segunda-feira, setembro 05, 2011

Estrunfes, Smurfs e a sua utopia estalinista



A silly season deste ano justificou amplamente o nome. Fosse porque era preciso abstrair da crise, fosse porque o executivo mudou, houve discussões que circularam entre o disparate e o humor. A medida da ministra Assunção Cristas, por exemplo, de dispensar os funcionários de levar gravatas durante o verão para os ministérios que tutela, exceptuando situações mais formais, levou a uma intensa discussão sobre se a gravata estava na moda, se estaria em declínio, ou se era um símbolo fálico que anunciava uma decadente masculinidade. Aproveitando este último mote, houve mesmo uma ex-secretária de estado da "igualdade" que aproveitou a deixa para exprimir o desejo que aquelas simples orientações se traduzissem "na emergência de novas masculinidades", que seriam "fundamentais para mudar de paradigma" e para uma "nova civilização", para além das "diferenças reprodutivas e biológicas". Que alguém que ache que entre homens e mulheres não deva haver diferenças (ou que se transformem em seres hermafroditas) chegou ao governo provoca alguns arrepios. Espero que não tenha muitas seguidoras, ou veremos nova vaga de feminismo radical, e do histérico.


Um dos casos mais curiosos da estação foi a indignação, seguida de uma vaga de saudosismo, com a estreia do filme Os Smurfs. Devo dizer que partilho de ambos, ou não tivesse tido uma imensa dificuldade em escrever o nome dos duendes azuis com aquela designação anglo-saxónica, usada também no Brasil, tão longe do original, e que ao que parece se deve ao facto dos detentores dos direitos dos bonecos quererem "uniformizar" os nomes em cada língua, o que significa que em Espanha eles têm mais do que uma designação, como nos conta Ricardo Araújo Pereira . Por azar, impingiram-nos a designação que os brasileiros usam, como se já não bastasse o famigerado Acordo Ortográfico, em lugar de fazer o contrário, isto é, pôr os brasileiros a usar o nosso Estrumpfe, que ao fim e ao cabo segue o original francês Schtroumpfs. Chamemos-lhes estrunfes, já que ainda podemos usar a nossa língua.


A afronta pode-se medir pela quantidade de artigos em jornais (além do supracitado do RAP) reclamando contra a nova designação e sobretudo contra o ataque à infância de toda uma geração, que por acaso também é a minha. Confesso: ver os estrunfes de sempre serem agora apelidados de smurfs revolve-me as vísceras. Seria como mudarem-me o nome de João para Jeremias. Se alguém acha o exemplo exagerado, pode sempre imaginar os nomes de Tintin, Astérix ou Lucky Luke alterados e ver a diferença. Ou ver o cómico exemplo da Estrunfina, agora chamada...Smurfina.


Mas a polémica desta nova versão é apenas mais uma num ano atribulado para as criaturas azuis. Não sei se por coincidência ou por estranho golpe publicitário em ano de filme, em Junho surgiu um pitoresco estudo de um ensaísta francês, de seu nome Antoine Buéno,que concluía que os bonecos azuis representavam uma "utopia estalinista e totalitária", além de exprimirem "anti-semitismo". Tudo porque "cada um se veste da mesma maneira, tem uma casa igual à do seu vizinho, e exerce a profissão mais adequada às suas habilidades, não sendo conhecidos pelo seu nome mas sim pela sua função na sociedade. Eis o velho jargão de Marx "de cada um as suas capacidades..." usado para caracterizar a aldeia dos estrunfes, juntamente com a homogenia arquitectónica e das vestes. Sempre pensei que as casas-cogumelos fossem um delicioso pormenor da série, mas afinal há quem pense que não. Assim como seria complicado desenhar as criaturas de forma diferente (é verdade que eles nem se distinguem), mas apanhar nomes para cada um deles seria tarefa complicada e desnecessária. A única coisa que noto vagamente aparentado com o marxismo é algum utilitarismo.

Outras comparações que o estudioso faz é a do Grande Estrunfe (com as suas barbas e o seu barrete vermelho) com Estaline, ou a dos Estrunfe dos Óculos com Trotsky. Aqui, a pressa é visível: o Grande Estrunfe é tudo menos um tirano, apesar da sua autoridade e dos seus poderes alquímicos, e o dos Óculos está longe de ser um opositor, sendo antes um seguidor até ao limite do primeiro da aldeia, seguindo à risca (e de forma particularmente graxista) as suas ordens. A ausência de propriedade e de iniciativa privada, bem como de "mercados", é outra coisa que não faz espécie à maior parte dos mortais, mas alguém se lembrou disso, como se os autores não tivessem mais nada que fazer.

As acusações de anti-semitismo são mais compreensíveis. O inimigo mortal dos estrunfes, Gargamel (na antiga versão, Gasganete), tem nome e fisionomia judias, com o típico nariz adunco, e o seu malvado gato chama-se Azrael. Poderiam ser reminiscências sub-conscientes do anti-semitismo que atravessou a Europa até aos anos quarenta? É possível. Hergé também sofreu acusações semelhantes. Mas nunca, na minha infância, ao ver os seus desenhos animados e os álbuns dos estrunfes, essa ideia se me introduziu no espírito. Já as acusações de racismo e colonialismo por causa do álbum Os Estrunfes Negros é mais palha para alimentar a discussão do que outra razão qualquer. Numa história centrada numa epidemia com elementos vampíricos (ou da mosca tsé-tsé), teria o mesmo impacto se se tornassem brancos? Ou vermelhos? A juntar a isso, a pobre da Estrunfina leva por tabela, por ser loura, ou seja um modelo "ariano". Em criaturas azuis, convenhamos que louro sobressai mais. Uma estrunfina morena jamais teria semelhante impacto.



O filho de Peyo, o criador belga dos bonecos, já veio desdramatizar a polémica. Ao que parece, o pai nunca esteve ligado à política, nem demonstrou grande interesse. Mas os editores com quem trabalhava, em especial o co-autor Yvan Delporte, tinham algumas simpatias anarquistas, que como se sabe nunca se deram bem com a disciplina estalinista (vide a Guerra de Espanha). Em todo o caso, o livro colheu alguma polémica, que poderá até ser um veículo para o filme. Mas pensar que os estrunfes seguiam aquele modelo de sociedade e que Peyo tinha secretas intenções de construir na BD a sua utopia colectivista e totalitária já parece demasiado rebuscado. Lembra aquelas desconfianças em relação a Vasco Granja, de que ele estaria a doutrinar as criancinhas com os seus bonecos do Leste. Bom seria retirar essa hipotética (e absurda) carga ideológica e as teorias da conspiração que se levantaram e considerá-los os bonecos divertidos e desastrados que sempre foram. Se quiserem, atribuam-nas aos "smurfs". Mas nunca aos estrunfes.

terça-feira, agosto 30, 2011

O início da nova Líbia


De súbito, o regime verde da Líbia caiu como um castelo de cartas. Seis meses de guerra civil, que começou com a revolta a partir de Bengazi, prometendo sucesso rápido, seguida da resposta das forças do regime, que quase aniquilaram os rebeldes, não fosse a intervenção da NATO e a destruição do armamento pesado das tropas leais a Kadhafi. Depois, tímidos avanços dos revoltosos, de tal forma que a Líbia deixou as primeiras páginas e em breve quase nem se falava do conflito que minava a antiga colónia italiana. Até que de súbito os rebeldes fizeram notáveis avanços. Aproveitando o enfraquecimento das forças do regime e seus mercenários, minadas pelos ataques cirúrgicos vindos do ar, abriram caminho e entraram em Trípoli. O cenário verificado em Fevereiro cumpriu-se, enfim. Por terra, com o auxílio dos apelos do clero islâmico, e também por mar, em que forças vindas de outras cidades completaram o cerco, provavelmente com auxílio de meios navais da NATO. Embora houvesse alguma resistência, os pontos fulcrais, como os meios de difusão, foram prontamente tomados. Quando o aeroporto e o complexo de habitação de Kadhafi ainda resistiam, a Praça Verde, local simbólico onde o regime verde organizava as suas "manifestações" de apoio, era ocupada pelos rebeldes. Depois disso, percebia-se que o regime tinha caído. Era, e é, só uma questão de dias.

Quando apenas Sirte ergue a bandeira verde, pergunta-se onde estará Kadhafi e seus filhos, subitamente evaporados. A hipótese mais provável é que esteja acantonado em parte incerta. Duvido que tenha fugido para o estrangeiro - para o feudo do amigo Mugabe, por exemplo, ou para a Venezuela - e será mais provável que esteja em Sirte ou noutro ponto da Líbia. Ver-se-à agora se resistirá até ao fim, como prometeu, e perecerá em combate, ou se fugirá para um estado "amigo", juntamente com a sua família. Os milhões do petróleo que acumulou durante quarenta anos devem ser suficientes.

E a nova Líbia? Até agora, tem-se conseguido razoavelmente evitar pilhagens e vinganças. Com ajuda internacional e o descongelamento de contas avultadas, o país tem recursos para se reerguer. Resta conseguir formar um novo sistema político, obter acordos e consensos entre tribos, reconciliar Tripoli com Bengazi unir o país. Depois de décadas de regime "verde" personificado no coronel, será uma tarefa difícil. Mas é possível, com a representação dos vários grupos e tribos nas decisões do país. E já que se restaurou a antiga bandeira dos Senussis, porque não restaurar a monarquia dos mesmos? Tivesse Kadhafi falhado o golpe de 1969, e quem sabe o que seria a Líbia de hoje? A solução para a união da país pode e deve passar pelo regresso da dinastia e dos reis que lhe deram a independência.







