segunda-feira, fevereiro 27, 2012

Depois do Carnaval

Chegou a Quaresma. Há que cumprir os quarenta dias de sacrifício, humildade e temperança. O Carnaval que a antecedeu podia ser mais apagado em função da avareza de tolerâncias de ponto verificadas este ano e pela crise da nossa economia. Mas ao que parece houve na mesma corsos, desfiles, máscaras, folias tradicionais e sambas com o fresco de Fevereiro. Acho uma certa piada às tradições semi-pagãs e telúricas que se assinalam por esse país fora, mas aos desfiles de samba não lhes vejo piadinha nenhuma. Uma pena que não tenham ido buscar a inspiração a Veneza em lugar do Rio. De qualquer modo, ainda há quem se esforce por, à falta dos entrudos de outrora, inspirar-se na Serenissima e deixar uma réstia de civilização para ver se pega. Mesmo que não faça escola nem se torne moda entre as massas, a tentativa é sempre bem vinda e o esforço digno de aplauso, para que continue.

sábado, fevereiro 25, 2012

Tesouros inesperados 2

Podem-se encontrar tesouros de grande valor material, ou então outros que não sendo tão comparáveis à caverna de Ali Babá, oferecem uma perspectiva comercial (ou estética, ou museológica) interessante, como os referidos no post anterior. E ainda há os que, a despeito do seu valor em dinheiro, ainda espantam pela sua utilidade, ao fim de anos e anos de protecção.

Houve uma notícia do ano passado que me deixou a sorrir pela perenidade de certos tesouros. Nas profundezas do mar Báltico, entre a Suécia e a Finlândia, uma equipa de mergulhadores descobriu um navio afundado, contendo uma carga de garrafas protegidas por trapos. Desarrolhadas, revelaram um champanhe de primeira ordem, que depois de várias amostras, e por não ser possível identificar o rótulo, se provou ser da Veuve Clicquot. Mais ainda, seriam uma oferta de Luís XV (ou XVI, depende do ano do naufrágio) a Catarina a Grande, da Rússia, o que só aumenta o valor da descoberta. Ao que parece, a temperatura ambiente a escassa luminosidade permitiram que a bebida se conservasse em perfeito estado. Assim, as garrafas com o néctar permaneceram intactas no fundo do Báltico sem que nunca tivessem chegado ao destino. Dificilmente chegarão, porque a carga, pela sua propriedade, deve pertencer a França, a não ser que algum dos habituais multimilionários russos compre alguma garrafa, o que é bem possível.

É verdade que descobrir preciosidades em ouro e pedras preciosas deve ser emocionante. Mas e descobrir uns invólucros com um líquido desconhecido dentro? À primeira ideia não parece ser grandemente divertido. Mas saber-se depois que é um champanhe do século XVIII, da melhor categoria e perfeitamente conservado talvez cause alguma emoção. Fica a dúvida se quereria uma gratificação monetária pela descoberta ou se preferia ficar com algumas garrafas em proveito próprio, que se não fosse um naufrágio naqueles mares tempestuosos, estas primeiras amostras de Veuve Clicquot teriam sido consumidos por boiardos russos e amantes da imperatriz.

sexta-feira, fevereiro 17, 2012

Tesouros inesperados


As histórias de descobertas de tesouros inesperados sempre me interessaram, pelo acaso da Fortuna poder estar ao virar da esquina, pela natureza dos objectos encontrados, e evidentemente, a parte glamourosa na novidade.
O famoso cozinheiro britânico Jamie Oliver encontrou na cave de um antigo banco que estava em obras de restauro para se transformar em restaurante, em Manchester, vários cofres, datados de 1935, com armas, jóias, dinheiro, e, mais importante, cassetes com gravações raras dos Joy Division e da sua metamorfose electrónica, os New Order. A descoberta levanta várias interrogações: a quem pertencem os bens ali guardados? Porque é que nunca os levantaram, quando o edifício mudou de funções? Qual a recompensa que caberá a Oliver? Os New Order farão ideia do material que ali estava? E a pergunta que mais pessoas farão, as cassetes estarão ainda em bom estado, de forma a que ainda se possa ouvir a voz de Ian Curtis em canções inéditas?
Nunca ninguém disse que um cozinheiro não podia ser editor de música.

quarta-feira, fevereiro 15, 2012

Memória e reconhecimento


Os timorenses têm a memória menos curta e são mais gratos do que os portugueses
. E não esquecem quem sempre esteve com eles, muito antes dos massacres de Santa Cruz, quando todos os outros, por desconhecimento ou falta de carácter, deixavam Timor à sua sorte. Quem se lembrar do vergonhoso episódio da delegação oficial portuguesa, na cerimónia da independência de Timor-Leste, que resolveu esquecer-se de convidar o Duque de Bragança, perceberá porquê. Agora essa aindignidade ficou em parte sanada. Graças a Ramos Horta, e não a qualquer autoridade oficial ou titular de um orgão de soberania da "república portuguesa".

sábado, fevereiro 11, 2012

Os gastos da república francesa



Já sabíamos que a Presidência da República de Portugal gastava mais do que a Casa Real de Espanha. Agora, um deputado socialista francês publicou um livro onde denuncia os gastos exorbitantes de Nicolas Sarkozy. Vejam um excerto:

No orçamento do Eliseu contam-se gastos como 120 mil euros por ano para os seguros da frota automóvel, mais 327 mil euros por ano em combustível. E só na semana passada, os cofres públicos terão perdido 26 mil euros para cobrir o envio de uma equipa de médicos à Ucrânia a bordo do avião presidencial para dar apoio a um dos filhos do presidente, Piérre, e trazê-lo de volta a Paris. E a austeridade, não chega ao presidente?, perguntarão os franceses. Há uns tempos, Sarkozy cancelou a festa anual nos jardins do Eliseu, num passo aplaudido pela opinião pública por poupar quase 600 mil euros dos cofres estatais. Mas desengane-se o eleitorado, diz Dosière, que a poupança fica por aí. O presidente de França gasta tanto, diz o socialista, que o Orçamento do Eliseu ultrapassa as despesas anuais da Rainha Isabel II de Inglaterra. Afirmação suficiente para engasgar o menos republicano da República por excelência.


Por trás de todas as mudanças dos últimos duzentos anos, permanecem traços imutáveis da velha França. Ao lado do motto "Liberté, Egalité, Fraternité", aparece sempre um presidente que poderia facilmente dizer L´Etat c´est moi, sobretudo desde De Gaulle. No caso de Sarko, é mais um Napoleão sem génio militar, com mal disfarçadas pretensões gaullistas mas sem a grandeza do general, e com o fausto de Luís XIV mas sem um Colbert.
Todas estas notícias, a serem verdadeiras, são mais uma machadada daquele ridículo mito de que "as monarquias gastam mais dinheiro do que as repúblicas".

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

Homenagem a uma Senhora



Falando ainda de senhoras pertencentes a famílias reais, a história de D. Adelaide de Bragança merece toda a atenção. Ao contrário de Isabel II, nunca reinou, e durante muitos anos nem sequer pôde pisar solo português, já que pertencia ao ramo miguelista banido pela Convenção de Évora Monte. Neta de D. Miguel, D. Adelaide cresceu em Viena e assistiu ao Anchluss. Trabalhou como enfermeira durante a guerra, integrou a resistência ao nazismo com o nome de código "Mafalda" e foi por isso condenada à morte e salva pela intervenção de Oliveira Salazar. Voltou à resistência, e a ser condenada à pena capital, e aí salvou-a a intervenção dos soviéticos, que por pouco não a enviaram para a Sibéria, só a libertando depois de descobrirem que ajudaram resistentes comunistas. Depois de tantas atribulações, conseguiu enfim ir para Portugal, extinta a Lei do Banimento, e instalou-se em Almada. Aí deparou-se com a miséria material da população e criou a Fundação Nun´Álvares Pereira, de apoio aos mais carenciados,em especial crianças e mulheres grávidas, fazendo disso o seu modo de vida, enquanto o marido, o médico holandês Nicolaas Van Uden, participava na criação do Instituto Gulbenkian de ciência.


Esta senhora notável recebeu do Presidente Cavaco Silva a Ordem de Mérito Civil a 31 de Janeiro último, dia em que completava cem anos, perfeitamente lúcida e rodeada de inúmeros familiares e admiradores. Quando tantas condecorações se tornam inúteis e corriqueiras, e vão parar a gente de pouco préstimo, é reconfortante saber que ainda há quem as mereça e seja lembrado, ainda que para isso tenha de chegar ao estado de centenário. Mas sobretudo o que me alegra é saber que há quem tenha tido vidas extraordinárias, passado por grandes tormentos e se tenha dedicado a cuidar dos outros, em especial dos mais carentes, e que esse exemplo e testemunho sejam reconhecidos antes que fosse tarde demais. Dona Adelaide teve uma vida extraordinária e exemplar, de que muito poucos, mesmo na literatura, se podem gabar.


segunda-feira, fevereiro 06, 2012

God Save the Queen



Poucos monarcas reinaram durante tanto tempo. A Rainha Vitória esticou de tal forma o seu reinado - quando a Grã-Bretanha era o maior império à face da Terra - que o tempo em que viveu e as regras sociais cunharam o seu nome. A sua trineta não teve anos tão esplendorosos. Vitória viu o Império crescer, Isabel II viu-o desaparecer e o Reino Unido perder a sua hegemonia, com simbolismo máximo no desastre do Suez. Ainda assim, agarrou ainda muito nova a coroa, com a morte de seu pai Jorge VI, depois de ter assistido à Segunda Guerra bem acima da sua cabeça e de conduzir ambulâncias, sem sair de Londres, devastada pelas bombas. viu, como se disse, o Império cair, mas a sua figura manteve-se como chefe de estado em muitas antigas colónias através da Commonwealth, prova do seu prestígio. Doze primeiros-ministros passaram por ela, começando em Sir Winston Churchill, passando por Eden, MacMillan, Wilson, Thatcher e Blair. Assistiu a todas as mudanças no mundo desde os anos cinquenta. Aguentou a decadência económica e militar britânica, o punk que fazia dela o bombo da festa, o thatcherismo que liquidou boa parte do que restava da Revolução Industrial, e o annus horribilis de 1992, que teria um prolongamento em 1997, com a morte da Princesa Diana. Passou por isso tudo e mantém-se como uma figura reverencial, uma espécie de mãe distante dos britânicos e dos povos da Commonwealth.


