E a propósito do recente trabalho de Miguel Araújo (Jorge), o próprio vai estar esta tarde nos jardins do Passeio Alegre a dar música aos transeuntes e a todos os que se disponham a lá ir, em mais uma sessão do Porto Sunday Sessions, que já vai na terceira sessão e que funcionará até ao fim do Verão. Tardes de Domingo passadas em jardins portuenses, com um DJ diferente em cada semana, colocando música mais alegre ou mais relaxante. Este mês as sessões funcionarão no Passeio Alegre, passando para o jardim de S. Lázaro em Agosto e para o Parque da Cidade em Setembro. À excepção deste último espaço, a música será emitida dos coretos dos respectivos jardins, verdadeiros pontos de referência, tal como acontecia outrora, quando era trivial as famílias dirigirem-se aos jardins públicos para ouvirem as bandas tocarem nesses grandes quiosques musicais. Os coretos voltam agora à sua função original, de espaços musicais, se bem que de forma ligeiramente alterada. Como diria o Príncipe de Salina, "é preciso que mude uma ou duas coisas para que tudo permaneça igual"
domingo, julho 15, 2012
sábado, julho 14, 2012
Novas músicas portuguesas
A música portuguesa continua a demonstrar uma saudável avalanche criativa e a oferecer-nos também pequenas pérolas visuais. Exemplos recentes:
Os Capitães da Areia, espalhando ao redor o seu Verão Eterno, trazem-nos agora As Raparigas da Minha (sua?) Idade, num ritmo de electro-roque quase em looping, provocador e dançável.
Os Salto prosseguem no seu caminho para o estrelato e laçaram o single Deixar Cair, também numa toada entre a electrónica e o roque (riffs bem destacados), com um video irresistível composto por umas dezenas de personagens sub-30.
Uma das músicas mais tocadas nas rádios nacionais nos últimos meses, Os Maridos das Outras. Num intervalo entre dois discos dos Azeitonas, do qual é compositor e co-vocalista, Miguel Araújo Jorge subtraiu o último nome, ficando simplesmente Miguel Araújo (depois de usar o pseudónimo "Mendes" nos duetos com João Só), e lançou o disco Cinco Dias e Meio. As músicas revelam letras irónicas e agridoces, entre a observação da pequena vida contemporânea urbana e uma certa nostalgia de tempos dos fins da infância, que será familiar a muita gente que ande entre os trinta e os trinta e cinco. Fica aqui o video, que perde em qualidade o que ganha em genuinidade, de Os Maridos das Outras em versão ukelele.
quarta-feira, julho 11, 2012
Elvas Património da Humanidade
Já vai com uns dias de atraso, mas não podia deixar de saudar a classificação como Património da Humanidade das fortificações de Elvas, uma das mais encantadoras cidades portuguesas.
A UNESCO classificou o conjunto das muralhas da cidade, o forte de Santa Luzia, setecentista, o forte da Graça, saído do génio militar do Conde de Lippe (um grande "cabo de guerra" do Séc. XVIII que reorganizou o exército em tempos do Marquês de Pombal), o centro histórico da cidade (o que pressupõe a Sé, julgo eu), o soberbo e imponente Aqueduto da Amoreira, e ainda alguns fortins adjacentes. Ou seja, todo o conjunto abaluartado e algumas construções não estritamente militares. Um enorme, precioso e belíssimo testemunho da arquitectura militar e não só, que apesar das inúmeras guerras com estremenhos, castelhanos e franceses, chegou aos nossos dias intacto. Tudo graças aos elvenses, que souberam conservar a sua cidade e merecem bem este reconhecimento da UNESCO.
PS: logicamente, há que dar o mérito a quem o merece, em especial aos representantes portugueses na UNESCO.
segunda-feira, julho 09, 2012
Ler os outros e ouvir outras Vozes
Há para aí muitas remissões em muitos blogues com o simples título "ler os outros". Pois aqui vai uma. Um texto essencial de Tiago Cavaco (em tempos conhecido nos meios musicais por Guillul), no seu eterno Voz do Deserto, que exprime aquilo que muitas vezes não se diz, ou por temor reverencial de críticas situacionistas, ou porque realmente não se pensa no assunto. A ler, reflectir, discutir.
Há pessoas que, como eu, não vêm o aborto como um mal necessário mas como simplesmente um mal. Para nós o facto do aborto ser hoje um direito civil não derreteu a ideia que dele temos como uma coisa terrível. (...) Suspeito que parte das pessoas que foram contra o aborto sente-se aliviada que a sua posição tenha perdido. Porque a tarefa difícil que é defender convicções na praça pública parece no momento da derrota desnecessária. E todos os que nos envolvemos nesse debate sabemos que custa divergir de pessoas que respeitamos e amamos. Alguns saem meio traumatizados com discussões que tiveram com amigos achando que àquele lugar não querem mais voltar. Mas deixar de lutar por ideias pelo facto de que os nossos amigos que não as têm ficam escandalizados connosco parece-me um modo triste de revelar que essas ideias não são assim tão importantes para nós. As convicções vêem-se no que nos custam junto dos que nos são próximos mas distantes delas (...).
