terça-feira, julho 31, 2012

Cruzes e Quinas




...ou a Sagres vista do Creoula, Julho 2012.

quinta-feira, julho 26, 2012

Os méritos de Hermano Saraiva



O desaparecimento de José Hermano Saraiva foi dos acontecimentos mais comentados nos últimos dias. Como seria de esperar, de resto, tanto pela morte propriamente dita, já que por aparições recentes parecia extremamente doente e envelhecido, como pelos sentimentos que o seu falecimento despertou.

Era uma daquelas figuras que me habituei sempre a ver na televisão, em sucessivos programas de título inspirado. Havia quem não tivesse a melhor das impressões dele, do seu desempenho no cargo de Ministro da Educação ao tempo da crise académica de 1969, e os célebres "gorilas" da Situação. Mas Hermano Saraiva conseguiu livrar-se em boa parte dessa imagem graças ao mediatismo televisivo que adquiriu mais tarde. Foi o ministro de Salazar que, a par talvez de Adriano Moreira (que tinha fama de "liberal"), melhor acolhimento teve no actual regime. Caricaturável, acarinhado por pessoas como Herman José, com grande audiência e o seu muito peculiar estilo e forma de apresentar, a sua voz roufenha com assomos de gravidade, os gestos sincronizados, as frases marcantes (o inconfundível "...aqui, precisamente aqui..."), transmitia alguma bonomia, e apesar de ser até ao fim admirador confesso de Salazar, nunca se mostrou um homem amargurado ou derrotado. A sua obra mais conhecida é a "História Concisa de Portugal", que deve existir em cada estante ou pequena biblioteca por esse país fora. Não era exactamente um académico de imensa craveira e prestígio como tal, e nas suas dissertações criava amiúde algumas situações fictícias (como a dos comerciantes que na Idade média desciam o Guadiana até Vila Real de Santo António...que se fundou por vontade do Marquês de Pombal, ou a forma como Camões perdeu o olho, outro dos episódios que lhe mereceu algumas críticas). Mas teve o não pequeno mérito de contar a História de Portugal e das suas terras aos portugueses, fazendo com que muitos ficassem a saber mais sobre o seu país, ou pelo menos mais curiosos sobre isso. Percorreu Portugal de lés-a-lés, andou por vilas e aldeias, visitou castelos, igrejas, conventos, solares, museus, ruínas de todo o tipo. Deu a conhecer o país pela televisão e não só, sugeria mesmo propostas líricas, como levar os jovens portugueses pelo Mediterrâneo fora, para conhecer os vestígios da Grécia Antiga. Podia ser um pouco efabulador e criador de mitos; mas não será precisamente através da busca do que é fascinante, de conhecer as fábulas, de procurar no lendário e no mitológico, que se percebe e se descobre a História?

PS: de referir também o desaparecimento de Helena Cidade Moura, responsável pela edição da obra de Eça tal como a maior parte a conhece hoje, pelas extensas campanhas de alfabetização pós-25 de Abril e antiga dirigente e deputada do MDP/CDE, e uma das promotoras da definitiva secessão daquele histórico movimento de esquerda fundado por católicos progressistas das coligações com o PCP. Aqui fica um excelente epitáfio.

terça-feira, julho 24, 2012

As Astúrias de novo como fonte de tensão


A revolta dos mineiros nas Astúrias (e Aragão, e Castela-Leão), culminada na "Marcha Negra" até Madrid, recorda outros confrontos mais antigos e ilustra bem os problemas sociais e económicos que a Espanha atravessa. E não anuncia nada de bom.

Com os juros a crescer assustadoramente de cada vez que o estado espanhol se tem de "abastecer", o governo de Mariano Rajoy decidiu cortar radicalmente nos subsídios da indústria mineira de carvão sediada no Norte do país, sobretudo nas Astúrias. A medida ameaça encerrar praticamente toda a actividade extractiva e lançar mais de vinte mil pessoas, cujo trabalho depende directa ou indirectamente das minas, no desemprego. Recorde-se que a Espanha já tem 25% de desempregados.

As medidas do governo causaram pânico e fúria nas regiões afectadas. Imediatamente começou a contestação, e houve mesmo confrontos entre mineiros e a polícia de choque, com as primeiros a responder com engenhos artesanais de arremesso de projécteis e foguetes ao gás lacrimogêneo lançado pela guarda.


