quinta-feira, abril 05, 2012

A Dama de Ferro e o regresso da questão Falklands


O filme A Dama de Ferro, tentativa de biopic sobre Margareth Thatcher, ainda se exibe nalgumas salas de cinema. Consegui vê-lo já depois da esperada consagração da grande Meryl Streep na última sessão de Óscares. De facto, e tal como diziam inúmeras críticas, não é tanto uma "biografia filmada" mas mais um filme sobre a caminhada para o topo de uma self made woman, a posterior perda desse mesmo poder e a cruel comparação com a decadência física e mental de quem o assumiu. É um pouco também uma afirmação feminista.
 
Esperava esta obra há já alguns anos. A ideia se fazer um filme sobre Tatcher não era nova e já tinha bastante tempo. A de que o papel principal fosse interpretado por Streep também, e houve mesmo quem visse um ensaio em The Manchurian Candidate, de 2004, onde a podíamos encontrar como uma senadora fria e manipuladora (que no estilo, que não nas intenções, lembrava um pouco Thatcher).

Se a ideia era mostrar as fragilidade dos que em tempos assumiram um poder que parecia inexpugnável, então o resultado é satisfatório. Uma Thatcher de terceira idade, trôpega e semi-esquecida, atormentada pelo fantasma do marido Dennis, mas que ainda conserva parte da lucidez, necessária para as recordações de tempos idos e as comparações. Interessante, nesse ponto, para quem gosta do género da "biografia psicológica". Mas eu prefiro as clássicas, e nesse sentido senti-me um pouco defraudado pela insistência na "velha Thatcher", que aparece tantas vezes no filme como o restante percurso. Não que haja qualquer problema em construir uma biografia filmada com recurso a flashbacks e recordações, mas a insistência na senilidade da dama de Ferro, e sobretudo na obsessão com o marido torna-se cansativa.
Esperava, confesso, que o filme se debruçasse mais sobre a vida de Thatcher, em especial os anos oitenta. A política económica, que marcou o seu governo, quase nem aparece, assim como a crise social que se gerou (desemprego, hooliganismo, etc), e entre a Guerra das Malvinas e a saída provocada pelos adversários internos, ou seja, oito anos, limitam-se a colocar algumas fotografias e nada mais. E depois da demissão, passa-se directamente para o período da "Thatcher velha", num enorme salto sem que se perceba o que lhe aconteceu nos anos subsequentes aos seus governos. A minha semi-desilusão com o filme deve-se a esses saltos não explicados, às omissões graves e à escassa explicação dos factos. Para mim, uma verdadeira biografia não deve deixar buracos nem cenas que só lá estão porque sim (e que na realidade têm mais relevância do que aparentam). Preferiu-se enveredar pelos intrincados caminhos psicológicos do poder e da sua passagem. São opções...
 
Meryl Streep ganhou o Óscar pela sua interpretação da baronesa. Houve quem dissesse que era "o papel da sua vida", mas discordo, porque a maior parte das interpretações da actriz americana seriam a "da vida" de quase todos os actores de cinema. Este é soberbamente interpretado, de acordo, e mereceu o galardão, mas Streep já o merecia noutras ocasiões. Madison County, "I had a farm in Africa", só a título de exemplo.
 
É interessante verificar que o filme chegou aos cinemas em 2011 e 2012, e que precisamente por estes dias comemoram-se os trinta anos do início da Guerra das Malvinas, em Abril de 1982, um dos principais momentos de A Dama de Ferro (e no ano em que Streep recebia o primeiro Óscar de melhor actriz). Justamente, a Argentina, pela voz da presidente Cristina Kirchner, vem de novo reivindicá-las, com um discurso nacionalista e populista, apostando agora não na guerra militar mas na diplomática, apoiando-se nos vizinhos sul-americanos. O argumento é o da contiguidade territorial e a pouca distância das ilhas do continente sul-americano. Mas parecem esquecer-se do princípio da auto-determinação dos povos, e que a população das ilhas é exclusivamente composta por ingleses e escoceses que não têm a menor vontade de ficar sob domínio argentino.

É claro que Londres já respondeu que quanto à soberania das Malvinas/Falklands não havia qualquer conversa. Mas para além da onda de nacionalismo populista, Kirchner sabe que os mares a área à volta das ilhas escondem inúmeros recursos, incluindo petróleo e gás natural. As razões são mais compreensíveis do que em 1982, quando a junta militar, para fazer subir a sua popularidade, invadiu as ilhas, certas de que o Reino Unido não reagiria. Enganaram-se, e depois de semanas de combate, os britânicos afundaram o cruzador General Belgrano (as imagens constam do filme), cercaram as forças argentinas, na sua maioria compostas por soldados inexperientes, em contraste com os ingleses, habituados às emboscadas no Ulster, e forçaram-nas à rendição, hasteando de novo a Union Jack no território. A humilhação da derrota conduziu a grandes revoltas e à queda da junta, levando ao regresso da democracia no país das pampas. O grande jogo da Mão de Deus, no Mundial de 1986, entre os dois inimigos de 1982, tinha por isso uma carga política enorme.

