". De resto, Carlos Moedas, Luís Marques Guedes, num cargo que já ocupara anteriormente, e Francisco José Viegas, titular anunciado na cultura, despromovida a secretaria de estado (que deixou os designers do logótipo do Ministério da Cultura indignados), já tinham tomado posse ou sido anunciados.



Continuo a pensar que mais um ministério não era descabido. Acredito na boa é a na capacidade de trabalho de Assunção Cristas, mas entregar-lhe uma catrefada de pastas de áreas em que não tem experiência e que podem até chocar é demasiado arriscado. Mais valia terem mantido o convite - depois retirado - a Jorge Moreira da Silva, já há muito envolvido nas questões ambientais, e entregar-lhe o ambiente, ordenamento do território (um autêntico quebra-cabeças, que envolve barragens, florestas, planeamento urbanístico, etc) e energia, deixando a agricultura nas mãos de Cristas.

Com o governo devidamente em funções, e o programa apresentado, resta desejar-lhe as maiores felicidades. Até agora tem sido coerente. Goste-se ou não do programa governamental, e há pontos em que discordo cepticamente, não há dúvida de que propõem-se a cumprir o que prometeram. Os dois partidos têm maioria parlamentar, escolhida pelo povo português, e têm toda a legitimidade para levar a cabo as mudanças a que se propuseram. Não vale a pena vir com lamentos contra a "regressão neoliberal" ou ameaçar com "maiorias sociais". As medidas vão ser duras, vão causar protestos, mas na sua maioria, serão necessárias. Não se arrancam dentes cariados sem tratamento. Para tragédias sociais, já basta a grega.

sábado, junho 25, 2011

Uma regata de feriado


A juntar aos festejos de véspera, no dia 24 deu-se a tradicional corrida de barcos rabelo no Douro. Este ano resolveram agendar a regata para horas mais católicas, e não às onze ou ao meio-dia, altura em que setenta por cento das cidades (não esquecer que em Gaia também é S. João) dorme. Não haja dúvida de que as velas dos rabelos, com as cores das respectivas companhias, animam a paisagem do Douro, no feriado mais parado da cidade. Os confrades da Confraria do Vinho do Porto, cada um com o seu traje henriquino, encabeçam as respectivas embarcações, que têm de conhecer às águas em que navegam, a mestria das manobras e as as direcções do vento, que não é pouco. Não pude ver quem ganhou a corrida (mas as notícias online ajudam), mas reparei que as últimas foram marcas de nome inglês e alemã - à atenção de futuras queixas de Frau Merkel. Em todo o caso, eis uma tradição que tem o condão de reviver os tempos em que estes barcos de madeira desciam o douro, até aos cais de Gaia e da Ribeira (se bem que em sentido contrário), atafulhados de pipas, e para a qual vale a pena chamar a atenção...desde que se conservem a horas decentes.


(Foto tirada daqui)

quinta-feira, junho 23, 2011

Cem anos de feriado


Nos cartazes relativos às festas de S. João deste ano colocados pelo município surge uma novidade: os cem anos da festividade oficial. Em bom rigor, as festas joaninas comemoram-se há séculos, com a justaposição da homenagem cristã ao Baptista às festividades pagãs do solstício de Verão. No Porto, as fogueiras tradicionais perdem-se na memória dos tempos. Mas até serem oficializadas, tiveram de esperar muito.

A 1ª República pretendeu, logo no seu início, criar os feriados municipais, acabando ao mesmo tempo com os religiosos, numa tentativa de laicizar e "educar" a sociedade. Assim, os municípios e as suas novas vereações republicanas estabeleceram os que eram mais próximos aos munícipes, ou mais convenientes.

No Porto, as autoridades camarárias não chegaram a acordo, pela que a decisão acabou por ser referendada, numa "consulta ao povo do Porto" levada a cabo pelo Jornal de Notícias. Havia várias propostas, além do 24 de Junho, já muito festejado: 1 de Maio, 8 de Dezembro, 9 de Julho (entrada das forças liberais no Porto), e outras que não vêm à memória. Acabou por ganhar, com grande maioria , o S. João, que era assim, em 1911, instituído como o feriado municipal da cidade do Porto.

Não deixa de ser irónico que, em plena República laicista e com assomos jacobinos, tenha sido o Santo que baptizou Cristo a nomear um feriado criado por iniciativa de um organismo republicano, mesmo que as festividades fossem sobretudo pagãs.

Em todo o caso, é graças a esse referendo municipal de há cem anos que hoje em dia podemos festejar o Baptista e a chegada do Verão, sabendo que no dia seguinte se pode sempre recuperar das mazelas.


terça-feira, junho 21, 2011

Uma aposta que saiu por cima


O tão almejado sonho de Fernando Nobre ficou pelas bancadas de S. Bento. A coisa já se adivinhava à légua desde o início, com todos os partidos, mesmo o CDS, a declarar à partida o seu veto. Uma batalha perdida. Mas percebe-se que Pedro Passos Coelho tenha querido levar a hipótese até ao fim. Deu a sua palavra, não tinha mais que a cumprir, apesar dos apelos sem contrário e do desfecho previsível. Para além de uma questão de honra, a táctica também pode ter jogado a favor, já que não lhe ficava nada bem voltar com a palavra atrás na véspera de tomar posse como Primeiro-Ministro. Deixar cair Nobre seria deselegante e traiçoeiro. Também não me pareceu pior que o fundador da AMI optasse por ficar no Parlamento. Reconsiderou que a sua presença seria mais útil como agente legislador. Está lá pelo voto dos eleitores, não para fazer birrinhas de cargos.


Já sobre a eleição, tenho dúvidas se terá sido a primeira vez que um candidato ao cargo não conseguiu ser eleito. Sei do confronto entre Oliveira Dias e Teófilo Carvalho dos Santos, em que este perdeu para o candidato da AD. O caso não é exactamente igual, mas houve também um derrotado.


Nobre era um erro de casting desde o início, como quase todos reconheceram. Mas levando a candidatura até ao fim, conseguiu sair-se airosamente. A alternativa Assunção Esteves ficou guardada até ao dia seguinte, enquanto todos discutiam se a segunda figura do estado seria Mota Amaral ou Guilherme Silva. Acabou por ser eleita com um grande número de votos e cumprimentos elogiosos de todas as bancadas. Poucas horas depois da tomada de posse do Governo, também o Parlamento tinha quem dirigisse os seus trabalhos.



No mesmo dia, dois transmontanos do distrito de Vila Real assumiram os dois cargos mais importantes da nação depois do chefe de estado.

segunda-feira, junho 20, 2011

A pergunta mais ouvida nos últimos dias

"Quem é esse Vítor Gaspar"?

domingo, junho 19, 2011

Nuno "Gomes"



Previsível mas desagradável. Apesar de ténues esperanças, Nuno "Gomes" deixa mesmo de ser jogador do Benfica. Ainda pretendia jogar mais um ano, mas Jorge Jesus, tal como mostrou na época acabada, não esteve pelos ajustes. É a partida de um jogador que esteve doze anos (entrecortados) no Benfica. Números que já não se usam.

Veio do Boavista quando era uma das maiores esperanças portuguesas para a frente de ataque. Mostrou logo profissionalismo, pois quando ainda estava ao serviço da turma do Bessa, marcou um golo ao Benfica na final da Taça de Portugal, que lhe ditou a derrota, apesar de já ter assinado. Depois seguiu-se uma média de vinte golos por época e as fantásticas exibições no Europeu de 2000, que obrigaram Vale e Azevedo, apertado pelos credores, a vendê-lo à Fiorentina. Havia esperança que, com Rui Costa ao lado, fosse o novo Batistuta, mas eram expectativas demasiado pesadas. Marcou menos do que esperava, ganhou uma Taça, e a Viola de Florença estourou sob as dívidas. Nuno tinha vários convites, mas optou por regressar à Luz, a custo zero, num dos melhores negócios de sempre do Benfica. Já não era o artilheiro dos vinte golos/época, mas era um avançado que abria espaços e fazia assistências preciosas, sem deixar de marcar os seus tentos. Esteve quase a ser o melhor marcador, em 2006, mas uma lesão grave retirou-o de campo a algumas jornadas do fim. A pouco e pouco, os golos foram diminuindo, outros avançados foram chegando, começou a alternância entre o banco e a titularidade. Não sendo uma escolha absoluta, era no entanto a referência, o "mais velho", o capitão do plantel. Até chegar a era Jesus, e o banco se tornar no seu local habitual em campo.

Na Selecção também deu nas vistas, em vários escalões. Marcou pela primeira vez com as Quinas ao peito no Euro 2000, contra a Inglaterra, um golo que selou uma das mais incríveis reviravoltas em competições internacionais. Marcou muitos mais (à França, nessa competição, pregando Barthez ao relvado, à Espanha, no "nosso" Europeu, levando Portugal à fase seguinte, à Alemanha), 29, ao todo, tendo-se tornado, até ver, no quarto melhor marcado de sempre por Portugal.