As escaramuças recordam os anos de chumbo da década de 1930, quando os mineiros, influenciados pelo anarco-sindicalismo e socialismo radical, se revoltaram, ocuparam as cidades e chegaram mesmo a proclamar uma "república socialista" nas Astúrias. A revolta, muito à base de ataques com explosivos, e que não poupou igrejas nem clérigos, seria esmagada pelas forças comandadas por Francisco Franco e as famigeradas tropas marroquinas de elite, célebres pela sua ferocidade. E anunciou a Guerra Civil que se seguiria poucos anos depois.

O tom e os protestos não atingem a dimensão dos anos trinta, é certo. Não há mortes, nem fuzilamentos, nem atentados. E os mineiros não têm o anti-clericalismo de outrora, até exibem imagens de santos Mas há mini-barricadas, arremesso de projécteis, contestação, ameaças de caos social. A "Marcha Negra" dos homens do carvão chegou a Madrid e teve logo o apoio de milhares de manifestantes e de "indignados". E não faltaram confrontos com a polícia e alguns feridos e detidos, embora em abono da verdade não tivessem sido os mineiros a despoletar, mas sim os anarcas anti-sistema que fazem disto o seu modo de vida.


"Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão". O ditado parece fazer sentido neste caso bicudo. No entanto, todos têm a sua razão. Os mineiros, porque a descida dos subsídios ameaça lançar milhares no desemprego. Num país onde isto é um problema crónico, e para pessoas com mais de quarenta anos que sempre trabalharam nesta área, pode ser traumático e cruel. Existe o real perigo de comunidades inteiras perderem o seu trabalho. é o velho erro de se apostar apenas numa actividade económica num mesmo espaço geográfico.
Mas o governo também tem as suas razões. O défice público é imenso e há que cortar em alguma coisa, e se as minas não são rentáveis, até porque o carvão que vem de fora é mais barato, não parece exequível mantê-las em funcionamento. Além do mais, exigências ecológicas e normas da União Europeia obrigam ao progressivo abandono do carvão como fonte de energia até ao fim desta década.

É uma situação complicada de difícil solução. Mais avisado seria talvez o governo diminuir os cortes à indústria do carvão (tendo obrigatoriamente que fazer alguns), diminuindo progressivamente os subsídios, de modo a evitar uma situação ainda mais explosiva e socialmente insustentável. O desemprego exige novas despesas por parte do estado. Já bastam as querelas ideológicas que subsistem desde há décadas, e o ambiente tenso e o medo que se vive no país. Recordar a História, sobretudo a não tão antiga, é imperioso, e aprender com as suas lições ainda mais. Há que usar bom senso. Do governo e dos que se lhe opõem, porque não será com certeza com greves sucessivas e "indignações" inconsequentes que Espanha irá enfrentar os gravíssimos problemas que tem pela frente.

sexta-feira, julho 20, 2012

Grandes veleiros em Lisboa


Quem for a Lisboa por estes dias não deve perder um espectáculo raro e majestoso. A Tall Ship Race, regata dos grandes veleiros, deitou as amarras na capital, mais concretamente em Santa Apolónia, até Domingo. A entrada é livre e a oportunidade de combinar beleza de navios como a Sagres, o Creoula, o alemão Alexander von Humboldt e o neerlandês Europa com o estuário do Tejo não pode ser desaproveitada. Afinal, os apelos do regresso de Portugal aos mares podem também começar por aqui.





 

 

God Forgive America



Talvez tenha passado despercebida a reportagem e a pequena entrevista do Expresso a Jonathan Winer, ex-secretário de Estado de Bill Clinton, sobre o caso de Joe Wright e a sua hipotética extradição para os Estados Unidos. Independentemente da justiça  da decisão dos juízes portugueses (recordemos que essa hipótese não se coloca no caso da haver pena de morte aplicável aos casos imputados), interessam-me os comentários do ex-governante americano, que sugere que caso Portugal (ou seja, o sistema judicial) não queria proceder à extradição, se devem "considerar outras opções". Quais? "Detenções extrajudiciais" (sequestro), engodos, caçadores de prémios; o entrevistado ainda acha que a sorte é não ser no Paquistão, senão dever-se-ia usar um drone para o eliminar, e que o caso é "anormal e injusto". Menos anormal para Winer será usar-se operações secretas para apanhar alguém em território português, uma vez que "não quer saber da lei portuguesa para nada". Sim, mesmo tendo em conta que Portugal é um aliado e fundador da NATO.

