Reedita-se o duelo de há dois anos com a vizinha Espanha, cuja vitória seria o primeiro passo para a tingir o topo do Mundial. Vantagens deste ano: a equipa parece mais coesa, Crisnaldo mais convicto e mais em forma, o técnico é Paulo Bento, e não carlos Queiroz, e David Villa não joga pela Espanha. Desvantagens: ausência de um verdadeiro ponta de lança português, e as declarações de Platini (que tinha de ser absolutamente imparcial), mostrando as suas preferências por uma final Espanha-Alemanha. Sabe-se que uma tal final, igual à de há dois anos, seria a favorita dos patrocinadores. O francês que preside à UEFA acaba de mostrar que está ao lado deles. Será mais uma dificuldade acrescida para o jogo de hoje, mas no futebol são onze contra onze e no fim nem sempre ganham a Alemanha...ou a Espanha. Esperemos pois que a tenacidade lusa se reflicta nas trombas de Platini e de Casillas. Não seria a primeira vez, aliás, que Portugal derrotaria espanhóis auxiliados por franceses, e superiores em número (se desta vez os turcos da arbitragem entrarem na brincadeira). Nem que os portugueses venceriam em Donetsk: nas suas passagens por esta cidade, Benfica Porto e Sporting levaram sempre de vencida a equipa da casa. Eliminámos a espanha em 2004, em alvalade, e há coisa de ano e meio aplicamos-lhe uma surra de 4-0. Bons prenúncios e motivação extra não faltam, agora é só esconjurar o Fado, o que não é coisa inédita.
quarta-feira, junho 27, 2012
terça-feira, junho 26, 2012
Civil e islamita
Mohamed Morsi é o novo presidente eleito do Egipto. O líder do Partido da Liberdade e da Justiça, braço político da Irmandade Muçulmana, é o primeiro chefe de estado egípcio que não é Faraó (contando com Alexandre, o Grande), Sultão, Rei ou militar. Em contrapartida, é islamita e civil. Defende um governo de ideologia "democrata-islâmica", à imagem da Turquia, mas só o futuro e o controlo dos militares o demonstrarão. Até lá, os revoltosos "laicos" continuarão a manifestar-se, os militares a vigiar o poder (e a mantê-lo agarrado enquanto puderem) e os Coptas a desconfiar e a cerrar fileiras, nesse país-charneira do Islão, vizinho de Israel e da Líbia e guardião do Estreito de Suez.
sexta-feira, junho 22, 2012
Gregos e alemães: uma história que vem de longe
A história entre alemães e gregos já é longa. Começou com as paragens dos cruzados que iam a caminho da Terra Santa, e que por vezes ali chegavam com intenções duvidosas, com expoente máximo na 4ª Cruzada de 1204, em que se deu o saque de Constantinopla, e a agonia lenta do Império Bizantino, até cair perante os otomanos, em 1453. Muito depois, a guerra da independência na primeira metade do Século XIX criou a Grécia moderna. Por razões estratégicas, fazendo recuar os turcos, no que se empenharam ingleses, franceses e russos, mas também ideológicas, porque o romantismo era o grande ideal da época. Com ele vinha o também nacionalismo, de que a restauração do berço da democracia e da filosofia era um dos maiores imperativos. Não tendo tomado parte na contenda, os alemães, expoentes do romantismo, criaram as fundações do estado grego, uma administração mínima, e até lhes cederam um rei, o impopular e inadaptado Otto I, um monarca bávaro que não percebeu o que era o seu novo país não chegaria ao fim do seu reinado.
Gregos e alemães voltariam a encontrar-se na I Guerra mundial, ainda que no "papel", já que as forças helénicas defrontaram os turcos, búlgaros e austro-húngaros, e não directamente os seus aliados germânicos. Mas na II Guerra, e depois de rechaçar as tropas italianas, a Grécia sofreu em pleno a invasão alemã, como plano geo-estratégico de fechar o Mediterrâneo aos aliados. A ocupação teve efeitos nefastos e marcantes, como o desaparecimento total da antiga e numerosa comunidade judaica de Tessalónica e a morte de milhares de gregos. A célebre fotografia da suástica no Parténon é um dos testemunhos mais perturbadores dos anos de ocupação, além de que constituíram um símbolo do esmagamento da democracia (no seu sentido primordial) pela totalitarismo.
Seguiu-se a guerra civil, a democracia instável, o regime dos coronéis, a queda da monarquia e o regresso da democracia, embora muito amparada nas dinastias políticas e no clientelismo, que a entrada na CEE e a chegada dos fundos subsequentes ajudaram a disfarçar.
Agora, os gregos atravessam uma crise financeira, económica e política que os coloca nas primeiras páginas dos jornais. Dada a proeminência e poderio económico da Alemanha, Angela Merkel tornou-se a figura mais detestada na Grécia e os alemães já são alvo de acções de xenofobia e ódio.
Muito embora a culpa da situação a que chegaram caiba em primeiro lugar aos helenos e à sua displicência e corrupção, a dívida do saldo entre as relações greco-gerânicas continua a pertencer mais aos alemães. É isso que os gregos vão tentar cobrar hoje, no jogo contra a Mannschaft, mesmo que os recursos técnicos sejam bem menores. Acredito mais na vitória dos germânicos, que até terão em Gdansk (a antiga Dantzig prussiana) uma falange muito maior a apoiá-los, mas dada a gana da equipa de Fernando Santos nesta altura, a incrível coincidência deste jogo e a oportunidade que proporciona, prefiro não fazer grandes apostas.
PS: evidentemente, muitos, como o Herdeiro de Aécio e o jornal Público, lembraram-se desta famosa "partida" entre filósofos gregos e alemães, uma das mais geniais criações dos Monty Python. Ei-la, na sua versão (mal) traduzida em "luso-brasileiro".