Nuno Gomes é o melhor artilheiro português dos últimos vinte anos, com mais golos marcados na carreira do que Rui Águas, Domingos ou Cadete. Mais do que ele, só mesmo o jogador que lhe deu a alcunha, Fernando Gomes. No entanto, durante anos era mal-amado, por causa da carinha laroca, dos cabelos e da bandelete para os prender, etc: era a "menina", o que se preocupava mais com o cabelo do que em jogar, o que se distinguia mais pelos falhanços do que pelos golos, etc, etc. Os adeptos preferem sempre os broeiros aos que têm aspecto mais fashion. O estatuto de "segundo melhor" atrás de Jardel e as comparações na segunda passagem pelo Benfica com os números da primeira também não ajudaram. Assim, Nuno teve de carregar durante anos uma pesada cruz, até se tornar veterano e assumir a barçadeira de capitão, e de, na época finda, provocar verdadeira empatia com os adeptos, entrando raramente e perto do fim, para ainda assinar com alguns golos. Embora tarde, conseguiu fazer as pazes com a "torcida". Depois de doze anos de águia ao peito, não conseguiu a renovação do contrato por parte da equipa técnica do Benfica, mais preocupada em importar sul americanos e júniores "muito promissores" do Varzim, e ele preferiu acabar a carreira noutras paragens, certo de que ainda tem golos a marcar. Provavelmente vai consegui-lo. Menos provável é que se encontra um ponta de lança português tão concretizador nos próximos anos.

quarta-feira, junho 15, 2011

Façam-se apostas


Parece que o fumo branco governamental estará por horas para sair de Belém. Saberemos então quais e com quantos ministros conta Passos Coelho. Não faço apostas. O soundbyte é enorme, com nomes para todos os gostos, desde relíquias do cavaquismo, como Fernando Nogueira (quem diria?), Braga de Macedo e Marques Mendes, até independentes como Vítor Bento e Fernando Nobre, e ex-socialistas tais como Daniel Bessa. Pelo meio ventilam-se Aguiar Branco, Paula Teixeira da Cruz, Eduardo Catroga, Pires de Lima. Prefiro não arriscar. Quase que aposto que boa parte desse nomes é lançada propositadamente ao vento para estabelecer a dúvida e a discussão. Sempre quero ver quais as surpresas que vão passar pelo anúncio da equipa governamental. Aquela que tem um trabalho hercúleo pela frente.

terça-feira, junho 14, 2011

Rescaldo - pequenos






Mais uma vez os "pequenos partidos" não conseguiram entrar no Parlamento. Até subiram, na sua globalidade, mas ficaram de fora. Desde 1991 que nenhuma formação pequena consegue furar os números. Nesse ano, o PSN do professor Manuel Sérgio conseguiu uma proeza improvável, antes de se afundar na irrelevância. Tirando o caso da federação de partidos que, com sucesso, formou o Bloco de Esquerda, nenhum consegue lá chegar.




O MRPP, velho partido de murais épicos e militância estudantil famosa, é sempre o primeiro dos últimos. Até hoje, e apesar da sua história e de ser conhecido, não conseguiu um único representante. Garcia Pereira é persistente, mas tudo tem os seus limites.




O MEP é a grande desilusão. Com os focos dos debates a incidirem sobre Rui Marques, teve ainda menos votos do que em 2009, e muitos menos do que aquela coisa dos animais. Essa nóvel formação conseguiu surpreender, talvez por causa do apoio de algumas caras conhecidas, ou da mobilização dos budistas, vegans e alguns votos habitualmente bloquistas. Quanto ao MEP, não sei qual o seu futuro, ou sequer se o tem. É que a desolação de resultados levou Marques a abandonar a liderança do movimento, e sem ele, tenho sérias dúvidas que se aguentem.



O MPT, em nome próprio, cresceu, mas terá de ambicionar mais se quiser chamar a atenção para os valores que defende. O PNR também subiu (terá sido o temor e a reacção aos indianos usados pelo PS?), mas por este andar ainda faltará muito tempo até Pinto-Coelho chegar à A.R.



O PPM, apesar da sobriedade de Paulo Estêvão e da graciosidade de Aline Hall, ficou-se por um resultado desolador, nada digno de quem já esteve no governo. De resto, o costume: POUS, Portugal Pró-Vida e Partido Humanista fecharam o pelotão. O Partido do Norte, do tronitruante Pedro Baptista, que se albergou no PDA, essa micro-entidade açoriana (que não é a primeira vez que serve de barriga de aluguer a um partido regional, se se lembrarem do alentejano Movimento Amigos da Planície), saldou-se por números irrelevantes. E já que se fala em partidos regionais, tivemos pelo meio a Nova Democracia, que agora praticamente só aposta na Madeira, e o Partido Trabalhista, do ex-PND José Manuel Coelho, que não chegou aos calcanhares do resultado das presidenciais, há apenas 5 meses. Tivesse ficado no antigo partido de Manuel Monteiro, e as perspectivas para as regionais eram interessantes. Assim, desbaratou os votos que lhe poderiam ser preciosos mais tarde. O pecado da gula é aquele que mais depressa acarreta punição.

sábado, junho 11, 2011

Rescaldo (à esquerda)


A subida do PSD é directamente proporcional à queda do PS. A conversa de que a queda do governo era culpa da oposição não convenceu minimamente o eleitorado. Como aconteceu na Grécia e na Irlanda, o recurso ao FMI, aliado ao desgaste de Sócrates, levou à derrota do partido no poder. O PS voltou a números que não tinha desde Sampaio, no auge das maiorias cavaquistas, abaixo dos 30%, coisa que sondagem alguma indicou. E com graves riscos internos. A união à volta do "líder" secou as vozes internas e as tendências ideológicas. O poder tem destas coisas, e Sócrates ajuda.


Estava bastante combalido, embora o tentasse disfarçar. A sua renúncia motivou muitos "nãos" de aflição, como costuma acontecer aos líderes aditivos, mas não podia fazer outra coisa. Ao menos na sua despedida, o PM cessante mostrou a humildade e o desprendimento que lhe faltaram nestes anos todos. Deixa o seu partido com uma disputa da sucessão pela frente, assumida oportunisticamente minutos depois por António José Seguro, que vê chegado o seu momento, secundado dias depois por Francisco Assis. António Costa, do seu gabinete no Intendente, preferiu ficar como "reserva futura. Veremos se o PS atravessa o vazio desértico pós-socratista, sendo certo que terá umas palavras a dizer no novo ciclo.



A CDU mantém os votos e ganhou mesmo um deputado por Faro. Desde que Jerónimo chegou que a hemorragia inexorável estancou. Bom aproveitamento da crise, renovação da militância, a "genuinidade" de Jerónimo? Não perguntem. Só sei que depois de duas décadas em queda, a coligação vermelha-verde se consegue aguentar.


O Bloco de Esquerda é um dos grandes temas de conversa pós-eleições. Previa-se a descida, apanhou por tabela e teve uma resultado desastroso. Perdeu metade dos deputados, entre os quais José Manuel Pureza, que lhe fará muita falta. Francisco Louçã não quer sair da "coordenação", o que revela bem a sua propensão totalitária, mas já se ouvem vozes nesse sentido. A verdade é que Louçã é o rosto do Bloco desde o início, e o seu afastamento poderia ser ainda pior para o partido. não se vislumbram grandes alternativas, excepto talvez Miguel Portas (como se tratariam doravante CDS e Bloco?)Em todo o caso, conviria pensar em mudanças internas. Mas talvez seja demasiado prematuro fazer já o enterro do movimento. Se aproveitar bem os tempos difíceis que se avizinham, e não cometer demasiados erros estratégicos, como a história da moção de censura de opereta, talvez cresça em escrutínios futuros. Até lá, está confinado ao núcleo duro no parlamento.

quarta-feira, junho 08, 2011

Rescaldo (à direita)


Esta análise vem com dois dias de atraso, bem sei. Mas gosto de fazê-las com calma, e o tempo é um bem escasso.


Como já tinha dito, estas eleições não trouxeram nada de especificamente surpreendente, tirando a diferença entre PSD e PS. Num ou noutro caso, no essencial, houve algumas surpresas, mas não há eleição que não as tenha. No essencial, nada espantou.



O PSD é o grande vencedor mais pelos números do que pela vitória em si. Como tinha notado na arruada que presenciei em Santa Catarina, os sociais democratas levavam já uma dinâmica de vitória, ao passo que o PS estava já pouco entusiasmado. Tudo isso depois de semanas de "empates técnicos". Até Abril/Maio, o PSD tinha uma vantagem muito confortável nas sondagens. Perdeu-a quando o discurso começou a tergiversar, com vários dirigentes a falar cá para fora a diversas vozes, por vezes em contradição com Passos Coelho. Mais do que o debate (onde Passos não se deixou intimidar por Sócrates e que marcou alguns pontos), o silenciamento de algumas figuras, como Catroga ou Leite Campos, e a união em volta do líder foram fundamentais.


Antes do anúncio dos resultados, o PSD já sabia seguramente que tinha vencido as eleições, mas talvez não por aquela margem. o número de deputados conquistados, que ainda vão aumentar com a emigração, permite-lhe um certo desafogo nas negociações já em curso com o CDS-PP e se for necessário, prescindir dos votos madeirenses para impedir qualquer veleidade chantagista a Alberto João Jardim.