Por mais Obamas, okupas de Wall Street e activistas de tudo quanto são "direitos civis" que os EUA produzam, continua a ser a nação que se desenvolveu com a Bíblia e o revólver. Está-lhes entranhado, e quando se tornaram uma super-potência, espalharam a sua particular Pax pelo mundo, ou pelo menos pelas suas zonas de influência. É o excepcionalismo americano em todo o seu esplendor, a "nação indispensável", os Estados Unidos como farol da liberdade (outros consideravam-se o "farol do socialismo"), de democracia e da economia livre, espalhando-as nem que seja à bomba ou ao drone.

A same old America de sempre. A lei do Faroeste, a reminiscência puritana dos Founding Fathers e a sua influência cultural são demasiado fortes para não se aplicarem até aos dias de hoje. É inevitável. Está-lhes no sangue e na pele.


domingo, julho 15, 2012

Música nos jardins



E a propósito do recente trabalho de Miguel Araújo (Jorge), o próprio vai estar esta tarde nos jardins do Passeio Alegre a dar música aos transeuntes e a todos os que se disponham a lá ir, em mais uma sessão do Porto Sunday Sessions, que já vai na terceira sessão e que funcionará até ao fim do Verão. Tardes de Domingo passadas em jardins portuenses, com um DJ diferente em cada semana, colocando música mais alegre ou mais relaxante. Este mês as sessões funcionarão no Passeio Alegre, passando para o jardim de S. Lázaro em Agosto e para o Parque da Cidade em Setembro. À excepção deste último espaço, a música será emitida dos coretos dos respectivos jardins, verdadeiros pontos de referência, tal como acontecia outrora, quando era trivial as famílias dirigirem-se aos jardins públicos para ouvirem as bandas tocarem nesses grandes quiosques musicais. Os coretos voltam agora à sua função original, de espaços musicais, se bem que de forma ligeiramente alterada. Como diria o Príncipe de Salina, "é preciso que mude uma ou duas coisas para que tudo permaneça igual"


sábado, julho 14, 2012

Novas músicas portuguesas



A música portuguesa continua a demonstrar uma saudável avalanche criativa e a oferecer-nos também pequenas pérolas visuais. Exemplos recentes:
Os Capitães da Areia, espalhando ao redor o seu Verão Eterno, trazem-nos agora As Raparigas da Minha (sua?) Idade, num ritmo de electro-roque quase em looping, provocador e dançável.


Os Salto prosseguem no seu caminho para o estrelato e laçaram o single Deixar Cair, também numa toada entre a electrónica e o roque (riffs bem destacados), com um video irresistível composto por umas dezenas de personagens sub-30.


Uma das músicas mais tocadas nas rádios nacionais nos últimos meses, Os Maridos das Outras. Num intervalo entre dois discos dos Azeitonas, do qual é compositor e co-vocalista, Miguel Araújo Jorge subtraiu o último nome, ficando simplesmente Miguel Araújo (depois de usar o pseudónimo "Mendes" nos duetos com João Só), e lançou o disco Cinco Dias e Meio. As músicas revelam letras irónicas e agridoces, entre a observação da pequena vida contemporânea urbana e uma certa nostalgia de tempos dos fins da infância, que será familiar a muita gente que ande entre os trinta e os trinta e cinco. Fica aqui o video, que perde em qualidade o que ganha em genuinidade, de Os Maridos das Outras em versão ukelele.

quarta-feira, julho 11, 2012

Elvas Património da Humanidade


Já vai com uns dias de atraso, mas não podia deixar de saudar a classificação como Património da Humanidade das fortificações de Elvas, uma das mais encantadoras cidades portuguesas.

A UNESCO classificou o conjunto das muralhas da cidade, o forte de Santa Luzia, setecentista, o forte da Graça, saído do génio militar do Conde de Lippe (um grande "cabo de guerra" do Séc. XVIII que reorganizou o exército em tempos do Marquês de Pombal), o centro histórico da cidade (o que pressupõe a Sé, julgo eu), o soberbo e imponente Aqueduto da Amoreira, e ainda alguns fortins adjacentes. Ou seja, todo o conjunto abaluartado e algumas construções não estritamente militares. Um enorme, precioso e belíssimo testemunho da arquitectura militar e não só, que apesar das inúmeras guerras com estremenhos, castelhanos e franceses, chegou aos nossos dias intacto. Tudo graças aos elvenses, que souberam conservar a sua cidade e merecem bem este reconhecimento da UNESCO.