Declaração a Karel Poborsky
Caro Poborsky, gostava muito quando te via jogar, mas desculpa lá, ainda gostei mais de ver a tua "maldição" definitivamente afastada.
quinta-feira, junho 21, 2012
Críticas não são depreciações
Antes eram as críticas a Cristiano Ronaldo, esse "arrogante endeusado" que "na Selecção nunca joga nada". Passou a Holanda e "onde estão os que criticavam Ronaldo", que "deu aos caluniadores uma bofetada de luva branca"? Dos que são visceralmente anti-Cristiano não sei, mas pela minha parte vociferei furiosamente contra o craque do Real Madrid no jogo com a Dinamarca porque me pareceu realmente displicente e negligente, pouco trabalhador e solidário, a léguas do que costuma jogar em Espanha, e isso podia custar caro à equipa. Criticar quando as coisas estão mal não é anti-patriotismo nem coisa parecida: é apontar erros, repreender, espicaçar, até. E parece que o craque português se sentiu espicaçado a sério, porque dois golos, duas bolas no poste e mais um conjunto de jogadas e passes perigosos são próprios de quem acusou o toque. É o velho problema da liberdade de expressão, agora aplicado ao futebol: é muito fácil ser-se tolerante quando as críticas não se aplicam a nós, mas se alguém se lembra de fazer juízos menos abonatórios a algo a que se tem ligações, tem de contar com fúrias desusadas e acusações de ser anti-qualquer coisa. Sim, haverá em Portugal adeptos do "anti-ronaldismo" (como lhe chama Pedro Lomba em artigo recente, considerando que esta é a "melhor selecção de sempre", um exagero oposto ao de Miguel Sousa Tavares, que ele cita, e que se auto classifica como sendo"anti-Selecção"), que normalmente na guerra de craques preferem sempre Messi. Mas não são certamente todos os que o criticaram quando merecia. Ronaldo é um atleta impressionante, tem uma força de vontade e de trabalho e uma capacidade física do outro mundo, e só por grosseiro cinismo se pode não ficar espantado com a quantidade infinda de golos que marca, alguns de execução bem complicada. mas não ha nenhum dogma que o proteja nos maus momentos, até porque reúne boa parte dos defeitos dos futebolistas que ascenderam ao estrelato (a que chegou com grande mérito, diga-se).
Dito isto, haverá outra razão para que Cristiano Ronaldo tivesse jogado como jogou contra a Laranja Mecânica: é que da última vez que os defrontámos, no Mundial de 2006, na célebre "Batalha de Nuremberga",a táctica da trupe dos Países Baixos, treinada por Van Basten, consistia antes de mais em lesionar o madeirense, coisa que até conseguiram. Se António Vieira tivesse assistido ao jogo, o fragor dos seus sermões certamente redrobraria. Seguiu-se uma autêntica refrega, a meio da qual Maniche marcou o único golo do jogo, que acabou com um número recorde de cartões. Ronaldo certamente lembrou-se da forma como o trataram e vingou-se da melhor forma que sabia: com um grande jogo, que só pecou pela vitória escassa perante uns holandeses absolutamente impotentes para o travar.
Agora calhou-nos na rifa a República Checa, nos quartos de final, em vez da Rússia. Tal como em 1996. Mas agora espero resultado diferente. Basta estudar bem aquela equipa e jogar com humildade, com a certeza de que Petr Cech, Milan Baros & Cª não vão facilitar. Gostava muito de ver jogar Karel Poborsky, mas não quero revisitar o pesadelo do seu portentoso chapéu sobre Baía.
domingo, junho 17, 2012
A condicionante grega
"O futuro da Europa joga-se hoje, nas eleições francesas e gregas", diz-se. Francesas? Lá voltamos ao mesmo. Em França, discute-se a segunda ronda das legislativas. À partida, os socialistas e seus aliados conseguirão a maioria, mesmo estando empatados em números com a UMP e aliados, consequência do sistema uninominal vigente e da queda abrupta dos centristas de Bayrou. como tal, a nova Frente Nacional conseguirá um número residual de lugares, e a esquerda radical de Melenchon mais alguns, mesmo com menor percentagem de votos. Curiosidades só mesmo nos casos locais: por exemplo, se LePen ou Segoléne Royal (tramada pelo twiter actual companheira do seu ex-marido e actual presidente) conseguirão ser eleitas.
Na Grécia sim, está muita coisa em jogo. Se o Syriza ganhar, com quem formará governo? E se recusa o plano da UE, como é que vão pagar as contas e os salários? Vendendo as ruínas do Parténon aos chineses? O apoio de Louçã à esquerda radical grega é elucidativo e mostra bem até que ponto o populismo e a demagogia (não por acaso uma palavra grega) podem levar a resultados catastróficos. E parte da opinião pública continua a acreditar na fábula dos pobres gregos esmagados pelos tirânicos alemães, como se as contas falsificadas, o clientelismo e a corrupção não fossem da responsabilidade dos modernos helenos. Assim, mais de dois mil anos depois de terem servido de barragem à invasão persa, moldando provavelmente de maneira radical a História da Europa, os gregos modernos arriscam-se agora a ser os coveiros do Euro e sabe-se lá que mais.
Só que a alternativa é a velha Nova Democracia, o partido que, com ajuda do PASOK, levou a Grécia a este estado de coisas. Seria quase imoral que ganhasse, mas talvez seja o mal menor. A tragédia grega prossegue. Valha-lhes Fernando Santos e Karagounis, que conseguiram o autêntico milagre de levar a sua envelhecida selecção a ultrapassar a fase de grupos à custa de equipas bem melhores. Uma delas, directamente afastada, é a Rússia, que ironicamente pode vir a estender a sua área de influência aos gregos caso estes saiam do euro.
sábado, junho 16, 2012
Pólvora seca
Era daqueles jogos ditos de alt(íssim)o risco. Um Polónia-Rússia, em Varsóvia, no dia em que os russos festejam o nascimento da Federação, é motivo para qualquer pessoa sensata se afastar da capital polaca, a não ser que seja repórter de guerra. Uma marcha com colunas de russos em direcção ao estádio prometia represálias de fanáticos polacos, evocando o retalhamento do seu país, a repressão czarista e o pesado controlo soviético, que obrigou ao estádio de sítio permanente. Mas o empate e a divisão de pontos serenaram os ânimos, a polícia cumpriu o seu papel, e o saldo final acabou em quinze feridos e cinquenta detidos. Muito positivo, diga-se. Qualquer resultado que não causasse mortos nem feridos muito graves seria sempre bom. Os maiores receios não se verificaram, apesar de algumas escaramuças de rua.