Por razões de reestruturação daquele blogue, e também pela participação cada vez mais escassa(que também se repercute aqui), deixei a minha colaboração com o Estado Sentido. Como é óbvio, continuarei a acompanhá-lo, desejando-lhe as maiores felicidades e que mantenha a qualidade a que habituou os seus leitores, não deixando de fazer-lhe devidas as ligações quando julgar necessário. A partir de agora, escreverei apenas neste espaço.

terça-feira, agosto 23, 2011

Os bravos sub-20


Fui dos que pouco liguei no início. Depois, vi parte do fraquíssimo jogo com o Guatemala e temi o pior no confronto com a Argentina. Aí, teve lugar uma emocionante disputa de penaltys em que da desvantagem de dois se chegou ao triunfo sobre as Pampas. Não vi as meias contra a França, nossa velha bête noir nestas coisas, mas finalmente levámos a melhor e chegamos à final. Não quis do destino nem as forças físicas que imitássemos 1989 e 1991, mas esta Selecção de sub-20, pela qual poucos davam alguma coisa, portou-se à altura de um campeão e provavelmente merecia mais. O jogo contra o Brasil podia ter sido ganho, mas algumas falhas e o esgotamento visível nos jogadores levou ao desfecho a favor dos brasileiros. Mas as palmas que receberam à chegada a Portugal são totalmente merecidas. Agora espero que os seus clubes olhem mais para eles e que os aproveitem devidamente, ainda que com algumas rodagens pelo meio. Acima de tudo, espero que o Benfica aproveite Nélson Oliveira (cuidado, Cardozo) e Mika já este ano e não se esqueça de Roderick e Luís Martins, para que não sigam o caminho de Danilo ou Mário Rui. Fica o grande consolo de que afinal de contas o futuro da Selecção Nacional pós-Cristiano Ronaldo pode estar assegurado.

sábado, agosto 20, 2011

Let´s all meet up at the year 2011




Em meados dos anos noventa, a Britpop tomou o Mundo (ou melhor, o Reino unido, mas os autóctones confundem as duas coisas) de assalto. Entre a working class dos Oasis e a upper-middle-class do Blur, formou-se uma terceira via - numa altura em que o conceito era muito popular e levaria Blair ao poder - constituído pelos Pulp, que representavam a middle class. Embora mais antigos que os outros, os Pulp, liderados pelo desengonçado Jarvis Cocker, pouca visibilidade tinham no panorama musical, até 1994, e sobretudo, 1995/96, quando chegaram ao primeiro lugar dos tops britânicos com o seu Different Class. Desilusões amorosas de juventude, fantasias impossíveis de concretizar e aspirações de classe média, inseridas em hinos pop e seus telediscos retro como Common People e Disco 2000 (provavelmente uma das melhores canções pop de sempre) deram-lhes popularidade e fama naquela onda musical que varreu o Reino Unido. Pelo meio, Jarvis cocker aproveitou para deixar Michael Jackson malvisto em público. Depois, This is Hardcore, um álbum mais difícil, mas digno de ser descoberto (o tema título tem também um excelente videoclip e poderia ser uma banda sonora de um film noir) arrefeceu um pouco a ascensão comercial. Entrou o novo século como We Love Life, e pouco tempo depois a banda separou-se, tendo Cocker iniciado uma carreira a solo.


Mas estamos em época de reuniões de antigos grupos e de regressos esperados. Por isso, também os Pulp voltaram ao terreno este ano e mostraram-se ao público. Felizmente, quiseram fazê-lo também em Portugal, para mais em Agosto e em Paredes de Coura, não longe de onde me encontro habitualmente nesta altura. Reapareceram assim em todo o seu esplendor, no palco ao fundo do anfiteatro natural que desce até ao rio Coura (essa massa fluvial que inspira festivais de Verão, como o sabem os veteranos de Vilar de Mouros), entre algum psicadelismo luminoso e mensagens de boas-vindas. Jarvis Cocker tem mais cabelo e barba, mas agora não tira os óculos de massa por nada e conserva os mesmos gestos de dança de uma sensualidade desengonçada de desenho animado. As músicas que lhes conhecíamos desfiaram pela noite fora - é emocionante ouvir os primeiros riffs de Disco 2000 ao vivo. E quem se deu ao trabalho de ir ao Alto Minho interior não deu o tempo por perdido. O bom gosto acabar sempre por imperar. Long Life aos Pulp!

domingo, agosto 14, 2011

Razões para a barbárie


Mais de uma semana depois de começarem os motins em Londres, que se estenderam a toda a Inglaterra, limpam-se os cacos e contabilizam-se os estragos (e os mortos, que infelizmente também os houve). E fazem-se as normais dissecações da coisa: os "excluídos", a "violência policial", a "brandura policial", o "protesto dos marginais", os "cortes do governo", o "multiculturalismo", "o Cameron que estava de férias", etc.
 
Antes de mais, seria bom abandonar aquela ideia proto-marxista de ver nas causas de tudo razões meramente económicas. Quem tiver boa memória dos motins em França em finais de 2005 (despoletados por razões análogas), recordará que na altura se atirou muito as culpas para o "modelo social francês" e os seus subsídios. Uma inteligência brasileira qualquer disse que as "favelas" em França ardiam porque a França não tinha um modelo "liberal". Agora, vem a desforra, a culpar-se o "modelo neoliberal britânico". Nem um nem outro me parecem ser a razão principal, embora possam apresentar indícios de. É mais uma querela estéril entre defensores de modelos económicos diferentes, incapazes de ver mais além dos números.

O problema é, acima de todos os outros, ético, moral e civilizacional. Os motins são a expressão de um sentimento de ganância e materialismo feroz, combinados com uma nefasta sensação de impunidade. Não apenas nas ruas: é transversal à sociedade. Vai desde os usurários, financeiros sem rosto economistas de casino, suportados em abstractas bolhas económicas, a toda esta gangada niilista. Todos roubam com o sentimento de que não serão punidos.



Entre todos os artigos que encontrei, Miguel Sousa Tavares disse no Expresso uma coisa que me parece acertadíssima: que os bárbaros que semearam o pânico e a destruição na Albion são "meninos" aos quais falta não segurança social nem bens materiais, mas sim pais que os eduquem, e que "acham um desafio fantástico destruir o que têm e o que devem a outros". A ideia de que se tem direito a tudo sem os respectivos deveres, seja de que forma for, mina os alicerces de qualquer sociedade fundada no Direito, na justiça e na (legítima) propriedade privada. Fora isso, temos o caos, tão "justificado" pelos imbecis que desculpam sempre e sempre os criminosos, fazendo recair as culpas em terceiros. E mais uma vez, tal como fiz com o assassino em massa norueguês, gostava de saber como é que os pais educaram estes filhos. Bem sei que por vezes há coisas que escapam à educação, para vergonha e desgosto de tantos progenitores que se esforçaram por ensinar e educar o melhor que sabiam e podiam. Mas parece-me estranho que uma massa descontrolada, violenta e entusiasmada em fazer arder carros e assaltar lojas de tudo e mais alguma coisa (menos produtos de primeira necessidade e livros, que bens supérfluos era coisa em que não havia tempo para levar), tenha recebido toda uma educação exemplar - e por educação falo em valores, normas de comportamento e sociabilidade, etc, não mera instrução, e que tornaram célebre a Grã-Bretanha. Infelizmente, tudo isso parece estar ultrapassado, em nome do respeito cego ao "outro", e desta pós-modernidade asséptica.

Por isso, esqueçam lá a ladainha dos "excluídos", ou do desemprego juvenil (quando grande parte destes delinquentes nem idade têm para trabalhar). Os tais clubes juvenis que fecharam são importantes, mas há muito quem sobreviva sem eles. Dêem antes de mais educação às novas gerações. De contrário, teremos bárbaros a fazer o que muito bem lhes apetece, e que provocarão guerras devastadoras, já que a barbárie só se trava com força. Aí, talvez se recordem que os bárbaros fizeram cair Roma e a sua civilização.


PS: e talvez seja igualmente importante lembrar que os modelos anglo-saxónicos não são todos exemplares. Se não estivessem ocupados com problemas de outra ordem, o franceses deviam estar a gozar que nem uns perdidos, pensando no que deles disseram em 2005 do outro lado da Mancha e do Atlântico.

terça-feira, agosto 09, 2011

Benfica 2011/12


O Benfica da época 2011/12 continua a deixar-me sentimentos ambíguos e confusos. Parece-me que está claramente a melhorar, e que há mais soluções, mas continuo a desconfiar de tanta contratação e a desanimar com tão escasso número de portugueses, em tempos que já lá vão ponto de honra do clube.

A saída de Coentrão seria de evitar há uns meses, mas com tanto assédio e com a cabeça do rapaz das Caxinas em Madrid, a ida para os merengues em troca de 30 milhões de Euros não é nada má. Já a saída de Moreira é de torcer o nariz; de Nuno Gomes já falei, e vamos a ver se Carlos Martins fica ou se procura trabalho na Moscóvia. De resto, houve uma limpeza da comunidade brasileira mais ociosa que me parece satisfatória. Mas o idioma luso tem agora de rivalizar com o castelhano. Bem sei que os tempos são diferentes e que é quase impossível conservar uma equipa de qualidade só com portugueses, mas que Diabo, há limites! não se podia apostar um pouco mais na formação? É que as políticas contratuais actuais (não só do Benfica, entenda-se) vão-se repercutir, cedo ou tarde, na Selecção Nacional...

O entrosamento não se compra, vai-se fazendo com paciência. O Benfica deste ano terá de tê-la em abundância. Entretanto, despachou-se Roberto com um negócio duvidoso (eu preferia o empréstimo), mas resolveu-se o problema com um seguro Artur e um Eduardo que quer manter o seu lugar na baliza nacional, o que dada a concorrência, não será fácil. Temos também um jovem Mika, cuja qualidade desconheço. Gostaria de saber onde vão jogar Júlio César e Oblak.

Na defesa, a melhor notícia é a permanência de Luisão. Garay parece ser uma das boas contratações da época, e Jardel e Miguel Vítor são bons suplentes. Mas a saída de Coentrão parece complicada de colmatar. Capdevilla, campeão mundial no ano passado, parece ser uma excelente solução (aliás, surpreendeu-me muito), pelo menos enquanto a concorrência está verde, mas ignora-se qual a forma física actual do internacional espanhol. Mas interrogo-me se seria mesmo preciso trazer emerso, quando havia Carole e César Peixoto.

Depois, o povoado meio-campo. Outro jogador cuja vinda parece supérflua: Bruno César. Encosta Carlos Martins ao banco e precisará de tempo para adquirir rotinas. É muito promissor bem sei, mas não impede que tenha as minhas dúvidas. Outro que precisa de se ambientar e de ganhar ritmo é Enzo Perez. O seu antecessor, Salvio, também precisou, e se o reforço atingir o mesmo nível, é aposta ganha.