Evidentemente que ninguém espera um confronto militar, nem Kirchner será tão obtusa e audaciosa como o ditador Galtieri, apesar de Londres estar a cortar nas despesas militares. Mas poderá ser um caso a seguir com interesse no futuro. Irónico é ver manifestações esquerdistas em Buenos Aires, queimando bandeiras britânicas em frente à embaixada, como se estivessem ao lado do brutal regime ditatorial e pró-fascista que então vigorava, durante o qual foram mortas e desapareceram milhares de pessoas, e que caiu precisamente graças à derrota militar. Nesse aspecto, os argentinos que não fossem apoiantes da ditadura deviam estar gratos à Dama de Ferro.


sábado, março 31, 2012

Dois andares

Finalmente! Consta que há um ano que eles andam por aí, mas só nos últimos dias é que finalmente pude ver os autocarros de dois andares de nova geração que agora circulam pelo Porto. Parece-me que fazem percursos mais periféricos (para reduzirem o número de veículos e não agravarem o trânsito para essas periferias?), ao contrário do que acontecia antigamente. Têm um ar elegante, mas meramente funcional, muito germanizado, o que não admira, já que são da marca alemã MAN.
Claro que são muito diferentes dos velhos autocarros duplos que circularam na cidade até primórdios dos anos noventa. Esses venerandos meios de transporte, construídos pela British Leyland e iguais aos seus irmãos londrinos, marcaram gerações que neles se deslocaram por toda a cidade. A carreira, agora suprimida, que mais os popularizou terá sido certamente a do 78, que atravessava a cidade desde o Castelo do Queijo até ao Hospital de S. João. Era fantástico, talvez devido à idade, subir a Avenida da Boavista e percorrer as perpendiculares lá em cima, no andar superior, com uma grande vista panorâmica, nesses autocarros vermelhos, laranjas ou até, em versões mais antigas, verde-escuros, normalmente com publicidade associada. Prática comum era a dos "gunas", ou miúdos de bairro, subirem para a parte de trás do veículo, uma saliência no vidro traseiro, e deixarem-se ir.
Os novos autocarros, com o seu pragmatismo disciplinar alemão, não têm espaço para gunas nem grande paleta de cores. Não sei como são por dentro nem qual o ângulo de vista superior. Mas servem pelo menos para suprir uma memória viva dos transportes da cidade do Porto. Falta-lhes alguma publicidade, para abater no passivo dos STCP, e novas cores, para cumprirem ainda melhor essa função complementar ao transporte de passageiros.

quarta-feira, março 28, 2012

Verdade e consequência


A busca da verdade é das mais antigas aspirações do Homem, seja através da religião, da ciência das letras, da música e das artes, entre outras. Hoje em dia, a maioria fá-lo-à preferencialmente pela tecnologia, apesar dos seus duvidosos limites. Por isso, quaisquer razões que nos levem na sua busca, ou a pensar em como a avistar, serão sempre proveitosas.
No último fim de semana ouvi vários caminhos para a encontrar. É verdade que o evento que motivou esta busca partiu de uma entidade inspiração religiosa, o que nem por isso retira significado, já que para os cristãos a Verdade é dada pela Revelação de Cristo, mesmo que nem sempre seja muito compreensível à mente humana. Mas também ouvi outras vias: a música e as suas inúmeras interpretações (e outras tantas verdades respectivas), a busca jornalística no apuramento dos factos, a verdade revelada pela caridade e conhecimento dos outros, mesmo quando pareçam insignificantes. Ou ainda descoberta a contrario, quando nos deparamos com o relativismo, o fanatismo e uma busca maquiavélica do poder e sua manutenção, o que será sempre uma distorção da Verdade. E as suas faces, a Aletheia dos gregos, ou o desvelar, a Veritas latina, ou a verdade dos factos, concreta, e a Emunah, a verdade pragmática que estabelece a confiança. Por fim, as suas consequências, como o Amor e a Esperança. Nem sempre fáceis de atingir, porque se alguma coisa aprendi foi que a verdade tem várias dimensões, e quando julgamos lá chegar, temos que continuar a busca, como numa escalada a uma montanha; e quando lá chegamos, nem sempre a reconhecemos, ou queremos reconhecê-la.
Para além de tudo, uma excelente oportunidade de ouvir testemunhos que deveriam forçar os que o ouviram a olhar para as suas próprias misérias comodistas, de conhecer personalidades marcantes (e algo desconcertantes nas suas várias facetas) e de reencontrar outras que inspiraram nos primórdios da blogoesfera.