Há números curiosos. Para além das habituais zonas de implantação laranja de Trás-os-Montes, Beira Interior e Leiria, o PSD ganhou em todos os concelhos do Algarve, onde obteve mais um deputado (o meu antigo companheiro de quiz, Cristóvão Norte, filho do deputado homónimo que nos anos setenta era o único deputado laranja do distrito). Em Setúbal, onde em 1975 estava impedido de fazer comícios, o PSD também ganhou. Em Beja recuperou o deputado perdido há vinte anos. E até venceu no "Socraquistão" de Castelo Branco e Portalegre (aqui com apenas mais 14 votos).


Como seria de esperar, em Vila Real, Passos coelho obteve o seu segundo melhor resultado. Num distrito fortemente PSD, a proveniência do líder só podia reforçar as contas. Melhor só mesmo em Bragança. Há que felicitar o cabeça de lista vencedor. Ainda por cima, o distrito já há algum tempo que não vota tanto à direita como no início, quando se dizia que os comunistas comiam criancinhas e os socialistas roubavam galinhas.


Até por estes números simbólicos, Pedro Passos coelho é um vencedor inequívoco. Apesar de todas as gaffes, confusões e polémicas. Não tendo grande biografia (Cavaco também não tinha, segundo Soares), parece-me antes de mais um indivíduo decente e correcto, ideia que também recolhi de conhecimentos familiares de Vila Real. Claro que o carácter nem sempre é tudo num líder que se quer forte e corajoso, mais a mais numa situação como a actual, mas é sempre o princípio de tudo. O resto dependerá do apoio que tiver.



E o CDS-PP? Conseguiu alcançar todos os objectivos a que se propunha, mas as expectativas nos votos (cheguei a ouvir alucinações de "17%") foram goradas, não há que disfarçá-lo. Não percebi se a relativa calma que se vivia no Caldas e a prudência de Paulo Portas no seu discurso tinham directamente a ver com isso ou se era já o pensamento no dia seguinte, mas parece-me indissociável a água na fervura das expectativas e a placidez dos militantes na noite eleitoral. Em 2009, se bem se lembram, foi um delírio com os "dois dígitos". As sondagens voltaram a enganar-se, mas ao contrário. Agora, a entrada no governo está assegurada e corre os seus termos, e a esquerda radical está lá para trás. Mas os populares fariam bem em dar atenção a um aspecto. É verdade que cresceram em votos sobretudo nas zonas urbanas, e ao que parece, também no voto "jovem". Isso reflectiu-se nas enormes subidas em Setúbal e Lisboa. Em contrapartida, noutros círculos com votações tradicionalmente interessantes, como Viseu, Braga, Leiria e Aveiro, o CDS estagnou ou perdeu mesmo votos - é o caso de Aveiro, por onde corre Portas. Se num escrutínio nacional o partido pode captar mais votos graças a algumas ideias, a um líder carismático ou a razões circunstanciais, já nas locais a coisa tende a cair por terra, como as autárquicas muito bem o comprovam de eleição para eleição. O CDS já teve um bom número de câmaras, incluindo várias capitais de distrito. Hoje está reduzido a Ponte de Lima. As estruturas locais ou são fracas ou não têm capacidade de atracção de figuras de prestígio e eleitores, e o triste facto dos municípios estarem convertidos em agências de emprego. Um partido que pretende ser influente na vida nacional precisa de assentar nalgumas estruturas municipais, regionais ou sociais (o PCP tem os sindicatos e algumas regiões de grande peso). Se os militantes do CDs não pensarem nisso, arriscam-se a ter sérios dissabores daqui a uns anos.



A frase mais badalada da noite, sem a menor dúvida, era o "cumpriu-se o sonho de Sá Carneiro: um governo, uma maioria, um presidente". Formalmente, cumpriu-se neste 5 de Junho, sim. Mas na prática o objectivo do fundador do PSD já tinha sido atingido post mortem em 1982, com a primeira revisão constitucional, que afastou os generais do poder e transformou o Conselho da Revolução em Conselho de Estado. No Domingo, apenas se cumpriu o slogan da AD. Saberemos nos capítulos seguintes quais as suas consequências práticas.

segunda-feira, junho 06, 2011

Resultado


A vitória do PSD não terá surpreendido ninguém que estivesse minimamente atento na última semana. Mas não esperava uma diferença tão grande entre os partidos do "bloco central". Um pouco menos do PSD, um pouco mais do PS e do CDS, e que o bloco não ficaria abaixo dos 7%. só acertei com a CDU, que se manteve nos 8%, O seu eleitorado é mesmo fiel.


A diferença nas previsões (e nas sondagens) não altera o essencial: o PS perdeu, o PSD ganhou com maioria relativa e terá de se aliar com o CDS-PP, que aumentou a votação e o número de deputados. a esquerda radical perdeu votos e vozes. Sócrates abandona a liderança mais cedo do que poderia pensar (mas não Miguel Sousa Tavares, que previu que às 21:30 Sócrates já não seria secretário-geral do PS; enganou-se por dez minutos...), e deixa assim caminho livre para um sucessor mais flexível com a oposição, perante as duras políticas que se antevêem e que precisarão de ser negociadas.


Como recordavam alguns, está cumprido o sonho de Sá Carneiro: um governo, uma maioria, um presidente.

Amanhã haverá tempo de se analisar os resultados mais ao pormenor.

domingo, junho 05, 2011

Alcântara e o regresso de um símbolo

 
Quando há uns anos me mudei para Lisboa (mudança essa retrocedida pelo regresso ao Porto), imediatamente iniciei o processo de reconhecimento da cidade onde ia ficar indefinidamente. Vivi em várias zonas, de Telheiras a Arroios, e pelo meio com um desvio para a Linha. Mas à parte as deambulações iniciais, a zona de Lisboa que mais me marcou nos primeiros tempos foi Alcântara, por trabalhar aí e por viver nas proximidades, na Infante Santo. A descida das Necessidades, de cujo jardim se avistava toda a zona, através da estreita rampa até ao largo da Armada, era um prenúncio da zona com eixos viários mais ou menos amplos, irrigados por vielas e becos de onde saíam gatos ou marinheiros para tomar um dos inúmeros bagaços do dia. Não faltavam aí restaurantes, desde snacks e tascos modestos até grandes marisqueiras, de letreiros bem visíveis. Havia casas degradadas, baldios decrépitos, esperando a eternamente adiada intervenção de Siza, e ruelas de idade respeitável, como a Travessa da Trabuqueta, que, a crer nas primeiras páginas de A Cidade e as Serras, existia já em tempos de D. João VI e constituía um perigo para os Jacintos da época.
 


Alcântara está dividida pela Avenida de Ceuta e pelo movimentado cruzamento entre essa parte que acompanha o eixo da Prior do Crato e a que se estende à volta do Largo do Calvário. A homenagem toponímica nessa zona ao pretendente ao trono é de fácil explicação: precisamente nesse local, as forças mal armadas e treinadas que apoiavam D. António, comandadas pelo refugo do refugo de Alcácer Quibir, enfrentaram aí os poderosos Tercios do temível Duque de Alba, e claro está, foram obviamente desbaratadas, permitindo a entrada dos castelhanos na capital e a consequente subida de Filipe II ao trono português. Na altura, havia uma ponte que atravessava a ribeira de Alcântara, que separava Monsanto da cidade, e assim permaneceu até ao Século XX, altura em que se encanou o curso de água.

A arquitectura industrial, com maioria de fábricas abandonadas, e as casas oitocentistas (podendo-se ver uns poucos exemplares de art nouveau) convivem agora com as Docas, espaços ribeirinhos cuja noite já teve melhores dias, e novos projectos como o Alcantara LX, uma construção moderna e claramente destacada da envolvente de antigas fábricas. A sucursal lisboeta do Twins fica por ali, e do outro lado o Garage deu cartas durante uns tempos. A frente do edifício industrial que o acolhia era meia tapada por uma estrutura metálica que ligava a estação de Alcântara-Terra a Alcantâra-Mar, da linha de Cascais, vizinha da Gare Marítima e do Museu do Oriente, já ao lado do rio todos com arquitectura modernista dos anos quarenta e com recordações de Almada Negreiros.

A principal marca desportiva de Alcântara é o Atlético clube de Portugal, fusão do Carcavelinhos e do União de Lisboa. Jogou inúmeras vezes na primeira divisão, chegou a finais da Taça, e até aos anos setenta era um habituée do escalão principal. Afastado desde aí dos grandes jogos, o Atlético teve um momento de glória quando eliminou o Porto da Taça de Portugal, em 2007, em pleno Dragão. Os alcantarenses festejaram efusivamente o feito, e o periódico da colectividade até emitiu uma edição especial. Mesmo os Gato Fedorento se lembraram de parodiar esse jogo. O seu estádio, a Tapadinha, fica nos altos de Alcântara. É um recinto envelhecido, um pouco à imagem do clube, sem cadeiras nem cobertura, mas com uma bela vista sobre o Tejo. As suas assistências são até satisfatórias para as divisões secundárias


Cheguei a assistir a um desafio com outro histórico do futebol português, o Barreirense, pouco tempo depois desse tomba-gigantes protagonizado pelo Atlético nas barbas de Jesualdo e Pinto da Costa. O confronto com os vizinhos da margem Sul, de onde saíram várias lendas do nosso futebol, teve muitos episódios na primeira divisão, em tempos que já há muito lá vão. Hoje são dois clubes semi-profissionais, que vivem das memórias, dos sócios e de alguma publicidade local.