Mas se o empate acalmou as hostes (se tivesse ganho alguém, não sei), traria resultados desportivos negativos a curto prazo. A favorita Rússia perdeu com a sofrível Grécia e os checos impuseram uma derrota à Polónia (em Wroclaw, antiga cidade prussiana de Breslau, muito perto aliás da fronteira checa, pelo que estavam muitos milhares de adeptos desse país). O anfitrião e a talentosa selecção da Federação Russa, que tantas desgraças evocavam e que tanto receio causavam pelo choque dos seus adeptos, ficaram fora do torneio. A pólvora seca entre adeptos contagiou os jogadores. Quem diria...
quarta-feira, junho 06, 2012
Pompa, circunstância e popularidade
O Jubileu de Diamante da Rainha Isabel II, comemorando os seus 60 anos de reinado, saldou-se numa colossal manifestação de apreço pela soberana. Ao longo de seis décadas desde que sucedeu a Jorge VI, a Rainha assistiu à queda do Império Britânico, à sucessão vertiginosa de acontecimentos, estadistas, modas, mudanças sociais, até a filmes sobre a sua pessoa. Mesmo em anos difíceis passou incólume sobre tudo. Hoje, a sua popularidade é inquestionável, e a Monarquia é uma instituição sólida e perene, sem a qual os britânicos nem saberiam o que fazer. Nas festividades do Jubileu, recebeu a homenagem da sua família, de artistas pop, e do povo, que acorreu de todas as partes da Commonwealth para a aplaudir, em massivas concentrações de multidão, juntando o marketing mais plastificado à pompa mais majestosa, que incluiu a maior regata dos últimos três séculos. Dificilmente algum outro país faria a mesma vénia a qualquer outro chefe de estado. Certamente que república alguma conseguiria sequer chegar perto.
terça-feira, junho 05, 2012
Alegrias futebolísticas
Acabada a época de futebol (de clubes), depois de enumerar as tristezas, e antes que o tal Euro na Ucrânia-Polónia comece, é justo referir as alegrias que a bola trouxe este ano. Não que as houvesse em grande quantidade, mas é justo recordar algumas coisas.
A mais mediática, e que me deu especial prazer, foi a vitória in extremis do Manchester City no campeonato inglês. Não que eu torça pelos "vizinhos barulhentos" azuis do United, até porque é daqueles clubes com fundos sem fundo, patrocinados por sheiks do petróleo, uma espécie que não faz nada bem ao desporto, pela forma como inflaciona os custos e é nociva para a concorrência. Mas gosto sempre quando há uma quebra de hegemonias - neste caso da equipa de Alex Fergusson - e quando equipas há muito afastadas dos títulos a eles regressam. Os citizens, equipa da maior parte dos habitantes de Manchester e dos irmãos Gallagher, depois do investimento brutal em jogadores nos últimos três anos, conseguiram chegar ao almejado título quando as coisas pareciam ir pelo cano abaixo. Estar a ganhar, em casa, depois sofrer o empate, passar a estar a perder, e nos minutos dos descontos, marcar o golo do empate e no último lance possível, o da vitória, que lhes dava o título maior, é coisa para deixar um estádio inteiro com sérios problemas cardíacos. Tanta emoção nem em 1989, quando ao minuto 89 Michael Thomas marcou o golo que dava ao Arsenal o título que não conseguiam há 18 anos, e no terreno do adversário directo, o Liverpool (o episódio ficou registado em Fever Pitch, de Nick Hornby ). Mas os segundos decisivos, cruéis mas intensos e felicíssimos, devolveram a alegria a um clube que dela estava precisado depois de anos a fio recebendo o desprezo dos vizinhos do United. Irónico que muitos terão festejado intensamente um golo de Aguero, genro de Maradona, que há vinte e tal anos se tornou provavelmente no homem mais odiado pelos ingleses.
Por falar em Maradona, outra das coisas a que achei piada foi a vitória do Nápoles na Copa Itália. O grande clube do sul de Itália não ganhava quaisquer títulos há mais de vinte anos. Aliás, desde a saída do Pibe passou por uma fase de decadência que o levou à segunda divisão e à bancarrota, conseguindo após alguns anos regressar à primeira, depois ás competições europeias (teve a honra de ser eliminado pelo Benfica num jogo memorável na Luz) e finalmente à Liga dos Campeões, onde se impôes este ano, e de onde acabou por ser eliminado algo surpreendentemente pelo Chelsea nos oitavos de final. O clube é agora presidido pelo produtor de cinema Aurelio de Laurentiis, sobrinho do mítico Dino de Laurentiis, goza de boa saúde desportiva e financeira e tem um enorme apoio popular. E conseguiu um feito: bater a Juventus, equipa que estava invicta em todas as competições e que este ano reconquistou o Scudetto, no último jogo possível (que marcou a despedida de Del Piero). com um temível ataque formado por Hamsik, Lavezzi e pelo extraordinário avançado-centro uruguaio Cavani, nem parece tão complicado. Mas era, e permitiu que o clube da decadente Nápoles e do sul empobrecido conseguisse ser o único a bater o mais titulado clube italiano, representante setentrional da indústria rica do Piemonte, propriedade dos Agnelli, quase mais francês que italiano. Diga-se no entanto que o regresso da Vecchia Signora de Turim aos títulos, depois de anos de abalo na penumbra por causa do Calciocaos, também é motivo de alegria para este blogue.
Outra motivo para festejar, embora tenha passado quase despercebido fora do seu país (com pequenas excepções): ao fim de trinta anos a vegetar nas divisões secundárias, o lendário Stade de Reims voltou à primeira divisão francesa. Quem conhecer minimamente a história do desporto-rei saberá que este clube, da capital de Champagne (uma cidade que nem é muito grande, à sombra da sua antiquíssima catedral), que dominou o futebol francês entre os anos quarenta e cinquenta, tinha também uma das equipas mais fortes da Europa nessa época, competindo directamente com o todo-poderoso Real Madrid. Pensa-se até que a Taça dos Campeões europeus foi criada pelo jornal L ´ Equipe propositadamente para que o Reims ganhasse o troféu, que lhe daria a glória no Velho Continente. E a primeira final, em Paris, em 1955, quase que lhe deu a Taça, mas não conseguiu superar o Real Madrid, num fantástico jogo que acabou 4-3 para os merengues. Em 1959, nova final, mesmo adversário, e igual sorte. Entretanto tinha ganho uma Taça Latina, na Luz, frente ao Milan. Ostentava um futebol tecnicista, rendilhado, todo virado para o ataque, onde pontificavam Kopa e Just Fontaine, melhor marcador do Mundial de 1958, com 13 golos, um recorde que permanece imbatível. Depois da sua partida, assistiu-se a um delcínio abrupto e inexorável do clube, que caiu na bancarrota (teve de vender os troféus) e andou pelas divisões regionais, até começar a se recompôr. Esta época, enfim, ao fim de trinta anos, o histórico clube de Champagne regressa ao lugar onde devia estar há muito tempo, onde poderá defrontar Marselha, PSG e Saint-Etienne, que só alcançaram a glória depois de viverem na sombra do Reims.