Como que a demonstrar que os reforços europeus precisam de menos tempo do que os sul-americanos para se integrarem e compreender o jogo, Witsel chegou, viu, e aparentemente venceu. Nolito também, e com três golos em outros tantos jogos, já é um ídolo dos adeptos. Com a manutenção de Gaitan, Saviola, Jara e do mágico Aimar, mais o regresso de Urreta (enfim!), a coisa está mais do que composta na construção de jogo e nas alas. Resta portanto o imbróglio Cardozo, que parece estar insatisfeito. O Besiktas acena com uns milhões e Hugo Almeida, mas tendo em conta a média de golos do internacional português, a troca seria certamente desfavorável para o Benfica. Nelson Oliveira e Rodrigo ainda são verdes para agarrar o lugar.

Fiquei com razoável/boa impressão nos jogos com o Trabzonspor, salvo na finalização, onde surge de novo o problema do ponta de lança. A equipa do Ponto ficou em segundo lugar, ex aqueo com o primeiro, no seu campeonato, e reforçou-se significativamente, recordemos. A única coisa que tive realmente pena foi não poder ir ver lá o Benfica, já que aquela região do Mar Negro e do antigo Império de Trebizonda era um dos meus motivos de interesse de viagem...


Contra os gunners, na Taça Eusébio, deu para ver que a equipa, com os seus titulares habituais, é fiável e até marca golos. Mas a construção continua a ser bastante superior à concretização. Confirma-se que é matéria a rever. Para já só se têm como certezas que as melhores contratações até ao momento foram Garay, Nolito e Witsel.


Veremos daqui a dias, em Barcelos, como correm as coisas.

PS: para começar, Barcelos desiludiu. Recordou-me a Póvoa do Varzim, ali perto, há dez anos, com um marcador exactamente igual, só que na altura reduzidos a nove. Falhar golos de baliza aberta dá nisto (e aquele Laionel deve entusiasmar-se à brava em jogos contra o Benfica).

quinta-feira, agosto 04, 2011

A ascensão de Seguro


Com as minhas falhas actuais, ainda nem tinha comentado a nova liderança do PS. Aliás, com os acontecimentos na Noruega, a crise económica, etc, parece que ficou para segundo plano.


Mas sim, o Partido Socialista tem um novo líder, depois da era de José Sócrates, que coincidiu quase na totalidade com o domínio do executivo. A luta entre Francisco Assis e António José Seguro prometia no início, com a não candidatura de António Costa. Mas o antigo líder da JS tinha o aparelho socialista nas mãos. Há muito aliás, que Seguro parecia conhecer os meandros do partido e as suas estruturas, como o seu ar pouco expectante e tranquilo fazia supor. Assis reuniu à sua volta algumas figuras de relevo e as distritais do Porto e de Lisboa, mas nem assim logrou aproximar-se do seu adversário. O prestígio angariado como líder parlamentar e a sua postura respeitável não só foram insuficientes como pareceram mesmo ser um obstáculo na corrida à liderança. Quando Assis resolveu pegar no assunto do clientelismo partidário e lançá-lo na praça pública, afirmando que o PS tinha-o em demasia e que dele precisava de se libertar, o tiro de canhão saiu pela culatra directamente para o pé. Dizer alto e bom som que um partido que depende do poder e de um sem fim de prebendas e de clientelas que se deve livrar deles é obviamente uma táctica suicida. Só mesmo por desespero de causa é que um político experiente como Assis pode tê-lo feito. Se as coisas não lhe estavam a correr bem, com essa atitude entregou o partido a Seguro.



Com a coincidência, recordada por todos os jornais e revistas, de que os dois maiores partidos têm agora à frente antigos líderes das respectivas jotas, para mais coincidentes no tempo, parece que a geração que era adolescente ou criança no 25 de Abril tomou enfim conta dos destinos do país. Não sei se é bom ou mau. Tenho as minhas esperanças, mas já não fico tão optimista quando vejo pessoas que cresceram chefiando um grupo de políticos juvenis mais preocupados (já nesse tempo) com eventuais cargos do que com combates ideológicos à frente dos destinos nacionais ou respectivas oposições.



Seguro deu uma razoável imagem de elemento contra a corrente neste período em que o PS era poder e o socratismo imperava. Vê-se agora que era sobretudo uma estratégica paciente mas eficaz de alcançar a liderança do PS, recolhendo os cacos deixados a 5 de Junho, que ele sabia que forçosamente teriam de ser apanhados. As frases que pronunciou com a maior cara de pau, declarando (numa declaração semi-oficial) estar aos dispor do que o partido precisasse, mal Sócrates anunciou a retirada, revelaram cristalinamente as suas intenções. Seguro estava morto por apanhar a liderança, e preparou-se bem para o efeito. Arrisca-se é a ficar demasiado tempo na oposição e a ser imolado em futuras eleições, ainda que as autárquicas de 2013 lhe possam correr bem. Mas se ganhou o aparelho partidário, a ausência de carisma e de currículo fora do partido e alguma desconfiança do público pela avidez do rapaz de Penamacor serão obstáculos difíceis de ultrapassar. A não ser que o poder um dia lhe caia no regaço, coisa que não é assim tão raro acontecer (Sócrates, Durão e Santana sabem-no bem).


E agora, poder-se-à falar no "segurismo"? O soarismo está quase acabado, o gamismo extinguiu-se há muito, o guterrismo é coisa rara, e boa parte dos seus adeptos desertaram para o socratismo. "Assismo" é coisa que não parece existir. Parece, no entanto, que o sampaismo ainda mexe, transmutado no ferrismo. Uma corrente de migrantes do antigo MES que desaguou no PS e formou uma corrente mais à esquerda, primeiro com Jorge Sampaio e depois com Ferro Rodrigues (embora Manuel Alegre não se insira nesse grupo). Disse-se que Assis era a continuidade de Sócrates, numa linha mais pragmática e menos ideológica. Tenho as minhas dúvidas, embora o encaixe nalgum guterrismo não declarado. Já Seguro, sinceramente, não o consigo rotular. Nalgum socratismo de discurso mais ponderado e suave? Decididamente, o PS é um partido complicado e dividido em inúmeras franjas. Ao menos já houve um resultado prático: os debates no Parlamento estão muito menos crispados do que no tempo de Sócrates, e os pequenos desafios ad hominem deram lugar a mais discussão política. Valha-nos isso.

sexta-feira, julho 29, 2011

Auto-destruição anunciada




A morte de Amy Winhouse surpreende à primeira, mas apesar da "bomba", é perceptível após a surpresa inicial. A cantora já vinha num longo processo de auto-destruição há muito tempo (lembram-se do fiasco no Rock in Rio de Lisboa, há três anos?). O seu desaparecimento é de certa forma um corolário lógico, indiciado pelas tristes figuras, pelas passagens pelas clínicas e pelos apelos da família para que a deixassem. Nunca fui grande fã de Amy nem dos seus despropósitos, mas não posso deixar de sentir piedade por ela. É o caso, já clássico, da incapacidade de fazer conviver o talento (e a voz) com a fama e o sucesso mediático. Amy pagou caro. Mas de certa forma, premonitoriamente, ela recusou o afastamento dos vícios e do caminho para a ruína, quando na sua canção mais conhecida dizia não à reabilitação. Paz à sua Alma, já que em vida teve pouca.

A falta que um pai faz







Um pormenor que me chamou a atenção no caso do duplo atentado mortífero na Noruega: um dos entrevistados foi o pai de Anders Breivik, o terrorista do momento. Ao que parece, o senhor, um diplomata na reforma a viver no Sul de França, separou-se da mãe do autor dos atentados quando ele tinha um ano e não tem contacto com ele há 15. Diz-se agora "absolutamente chocado" e espera que o filho "se suicide".



Mas já que ele aprova o suicídio, talvez estivesse na altura de comprar cianeto, uma corda resistente ou um par de balas. É que um pai que corta o contacto com um adolescente quando este tem dezassete anos tem no mínimo as suas responsabilidades. Sabe-se que os nórdicos têm uma visão dos laços familiares bem diferente da que temos no Sul da Europa. Se a emancipação precoce é largamente fomentada, também a quebra de relações familiares se tornou regra. Não só se pretende que os jovens se "façam à vida" muito novos, como ao que parece, devem cortar definitivamente com as origens. Um caso na minha família, através de um casamento, demonstrou-me como o afastamento das raízes familiares pode ser perverso e doloroso. É dos tais casos em que os sistemas nórdicos nada têm de "civilizados" ou "superiores". O corte e o enfraquecimento das relações familiares representa antes decadência, individualismo extremo, e talvez explique em parte a alta taxa de suicídios na região. A referência paterna, o apoio familiar em ocasiões de crise, a inculcação de valores de pais para filhos é vital para qualquer desenvolvimento são. E nenhum pai que se preze corta simplesmente os contactos com um filho de dezassete anos. Para mais, não parece padecer de problemas económicos. Ao que parece, o progenitor "biológico" não pensou nem pensa nisso. Já que os noruegueses estão em reflexão, recuperando do choque, talvez fosse uma boa ocasião para pensar se não terão falhado no espezinhamento dos seus valores familiares.

quarta-feira, julho 27, 2011

Em que ficheiro está arquivado o Mal?


As notícias bombásticas têm ainda mais impacto quando são recebidas num contexto absolutamente diferente, sem meios de comunicação em redor, por simples aviso. Assim, sem tempo para ver as notícias dos jornais e sem ir à net ou ver televisão, tive conhecimento dos atentados na Noruega ao mesmo tempo, no dia do massacre perpetrado pelo inquietante assassino.


Discute-se as razões, a ideologia, as motivações, o manifesto político anti-marxista, etc. Discute-se demais, mas a inquietação e os números da matança a isso justificam. Mas são tantas as informações ou desinformações que a confusão se torna ainda maior. Fundamentalista cristão (mas sem motivos estritamente religiosos, nem ligações fortes a qualquer igreja), maçon (de que loja?), "neo-templário", inimigo do multiculturalismo, do marxismo, do Islamismo crescente, de extrema-direita...os epítetos são tantos que a principal preocupação é mesmo arrumá-lo num grupo ideológico definido. Desgraçadamente, é quase impossível. São demasiadas coisas e o seu contrário para o podermos enquadrar num grupo "tradicional". A enorme preocupação é essa: saber de onde vem o Mal o perigo, sabermos quem é o inimigo. Mas tal como o próprio Mundo, completamente fragmentado e confuso, a sua origem é ambígua e misteriosa, sem uma conotação precisa. Não, não temos um 3º Reich, uma URSS nem sequer uma Al-Qaeda para identificar o ovo da serpente. O Mal a enfrentar pode ser personificado em Anders Breivick, mas está bem longe de poder ser arrumado numa arquivo com etiqueta. Seria tão mais fácil de enfrentar...e se ele não tivesse partido de dentro.