Segundo os alcantarenses, uma das razões que ditou o declínio do Atlético foi a construção da Ponte sobre o Tejo, que passa por cima da zona, aliás mesmo ao lado da Tapadinha. Talvez porque se tornou um mero atravessadouro, e perdeu o movimento dos passageiros que seguiam de cacilheiro, e toda a indústria local, relacionada com o rio. Não sei se é a verdadeira razão ou não - com a profissionalização, os clubes de bairro tenderam a decair, e as receitas não devem abundar.


O que é certo é que o Atlético teve mais um momento histórico há dias: depois de ficar em primeiro lugar na 2ª divisão B-Sul, venceu na liguilha de subida o Padroense e subiu à divisão de Honra, agora Segunda Liga, ou seja, aos campeonatos profissionais. Fará companhia o União da Madeira, aquela agremiação quer era normalmente composta por Dragans, Miltons Mendes e Simics naturalizados, mas não já pela turma do Padrão da Légua, por causa das estúpidas regras que regem estas promoções. Assim, além do Benfica-Sporting, haverá outro derby lisboeta, na divisão inferior: o clube de Alcântara contra o seu rival (e antigo "Grande") Belenenses. Saúda-se este regresso do Atlético Clube de Portugal, e sobretudo, a animação que não será na Tapadinha a recepção aos vizinhos de Belém e da Ajuda. Os alcantarenses já mereciam.

sábado, junho 04, 2011

O bloco central em Santa Catarina



Na quinta-feira, pretextando uma volta pela Feira do Livro, de novo na placa cinzenta dos Aliados, assisti às duas arruadas dos partidos do Bloco Central. Se à volta dos aliados as jotinhas laranjas, montadas em autocarros de dois andares, já ensaiavam as bandeiras e megafones, em Santa Catarina desfilava o cortejo socialista, com Sócrates acenando no meio. Uma fila extensa, com bandeiras de várias cores (já não apenas o rosa e branco), o mulherio da Sé em transe com o ainda primeiro-ministro, tentando beijá-lo, ou em alternativa a fotografia, e com a secção do PS de Santo Ildefonso a aplaudir à varanda.



Meia hora depois, a caravana laranja, com os mesmos adereços, as jotas em êxtase, mais ainda quando chegou Passos coelho, que mal se via entre as câmaras e os microfones entre os quais se desdobrava-se freneticamente. Deu-me ideia que os cortejos tinham uma extensão mais ou menos semelhante, mas o do PSD era mais compacto, coisa que os jornais no dia seguinte confirmavam. No resto, poucas diferenças. As caravanas lembravam uma claque de futebol, com bandeiras gigantes, os militantes a envergar as camisolas do partido e alguns chefes de secção com microfone a entoar slogans para a turba repetir.






No artigo de Sexta, Vasco Pulido Valente acertava em pleno. De facto, Sócrates anda em campanha rodeado de seguranças, só permitindo alguns furos ocasionais de fãs histéricas. Tudo dentro do profissionalismo eleitoral da "máquina rosa". Como também recorda VPV, Mário Soares andava alegremente no meio da multidão, até na praia fazia campanha, entre os campistas, e por causa disso aconteceu o episódio da Marinha Grande, que lhe deu um élan inesperado nas presidenciais de 1986. Ao colunista só lhe faltou um pormenor: é que tal como Pinto de Sousa, Passos Coelho também anda rodeado de um cordão de forças e de guarda-costas profissionais, que pouco o aproxima dos transeuntes, e que não fica bem com a sua bonomia. Até nisso, as campanhas do centro-esquerda e do centro-direita do bloco central são idênticas.

sexta-feira, junho 03, 2011

Os não representados

 
As campanhas dos partidos com assento parlamentar não fogem muito à rotina habitual, ao contrário do que esperava, tirando aquela renúncia aos outdoors, que sobraram para os pequenos. Estes fazem o que podem. O debate na RTP é uma migalha, mas sempre serviu para ver quem é que tinha ideias para discutir. O MPT de Pedro Quartin Graça , o MEP de Rui Marques, o PPM de Paulo Estêvão e mesmo o MRPP do "veterano" mas sempre activo Garcia Pereira foram os que expuseram ideias mais claras, e acima de tudo mais soluções concretas, por vezes coincidentes. Nem todas serão exequíveis, mas nenhum vende gato por lebre. Ouvi um pouco Paulo Borges, do Partido dos Animais, mas perdi um pouco a paciência com a conversa da união entre todos os seres vivos e que todos os valores dos outros candidatos eram relativos em comparação com o ideal que defendia (estava a ver que ia propor que os animais tivessem o direito ao voto). José Pinto Coelho não deixou de culpar os emigrantes pelos estragos do estrito conceito que ele tem de Nação; quanto ao outro Coelho, o da Madeira, começou logo desde o início a sabotar a conversa com o seu lençol de slogans, ao qual chamava"os ideais de Abril" (calculo o que Quartin Graça não terá aguentado).


As sondagens dão números interessantes aos pequenos partidos, o que pode indiciar que entrem no Parlamento. Garcia Pereira estaria na calha para isso, mas a incompreensível decisão de deixar todos os outros candidatos à sua espera em vão depois de ganhar uma providência cautelar que obrigava as televisões a transmitir debates entre eles pôs seguramente em risco a sua eleição. É pena, porque tanta persistência merecia um lugar ao velho MRPP em São Bento, mas estas atitudes pagam-se caro. Diferente posição teve o MEP, que ganhou idêntico direito ao debate, e Rui Marques não perdeu a sua oportunidade. É possível que tenha marcado pontos. quem sabe se não teremos o verde do MEP e do MPT no parlamento, levando algum ar fresco aos Passos Perdidos.


Quanto a José Manuel Coelho, duvido que a transferência para o invisível Partido Trabalhista, liderado por um senhor chamado Amândio Madaleno, sirva para segurar os surpreendentes votos das presidenciais. No fundo, os candidatos independentes à presidência nunca seguram a sua votação. a prestação no debate também não ajudou.




Ps: a Nova Democracia está transformada em partido regional madeirense, ou a passagem de José Manuel Coelho deixou o vírus da paródia no partido? É que ouvir aqueles tempos de antena, metade eles ocupados por musiquinhas pretensiosamente satirizantes, sem apresentar uma única ideia, tira logo a paciência a um santo.

terça-feira, maio 31, 2011

Bodas de Ouro


Há cinquenta anos, o Real Madrid era apeado do seu trono de único campeão europeu por uns rapazes de camisola vermelha e águia ao peito. E nada voltou a ser como dantes.
Os legítimos detentores da "resolução"



A campanha eleitoral decorre sem grandes rasgos ou novidades de maior, excepto a quase ausência de outdoors. Qualquer declaração potencialmente mais abrasiva ou "politicamente incorrecta" é uma notícia em si. Assim, não surpreende que as respostas de Pedro Passos Coelho às questões levantadas pela Rádio Renascença sobre a questão ao aborto tivessem causado um turbilhão de recriminações, aproveitamentos descarados e urros indignados, não sei se por deficiências interpretativas ou por mera total ausência de aceitar ideias alheias.


Passos Coelho é a favor da actual lei, como esclareceu aos microfones, e não pretende alterá-la mas tão somente melhorar a sua supervisão e analisar se está ou não a ser correctamente aplicada, de forma a não tornar o aborto num meio contraceptivo. Não é, claro está, a minha opinião, já que discordo da actual lei onde o aborto não é meramente despenalizado, tendo-se tornado uma prática comum financiada pelo estado. e como não acho que um feto de 10 semanas seja meramente um apêndice sem vida, moralmente não podia discordar mais disso.

Mas consigo perceber a ideia de Passos Coelho, e mais ainda o comentário de tolerância para quem não pensa da mesma forma: a legitimidade de um grupo que perdeu uma causa em referendo poder voltar a exigir nova consulta popular (com algum intervalo de tempo).


Essa legitimidade é recusada por muitos que defendem a actual lei, e que consideram que qualquer mudança seria um "retrocesso" e o regresso "às trevas" e à "Idade Média". Isso verificou-se no habitual censor da esquerda radical, Francisco Louçã, que acha que a lei anterior "só é defendida por uma minoria ultra-reaccionária" e que Portugal "já está no século XXI". Deixando de lado os habituais determinismos temporais de que "a sociedade não volta para trás", seria bom saber em que é que o coordenador do Bloco se baseia para falar em "minorias" (que de resto está habituado a apoiar, por mais ridículas que sejam). Se pensarmos que em 2007, num referendo cuja abstenção foi superior a 50%, 41% dos eleitores votaram "não", é caso para perguntar qual é o conceito de minorias para Louçã. Semelhante ideia exprimiram outros conhecidos defensores do aborto livre, como Vital Moreira, ainda hoje no Público, e mesmo o editorial deste diário, que ultimamente anda a resvalar para o absurdo.