PS: logicamente, há que dar o mérito a quem o merece, em especial aos representantes portugueses na UNESCO.

segunda-feira, julho 09, 2012

Ler os outros e ouvir outras Vozes



Há para aí muitas remissões em muitos blogues com o simples título "ler os outros". Pois aqui vai uma. Um texto essencial de Tiago Cavaco (em tempos conhecido nos meios musicais por Guillul), no seu eterno Voz do Deserto, que exprime aquilo que muitas vezes não se diz, ou por temor reverencial de críticas situacionistas, ou porque realmente não se pensa no assunto. A ler, reflectir, discutir.


Há pessoas que, como eu, não vêm o aborto como um mal necessário mas como simplesmente um mal. Para nós o facto do aborto ser hoje um direito civil não derreteu a ideia que dele temos como uma coisa terrível. (...) Suspeito que parte das pessoas que foram contra o aborto sente-se aliviada que a sua posição tenha perdido. Porque a tarefa difícil que é defender convicções na praça pública parece no momento da derrota desnecessária. E todos os que nos envolvemos nesse debate sabemos que custa divergir de pessoas que respeitamos e amamos. Alguns saem meio traumatizados com discussões que tiveram com amigos achando que àquele lugar não querem mais voltar. Mas deixar de lutar por ideias pelo facto de que os nossos amigos que não as têm ficam escandalizados connosco parece-me um modo triste de revelar que essas ideias não são assim tão importantes para nós. As convicções vêem-se no que nos custam junto dos que nos são próximos mas distantes delas (...).
Os nossos adversários não devem admirar-se que queiramos reverter a Lei do Aborto. Isso não é aos nossos ouvidos uma acusação mas um elogio. Um sinal que estamos firmes no que dissemos no Passado. Do mesmo modo como lhes reconhecemos a vitória legítima no Referendo que ganharam, devem oferecer-nos a mesma legitimidade se fizermos que os mesmos cidadãos mudem de opinião. Democracia também é isto.

(Voz do Deserto, 06/07/2012)

domingo, julho 08, 2012

A miséria académica


O caso Miguel Relvas - mais um, depois das dispensas de Pedro Rosa Mendes, das pressões sobre o Público e dos contactos que afinal eram mais do que um, com Jorge Silva Carvalho - que tantas parecenças tem com os de Sócrates e outros elementos da política nacional obriga inevitavelmente a olhar para o nosso sistema académico e para o ensino universitário privado. O facto em si já é grave, e devia, por acumulação, levar à demissão de Relvas, o perfeito fura-vidas da política, que está em toda a parte sem se saber bem como. Mas como o "licenciado" tem igualmente o controlo do aparelho partidário do PSD, é mais inamovível do que uma lapa.

A tal licenciatura em não-se-sabe-bem-o-quê de Relvas deve, espera-se, ser ser a gota de água neste tipo de procedimentos, depois do famosíssimo caso da licenciatura de José Sócrates num Domingo, da de Armando Vara, e das de várias figuras da política portuguesa, ávidas de adquirirem um "canudo" que lhes dê o tratamento de "doutor" ou "engenheiro". A tampa soltou-se, e será doravante impossível que as coisas fiquem na mesma, tal o brado que têm provocado. O ensino privado tal como existe em Portugal passa por horas de amargura. Já tivemos a tristemente célebre Universidade Moderna, pertença da maçonaria da Casa do Sino, a sua publicidade maciça e os inúmeros atritos em que esteve envolvida; a Universidade Independente e as suas licenciaturas a pedido; e temos agora os estilhaços da antiga Universidade Livre, sobretudo a Lusófona, que distribui diplomas consoante o "currículo". Definitivamente, fora do ensino público e concordatário (Católica), poucas são as privadas que se destaquem pela positiva. Mal na fotografia  ficam também as instituições às quais cabem a supervisão destes centros de "ensino", que mais não são do que empresas que vendem cursos com alguma aparência de mérito. Depois dos tristes exemplo do Banco de Portugal sob essa ilusão chamada Vítor Constâncio, e da Autoridade para a Concorrência, temos agora as universidades privadas com rédea solta, onde o estudo, o mérito e o conhecimento são pormenores secundários face à posição e meios de certos alunos. Tudo isto numa altura em que licenciados, pós-graduados, mestres e doutorados em universidades a sério, a tal "geração mais qualificada de sempre", se vêem sem trabalho e muitas vezes emigram para onde o haja e onde os seus conhecimentos são aproveitados. É compreensível que se revoltem, ao lado destas nulidades que trepam na vida com cursos adquiridos a trouxe-mouxe.