PS: aparentemente, para os maníacos do ateísmo, a culpa está toda na religião e em particular no cristianismo, muito embora o responsável pelos crimes não só não invoque fundamentos religiosos, passagens da Bíblia ou qualquer igreja cristã, e até teça comentários pouco simpáticos para com estas, como apela mesmo a que agnósticos, "humanistas seculares" e ateus de "cultura cristã" se juntem à sua luta. As coisas nem sempre são o que parecem ao primeiro grito.

segunda-feira, julho 18, 2011

As agências nunca se enganam e raramente têm dúvidas.



A última classificação da agência de notação Moody´s da dívida portuguesa pôs finalmente toda a classe política e a sociedade em quase unanimidade contra tal passo, traiçoeiro e de fraca credibilidade. Mesmo as instituições europeias concordaram, falando agora na urgência na criação de uma "agência de notação europeia independente" (mas é a UE que cria?). Escrevi "quase unanimidade" porque alguns zelotas do liberalismo económico destoaram. Não, para eles a classificação da Moody ´s é justíssima e isenta, nada tem de parcial, e apenas reflecte a dificuldade do país em cumprir os seus compromissos, por mais que se esforce. Ou seja, as agências de notação são absolutamente honestas e objectivas e não têm segundas intenções políticas. a fora como se diz isto, e a total crença no auto-regulação e na mão invisível parece-me cada vez mais panglossiana: tudo corre no melhor dos mundos, e as coisas passar-se-iam sempre obrigatoriamente assim. O fado dos mercados que não se enganam não muda. Os ultra-liberais, em termos de fidelidade ideológica, acabam por estar próximos dos comunistas, na barricado inversa, lembrando também uma igreja evangélica. O Mundo pode cair, mas os mercados terão sempre razão e quem os classifica também. A cataláxia não falha. Os mercados são grandes, e os austríacos os seus profetas.



sexta-feira, julho 15, 2011

Que apareçam outras como ela



Às voltas pelo Nordeste Trasmontano, só no dia seguinte é que soube da morte de Maria José Nogueira Pinto. impressionado, diga-se. Na véspera, lembrei-me que a tinha visto semanas antes num debate de opinião, na televisão, e tinha-a a achado com um ar muito estranho. Confirmaram-se os piores receios, e Nogueira Pinto sucumbiu a um cancro no pâncreas.





Devo ter ouvido falar dela pela primeira vez aquando do célebre caso da pala de Alvalade, quando era sub-Secretária de Estado da Cultura, em que depois de ter interditado o estádio do Sporting para concertos musicais, numa altura em que eram aí frequentes, viu-se desautorizada pelo então Secretário de Estado, Santana Lopes que poucos dias depois fazia um acordo com Sousa Cintra revogando a interdição. Não esteve com meias medidas e bateu com a porta.


O episódio mostra o carácter de uma mulher que muitas vezes se incompatibilizou na política. Conhecia ao de leve o seu percurso de vida, a casa de família do Campo Grande, onde nasceu (e morreu), o seu casamento, ainda muito nova, com Jaime Nogueira Pinto, a ida de ambos para África, as fugas à guerra, a vida no campo de refugiados sul-africano, que cimentou essa relação que duraria até ao fim, e que pôde ser revisitada numa entrevista que ambos deram em Outubro, à revista Pública. Depois, o serviço público, executado com competência e dinamismo, no Instituto Português de Cinema, na Maternidade Alfredo da Costa e na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, e, claro, na Secretaria de Estado da Cultura. Depois, a aventura política, como deputada pelo CDs a convite de Manuel Monteiro, a candidatura à liderança do partido, que perdeu para Paulo Portas, num congresso em que teve o apoio dos monteiristas e em que protagonizou algumas tiradas inesquecíveis (a da "Rato Mickey" e "eu sei que ele sabe que eu sei que ele sabe que eu sei"). O regresso à política, candidatando-se à câmara de Lisboa, onde seria eleita vereadora, e a posterior ruptura com o partido, com o regresso de Portas, e o regresso ao Parlamento pela mão da Manuela Ferreira Leite marcaram a carreira política.



Muitas vezes a sua petulância irritava. Muitas vezes discordei dela. Às vezes achei que exagerava, mas ao mesmo tempo achava-lhe graça, caso típico da sessão em que não hesitou em considerar um deputado que a azucrinava como "um palhaço". Mas era uma mulher corajosa, original, activa, imaginativa, e fiel aos seus princípios (e porque não dizê-lo, uma mulher bonita). A sua morte foi legitimamente sentida, à esquerda e à direita, excepto por meia dúzia de micróbios que vagueiam nos fóruns. O último testemunho da sua vida, no DN, em que demonstrava a confiança de sempre no Salvador, comoveu. Deixa uma extensa família e o homem com quem partilhou quase toda a vida. Que descanse em paz. Embora faça muita falta, o seu exemplo prevalecerá e inspirará outras como ela.


PS. uma semana terrível, realmente; desapareceram igualmente Jorge Lima Barreto, com 61 anos, e Diogo Vasconcelos, de apenas 43, um grande empreendedor e optimista convicto, e que foi o primeira presidente a associação de estudantes da faculdade onde me formei - como nenhum jornal referiu isto, quis lembrá-lo eu.

sábado, julho 09, 2011

A morte de um Imperador


Morreu Otto de Habsurgo. É impressionante: lembrei-me dele de repente, pensei que já devia andar perto dos cem anos, e meia hora depois, descubro na net que ele morreu.

Otto da Áustria nasceu já como herdeiro da coroa dual dos Habsburgos, herdeiro do milenar Sacro Império. Era sobrinho-neto do velho Imperador Francisco José e filho de Carlos I), que seria o último monarca da Áustria-Hungria, em virtude do assassínio do seu primo em Sarajevo, que desencadeou a 1ª Grande Guerra. Com a queda do império, acompanhou a família no exílio para a Madeira, onde seu pai morreria. Sem possibilidades de aceder ao trono da Hungria, devido ao golpe do Almirante Horthy, o "regente sem reino", Otto mudou-se para para Espanha e formou-se mais tarde em ciências Políticas na Universidade de Lovaina. Tornou-se um firme opositor ao nazismo ascendente e ao Anchluss, reivindincando o trono austríaco e fazendo declarações públicas contra a ocupação alemã. Essas posições valeram uma perseguição massiva aos seus apoiantes e a sua condenação à morte in absentia. Quando a Alemanha invadiu a França residia então em Paris, pelo que se viu obrigado a fugir para os Estados Unidos. Conseguiu-o graças a Aristides de Sousa Mendes, com quem entrou em contacto através do seu secretário, o Conde von Degenfeld, e que lhe proporcionou um visto para Portugal, e daí para a América (o próprio Arquiduque esteve envolvido na fuga de milhares de austríacos da invasão nazi). Viveu em Washington durante a Guerra, até ao regresso à Europa, ainda nos anos quarenta, com um passaporte da Ordem de Malta. Só muitos anos mais tarde ser-lhe-ia atribuída a cidadania austríaca, bem como a húngara e a croata.



Católico devoto, europeísta convicto, presidente da União Pan-Europeia, crítico da divisão europeia, chegando a promover acções para desmoralizar os regimes comunistas, Otto serviu ainda como deputado europeu durante vinte anos, pela CSU bávara, já que a partir dos anos sessenta escolheu a Baviera para viver, e onde morreu, há dias, com 98 anos. Se o Império tivesse subsistido, teria reinado durante 89 anos. Mas nunca chegou a ocupar o trono bicéfalo dos imensos domínios dos Habsburgos, e assistiu à carnificina europeia, sem que por isso baixasse os braços e desistisse de conseguir uma Europa unida, livre, tradicional e moderna, ao mesmo tempo. Em grande parte, conseguiu-o. O Arquiduque cumpriu exemplarmente a sua missão numa vida longuíssima e completa.


quinta-feira, junho 30, 2011

Há governo


Agora sim, há governo. Os Ministros e o Primeiro-ministro já tinham sido empossados na semana passada. Faltavam os secretários de estado, para a composição estar completa. Nos dias anteriores, havia um governo amputado, ou uma cabeça sem corpo. Com as tarefas que aguardam os novos titulares das várias pastas (para alguns, são mesmo várias), os secretários de estado eram essenciais para a boa governação. São 35, em lugar dos anunciados 25, mas com tão poucos ministros via-se logo que as secretarias de estado nunca poderiam ser menos.



Tal como sucedeu com os ministros, há muitos independentes, muitas caras desconhecidas e algumas surpresas. Não soube o que dizer à nomeação de Marco António, até que me informaram que ele já tinha tido uma fugaz passagem pelo sector, além de liderar o aparelho laranja do Porto, o que conta muito. Curioso ver Daniel Campelo na agricultura, mas é uma área em que reúne experiência e conhecimentos, que certamente ajudarão a novata Assunção Cristas. Já de Miguel Morais Leitão (que remete para o seu pai, ministro da AD), estranha-se a pasta, mas entende-se a justificação com a necessidade de "diplomacia económica". De resto, Carlos Moedas, Luís Marques Guedes, num cargo que já ocupara anteriormente, e Francisco José Viegas, titular anunciado na cultura, despromovida a secretaria de estado (que deixou os designers do logótipo do Ministério da Cultura indignados), já tinham tomado posse ou sido anunciados.



Continuo a pensar que mais um ministério não era descabido. Acredito na boa é a na capacidade de trabalho de Assunção Cristas, mas entregar-lhe uma catrefada de pastas de áreas em que não tem experiência e que podem até chocar é demasiado arriscado. Mais valia terem mantido o convite - depois retirado - a Jorge Moreira da Silva, já há muito envolvido nas questões ambientais, e entregar-lhe o ambiente, ordenamento do território (um autêntico quebra-cabeças, que envolve barragens, florestas, planeamento urbanístico, etc) e energia, deixando a agricultura nas mãos de Cristas.