Outra motivo para festejar, embora tenha passado quase despercebido fora do seu país (com pequenas excepções): ao fim de trinta anos a vegetar nas divisões secundárias, o lendário Stade de Reims voltou à primeira divisão francesa. Quem conhecer minimamente a história do desporto-rei saberá que este clube, da capital de Champagne (uma cidade que nem é muito grande, à sombra da sua antiquíssima catedral), que dominou o futebol francês entre os anos quarenta e cinquenta, tinha também uma das equipas mais fortes da Europa nessa época, competindo directamente com o todo-poderoso Real Madrid. Pensa-se até que a Taça dos Campeões europeus foi criada pelo jornal L ´ Equipe propositadamente para que o Reims ganhasse o troféu, que lhe daria a glória no Velho Continente. E a primeira final, em Paris, em 1955, quase que lhe deu a Taça, mas não conseguiu superar o Real Madrid, num fantástico jogo que acabou 4-3 para os merengues. Em 1959, nova final, mesmo adversário, e igual sorte. Entretanto tinha ganho uma Taça Latina, na Luz, frente ao Milan. Ostentava um futebol tecnicista, rendilhado, todo virado para o ataque, onde pontificavam Kopa e Just Fontaine, melhor marcador do Mundial de 1958, com 13 golos, um recorde que permanece imbatível. Depois da sua partida, assistiu-se a um delcínio abrupto e inexorável do clube, que caiu na bancarrota (teve de vender os troféus) e andou pelas divisões regionais, até começar a se recompôr. Esta época, enfim, ao fim de trinta anos, o histórico clube de Champagne regressa ao lugar onde devia estar há muito tempo, onde poderá defrontar Marselha, PSG e Saint-Etienne, que só alcançaram a glória depois de viverem na sombra do Reims.
quinta-feira, maio 31, 2012
Recordando périplos portugueses
A RTP está a transmitir o programa Mar das Índias, em reposição às segundas-feiras à noite, na 2, como homenagem ao seu mentor, Miguel Portas. Os dois primeiros episódios, respectivamente sobre a costa da África oriental e a Etiópia, já foram transmitidos, faltando os outros dois. Perdi o primeiro mas consegui apanhar o segundo, precisamente o que mais me interessava. É um documentário fascinante no grande estado cristão no interior de África, que conta a aventura portuguesa e dos jesuítas nas supostas terras do Prestes João, e traça um périplo no Norte daquele país, com um Miguel Portas mais novo e muito longe da habitual actividade política. Ainda me lembrava do programa (motivo da minha única troca de palavras com Portas), mas revê-lo permitiu-me ficar com uma ideia mais precisa de uma das zonas do globo que mais gostava de visitar. Infelizmente, os portugueses não têm actualmente tanto interesse no mais antigo estado africano como tiveram os seus antepassados dos séculos XV e XVI (ou os italianos dos anos trinta). Este episódio de Mar das Índias é, para quem o viu, uma excelente forma de conhecer a Etiópia. Como complemento útil aconselha-se também Histórias Etíopes, súmula de descrições, narrativas e desenhos da autoria de Manuel João Ramos, um conhecedor daquelas paragens.
Espanha vs França
O Público resolveu hoje fazer um artigo sobre as "dificuldades" por que passa a monarquia espanhola, realçando que "os jovens não aceitam que o chefe de estado seja hereditário" e que Felipe de Bourbon deve suceder brevemente ao pai sob pena de "Juan Carlos ser o primeiro e o último". Razões? As suspeitas que recaem sobre Urdangarin, marido da Infanta Cristina, a famosa caçada aos elefantes, presumidas despesas da Casa Real (nada que se compare às da república portuguesa) e a relação fria com a Rainha Sofia.
Mas se é assim, recordemos França: nos últimos trinta anos, tiveram um presidente que ordenou que afundassem navios e tinha uma família paralela, outro condenado com pena suspensa por financiamento irregular, outro implicado em casos semelhantes, que se divorciou logo a seguir à eleição, mostrando que o casamento já era de fachada, e outro ainda que se separou da mulher logo depois da derrota desta nas presidenciais de 2007 (outra fachada). Proponho por isso que o jornal Público publique um artigo mostrando a urgência em substituir a república francesa pela monarquia, com os Bourbons a reinar também no Hexágono e a flor de lis a voltar à bandeira. Seria sem dúvida equitativo. Senhores jornalistas, estamos à espera.
PS: um comentário de um leitor sempre atento recorda-me que há um ponto acima que pode induzir em erro. Quando me refiro no texto a "outro que se separou da mulher logo após a derrota desta nas presidenciais de 2007", há que fazer a devida correcção: a senhora em causa, Segoléne Royal, é que se separou do marido, Fraçois Hollande, o agora presidente francês, depois da sua (dela) derrota em 2007.
terça-feira, maio 29, 2012
Sintomas relváticos (e socráticos)
O caso Relvas - Secretas - Público continua a dar que falar. Ao que parece, o ministro não se limitava a receber mails de Jorge Silva Carvalho, aos quais "não respondia". Mas na última semana assistiram-se a alguns episódios sintomáticos - diferentes mas todos com a mesma génese.
A ligação de Miguel Relvas a Silva Carvalho é já de si preocupante. Recorda-nos que as ligações do poder a sectores mais obscuros é quase uma (triste) inevitabilidade, e neste caso há todo uma rede que envolve um coktail explosivo de empresas de comunicação social, maçonarias e serviços secretos. Pior era difícil.
As pressões entre Relvas e o Público mostram-nos que os governos passam, mas a tentativa de controlar a comunicação social permanece. Já tínhamos assistido a um esboço de agência governamental de notícias com Santana. Nos governos de Sócrates, houve "bulliyng" sobre jornais, como o mesmo Público (caso da Universidade Independente), e a tentativa de abocanhar a TVI, entre outros. Agora é isto: novo ataque ao Público, com as pressões a Maria José Oliveira e as ameaças de revelações da vida privada. Na Madeira passam-se coisas ainda piores, e até a Câmara do Porto cede por vezes à tentação de encarar a comunicação social como uma qualquer força de bloqueio. Quando teremos um governo com menos vícios de controleiro?