Os nossos adversários não devem admirar-se que queiramos reverter a Lei do Aborto. Isso não é aos nossos ouvidos uma acusação mas um elogio. Um sinal que estamos firmes no que dissemos no Passado. Do mesmo modo como lhes reconhecemos a vitória legítima no Referendo que ganharam, devem oferecer-nos a mesma legitimidade se fizermos que os mesmos cidadãos mudem de opinião. Democracia também é isto.
(Voz do Deserto, 06/07/2012)
domingo, julho 08, 2012
A miséria académica
O caso Miguel Relvas - mais um, depois das dispensas de Pedro Rosa Mendes, das pressões sobre o Público e dos contactos que afinal eram mais do que um, com Jorge Silva Carvalho - que tantas parecenças tem com os de Sócrates e outros elementos da política nacional obriga inevitavelmente a olhar para o nosso sistema académico e para o ensino universitário privado. O facto em si já é grave, e devia, por acumulação, levar à demissão de Relvas, o perfeito fura-vidas da política, que está em toda a parte sem se saber bem como. Mas como o "licenciado" tem igualmente o controlo do aparelho partidário do PSD, é mais inamovível do que uma lapa.
A tal licenciatura em não-se-sabe-bem-o-quê de Relvas deve, espera-se, ser ser a gota de água neste tipo de procedimentos, depois do famosíssimo caso da licenciatura de José Sócrates num Domingo, da de Armando Vara, e das de várias figuras da política portuguesa, ávidas de adquirirem um "canudo" que lhes dê o tratamento de "doutor" ou "engenheiro". A tampa soltou-se, e será doravante impossível que as coisas fiquem na mesma, tal o brado que têm provocado. O ensino privado tal como existe em Portugal passa por horas de amargura. Já tivemos a tristemente célebre Universidade Moderna, pertença da maçonaria da Casa do Sino, a sua publicidade maciça e os inúmeros atritos em que esteve envolvida; a Universidade Independente e as suas licenciaturas a pedido; e temos agora os estilhaços da antiga Universidade Livre, sobretudo a Lusófona, que distribui diplomas consoante o "currículo". Definitivamente, fora do ensino público e concordatário (Católica), poucas são as privadas que se destaquem pela positiva. Mal na fotografia ficam também as instituições às quais cabem a supervisão destes centros de "ensino", que mais não são do que empresas que vendem cursos com alguma aparência de mérito. Depois dos tristes exemplo do Banco de Portugal sob essa ilusão chamada Vítor Constâncio, e da Autoridade para a Concorrência, temos agora as universidades privadas com rédea solta, onde o estudo, o mérito e o conhecimento são pormenores secundários face à posição e meios de certos alunos. Tudo isto numa altura em que licenciados, pós-graduados, mestres e doutorados em universidades a sério, a tal "geração mais qualificada de sempre", se vêem sem trabalho e muitas vezes emigram para onde o haja e onde os seus conhecimentos são aproveitados. É compreensível que se revoltem, ao lado destas nulidades que trepam na vida com cursos adquiridos a trouxe-mouxe.
Mas há outros aspecto que sobressai deste levantar do tapete do mundo das privadas e dos que nelas tiram cursos ao minuto: o de que a classe política, de há uns anos para cá, tem uma preparação medíocre, consequência de terem vindo dos partidos e respectivas juventudes e não terem carreira profissional ou académica minimamente relevantes. Repare-se: Mário Soares, ainda que sem notas brilhantes, tem duas licenciaturas. Cavaco Silva, Freitas do Amaral, Adriano Moreira, e o desaparecido Mota Pinto eram docentes respeitados nas suas áreas, com currículos assinaláveis nas suas universidades. Guterres formou-se em engenharia com nota 19. Durão Barroso ficou a meio do Doutoramento em Georgetown. Santana Lopes formou-se na Faculdade de Direito de Lisboa e esteve como bolseiro na Alemanha. Depois, de súbito, chega-se à fissura, a partir de Sócrates e do citado curso da Independente, passando por Passos Coelho e António José Seguro, com cursos tirados rapidamente e já com trinta e tais (as respectivas juventudes era impeditivas de maior aplicação ao estudo), e chegando aos casos extremos como Relvas. Olhemos para os líderes dos principais partidos: Francisco Louçã é catedrático do ISEG, em economia; Paulo Portas é licenciado em Direito, pela Católica; Jerónimo de Sousa não tem estudos universitários e não o esconde de ninguém (no PC até é bem visto, faz parte do sector "operário"). E se formos mais além, ainda descobrimos Garcia Pereira, doutorado em Direito do Trabalho. Passos e Seguro, líderes dos partidos do poder, são o que se vê, e representam bem a miséria académica que grassa no centrão, de onde emanam políticos sem currículo além da vida partidária, e sem instrução, estudos ou obra relevantes ou sentido de serviço público.