Isabel II tornou-se soberana há 60 anos. Faltam apenas três para suplantar a sua mítica antepassada. Mais antigo do que ela só Rama IX, da Tailândia. Durante esses sessenta anos, tem reinado com a dignidade a que está obrigada e a que as circunstâncias a obrigam. A sua figura inspirou mesmo um filme, The Queen, de Stephen Fears, e deu um Óscar de interpretação a Helen Mirren, que na cerimónia em que ganhou o prémio não deixou de a invocar e de a homenagear.
O reinado de Isabel I, um período de ascensão da Inglaterra, ficou conhecido como o período Isabelino. O de Vitória, outra época de apogeu britânico, como se disse, a época vitoriana. Não sei como ficarão conhecidos estes largos anos em que Isabel II reinou. Não foram anos brilhantes para o seu reino, agora chegado às Bodas de Diamante. Mas isso apesar dela, e nunca, nunca , por culpa de quem cumpriu o seu dever de forma irrepreensível. Pudessem os súbditos dizer o mesmo.
God Save the Queen.

domingo, fevereiro 05, 2012

Um "retrocesso" exemplar


A revisão da lei do aborto em Espanha é um dado que merecia mais atenção. Não me lembro de nenhum outro governo ou regime ter revertido uma norma semelhante. Neste caso, mais do que revogar as recentes mudanças de Zapatero (que permitiam, por exemplo, que raparigas de 16 anos abortassem sem autorização dos pais), eliminaram-se as leis do aborto livre e sem fundamento, sendo agora meramente permitido em caso da malformação do feto, perigo de vida para a mãe a violação. Não sei se será a feliz reversão isolada de uma tendência preocupante que parece ter-se tornado moda (ou pior ainda, um novo "direito humano das mulheres"), ou o início de uma nova discussão e de um novo entendimento sobre o aborto. Haja esperança. Em todo o caso, é de louvar a coragem do novo governo espanhol em remar contra a maré de lugares comuns politicamente correctos e propaganda massiva, mesmo que isso não agrade a muitos, como o nosso conhecido Bloco de Esquerda, de que escreverei daqui a dias.
Mais duvidosos foram alguns títulos de jornais, falando de "retrocessos", numa linha editorial de sensacionalismo (ou parcialidade) pouco saudáveis para uma imprensa credível. Mas até se pode desculpar: é que há retrocessos desejáveis, quando os avanços vão na direcção da auto-destruição.

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

Um Manifesto para Portugal

O Manifesto Instaurar a Democracia, Restaurar a Monarquia, lançado precisamente 104 anos depois do infame regicídio que faz parte dos genes da 1ª República, com Gonçalo Ribeiro Telles como primeiro subscritor, está lançado. Podem vê-lo, bem como os principais autores e co-autores e condições de subscrição, aqui.

terça-feira, janeiro 31, 2012

Moretti bem que merecia uma estatueta


Já saiu a lista dos nomeados aos Óscares. Bem sei que só por si não é pressuposto de bom cinema, mas de um razoável espectáculo (este ano deve ser bom, com o meu conhecido Billy Crystal), e este ano inclui Scorcese, Spielberg, Merryl Streep, Clooney, Woody Allen, Malick e demais passadeira vermelha - parece que só mesmo Clinto Eastwood ficou de fora, sem que o seu biopic de J. Edgar Hoover convencesse os críticos (a propósito, tenho de ir ver esse).

Há ainda uma curiosidade muda franco-americana, O Artista, mas em termos de filmes estrangeiros, dos quais ficou arredado José e Pilar, não há grande realce, excepto o iraniano Uma Separação, que de que me disseram o melhor possível. Por isso mesmo, mais estranha se torna a ausência de um dos melhores filmes que por aí andaram no ano passado, Habemus Papam, de Nanni Moretti.
O filme é ao mesmo tempo ousado e cómico. Ousado porque aborda a fraqueza do Sumo Pontífice, que deveria estar abençoado pelo Espírito Santo, e se atreve a perscrutar o Conclave e o mistério que o envolve. Cómico por todas as situações porque passam as personagens, em especial os cardeais, que se revelam tão humanos e com tantas dúvidas e fraquezas no momento da escolha, como na notável cena em que os seus pensamentos temerosos se tornam ensurdecedores, ou até a Guarda Suíça (pelo meio, e a acreditar que o Papa anterior era João Paulo II, que morreu em Abril, pode-se ver o dia do juramento desse corpo de guarda pontifício, todos os anos a 6 de Maio, dia de São Dâmaso e do saque de Roma).


A história do Papa deprimido, que não tem coragem de se revelar ao público na janela de S. Pedro, e que passa por um longo processo de recuperação, incluindo a psicanálise e mesmo a fuga (que recorda um pouco As Sandálias do Pescador), parece uma adaptação de Os Sopranos transposta para o Vaticano. É difícil imaginar o Sumo Pontífice com depressões, pese embora a sua normal idade avançada e as suas múltiplas preocupações. Mas a hipótese de uma recusa após a eleição é plausível. Os Conclaves duram dias, desespera-se pela fumo branco, que até já deu origem a expressões populares. Terá já acontecido, na história? Possivelmente. Mas que eu me lembre, nunca se tinha colocado essa questão, ao menos no cinema.
Bento XVI chegou a dizer que certamente alguns Papas não tinham sido abençoados pelo Espírito Santo, que guia os cardeais na sua eleição. Neste caso, parece que assim aconteceu. O recém eleito cardeal Melville não tem forças para assumir a sua missão e provoca uma crise velada, agravada com a sua fuga, durante a qual deambula por Roma. Entretanto, sucedem-se cenas de antologia, como as mundanas rivalidadezinhas entre os cardeais, a passagem da música todo cambia, de Mercedes Sosa, recebida com deleite, e a incapacidade total do psiquiatra contratado para tratar o Papa, interpretado pelo próprio Moretti, para levar a bom termo o seu dever. Para colmatar o insucesso, e como não pode sair do Vaticano até que o Conclave termine (o que implica que o Papa se dê a conhecer publicamente), o psiquiatra entretém os cardeais, aconselhando-os a que remédios tomar, e formando com os prelados equipas de voley divididas geograficamente, o que acaba por provocar inusitada euforia e revelar que têm mais forma do que aquilo que aparentam.

Mas independentemente dos fantásticos momentos de humor do filme, o reconhecimento de incapacidade assumida pelo próprio Pontífice parece tomar formas de tragédia silenciosa. Se a ideia de um Papa recusar a sua missão apenas entre o segredo da Capela Sistina, permitindo nova eleição, já de si causa algum desconforto, que dizer da renúncia pública na varanda de S. Pedro? Será o único responsável aquele que declina a missão de pastor perante Deus e os homens, com um emudecedor non sum dignus, ou os cardeais não foram mesmo guiados pelo Espírito Santo? Este é um filme que poderá parecer ligeiro, mas cujas interrogações, e sobretudo as cenas finais, inquietam qualquer católico, e porque não dizê-lo, qualquer mortal. E não será isso, precisamente, um pressuposto para considerarmos um grande filme?
Quem é que não se lembrou de o colocar na lista de Melhor filme estrangeiro deste ano? E com que suborno?

segunda-feira, janeiro 30, 2012

As perguntas (sobre os feriados) que se impõem

Confirmou-se. Os feriados civis a suprimir são os de 1 de Dezembro e 5 de Outubro. Os religiosos serão, em princípio, o Corpo de Deus e a Assunção de Nossa Senhora (15 de Agosto). Á partida, e apesar de não gostar do significado do que se comemora a 5 de Outubro (que não é o Tratado de Zamora), sou contra a eliminação de feriados, não só porque os efeitos serão escassos na maior produtividade do país - e logo este ano, em que a maior parte calha em fins de semana - mas sobretudo porque meros critérios económicos não podem sobrepor-se à História ou à comemoração de factos tidos como relevantes para a Nação. Só mesmo a caducidade dessas razões, ou motivos que se lhes sobreponham, podem anular feriados.

Mas neste caso, o que eu gostava mais de saber é quais foram os critérios que presidiram à escolha destas duas datas em particular. Sim, se Portugal é independente, porque é que foram logo suprimir o 1 de Dezembro? E se vivemos numa república (com nome oficial de "república Portuguesa), porquê o 5 de Outubro? Não houve qualquer explicação do sr. Ministro da Economia. Esqueceu-se ou não convinha?

Quem também devia ser interrogado eram alguns dirigentes do PS, que ficaram muito indignados (o sentimento da moda) com a supressão do 5 de Outubro. Não lhes ocorreu falar no 1 de Dezembro por ignorância ou porque simplesmente veneram mais a data do golpe republicano do que do corte de ligações com Castela? A mesma pergunta se podia fazer a António Costa, presidente da CM de Lisboa, que prometeu continuar com a cerimónia do hastear da bandeira nesse dia, mas que nada disse sobre a habitual homenagem aos Restauradores. Também se acaba, ou a história começou em 1910?

