quinta-feira, maio 24, 2012

Tristezas futebolísticas



A época futebolística (de clubes, que ainda falta o Europeu) não acabou da melhor forma segundo os humores de A Ágora. Desde logo, a derrapagem do Benfica desde Fevereiro, fazendo com que o título escorregasse para as mãos de uma equipa treinada por um técnico de regionais. As arbitragens apontadas por dirigentes e jogadores do Benfica ajudam a explicar, mas só por si são redutoras. a incapacidade de Jorge Jesus de gerir e dar ânimo ao plantel quando era mais necessário, as lesões que nos tiraram os quatro centrais de uma só vez, a evidente displicência nas últimas jornadas e a sobrecarga de jogos são razões mais do que suficientes para que um excelente plantel não tivesse ficado com o título. E os protestos dos adeptos são perfeitamente compreensíveis. Jesus passou o prazo de validade, mas infelizmente vai ficar mais um ano, graças à indemnização que lhe seria devida por mercê do contrato facultado por Luís Filipe Vieira, que depois de nove anos de presidência também podia dedicar-se a outras actividades e ceder a cadeira.

Mas as tristezas da bola não se resumiram só ao Benfica. A UEFA decidiu-se entre clubes de Espanha, o Athletic de Bilbao e a agremiação que já foi sua sucursal, o Atlético de Madrid. É claro que aqui se torcia pelos de Bilbao, que além de representarem um clube mítico e único, fizeram uma carreira formidável até à final. Teria sido fantástico ver os bascos comemorarem o seu primeiro título desde 1984 (e o primeiro internacional), à volta do Urbion e do Guggenheim, mas infelizmente Falcao estava numa noite de brilho imparável, o árbitro esqueceu-se de marcar uma grande penalidade a favor dos bascos e até Diego resolveu mostrar logo hoje o talento que na maior parte dos jogos resolve esconder. O Atlético revalidou a taça que tinha ganho há dois anos (então com uma sorte inaudita), e os bravos de Bilbao entraram para a galeria das equipas talentosas a que a Fortuna virou costas quando mais precisavam. O clube e o técnico Marcelo Bielsa mereciam bem mais.

Outros que não tiveram sorte foram os bávaros. Perderam o campeonato e a taça para um Dortmund mais "operário" (ou não fosse uma equipa de região de metalúrgicos), e com justiça. Mas percebia-se que a ambição do Bayern era mesmo ganhar a Liga dos campeões perante o seu público, no belíssimo Allianz Arena. A eliminação do Real Madrid dava-lhes ainda mais favoritismo, e a oportunidade era única, depois da final perdida de há dois anos. Do outro lado, o Chelsea, uma equipa por quem há uns meses ninguém daria nada, mas que desde a saída de André Villas-Boas tem mostrou-se insuperável nos jogos a eliminar. Já tinha ganho a Taça de Inglaterra. Na Liga dos Campeões, deu a volta à derrota com o Nápoles, e como se sabe, venceu com enorme dificuldade e sorte, e alguma ajuda do apito, um Benfica que nunca se mostrou inferior, mesmo em inferioridade numérica. Depois, grande surpresa, a eliminatória impossível com o Barcelona, aproveitando a falta de pontaria dos culés e a boa forma do guarda-redes Cech. Assim chegou à final jogando com a equipa da casa. Fazendo jus à sua cidade, o Chelsea mostrou-se um autêntico autocarro de dois andares, marcou o golo do empate perto do fim, praticamente na única oportunidade que teve, resistiu a uma grande penalidade no prolongamento e ganhou a lotaria dos penaltys, graças a um Cech quase perfeito. Defesa de cattenacio, muita sorte, oportunismo italiano (graças à filosofia de Di Matteo?) e um guarda-redes gigante nas grandes penalidades: eis a receita dos londrinos para ganharem um troféu quando ninguém dava nada por eles. É certo que há ali jogadores com alguma veterania que o mereciam, casos de Drogba e Lampard, ou outros, como o fenomenal David Luiz. Mas para além da raiva que ficou pela forma como eliminaram o Benfica, é sempre penoso ver um clube com uma gestão exemplar e comandado pelas antigas glórias perder frente ao seu público (e em penaltys!) contra outro que só chegou onde chegou por causa das centenas de milhões de euros injectadas pelo seu proprietário, um oligarca russo coleccionador de iates que enriqueceu de forma hiper-duvidosa e que está abaixo de toda a suspeita.