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quinta-feira, julho 05, 2012
Pininfarina
Sergio Pininfarina (1926 - 2012)
Desapareceu o grande arquitecto do design automóvel dos últimos cinquenta anos.
(Pronto, o primeiro não é da autoria de Sergio, embora seja obra da Pininfarina, mas não resisti...)
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terça-feira, julho 03, 2012
E para encerrar o Europeu
Ficam aqui duas máximas lidas por estes dias, que bem merecem ser recordadas:
"Interceptar os passes de Pirlo é como roubar a Mona Lisa do Louvre", da autoria de um jornalista anglo-saxónico.
"La Furia virou La Roja, e agora está virando La Siesta", lido num fórum brasileiro.
O Tiki-Takennacio há de acabar
Não conseguimos levar a Espanha de vencida nas meias finais, apesar da excelente disposição táctica de Paulo Bento, e tivemos agora de ver a equipa de Del Bosque ganhar novo caneco europeu depois de dar 4-0 à Itália. Depois da desilusão de ver a equipa nacional falhar o acesso à final, nova desilusão. Jamais pensei que os transalpinos perdessem por tanto, depois de uma primorosa meia-final (também já é hábito vencerem os alemães), e quando até tinham empatado no primeiro jogo com os adversários de ontem. Uma equipa com Pirlo e Buffon nunca deveria perder por quatro. E sobretudo, causa-me espécie esta equipa de Espanha ter ganho três títulos consecutivos, o último com uma goleada final, e ser apelidade agora de "melhor equipa de todos os tempos", e outros disparates parecidos. Ainda por cima, o resultado de ontem é enganador: embora a Itália parecesse estar fisicamente em baixo, viu dois jogadores lesionarem-se, um deles quando já não podiam fazer substituições e com meia hora para jogar. O título caiu no regaço da Espanha com uma facilidade inaudita. Poderiam ficar na fase de grupos caso dois penaltys fossem assinalados a favor da Croácia; podiam perder com Portugal, se Ronaldo tivesse sido mais clarividente e os penaltys pendessem para o outro lado; e como teria terminado o jogo de ontem se os lesionados fossem espanhóis? Impossível adivinhar, mas dizer que esta selecção formada por Aragonês e Del Bosque (técnico com quem até simpatizo e que o Real Madrid, num dia de delírio, substituiu por Carlos Queiroz) é a melhor da história é brincar com o desporto-rei. Bem melhores eram a Hungria de 1954, ou a Holanda de 1974, entre outras, e nem venceram. Ganhariam de caras à Espanha actual, mas nem sempre os vencedores são os mais virtuosos. Infelizmente, o infame Tiki-Taka, ou Tiki-Takanaccio, como brilhantemente lhe chamou o New York times, não só não morreu como deu a ilusão de ser imbatível. Sonho com o momento em que será abatido, e pelas amostras (até a Wikipédia em inglês o demonstra), pode muito bem ser Portugal, caso tenha a oportunidade, a cravar-lhe o golpe fatal.
quarta-feira, junho 27, 2012
A eterna refrega com os vizinhos
Reedita-se o duelo de há dois anos com a vizinha Espanha, cuja vitória seria o primeiro passo para a tingir o topo do Mundial. Vantagens deste ano: a equipa parece mais coesa, Crisnaldo mais convicto e mais em forma, o técnico é Paulo Bento, e não carlos Queiroz, e David Villa não joga pela Espanha. Desvantagens: ausência de um verdadeiro ponta de lança português, e as declarações de Platini (que tinha de ser absolutamente imparcial), mostrando as suas preferências por uma final Espanha-Alemanha. Sabe-se que uma tal final, igual à de há dois anos, seria a favorita dos patrocinadores. O francês que preside à UEFA acaba de mostrar que está ao lado deles. Será mais uma dificuldade acrescida para o jogo de hoje, mas no futebol são onze contra onze e no fim nem sempre ganham a Alemanha...ou a Espanha. Esperemos pois que a tenacidade lusa se reflicta nas trombas de Platini e de Casillas. Não seria a primeira vez, aliás, que Portugal derrotaria espanhóis auxiliados por franceses, e superiores em número (se desta vez os turcos da arbitragem entrarem na brincadeira). Nem que os portugueses venceriam em Donetsk: nas suas passagens por esta cidade, Benfica Porto e Sporting levaram sempre de vencida a equipa da casa. Eliminámos a espanha em 2004, em alvalade, e há coisa de ano e meio aplicamos-lhe uma surra de 4-0. Bons prenúncios e motivação extra não faltam, agora é só esconjurar o Fado, o que não é coisa inédita.
terça-feira, junho 26, 2012
Civil e islamita
Mohamed Morsi é o novo presidente eleito do Egipto. O líder do Partido da Liberdade e da Justiça, braço político da Irmandade Muçulmana, é o primeiro chefe de estado egípcio que não é Faraó (contando com Alexandre, o Grande), Sultão, Rei ou militar. Em contrapartida, é islamita e civil. Defende um governo de ideologia "democrata-islâmica", à imagem da Turquia, mas só o futuro e o controlo dos militares o demonstrarão. Até lá, os revoltosos "laicos" continuarão a manifestar-se, os militares a vigiar o poder (e a mantê-lo agarrado enquanto puderem) e os Coptas a desconfiar e a cerrar fileiras, nesse país-charneira do Islão, vizinho de Israel e da Líbia e guardião do Estreito de Suez.