Outro sintoma: haverá sempre quem defenda os superiores hierárquicos, dependendo do partido em que estiverem? A discussão entre o Estado Sentido e o 31 da Armada revelou algumas fracturas entre apoiantes dos partidos da maioria, ou seja, aqueles que a defendem até à medula, seja quem for a figura em causa, e os que não querem ver as medidas socráticas tornarem-se relváticas. Também no Insurgente houve algumas contribuições com interesse, em claro contraste dos que se apressaram a ver nesta questão uma conspiração "das esquerdas" para tramar Relvas, ou que resolveram fazer passar o Público como um orgão de comunicação socrático, esquecendo-se quem é que tomou a dianteira na investigação do caso da Independente. Como se vê, o vírus dos Abrantes espalha-se por todo o lado onde haja poderes incomodados com necessidade de se proteger a todo o custo. Felizmente, nem todos os que opinam nos blogues ficaram subitamente cegos com uma venda da sua cor política. É por isso que a blogoesfera continua a ser um espaço privilegiado de pluralismo, liberdade, discussão, e já agora, boa escrita, como não há mais nenhum...mesmo que seja parte da causa da crise que a imprensa escrita atravessa nos dias de hoje.
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Imprensa
domingo, maio 27, 2012
Banco Alimentar
Este fim de semana o Banco Alimentar volta ao terreno mais visível, com a campanha bi-anual de recolha de alimentos. Mais do que nunca, toda a ajuda é preciosa. E a avaliar pelos resultados, as pessoas não esquecem. Ainda há muitas horas pela frente para contribuir.
PS: só no Porto recolheram-se mais cinquenta toneladas do que no mesmo mês do ano passado. Os portugueses são solidários, felizmente, apesar de algumas minorias que nada fazem, preferindo dissertar sobre "a necessidade de medidas que vão ao fundo da questão da pobreza em lugar da caridadezinha". Mas enquanto falam para o ar, é a "caridadezinha" que auxilia que mais precisa.
quinta-feira, maio 24, 2012
Tristezas futebolísticas
A época futebolística (de clubes, que ainda falta o Europeu) não acabou da melhor forma segundo os humores de A Ágora. Desde logo, a derrapagem do Benfica desde Fevereiro, fazendo com que o título escorregasse para as mãos de uma equipa treinada por um técnico de regionais. As arbitragens apontadas por dirigentes e jogadores do Benfica ajudam a explicar, mas só por si são redutoras. a incapacidade de Jorge Jesus de gerir e dar ânimo ao plantel quando era mais necessário, as lesões que nos tiraram os quatro centrais de uma só vez, a evidente displicência nas últimas jornadas e a sobrecarga de jogos são razões mais do que suficientes para que um excelente plantel não tivesse ficado com o título. E os protestos dos adeptos são perfeitamente compreensíveis. Jesus passou o prazo de validade, mas infelizmente vai ficar mais um ano, graças à indemnização que lhe seria devida por mercê do contrato facultado por Luís Filipe Vieira, que depois de nove anos de presidência também podia dedicar-se a outras actividades e ceder a cadeira.
Mas as tristezas da bola não se resumiram só ao Benfica. A UEFA decidiu-se entre clubes de Espanha, o Athletic de Bilbao e a agremiação que já foi sua sucursal, o Atlético de Madrid. É claro que aqui se torcia pelos de Bilbao, que além de representarem um clube mítico e único, fizeram uma carreira formidável até à final. Teria sido fantástico ver os bascos comemorarem o seu primeiro título desde 1984 (e o primeiro internacional), à volta do Urbion e do Guggenheim, mas infelizmente Falcao estava numa noite de brilho imparável, o árbitro esqueceu-se de marcar uma grande penalidade a favor dos bascos e até Diego resolveu mostrar logo hoje o talento que na maior parte dos jogos resolve esconder. O Atlético revalidou a taça que tinha ganho há dois anos (então com uma sorte inaudita), e os bravos de Bilbao entraram para a galeria das equipas talentosas a que a Fortuna virou costas quando mais precisavam. O clube e o técnico Marcelo Bielsa mereciam bem mais.
Outros que não tiveram sorte foram os bávaros. Perderam o campeonato e a taça para um Dortmund mais "operário" (ou não fosse uma equipa de região de metalúrgicos), e com justiça. Mas percebia-se que a ambição do Bayern era mesmo ganhar a Liga dos campeões perante o seu público, no belíssimo Allianz Arena. A eliminação do Real Madrid dava-lhes ainda mais favoritismo, e a oportunidade era única, depois da final perdida de há dois anos. Do outro lado, o Chelsea, uma equipa por quem há uns meses ninguém daria nada, mas que desde a saída de André Villas-Boas tem mostrou-se insuperável nos jogos a eliminar. Já tinha ganho a Taça de Inglaterra. Na Liga dos Campeões, deu a volta à derrota com o Nápoles, e como se sabe, venceu com enorme dificuldade e sorte, e alguma ajuda do apito, um Benfica que nunca se mostrou inferior, mesmo em inferioridade numérica. Depois, grande surpresa, a eliminatória impossível com o Barcelona, aproveitando a falta de pontaria dos culés e a boa forma do guarda-redes Cech. Assim chegou à final jogando com a equipa da casa. Fazendo jus à sua cidade, o Chelsea mostrou-se um autêntico autocarro de dois andares, marcou o golo do empate perto do fim, praticamente na única oportunidade que teve, resistiu a uma grande penalidade no prolongamento e ganhou a lotaria dos penaltys, graças a um Cech quase perfeito. Defesa de cattenacio, muita sorte, oportunismo italiano (graças à filosofia de Di Matteo?) e um guarda-redes gigante nas grandes penalidades: eis a receita dos londrinos para ganharem um troféu quando ninguém dava nada por eles. É certo que há ali jogadores com alguma veterania que o mereciam, casos de Drogba e Lampard, ou outros, como o fenomenal David Luiz. Mas para além da raiva que ficou pela forma como eliminaram o Benfica, é sempre penoso ver um clube com uma gestão exemplar e comandado pelas antigas glórias perder frente ao seu público (e em penaltys!) contra outro que só chegou onde chegou por causa das centenas de milhões de euros injectadas pelo seu proprietário, um oligarca russo coleccionador de iates que enriqueceu de forma hiper-duvidosa e que está abaixo de toda a suspeita.