segunda-feira, março 26, 2012

A Champions vai à Luz


O Benfica tem vivido nas últimas semanas uma autêntica montanha-russa no que diz respeito ao jogo jogado. Perda de muitos pontos e a liderança segura no campeonato, passagem aos quartos de final da Liga dos Campeões e à final da Taça da Liga foram as consequências dessa falta de estabilidade competitiva, culminada com um triste e soporífero empate em Olhão. Mas no meio disto tudo, chegou uma notícia honrosa: o Estádio da Luz vai ser o palco da final da Liga dos Campeões em 2014, um evento só reservado aos melhores. Não é a primeira vez que acolhe finais internacionais. Em 1983, quando a final Taça UEFA se jogava a duas mãos, o Benfica empatou com o Anderlecht, perdendo a oportunidade de ganhar o troféu. Em 1992 o Werder Bremen ganhou a Taça das Taças ao Mónaco, no cenário da Catedral. Em 2004, aquela triste final do Campeonato Europeu de Futebol, organizado por nós e que tinha corrido exemplarmente até aí, a essa tarde em que Charisteas silenciou um país (curiosamente a Grécia era treinada por Otto Rehhagel, que também ganhara ali com o Bremen em 1992). Mas antes de tudo isso houve outra final de campeões europeus em solo nacional: em 1967, o Celtic de Glasgow surpreendia e derrotava o Inter de Milão no Estádio Nacional. Os escoceses, que ficaram conhecidos como Lisbon Lions, tiveram a honra de ser a primeira equipa britânica a alcançar o ceptro de campeões europeus de clubes, quando até aí só clubes latinos o tinham conseguido.

Agora, a final da prova mais importante de clubes volta a Portugal. Daqui a dois anos e pouco, centenas ou milhares de milhões de espectadores em todo o Mundo estarão com os olhos virados para a Luz. Uma honra que o grandioso estádio do Benfica, herdeiro directo da Velha Luz, já merecia.

quarta-feira, março 21, 2012

Tesouros inesperados 3

Em (A invenção de) Hugo (Cabret), o último filme de Scorcese, ainda em exibição, também há a busca de tesouros, na forma de uma herança desconhecida que é das poucas coisa que o pai do protagonista, um rapazinho que vive no relógio da Gare Montparnasse, lhe legou. Mas mais do que uma herança, acaba por ser um tesouro perdido, que leva à descoberta de traços de mais uns quantos "tesouros" esquecidos por todos, menos pelo homem que os criou. Sempre pensei que George Meliés tivesse sido sempre um homem reconhecido pelo seu trabalho, mas a verdade é que Hugo, dentro do seu registo algo fantástico, conta a história (verdadeira, no que interessa) da queda e redenção do pioneiro do cinema, que chegou a tornar-se um simples comerciante de brinquedos antes do seu trabalho ser redescoberto e reapreciado, acabando mesmo por lhe valer a Legion d´Honneur.

Os tesouros descobertos são os traços da obra de Meliés (interpretado por um Ben Kingsley igual a Medina Carreira), os seus fabulosos desenhos escondidos e a sua obra cinematográfica redescoberta. Contam-se por dezenas os seus filmes, sobretudo fantásticos ou de terror, e os primeiros efeitos especiais. Mas o mais conhecido, e que dá o ponto de partida para a descoberta do tesouro cinematográfico de Meliés, é mesmo Voyage dans la Lune, esse ícone do primitivo cinema de aventuras e ficção científica que se tornou um ex-líbris do realizador francês. A sua utilização em alguns videoclips prolongou a sua popularidade ao longo das décadas. E ao ver as suas imagens, é impossível deixar de pensar na homenagem que os Smashing Pumpkins e os Queen lhe fizeram.





A propósito dos Queen, outro ponto de ligação: Sacha Baron Cohen, que interpreta o papel do desastrado guarda da estação de Montparnasse, fará de Freddy Mercury num biopic, ao que parece ainda este ano. Seja o que for, deve ser surpreendente.

segunda-feira, março 12, 2012

É preciso que uma ou duas coisas mudem...


...para que tudo fique na mesma (cortesia de Giuseppe Tomasi di Lampedusa).

(Ainda existirá o heliporto no topo?)
 