Mas há outros aspecto que sobressai deste levantar do tapete do mundo das privadas e dos que nelas tiram cursos ao minuto: o de que a classe política, de há uns anos para cá, tem uma preparação medíocre, consequência de terem vindo dos partidos e respectivas juventudes e não terem carreira profissional ou académica minimamente relevantes. Repare-se: Mário Soares, ainda que sem notas brilhantes, tem duas licenciaturas. Cavaco Silva, Freitas do Amaral, Adriano Moreira, e o desaparecido Mota Pinto eram docentes respeitados nas suas áreas, com currículos assinaláveis nas suas universidades. Guterres formou-se em engenharia com nota 19. Durão Barroso ficou a meio do Doutoramento em Georgetown. Santana Lopes formou-se na Faculdade de Direito de Lisboa e esteve como bolseiro na Alemanha. Depois, de súbito, chega-se à fissura, a partir de Sócrates e do citado curso da Independente, passando por Passos Coelho e António José Seguro, com cursos tirados rapidamente e já com trinta e tais (as respectivas juventudes era impeditivas de maior aplicação ao estudo), e chegando aos casos extremos como Relvas. Olhemos para os líderes dos principais partidos: Francisco Louçã é catedrático do ISEG, em economia; Paulo Portas é licenciado em Direito, pela Católica; Jerónimo de Sousa não tem estudos universitários e não o esconde de ninguém (no PC até é bem visto, faz parte do sector "operário"). E se formos mais além, ainda descobrimos Garcia Pereira, doutorado em Direito do Trabalho. Passos e  Seguro, líderes dos partidos do poder, são o que se vê, e representam bem a miséria académica que grassa no centrão, de onde emanam políticos sem currículo além da vida partidária, e sem instrução, estudos ou obra relevantes ou sentido de serviço público.


quinta-feira, julho 05, 2012

Pininfarina


Sergio Pininfarina (1926 - 2012)
Desapareceu o grande arquitecto do design automóvel dos últimos cinquenta anos.











(Pronto, o primeiro não é da autoria de Sergio, embora seja obra da Pininfarina, mas não resisti...)

terça-feira, julho 03, 2012

E para encerrar o Europeu


Ficam aqui duas máximas lidas por estes dias, que bem merecem ser recordadas:

"Interceptar os passes de Pirlo é como roubar a Mona Lisa do Louvre", da autoria de um jornalista anglo-saxónico.

"La Furia virou La Roja, e agora está virando La Siesta", lido num fórum brasileiro.

O Tiki-Takennacio há de acabar



Não conseguimos levar a Espanha de vencida nas meias finais, apesar da excelente disposição táctica de Paulo Bento, e tivemos agora de ver a equipa de Del Bosque ganhar novo caneco europeu depois de dar 4-0 à Itália. Depois da desilusão de ver a equipa nacional falhar o acesso à final, nova desilusão. Jamais pensei que os transalpinos perdessem por tanto, depois de uma primorosa meia-final (também já é hábito vencerem os alemães), e quando até tinham empatado no primeiro jogo com os adversários de ontem. Uma equipa com Pirlo e Buffon nunca deveria perder por quatro. E sobretudo, causa-me espécie esta equipa de Espanha ter ganho três títulos consecutivos, o último com uma goleada final, e ser apelidade agora de "melhor equipa de todos os tempos", e outros disparates parecidos. Ainda por cima, o resultado de ontem é enganador: embora a Itália parecesse estar fisicamente em baixo, viu dois jogadores lesionarem-se, um deles quando já não podiam fazer substituições e com meia hora para jogar. O título caiu no regaço da Espanha com uma facilidade inaudita. Poderiam ficar na fase de grupos caso dois penaltys fossem assinalados a favor da Croácia; podiam perder com Portugal, se Ronaldo tivesse sido mais clarividente e os penaltys pendessem para o outro lado; e como teria terminado o jogo de ontem se os lesionados fossem espanhóis? Impossível adivinhar, mas dizer que esta selecção formada por Aragonês e Del Bosque (técnico com quem até simpatizo e que o Real Madrid, num dia de delírio, substituiu por Carlos Queiroz) é a melhor da história é brincar com o desporto-rei. Bem melhores eram a Hungria de 1954, ou a Holanda de 1974, entre outras, e nem venceram. Ganhariam de caras à Espanha actual, mas nem sempre os vencedores são os mais virtuosos. Infelizmente, o infame Tiki-Taka, ou Tiki-Takanaccio, como brilhantemente lhe chamou o New York times, não só não morreu como deu a ilusão de ser imbatível. Sonho com o momento em que será abatido, e pelas amostras (até a Wikipédia em inglês o demonstra), pode muito bem ser Portugal, caso tenha a oportunidade, a cravar-lhe o golpe fatal.