Com o governo devidamente em funções, e o programa apresentado, resta desejar-lhe as maiores felicidades. Até agora tem sido coerente. Goste-se ou não do programa governamental, e há pontos em que discordo cepticamente, não há dúvida de que propõem-se a cumprir o que prometeram. Os dois partidos têm maioria parlamentar, escolhida pelo povo português, e têm toda a legitimidade para levar a cabo as mudanças a que se propuseram. Não vale a pena vir com lamentos contra a "regressão neoliberal" ou ameaçar com "maiorias sociais". As medidas vão ser duras, vão causar protestos, mas na sua maioria, serão necessárias. Não se arrancam dentes cariados sem tratamento. Para tragédias sociais, já basta a grega.

sábado, junho 25, 2011

Uma regata de feriado


A juntar aos festejos de véspera, no dia 24 deu-se a tradicional corrida de barcos rabelo no Douro. Este ano resolveram agendar a regata para horas mais católicas, e não às onze ou ao meio-dia, altura em que setenta por cento das cidades (não esquecer que em Gaia também é S. João) dorme. Não haja dúvida de que as velas dos rabelos, com as cores das respectivas companhias, animam a paisagem do Douro, no feriado mais parado da cidade. Os confrades da Confraria do Vinho do Porto, cada um com o seu traje henriquino, encabeçam as respectivas embarcações, que têm de conhecer às águas em que navegam, a mestria das manobras e as as direcções do vento, que não é pouco. Não pude ver quem ganhou a corrida (mas as notícias online ajudam), mas reparei que as últimas foram marcas de nome inglês e alemã - à atenção de futuras queixas de Frau Merkel. Em todo o caso, eis uma tradição que tem o condão de reviver os tempos em que estes barcos de madeira desciam o douro, até aos cais de Gaia e da Ribeira (se bem que em sentido contrário), atafulhados de pipas, e para a qual vale a pena chamar a atenção...desde que se conservem a horas decentes.


(Foto tirada daqui)

quinta-feira, junho 23, 2011

Cem anos de feriado


Nos cartazes relativos às festas de S. João deste ano colocados pelo município surge uma novidade: os cem anos da festividade oficial. Em bom rigor, as festas joaninas comemoram-se há séculos, com a justaposição da homenagem cristã ao Baptista às festividades pagãs do solstício de Verão. No Porto, as fogueiras tradicionais perdem-se na memória dos tempos. Mas até serem oficializadas, tiveram de esperar muito.

A 1ª República pretendeu, logo no seu início, criar os feriados municipais, acabando ao mesmo tempo com os religiosos, numa tentativa de laicizar e "educar" a sociedade. Assim, os municípios e as suas novas vereações republicanas estabeleceram os que eram mais próximos aos munícipes, ou mais convenientes.

No Porto, as autoridades camarárias não chegaram a acordo, pela que a decisão acabou por ser referendada, numa "consulta ao povo do Porto" levada a cabo pelo Jornal de Notícias. Havia várias propostas, além do 24 de Junho, já muito festejado: 1 de Maio, 8 de Dezembro, 9 de Julho (entrada das forças liberais no Porto), e outras que não vêm à memória. Acabou por ganhar, com grande maioria , o S. João, que era assim, em 1911, instituído como o feriado municipal da cidade do Porto.

Não deixa de ser irónico que, em plena República laicista e com assomos jacobinos, tenha sido o Santo que baptizou Cristo a nomear um feriado criado por iniciativa de um organismo republicano, mesmo que as festividades fossem sobretudo pagãs.

Em todo o caso, é graças a esse referendo municipal de há cem anos que hoje em dia podemos festejar o Baptista e a chegada do Verão, sabendo que no dia seguinte se pode sempre recuperar das mazelas.


terça-feira, junho 21, 2011

Uma aposta que saiu por cima


O tão almejado sonho de Fernando Nobre ficou pelas bancadas de S. Bento. A coisa já se adivinhava à légua desde o início, com todos os partidos, mesmo o CDS, a declarar à partida o seu veto. Uma batalha perdida. Mas percebe-se que Pedro Passos Coelho tenha querido levar a hipótese até ao fim. Deu a sua palavra, não tinha mais que a cumprir, apesar dos apelos sem contrário e do desfecho previsível. Para além de uma questão de honra, a táctica também pode ter jogado a favor, já que não lhe ficava nada bem voltar com a palavra atrás na véspera de tomar posse como Primeiro-Ministro. Deixar cair Nobre seria deselegante e traiçoeiro. Também não me pareceu pior que o fundador da AMI optasse por ficar no Parlamento. Reconsiderou que a sua presença seria mais útil como agente legislador. Está lá pelo voto dos eleitores, não para fazer birrinhas de cargos.


Já sobre a eleição, tenho dúvidas se terá sido a primeira vez que um candidato ao cargo não conseguiu ser eleito. Sei do confronto entre Oliveira Dias e Teófilo Carvalho dos Santos, em que este perdeu para o candidato da AD. O caso não é exactamente igual, mas houve também um derrotado.


Nobre era um erro de casting desde o início, como quase todos reconheceram. Mas levando a candidatura até ao fim, conseguiu sair-se airosamente. A alternativa Assunção Esteves ficou guardada até ao dia seguinte, enquanto todos discutiam se a segunda figura do estado seria Mota Amaral ou Guilherme Silva. Acabou por ser eleita com um grande número de votos e cumprimentos elogiosos de todas as bancadas. Poucas horas depois da tomada de posse do Governo, também o Parlamento tinha quem dirigisse os seus trabalhos.



No mesmo dia, dois transmontanos do distrito de Vila Real assumiram os dois cargos mais importantes da nação depois do chefe de estado.

segunda-feira, junho 20, 2011

A pergunta mais ouvida nos últimos dias

"Quem é esse Vítor Gaspar"?

domingo, junho 19, 2011

Nuno "Gomes"



Previsível mas desagradável. Apesar de ténues esperanças, Nuno "Gomes" deixa mesmo de ser jogador do Benfica. Ainda pretendia jogar mais um ano, mas Jorge Jesus, tal como mostrou na época acabada, não esteve pelos ajustes. É a partida de um jogador que esteve doze anos (entrecortados) no Benfica. Números que já não se usam.

Veio do Boavista quando era uma das maiores esperanças portuguesas para a frente de ataque. Mostrou logo profissionalismo, pois quando ainda estava ao serviço da turma do Bessa, marcou um golo ao Benfica na final da Taça de Portugal, que lhe ditou a derrota, apesar de já ter assinado. Depois seguiu-se uma média de vinte golos por época e as fantásticas exibições no Europeu de 2000, que obrigaram Vale e Azevedo, apertado pelos credores, a vendê-lo à Fiorentina. Havia esperança que, com Rui Costa ao lado, fosse o novo Batistuta, mas eram expectativas demasiado pesadas. Marcou menos do que esperava, ganhou uma Taça, e a Viola de Florença estourou sob as dívidas. Nuno tinha vários convites, mas optou por regressar à Luz, a custo zero, num dos melhores negócios de sempre do Benfica. Já não era o artilheiro dos vinte golos/época, mas era um avançado que abria espaços e fazia assistências preciosas, sem deixar de marcar os seus tentos. Esteve quase a ser o melhor marcador, em 2006, mas uma lesão grave retirou-o de campo a algumas jornadas do fim. A pouco e pouco, os golos foram diminuindo, outros avançados foram chegando, começou a alternância entre o banco e a titularidade. Não sendo uma escolha absoluta, era no entanto a referência, o "mais velho", o capitão do plantel. Até chegar a era Jesus, e o banco se tornar no seu local habitual em campo.

Na Selecção também deu nas vistas, em vários escalões. Marcou pela primeira vez com as Quinas ao peito no Euro 2000, contra a Inglaterra, um golo que selou uma das mais incríveis reviravoltas em competições internacionais. Marcou muitos mais (à França, nessa competição, pregando Barthez ao relvado, à Espanha, no "nosso" Europeu, levando Portugal à fase seguinte, à Alemanha), 29, ao todo, tendo-se tornado, até ver, no quarto melhor marcado de sempre por Portugal.

Nuno Gomes é o melhor artilheiro português dos últimos vinte anos, com mais golos marcados na carreira do que Rui Águas, Domingos ou Cadete. Mais do que ele, só mesmo o jogador que lhe deu a alcunha, Fernando Gomes. No entanto, durante anos era mal-amado, por causa da carinha laroca, dos cabelos e da bandelete para os prender, etc: era a "menina", o que se preocupava mais com o cabelo do que em jogar, o que se distinguia mais pelos falhanços do que pelos golos, etc, etc. Os adeptos preferem sempre os broeiros aos que têm aspecto mais fashion. O estatuto de "segundo melhor" atrás de Jardel e as comparações na segunda passagem pelo Benfica com os números da primeira também não ajudaram. Assim, Nuno teve de carregar durante anos uma pesada cruz, até se tornar veterano e assumir a barçadeira de capitão, e de, na época finda, provocar verdadeira empatia com os adeptos, entrando raramente e perto do fim, para ainda assinar com alguns golos. Embora tarde, conseguiu fazer as pazes com a "torcida". Depois de doze anos de águia ao peito, não conseguiu a renovação do contrato por parte da equipa técnica do Benfica, mais preocupada em importar sul americanos e júniores "muito promissores" do Varzim, e ele preferiu acabar a carreira noutras paragens, certo de que ainda tem golos a marcar. Provavelmente vai consegui-lo. Menos provável é que se encontra um ponta de lança português tão concretizador nos próximos anos.

quarta-feira, junho 15, 2011

Façam-se apostas


Parece que o fumo branco governamental estará por horas para sair de Belém. Saberemos então quais e com quantos ministros conta Passos Coelho. Não faço apostas. O soundbyte é enorme, com nomes para todos os gostos, desde relíquias do cavaquismo, como Fernando Nogueira (quem diria?), Braga de Macedo e Marques Mendes, até independentes como Vítor Bento e Fernando Nobre, e ex-socialistas tais como Daniel Bessa. Pelo meio ventilam-se Aguiar Branco, Paula Teixeira da Cruz, Eduardo Catroga, Pires de Lima. Prefiro não arriscar. Quase que aposto que boa parte desse nomes é lançada propositadamente ao vento para estabelecer a dúvida e a discussão. Sempre quero ver quais as surpresas que vão passar pelo anúncio da equipa governamental. Aquela que tem um trabalho hercúleo pela frente.

terça-feira, junho 14, 2011

Rescaldo - pequenos






Mais uma vez os "pequenos partidos" não conseguiram entrar no Parlamento. Até subiram, na sua globalidade, mas ficaram de fora. Desde 1991 que nenhuma formação pequena consegue furar os números. Nesse ano, o PSN do professor Manuel Sérgio conseguiu uma proeza improvável, antes de se afundar na irrelevância. Tirando o caso da federação de partidos que, com sucesso, formou o Bloco de Esquerda, nenhum consegue lá chegar.