Outro a quem se podia perguntar que ideia lhe passou pela cabeça era a João Proença. Uma das condições, não aceite, para a assinatura do Pacto de Concertação Social, era a manutenção do 5 de Outubro. Ao que parece, o Governo preferiu a hostilidade da maçonaria à da Igreja (com quem, caso contrário, romperia um acordo) e não cedeu na supressão do feriado da república. Sempre gostava de saber se João Proença preza mais a sua condição de maçon do que de sindicalista. E que explicasse porque é que fazia finca-pé em manter um feriado comemorativo da instauração de um regime tão pouco simpático para os sindicatos, e em que a figura mais relevante ficou justamente conhecida por "racha-sindicalistas".

sexta-feira, janeiro 27, 2012

Confusões húngaras e hábitos eternos

 
 
As recentes alterações constitucionais na Hungria têm feito correr muita tinta pela Europa fora e muito nervosismo entre as instituições comunitárias. O caso merece ser estudado com atenção, sem demagogias apressadas nem condescendências ideológicas. Mas quase que me ri ao ver uma reportagem num Público de há dias, em que o ex-primeiro ministro húngaro, Ferenc Gyurcsany, afirmava que era preciso "uma oposição forte e credível" na Hungria. Para quem não se lembrar, Gyurcsany, que governou o país entre 2004 e 2009, era um José Sócrates húngaro, para pior. Liderou o movimento juvenil do Partido dos Trabalhadores Húngaros (que dominou a Hungria comunista até 1989), e depois da revolução que libertou o país trabalhou e dirigiu várias empresas financeiras, tornando-se num dos homens mais ricos da Hungria. Depois voltou à política e liderou o Partido Socialista Húngaro (MSZP), onde pontificavam muitos outros "reciclados" dos tempos do comunismo, e o governo. O estado calamitoso das finanças húngaras obrigou-o a adoptar medidas de austeridade e pedir ajuda ao FMI. Mas o grande pomo da discórdia aconteceu em 2006, quando foram divulgadas gravações em que Gyurcsany afirmava que para ganhar as eleições legislativas realizadas pouco tempo antes tinha "mentido dia e noite", ao longo dos anos anteriores, sobre a real situação do país. As declarações eram reais e provocaram motins e manifestações violentas por toda a Hungria, exigindo a sua demissão, que só veio a acontecer três anos depois. Como se vê, a credibilidade de Gyurcsany é nula.


Mas o ambiente no país não é o mais saudável, embora esteja algo empolado por alguma comunicação social da Europa ocidental. O Fidesz, partido de direita conservadora (outrora liberal, mas que ocupou o lugar do vegetativo Fórum Democrático Húngaro, um pouco como em Espanha aconteceu com o PP e a UCD) que conquistou uma robusta maioria absoluta em 2010, aproveitando o descrédito dos socialistas, tem feito uma série de alterações constitucionais que colocam em causa a independência da justiça, desde logo quando atribuem poderes ao procurador-geral para decidir em que tribunais é que os casos podem ser julgados, e pretendem tornar o sistema em parlamentarismo puro, quando as reformas dos círculos eleitorais tendem a favorecer no futuro o Fidesz. Aparentemente, ao primeiro-ministro e líder do partido, Viktor Orban, tido como populista (mas não um déspota), o poder da robusta maioria do FIDESZ subiu-lhe à cabeça. Isso e o desejo de varrer todos os legados do regime comunista, pelo que não hesitou em acusar os socialistas de serem culpados dos crimes do anterior regime - também aqui há alguns pontos em comum com Espanha. Se muitos dos actuais membros do MSZP estiveram realmente nos organizações juvenis do partido único, já é mais duvidoso implicá-los em crimes, quando eram tão novos, e para mais tendo sido a Hungria um dos países do Pacto de Varsóvia que mais cedo começou a abrir-se.

Mais inquietantes serão algumas ideias próximas do irredentismo húngaro, já que se pretende atribuir o voto às minorias húngaras que há muito vivem na Eslováquia, Roménia e Sérvia, e o crescimento do Jobbik. Este movimento, que há meia dúzia de anos nem tinha representação parlamentar, ficou em terceiro lugar nas eleições de 2010, com cerca de 15% dos votos. Nacionalista, anti-semita e irredentista, é claramente herdeiro do movimento fascista dos anos trinta e quarenta, a Cruz em Seta, que se aliou à Alemanha nazi, e até teve a sua própria milícia fardada. As ideias de Orban, evidentemente, são de natureza bastante diferente, mas se se pode estabelecer um paralelo entre o Jobbik e a Cruz em Seta, também a comparação entre o primeiro-ministro e o Almirante Horthy, esse "regente sem reino" que esteve à frente dos destinos do país durante vinte anos, não será de todo descabida.
 

A Hungria é um país de pequenos proprietários, de guerreiros e de aristocratas, mas é também um país de protestantes, no seu sentido político. Recordem-se a revolução de 1848, contra a Áustria, que daria origem à monarquia dual, a de 1956, contra o regime comunista, esmagada pelos tanques soviéticos, e o movimento mais pacífico que acabou com esse mesmo regime, em 1989. Recentemente, tivemos os referidos protestos violentos contra Gyurcsani, em 2006, e há dias, quando Orban celebrava a nova constituição na ópera de Budapeste, milhares de manifestantes (entre os quais o próprio Gyurcsani) protestavam contra a nova lei fundamental.
Em Portugal, críticas recentes sobre o executivo a propósito das nomeações de cargos para a EDP e a Águas de Portugal confirmaram que não há governo imune aos jobs for the boys das respectivas cores, ou não fossem os aparelhos partidários a eleger os seus líderes. Temos agora nova polémica sobre a não renovação do programa de Pedro Rosa Mendes na Antena 1 depois das críticas às relações de quase subserviência do governo Português para com o angolano, o que recorda os casos do governo Sócrates no que toca à comunicação social (e antes o de Santana Lopes).
Seja qual for o governo ou regime húngaro no poder, não está isento de protestos públicos, por acusações de autoritarismo ou de mentiras. Em Portugal, os governos também mudam, mas certas tentações e determinadas relações, que implicam sempre uma ligeira genuflexão, essas, nunca passam.

domingo, janeiro 22, 2012

Guimarães é enfim capital



Guimarães está de parabéns. É finalmente Capital Europeia da Cultura e brindou os presentes com um belo espectáculo de abertura. Pelo ano fora haverá uma extensa agenda de eventos à escolha do freguês. Se na hipótese improvável nenhum agradar a quem visitar o velho burgo, o centro histórico da cidade (distinguido pelo UNESCO, não esquecer) e zonas vizinhas são razão mais do que suficiente para justificar a deslocação.


Claro que a preparação da Capital Europeia da Cultura não ficou isenta de polémicas, discussões e pequenos choques de egos (ainda assim numa dimensão muito mais pequena que a do Porto 2001, e presumo que a de Lisboa 1994 também). É impossível evitá-lo. Mas numa região (entre Cávado e Ave) há muito economicamente deprimida pela crise da indústria têxtil, mas com enorme património histórico, e num ano bastante difícil, pode vir a ser muito importante para alguma reabilitação da economia regional, juntando a isso o facto de Braga também ser Capital Europeia da Juventude deste ano, mostrando que a rivalidade entre as duas cidades está presente em todas as dimensões. Além disso, nada como alguma festa e distracção para desanuviar as mentes dos tempos mais sombrios que atravessamos.


O facto de uma cidade média do nosso país ostentar essa distinção europeia deve ser motivo para orgulho nacional. Pena é que a generalidade dos blogues, ao menos pela rápida revista que tenho feito, se tenha alheado quase por completo do acontecimento. O provincianismo endémico de pretensas elites é algo a que já nos habituámos. E também os canais privados, que preferiram abrir os seus noticiários com uma refrega entre grupos de extremistas de esquerda e direita em Lisboa. Mais um bom exemplo para justificar a existência de um serviço público de televisão, nem que se resuma a um canal.

terça-feira, janeiro 17, 2012

Fraga Iribarne, 1922 - 2012





Lembro-me de há já muitos anos estar na praça do Obradoiro, em Santiago de Compostela, e de da escadaria da imponente catedral me apontarem para o palácio fronteiro, sede da Xunta da Galiza, comentando que "o Don Manuel Fraga Iribarne deve estar ali a trabalhar". Esse "Don Manuel", que a partir daí confundi sempre com a Galiza e depois, conhecendo a sua história, com a direita espanhola dos últimos quarenta/cinquenta anos, morreu ontem, já com quase noventa anos e sérios problemas de saúde. A biografia dele pode ser lida na imprensa de hoje, em especial no artigo de Pedro Lomba do Público de hoje, pelo que não vale a pena fazer largas cronologias. Ministro de Franco durante vários anos, com importância na atenuação da censura, promotor do turismo em Espanha, e depois, na Transicion, um dos "pais" (o mais velho, mas não o primeiro a desaparecer) da actual Constituição de Espanha, referendada e aceite por mais de 90% dos eleitores. Depois constitui a Aliança Popular, representante da direita conservadora, que viria a crescer com o desaparecimento da UCD centrista, e tornou-se o líder da oposição a Felipe Gonzalez nos anos oitenta, até que reformou o seu movimento, transformando-o no Partido Popular, e entregou-o ao jovem José Maria Aznar. Tentou conquistar o governo regional da sua Galiza, e teve tanto êxito que por lá ficou 15 anos.

Para além do contributo na actual Espanha monárquica e democrática e na Galiza dos últimos vinte anos, era um figura algo fora do comum, com o seu quê de populista em conjunto com a faceta mais juridico-intelectual. As suas afinidades com Fidel Castro ficaram célebres, talvez pelas origens galegas do cubano e pela experiência cubana durante a infância do segundo; consta que na visita de Castro à Galiza, em 1992 (esse ano em que Espanha esteve nas bocas do Mundo), a conferência de imprensa final teve de ser cancelada porque os dois tinham cedido em demasia ao vinho Alvarinho e não estavam de todo em condições de falar em público. Fraga também manifestava muitas vezes a sua truculência e alguma arrogância, o que o levou a cometer alguns erros, como a sua negligência no grave caso da maré negra do Prestige em que ainda se encontrava a caçar em Toledo quando o crude já se espalhava nas praias galegas. Esse episódio e algum desgaste acabaram por ditar a sua derrota nas eleições autonómicas seguintes e a sua quase reforma da política activa.


Fraga era uma daqueles líderes políticos nacionais que, embora sejam protagonistas da cena política nacional, nunca chegam ao topo da governação e acabam por regressar às origens, alcançar o poder local. Outro exemplo muito semelhante era o bávaro Franz-Joseph Strauss, sobre quem o galego escreveu aliás um epitáfio.