Mas a maior de todas as tristezas não teve a ver directamente com resultados no campo, mas com o desaparecimento de um ex-jogador fenomenal: Rashidi Yekini, o antigo avançado do Vitória de Setúbal. Faz uma certa impressão ver um atleta que era tão posante desaparecer aos 48 anos. Yekini sagrou-se melhor marcador do campeonato nacional em 1994, ano mágico para ele: não só obteve esse troféu pessoal (para o qual contribuíram os golos que marcou ao Benfica numa tarde em que os sadinos venceram por 5-2, embora não tenham impedido a conquista do campeonato no fim dessa época), ajudando à época razoável do Setúbal, bem assistido por Chiquinho Conde, como ainda muito contribuiu para a excelente prestação da Nigéria no Mundial desse ano, nos Estados Unidos. Marcou aliás o primeiro golo da sua selecção num Mundial, comemorando de forma inesquecível. Depois do Vitória, transferiu-se para o Olympiacos, e daí para Espanha e outros países, com um breve regresso a Setúbal, já no declínio da carreira. Deixou a ideia de que passou ao lado de uma melhor carreira em clubes (que não na selecção nigeriana), talvez por ter passado demasiados anos à beira-Sado, e por posteriores escolhas erradas. Falou-se na sua possível ida para o Benfica. Talvez na Luz tivesse alcançado outra visibilidade. Teria sido fantástico ver aquela enorme força da natureza marcar golos de águia ao peito. Ainda assim, deixou-nos boas recordações.
quinta-feira, maio 17, 2012
A sorte de estar no lugar certo
François Hollande tomou posse como presidente da Vª república. O dia não correu assim tão bem, com o adiamento do encontro inicial com Angela Merkel por causa de uma tempestade - nem os céus são clementes com os estadista-mores da "eurozona" - além de que dá sempre a ideia de que se tratou mais de uma acção de vassalagem perante Berlim. O novo chefe de estado francês terá muito por onde provar que não é um mero placebo, nem o candidato "qualquer um menos Sarko".
Por muito que venham com a ideia de que Hollande ganhou por trazer novas ideias, ou para "estilhaçar a política de Angela Merkel", a verdade é que o novo presidente francês chegou ao Eliseu mais por demérito do adversário do que pelas suas (desconhecidas) qualidades de "homem normal". Sarkozy, eleito em 2007 com grande alarido como o homem que ia libertar e transformar a França, acabou por se revelar um estadista frenético, com um mandato ao sabor das conveniências, desejoso de ribalta mas sem verdadeiramente saber lá estar (por vezes com exagero mediático). As suas reformas para criar um "Islão francês", "fora das caves", ficaram-se pela proibição do niqab. Na economia, nada de novo, e a França até perdeu o triplo A. Nas relações sociais, apenas o aumento da idade da reforma em dois anos, e de forma atabalhoada, provocando viva contestação nas ruas (se bem que os franceses, teimosos como mulas, sejam difíceis de convencer nestas questões). O debate sobre a identidade nacional surtiu pouco efeito, parecendo mais uma piscadela de olho ao eleitorado da Frente Nacional, e nem o projectado museu da história de França saiu do papel. No plano internacional, conseguiu alguns trunfos, mas a precipitação no caso da Líbia poderá causar males maiores do que os anteriores, além de quem derrubou Kadhafi, que acolhera a desculpara antes e cujas acusações de patrocínio líbio da campanha da UMP não vieram nada a calhar.
Em suma, Sarkozy não cumpriu o que prometera, construir uma França mais descomplexada, mais arejada, um exemplo para a Europa e para o mundo. Antes provocou diversas crispações, ressuscitou fantasmas, causou polémicas (a criminalização dos que negam o Holocausto e o genocídio arménio é outro mau exemplo). Para mais, a ostentação nova-rica, as viagens para sítios luxuosos, a tentativa de nomeação do filho para um cargo para o qual não reunia competências, o caso célere com Carla Bruni, até o que envolveu o nascimento da filha, caíram mal entre os franceses. Não se podia mais com aquele mediatismo que ainda por cima mostrava à França o que ela menos suportava. Era demais. Vi um documentário com testemunhos de correspondentes estrangeiros em Paris dos mais conhecidos orgãos de imprensa pelo Mundo fora, e todos eles teciam as mesmas críticas ao presidente (embora me parecesse demasiado parcial aquilo aparecer antes das eleições). Os gauleses estavam fartos, e qualquer um que lhes colocassem à frente como alternativa teria francas possibilidades de sair vencedor, desde que não fosse demasiado radical. Strauss-Khan ganharia com uma perna às costas e os olhos vendados, mas caiu na sua própria desgraça. Hollande aproveitou o espaço em branco, afastou Martine Aubry e ganhou. Ou melhor, conseguiu estar no lugar certo quando os franceses precisavam de qualquer um para se verem livres de Sarkozy. Cabe-lhe mostrar que é mais do que um mal menor.
terça-feira, maio 15, 2012
Os sacrifícios da Arte
A busca da perfeição na Arte ou da beleza a todo o custo pode por vezes levar aos maiores sacrifícios. Não raros foram os artistas que pagaram o seu talento e a busca do resultado da sua inspiração com a sua própria liberdade, a saúde física, a rauína económica ou até a vida. O caso do desaparecimento de Bernardo Sasseti, uma queda de uma falésia perto da praia do Abano, parece ser um caso extremo, ainda que involuntário, dessa busca. Ultimamente tinha-se afastado da música, em busca de paz interior, segundo o próprio, e dedicava-se mais à sua outra paixão, a fotografia. Terá sido precisamente quando fotografava, tendo como cenário a fantástica paisagem a norte de Cascais, que se deu o acidente fatal. Desapareceu aos 41 anos um dos mais talentosos músicos portugueses, no desempenho de outra arte que não a música. A memória que retenho dele, para além do casamento com Beatriz Batarda (de quem tinha duas filhas), era a dos recitais de piano com Mário Laginha e Pedro Burmester, e uma aparente introversão, que, garantem os mais próximos, não correspondia à verdade. Fiquei igualmente a saber que teve uma curta aparição no filme O Talentoso Mr Ripley, onde figurava como pianista de jazz numa interpretação de My Funny Valentine, cantado por Matt Damon e acompanhado no saxofone por Jude Law (ver aos segundos 9 e 1.52).
quarta-feira, maio 09, 2012
O ciclo francês
Não percebo, sinceramente, tanta excitação com a eleição de François Hollande. Dir-se-ia que o homem é um Messias descido aos Campos Elísios. Que Obama fosse considerado como tal, ainda vá, agora Hollande...ainda por cima, era uma coisa esperada.