O MRPP, velho partido de murais épicos e militância estudantil famosa, é sempre o primeiro dos últimos. Até hoje, e apesar da sua história e de ser conhecido, não conseguiu um único representante. Garcia Pereira é persistente, mas tudo tem os seus limites.




O MEP é a grande desilusão. Com os focos dos debates a incidirem sobre Rui Marques, teve ainda menos votos do que em 2009, e muitos menos do que aquela coisa dos animais. Essa nóvel formação conseguiu surpreender, talvez por causa do apoio de algumas caras conhecidas, ou da mobilização dos budistas, vegans e alguns votos habitualmente bloquistas. Quanto ao MEP, não sei qual o seu futuro, ou sequer se o tem. É que a desolação de resultados levou Marques a abandonar a liderança do movimento, e sem ele, tenho sérias dúvidas que se aguentem.



O MPT, em nome próprio, cresceu, mas terá de ambicionar mais se quiser chamar a atenção para os valores que defende. O PNR também subiu (terá sido o temor e a reacção aos indianos usados pelo PS?), mas por este andar ainda faltará muito tempo até Pinto-Coelho chegar à A.R.



O PPM, apesar da sobriedade de Paulo Estêvão e da graciosidade de Aline Hall, ficou-se por um resultado desolador, nada digno de quem já esteve no governo. De resto, o costume: POUS, Portugal Pró-Vida e Partido Humanista fecharam o pelotão. O Partido do Norte, do tronitruante Pedro Baptista, que se albergou no PDA, essa micro-entidade açoriana (que não é a primeira vez que serve de barriga de aluguer a um partido regional, se se lembrarem do alentejano Movimento Amigos da Planície), saldou-se por números irrelevantes. E já que se fala em partidos regionais, tivemos pelo meio a Nova Democracia, que agora praticamente só aposta na Madeira, e o Partido Trabalhista, do ex-PND José Manuel Coelho, que não chegou aos calcanhares do resultado das presidenciais, há apenas 5 meses. Tivesse ficado no antigo partido de Manuel Monteiro, e as perspectivas para as regionais eram interessantes. Assim, desbaratou os votos que lhe poderiam ser preciosos mais tarde. O pecado da gula é aquele que mais depressa acarreta punição.

sábado, junho 11, 2011

Rescaldo (à esquerda)


A subida do PSD é directamente proporcional à queda do PS. A conversa de que a queda do governo era culpa da oposição não convenceu minimamente o eleitorado. Como aconteceu na Grécia e na Irlanda, o recurso ao FMI, aliado ao desgaste de Sócrates, levou à derrota do partido no poder. O PS voltou a números que não tinha desde Sampaio, no auge das maiorias cavaquistas, abaixo dos 30%, coisa que sondagem alguma indicou. E com graves riscos internos. A união à volta do "líder" secou as vozes internas e as tendências ideológicas. O poder tem destas coisas, e Sócrates ajuda.


Estava bastante combalido, embora o tentasse disfarçar. A sua renúncia motivou muitos "nãos" de aflição, como costuma acontecer aos líderes aditivos, mas não podia fazer outra coisa. Ao menos na sua despedida, o PM cessante mostrou a humildade e o desprendimento que lhe faltaram nestes anos todos. Deixa o seu partido com uma disputa da sucessão pela frente, assumida oportunisticamente minutos depois por António José Seguro, que vê chegado o seu momento, secundado dias depois por Francisco Assis. António Costa, do seu gabinete no Intendente, preferiu ficar como "reserva futura. Veremos se o PS atravessa o vazio desértico pós-socratista, sendo certo que terá umas palavras a dizer no novo ciclo.



A CDU mantém os votos e ganhou mesmo um deputado por Faro. Desde que Jerónimo chegou que a hemorragia inexorável estancou. Bom aproveitamento da crise, renovação da militância, a "genuinidade" de Jerónimo? Não perguntem. Só sei que depois de duas décadas em queda, a coligação vermelha-verde se consegue aguentar.


O Bloco de Esquerda é um dos grandes temas de conversa pós-eleições. Previa-se a descida, apanhou por tabela e teve uma resultado desastroso. Perdeu metade dos deputados, entre os quais José Manuel Pureza, que lhe fará muita falta. Francisco Louçã não quer sair da "coordenação", o que revela bem a sua propensão totalitária, mas já se ouvem vozes nesse sentido. A verdade é que Louçã é o rosto do Bloco desde o início, e o seu afastamento poderia ser ainda pior para o partido. não se vislumbram grandes alternativas, excepto talvez Miguel Portas (como se tratariam doravante CDS e Bloco?)Em todo o caso, conviria pensar em mudanças internas. Mas talvez seja demasiado prematuro fazer já o enterro do movimento. Se aproveitar bem os tempos difíceis que se avizinham, e não cometer demasiados erros estratégicos, como a história da moção de censura de opereta, talvez cresça em escrutínios futuros. Até lá, está confinado ao núcleo duro no parlamento.

quarta-feira, junho 08, 2011

Rescaldo (à direita)


Esta análise vem com dois dias de atraso, bem sei. Mas gosto de fazê-las com calma, e o tempo é um bem escasso.


Como já tinha dito, estas eleições não trouxeram nada de especificamente surpreendente, tirando a diferença entre PSD e PS. Num ou noutro caso, no essencial, houve algumas surpresas, mas não há eleição que não as tenha. No essencial, nada espantou.



O PSD é o grande vencedor mais pelos números do que pela vitória em si. Como tinha notado na arruada que presenciei em Santa Catarina, os sociais democratas levavam já uma dinâmica de vitória, ao passo que o PS estava já pouco entusiasmado. Tudo isso depois de semanas de "empates técnicos". Até Abril/Maio, o PSD tinha uma vantagem muito confortável nas sondagens. Perdeu-a quando o discurso começou a tergiversar, com vários dirigentes a falar cá para fora a diversas vozes, por vezes em contradição com Passos Coelho. Mais do que o debate (onde Passos não se deixou intimidar por Sócrates e que marcou alguns pontos), o silenciamento de algumas figuras, como Catroga ou Leite Campos, e a união em volta do líder foram fundamentais.


Antes do anúncio dos resultados, o PSD já sabia seguramente que tinha vencido as eleições, mas talvez não por aquela margem. o número de deputados conquistados, que ainda vão aumentar com a emigração, permite-lhe um certo desafogo nas negociações já em curso com o CDS-PP e se for necessário, prescindir dos votos madeirenses para impedir qualquer veleidade chantagista a Alberto João Jardim.

Há números curiosos. Para além das habituais zonas de implantação laranja de Trás-os-Montes, Beira Interior e Leiria, o PSD ganhou em todos os concelhos do Algarve, onde obteve mais um deputado (o meu antigo companheiro de quiz, Cristóvão Norte, filho do deputado homónimo que nos anos setenta era o único deputado laranja do distrito). Em Setúbal, onde em 1975 estava impedido de fazer comícios, o PSD também ganhou. Em Beja recuperou o deputado perdido há vinte anos. E até venceu no "Socraquistão" de Castelo Branco e Portalegre (aqui com apenas mais 14 votos).


Como seria de esperar, em Vila Real, Passos coelho obteve o seu segundo melhor resultado. Num distrito fortemente PSD, a proveniência do líder só podia reforçar as contas. Melhor só mesmo em Bragança. Há que felicitar o cabeça de lista vencedor. Ainda por cima, o distrito já há algum tempo que não vota tanto à direita como no início, quando se dizia que os comunistas comiam criancinhas e os socialistas roubavam galinhas.


Até por estes números simbólicos, Pedro Passos coelho é um vencedor inequívoco. Apesar de todas as gaffes, confusões e polémicas. Não tendo grande biografia (Cavaco também não tinha, segundo Soares), parece-me antes de mais um indivíduo decente e correcto, ideia que também recolhi de conhecimentos familiares de Vila Real. Claro que o carácter nem sempre é tudo num líder que se quer forte e corajoso, mais a mais numa situação como a actual, mas é sempre o princípio de tudo. O resto dependerá do apoio que tiver.



E o CDS-PP? Conseguiu alcançar todos os objectivos a que se propunha, mas as expectativas nos votos (cheguei a ouvir alucinações de "17%") foram goradas, não há que disfarçá-lo. Não percebi se a relativa calma que se vivia no Caldas e a prudência de Paulo Portas no seu discurso tinham directamente a ver com isso ou se era já o pensamento no dia seguinte, mas parece-me indissociável a água na fervura das expectativas e a placidez dos militantes na noite eleitoral. Em 2009, se bem se lembram, foi um delírio com os "dois dígitos". As sondagens voltaram a enganar-se, mas ao contrário. Agora, a entrada no governo está assegurada e corre os seus termos, e a esquerda radical está lá para trás. Mas os populares fariam bem em dar atenção a um aspecto. É verdade que cresceram em votos sobretudo nas zonas urbanas, e ao que parece, também no voto "jovem". Isso reflectiu-se nas enormes subidas em Setúbal e Lisboa. Em contrapartida, noutros círculos com votações tradicionalmente interessantes, como Viseu, Braga, Leiria e Aveiro, o CDS estagnou ou perdeu mesmo votos - é o caso de Aveiro, por onde corre Portas. Se num escrutínio nacional o partido pode captar mais votos graças a algumas ideias, a um líder carismático ou a razões circunstanciais, já nas locais a coisa tende a cair por terra, como as autárquicas muito bem o comprovam de eleição para eleição. O CDS já teve um bom número de câmaras, incluindo várias capitais de distrito. Hoje está reduzido a Ponte de Lima. As estruturas locais ou são fracas ou não têm capacidade de atracção de figuras de prestígio e eleitores, e o triste facto dos municípios estarem convertidos em agências de emprego. Um partido que pretende ser influente na vida nacional precisa de assentar nalgumas estruturas municipais, regionais ou sociais (o PCP tem os sindicatos e algumas regiões de grande peso). Se os militantes do CDs não pensarem nisso, arriscam-se a ter sérios dissabores daqui a uns anos.