Teve sempre uma boa relação e cooperação com o Norte de Portugal, em especial com o Minho -soube hoje que a reintrodução da cabra montesa no Gerês a ele se devia - recebeu um Doutoramento honoris causa da Universidade de Lisboa, e até por isso essa controversa figura merecia ser lembrada. Recebeu elogios unânimes nos meios políticos, de Santiago Carrillo a Aznar, passando por Gonzalez e Mário Soares. Mas na blogoesfera reina um enorme silêncio, só cortado pelos extremistas de serviço, que lamentam que não houvesse "justiça" (qual, a das espingardas da Passionária?). Desinteresse, ignorância ou a política ficou definitivamente para trás?

segunda-feira, janeiro 16, 2012

Oito anos


O primeiro post data de 17 de Janeiro. Durante muito tempo, distraidamente, pensei que fosse de 16. Mas a verdade é que o escrevi depois da meia-noite, e a criação do blogue propriamente dito é ligeiramente anterior, aí uma hora, incluindo a sua denominação. Por isso, o aniversário deste espaço deve ser sempre comemorado entre 16 e 17, ou num dos dias, à escolha, dado que o parto deu-se entre dois dias, um pouco como aquelas pessoas que nascem a 29 de Fevereiro. Sim, é possível blogar durante oito anos seguidos, com momentos altos e baixos, bem entendido. É compensador mas também cansa. Para já, chegámos a esta bonita idade, à espera dos sempre adiados "posts prometidos"...

sexta-feira, janeiro 13, 2012

Os puritanos do fumo


Como temerosamente se previa, querem agora proibir o fumo em todos os espaços fechados, e até à porta de cafés, bares e restaurantes, segundo mais um "estudo cientificamente comprovado". Julgava que a anterior lei é que era moderada, mas enganei-me. Os representantes do puritanismo americano na saúde aí estão, a querer proibir o fumo em qualquer local "público", antes de o fazerem nas casas das pessoas (ou julgam que se querem ficar por aqui?). O sonho deles deve ser o de poder viver numa nova Lei Seca e inodora. O argumento de que pode prejudicar a saúde dos outros não colhe, como se os bares, restaurantes e cafés não fossem locais de sociabilidade, lazer e de livre escolha, ou se uma hora com fumo próximo, mesmo como respiradouros, levasse à morte. O de que "os fumadores atiram-me o fumo para a cara" é outra falácia: quando isso acontece, e até nem é na maior parte das vezes, trata-se de falta de atenção e civismo, como se o fumo não pudesse ser desviado com uma simples troca de posição. Qualquer fumador mundano (classe onde me posso incluir, já que o fumo é para mim um hobbie raro)Trata-se pura e simplesmente de um problema moral: há gente que não gosta de ver outras a fumar e quer impedi-las de o fazer. Tão simples como isso. Apesar de tudo, noto que a opinião pública está pouco favorável a estas ideias totalitárias. Espero que os senhores que têm estas ideias estapafúrdias e proibicionistas percebam isso.
PS: segundo o Expresso deste fim de semana, os totalitaristas da saúde querem também acabar com as máquinas de tabaco. E numa notícia televisiva, citou-se um desabafo de uma destas criaturas: "o ideal era que não houvesse fumadores". Estarão a pensar em criar "campos de educação" para quem fuma?

segunda-feira, janeiro 09, 2012

Polémicas em barda

Novo ano (é o primeiro post de 2012), e já temos polémicas em barda. A importância entre elas é relativa, mas pela amostra, o ano vai ser agitado, ou então as consicências andam tão exaltadas que tudo servirá para discussão.
Começou logo com o caso da transferência da participação da família Soares dos Santos nas acções da Jerónimo Martins para os Países Baixos. Gerou-se um sururu provavelmente exagerado e empolado, mas quem andou anos a moralizar o país e a dizer que tínhamos de "remar todos para o mesmo lado" já devia esperar alguma reprovação no momento em que resolveu remar para um lado diferente.


Depois, e aí a polémica parece-me totalmente justificada, temos o caso dos relatórios da comissão parlamentar sobre o caso Silva Carvalho/SIED e as revelações que aquele terá feito para o exterior, juntamente com a sua ligação a uma loja maçónica onde está boa parte dos executivos da ONGOING e alguns ilustres PSD, a começar pelo seu líder parlamentar, o nóvel Luís Montenegro. Entretanto, gerou-se um debate acerca da influência da Maçonaria na vida política do país e a sua rápida apologia por quem está no meio ou por quem, por alguma razão, pretende aparar-lhe os golpes. Não nego a ninguém o direito de pertencer à loja que quiser, ou participar nos rituais que bem entender, desde que não passe disso. Simplesmente, a Maçonaria sempre interferiu na vida pública através de uma influência demasiado grande, do século XVIII até ao presente, com grande participação na 1ª república, e em que políticos, empresários e magistrados sempre coabitaram, frequentemente trocando favores. O episódio da tentativa de eleição de Fernando Nobre (que já se assumiu como maçon) para a presidência da AR é ilustrativo. Não, a Maçonaria não é um mero conjunto de clubes de cavalheiros para discutir símbolos místicos. O seu poder e a sua influência não são tão conhecidos como deviam, mas é inegável que a sua extensão seja larga. A indignação de alguns pelo apelo à assunção de pertença a tais "estabelecimentos" mostra bem como o assunto tem incomodado os "pedreiros-livres". Não há uma derrogação da liberdade se certas funções tiverem a obrigação de assumirem essa condição, por razões de compatibilidade; mas há quando tais grupos secretos condicionam o processo político. Se bem que esperar que os pedreiros venham para a luz do dia seja pedir muito...


E depois, a última questão, a das imagens das claques em poses agressivas nos corredores de Alvalade. Houve inúmeras conotações com a extrema-direita, mas confesso que ao olhar para lá aquilo só me lembrava os comícios do Hamas ou do Hezbollah...
A continuar assim, 2012 promete vir a ser um ano agitado.
PS: como era de esperar, uma dessas polémicas já tem o seu videozinho com o Hitler, em mais uma enésima adaptação de der Untergang...

sábado, dezembro 31, 2011

O perigo dos Indignados


Acaba o ano, e eu com tantos posts em atraso, num conjunto de indolência (como nos acusam os chineses de ser), tempo mal organizado e desinspiração. Há um post que já leva quatro meses de atraso, mas que me parece que ainda não perdeu total pertinência. quem achar que vem a destempo, pode sempre ficar-se pelo primeiro parágrafo.
O acontecimento do ano, segundo todas as opiniões abalizadas, foi o conjunto de protestos globais que se fizeram sentir e que em alguns casos derrubaram regimes políticos. Não discordo nem um pouco da escolha. Mas já fico de pé atrás quando vejo meterem no mesmo saco os manifestantes da Praça Tahir, da Tunísia, da Rússia e do Iémen, os rebeldes da Líbia e os insurgentes da Síria, juntamente com os "indignados" de Madrid, os anarquistas da Grécia, os saqueadores de Londres e os "occupy" americanos. Pretender, como ouvi hoje numa rádio pública, que "nem só no ocidente se viram manifestações a favor da liberdade e contra a opressão" é insultuoso para os que verdadeiramente não gozam de liberdade e de um ridículo impróprio de um estação minimamente radiofónica decente. Haverá com certeza algumas razões para manifestações nas cidades americanas e europeias, mas que eu saiba aí não se está sujeito a que tanques de guerra nem a cargas aéreas.

Tudo isto vem a propósito das Jornadas Mundiais da Juventude, em meados de Agosto deste ano. Compareceram em Madrid mais de um milhão e meio de pessoas, ultrapassando as expectativas dos organizadores. Não estive lá, mas do que me contaram, e do que vi por imagens televisivas, o entusiasmo era mais que muito, mesmo quando numa vigília nocturna nos arredores da capital espanhola se levantou uma enorme tempestade e ninguém arredou pé. Mas vi também as imagens das manifestações de alguns "indignados" contra o evento. Fiquei logo abismado pelos dito terem decidido, dias antes, em "conselho", manifestarem-se contra os gastos públicos da visita. Ora esses gastos foram pagos pelos próprios peregrinos e pela Igreja. Ao Estado coube pagar a segurança e a limpeza, tal como faz com os próprios "indignados" e com imensos outros eventos, e nunca aí se viram protestos públicos. Mas as dúvidas desvaneceram-se: grande parte das manifs anti-Papa eram isso mesmo, demonstrações de anti-clericalismo primário, com malta de feições torcidas pelo ódio (não é figura de estilo, nunca vi tanta gente junta de olhos esbugalhados) a gritar, até a empurrar e agredir peregrinos, com cartazes a chamar ao Papa nazi, pedófilo, fascista, etc, bandeiras anarquistas e do PCE, aos pulos cantando "io soy, pecador, pecador...", enfim, toda uma amostra do anti-catolicsmo mais primário e grotesto. Será bom lembrar que a Espanha teve fortíssimas acções e grupos anti-clericais, como a CNT anarquista, sobretudo no período antes e durante a Guerra Civil de 1936-39, em que milhares de clérigos foram mortos, mosteiros e igrejas foram saqueados e queimados e havia quem se divertisse a revolver túmulos e a espalhar os ossos. Aqueles que se manifestavam de forma tão virulenta contra as Jornadas da Juventude eram apenas os descendentes dos "rojos", provavelmente impressionados com os relatos dos seus avós da luta contra os "fachas" e o "clero reaccionário". Os gastos públicos eram um pobre pretexto para espalharem o seu fervor laicista (reparem no -ista) e o seu fanatismo anti-clerical, em claríssima contradição com as exigências anteriores de "mais democracia". Manifestações e democracia sim, desde que sejam as nossas ideias (interesses?) a vingar, parecem dizer. Quando partem de outros, lá se vai o sentimento "democrático" e "tolerante".