sexta-feira, junho 22, 2012
Gregos e alemães: uma história que vem de longe
A história entre alemães e gregos já é longa. Começou com as paragens dos cruzados que iam a caminho da Terra Santa, e que por vezes ali chegavam com intenções duvidosas, com expoente máximo na 4ª Cruzada de 1204, em que se deu o saque de Constantinopla, e a agonia lenta do Império Bizantino, até cair perante os otomanos, em 1453. Muito depois, a guerra da independência na primeira metade do Século XIX criou a Grécia moderna. Por razões estratégicas, fazendo recuar os turcos, no que se empenharam ingleses, franceses e russos, mas também ideológicas, porque o romantismo era o grande ideal da época. Com ele vinha o também nacionalismo, de que a restauração do berço da democracia e da filosofia era um dos maiores imperativos. Não tendo tomado parte na contenda, os alemães, expoentes do romantismo, criaram as fundações do estado grego, uma administração mínima, e até lhes cederam um rei, o impopular e inadaptado Otto I, um monarca bávaro que não percebeu o que era o seu novo país não chegaria ao fim do seu reinado.
Gregos e alemães voltariam a encontrar-se na I Guerra mundial, ainda que no "papel", já que as forças helénicas defrontaram os turcos, búlgaros e austro-húngaros, e não directamente os seus aliados germânicos. Mas na II Guerra, e depois de rechaçar as tropas italianas, a Grécia sofreu em pleno a invasão alemã, como plano geo-estratégico de fechar o Mediterrâneo aos aliados. A ocupação teve efeitos nefastos e marcantes, como o desaparecimento total da antiga e numerosa comunidade judaica de Tessalónica e a morte de milhares de gregos. A célebre fotografia da suástica no Parténon é um dos testemunhos mais perturbadores dos anos de ocupação, além de que constituíram um símbolo do esmagamento da democracia (no seu sentido primordial) pela totalitarismo.
Seguiu-se a guerra civil, a democracia instável, o regime dos coronéis, a queda da monarquia e o regresso da democracia, embora muito amparada nas dinastias políticas e no clientelismo, que a entrada na CEE e a chegada dos fundos subsequentes ajudaram a disfarçar.
Agora, os gregos atravessam uma crise financeira, económica e política que os coloca nas primeiras páginas dos jornais. Dada a proeminência e poderio económico da Alemanha, Angela Merkel tornou-se a figura mais detestada na Grécia e os alemães já são alvo de acções de xenofobia e ódio.
Muito embora a culpa da situação a que chegaram caiba em primeiro lugar aos helenos e à sua displicência e corrupção, a dívida do saldo entre as relações greco-gerânicas continua a pertencer mais aos alemães. É isso que os gregos vão tentar cobrar hoje, no jogo contra a Mannschaft, mesmo que os recursos técnicos sejam bem menores. Acredito mais na vitória dos germânicos, que até terão em Gdansk (a antiga Dantzig prussiana) uma falange muito maior a apoiá-los, mas dada a gana da equipa de Fernando Santos nesta altura, a incrível coincidência deste jogo e a oportunidade que proporciona, prefiro não fazer grandes apostas.
PS: evidentemente, muitos, como o Herdeiro de Aécio e o jornal Público, lembraram-se desta famosa "partida" entre filósofos gregos e alemães, uma das mais geniais criações dos Monty Python. Ei-la, na sua versão (mal) traduzida em "luso-brasileiro".
Declaração a Karel Poborsky
Caro Poborsky, gostava muito quando te via jogar, mas desculpa lá, ainda gostei mais de ver a tua "maldição" definitivamente afastada.