Athletic renascido

Na Taça UEFA, agora oficialmente Liga Europa (ou euroliga para os amigos), observaram-se alguns resultados interessantes, como a surpreendente vitória do Sporting sobre o novo-rico Manchester City. Mas o jogo mais fantástico, pelo futebol jogado e pelo resultado, terá sido o em casa do vizinho do City: o Manchester United-Athletic de Bilbao. Em Old Trafford, os bascos estiveram a perder e reagiram com três golos, acabando por vencer a partida por 3-2. Com o treinador argentino Marcelo Bielsa, o Athletic parece estar de novo em forma, com uma nova geração de jogadores, sempre bascos (embora alguns de segunda geração, com origens raciais diferentes), comandados pelo gigante Llorente. Pode ainda conseguir um lugar na Liga dos Campeões do próximo ano e vai à final da Copa do Rei (troféu de que chegou a ser o maior detentor, com 23 títulos) para enfrentar o favorito Barcelona. O jogo da segunda mão com a equipa de Alex Ferguson, na "catedral" de San Mamés, promete ser um embate memorável.


sábado, março 10, 2012

Degelo

Depois da derrota em Guimarães, do nulo em Coimbra (este injusto e condicionado) e de mais uma habitual proençada no jogo contra o Porto que pode muito bem ter sido decisivo para o título, o Benfica lá se redimiu e eliminou o Zenit de S. Petersburgo, acabando com a malapata de resultados que tinha começado precisamente sob o frio da cidade dos czares. Os russos, praticando um puro cattenacio, não tinham plano b, e depois de sofrerem o golo de Maxi não souberam minimamente reagir. Na segunda parte nem esboçaram um gesto de ataque, enquanto o Benfica ia desperdiçando ocasiões de golo, até que a fechar a esperança Nelson Oliveira pôs fim ao pouco nervosismo que ainda subsistia. Não houve Medvedev, Bruno Alves ou Gazprom que valessem aos russos. A alegria voltou à Luz, recuperou-se prestígio europeu e ganharam-se mais uns milhões de euros. Para os quartos, Jesus queria uma equipa inglesa, mas como é improvável ficaria contente com o vencedor da contenda Inter-Marselha (o Apoel traz menos emoção e com o Basel já jogámos esta época). Com sorte, chegamos às meias e depois seja o que Deus quiser (desde que se caia de pé).

Medvedev, o presidente cessante da Rússia vendo abismado a sua equipa a levar um banho de bola na Luz. Como se não bastassem os protestos públicos e a saída do cargo...

quarta-feira, março 07, 2012

Les Aventures de Tintin d´après Spielberg





Falei há dias dos filmes do ano passado. Um dos mais aguardados era a adaptação de Tintin ao grande ecrã por Steven Spielberg, e que teve uma nomeação discreta nos últimos Óscares, se excluirmos a rábula de Billy Crystal, disfarçado de Tintin numa cena da sua costumeira apresentação dos filmes.


Já vão uns tempos desde que o vi, mas voltei a recordá-lo a propósito dos filmes do ano passado. O grande projecto de Spielberg de levar ao grande ecrã uma adaptação do herói belga que se visse era um enorme desafio. A ideia já existia há mais de trinta anos, desde que o realizador americano conheceu Hergé, mas com a morte do desenhador belga o projecto ficou na gaveta durante décadas. Até que, depois de árduo trabalho e muito marketing, saltou para as telas.


Convenhamos que não é fácil adaptar BD ao cinema (a maioria das experiências é deplorável), quanto mais uma personagem com a carga mítica de Tintin, tão europeu, por americanos. Entendeu pegar-se em dois álbuns que se completam, O Segredo do Licorne e O Tesouro de Rachkam, o Vermelho (provavelmente os que conseguem aliar menor carga ideológica a maior dose de aventura), e acrescentar O Caranguejo das Tenazes de Ouro. Talvez fosse a abordagem mais correcta, por muito que gostasse de ver O Ceptro de Ottokar adaptado. Misturou-se tudo, criaram-se cenas novas, alterou-se o carácter de algumas personagens e filmou-se em motion-capture, com os actores a gesticular e a falar antes de serem revestidos pela imagem das personagens.

O resultado é satisfatório, confesso. As imagens da primeira parte no filme recriam uma Bruxelas fiel à época pós-Segunda Guerra (e aos álbuns), visível nos pequenos mercados de rua, na arquitectura e nos automóveis. Há ritmo, humor e aventura q.b. Os efeitos especiais são eficazes e a técnica encontrada para não pôr em cena personagens em carne e osso que eventualmente desvirtuassem os originais.