No rescaldo das eleições em dois dos países que me são mais queridos, falei antes da Grécia porque o resultado das suas eleições me parece muito mais decisivo para a Europa do que o das presidenciais francesas. Não é pelo PS francês estar à frente do poder executivo que o rumo da Europa vai fazer uma inflexão extrema, até porque os Euros não abundam. Por cá, houve quem entrasse em pânico e previsse a catástrofe, não sei porquê. E há também quem esteja em êxtase e ache que com Hollande tudo vai mudar, os problemas serão resolvidos e vai chover mel. Mário Soares é um desses, e até acha que o PS deve rasgar o acordo com o memorando do triunvirato. Já teve dias melhores, até a nível psíquico e de memória. Talvez nem se lembre que também ele teve de cumprir acordos semelhantes quando estava à frente do governo
É possível que com os socialistas no poder em França as medidas europeias de combate à dívida pública e crescimento da economia mudem qualquer coisa, mas não se esperem alterações radicais. É impossível que Hollande cumpra as medias populistas que prometeu, como aquela coisa de taxação em 75% dos rendimentos de quem receba mais de um milhão de euros ao ano, ou então, aí sim, ficaria no limiar do desastre. Parece-me que terá de ser mais modesto. De resto, os franceses quiseram acima de tudo livrar-se de Sarkozy, de quem estavam fartos, e votaram na alternativa à mão. Os socialistas já estiveram mais vezes no poder - embora tivessem tido poucos presidentes, é certo - mas só mudaram realmente as políticas vigentes quando tiveram como aliados os comunistas: em 1936, com a Frente Popular de Leon Bloum, e em 1981, com a eleição de Miterrand para o Eliseu (deixaram contudo dois marcos que nunca ninguém se atreveu a mudar: as férias pagas e a abolição da pena de morte). Nas outras, pouco mudou. Este é mais um normal ciclo eleitoral, em que o PS volta ao poder, e que só tem de mais incomum o Presidente no cargo ser derrotado nas urnas. Por isso, observemos calmamente qual será o percurso do futuro presidente Hollande, mas olhe-se como mais atenção - e apreensão - para a Grécia.
PS: e Segolène Royal, a ex-companheira de Hollande, derrotada em 2007 por Sarko, estará a roer-se de inveja?
segunda-feira, maio 07, 2012
Uma tragicomédia grega
Entre eventos eclécticos que propõem arremesso de coktails molotovs na Praça Syntagma, brindes de Ouzo nas esplanadas da Plaka e a contemplação do horizonte no Pireu (com sorte, no cabo Sounion,) à espera de salvação ou prevendo o salto para fora, segura momentaneamente por novo resgate europeu e alguns perdões, a Grécia teve finalmente novas eleições ao fim do desastre dos três últimos anos.
Lucas Papademos, primeiro-ministro cessante da Grécia, tem uma qualidade rara entre os que ocuparam o cargo: é dos poucos que não pertence a um dos clãs familiares políticos do país, que já dominam a vida política helénica há várias décadas, atravessando os vários regimes e mantendo-se sempre à tona. Nesse aspecto (como em vários outros, aliás), a Grécia mais parece um país asiático, o que não deixa de ser irónico, tendo em conta que ali se estabeleceu um dos berços da civilização ocidental e um dos baluartes contra a ameaça dos inimigos vindos de Oriente, talvez uma das maiores razões orgulho dos gregos. Talvez derive da longa ocupação otomana, mas o que é certo é que os gregos actuais pouco herdaram dos seus antepassados a não ser as ruínas, a língua - modernizada - e os nomes. Acima de tudo, é um povo balcânico, cuja herança directa é muito mais bizantina e ortodoxa do que helenística, conservando ainda alguns traços dos odiados turcos. Da verdadeira democracia ateniense, da filosofia da ágora e das ilhas onde o tempo sobejava, do espírito de sacrifício de Esparta, na da sobrou. Até mesmo o empreendedorismo naval, das poucas coisas que tinham em comum com a Grécia clássica, está moribundo, sem Onassis ou Niarchos que lhe valham.
A Grécia é um país à deriva, com taxas altíssimas de desemprego, pobreza crescente e poder de compra em constante quebra, além de enorme crispação social e política e da corrupção endémica. Junte-se a isso tudo um clientelismo monstruoso e poderosas instituições que, ao invés de cimentarem e servirem de exemplo à sociedade, constituem um pesadíssimo lastro, como as forças armadas, jogando com a ameaça turca e a divisão de Chipre, a Igreja Ortodoxa, força moral do país desde a independência mas que continua a não pagar impostos e a ser a maior proprietária do país, e os sindicatos, meros grupos subsidiados pelo estado. Mas pelo menos alguma coisa vai mudar com estas eleições: as tradicionais famílias políticas vão por agora ser afastadas. Pode-se falar de autênticas dinastias que dominam os partidos e os governos atravessando transversalmente os regimes. São os Papandreou, que deram três primeiros-ministros nos últimos sessenta anos (George, no regime antes da ditadura, Andreas, fundador do PASOK e figura maior do actual regime, antes e depois da ditadura, e o seu filho George, que chefiou o governo até há poucos meses), os Karamanlis (Konstantinos, várias vezes primeiro-ministro, em dois regimes diferentes, presidente da Grécia nos anos oitenta e fundador da Nova Democracia, e o seu sobrinho, Kostas, que chefiou o governo da ND até 2009, responsável maior do descalabro financeiro do país), e os Mitsotakis (Konstantinos, primeiro-ministro e líder da ND, a sua filha, antiga presidente da câmara de Atenas e ministra, e que por sua vez são descendentes de Eleftherios Venizelos, talvez o mais proeminente político grego do século XX, que chefiou o governo noas anos trinta, inspirou várias correntes partidárias até hoje e deu até o seu nome ao aeroporto de Atenas). Os partidos tradicionais livraram-se por ora deles. A Nova Democracia é liderada por Antonis Samaras e o PASOK pelo mastodôntico Evangelos Venizelos (que ao contrário do que disseram alguns comentadores portugueses, nada tem a ver com Elephterios Venizelos). Uma das muitas reformas imperativas (e refrescantes) do país é precisamente o afastamento destas corporações familiares, autênticas fontes de clientelismo e nepotismo em larga escala.
(Karamanlis e Papandreou: uma história de gerações)
Com as eleições de Domingo, o cenário partidário grego estilhaçou-se com a queda abrupta do PASOK e o bisonho resultado da ND. O SYRIZA - Bloco de Esquerda do sítio, a quem Louçã deu apoio directo - ganhou o segundo lugar e pode formar governo, por mais impensável que isso possa ser. Ou então, poderá até ser de novo o PASOK, com os seus 13%, a fazê-lo, já que a ND assumiu a sua incapacidade em formar um executivo nacional. A esquerda mais moderada e a direita saída da ND exigem condições impossíveis de cumprir. Os comunistas do KKE, que sonham com uma Revolução de Outubro transposta para a Grécia de 2012, e os skins descaradamente admiradores de Hitler do Aurora Dourada nem foram tidos em conta (pudera). O cenário é caótico, e admitem-se novas eleições no próximo mês, se não houver governo. Já aconteceu, em 1989, mas desta vez, dada a terrível situação económica e social do país e a ausência de verdadeiras reformas, a dispersão de votos e a ascensão de extremistas e radicais prometem tempos complicados para a Grécia, o Euro e a União Europeia. qualquer novo governo terá um trabalho hercúleo pela frente, no saneamento financeiro, reajustamento administrativo, recuperação da economia e resistência às corporações e corrupção que minam a sociedade helénica. Em todo o caso, a saída de cena dessas dinastias políticas "asiáticas" não resolve muito, mas bem pode ser um começo para algo novo.