quinta-feira, junho 21, 2012
Críticas não são depreciações
Antes eram as críticas a Cristiano Ronaldo, esse "arrogante endeusado" que "na Selecção nunca joga nada". Passou a Holanda e "onde estão os que criticavam Ronaldo", que "deu aos caluniadores uma bofetada de luva branca"? Dos que são visceralmente anti-Cristiano não sei, mas pela minha parte vociferei furiosamente contra o craque do Real Madrid no jogo com a Dinamarca porque me pareceu realmente displicente e negligente, pouco trabalhador e solidário, a léguas do que costuma jogar em Espanha, e isso podia custar caro à equipa. Criticar quando as coisas estão mal não é anti-patriotismo nem coisa parecida: é apontar erros, repreender, espicaçar, até. E parece que o craque português se sentiu espicaçado a sério, porque dois golos, duas bolas no poste e mais um conjunto de jogadas e passes perigosos são próprios de quem acusou o toque. É o velho problema da liberdade de expressão, agora aplicado ao futebol: é muito fácil ser-se tolerante quando as críticas não se aplicam a nós, mas se alguém se lembra de fazer juízos menos abonatórios a algo a que se tem ligações, tem de contar com fúrias desusadas e acusações de ser anti-qualquer coisa. Sim, haverá em Portugal adeptos do "anti-ronaldismo" (como lhe chama Pedro Lomba em artigo recente, considerando que esta é a "melhor selecção de sempre", um exagero oposto ao de Miguel Sousa Tavares, que ele cita, e que se auto classifica como sendo"anti-Selecção"), que normalmente na guerra de craques preferem sempre Messi. Mas não são certamente todos os que o criticaram quando merecia. Ronaldo é um atleta impressionante, tem uma força de vontade e de trabalho e uma capacidade física do outro mundo, e só por grosseiro cinismo se pode não ficar espantado com a quantidade infinda de golos que marca, alguns de execução bem complicada. mas não ha nenhum dogma que o proteja nos maus momentos, até porque reúne boa parte dos defeitos dos futebolistas que ascenderam ao estrelato (a que chegou com grande mérito, diga-se).
Dito isto, haverá outra razão para que Cristiano Ronaldo tivesse jogado como jogou contra a Laranja Mecânica: é que da última vez que os defrontámos, no Mundial de 2006, na célebre "Batalha de Nuremberga",a táctica da trupe dos Países Baixos, treinada por Van Basten, consistia antes de mais em lesionar o madeirense, coisa que até conseguiram. Se António Vieira tivesse assistido ao jogo, o fragor dos seus sermões certamente redrobraria. Seguiu-se uma autêntica refrega, a meio da qual Maniche marcou o único golo do jogo, que acabou com um número recorde de cartões. Ronaldo certamente lembrou-se da forma como o trataram e vingou-se da melhor forma que sabia: com um grande jogo, que só pecou pela vitória escassa perante uns holandeses absolutamente impotentes para o travar.
Agora calhou-nos na rifa a República Checa, nos quartos de final, em vez da Rússia. Tal como em 1996. Mas agora espero resultado diferente. Basta estudar bem aquela equipa e jogar com humildade, com a certeza de que Petr Cech, Milan Baros & Cª não vão facilitar. Gostava muito de ver jogar Karel Poborsky, mas não quero revisitar o pesadelo do seu portentoso chapéu sobre Baía.
domingo, junho 17, 2012
A condicionante grega
"O futuro da Europa joga-se hoje, nas eleições francesas e gregas", diz-se. Francesas? Lá voltamos ao mesmo. Em França, discute-se a segunda ronda das legislativas. À partida, os socialistas e seus aliados conseguirão a maioria, mesmo estando empatados em números com a UMP e aliados, consequência do sistema uninominal vigente e da queda abrupta dos centristas de Bayrou. como tal, a nova Frente Nacional conseguirá um número residual de lugares, e a esquerda radical de Melenchon mais alguns, mesmo com menor percentagem de votos. Curiosidades só mesmo nos casos locais: por exemplo, se LePen ou Segoléne Royal (tramada pelo twiter actual companheira do seu ex-marido e actual presidente) conseguirão ser eleitas.
Na Grécia sim, está muita coisa em jogo. Se o Syriza ganhar, com quem formará governo? E se recusa o plano da UE, como é que vão pagar as contas e os salários? Vendendo as ruínas do Parténon aos chineses? O apoio de Louçã à esquerda radical grega é elucidativo e mostra bem até que ponto o populismo e a demagogia (não por acaso uma palavra grega) podem levar a resultados catastróficos. E parte da opinião pública continua a acreditar na fábula dos pobres gregos esmagados pelos tirânicos alemães, como se as contas falsificadas, o clientelismo e a corrupção não fossem da responsabilidade dos modernos helenos. Assim, mais de dois mil anos depois de terem servido de barragem à invasão persa, moldando provavelmente de maneira radical a História da Europa, os gregos modernos arriscam-se agora a ser os coveiros do Euro e sabe-se lá que mais.
Só que a alternativa é a velha Nova Democracia, o partido que, com ajuda do PASOK, levou a Grécia a este estado de coisas. Seria quase imoral que ganhasse, mas talvez seja o mal menor. A tragédia grega prossegue. Valha-lhes Fernando Santos e Karagounis, que conseguiram o autêntico milagre de levar a sua envelhecida selecção a ultrapassar a fase de grupos à custa de equipas bem melhores. Uma delas, directamente afastada, é a Rússia, que ironicamente pode vir a estender a sua área de influência aos gregos caso estes saiam do euro.
sábado, junho 16, 2012
Pólvora seca
Era daqueles jogos ditos de alt(íssim)o risco. Um Polónia-Rússia, em Varsóvia, no dia em que os russos festejam o nascimento da Federação, é motivo para qualquer pessoa sensata se afastar da capital polaca, a não ser que seja repórter de guerra. Uma marcha com colunas de russos em direcção ao estádio prometia represálias de fanáticos polacos, evocando o retalhamento do seu país, a repressão czarista e o pesado controlo soviético, que obrigou ao estádio de sítio permanente. Mas o empate e a divisão de pontos serenaram os ânimos, a polícia cumpriu o seu papel, e o saldo final acabou em quinze feridos e cinquenta detidos. Muito positivo, diga-se. Qualquer resultado que não causasse mortos nem feridos muito graves seria sempre bom. Os maiores receios não se verificaram, apesar de algumas escaramuças de rua.