Mas à parte isto, devo dizer que vi mais o dedo de Spielberg que de Hergé. Até assisti a uma sessão dobrada em português e sem recurso a 3-D, para evitar uma visão mais "americanizada". Mas Spielberg, apesar de todos os esforços em contrário (ou não), estava quase sempre lá. Não sei se será propositado ou não. Mas Hergé parece ser o mero e longínquo inspirador das aventuras do filme e das suas personagens, como se tudo o resto fosse uma adaptação livre de um qualquer romance esquecido e jamais reeditado. Estamos a falar de um mundo muito europeu, que partiu de uma inspiração católica e desconfiada do Novo Mundo, e para um americano não será tão fácil de reproduzir. Apesar dos esforços, ainda não é o Tintin dos álbuns, se é que isso é possível. É um Tintin de Spielberg, e provavelmente continuará a ser em próximas sequelas. Hergé ficou nos quadradinhos. O encontro entre a banda desenhada e o cinema é das empresas mais difíceis e constrangedoras da existência humana dos últimos cem anos. Quando alguém o consegue, merece uma coroa de louros. Spielberg esteve lá perto, mas usou uns esboços já existentes para construir uma obra sua. Talvez se aproximasse mais se tivesse utilizado a banda sonora mais fiel às aventuras do repórter belga.




Já houve outras tentativas de levar Tintin ao cinema. Esta adaptação do Caranguejo das Tenazes de Ouro, de 1947, em bonecos de trapo, é a primeira, e provavelmente a mais terna.



quarta-feira, fevereiro 29, 2012

Garzón e a tirania judicial


Baltazar Garzón acabou por ser absolvido da acusação de prevaricação ao reabrir processos contra crimes e abusos do regime franquista enquanto vigorou, até à morte do Caudillo. O Supremo Tribunal de Espanha considerou no entanto que apesar de não ter cometido um crime, não tinha competência para qualificar os actos em questão como Crimes contra a Humanidade, e que a Amnistia de 1977, um dos pilares do actual regime democrático, sanava.

Acaba por ser o desfecho mais feliz. Garzón já tinha ficado inibido de exercer as suas funções de magistrado - o que na prática acaba com a sua carreira - pelo uso de meios ilegais para a ceder a provas, nomeadamente escutas a conversas telefónicas entre arguidos e os seus advogados. Agora, embora na prática não tenha recebido nenhuma condenação, acabou por levar uma reprimenda por criar normas e tipificar crimes onde eles não existem.

Garzón, talvez o juiz mais conhecido da actualidade, cometeu o erro mais fatal dos magistrados: o justicialismo extremo, o querer ir mais além do que podia e devia e sobretudo de legislar onde devia julgar e aplicar as leis. usou meios inaceitáveis e pior, reabriu fissuras ideológicas num país que bem precisa de mais cimento para as fechar. Não pela vontade (legítima) de muitas famílias quererem saber onde foram enterrados os seus mortos, mas por considerar que uma parte de Espanha se podia vingar de outra, mesmo que uma lei de trinta anos, base do actual regime, o impedisse. Determinado, corajoso e incansável, o juiz acabou por ser vítima do seu sucesso e da sua vaidade profissional.

Mas esta última decisão é importante porque prova que afinal os juízes condenaram anteriormente Garzón não por razões ou pressões ideológicas, mas por considerarem que ele realmente prevaricou e usurpou competências. é um bofetada de luva branca nos saudosistas da 2ª república, por norma possuídos por histeria radical, que já bradavam que o franquismo se tinha apoderado da justiça

Não é manifestamente o caso. Um homem poderoso e popular acabou condenado porque usurpou funções que não eram as suas numa área fundamental como é a justiça, mas não por quaisquer razões políticas. Um juiz quis determinar qualificação de normas e criá-las ele próprio. Mas a função legislativa não cabe aos juízes, e sim ao poder legislativo. Quando o poder judicial tenta criar direito que não na jurisprudência, está a violar o princípio da separação dos poderes e consequentemente a instalar a tirania (dos tribunais). Isto é que devia ficar bem claro, por cima de todos os soundbytes gritados nas ruas. Que Garzón não o tenha percebido é que é mais grave, e prova que era realmente a altura de deixar o cargo, por mais competente que tivesse sido no passado.

terça-feira, fevereiro 28, 2012

Óscares 2012

Não, não concordo que não tenha havido qualquer surpresa nos Óscares: todos apostavam em George Clooney para a estátua de melhor actor, mas um quase desconhecido (fora do seu país) francês arrebatou-lha. E alguns espertinhos achavam que Meryl Streep seria ultrapassada. Mas não. Streep, que estava para os Óscares como o Benfica para as finais das competições europeias, conseguiu enfim a sua segunda estátua como melhor actriz, trinta anos depois da primeira. Ficou sanado o escândalo da melhor actriz do cinema moderno ter menos Óscares que Sally Field ou Hillary Swank.
De resto, gostei dos prémios ao velho Christopher Plummer e ao iraniano Uma Separação, ao melhor argumento original para Meia-Noite em Paris (mesmo que Woody Allen tenha, como aliás é tradição, primado pela ausência) e à tentativa de sabotagem cómica de Sacha Baron Cohen, vestido com um misto de Kadhafi e Bin Laden. Que se poderá esperar da sua futura interpretação de Freddy Mercury? E sim, claro que gostei do regresso do meu conhecido Billy Crystal, depois de um período de nojo, embora ache que antigamente ele estava mais inspirado. Desilusão só mesmo no tapete vermelho. Não houve nenhuma revelação feminina, o que transforma a gala deste ano numa desilusão. Mas ainda não vi o resumo da festa nem do desfile, pelo que admito estar a ser injusto e a reconsiderar uma segunda opinião.