sábado, maio 05, 2012
Trincheiras ideológicas que as promoções escavam
Certos factos da sociedade portuguesa tornam-se objecto de combate ideológico curioso e acirrado, propositadamente ou não. O acontecimento mais discutido da semana, a promoção do Pingo Doce de Dia 1 de Maio, tornou-se uma autêntica trincheira de discussões politicas, sociais e económicas. O Insurgente (que alcançou máximos de visitas) e restantes blogues liberais aplaudem ruidosamente a "generosidade" de Soares dos Santos para com os desvalidos e lançam hurras à menor participação das festividades sindicalistas do dia em questão. À esquerda, acusa-se o Pingo Doce de tudo e meia alguma coisa, de concorrência desleal a pressões sobre os trabalhadores. Curiosamente, na esquerda mais lunática encontramos alguns pontos em comum com a direita libertária. Verbera os capitalistas, claro, como é seu dever ideológico, mas compreende o pobre povo que passa fome e que aproveita a oferta...
Muito francamente, não fiquei muito sensibilizado com a piedade miserabilista pelos desvalidos. Não que não haja gente que legitimamente quis adquirir bens prioritários a mais baixo custo. Mas alguém acha que pessoas que gastam logo centenas de euros estejam assim em tão má situação económica? que compras de enormes valores sejam apenas de bens de primeira necessidade? Como se explica que pessoas de poucas posses tenham rapidamente desencantado dinheiro para gastos imensos? E aqueles que passam mesmo dificuldades e que não tinham cem euros para gastar, ou que não tiveram oportunidade de se servir por causa das torrentes de multidão? Baseio-me não apenas em juízos de valor, mas em situações que me foram contadas. Pior ainda, é a volúpia das compras, as cenas indignas de estalo, ameaças, autênticos (e literais) casos de polícia que se verificaram em vários supermercados. Fala-se agora em concorrência desleal, dumping, enganos aos fornecedores, ameaças aos trabalhadores da cadeia (também há quem fale em benesses a estes, como três dias de folga, mas na realidade é apenas mais, como estipula a Lei, e uma semana com alguns descontos especiais: nem oito nem oitenta), em "afronta ao Dia do Trabalhador". Desconheço se houve irregularidades, embora tal seja provável. O que choca é mesmo a imagem do que o pior do consumismo desenfreado nos trouxe: gente a atirar-se às prateleiras como se não houvesse amanhã, lutas com naifas por desodorizantes, filas de sete horas, pessoas a garantir que "nunca mais se metiam noutra", congelados a descongelar-se...isto é a tão propalada liberdade económica, os mercados a funcionarem por si, a milagrosa auto-regulação? Então é mais uma razão para que existam mesmo regras que nos poupem a comportamentos tão abjectos, por muito que isso horrorize os liberais/libertários. E que relembrem que liberdade implica responsabilidade, o que a distingue da pura anarquia. Acham mesmo que houve "caridade" do Pingo Doce? Mas será essa a função dos retalhistas? E a Caridade, como sempre me ensinaram, não implica respeito pelo próximo? Leiam a esse propósito o excelente artigo de Pacheco Pereira de ontem no Público. Distribui as críticas e os elogios de forma equitativa e certeira. Sempre se aprende alguma coisa nesta sociedadezinha ultra-materialista e sectária.
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quinta-feira, maio 03, 2012
O regresso da Sétima Legião (no Porto)
Emotivo regresso da Sétima Legião aos grandes palcos, na Casa da Música, no Domingo. É verdade que os seus elementos ocasionalmente dão uns concertos para os amigos no Frágil, no Bairro Alto, mas aí não se pode falar propriamente em "palcos". Com o pretexto dos trinta anos para voltar à "estrada", desejo há muito alimentado por Rodrigo Leão (o membro da banda que mais sucesso obteve fora dela, a solo ou nos Madredeus), o grupo pop-rock-folk-mistico-nacionalista que tanta sensação causou nos anos oitenta/noventa levou uma data de gente, onde se inclui o autor destas linhas, a recebê-los na cidade onde, segundo reza a lenda, ouviram os primeiros aplausos de carreira, muito embora sejam lisboetas até à medula. Passaram hinos como Noutro Lugar, Sete Mares, Por Quem não Esqueci, e lá mais para o fim, a primeva Glória, escrita por Miguel Esteves Cardoso, quanto o autor das letras ainda não era o actual chefe de gabinete de Passos Coelho. O público pouco se aguentou nas cadeiras almofadadas e aplaudiu longamente, de tal forma que obrigou a banda a um segundo encore, com direito a repetição de algumas músicas, que fechou da melhor forma um concerto que começou algo tímido mas cujo tom aumentou a pouco e pouco.
Pedro Oliveira mantém a sua voz grave (melhor ao vivo do que pensava), Paulo Abelho continua a saltitar pelo palco com instrumentos de percussão, Rodrigo Leão é canhoto e Francisco Ribeiro de Menezes toca umas teclas, e os músicos por vezes trocavam instrumentos entre si. O ecletismo dos sons, uma das imagens de marca da Sétima Legião, mostrou-se de forma vincada, com a entrada de um grupo de gaiteiros e de bombos, juntando-se às guitarras eléctricas, bateria, sintetizadores, outros gaitas de foles, acordeões e adufes. Faltaram as versões de músicas de Zeca Afonso, que teriam ligado bem com tais instrumentos, e também as amostras da fase "electrónica" do grupo, presente no último disco de originais. Seriam mais umas cerejas no topo, mas o bolo já estava bem assim. O grupo estava realmente animado, talvez por contágio do público que o obrigou a regressar ao palco. Parece que já anunciaram novo regresso ao Porto, lá para o fim do ano, significando que a coisa pegou mesmo. Mas a Casa da Música, muito embora não seja talhada para concertos mais "mexidos", proporcionou as condições acústicas ideais para se desfrutar de toda a panóplia sónica dos "sete rapazes da Avenida de Roma", como lhes chamava Rui Reininho (eu contei nove). A volta da Sétima Legião aos grandes palcos nacionais é das boas notícias musicais do ano.
(Foto retirada do Facebook, os autores que me desculpem)
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