Mas se o empate acalmou as hostes (se tivesse ganho alguém, não sei), traria resultados desportivos negativos a curto prazo. A favorita Rússia perdeu com a sofrível Grécia e os checos impuseram uma derrota à Polónia (em Wroclaw, antiga cidade prussiana de Breslau, muito perto aliás da fronteira checa, pelo que estavam muitos milhares de adeptos desse país). O anfitrião e a talentosa selecção da Federação Russa, que tantas desgraças evocavam e que tanto receio causavam pelo choque dos seus adeptos, ficaram fora do torneio. A pólvora seca entre adeptos contagiou os jogadores. Quem diria...
quarta-feira, junho 06, 2012
Pompa, circunstância e popularidade
O Jubileu de Diamante da Rainha Isabel II, comemorando os seus 60 anos de reinado, saldou-se numa colossal manifestação de apreço pela soberana. Ao longo de seis décadas desde que sucedeu a Jorge VI, a Rainha assistiu à queda do Império Britânico, à sucessão vertiginosa de acontecimentos, estadistas, modas, mudanças sociais, até a filmes sobre a sua pessoa. Mesmo em anos difíceis passou incólume sobre tudo. Hoje, a sua popularidade é inquestionável, e a Monarquia é uma instituição sólida e perene, sem a qual os britânicos nem saberiam o que fazer. Nas festividades do Jubileu, recebeu a homenagem da sua família, de artistas pop, e do povo, que acorreu de todas as partes da Commonwealth para a aplaudir, em massivas concentrações de multidão, juntando o marketing mais plastificado à pompa mais majestosa, que incluiu a maior regata dos últimos três séculos. Dificilmente algum outro país faria a mesma vénia a qualquer outro chefe de estado. Certamente que república alguma conseguiria sequer chegar perto.
terça-feira, junho 05, 2012
Alegrias futebolísticas
Acabada a época de futebol (de clubes), depois de enumerar as tristezas, e antes que o tal Euro na Ucrânia-Polónia comece, é justo referir as alegrias que a bola trouxe este ano. Não que as houvesse em grande quantidade, mas é justo recordar algumas coisas.
A mais mediática, e que me deu especial prazer, foi a vitória in extremis do Manchester City no campeonato inglês. Não que eu torça pelos "vizinhos barulhentos" azuis do United, até porque é daqueles clubes com fundos sem fundo, patrocinados por sheiks do petróleo, uma espécie que não faz nada bem ao desporto, pela forma como inflaciona os custos e é nociva para a concorrência. Mas gosto sempre quando há uma quebra de hegemonias - neste caso da equipa de Alex Fergusson - e quando equipas há muito afastadas dos títulos a eles regressam. Os citizens, equipa da maior parte dos habitantes de Manchester e dos irmãos Gallagher, depois do investimento brutal em jogadores nos últimos três anos, conseguiram chegar ao almejado título quando as coisas pareciam ir pelo cano abaixo. Estar a ganhar, em casa, depois sofrer o empate, passar a estar a perder, e nos minutos dos descontos, marcar o golo do empate e no último lance possível, o da vitória, que lhes dava o título maior, é coisa para deixar um estádio inteiro com sérios problemas cardíacos. Tanta emoção nem em 1989, quando ao minuto 89 Michael Thomas marcou o golo que dava ao Arsenal o título que não conseguiam há 18 anos, e no terreno do adversário directo, o Liverpool (o episódio ficou registado em Fever Pitch, de Nick Hornby ). Mas os segundos decisivos, cruéis mas intensos e felicíssimos, devolveram a alegria a um clube que dela estava precisado depois de anos a fio recebendo o desprezo dos vizinhos do United. Irónico que muitos terão festejado intensamente um golo de Aguero, genro de Maradona, que há vinte e tal anos se tornou provavelmente no homem mais odiado pelos ingleses.