segunda-feira, fevereiro 27, 2012

Depois do Carnaval

Chegou a Quaresma. Há que cumprir os quarenta dias de sacrifício, humildade e temperança. O Carnaval que a antecedeu podia ser mais apagado em função da avareza de tolerâncias de ponto verificadas este ano e pela crise da nossa economia. Mas ao que parece houve na mesma corsos, desfiles, máscaras, folias tradicionais e sambas com o fresco de Fevereiro. Acho uma certa piada às tradições semi-pagãs e telúricas que se assinalam por esse país fora, mas aos desfiles de samba não lhes vejo piadinha nenhuma. Uma pena que não tenham ido buscar a inspiração a Veneza em lugar do Rio. De qualquer modo, ainda há quem se esforce por, à falta dos entrudos de outrora, inspirar-se na Serenissima e deixar uma réstia de civilização para ver se pega. Mesmo que não faça escola nem se torne moda entre as massas, a tentativa é sempre bem vinda e o esforço digno de aplauso, para que continue.

sábado, fevereiro 25, 2012

Tesouros inesperados 2

Podem-se encontrar tesouros de grande valor material, ou então outros que não sendo tão comparáveis à caverna de Ali Babá, oferecem uma perspectiva comercial (ou estética, ou museológica) interessante, como os referidos no post anterior. E ainda há os que, a despeito do seu valor em dinheiro, ainda espantam pela sua utilidade, ao fim de anos e anos de protecção.

Houve uma notícia do ano passado que me deixou a sorrir pela perenidade de certos tesouros. Nas profundezas do mar Báltico, entre a Suécia e a Finlândia, uma equipa de mergulhadores descobriu um navio afundado, contendo uma carga de garrafas protegidas por trapos. Desarrolhadas, revelaram um champanhe de primeira ordem, que depois de várias amostras, e por não ser possível identificar o rótulo, se provou ser da Veuve Clicquot. Mais ainda, seriam uma oferta de Luís XV (ou XVI, depende do ano do naufrágio) a Catarina a Grande, da Rússia, o que só aumenta o valor da descoberta. Ao que parece, a temperatura ambiente a escassa luminosidade permitiram que a bebida se conservasse em perfeito estado. Assim, as garrafas com o néctar permaneceram intactas no fundo do Báltico sem que nunca tivessem chegado ao destino. Dificilmente chegarão, porque a carga, pela sua propriedade, deve pertencer a França, a não ser que algum dos habituais multimilionários russos compre alguma garrafa, o que é bem possível.

É verdade que descobrir preciosidades em ouro e pedras preciosas deve ser emocionante. Mas e descobrir uns invólucros com um líquido desconhecido dentro? À primeira ideia não parece ser grandemente divertido. Mas saber-se depois que é um champanhe do século XVIII, da melhor categoria e perfeitamente conservado talvez cause alguma emoção. Fica a dúvida se quereria uma gratificação monetária pela descoberta ou se preferia ficar com algumas garrafas em proveito próprio, que se não fosse um naufrágio naqueles mares tempestuosos, estas primeiras amostras de Veuve Clicquot teriam sido consumidos por boiardos russos e amantes da imperatriz.

sexta-feira, fevereiro 17, 2012

Tesouros inesperados


As histórias de descobertas de tesouros inesperados sempre me interessaram, pelo acaso da Fortuna poder estar ao virar da esquina, pela natureza dos objectos encontrados, e evidentemente, a parte glamourosa na novidade.
O famoso cozinheiro britânico Jamie Oliver encontrou na cave de um antigo banco que estava em obras de restauro para se transformar em restaurante, em Manchester, vários cofres, datados de 1935, com armas, jóias, dinheiro, e, mais importante, cassetes com gravações raras dos Joy Division e da sua metamorfose electrónica, os New Order. A descoberta levanta várias interrogações: a quem pertencem os bens ali guardados? Porque é que nunca os levantaram, quando o edifício mudou de funções? Qual a recompensa que caberá a Oliver? Os New Order farão ideia do material que ali estava? E a pergunta que mais pessoas farão, as cassetes estarão ainda em bom estado, de forma a que ainda se possa ouvir a voz de Ian Curtis em canções inéditas?
Nunca ninguém disse que um cozinheiro não podia ser editor de música.