quarta-feira, junho 27, 2012

A eterna refrega com os vizinhos



Reedita-se o duelo de há dois anos com a vizinha Espanha, cuja vitória seria o primeiro passo para a tingir o topo do Mundial. Vantagens deste ano: a equipa parece mais coesa, Crisnaldo mais convicto e mais em forma, o técnico é Paulo Bento, e não carlos Queiroz, e David Villa não joga pela Espanha. Desvantagens: ausência de um verdadeiro ponta de lança português, e as declarações de Platini (que tinha de ser absolutamente imparcial), mostrando as suas preferências por uma final Espanha-Alemanha. Sabe-se que uma tal final, igual à de há dois anos, seria a favorita dos patrocinadores. O francês que preside à UEFA acaba de mostrar que está ao lado deles. Será mais uma dificuldade acrescida para o jogo de hoje, mas no futebol são onze contra onze e no fim nem sempre ganham a Alemanha...ou a Espanha. Esperemos pois que a tenacidade lusa se reflicta nas trombas de Platini e de Casillas. Não seria a primeira vez, aliás, que Portugal derrotaria espanhóis auxiliados por franceses, e superiores em número (se desta vez os turcos da arbitragem entrarem na brincadeira). Nem que os portugueses venceriam em Donetsk: nas suas passagens por esta cidade, Benfica Porto e Sporting levaram sempre de vencida a equipa da casa. Eliminámos a espanha em 2004, em alvalade, e há coisa de ano e meio aplicamos-lhe uma surra de 4-0. Bons prenúncios e motivação extra não faltam, agora é só esconjurar o Fado, o que não é coisa inédita.

terça-feira, junho 26, 2012

Civil e islamita




Mohamed Morsi é o novo presidente eleito do Egipto. O líder do Partido da Liberdade e da Justiça, braço político da Irmandade Muçulmana, é o primeiro chefe de estado egípcio que não é Faraó (contando com Alexandre, o Grande), Sultão, Rei ou militar. Em contrapartida, é islamita e civil. Defende um governo de ideologia "democrata-islâmica", à imagem da Turquia, mas só o futuro e o controlo dos militares o demonstrarão. Até lá, os revoltosos "laicos" continuarão a manifestar-se, os militares a vigiar o poder (e a mantê-lo agarrado enquanto puderem) e os Coptas a desconfiar e a cerrar fileiras, nesse país-charneira do Islão, vizinho de Israel e da Líbia e guardião do Estreito de Suez.

sexta-feira, junho 22, 2012

Gregos e alemães: uma história que vem de longe


A história entre alemães e gregos já é longa. Começou com as paragens dos cruzados que iam a caminho da Terra Santa, e que por vezes ali chegavam com intenções duvidosas, com expoente máximo na 4ª Cruzada de 1204, em que se deu o saque de Constantinopla, e a agonia lenta do Império Bizantino, até cair perante os otomanos, em 1453. Muito depois, a guerra da independência na primeira metade do Século XIX criou a Grécia moderna. Por razões estratégicas, fazendo recuar os turcos, no que se empenharam ingleses, franceses e russos, mas também ideológicas, porque o romantismo era o grande ideal da época. Com ele vinha o também nacionalismo, de que a restauração do berço da democracia e da filosofia era um dos maiores imperativos. Não tendo tomado parte na contenda, os alemães, expoentes do romantismo, criaram as fundações do estado grego, uma administração mínima, e até lhes cederam um rei, o impopular e inadaptado Otto I, um monarca bávaro que não percebeu o que era o seu novo país não chegaria ao fim do seu reinado.

Gregos e alemães voltariam a encontrar-se na I Guerra mundial, ainda que no "papel", já que as forças helénicas defrontaram os turcos, búlgaros e austro-húngaros, e não directamente os seus aliados germânicos. Mas na II Guerra, e depois de rechaçar as tropas italianas, a Grécia sofreu em pleno a invasão alemã, como plano geo-estratégico de fechar o Mediterrâneo aos aliados. A ocupação teve efeitos nefastos e marcantes, como o desaparecimento total da antiga e numerosa comunidade judaica de Tessalónica e a morte de milhares de gregos. A célebre fotografia da suástica no Parténon é um dos testemunhos mais perturbadores dos anos de ocupação, além de que constituíram um símbolo do esmagamento da democracia (no seu sentido primordial) pela totalitarismo.