A frase mais badalada da noite, sem a menor dúvida, era o "cumpriu-se o sonho de Sá Carneiro: um governo, uma maioria, um presidente". Formalmente, cumpriu-se neste 5 de Junho, sim. Mas na prática o objectivo do fundador do PSD já tinha sido atingido post mortem em 1982, com a primeira revisão constitucional, que afastou os generais do poder e transformou o Conselho da Revolução em Conselho de Estado. No Domingo, apenas se cumpriu o slogan da AD. Saberemos nos capítulos seguintes quais as suas consequências práticas.

segunda-feira, junho 06, 2011

Resultado


A vitória do PSD não terá surpreendido ninguém que estivesse minimamente atento na última semana. Mas não esperava uma diferença tão grande entre os partidos do "bloco central". Um pouco menos do PSD, um pouco mais do PS e do CDS, e que o bloco não ficaria abaixo dos 7%. só acertei com a CDU, que se manteve nos 8%, O seu eleitorado é mesmo fiel.


A diferença nas previsões (e nas sondagens) não altera o essencial: o PS perdeu, o PSD ganhou com maioria relativa e terá de se aliar com o CDS-PP, que aumentou a votação e o número de deputados. a esquerda radical perdeu votos e vozes. Sócrates abandona a liderança mais cedo do que poderia pensar (mas não Miguel Sousa Tavares, que previu que às 21:30 Sócrates já não seria secretário-geral do PS; enganou-se por dez minutos...), e deixa assim caminho livre para um sucessor mais flexível com a oposição, perante as duras políticas que se antevêem e que precisarão de ser negociadas.


Como recordavam alguns, está cumprido o sonho de Sá Carneiro: um governo, uma maioria, um presidente.

Amanhã haverá tempo de se analisar os resultados mais ao pormenor.

domingo, junho 05, 2011

Alcântara e o regresso de um símbolo

 
Quando há uns anos me mudei para Lisboa (mudança essa retrocedida pelo regresso ao Porto), imediatamente iniciei o processo de reconhecimento da cidade onde ia ficar indefinidamente. Vivi em várias zonas, de Telheiras a Arroios, e pelo meio com um desvio para a Linha. Mas à parte as deambulações iniciais, a zona de Lisboa que mais me marcou nos primeiros tempos foi Alcântara, por trabalhar aí e por viver nas proximidades, na Infante Santo. A descida das Necessidades, de cujo jardim se avistava toda a zona, através da estreita rampa até ao largo da Armada, era um prenúncio da zona com eixos viários mais ou menos amplos, irrigados por vielas e becos de onde saíam gatos ou marinheiros para tomar um dos inúmeros bagaços do dia. Não faltavam aí restaurantes, desde snacks e tascos modestos até grandes marisqueiras, de letreiros bem visíveis. Havia casas degradadas, baldios decrépitos, esperando a eternamente adiada intervenção de Siza, e ruelas de idade respeitável, como a Travessa da Trabuqueta, que, a crer nas primeiras páginas de A Cidade e as Serras, existia já em tempos de D. João VI e constituía um perigo para os Jacintos da época.
 


Alcântara está dividida pela Avenida de Ceuta e pelo movimentado cruzamento entre essa parte que acompanha o eixo da Prior do Crato e a que se estende à volta do Largo do Calvário. A homenagem toponímica nessa zona ao pretendente ao trono é de fácil explicação: precisamente nesse local, as forças mal armadas e treinadas que apoiavam D. António, comandadas pelo refugo do refugo de Alcácer Quibir, enfrentaram aí os poderosos Tercios do temível Duque de Alba, e claro está, foram obviamente desbaratadas, permitindo a entrada dos castelhanos na capital e a consequente subida de Filipe II ao trono português. Na altura, havia uma ponte que atravessava a ribeira de Alcântara, que separava Monsanto da cidade, e assim permaneceu até ao Século XX, altura em que se encanou o curso de água.

A arquitectura industrial, com maioria de fábricas abandonadas, e as casas oitocentistas (podendo-se ver uns poucos exemplares de art nouveau) convivem agora com as Docas, espaços ribeirinhos cuja noite já teve melhores dias, e novos projectos como o Alcantara LX, uma construção moderna e claramente destacada da envolvente de antigas fábricas. A sucursal lisboeta do Twins fica por ali, e do outro lado o Garage deu cartas durante uns tempos. A frente do edifício industrial que o acolhia era meia tapada por uma estrutura metálica que ligava a estação de Alcântara-Terra a Alcantâra-Mar, da linha de Cascais, vizinha da Gare Marítima e do Museu do Oriente, já ao lado do rio todos com arquitectura modernista dos anos quarenta e com recordações de Almada Negreiros.

A principal marca desportiva de Alcântara é o Atlético clube de Portugal, fusão do Carcavelinhos e do União de Lisboa. Jogou inúmeras vezes na primeira divisão, chegou a finais da Taça, e até aos anos setenta era um habituée do escalão principal. Afastado desde aí dos grandes jogos, o Atlético teve um momento de glória quando eliminou o Porto da Taça de Portugal, em 2007, em pleno Dragão. Os alcantarenses festejaram efusivamente o feito, e o periódico da colectividade até emitiu uma edição especial. Mesmo os Gato Fedorento se lembraram de parodiar esse jogo. O seu estádio, a Tapadinha, fica nos altos de Alcântara. É um recinto envelhecido, um pouco à imagem do clube, sem cadeiras nem cobertura, mas com uma bela vista sobre o Tejo. As suas assistências são até satisfatórias para as divisões secundárias


Cheguei a assistir a um desafio com outro histórico do futebol português, o Barreirense, pouco tempo depois desse tomba-gigantes protagonizado pelo Atlético nas barbas de Jesualdo e Pinto da Costa. O confronto com os vizinhos da margem Sul, de onde saíram várias lendas do nosso futebol, teve muitos episódios na primeira divisão, em tempos que já há muito lá vão. Hoje são dois clubes semi-profissionais, que vivem das memórias, dos sócios e de alguma publicidade local.


Segundo os alcantarenses, uma das razões que ditou o declínio do Atlético foi a construção da Ponte sobre o Tejo, que passa por cima da zona, aliás mesmo ao lado da Tapadinha. Talvez porque se tornou um mero atravessadouro, e perdeu o movimento dos passageiros que seguiam de cacilheiro, e toda a indústria local, relacionada com o rio. Não sei se é a verdadeira razão ou não - com a profissionalização, os clubes de bairro tenderam a decair, e as receitas não devem abundar.


O que é certo é que o Atlético teve mais um momento histórico há dias: depois de ficar em primeiro lugar na 2ª divisão B-Sul, venceu na liguilha de subida o Padroense e subiu à divisão de Honra, agora Segunda Liga, ou seja, aos campeonatos profissionais. Fará companhia o União da Madeira, aquela agremiação quer era normalmente composta por Dragans, Miltons Mendes e Simics naturalizados, mas não já pela turma do Padrão da Légua, por causa das estúpidas regras que regem estas promoções. Assim, além do Benfica-Sporting, haverá outro derby lisboeta, na divisão inferior: o clube de Alcântara contra o seu rival (e antigo "Grande") Belenenses. Saúda-se este regresso do Atlético Clube de Portugal, e sobretudo, a animação que não será na Tapadinha a recepção aos vizinhos de Belém e da Ajuda. Os alcantarenses já mereciam.

sábado, junho 04, 2011

O bloco central em Santa Catarina



Na quinta-feira, pretextando uma volta pela Feira do Livro, de novo na placa cinzenta dos Aliados, assisti às duas arruadas dos partidos do Bloco Central. Se à volta dos aliados as jotinhas laranjas, montadas em autocarros de dois andares, já ensaiavam as bandeiras e megafones, em Santa Catarina desfilava o cortejo socialista, com Sócrates acenando no meio. Uma fila extensa, com bandeiras de várias cores (já não apenas o rosa e branco), o mulherio da Sé em transe com o ainda primeiro-ministro, tentando beijá-lo, ou em alternativa a fotografia, e com a secção do PS de Santo Ildefonso a aplaudir à varanda.



Meia hora depois, a caravana laranja, com os mesmos adereços, as jotas em êxtase, mais ainda quando chegou Passos coelho, que mal se via entre as câmaras e os microfones entre os quais se desdobrava-se freneticamente. Deu-me ideia que os cortejos tinham uma extensão mais ou menos semelhante, mas o do PSD era mais compacto, coisa que os jornais no dia seguinte confirmavam. No resto, poucas diferenças. As caravanas lembravam uma claque de futebol, com bandeiras gigantes, os militantes a envergar as camisolas do partido e alguns chefes de secção com microfone a entoar slogans para a turba repetir.






No artigo de Sexta, Vasco Pulido Valente acertava em pleno. De facto, Sócrates anda em campanha rodeado de seguranças, só permitindo alguns furos ocasionais de fãs histéricas. Tudo dentro do profissionalismo eleitoral da "máquina rosa". Como também recorda VPV, Mário Soares andava alegremente no meio da multidão, até na praia fazia campanha, entre os campistas, e por causa disso aconteceu o episódio da Marinha Grande, que lhe deu um élan inesperado nas presidenciais de 1986. Ao colunista só lhe faltou um pormenor: é que tal como Pinto de Sousa, Passos Coelho também anda rodeado de um cordão de forças e de guarda-costas profissionais, que pouco o aproxima dos transeuntes, e que não fica bem com a sua bonomia. Até nisso, as campanhas do centro-esquerda e do centro-direita do bloco central são idênticas.

sexta-feira, junho 03, 2011

Os não representados

 
As campanhas dos partidos com assento parlamentar não fogem muito à rotina habitual, ao contrário do que esperava, tirando aquela renúncia aos outdoors, que sobraram para os pequenos. Estes fazem o que podem. O debate na RTP é uma migalha, mas sempre serviu para ver quem é que tinha ideias para discutir. O MPT de Pedro Quartin Graça , o MEP de Rui Marques, o PPM de Paulo Estêvão e mesmo o MRPP do "veterano" mas sempre activo Garcia Pereira foram os que expuseram ideias mais claras, e acima de tudo mais soluções concretas, por vezes coincidentes. Nem todas serão exequíveis, mas nenhum vende gato por lebre. Ouvi um pouco Paulo Borges, do Partido dos Animais, mas perdi um pouco a paciência com a conversa da união entre todos os seres vivos e que todos os valores dos outros candidatos eram relativos em comparação com o ideal que defendia (estava a ver que ia propor que os animais tivessem o direito ao voto). José Pinto Coelho não deixou de culpar os emigrantes pelos estragos do estrito conceito que ele tem de Nação; quanto ao outro Coelho, o da Madeira, começou logo desde o início a sabotar a conversa com o seu lençol de slogans, ao qual chamava"os ideais de Abril" (calculo o que Quartin Graça não terá aguentado).