quarta-feira, fevereiro 15, 2012

Memória e reconhecimento


Os timorenses têm a memória menos curta e são mais gratos do que os portugueses
. E não esquecem quem sempre esteve com eles, muito antes dos massacres de Santa Cruz, quando todos os outros, por desconhecimento ou falta de carácter, deixavam Timor à sua sorte. Quem se lembrar do vergonhoso episódio da delegação oficial portuguesa, na cerimónia da independência de Timor-Leste, que resolveu esquecer-se de convidar o Duque de Bragança, perceberá porquê. Agora essa aindignidade ficou em parte sanada. Graças a Ramos Horta, e não a qualquer autoridade oficial ou titular de um orgão de soberania da "república portuguesa".

sábado, fevereiro 11, 2012

Os gastos da república francesa



Já sabíamos que a Presidência da República de Portugal gastava mais do que a Casa Real de Espanha. Agora, um deputado socialista francês publicou um livro onde denuncia os gastos exorbitantes de Nicolas Sarkozy. Vejam um excerto:

No orçamento do Eliseu contam-se gastos como 120 mil euros por ano para os seguros da frota automóvel, mais 327 mil euros por ano em combustível. E só na semana passada, os cofres públicos terão perdido 26 mil euros para cobrir o envio de uma equipa de médicos à Ucrânia a bordo do avião presidencial para dar apoio a um dos filhos do presidente, Piérre, e trazê-lo de volta a Paris. E a austeridade, não chega ao presidente?, perguntarão os franceses. Há uns tempos, Sarkozy cancelou a festa anual nos jardins do Eliseu, num passo aplaudido pela opinião pública por poupar quase 600 mil euros dos cofres estatais. Mas desengane-se o eleitorado, diz Dosière, que a poupança fica por aí. O presidente de França gasta tanto, diz o socialista, que o Orçamento do Eliseu ultrapassa as despesas anuais da Rainha Isabel II de Inglaterra. Afirmação suficiente para engasgar o menos republicano da República por excelência.


Por trás de todas as mudanças dos últimos duzentos anos, permanecem traços imutáveis da velha França. Ao lado do motto "Liberté, Egalité, Fraternité", aparece sempre um presidente que poderia facilmente dizer L´Etat c´est moi, sobretudo desde De Gaulle. No caso de Sarko, é mais um Napoleão sem génio militar, com mal disfarçadas pretensões gaullistas mas sem a grandeza do general, e com o fausto de Luís XIV mas sem um Colbert.
Todas estas notícias, a serem verdadeiras, são mais uma machadada daquele ridículo mito de que "as monarquias gastam mais dinheiro do que as repúblicas".

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

Homenagem a uma Senhora



Falando ainda de senhoras pertencentes a famílias reais, a história de D. Adelaide de Bragança merece toda a atenção. Ao contrário de Isabel II, nunca reinou, e durante muitos anos nem sequer pôde pisar solo português, já que pertencia ao ramo miguelista banido pela Convenção de Évora Monte. Neta de D. Miguel, D. Adelaide cresceu em Viena e assistiu ao Anchluss. Trabalhou como enfermeira durante a guerra, integrou a resistência ao nazismo com o nome de código "Mafalda" e foi por isso condenada à morte e salva pela intervenção de Oliveira Salazar. Voltou à resistência, e a ser condenada à pena capital, e aí salvou-a a intervenção dos soviéticos, que por pouco não a enviaram para a Sibéria, só a libertando depois de descobrirem que ajudaram resistentes comunistas. Depois de tantas atribulações, conseguiu enfim ir para Portugal, extinta a Lei do Banimento, e instalou-se em Almada. Aí deparou-se com a miséria material da população e criou a Fundação Nun´Álvares Pereira, de apoio aos mais carenciados,em especial crianças e mulheres grávidas, fazendo disso o seu modo de vida, enquanto o marido, o médico holandês Nicolaas Van Uden, participava na criação do Instituto Gulbenkian de ciência.