Outras manifestações houve em sítios por onde o Papa passou, como Berlim, onde não há grande cultura católica. Custa-me a crer que a Igreja, que apesar da sua influência e dos seus seguidores, não tem propriamente poder político, possa causar tantos pruridos e controvérsias. Os casos de pedofilia em instituições católicas, muitas vezes abafados, são graves, mas não faltam crimes semelhantes noutras circunstâncias. A Igreja tem um passado turbulento, mas actualmente não persegue nem pune civilmente ninguém, e no entanto vemos cristãos, católicos e não católicos, perseguidos em várias partes do Mundo. Pode-se imaginar que protestos como os de Berlim, ou no ano passado, em Inglaterra, tendam a surgir como reacção em culturas fortemente anti-católicas (note-se que até agora o herdeiro do trono britânico não se podia casar com alguém que seguisse o catolicismo). Mas os de Espanha desenterram velhas questões e fazem aparecer em plena luz do dia os fantasmas do anti-clericalismo espanhol mais violento.
É certo que os acontecimentos de Agosto em Espanha não trouxeram grande mossa, e foram em parte exagerados por alguma comunicação social. A diferença de número entre os peregrinos e os "indignados" anti-católicos era abissal (qualquer coisa como cinco mil para mais de um milhão e meio), e serviu para mostrar a força de atracção e mobilização da Igreja, o que talvez enerve algumas mentes com preferência pelo jacobinismo. Mas isto serviu igualmente para revelar que entre muitos "indignados" e demais manifestantes corre uma imensa intolerância, o radicalismo próprio de revoltosos e o populismo que alimenta as massas. Fazer manifestações pretensamente justas e transversais à sociedade e desviá-las para objectivos políticos untados de fanatismo (neste caso, laicista, que não é pior que os religiosos) é um risco que as sociedades actuais correm se acharem que os problemas se resolvem todos na rua. As pessoas devem lutar pelos seus direitos, mas a fronteira entre isso e o revanchismo protegido pelas massas é muitas vezes ténue. Seria bom lembrar isso cada vez que se ouvem vozes apaixonadas por este tipo de movimentos, e pior ainda, a fazer comparações patéticas, como se os regimes políticos fossem todos iguais.
Tentarei na próxima semana actualizar assuntos em atraso (mas não passados). Bom 2012 a todos, ou que não seja pior do que 2011.

Adenda (já em 2012): lembrei-me deste notável artigo de Mario Vargas Llosa, que nunca teve uma enorme simpatia pela Igreja, e que por isso mesmo me surpreendeu. Como se a Fé o tivesse tocado. Ou simplesmente visse naquele espectáculo uma imensa comunhão fraterna e alegre. no fundo, o que as JMJ eram.

sexta-feira, dezembro 30, 2011

Nem oitenta iluminações nem oito

Se há símbolo vísivel da crise que nos caiu em cima nos últimos tempos é a quase ausência de luzes de Natal das cidades. Andando por alguns centros urbanos nem notamos que estamos na quadra. O endividamento dos municípios obrigou a inúmeros cortes, e haverá corte mais fácil do que cortar em iluminação temporária? A medida é compreensível. Antes isso do que a recolha do lixo, o saneamento básico, etc. Mas não deixa de dar um sinal de tristeza e decadência para a época. Já alguém imaginou como seria suportar o Inverno sem a animação natalícia? Novembro, Dezembro, Janeiro, Fevereiro, sem Natal? Para a maioria seria insuportável.

É certo que há casos e casos. Correu a notícia de que os municípios madeirenses nem agora iam poupar nas luzes natalícias, logo lá que nem faz tanto frio. Em muitas urbes as luzes aí estão, espalhadas por ruas e avenidas, como acontece em Braga, do sempre eterno Mesquita Machado. Mas em Lisboa e Porto, e em muitas outras, vêem-se umas lâmpadas tímidas, patrocinadas pelos comerciantes, e nada mais.
Seria insensato criticar as autarquias por quererem cortar logo aqui, sabendo-se que estão apertadas num garrote financeiro complicado. Mas podiam deixar um mínimo, algumas luzes no centro. não falo, por exemplo, dos fios de luzes que transformavam a coluna da rotunda da Boavista numa quase árvore de Natal, criando um efeito surpreendente, muito menos da autêntica árvore que ergueram durante uns anos em Lisboa e Porto. É que os tempos já são tão desanimadores que bem precisamos de luzes extra e um mínimo de animação. Se não temos grandes alegria, ao menos que haja alguma camuflagem.

Por isso mesmo, a câmara de Lisboa escusava de suprimir as luzes e colocar algumas "obras" em algumas praças movimentadas, que não dizem nada a ninguém e pouco têm a ver com a época (no Marquês de Pombal há uma série de placas, supostamente "natalícias", que têm dizeres como "presentes", "Lapónia", "Pólo Norte", etc, mas nem se lembraram ao menos de colocar Belém). Já na semana passada Miguel Sousa Tavares lançou no Expresso várias invectivas contra esta "iniciativa" camarária. Com o dinheiro gasto nesse complemento "cultural", pagava alguma iluminação e sempre dava outro ar à cidade, sem disfarces patéticos. Custava muito?

sábado, dezembro 24, 2011

Natal 2011
E mais do que tudo, hoje, um Santo Natal, o melhor possível. Que dê ao menos para por uns momentos esquecermos agruras passadas e para nos prepararmos para as futuras. Também por isso esta quadra é tão importante. Conjugado com o solstício de Inverno e a passagem do ano, o nascimento de Jesus é também o sinal de renascimento e de um novo tempo.

sexta-feira, dezembro 23, 2011

Obituário recente
Os últimos dias pareceram uma página da necrologia de jornais. As notícias da morte de alguém conhecido sucederam-se
Soube-se da morte de Cesária Évora, aos sententa anos, no fim de semana. A Diva dos Pés Descalços" já se tinha retirado da vida artística por problemas de saúde, por isso a notícia não espantou assim tanto. Mas gostei de ver as homenagens que lhe fizeram, em especial no seu país. Uma espécie de emoção dançante, muito caboverdiana. A cantora de mornas, que viveu em Portugal e em França, deu grande visibilidade ao seu minúsculo país-arquipélago, mais do que qualquer outro na diáspora caboverdiana.
Outra morte que não espantou, dada a sua grave doença; Christopher Hitchens. Confesso que não tinha especial estima por um neo-ateísta militante, praticante da retórica sibilina deste "movimento", que atacou nos seus escritos Madre Teresa de Calcutá. Mas é justo reconhecer que era um espírito inteligente e corajoso, um cronista de imenso valor e um dos poucos que realmente se podia considerar "livre-pensador", sem seguir modas nem lugares-comuns.
Logo a seguir, e com os dias de atraso naturais quando morrem ditadores, o "Querido Líder" Kim Jong Il vagou o lugar para o próximo da dinastia, o mancebo Kim Jong Un. Claro que se viu uma choradeira colectiva previsível num país de paranóicos, mas fiquei sinceramente desiludido por não terem ultrapassado, nem sequer chegado perto, a histeria aquando da morte de Kim Il Sung. Aí é que se viu um magnífico espectáculo de carpideiras, num país habituado a coreografias militares igualmente espectaculares e a tentar obter bombas nucleares, enquanto parte da população tenta sobreviver à fome.
Por fim, Hável. Václav Hável. O ex-presidente checo há muito que não tinha grande saúde, em grande parte devido ao tempo que passou na prisão em tempos do regime comunista. Quando passei em Praga, em 1998, Hável passava por um dos seus inúmeros internamentos hospitalares. Ainda assim, manteve-se na presidência da república Checa até 2003. Antes disso, fora um dos mais combatentes assinaláveis combatentes pela liberdade do seu país, desde a adolescência, em que o proibiram de estudar no liceu por vir de uma família "burguesa". Começou muito novo a dedicar-se ao teatro e à dramaturgia, participou na Primavera de Praga, foi um dos principais signatários da Carta 77, considerada uma afronta pelo regime de então, e na sequência da Revolução de Veludo, em 1989, foi eleito Presidente da Checoslováquia pela assembleia nacional formada após o colapso do comunismo e reeleito em eleições populares. Acabou por ser o último Presidente daquele país e o primeira da República Checa, depois da secessão pacífica da Eslováquia. Curiosamente, aí dois dias antes da sua morte, tive uma conversa em que se recordava o episódio picaresco da sua tomada do poder, em que o único chefe de estado convidado era Mário Soares, mas que se posicionou discretamente para não melindrar outros estadistas, e em que o carro em que seguiu para a cerimónia era um Renault de matrícula portuguesa, porque Hável não queria de forma alguma ir num carro de construção russa. Ficou também célebre a amizade com músicos americanos da sua geração, como Zappa e Lou Reed.
Deixou-nos agora, devido à sua frágil saúde, mas ficou como um símbolo pelo combate pacífico contra as tiranias. E tinha o nome do santo padroeiro do povo Checo, Václav, tal como a praça central de Praga, onde Jan Palak, outro desesperado resistente ao totalitarismo, se imolou pelo fogo em desespero.

quinta-feira, dezembro 15, 2011

Delenda Aleixo!




Se há plano da Câmara do Porto com o qual estou absolutamente de acordo é com a demolição do Bairro do Aleixo, tal como ele existe neste momento. Aquele autêntico gueto onde idosos e crianças convivem diariamente com dealers e drogados injectando-se em pleno dia, onde as pessoas vivem em meia dúzia de torres de betão horríveis em que não raras vezes os elevadores estão avariados, merece ir abaixo sem mais contemplações. Se alguém que não é de lá, por inadvertência ou qualquer necessidade, tiver de entrar no bairro, deparar-se-à com barreiras de gangues fiscalizando quem entra e quem sai (já me ia acontecendo, quando certa vez quis cortar caminho num S. João). Desde as demolições de alguns bairros na zona oriental que o Aleixo piorou e tornou-se no grande supermercado de droga do Porto. A CMP pretende derrubá-las (o sonho é antigo, já Fernando Gomes queria fazer o mesmo), realojar os moradores pela cidade e fazer ali novas urbanizações de luxo.



As críticas ao projecto são precisamente as de que os terrenos, com uma excelente vista para o Douro, estarão reservadas para os mais ricos. Não é mentira. Simplesmente, o bairro é camarário e os seus ternos pertencem à municipalidade. Correspondeu a um projecto dos anos setenta de tirar pessoas da Ribeira/Barredo, à época um lugar infecto e sobrelotado, e levá-las para os campos do Ouro. Como se sabe, o encerramento naquelas torres de betão criou um antro de criminalidade, sem paz nem lei, ao passo que o centro histórico do Porto se desertificava. Agora, a câmara quer corrigir o erro, eliminando o bairro e respectivas metástases, e, com a verba angariada com a venda dos terrenos, realojar os moradores, sobretudo no centro. Não sei se tudo correrá conforme o previsto, se as pessoas se irão integrar nas novas casas, para onde irá o tráfico de droga. Muitos dos que lá viviam tinham apesar de tudo estabelecido laços comunitários em trinta anos de vivência partilhada num espaço difícil. mas, tal como o apresentam, este plano é de longe desejável a qualquer alternativa, e incomparavelmente melhor do que a situação actual.