Seguiu-se a guerra civil, a democracia instável, o regime dos coronéis, a queda da monarquia e o regresso da democracia, embora muito amparada nas dinastias políticas e no clientelismo, que a entrada na CEE e a chegada dos fundos subsequentes ajudaram a disfarçar.

Agora, os gregos atravessam uma crise financeira, económica e política que os coloca nas primeiras páginas dos jornais. Dada a proeminência e poderio económico da Alemanha, Angela Merkel tornou-se a figura mais detestada na Grécia e os alemães já são alvo de acções de xenofobia e ódio.

Muito embora a culpa da situação a que chegaram caiba em primeiro lugar aos helenos e à sua displicência e corrupção, a dívida do saldo entre as relações greco-gerânicas continua a pertencer mais aos alemães. É isso que os gregos vão tentar cobrar hoje, no jogo contra a Mannschaft, mesmo que os recursos técnicos sejam bem menores. Acredito mais na vitória dos germânicos, que até terão em Gdansk (a antiga Dantzig prussiana) uma falange muito maior a apoiá-los, mas dada a gana da equipa de Fernando Santos nesta altura, a incrível coincidência deste jogo e a oportunidade que proporciona, prefiro não fazer grandes apostas.


PS: evidentemente, muitos, como o Herdeiro de Aécio e o jornal Público, lembraram-se desta famosa "partida" entre filósofos gregos e alemães, uma das mais geniais criações dos Monty Python. Ei-la, na sua versão (mal) traduzida em "luso-brasileiro".

 

Declaração a Karel Poborsky


Caro Poborsky, gostava muito quando te via jogar, mas desculpa lá, ainda gostei mais de ver a tua "maldição" definitivamente afastada.

quinta-feira, junho 21, 2012

Críticas não são depreciações


Antes eram as críticas a Cristiano Ronaldo, esse "arrogante endeusado" que "na Selecção nunca joga nada". Passou a Holanda e "onde estão os que criticavam Ronaldo", que "deu aos caluniadores uma bofetada de luva branca"? Dos que são visceralmente anti-Cristiano não sei, mas pela minha parte vociferei furiosamente contra o craque do Real Madrid no jogo com a Dinamarca porque me pareceu realmente displicente e negligente, pouco trabalhador e solidário, a léguas do que costuma jogar em Espanha, e isso podia custar caro à equipa. Criticar quando as coisas estão mal não é anti-patriotismo nem coisa parecida: é apontar erros, repreender, espicaçar, até. E parece que o craque português se sentiu espicaçado a sério, porque dois golos, duas bolas no poste e mais um conjunto de jogadas e passes perigosos são próprios de quem acusou o toque. É o velho problema da liberdade de expressão, agora aplicado ao futebol: é muito fácil ser-se tolerante quando as críticas não se aplicam a nós, mas se alguém se lembra de fazer juízos menos abonatórios a algo a que se tem ligações, tem de contar com fúrias desusadas e acusações de ser anti-qualquer coisa. Sim, haverá em Portugal adeptos do "anti-ronaldismo" (como lhe chama Pedro Lomba em artigo recente, considerando que esta é a "melhor selecção de sempre", um exagero oposto ao de Miguel Sousa Tavares, que ele cita, e que se auto classifica como sendo"anti-Selecção"), que normalmente na guerra de craques preferem sempre Messi. Mas não são certamente todos os que o criticaram quando merecia. Ronaldo é um atleta impressionante, tem uma força de vontade e de trabalho e uma capacidade física do outro mundo, e só por grosseiro cinismo se pode não ficar espantado com a quantidade infinda de golos que marca, alguns de execução bem complicada. mas não ha nenhum dogma que o proteja nos maus momentos, até porque reúne boa parte dos defeitos dos futebolistas que ascenderam ao estrelato (a que chegou com grande mérito, diga-se).

Dito isto, haverá outra razão para que Cristiano Ronaldo tivesse jogado como jogou contra a Laranja Mecânica: é que da última vez que os defrontámos, no Mundial de 2006, na célebre "Batalha de Nuremberga",a táctica da trupe dos Países Baixos, treinada por Van Basten, consistia antes de mais em lesionar o madeirense, coisa que até conseguiram. Se António Vieira tivesse assistido ao jogo, o fragor dos seus sermões certamente redrobraria. Seguiu-se uma autêntica refrega, a meio da qual Maniche marcou o único golo do jogo, que acabou com um número recorde de cartões. Ronaldo certamente lembrou-se da forma como o trataram e vingou-se da melhor forma que sabia: com um grande jogo, que só pecou pela vitória escassa perante uns holandeses absolutamente impotentes para o travar.