Esta senhora notável recebeu do Presidente Cavaco Silva a Ordem de Mérito Civil a 31 de Janeiro último, dia em que completava cem anos, perfeitamente lúcida e rodeada de inúmeros familiares e admiradores. Quando tantas condecorações se tornam inúteis e corriqueiras, e vão parar a gente de pouco préstimo, é reconfortante saber que ainda há quem as mereça e seja lembrado, ainda que para isso tenha de chegar ao estado de centenário. Mas sobretudo o que me alegra é saber que há quem tenha tido vidas extraordinárias, passado por grandes tormentos e se tenha dedicado a cuidar dos outros, em especial dos mais carentes, e que esse exemplo e testemunho sejam reconhecidos antes que fosse tarde demais. Dona Adelaide teve uma vida extraordinária e exemplar, de que muito poucos, mesmo na literatura, se podem gabar.


segunda-feira, fevereiro 06, 2012

God Save the Queen



Poucos monarcas reinaram durante tanto tempo. A Rainha Vitória esticou de tal forma o seu reinado - quando a Grã-Bretanha era o maior império à face da Terra - que o tempo em que viveu e as regras sociais cunharam o seu nome. A sua trineta não teve anos tão esplendorosos. Vitória viu o Império crescer, Isabel II viu-o desaparecer e o Reino Unido perder a sua hegemonia, com simbolismo máximo no desastre do Suez. Ainda assim, agarrou ainda muito nova a coroa, com a morte de seu pai Jorge VI, depois de ter assistido à Segunda Guerra bem acima da sua cabeça e de conduzir ambulâncias, sem sair de Londres, devastada pelas bombas. viu, como se disse, o Império cair, mas a sua figura manteve-se como chefe de estado em muitas antigas colónias através da Commonwealth, prova do seu prestígio. Doze primeiros-ministros passaram por ela, começando em Sir Winston Churchill, passando por Eden, MacMillan, Wilson, Thatcher e Blair. Assistiu a todas as mudanças no mundo desde os anos cinquenta. Aguentou a decadência económica e militar britânica, o punk que fazia dela o bombo da festa, o thatcherismo que liquidou boa parte do que restava da Revolução Industrial, e o annus horribilis de 1992, que teria um prolongamento em 1997, com a morte da Princesa Diana. Passou por isso tudo e mantém-se como uma figura reverencial, uma espécie de mãe distante dos britânicos e dos povos da Commonwealth.


Isabel II tornou-se soberana há 60 anos. Faltam apenas três para suplantar a sua mítica antepassada. Mais antigo do que ela só Rama IX, da Tailândia. Durante esses sessenta anos, tem reinado com a dignidade a que está obrigada e a que as circunstâncias a obrigam. A sua figura inspirou mesmo um filme, The Queen, de Stephen Fears, e deu um Óscar de interpretação a Helen Mirren, que na cerimónia em que ganhou o prémio não deixou de a invocar e de a homenagear.
O reinado de Isabel I, um período de ascensão da Inglaterra, ficou conhecido como o período Isabelino. O de Vitória, outra época de apogeu britânico, como se disse, a época vitoriana. Não sei como ficarão conhecidos estes largos anos em que Isabel II reinou. Não foram anos brilhantes para o seu reino, agora chegado às Bodas de Diamante. Mas isso apesar dela, e nunca, nunca , por culpa de quem cumpriu o seu dever de forma irrepreensível. Pudessem os súbditos dizer o mesmo.
God Save the Queen.

domingo, fevereiro 05, 2012

Um "retrocesso" exemplar


A revisão da lei do aborto em Espanha é um dado que merecia mais atenção. Não me lembro de nenhum outro governo ou regime ter revertido uma norma semelhante. Neste caso, mais do que revogar as recentes mudanças de Zapatero (que permitiam, por exemplo, que raparigas de 16 anos abortassem sem autorização dos pais), eliminaram-se as leis do aborto livre e sem fundamento, sendo agora meramente permitido em caso da malformação do feto, perigo de vida para a mãe a violação. Não sei se será a feliz reversão isolada de uma tendência preocupante que parece ter-se tornado moda (ou pior ainda, um novo "direito humano das mulheres"), ou o início de uma nova discussão e de um novo entendimento sobre o aborto. Haja esperança. Em todo o caso, é de louvar a coragem do novo governo espanhol em remar contra a maré de lugares comuns politicamente correctos e propaganda massiva, mesmo que isso não agrade a muitos, como o nosso conhecido Bloco de Esquerda, de que escreverei daqui a dias.
Mais duvidosos foram alguns títulos de jornais, falando de "retrocessos", numa linha editorial de sensacionalismo (ou parcialidade) pouco saudáveis para uma imprensa credível. Mas até se pode desculpar: é que há retrocessos desejáveis, quando os avanços vão na direcção da auto-destruição.

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

Um Manifesto para Portugal

O Manifesto Instaurar a Democracia, Restaurar a Monarquia, lançado precisamente 104 anos depois do infame regicídio que faz parte dos genes da 1ª República, com Gonçalo Ribeiro Telles como primeiro subscritor, está lançado. Podem vê-lo, bem como os principais autores e co-autores e condições de subscrição, aqui.