A primeira torre vai abaixo na sexta de manhã. A quem puder, não perca o início de uma zona finalmente limpa. Delenda o velho Aleixo!

terça-feira, dezembro 13, 2011

Passou o ciclo infernal




No meio do turbilhão de notícias que nos rodeia - a inconsequente cimeira da UE, a crise da dívida eternizando-se, a resistência de Cameron, a fábrica que já não vem para Portugal - vamos ao que interessa. O Benfica encerrou um ciclo infernal de jogos com nota suficiente mais. Um empate no terreno hostil de Braga, uma vitória pela marca mínima contra o Sporting e outra igual no terreno do Marítimo (que tem a mesma pontuação que o Braga), um empate épico em Old Trafford, um triunfo magro sobre o Otelul Galati, uma vitória mínima no terreno, ou melhor, na piscina da Naval, e a eliminação para a Taça em casa do Marítimo, a única mancha neste período e a única derrota da época em todas as competições. Assim sendo, continuamos à frente do campeonato, com os mesmos pontos que o Porto de Vítor Pereira, o que não é grande espingarda. Simplesmente, o nosso calendário está agora bem mais desanuviado: de visitas complicadas temos Alvalade, daqui a meio campeonato, e vá lá, Guimarães que pode dar para tudo.

Na Taça, já se sabe: ausências, poupanças e aqueles golos que aparecem uma vez por ano puseram-nos fora do Jamor, de novo. Começa a ser tempo de lá voltar, antes que a voragem do futebol moderno remeta a final da Taça para uma destas inutilidades de betão feitas e pensar no Euro 2004. De pouco valeu a contenda na Figueira, num campo mais próprio para pólo aquático do que para futebol, em que qualquer equipa podia ganhar.


Claro que houve particular prazer em ver o Benfica ficar em primeiro lugar no seu grupo da Liga dos Campeões. Aqueles que apostaram no Manchester em primeiro e o Glorioso em segundo devem ter ido aos arames. O empate em pleno Old Trafford (onde nunca tínhamos conseguido sequer um ponto) é mais uma página dourada para juntar a outras memoráveis da história do Benfica em Inglaterra. Para mais, a equipa entrou a ganhar, marcou, insistiu e só permitiu veleidades ao adversário a partir dos vinte minutos. E quando o "Unite" carregava e dava a volta ao jogo, perdemos o nosso capitão por lesão, substituindo-o pelo inexperiente Miguel Vítor, e ainda assim soubemos juntar forças e alcançar o segundo golo (e, acrescente-se, o primeiro tento dos mancunians estava em ligeiro fora de jogo). Poder-me-ão dizer que o Basileia também lá empatou e que ganhou aos ingleses em casa. Pois sim, mas o Benfica venceu com dez no terreno dos suíços. E isso valeu o primeiro lugar.

Não é que o futebol praticado encante como em 2009/10, longe disso, mas parece-me que Jorge Jesus está mais "resultadista". Os golos escasseiam, tanto nas balizas adversárias como nas de Artur (também por causa dele). E o espectáculo tem decaído desde o início da época, como se verificou nos jogos contra o Twente. Gostaria imensamente mais de ver o Cardozo a facturar o dobro, o Gaitan a fazer mais obras de arte, o Aimar a espalhar mais magia e o Nelson Oliveira a jogar e a marcar, se possível. Mas a verdade é que o Benfica ultrapassou muitas tormentas no campeonato - com a grande vantagem de que já não tem de vir ao Porto ou a Braga - e na Liga dos Campeões é esperar quem lhe calha na rifa (se não tiver sorte, é o Milan). No fundo, estamos a jogar à Trapattoni, mas com jogadores muito melhores do que a saudosa época em que o italiano passou por cá. Prognósticos? O Benfica ganha o campeonato, por pouco, mas ganha; e acaba a carreira europeia nos quartos de final da Liga dos Campeões. A Taça da Liga dependerá dos humores dos reservas, mas até gostaria que fosse outro clube a ganhá-la, para que este troféu começasse finalmente a ser considerado minimamente importante.

segunda-feira, dezembro 12, 2011

Dos Golpes aos Capitães da Areia

Incompreensivelmente, os Golpes resolveram suspender toda a sua actividade, tal como nos é descrito num comunicado, tendo mesmo cancelado um concerto já agendado. Não sei que problemas é que interromperam a carreira da banda, que estava em clara ascensão, depois do lançamento de um disco e meio, incrementada pelo êxito de Vá lá Senhora. Certo é que cessaram actividades como conjunto e vão dedicar-se a novos projectos. Espero é que sejam bons e que a suspensão não passe disso mesmo,e não de um encerramento definitivo de actividades. Até lá, a editora Amor Fúria brinda-nos como novos sons. Descubram-se os Capitães da Areia, uma malta nova que já me tinha surpreendido no "Dia de Portugal do Rock" (espécie de festival de garagem do 10 de Junho encabeçado precisamente pelos Golpes), com as suas canções estivais e algo nostálgicas. Como esta pequena maravilha que nos chega agora, como uns quatro meses de atraso.


domingo, dezembro 11, 2011

Milagre ou ilusão?


Por vezes, os milagres humanos acontecem. Outras vezes, as ilusões prevalecem. A melhor notícia da semana é sem dúvida a da ameaça da UNESCO retirar a classificação do Douro Vinhateiro como Património da Humanidade caso a barragem na foz do Tua vá avante. Será mesmo possível? Conseguirão os responsáveis governamentais evitar mais um mamarracho de betão (que a construir-se, seria irreversível), de duvidosa utilidade e que jamais traria os empregos e o "desenvolvimento" que alguns crédulos apregoam - é ver as enormes "valias" que tais construções trouxeram à região do Barroso - além de ser de custo elevado? Poderá o sector do betão, essa indústria que monopoliza e destrói o país, levar finalmente um golpe, convencendo-se a apostar mais na reabilitação do que no construção ex novo? Será que depois do Sabor desaparecer em grande parte no sítio onde um divertido Sócrates comentava com António Mexia que só faltava o cimento, poderemos ainda ver a salvação do Tua, quiçá da sua linha férrea única no gênero, e daquele pedaço de Douro Vinhateiro? Tudo isso poupando centenas de milhões de euros, que seriam mais bem empregues na melhoria da conservação das reservas de água e no aumento da potência de produção de electricidade das actuais barragens. A salvação do Tua - e consequentemente, do douro - pode ser ainda uma ilusão, mas quem sabe se não acontece um "milagre"...

quarta-feira, dezembro 07, 2011

Sócrates e a sombra sobre o Corinthians



O Corinthians, talvez o clube mais popular de S. Paulo, que compete com o carioca Flamengo pela maior "torcida" do Brasil, sagrou-se campeão no passado domingo. Sem grande craques, mas com uma equipa unida, para a qual muito contribuíram os golos de Liedson. Na madrugada anterior morrera Sócrates, uma das grandes figuras da equipa brasileira que espantou o mundo pela beleza do seu jogo no Mundial de 1982 (já não tenho memórias disso, logo não é das "minhas" equipas favoritas) e desse mesmo Corinthians, em especial do tempo que ficou a ser conhecido por "Democracia Corinthiana". Fiquei um pouco espantado por não ouvir grandes referências entre a morte de Sócrates e a conquista do título, nem homenagens, nem minutos de silêncio, nada. Honras, só mesmo na net. A ser assim, quereriam os corinthianos não estragar a festa do título com tristes notícias? É possível, mas então ainda é mais lamentável: os clubes vivem dos seus heróis, que até escasseiam fora do desporto. O esquecimento voluntário de um ídolo é a negação da própria alma de um clube, tal como uma família ignora o desaparecimento de um dos seus entes. Mais valia que a festa fosse menos alegre e mais contida. E que se sentissem alguns momentos de silêncio sepulcral em honra ao Doutor Sócrates. Seria a melhor homenagem.


Claro que a não ser assim, fica a coincidência triste do clube alcançar um título de campeão no dia em que morre um ídolo. Um bom exemplo de como nas horas de grande alegria também podem surgir sombras, e de como aquelas, tal como as tristezas, não são totais.

segunda-feira, dezembro 05, 2011


Quando os republicanos perdem o patriotismo


A princípio ainda pensei que fosse um qualquer exagero, mas é mesmo verdade: para Mário Soares, o 5 de Outubro é (laicamente, pois claro) sagrado, "tão sagrado para os portugueses como o 25 de Abril", porque "a maior parte da população portuguesa é republicana", mas que o fim do feriado do 1 de Dezembro "não é tão grave".



A comparação com o 25 de Abril já de si é disparatada (quem é que ficou livre a 5 de Outubro de 1910?), mas um ex-chefe de estado a afirmar que o dia da independência é menos importante que datas instituidoras de regimes com forte conotação ideológica é particularmente grave. Soares coloca a sua república à frente da existência de Portugal. Afirma claramente que prefere a "república portuguesa" a Portugal. Nem nas suas ideias federalistas tinha ido tão longe. Além do mais, como pode dizer que os portugueses se identificam com a república se esta nunca teve a coragem de se auto-referendar, e ninguém liga às comemorações do 5 de Outubro?


A lamentável ideia de que o 1 de Dezembro é um "feriado monárquico" talvez tenha influenciado esse disparate. Crio-se a ideia de que o 5 de Outubro é o feriado dos republicanos. Na realidade, e dada como certa essa data como a do reconhecimento de Portugal como reino em 1143, até faria sentido que fosse objectivamente comemorado. Assim, o 1 de Dezembro assumiu-se como o dia da Independência.


Reconheça-se que os republicanos deram enfâse ao patriotismo numa certa época, que começou com as homenagens a Camões, em 1880, e tiveram continuidade depois com o Ultimatum. É verdade que mudaram as cores e os símbolos em prol da "república portuguesa", mas também não se esqueceram de dias fundamentais da História. Até agora...