De todo este "caso" retive duas ideias, cada uma mais inquietante do que a outra: a de que não falta gente que, ao contrário do que dizia na campanha dos referendos, e a fazer fé nos comentários facebookeanos à notícia, são "a favor da aborto", e não meramente à sua despenalização; e que os que se opõem à legalização dessa prática não têm o direito nem a legitimidade de exigir alterações à lei nem um hipotético futuro referendo, ainda que os seus defensores o tenham feito durante anos a fio, mesmo depois de derrotados, porque era preciso "resolver a questão".


Estará a questão resolvida? Quem é que decide isso? Os senhores defensores da "IVG" têm o exclusivo? Às vezes retroceder não é pior, sobretudo se se tiver com um precipício em frente.

sábado, maio 28, 2011

Não culpem o dia


Creio que nunca tinha havido um caso tão grave no Dia da Defesa Nacional como o que aconteceu há dias à rapariga que morreu de uma queda quando fazia slide. Pelo menos é o que asseguram os responsáveis das forças Armadas que, diga-se em abono da verdade, não perderam tempo a ordenar um inquérito imediato do sucedido. Aproveitando o drama do Quartel da Serra do Pilar, alguns "pacifistas" já vieram exigir o fim do Dia da Defesa Nacional (instituído no seguimento do fim do serviço militar obrigatório, e a que todos os jovens têm de comparecer no ano em que chegam à maioridade). Não estão sós: alguns periódicos, como o Público, seguem a mesma ideia, como se pode comprovar na coluna da última página de Sábado deste jornal, que considera que a tragédia "vem dar razão aos que querem acabar com essa absurda obrigatoriedade".


Absurda, pergunto eu? Talvez para os que julguem que o mundo é um lugar muito pacífico, que basta não haver forças armadas e nada, em tempo algum, nos poderá acontecer, que são "práticas medievais", etc. Acontece que apesar de há quase dois séculos não sofrermos nenhuma invasão, não fazemos ideia do que o futuro nos reserva. Podiam também recordar que temos uma grande Zona Económica Exclusiva, que convém vigiar, que não raras vezes a nossa força aérea precisa de ir buscar cidadãos portugueses em apuros, como aconteceu recentemente na Líbia, que fazemos parte de organizações e que temos obrigações a cumprir em intervenções externas, etc. (talvez este último ponto não seja grande argumento perante quem grafite e grite "Portugal fora da NATO!"). em suma, as forças armadas são necessárias e são um dos pilares de um país. não havendo serviço militar obrigatório, entende-se perfeitamente a necessidade de uma jornada semelhante. Não fosse isso, e as novas gerações nem saberiam que temos umas forças armadas.


Para além do mais, os desportos mais radicais, como o que vitimou a infeliz rapariga, nem são obrigatórios. Não houve qualquer ordem no sentido de deslizarem num cordame de aço nos pátios do histórico quartel de Gaia. Por isso, os opositores ou cépticos do Dia da Defesa Nacional gastariam menos esforços se não usassem jargões pouco convincentes (e já agora, se não usassem a torpeza de utilizar dramas para os seus objectivos ideológicos) e se cingissem às verdadeiras causas dos acidentes que merecem um tratamento o mais rigorosos possível, o apuramento de responsabilidades e a certeza de que não voltarão a repetir-se. Tudo resto é conversa fiada de gentinha irresponsável.

terça-feira, maio 24, 2011

Do isqueiros ao i-phone


No soberbo concerto que os National deram ontem no coliseu, não faltou a já previsível comunhão da banda com o público, com o vocalista Matt Berninger a percorrer as coxias e a ir até ao fundo da sala, convivendo efusivamente com a plateia em delírio, e o final acústico, um clímax sereno. Mas dei-me conta de uma marca dos tempos: os tradicionais isqueiros, que costumavam acompanhar as baladas, desapareceram, substituídos pelos telemóveis e i-phones. Não há concerto hoje que não tenha um testemunho de três minutos. As luzes permanecem, mas sutentadas em baterias e digitalismos, e não mais em combustível. Terríveis tempos tecnológicos, estes.




Apenas ficou a faltar isto:

segunda-feira, maio 23, 2011

As gracinhas de Frau Merckel





As recentes declarações de Angela Merckel sobre a quantidade de dias de férias e a idade da reforma em Portugal, entre outros países, trazem consigo os germes do populismo e do autoritarismo encapotado. Fazer acusações tão levianas sem dados rigorosos nem ao menos próximos da realidade mostram que a actual Chanceler continua na senda da caça - ou manutenção - dos votos depois dos desastres que foram as eleições nos Lander, onde até os Verdes suplantaram a CDU, e que não hesita em recorrer ao mais patético populismo para o conseguir, mesmo que os resultados saiam pela culatra, como o provam as imediatas críticas da oposição.


Para além disso, e da óbvia humilhação que tenta lançar aos visados (mostra clarissimamente o que é a solidariedade europeia hoje em dia), arroga-se no direito de dizer aos outros como devem regular os seus sistemas sociais internos. Tanto Portugal como a Grécia, e outros, precisam de fazer reformas na administração pública, segurança social (aqui precisam todos, sob pena de falirem em poucas décadas) e economia, nos seus variados sectores. Mas quem o pode fazer são os respectivos governantes, supervisionados pelos orgãos comunitários competentes, ou por instituições com as quais tenham celebrados acordos, como aconteceu recentemente com o FMI e o BCE. Que Merckel, essa ambígua frau em cujas mãos os alemães depositaram o poder executivo, se ache no direito de mandar bocas para o seu eleitorado sem sequer estar na posse de dados válidos, demonstra apenas mais uma vez esta tendência alemã de viragem para o autoritarismo, não já com Anchluss e Panzers, mas enviando ordens económicas de longe, desdenhosa e altiva. Khol e Schmidt, estadistas com obra, bem se fartam de dar preciosos avisos, mas esta Bundesrepublik parece bem diferente da que existiu nos últimos sessenta anos, e certas decisões da política externa, como o veto no conselho de Segurança da ONU à intervenção na Líbia, são mais prova cabal disso mesmo. Fazer comparações com o Terceiro Reich será abusivo, mas o vírus autoritário e expannsionista, ainda que sob outras formas menos belicistas, está lá.


Bem esteve o MNE ao chamar o embaixador alemão para lhe comunicar o desagrado com a gracinha de frau Merckel. Há um limite para tudo, mas nem sempre os teutões o respeitam.

quinta-feira, maio 19, 2011

Boataria

Ouvi falar, nos últimos dias, da "ausência do Benfica de Dublin". Quem disse?


terça-feira, maio 17, 2011

Sarko, le rigolos, ou os pecados de DSK?



O escândalo Strauss-Kahn apanhou toda a gente desprevenida, excepto os que lhe conheciam a fama. Lê-se um pouco de tudo, desde os que conheciam e já temiam as suas investidas bruscas (como Sarkozy) sobre o "sexo fraco", aos que rapidamente se apressaram a bradar que tudo não passava de uma conspiração para arrasar a carreira de DSK. Mas de quem? De Sarkozy, que assim afastaria o seu provável adversário nas presidenciais, com enormes probabilidades, segundo reza(va)m as sondagens, de o retirar do Eliseu, como não acontecia desde 1981? Dos Estados Unidos, que urdindo um golpes de cadeiras no FMI, conseguiriram tirar um europeu - para mais um francês - da cadeira da famosa instituição financeira? De inimigos internos no PS francês?


Desgraçadamente para Strauss-Kahn, parece que o único culpado é o próprio. A sua fama precedia-o, e os pormenores do caso de perseguição da empregada do quarto do hotel só a vêm confirmar. Sabe-se que os americanos são implacáveis nestes questões (lembram-se de Clinton e as estagiárias?), e não perderam tempo a deter o garboso Dominic, de forma particularmente humilhante, quando ele já se encontrava dentro do avião, levando-o para o exterior devidamente algemado. Mais do que quaisquer explicações, as imagens de DSK a ser levado pela polícia, ou na barra do tribunal, com a barba por fazer, são fatais. Sejam quais forem as sentenças, o seu cargo à frente do FMI já era, e a enorme probabilidade de se candidatar (e ganhar) à presidência do Hexágono caiu por terra. Parece que em matéria de eleições presidenciais, Miterrand deixou uma autêntica maldição aos seus sucessores partidários: nunca mais o PS conseguiu entrar no Eliseu, e depois da recusa inesperada de Delors em 1995, da humilhação de Jospin em 2002, e da derrota de Segolène em 2007, esboroaram-se agora as probabilidades que tinha em lá chegar, com um escândalo como não se via desde o Caso Profumo. Sarko não será tão rigolos a ponto de tramar tudo isso, mas tem enormíssimas razões para abrir uma garrafa de Veuve-Cliquot. ainda para mais quando se sabe que Carla Bruni está grávida. O que significa que quase de certeza que os franceses terão que aguentar com o frenético magiar-descendente durante mais uns anos.

segunda-feira, maio 16, 2011

Alegre espanto

 




Devo dizer que recebi a notícia da atribuição do Prémio Camões a Manuel António Pina com certo espanto. E mais espantado fiquei quando soube que a decisão tinha sido tomada por unanimidade, e com curta duração na escolha. Talvez pela familiaridade que o autor me desperta, por julgar sempre que estes prémios vão para nomes consagradíssimos conhecidos no mundo inteiro, parecia-me complicado ser ele o galardoado.