Agora calhou-nos na rifa a República Checa, nos quartos de final, em vez da Rússia. Tal como em 1996. Mas agora espero resultado diferente. Basta estudar bem aquela equipa e jogar com humildade, com a certeza de que Petr Cech, Milan Baros & Cª não vão facilitar. Gostava muito de ver jogar Karel Poborsky, mas não quero revisitar o pesadelo do seu portentoso chapéu sobre Baía.

domingo, junho 17, 2012

A condicionante grega


"O futuro da Europa joga-se hoje, nas eleições francesas e gregas", diz-se. Francesas? Lá voltamos ao mesmo. Em França, discute-se a segunda ronda das legislativas. À partida, os socialistas e seus aliados conseguirão a maioria, mesmo estando empatados em números com a UMP e aliados, consequência do sistema uninominal vigente e da queda abrupta dos centristas de Bayrou. como tal, a nova Frente Nacional conseguirá um número residual de lugares, e a esquerda radical de Melenchon mais alguns, mesmo com menor percentagem de votos. Curiosidades só mesmo nos casos locais: por exemplo, se LePen ou Segoléne Royal (tramada pelo twiter actual companheira do seu ex-marido e actual presidente) conseguirão ser eleitas.

Na Grécia sim, está muita coisa em jogo. Se o Syriza ganhar, com quem formará governo? E se recusa o plano da UE, como é que vão pagar as contas e os salários? Vendendo as ruínas do Parténon aos chineses? O apoio de Louçã à esquerda radical grega é elucidativo e mostra bem até que ponto o populismo e a demagogia (não por acaso uma palavra grega) podem levar a resultados catastróficos. E parte da opinião pública continua a acreditar na fábula dos pobres gregos esmagados pelos tirânicos alemães, como se as contas falsificadas, o clientelismo e a corrupção não fossem da responsabilidade dos modernos helenos.  Assim, mais de dois mil anos depois de terem servido de barragem à invasão persa, moldando provavelmente de maneira radical a História da Europa, os gregos modernos arriscam-se agora a ser os coveiros do Euro e sabe-se lá que mais.
Só que a alternativa é a velha Nova Democracia, o partido que, com ajuda do PASOK, levou a Grécia a este estado de coisas. Seria quase imoral que ganhasse, mas talvez seja o mal menor. A tragédia grega prossegue. Valha-lhes Fernando Santos e Karagounis, que conseguiram o autêntico milagre de levar a sua envelhecida selecção a ultrapassar a fase de grupos à custa de equipas bem melhores. Uma delas, directamente afastada, é a Rússia, que ironicamente pode vir a estender a sua área de influência aos gregos caso estes saiam do euro.

sábado, junho 16, 2012

Pólvora seca




Era daqueles jogos ditos de alt(íssim)o risco. Um Polónia-Rússia, em Varsóvia, no dia em que os russos festejam o nascimento da Federação, é motivo para qualquer pessoa sensata se afastar da capital polaca, a não ser que seja repórter de guerra. Uma marcha com colunas de russos em direcção ao estádio prometia represálias de fanáticos polacos, evocando o retalhamento do seu país, a repressão czarista e o pesado controlo soviético, que obrigou ao estádio de sítio permanente. Mas o empate e a divisão de pontos serenaram os ânimos, a polícia cumpriu o seu papel, e o saldo final acabou em quinze feridos e cinquenta detidos. Muito positivo, diga-se. Qualquer resultado que não causasse mortos nem feridos muito graves seria sempre bom. Os maiores receios não se verificaram, apesar de algumas escaramuças de rua.

Mas se o empate acalmou as hostes (se tivesse ganho alguém, não sei), traria resultados desportivos negativos a curto prazo. A favorita Rússia perdeu com a sofrível Grécia e os checos impuseram uma derrota à Polónia (em Wroclaw, antiga cidade prussiana de Breslau, muito perto aliás da fronteira checa, pelo que estavam muitos milhares de adeptos desse país). O anfitrião e a talentosa selecção da Federação Russa, que tantas desgraças evocavam e que tanto receio causavam pelo choque dos seus adeptos, ficaram fora do torneio. A pólvora seca entre adeptos contagiou os jogadores. Quem diria...