Se o 1 de Dezembro é visto como um "dia de monárquicos", então isso só significa que os republicanos perderam todo o sentimento patriótico e recolhem-se agora às suas velhas "glórias". Bem sei que não são todos assim, mas Soares é um dos últimos representantes do original republicanismo. As suas declarações têm um peso que não têm as de Manuel Alegre ou Almeida Santos, por exemplo. Ao erigir o 5 de Outubro num pedestal acima do 1 de Dezembro, mostra que a Independência é coisa menor do que golpes de radicais. Cai assim o mito, outrora verdade, do "patriotismo" dos republicanos.



O dia da Independência é conotado com a monarquia? Muito bem. Devia ser geral, mas já que assim o querem, que os monárquicos desta país mostrem que são dignos do papel manter Portugal como nação independente e de não deixarem que a memória do glorioso 1 de Dezembro esmoreça.


Ideias para comprar português


Vale a pena ler a revista Pública (acompanha o jornal Público) de hoje. Descobre-se que se pode comprar inúmeros produtos portugueses que nem se imagina que haja no mercado, desde alimentação até tecnologia, livros, e outros. Cabazes de Natal cem por cento feitos em Portugal. E ainda uma reportagem na Majora, a clássica fábrica de brinquedos portuguesa, de que ainda nesta semana, e precisamente a propósito de uma conversa sobre a produção nacional, me perguntava se ainda existiria (a resposta não demorou, bastou-me passar na Via Rápida e olhar para o lado). Se puderem, leiam a revista, tirem ideias e aproveitem para dar a vossa ajuda à economia nacional, que bem precisa.

quinta-feira, dezembro 01, 2011

Não se comemora a Independência?


Estaremos a passar o último 1º de Dezembro como feriado? Grande número de pessoas desconhece a data e a sua importância, e a comunicação social também não lhe dá grande importância. quando figuras políticas de relevo a menorizam, pondo em destaque o 5 de Outubro, e quando não há comemorações oficiais, fica tudo dito. Esperemos pela confirmação - ou não - da "passagem para o Domingo". Apesar de tudo, se o Estado se voltar a lembrar de comemorar a data condignamente, será menos mau. Os conjurados que puseram em risco a vida é que muitas voltas devem dar nos túmulos.

terça-feira, novembro 29, 2011

Fado


Não sei bem se a distinção do Fado como Património Imaterial da Humanidade será assim tão boa. À partida é, mas depois dos festejos, o que restará? E não poderão estas distinções feitas "em série" acabar por nivelar tudo, retirando-lhe importância? É uma questão que terá resposta daqui a uns dez anos. Até lá, saudemos a qualificação e ouçamos.


domingo, novembro 27, 2011

Já neste fim de semana


Por muito que alguns adeptos da burocracia não gostem da "caridade", reconheçamos que os temos são mesmo para olhar para o próximo e fazer alguma coisa. não é dar um amoeda ao "pobrezinho" que pede na rua e desviarmos o olhar. Há formas bem mais eficazes de o fazer. Tanto com o dinheiro como com o nosso voluntariado.




PS: temia-se uma diminuição drástica nas doações, mas a coisa compôs-se, e no cômputo geral, 2011 acabou por superar 2009, embora não tivesse atingido os números excepcionais de 2010. Resultado global positivo, tendo em conta as circunstâncias. O número de voluntários, esse, não cessa de crescer. Bons sinais, quando a solidariedade e caridade são mais necessárias.



sexta-feira, novembro 25, 2011

Dúvidas paradoxais


Carvalho da Silva, João Proença, Ana Avoila, Mário Nogueira e outros exercem profissionalmente a actividade de sindicalistas a tempo inteiro, há já longos anos. No entanto, estiveram ontem em frenética actividade profissional, furando a greve geral que eles próprios convocaram e publicitaram. Não haverá um insanável paradoxo entre a profissão de sindicalista e a (não) participação numa greve? Ou em solidariedade para com as colunas de grevistas que comandam de megafone em punho, prescindem do seu vencimento nesse dia?

Mudança num vinte de Novembro

 
Como acontece fatalmente em qualquer país europeu ameaçado pela crise financeira, também o partido do governo em Espanha acabou por cair. Era tão previsível que Rodriguez Zapatero já tinha dado à sola, entregando o problema a Rubalcaba, um bom ministro do interior que ainda teve a compensação de ver a ETA renunciar à luta armada a um mês das eleições. Mas a Espanha deve estar mesmo em baixo, porque esse êxito não lhe serviu de nada: o PSOE foi corrido sem apelo nem agravo do poder, com o pior resultado desde os anos setenta.

Mariano Rajoy, um incrível sobrevivente político (lembra-me por isso mesmo Durão Barroso, o que não é grande cartão de visita), chega ao poder oito anos depois deste lhe ter escapado entre os dedos por causa dos atentados de Atocha e das estúpidas autorias com que o PP então as justificou. Ganhou com larga maioria, em quase todas as províncias, mesmo nos bastiões socialistas da Andaluzia e das Astúrias, numa altura em que a Espanha está sob o turbilhão dos juros crescentes, do desemprego assustador e da convulsão social. Não é decerto a melhor altura para se assumir a presidência do governo. Depois, Rajoy tem um ar simpático (é galego e tudo, o que para mim aumenta a simpatia) e até conhece e aprecia o Norte de Portugal, mas tem uma imensa falta de carisma e não se lhe conhecem ideias para comandar a nau espanhola, limitando-se a balbuciar descidas de impostos sobre as pequenas empresas. Não parece ser, manifestamente, o líder mais capaz de que os nossos vizinhos precisam nesta altura, mas por vezes podem vir dali surpresas. E além da crise financeira e económica, podia já agora desfazer algumas das medidas "fracturantes" que Zapatero, por irresponsabilidade ou canalhice, implementou para afrontar a Espanha mais conservadora. Aquela incrível lei do aborto, em que meninas podem abortar livremente sem autorização dos pais a partir dos 16 anos, ou as aulas de "educação cívica", em que censores ensinam aos alunos que dizer que fulano é "gordo" ou "feio" pode ser motivo de punição, ou ainda aquela treta do baptismo cívico e laico, um acto formal para rivalizar com os baptizados católicos, bem podiam ir à vida, até porque desenterram velhos fantasmas e lembram as tensões pré-1936.

Outra razão para a vitória clara do PP podem ser as recentes manifestações dos "indignados". Desde o Maio de 68 que grandes acções de rua mais ou menos ligadas à esquerda radical levam o eleitorado, por temor e necessidade de ordem, a votar à direita. Verificou-se isso mais uma vez, o que não impediu a Izquierda Unida (misto de PC e Bloco) de crescer bastante, assim como a União para o Progresso, de Savater, que quer quebrar o bipartidarismo. Outra subida esperada: a coligação Amaiur, que reúne a esquerda nacionalista basca, que tolerava ou representava mesmo a ETA, parece que beneficiou do fim do terrorismo e conseguiu interessantes resultados no País Vasco, ultrapassando em número de votos o tradicional Partido Nacionalista Vasco. Uma curiosidade, que provavelmente terá a sua resposta sociológica: os radicais nacionalistas de esquerda ganham na província de Guipuzkoa, ou seja, na bela, aristocrática, cinematográfica San Sebastian, cuja municipalidade tinham igualmente conquistado há meses (e onde começaram com escândalo, retirando o retrato do Rei). E na mais operária Biscaia, sediada na laboriosa Bilbao, ganhou o PNV, partido de ideologia conservadora e católica.

Toda esta macedónia partidária não afectará o futuro governo nas Cortes, mas pode tentar influenciá-lo na rua, como agora parece ser moda. Será interessante verificar o choque entre o novo governo conservador, resguardado numa sólida maioria parlamentar, e as acções dos "indignados".

A Espanha permanece politicamente fracturada, também por culpa de Zapatero, embora longe da tensão dos anos 30, quando só se podia ser facha ou rojo. Os mais extremistas ainda usam essa terminologia felizmente ultrapassada pela maioria. Para a esquerda radical, o PP é ainda um agrupamento de fachas e de franquistas. Ora muitos não deixaram de reparar na coincidência destas eleições se terem realizado num dia vinte de Novembro, que por sinal é uma espécie de dia santo para os falangistas e saudosistas do Caudillo. A vinte de Novembro morreram precisamente José António Primo de Rivera (1936) e Francisco Franco (1975). A data em questão, agora temperada com a vitória dos populares, não deixará de ser invocada em novos "No pasaran" de rua por todos os que quiserem impedir reformas mais dolorosas no Reino de Espanha. Aí sim, saberemos do que Rajoy é capaz.

quinta-feira, novembro 24, 2011

Feriados


Bem sei que ainda não se decidiu que feriados suprimir, e que só se sabe que serão quatro, dois religiosos e dois civis. Se sobre os dois primeiros há pouca discussão, já que a Igreja tomou a dianteira e lançou o corpo de Deus e a Assunção como candidatos principais, não parece haver acordo fácil sobre os outros. Fala-se no 5 de Outubro, o mais óbvio, para fúria dos velhos "republicanos", da maçonaria e dos jacobinos existentes. Mas também o 1º de Maio e o 1 de Dezembro vierem à tona. Com a ignorância que por aí corre sobre a data da Independência, e pelos srs iberistas-niilistas que falam sempre de "patriotismos bacocos", não ficaria demasiado admirado se optassem por essa data. Já o dia do Trabalhador será complicado suprimir. Mas sejamos claros: tendo em conta que 5 de Outubro é a provável data do Tratado de Zamora, não seria uma metáfora dolorosa e de mau prenúncio pensar que os feriados relativos às duas datas da independência de Portugal desapareceriam? Deixo uma sugestão: deixemos-nos de radicalismos e medidas drásticas e acabem-se apenas com dois feriados, Corpo de Deus (o dia mantém-se só para efeitos eclesiais e mudam-se as comunhões para o Domingo seguinte) e 5 de Outubro, o menos significativo. não será por se poupar mais dois que a produtividade do país irá arrancar para níveis imparáveis.