Ou então por, algo alheio à poesia, não conhecer tão bem a sua obra poética como o seu talento de cronista. No tasco onde habitualmente tomo o café da manhã, pego muitas vezes no policial JN de propósito para ler as suas crónicas na coluna direita da última página, e raras vezes saio arrependido. Uma das últimas, aliás, sobre Marinho Pinto, é deliciosa no seu sarcasmo prudente com que mimoseia o Bastonário. Mas que a leitura de Pina não se fique por aqui e se estenda ao resto da sua obra - obrigação que eu próprio deveria seguir.


O que interessa é que o maior prémio literário de língua portuguesa fica com ele. Não sei a opinião da maior parte dos homens de letras (essa classe tão complicada e dada às invejazinhas de carreira) lusófonos, mas por mim fiquei radiante, depois do pasmo inicial, e se o encontrar aí pela Boavista, ou numa qualquer sessão da Feira do Livro, dou-lhe imediatamente os parabéns. É mais um prémio de grande vulto para uma figura da cultura portuense, depois do galardão de Eduardo Souto Moura, embora a maioria ignore e prefira dar relevo às diatribes do sr. Pinto da Costa e sus muchachos.


Um grande bem haja, Manuel António Pina.
O futuro do acordo


Decididamente, não se percebe. Agora que os homens da Troika (horrível termo, que muito deve agradar a Jerónimo de Sousa mas que devia dar uma processo disciplinar a quem o cunhou para esta situação), os partidos que aprovaram o plano não se entendem não só quanto à sua aplicação, mas também sobre alguns pontos acordados. O PSD quer ir mais além, o PS distorce vários pontos - já desde o anúncio do "excelente acordo", em que se revelou o que não se ia fazer, escondendo o pior - o CDS-PP já tinha proposto tudo "mas ninguém quis saber na altura". Abstraindo da extrema-esquerda, que como sempre nada apresenta de alternativo (ou então são coisas de fazer arrepiar o maior leigo em questões económicas), dir-se-ia que se prossegue no caminho da demência.


Para mais, e muito embora o plano acordado tenha alguns pontos positivos, embora duros, que podem alterar realmente a pesadíssima super-estrutura estadual, trazem alguns pontos controversos, como a da reestruturação local. Extinguir municípios seria a maior estupidez possível, mas disso falaremos mais tarde. Para já, fiquemo-nos pelas taxas elevadas cobradas pela UE, que implicam um esforço considerável para pagar o empréstimo, coisa que Sócrates não disse logo ao país para nos fazer crer no melhor dos mundos. Irónico como o FMI é sempre tratado como o mau da fita (embora já não sejam os "homens sem rosto"), e a simpática UE, sempre tão pródiga em fundos, é quem nos cobra a maior taxa. Que dirá o Dr. Constâncio?

quinta-feira, maio 12, 2011

De novo os Harlan


Tinha falado há pouco tempo sobre a vida e obra de Thomas Harlan. Hoje, no suplemento P2 do Público, Ivan Nunes deixa um extenso artigo com a mesma matéria, revista e aumentada, e a perturbadora relação entre o realizador de esquerda radical e o seu pai, cineasta dilecto do nazismo. Vale a pena a leitura.

sábado, maio 07, 2011

Uma beatificação a pedido?






A beatificação de João Paulo II foi não só uma massiva demonstração de apreço pelo anterior Papa, bem demonstrado pelas imensas multidões que pernoitaram em vigília, mas também um momento de emoção, daqueles que só personalidades carismáticas, que carregam a força da fé, podem transmitir. Mas aqui pode também residir um problema ao processo de beatificação, além de outras críticas à mesma, que não conheço bem ou não subscrevo. O Papa Bento XVI reconheceu que tinha prescindido do tempo necessário para iniciar o necessário processo (cinco anos após a morte), excepcionalmente rápido. Ao recordar-me do enorme brado "Santo Subito" por alturas das cerimónias fúnebres do Papa polaco vindo das massas de fieis, pergunto-me se a Igreja não terá cedido ao "apelo popular" e à vontade pontual e emocional, em lugar de conduzir os normais procedimentos destes casos, contidos no direito canónico e nas regras para as causas dos Santos. Em suma, se não terá corrido atrás da espuma dos tempos para agradar a uns tantos, como quando acontece quando acaba (desnecessariamente, por vezes) com algumas tradições, ou cede a histerias ou manifestações fáceis por compensações de ocasião. Não sei se é o caso, mas espero que haja algum cuidado. Mal estaremos se a Igreja correr atrás de modas sem razões substantivas para isso.

sexta-feira, maio 06, 2011

Breve nota sobre o real enlace


Os acontecimentos, internos e externos, sucedem-se a um ritmo vertiginoso, e eu sem tempo (ou paciência) para alimentar o blogue. Contudo, para honrar o subtítulo deste espaço (na parte que diz "monárquico" e "católico"), impõe-se que deixe uns ligeiros comentários sobre o casamento real britânico e da beatificação do Papa João Paulo II.


Sobre o enlace, registei com agrado a enorme recepção aos noivos. Das "demonstrações de protesto", nem vê-las. Republicanos, islamitas, nacionalistas ingleses ou simples chatos foram submergidos pelas multidões que aclamavam William e Catherine. Desconfio que houve mais azedume nos comentários da net, dos suburbanos micro-burgueses soltando os costumeiros "estes inúteis a gastar o dinheiro do povo", do que nas ruas. O príncipe favorito dos britânicos está casado, o que é um enorme sinal de alívio. O facto da sua agora mulher vir da classe média não é factor negativo: ajuda a limpar o sangue - e todos sabem os problemas que a consanguinidade já trouxe a tantas dinastias - e dá uma imagem mais terrena, ou mais próxima "de todos nós", à família real. William já de si era próximo, porque os tempos mudam e os media são implacáveis, particularmente naquelas paragens. Em todo o caso, parece-me um casal bem diferente do que se casou há trinta anos. qualquer semelhança entre Diana e Middleton é pura coincidência resultante da intriga de revista cor de rosa. Kate tem um ar que em nada fica a dever à aristocracia, uma cara assaz simpática, e, como disse Pedro Mexia, aquela "cintura impossível".



Na cerimónia reparei no contraste entre a solenidade e a cor (havia lá parentes da família real que podiam perfeitamente lavar escadas em Baguim do Monte). David Beckham era o único de chapéu alto, gravata sem colarinho e colete negro, como exige a etiqueta em cerimónias religiosas. Curioso como um futebolista demonstra ser o mais clássico de uma tal cerimónia. Suponho que o Professor Espada terá apreciado.

quarta-feira, maio 04, 2011

E agora, Muammar?





Há no entanto uma pessoa para quem o desaparecimento de Osama Bin Laden deve deixar sentimentos ambivalentes: Muammar Kadhafi. Se por um lado vê um adversário feroz (e potencial inspirador de movimentos jihadistas na líbia) liquidado, por outro perde o argumento de que os rebeldes eram "jovens drogados" apoiados por Bin Laden, que pretenderiam estabelecer um "emirado islâmico" na Líbia. Pode é ser mais um pretexto para o seu derrube. Do mal o menos, por agora o coronel sobreviveu ao criador da Al Qaeda.
O fim de um mito do terror





As reacções à morte de Osama Bin Laden são sobretudo de júbilo, mas nas notícias veiculadas pelo Facebook encontrei muito azedume. Desde a desconfiança à morte do inspirador da Jihad até ao já clássicos "terroristas são os americanos", e "se quisessem justiça levavam era o Bush para o tribunal", havia de tudo. Calculo que tenha havido muita gente que ficou de trombas com a bombástica notícia. Mas acredito que a maioria se tenha regozijado com o fim do homem que na última década personificava o terrorismo e o medo. Pode-se sempre dizer que "não deve haver alegria pela morte de ninguém". Assim devia ser, cristã e moralmente. Mas as pessoas não são de ferro, e os nervos também não. Daí perceber perfeitamente as multidões que no Ground Zero e em Washington saíram à rua a festejar o acontecimento. Aquela gente sofreu os planos de Bin Laden na pele, viu aviões a estampar-se nas suas cidades, guiados por fanáticos; nada mais natural que comemorar o fim do homem que deu azo a tudo isso. Não garanto que se estivesse lá, não faria sairia também à rua.