Por falar em Maradona, outra das coisas a que achei piada foi a vitória do Nápoles na Copa Itália. O grande clube do sul de Itália não ganhava quaisquer títulos há mais de vinte anos. Aliás, desde a saída do Pibe passou por uma fase de decadência que o levou à segunda divisão e à bancarrota, conseguindo após alguns anos regressar à primeira, depois ás competições europeias (teve a honra de ser eliminado pelo Benfica num jogo memorável na Luz) e finalmente à Liga dos Campeões, onde se impôes este ano, e de onde acabou por ser eliminado algo surpreendentemente pelo Chelsea nos oitavos de final. O clube é agora presidido pelo produtor de cinema Aurelio de Laurentiis, sobrinho do mítico Dino de Laurentiis, goza de boa saúde desportiva e financeira e tem um enorme apoio popular. E conseguiu um feito: bater a Juventus, equipa que estava invicta em todas as competições e que este ano reconquistou o Scudetto, no último jogo possível (que marcou a despedida de Del Piero). com um temível ataque formado por Hamsik, Lavezzi e pelo extraordinário avançado-centro uruguaio Cavani, nem parece tão complicado. Mas era, e permitiu que o clube da decadente Nápoles e do sul empobrecido conseguisse ser o único a bater o mais titulado clube italiano, representante setentrional da indústria rica do Piemonte, propriedade dos Agnelli, quase mais francês que italiano. Diga-se no entanto que o regresso da Vecchia Signora de Turim aos títulos, depois de anos de abalo na penumbra por causa do Calciocaos, também é motivo de alegria para este blogue.
Outra motivo para festejar, embora tenha passado quase despercebido fora do seu país (com pequenas excepções): ao fim de trinta anos a vegetar nas divisões secundárias, o lendário Stade de Reims voltou à primeira divisão francesa. Quem conhecer minimamente a história do desporto-rei saberá que este clube, da capital de Champagne (uma cidade que nem é muito grande, à sombra da sua antiquíssima catedral), que dominou o futebol francês entre os anos quarenta e cinquenta, tinha também uma das equipas mais fortes da Europa nessa época, competindo directamente com o todo-poderoso Real Madrid. Pensa-se até que a Taça dos Campeões europeus foi criada pelo jornal L ´ Equipe propositadamente para que o Reims ganhasse o troféu, que lhe daria a glória no Velho Continente. E a primeira final, em Paris, em 1955, quase que lhe deu a Taça, mas não conseguiu superar o Real Madrid, num fantástico jogo que acabou 4-3 para os merengues. Em 1959, nova final, mesmo adversário, e igual sorte. Entretanto tinha ganho uma Taça Latina, na Luz, frente ao Milan. Ostentava um futebol tecnicista, rendilhado, todo virado para o ataque, onde pontificavam Kopa e Just Fontaine, melhor marcador do Mundial de 1958, com 13 golos, um recorde que permanece imbatível. Depois da sua partida, assistiu-se a um delcínio abrupto e inexorável do clube, que caiu na bancarrota (teve de vender os troféus) e andou pelas divisões regionais, até começar a se recompôr. Esta época, enfim, ao fim de trinta anos, o histórico clube de Champagne regressa ao lugar onde devia estar há muito tempo, onde poderá defrontar Marselha, PSG e Saint-Etienne, que só alcançaram a glória depois de viverem na sombra do Reims.
Outra motivo para festejar, embora tenha passado quase despercebido fora do seu país (com pequenas excepções): ao fim de trinta anos a vegetar nas divisões secundárias, o lendário Stade de Reims voltou à primeira divisão francesa. Quem conhecer minimamente a história do desporto-rei saberá que este clube, da capital de Champagne (uma cidade que nem é muito grande, à sombra da sua antiquíssima catedral), que dominou o futebol francês entre os anos quarenta e cinquenta, tinha também uma das equipas mais fortes da Europa nessa época, competindo directamente com o todo-poderoso Real Madrid. Pensa-se até que a Taça dos Campeões europeus foi criada pelo jornal L ´ Equipe propositadamente para que o Reims ganhasse o troféu, que lhe daria a glória no Velho Continente. E a primeira final, em Paris, em 1955, quase que lhe deu a Taça, mas não conseguiu superar o Real Madrid, num fantástico jogo que acabou 4-3 para os merengues. Em 1959, nova final, mesmo adversário, e igual sorte. Entretanto tinha ganho uma Taça Latina, na Luz, frente ao Milan. Ostentava um futebol tecnicista, rendilhado, todo virado para o ataque, onde pontificavam Kopa e Just Fontaine, melhor marcador do Mundial de 1958, com 13 golos, um recorde que permanece imbatível. Depois da sua partida, assistiu-se a um delcínio abrupto e inexorável do clube, que caiu na bancarrota (teve de vender os troféus) e andou pelas divisões regionais, até começar a se recompôr. Esta época, enfim, ao fim de trinta anos, o histórico clube de Champagne regressa ao lugar onde devia estar há muito tempo, onde poderá defrontar Marselha, PSG e Saint-Etienne, que só alcançaram a glória depois de viverem na sombra do Reims.
quinta-feira, maio 31, 2012
Recordando périplos portugueses
A RTP está a transmitir o programa Mar das Índias, em reposição às segundas-feiras à noite, na 2, como homenagem ao seu mentor, Miguel Portas. Os dois primeiros episódios, respectivamente sobre a costa da África oriental e a Etiópia, já foram transmitidos, faltando os outros dois. Perdi o primeiro mas consegui apanhar o segundo, precisamente o que mais me interessava. É um documentário fascinante no grande estado cristão no interior de África, que conta a aventura portuguesa e dos jesuítas nas supostas terras do Prestes João, e traça um périplo no Norte daquele país, com um Miguel Portas mais novo e muito longe da habitual actividade política. Ainda me lembrava do programa (motivo da minha única troca de palavras com Portas), mas revê-lo permitiu-me ficar com uma ideia mais precisa de uma das zonas do globo que mais gostava de visitar. Infelizmente, os portugueses não têm actualmente tanto interesse no mais antigo estado africano como tiveram os seus antepassados dos séculos XV e XVI (ou os italianos dos anos trinta). Este episódio de Mar das Índias é, para quem o viu, uma excelente forma de conhecer a Etiópia. Como complemento útil aconselha-se também Histórias Etíopes, súmula de descrições, narrativas e desenhos da autoria de Manuel João Ramos, um conhecedor daquelas paragens.