As sondagens dão números interessantes aos pequenos partidos, o que pode indiciar que entrem no Parlamento. Garcia Pereira estaria na calha para isso, mas a incompreensível decisão de deixar todos os outros candidatos à sua espera em vão depois de ganhar uma providência cautelar que obrigava as televisões a transmitir debates entre eles pôs seguramente em risco a sua eleição. É pena, porque tanta persistência merecia um lugar ao velho MRPP em São Bento, mas estas atitudes pagam-se caro. Diferente posição teve o MEP, que ganhou idêntico direito ao debate, e Rui Marques não perdeu a sua oportunidade. É possível que tenha marcado pontos. quem sabe se não teremos o verde do MEP e do MPT no parlamento, levando algum ar fresco aos Passos Perdidos.


Quanto a José Manuel Coelho, duvido que a transferência para o invisível Partido Trabalhista, liderado por um senhor chamado Amândio Madaleno, sirva para segurar os surpreendentes votos das presidenciais. No fundo, os candidatos independentes à presidência nunca seguram a sua votação. a prestação no debate também não ajudou.




Ps: a Nova Democracia está transformada em partido regional madeirense, ou a passagem de José Manuel Coelho deixou o vírus da paródia no partido? É que ouvir aqueles tempos de antena, metade eles ocupados por musiquinhas pretensiosamente satirizantes, sem apresentar uma única ideia, tira logo a paciência a um santo.

terça-feira, maio 31, 2011

Bodas de Ouro


Há cinquenta anos, o Real Madrid era apeado do seu trono de único campeão europeu por uns rapazes de camisola vermelha e águia ao peito. E nada voltou a ser como dantes.
Os legítimos detentores da "resolução"



A campanha eleitoral decorre sem grandes rasgos ou novidades de maior, excepto a quase ausência de outdoors. Qualquer declaração potencialmente mais abrasiva ou "politicamente incorrecta" é uma notícia em si. Assim, não surpreende que as respostas de Pedro Passos Coelho às questões levantadas pela Rádio Renascença sobre a questão ao aborto tivessem causado um turbilhão de recriminações, aproveitamentos descarados e urros indignados, não sei se por deficiências interpretativas ou por mera total ausência de aceitar ideias alheias.


Passos Coelho é a favor da actual lei, como esclareceu aos microfones, e não pretende alterá-la mas tão somente melhorar a sua supervisão e analisar se está ou não a ser correctamente aplicada, de forma a não tornar o aborto num meio contraceptivo. Não é, claro está, a minha opinião, já que discordo da actual lei onde o aborto não é meramente despenalizado, tendo-se tornado uma prática comum financiada pelo estado. e como não acho que um feto de 10 semanas seja meramente um apêndice sem vida, moralmente não podia discordar mais disso.

Mas consigo perceber a ideia de Passos Coelho, e mais ainda o comentário de tolerância para quem não pensa da mesma forma: a legitimidade de um grupo que perdeu uma causa em referendo poder voltar a exigir nova consulta popular (com algum intervalo de tempo).


Essa legitimidade é recusada por muitos que defendem a actual lei, e que consideram que qualquer mudança seria um "retrocesso" e o regresso "às trevas" e à "Idade Média". Isso verificou-se no habitual censor da esquerda radical, Francisco Louçã, que acha que a lei anterior "só é defendida por uma minoria ultra-reaccionária" e que Portugal "já está no século XXI". Deixando de lado os habituais determinismos temporais de que "a sociedade não volta para trás", seria bom saber em que é que o coordenador do Bloco se baseia para falar em "minorias" (que de resto está habituado a apoiar, por mais ridículas que sejam). Se pensarmos que em 2007, num referendo cuja abstenção foi superior a 50%, 41% dos eleitores votaram "não", é caso para perguntar qual é o conceito de minorias para Louçã. Semelhante ideia exprimiram outros conhecidos defensores do aborto livre, como Vital Moreira, ainda hoje no Público, e mesmo o editorial deste diário, que ultimamente anda a resvalar para o absurdo.


De todo este "caso" retive duas ideias, cada uma mais inquietante do que a outra: a de que não falta gente que, ao contrário do que dizia na campanha dos referendos, e a fazer fé nos comentários facebookeanos à notícia, são "a favor da aborto", e não meramente à sua despenalização; e que os que se opõem à legalização dessa prática não têm o direito nem a legitimidade de exigir alterações à lei nem um hipotético futuro referendo, ainda que os seus defensores o tenham feito durante anos a fio, mesmo depois de derrotados, porque era preciso "resolver a questão".


Estará a questão resolvida? Quem é que decide isso? Os senhores defensores da "IVG" têm o exclusivo? Às vezes retroceder não é pior, sobretudo se se tiver com um precipício em frente.

sábado, maio 28, 2011

Não culpem o dia


Creio que nunca tinha havido um caso tão grave no Dia da Defesa Nacional como o que aconteceu há dias à rapariga que morreu de uma queda quando fazia slide. Pelo menos é o que asseguram os responsáveis das forças Armadas que, diga-se em abono da verdade, não perderam tempo a ordenar um inquérito imediato do sucedido. Aproveitando o drama do Quartel da Serra do Pilar, alguns "pacifistas" já vieram exigir o fim do Dia da Defesa Nacional (instituído no seguimento do fim do serviço militar obrigatório, e a que todos os jovens têm de comparecer no ano em que chegam à maioridade). Não estão sós: alguns periódicos, como o Público, seguem a mesma ideia, como se pode comprovar na coluna da última página de Sábado deste jornal, que considera que a tragédia "vem dar razão aos que querem acabar com essa absurda obrigatoriedade".


Absurda, pergunto eu? Talvez para os que julguem que o mundo é um lugar muito pacífico, que basta não haver forças armadas e nada, em tempo algum, nos poderá acontecer, que são "práticas medievais", etc. Acontece que apesar de há quase dois séculos não sofrermos nenhuma invasão, não fazemos ideia do que o futuro nos reserva. Podiam também recordar que temos uma grande Zona Económica Exclusiva, que convém vigiar, que não raras vezes a nossa força aérea precisa de ir buscar cidadãos portugueses em apuros, como aconteceu recentemente na Líbia, que fazemos parte de organizações e que temos obrigações a cumprir em intervenções externas, etc. (talvez este último ponto não seja grande argumento perante quem grafite e grite "Portugal fora da NATO!"). em suma, as forças armadas são necessárias e são um dos pilares de um país. não havendo serviço militar obrigatório, entende-se perfeitamente a necessidade de uma jornada semelhante. Não fosse isso, e as novas gerações nem saberiam que temos umas forças armadas.


Para além do mais, os desportos mais radicais, como o que vitimou a infeliz rapariga, nem são obrigatórios. Não houve qualquer ordem no sentido de deslizarem num cordame de aço nos pátios do histórico quartel de Gaia. Por isso, os opositores ou cépticos do Dia da Defesa Nacional gastariam menos esforços se não usassem jargões pouco convincentes (e já agora, se não usassem a torpeza de utilizar dramas para os seus objectivos ideológicos) e se cingissem às verdadeiras causas dos acidentes que merecem um tratamento o mais rigorosos possível, o apuramento de responsabilidades e a certeza de que não voltarão a repetir-se. Tudo resto é conversa fiada de gentinha irresponsável.

terça-feira, maio 24, 2011

Do isqueiros ao i-phone


No soberbo concerto que os National deram ontem no coliseu, não faltou a já previsível comunhão da banda com o público, com o vocalista Matt Berninger a percorrer as coxias e a ir até ao fundo da sala, convivendo efusivamente com a plateia em delírio, e o final acústico, um clímax sereno. Mas dei-me conta de uma marca dos tempos: os tradicionais isqueiros, que costumavam acompanhar as baladas, desapareceram, substituídos pelos telemóveis e i-phones. Não há concerto hoje que não tenha um testemunho de três minutos. As luzes permanecem, mas sutentadas em baterias e digitalismos, e não mais em combustível. Terríveis tempos tecnológicos, estes.




Apenas ficou a faltar isto:

segunda-feira, maio 23, 2011

As gracinhas de Frau Merckel





As recentes declarações de Angela Merckel sobre a quantidade de dias de férias e a idade da reforma em Portugal, entre outros países, trazem consigo os germes do populismo e do autoritarismo encapotado. Fazer acusações tão levianas sem dados rigorosos nem ao menos próximos da realidade mostram que a actual Chanceler continua na senda da caça - ou manutenção - dos votos depois dos desastres que foram as eleições nos Lander, onde até os Verdes suplantaram a CDU, e que não hesita em recorrer ao mais patético populismo para o conseguir, mesmo que os resultados saiam pela culatra, como o provam as imediatas críticas da oposição.


Para além disso, e da óbvia humilhação que tenta lançar aos visados (mostra clarissimamente o que é a solidariedade europeia hoje em dia), arroga-se no direito de dizer aos outros como devem regular os seus sistemas sociais internos. Tanto Portugal como a Grécia, e outros, precisam de fazer reformas na administração pública, segurança social (aqui precisam todos, sob pena de falirem em poucas décadas) e economia, nos seus variados sectores. Mas quem o pode fazer são os respectivos governantes, supervisionados pelos orgãos comunitários competentes, ou por instituições com as quais tenham celebrados acordos, como aconteceu recentemente com o FMI e o BCE. Que Merckel, essa ambígua frau em cujas mãos os alemães depositaram o poder executivo, se ache no direito de mandar bocas para o seu eleitorado sem sequer estar na posse de dados válidos, demonstra apenas mais uma vez esta tendência alemã de viragem para o autoritarismo, não já com Anchluss e Panzers, mas enviando ordens económicas de longe, desdenhosa e altiva. Khol e Schmidt, estadistas com obra, bem se fartam de dar preciosos avisos, mas esta Bundesrepublik parece bem diferente da que existiu nos últimos sessenta anos, e certas decisões da política externa, como o veto no conselho de Segurança da ONU à intervenção na Líbia, são mais prova cabal disso mesmo. Fazer comparações com o Terceiro Reich será abusivo, mas o vírus autoritário e expannsionista, ainda que sob outras formas menos belicistas, está lá.


Bem esteve o MNE ao chamar o embaixador alemão para lhe comunicar o desagrado com a gracinha de frau Merckel. Há um limite para tudo, mas nem sempre os teutões o respeitam.