Para lá das ameaças que se têm de enfrentar e dos inevitáveis actos de vingança por parte das redes islâmicas, há que reconhecer que se tratou de uma operação extremamente bem sucedida. Até o anúncio esteve muitos furos acima da cowboyada indigna que tinha sido a captura de Saddam. Barack Obama vê a sua popularidade subir enormemente à conta de liquidar o inimigo nº 1 da América. Até os habituais falcões se tiveram de render a este êxito colossal. Esperemos que muitos dos entusiastas da Jihad se rendam também, desmoralizados com o fim da sua figura inspiradora.

segunda-feira, maio 02, 2011

G produzido em série


Houve tempo em que pensei que G era um meio álbum limitado oferecido pel´Os Golpes a todos os que se dispuseram a ir ver a apresentação ao vivo de Vá Lá Senhora, com Rui Pregal da Cunha vestido à Napoleão e tudo. Pensava que era um dos felizes contemplados com o CD em capa de couro, com o monograma "G" gravado e os esboços da ponte Luiz I no próprio disco, recordação de uma noite superlativa no Hard Club. E que mais tarde seria uma recordação rara de um registo de uma banda marcante inícios dos anos 10 deste século.



Acontece que Vá Lá, Senhora galgou Youtubes, passou por galas de televisões e pela Operação Triunfo, até que chegou às telenovelas. Aí, Os Golpes renderam-se aos pedidos das massas e colocaram G à venda nas lojas. Agora, todo aquele que estiver munido de menos de 10 €uros pode ficar com o suporte materal e mais um versão de Paixão, dos Herois do Mar. Acabou-se a exclusividade de que pensava ser um dos raros detentores. Mas fica pelo menos o consolo de saber que capa em pele, só os nossos. O disco agora lançado não tem a beleza gráfica nem o pormenor deluxe do álbum primordial. Há que separar o artefacto original do produto industrial em série.


quinta-feira, abril 28, 2011

Escolheram bem o dia


Há publicações que ou sofrem de falta de oportunidade, ou então lançam provocações propositadas, disfarçando a coincidência: no Domingo de Páscoa, dia da Ressurreição, do triunfo da Vida sobre a Morte, é que a Pública decide fazer uma reportagem (com direito a capa) sobre o suicídio assistido e a "necessidade de se lançar o debate"?!? Não havia mais domingos disponíveis ou apeteceu-lhes "quebrar tabus"?

quarta-feira, abril 27, 2011

A foleirização da bancada do PS



José Lello escreveu, na sua página de Facebook, que Cavaco Silva era "um presidente foleiro". Já se sabe que deste porta-voz das mensagens (ainda mais) sujas de Sócrates não se pode esperar grande coisa, mas mesmo assim não deixa de espantar pela leviandade. Em sua defesa, Lello diz que escreveu "involuntariamente", que se soubesse que era pública diria que "o presidente devia ser mais abrangente nos seus convites"...involuntariamente, quando se publica numa página visível por milhares? Além de grosseiro, o deputado do PS faz das pessoas parvas com as suas desculpas esfarrapadas.



Cheguei a achar que possuía um certo sentido de humor quando todos os anos, no Expresso, dedicava sempre livros a determinadas personalidades que se identificassem com os seus títulos. Provavelmente limitava-se a procurar em catálogos. Mas a situação não incomoda apenas por causa de Lello, que já nos habituou às suas faltas de respeito e aos seus truquezinhos: o problema é que grande parte dos deputados dos principais grupos parlamentares não são assim tão diferentes. A grosseria e a crispação instalaram-se em S. Bento, em boa parte devido ao estilo de Sócrates, mas sem pinga de irreverência ou humor que caracterizavam gente como Francisco Sousa Tavares ou Natália Correia. Os funcionários partidários promovidos à cadeira limitam-se a espalhar ditos sem graça e sem nível. Neste particular, o PS tem dado o maior exemplo, e a sua bancada é uma sombra de antigamente. Vejam-se os principais candidatos pelo Porto: além de Lello, temos ainda o eterno bonzo Alberto Martins e o deprimente Renato Sampaio, outro yes man que mal sabe escrever e cuja ideia mais brilhante que se lhe conhece foi a proposta de proibição de piercings. Safa-se Francisco Assis e pouco mais. Apesar de tudo, ver Ferro Rodrigues e Basílio Horta naquela bancada será um oásis naquela manada de gentinha rasca, constituída por Lellos, Renatos e Telmos. E faço figas para que os outros grupos parlamentares sejam, como me parece que são, bastante melhores.



domingo, abril 24, 2011

O discípulo traído



Na Semana Santa, a notícia de que há um traidor entre um grupo que entrega o meste não podia ser mais oportuna. Mas neste caso, o Judas confunde-se com o Mestre: depois de usar o discípulo para as tarefas mais espinhosas, eis que, quando este assume a única opção possível ao abismo, acaba traído e apunhalado pelos outros - ou remetido ao silêncio.





Fernando Teixeira dos Santos decerto terá aprendido uma grande lição nos últimos dias, antes de se regressar ao seu lugar na Faculdade de Economia do Porto. Espero que o país também, e que os eleitores decidam por fim que o oportunismo puro e a falta de princípios total tenham um custo.


Boa Páscoa a todos.

sexta-feira, abril 22, 2011

A época acabou


Aguento muita coisa, mas não tudo. Desde Agosto que já tive de ver e ouvir muito. Mas esta última é demais. Bem sei que o Benfica 2010/2011 torto nasceu e por isso não podia endireitar-se. Mas uma coisa é não ganhar o campeonato; outra é ficar privado de ir ao Jamor depois de uma primeira mão com vantagem confortável. O jogo da Luz foi mau demais; os dois meses de distância entre duas mãos revelaram-se fatais. Na última semana, o Benfica perdeu Salvio e depois Gaitan, as autênticas "asas" que moviam o seu jogo. Sem eles, perde qualquer eficácia ofensiva. E quando sofreu os golos a equipa mostrou-se apática, sem ideias; quanto ao adversário, e sem desprimor para a forma em que se encontram e a capacidade de "remontada" que apresentaram, tudo lhes correu bem. Depois de terem chegado às meias finais da Taça a jogar apenas com clubes de divisões secundárias, e de jogarem com mais um durante meia hora na primeira mão, beneficiaram de um golo em fora de jogo e das ausências fatais dos argentinos do Benfica. Por isso, e apesar de reconhecer que não estivemos nada bem, também fica um sentimento de alguma injustiça pela não ida ao Jamor (e logo este ano, em que me queria estrear no Estádio Nacional, antes que "ordens superiores" o encerrem). Sim, há alturas em que nada corre bem, mesmo.



Por mim, e depois da desilusão de ontem, esta época encerra aqui. Quero lá saber da Taça da Liga e da Liga Europa, mais a hipotética "final em Dublin" (mas alguém acredita que o Benfica a possa ganhar?). A final era ontem, e não correu bem. Futebol, agora, só o externo, que o português fica para a próxima época.

quinta-feira, abril 21, 2011

Uma patética dor de cabeça


Como se já não bastassem os enganos, falsidades, meias confissões e acusações que rodeiam o actual momento político português, e que só a describilizam internacionalmente, ainda assistimos a todos os OVNIS que nela aterram e cuja surpresa inicial dá lugar a uma espécie de tragédia burlesca.

Quando Pedro Passos Coelho anunciou Fernando Nobre como cabeça de cartaz por Lisboa para as legislativas, espantei-me verdadeiramente. O discurso de Nobre contra os partidos e o "sistema" era tão radical e arreigado que parecia que faria tudo menos ligar-se a uma formação partidária. Assim, a reviravolta intelectual espantou, e o convite parecia uma manobra impensada para ganhar uma fatia dos votos que o dinamizador da AMI obtiver nas presidenciais.



Claro que grande parte das críticas que lhe lançaram a seguir faziam parte de um populismo e de uma maledicência comuns em Portugal. Ao discurso contra os "políticos" junta-se o dos "que vão atrás de um tacho". Se a política partidária precisa de alguma coisa é de gente de fora e sem vícios de aparelhismo, que refresquem os movimentos e tragam mais qualidade aos quadros. A turba que enxameia os fóruns da net e o Facebook assim não o entende, e acha que quem vai para a política é porque é "malandro" e "quer o tacho". Por norma, entendo que quem vem com a conversa dos "tachos" é porque deles tem inveja, mas por incompetência, ignorância ou total falta de preparação (até para militância partidária), não chega lá perto e responde com calúnias coletivas.


A ideia de agregar gente sem vínculo partidário é boa, mas neste caso, a opção escolhida tem-se revelado desastrosa. Além do discurso anti-partidário (outrora) recorrente e dos múltiplos apoios anteriores a figuras de diversos quadrantes políticos, Nobre tem ideias nebulosas ou vagas, que roçam a contraditoriedade e que pouco têm que ver com o PSD. Aliás, as suas declarações afirmando que desconhecia o programa do partido laranja são outra argolada tremenda.