Espanha vs França
O Público resolveu hoje fazer um artigo sobre as "dificuldades" por que passa a monarquia espanhola, realçando que "os jovens não aceitam que o chefe de estado seja hereditário" e que Felipe de Bourbon deve suceder brevemente ao pai sob pena de "Juan Carlos ser o primeiro e o último". Razões? As suspeitas que recaem sobre Urdangarin, marido da Infanta Cristina, a famosa caçada aos elefantes, presumidas despesas da Casa Real (nada que se compare às da república portuguesa) e a relação fria com a Rainha Sofia.
Mas se é assim, recordemos França: nos últimos trinta anos, tiveram um presidente que ordenou que afundassem navios e tinha uma família paralela, outro condenado com pena suspensa por financiamento irregular, outro implicado em casos semelhantes, que se divorciou logo a seguir à eleição, mostrando que o casamento já era de fachada, e outro ainda que se separou da mulher logo depois da derrota desta nas presidenciais de 2007 (outra fachada). Proponho por isso que o jornal Público publique um artigo mostrando a urgência em substituir a república francesa pela monarquia, com os Bourbons a reinar também no Hexágono e a flor de lis a voltar à bandeira. Seria sem dúvida equitativo. Senhores jornalistas, estamos à espera.
PS: um comentário de um leitor sempre atento recorda-me que há um ponto acima que pode induzir em erro. Quando me refiro no texto a "outro que se separou da mulher logo após a derrota desta nas presidenciais de 2007", há que fazer a devida correcção: a senhora em causa, Segoléne Royal, é que se separou do marido, Fraçois Hollande, o agora presidente francês, depois da sua (dela) derrota em 2007.
terça-feira, maio 29, 2012
Sintomas relváticos (e socráticos)
O caso Relvas - Secretas - Público continua a dar que falar. Ao que parece, o ministro não se limitava a receber mails de Jorge Silva Carvalho, aos quais "não respondia". Mas na última semana assistiram-se a alguns episódios sintomáticos - diferentes mas todos com a mesma génese.
A ligação de Miguel Relvas a Silva Carvalho é já de si preocupante. Recorda-nos que as ligações do poder a sectores mais obscuros é quase uma (triste) inevitabilidade, e neste caso há todo uma rede que envolve um coktail explosivo de empresas de comunicação social, maçonarias e serviços secretos. Pior era difícil.
As pressões entre Relvas e o Público mostram-nos que os governos passam, mas a tentativa de controlar a comunicação social permanece. Já tínhamos assistido a um esboço de agência governamental de notícias com Santana. Nos governos de Sócrates, houve "bulliyng" sobre jornais, como o mesmo Público (caso da Universidade Independente), e a tentativa de abocanhar a TVI, entre outros. Agora é isto: novo ataque ao Público, com as pressões a Maria José Oliveira e as ameaças de revelações da vida privada. Na Madeira passam-se coisas ainda piores, e até a Câmara do Porto cede por vezes à tentação de encarar a comunicação social como uma qualquer força de bloqueio. Quando teremos um governo com menos vícios de controleiro?
Outro sintoma: haverá sempre quem defenda os superiores hierárquicos, dependendo do partido em que estiverem? A discussão entre o Estado Sentido e o 31 da Armada revelou algumas fracturas entre apoiantes dos partidos da maioria, ou seja, aqueles que a defendem até à medula, seja quem for a figura em causa, e os que não querem ver as medidas socráticas tornarem-se relváticas. Também no Insurgente houve algumas contribuições com interesse, em claro contraste dos que se apressaram a ver nesta questão uma conspiração "das esquerdas" para tramar Relvas, ou que resolveram fazer passar o Público como um orgão de comunicação socrático, esquecendo-se quem é que tomou a dianteira na investigação do caso da Independente. Como se vê, o vírus dos Abrantes espalha-se por todo o lado onde haja poderes incomodados com necessidade de se proteger a todo o custo. Felizmente, nem todos os que opinam nos blogues ficaram subitamente cegos com uma venda da sua cor política. É por isso que a blogoesfera continua a ser um espaço privilegiado de pluralismo, liberdade, discussão, e já agora, boa escrita, como não há mais nenhum...mesmo que seja parte da causa da crise que a imprensa escrita atravessa nos dias de hoje.
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