quinta-feira, novembro 17, 2011

Assobios


A tão badalada selecção bósnia, com o temível Dzeko à cabeça, acabou por ser despachada da Catedral da Luz por expressiva goleada, e assim a Selecção Portuguesa lá irá a mais um Europeu de futebol, evento que não falha desde 1996. Mas desagradou-me ver o público português assobiar o hino da Bósnia-Herzegovina. Por pior que fosse o estado do relvado do recinto em que nos acolheram (quando havia melhor em Sarajevo), o volume dos insultos com que brindaram a Selecção, as provocações a Ronaldo, a intensidade dos laseres para os olhos e os seus próprios assobios, os hinos devem ser sempre preservados. Representam todo um povo, incluindo os respectivos bárbaros, mesmo que sejam a maioria, e são a expressão musical da sua alma. É um dos raros símbolos com que os nacionais de um país ainda se identificam. Por isso, as assobiadelas não fizeram sentido, ao contrário da goleada e de algumas brincadeiras supervinientes. Um povo antigo como o português jamais devia descer ao nível dos balcânicos e do seu atabalhoado e artificial estado com menos de vinte anos. O insulto tem atenuantes, mas não desculpas.

terça-feira, novembro 15, 2011

Aniversário no Coliseu

 

No concerto que os GNR deram no último Sábado, no Coliseu do Porto, para comemorar os seus trinta anos, notou-se a arriscada aposta em tocar alguns clássicos alterados do seu último Voos Domésticos, um álbum aconselhado para ouvir com headphones nos ouvidos (e em viagem, segundo me disseram). Pronúncia do Norte, por exemplo, acabou com um ritmo chill out mais digna de Hall de hotel do que da melodia poética telúrica que emociona plateias(que saudades de Isabel Silvestre!). Podia ter sido uma sessão desenxabida, que não ficaria na memória, e pena seria, já que a banda comemorava três décadas entre os "seus". Mas o final salvou tudo o resto, Dunas pôr milhares de pé, e mais um punhado de clássicos antigos e modernos deixou o público em comunhão com a Rui Reininho e companheiros, que despediram-se a brindar com espumante. Daqui a dez lá estaremos para comemorar os quarenta (com direito a nova placa no átrio do Coliseu?), mas esperemos que as músicas de sempre não estejam travestidas. Os GNR, esses, pela energia que mostraram, provavelmente estarão iguais.


(Fotografias recolhidas graças a uma Zona Franca)

sábado, novembro 12, 2011

O tonto do costume

Desde que esteve na mesa das operações que levaram ao efectivo derrube do Estado Novo, permitiu-se tudo a Otelo Saraiva de Carvalho: promoções à pressa na carreira, ídolo da extrema esquerda, capa da Time (como membro da "troika vermelha"), candidato à presidência pelas "massas populares", terrorista ligado às FP-25, solto da prisão por amnistia presidencial, etc, incluindo todos os disparates e bravatas que lhe passaram pela cabeça, desde a sinistra referência aos fuzilamentos no Campo Pequeno até a uma certa complacência para com Salazar (há quem diga que Otelo era um dos militares que transportou o caixão do ditador), passando pelos habituais desejos de "fazer um novo 25 de Abril". Começa a ser demais. Agora, acha que se os limites dos direitos dos militares forem ultrapassados a tropa deve fazer um golpe de estado contra o actual governo.

Para quem ainda tinha ilusões sobre qualquer traço de credencial democrática de Otelo, as ilusões perderam-se em defnitivo. O "capitão de Abril" revela que afinal os seus interesses são, como eram em 1974, meramente corporativos. Quais liberdades, quais quê. E que as espingardas podem ir contra a vontade de milhões de eleitores. Pouco lhe importa que o actual executivo tenha toda a legitimidade democrática: o que o incomoda são os tais "direitos dos militares".



Otelo é um tonto do regime com pretensões messiânicas insuportáveis, a quem ninguém deve nada, é ele que deve o perdão dos seus dislates e crimes. Como tal, devia guardar algum senso. Não sei se a sua posição na reserva implica que não possa ser punido disciplinarmente, ao menos com uma reprimenda. Mas se pudesse, era tempo de as autoridades militares lhe abrirem um processo por insubordinação. Já chega de ouvirmos constantemente as ameaças e bravatas deste logro vivo que meia dúzia de lunáticos erigiram como referência moral sem que ninguém lhe diga nada.

sexta-feira, novembro 11, 2011

E os mercados derrubaram Berlusconi




Nem os inúmeros processos por crimes fiscais e incompatibilidade com o cargo, nem as histórias de festas indecorosas e relações com prostitutas menores de idade, nem as inúmeras manifestações de rua, nem a traição a Kadhafi, nem as campanhas de Nani Moretti, nem as declarações politicamente incorrectas, nem sequer a perda substancial de boa parte seu grupo parlamentar, que seguiram a cisão de Fini, conseguiram derrubar Berlusconi. Sua Emittenza perdeu duas eleições, mas conseguiu sempre voltar a ganhar, e nos últimos dezassete anos ocupou o poder durante dez. Só os "mercados", essa entidade sem rosto mas de cujos humores dependem os juros dos empréstimos necessários à sobrevivência de qualquer entidade nos dias que correm, seja o estado ou uma família, levaram à queda do Cavaliere. Esta adivinhou-se ao longo dos anos, mas ele sempre se aguentou, o que num país de comediantes e líricos como é a Itália, que inventou um Mussolini e acolheu uma Cicciolina, nem devia espantar. Agora, acabou-se. Aos 75 anos, envolvido em escândalos, com o partido dividido e sem credibilidade internacional, Berlusconi acaba a sua carreira política deixando a Itália num caos financeiro, económico e político. Não deixa de ser irónico que um empresário de sucesso e supostamente liberal seja derrotado pelo seu estrondoso fracasso económico.

sexta-feira, novembro 04, 2011

Tudo ao molho pela "nova ordem"


Que os extremos se tocam é uma verdade lapalissiana que volta e meia ganha novo incremento. Um colunista do Avante conseguiu acentuá-la ainda mais, ao invocar, no vetusto jornal comunista, os Protocolos dos Sábios de Sião, para afirmar que uma "nova ordem mundial" se prepara. E quem vai erigir essa "máquina da morte"? Nada mais nada menos que "os jesuítas e os Illuminati" que "repartem ligações entre a Santa Sé, a Maçonaria, o Pentágono e Wall Street, além dos "sionistas", que calçam "a botifarra nazi". Catolicismo, judaísmo, maçonaria, americanos, tudo no mesmo saco, juntamente com calçado nacional-socialista. Tenho ouvido falar dos tais apócrifos "Protocolos", que foram também usados por Hitler e pelos anti-semitas do último século, mas dificilmente imaginaria que fossem invocados no Avante, que em 1948 saudou a criação do Estado de Israel (a concretização do sionismo) contra "as monarquias feudais árabes". E daí talvez pudesse apelar à imaginação, já que a partir daí, e com o lento declínio do sistema dos kibbutzim colectivos, os comunistas começaram a virar-se contra Israel, e tornaram-se dos mais virulentos anti-semitas. O anti-semitismo, recordemo-lo, chegou a ser uma das diferenças mais vincadas entre esquerda e direita na altura do caso Dreyfus. O comunismo e o esquerdismo mais lunáticos insistem em parecer-se cada vez mais com a extrema-direita. Que o digam nos países do ex-Pacto de Varsóvia e os nacional bolcheviques. e o pior é que as suas teorias coincidentes não têm graça nenhuma, a não ser que não saiam de artigos como os do Avante.

quarta-feira, novembro 02, 2011

A caminho do abismo ou de evitar novos coronéis?


Não sei se é dos ares de Atenas e da inspiração da Democracia (se bem que o que lá vigore actualmente seja mais a anarquia), ou se de ter nascido nos Estados Unidos, uma democracia ininterrupta desde o século XVIII, o que é certo é que a decisão de George Papandreou de levar a proposta de ajuda e reestruturação da Grécia que já havia sido aprovada em cimeira a ser referendada pelos helenos deixou tudo de boca aberta e mãos na cabeça. Não haja dúvida que depois de promessas de referendo não cumpridas (sim, estou a pensar em Sócrates) e de vermos constantemente decisões relevantes da UE ou da Zona Euro tomadas ao telefone pelos Srs Sarkozy e Merkel, como se o resto fosse paisagem, tivemos finalmente o assomo de uma decisão verdadeiramente democrática, e não também de uma "democracia real", como exigem os "indignados", até porque a "rua" não se pode agora queixar de que as decisões não são tomadas pelo povo.




A aposta é muito arriscada, e as dúvidas são compreensíveis. Se ganhar o referendo, Papandreou legitima o seu governo e a sua política e ganha nova consideração entre os homólogos europeus. Se perder - e é para aí que as sondagens apontam - falham os planos de resgate do país,, e na melhor das hipóteses, faltará o dinheiro para coisas tão simples como pagar salários; na pior, a Grécia sai do Euro, com todas as consequências que daí advêm, a banca é arrastada e será o princípio do fim da Moeda Única




A demissão das chefias dos ramos das Forças Armadas pode também não ser estranho a isso. A decisão foi tomada de rompante, o que indicia um certo temor de que houvesse uma acção das altas instâncias militares. Seria facto inédito na UE, embora não na Grécia. Apesar dos desmentidos, tudo leva a crer que não se tratou de mera coincidência burocrática. Se realmente os militares tivessem dicidido passar à acção, seriam mais da tendência "junta dos coronéis", ou mais "Vasco Lourenço", e a sua promessa anual de "se for preciso fazemos um novo 25 de Abril"? Certo é que Papandreou, contestado pelo seu próprio partido, vituperado pela rua grega, tratado de forma condescendente pelo "directório" e agora ameaçado pelos militares, tratou de pôr cobro à ameaça mais imediata através de uma cartada muitíssimo arriscada. E vale a pena recordar que a Grécia tem um arsenal de respeito - enquanto aqui se discute pela compra de dois submarinos, os helenos compraram seis - e muitos dos gastos dos últimos anos foram em armamento bélico, o que de certa forma ajuda, entre outras coisas, a explicar como é que caíram no abismo financeiro, e agora político.