A história da presidência da Assembleia da República é outra fábula difícil de crer. Não só seria absurdo colocar em tal cargo alguém sem qualquer experiência parlamentar, como é impossível assegurar a sua eleição. E pelas intenções reveladas pelos partidos representados, "impossível" é neste caso o termo indicado. Não sei quem teve esta brilhante lembrança, se Passos Coelho ou quem quer que fosse, mas de todos, é o maior tiro no pé. E Nobre continua a não ajudar, dizendo que renuncia ao cargo de deputado se não chegar a ser a segunda figura do estado. Provavelmente pensou que seria a oportunidade de chegar a Belém em dias de ausência de Cavaco Silva. Seria a forma mais tranquila, mas pelo meio esqueceu-se dos necessários "requisitos formais".

Agora, ouve-se António Capucho dizendo (com acerto) que reconhece o seu valor à frente da AMI, mas não a sua capacidade política. Foram talvez as declarações mais sucintamente esclarecedoras sobre o caso.

A ideia muito particular de "missionário político" de Nobre ainda vai dar muitas dores de cabeça ao PSD.


PS: em compensação, as escolhas de Carlos Abreu Amorim (desconheço as suas ligações a Viana)e de Francisco José Viegas (um duriense com vivência transmontana) pareceram-me muito felizes.

terça-feira, abril 12, 2011

12 de Abril de 1961

"Contemplo a terra. Só posso exprimir com uma palavra: júbilo".
Desventuras da política portuguesa

O fim de semana político que passou não deixa antever nada de bom. O congresso do PS não passou de uma união de forças em torno do líder, com brados guerreiros ribombando pelas estruturas da Exponor, promessas de sangue, estandartes e bandas sonoras de épicos. Dizia Daniel Oliveira, com certa piada, que cetos congressos do PCP eram um modelo de pluralismo ao lado daquele, e que só faltava aparecer um qualquer membro da família Kim Il da Coreia do Norte. E até Mário Soares reconheceu que aquilo era mais um comício do que um congresso onde se debatiam moções...


Tivemos também as infelicidades de Cavaco, ao dizer que "teria de haver alguma imaginação de Bruxelas" para encontrar "um programa interino de ajuda financeira a Portugal". Na volta, teve de ouvir a sibilina e grave resposta do comissário Ollie Rhen: "Já mostrámos muita imaginação e especialmente responsabilidade na forma como devemos superar as dificuldades económicas de Portugal. Preferia não ter um diálogo público todos os dias com os actores políticos portugueses, por quem tenho grande estima"


No meio disto tudo, o líder da oposição lembrou-se de convidar a mais incrível alternativa possível (de quem ninguém se lembraria) para encabeçar a lista do PSD por Lisboa. Por mais um punhado de votos, mas pensando num repente, com o plano em cima do joelho.


E o FMI já aí está.

sábado, abril 09, 2011

Psicadelismo na Laguna Veneta


A propósito do espectáculo The Wall live, que passou por Lisboa há dias, sem que tivesse podido ir vê-lo, perdendo assim muito provavelmente a última oportunidade de ver ao vivo o que restava dos Pink Floyd e seus shows únicos, lembrei-me de um exemplar da megalomania do supergrupo britânico.
No Verão de 1989, os Pink Floyd actuaram em Veneza, para encerrar a tourné do álbum A Momentary Lapse of Reason (aquele da capa da praia com camas a perder de vista). Não na cidade, obviamente, tendo em conta o equilíbrio da Serenissima sobre a laguna, mas num palco-barcaça entre a praça de San Marco e a Giudecca. Entretanto tinha saído Roger Waters, o artífice de The Wall, e David Gilmour, que era já o principal vocalista, liderava agora o grupo.

Naturalmente, acorreram autênticas multidões para presenciar o inédito espectáculo, que reerguia assim o esplendor cénico da cidade dos Doges, há muito que reduzida a uma peça de museu. Ao anoitecer, o psicadelisdmo e o habitual sistema de luzes da banda invadiu a laguna, e o público também. Apinhados na Piazza, nas gôndolas, nas lanchas e demais estruturas flutuantes, centenas de milhares de pessoas viram os Pink Floyd actuar sobre as águas.

O evento seria filmado e ficaria testemunhado em VHS e DVD. Todos os que o viram ficaram com uma recordação memorável. E ao show seguiu-se um enorme fogo de artifício, sobre as águas da laguna. Mas a factura seria pesada para os venezianos: o lixo acumulado no dia seguinte era imenso, alguns canais viraram autênticas latrinas, e acima de tudo a concentração de tamanha multidão teve o efeito mais temido: as estruturas da cidade afundaram-se cerca de 3 centímetros. A partir de então, nunca mais foram permitidos espectáculos tão desproporcionados na Serenissima. A megalomania dos Pink Floyd ficou assim ligada ao afundamento de Veneza e à restrição de grandes concertos.

Como já se disse, ficou o registo em video. Nunca o vi, a não ser em excertos do Youtube, mas conto assistir qualquer dia a uma transmissão.


quinta-feira, março 31, 2011

E continua a guerra, agora com a NATO ao barulho

Deixa-me intrigado, a forma como está a ser aplicada a Resolução 1973 da ONU, aprovada há menos de duas semanas. O que nela constava era a imposição de uma zona de exclusão área, que impedisse a aviação líbia de bombardear os insurgentes, a protecção dos civis e o embargo de armas. Como se vê de há 15 dias para cá, a coisa é um bocadinho mais extensiva do que isso. A zona de exclusão aérea foi decretada, impedindo que a aviação kadhafiana continuasse a bombardear os revoltosos. Depois, as esquadrilhas combinadas de França, Reino Unido e Itália desbarataram as colunas de blindados que se preparavam para o assalto a Benghazi, impedindo um longo cerco, uma dura batalha e um provável banho de sangue. A rebelião/revolução agradeceu. Desde aí, a aviação multinacional tem bombardeado constantemente Tripoli e as forças do regime, sejam terrestres, navais ou aéreas. Kadhafi, que estava prestes a desbaratar o inimigo interno (depois de todos profetizarem o seu fim próximo), teve de recuar e assistir ao rápido avanço dos rebeldes, cobertos pela aviação em seu socorro. A sua cidade natal de Sirte, que lhe permaneceu fiel, esteve quase a cair, mas resistiu. Ao mesmo tempo, reocupou Ras Lanuf, que tinha sido tomada pelos rebeldes, caído de novo em poder "verde" e reconquistada pela revolta.

No meio desta confusão sangrenta, que certamente não poupará as cidades líbias da quase destruição, a NATO e a Liga Árabe têm tomado posições ambíguas. Uns acham que é suficiente a vigilância aérea; outros, que há que prestar auxílio mais eficaz aos rebeldes. Há mesmo uns que defendem uma intervenção terrestre, directa, se bem que esta posição seja posta de parte pela maior parte dos estados envolvidos. Não admira: as intervenções na Afeganistão e sobretudo no Iraque tornaram este tipo de acções muito impopulares (e no mundo árabes mais ainda), e a crise económica não permite muitas aventuras custosas. Mesmo que se argumentasse com uma interpretação extensiva da resolução 1973 e o apoio da Liga Árabe. Seria o primeiro passo para uma violenta retaliação.

O que é irónico é que os que bombardeiam o regime de Tripoli sejam precisamente os que tinham relações mais próximas com o Mad Dog. Ver Sarkozy, os britânicos, e acima de tudo a Itália (quando Berlusconi outrora andava de braço dado com Kadhafi) declarar que o seu regime é ilegítimo e que é preciso "negociar a saída", ao mesmo tempo que reconhecem o novo "conselho de Transição" líbio, é demonstrativo da mais despudorada realpolitik e de uma fuga para a frente pessimamente disfarçada. Até se percebe. Quando viram a rebelião às portas de Tripoli, pensaram que o regime estava por dias, e aproveitando a sua feroz repressão, apressaram-se a apoiar os "desejos de mudança", "respeito pelos direitos humanos e pela democracia", etc. Só que vos ventos mudaram, e observando a recuperação dos homens de Kadhafi no terreno, ao mesmo tempo que as tribos reafirmavam a lealdade ao "Guia da Revolução", deram-se conta de que as coisas se complicariam doravante nas relações diplomáticas com a Líbia, e que a sua confiança foram definitivamente minada. Como reagiria Kadhafi áqueles que lhe retiraram o apoio, depois de esmagada a revolta? Virar-se-ia ainda mais para o resto de África, ou pra a China? Retomaria o apoio ao terrorismo? Seria sempre uma situação demasiado embaraçosa para a NATO (que assumiu o comando das operações, para grande alívio dos Estados Unidos) e Liga Árabe.

Por essa razão, interessa acima de tudo dominar o regime verde e acabar com o poder da família Kadhafi na Líbia. Os ataques aéreos cumpriram a sua parte, mas se isso, só por si, não for suficiente - e pela desorganização dos rebeldes, parece não ser - o mais provável é que se comecem a distribuir armas mais eficazes, mesmo que os destinatários não as saibam usar devidamente. Com o apoio dos meios da NATO, que não dos efectivos, os revoltosos têm francas possibilidades de derrubar o regime, sabendo-se que Kadhafi nunca se renderá. Mas com a conquista e reconquista sucessiva do território, isso arrisca-se a levar umas boas semanas. Entretanto, a cotação do petróleo vai subindo.