Mas a maior de todas as tristezas não teve a ver directamente com resultados no campo, mas com o desaparecimento de um ex-jogador fenomenal: Rashidi Yekini, o antigo avançado do Vitória de Setúbal. Faz uma certa impressão ver um atleta que era tão posante desaparecer aos 48 anos. Yekini sagrou-se melhor marcador do campeonato nacional em 1994, ano mágico para ele: não só obteve esse troféu pessoal (para o qual contribuíram os golos que marcou ao Benfica numa tarde em que os sadinos venceram por 5-2, embora não tenham impedido a conquista do campeonato no fim dessa época), ajudando à época razoável do Setúbal, bem assistido por Chiquinho Conde, como ainda muito contribuiu para a excelente prestação da Nigéria no Mundial desse ano, nos Estados Unidos. Marcou aliás o primeiro golo da sua selecção num Mundial, comemorando de forma inesquecível. Depois do Vitória, transferiu-se para o Olympiacos, e daí para Espanha e outros países, com um breve regresso a Setúbal, já no declínio da carreira. Deixou a ideia de que passou ao lado de uma melhor carreira em clubes (que não na selecção nigeriana), talvez por ter passado demasiados anos à beira-Sado, e por posteriores escolhas erradas. Falou-se na sua possível ida para o Benfica. Talvez na Luz tivesse alcançado outra visibilidade. Teria sido fantástico ver aquela enorme força da natureza marcar golos de águia ao peito. Ainda assim, deixou-nos boas recordações.

quinta-feira, maio 17, 2012

A sorte de estar no lugar certo



François Hollande tomou posse como presidente da Vª república. O dia não correu assim tão bem, com o adiamento do encontro inicial com Angela Merkel por causa de uma tempestade - nem os céus são clementes com os estadista-mores da "eurozona" - além de que dá sempre a ideia de que se tratou mais de uma acção de vassalagem perante Berlim. O novo chefe de estado francês terá muito por onde provar que não é um mero placebo, nem o candidato "qualquer um menos Sarko".

Por muito que venham com a ideia de que Hollande ganhou por trazer novas ideias, ou para "estilhaçar a política de Angela Merkel", a verdade é que o novo presidente francês chegou ao Eliseu mais por demérito do adversário do que pelas suas (desconhecidas) qualidades de "homem normal". Sarkozy, eleito em 2007 com grande alarido como o homem que ia libertar e transformar a França, acabou por se revelar um estadista frenético, com um mandato ao sabor das conveniências, desejoso de ribalta mas sem verdadeiramente saber lá estar (por vezes com exagero mediático). As suas reformas para criar um "Islão francês", "fora das caves", ficaram-se pela proibição do niqab. Na economia, nada de novo, e a França até perdeu o triplo A. Nas relações sociais, apenas o aumento da idade da reforma em dois anos, e de forma atabalhoada, provocando viva contestação nas ruas (se bem que os franceses, teimosos como mulas, sejam difíceis de convencer nestas questões). O debate sobre a identidade nacional surtiu pouco efeito, parecendo mais uma piscadela de olho ao eleitorado da Frente Nacional, e nem o projectado museu da história de França saiu do papel. No plano internacional, conseguiu alguns trunfos, mas a precipitação no caso da Líbia poderá causar males maiores do que os anteriores, além de quem derrubou Kadhafi, que acolhera a desculpara antes e cujas acusações de patrocínio líbio da campanha da UMP não vieram nada a calhar.

Em suma, Sarkozy não cumpriu o que prometera, construir uma França mais descomplexada, mais arejada, um exemplo para a Europa e para o mundo. Antes provocou diversas crispações, ressuscitou fantasmas, causou polémicas (a criminalização dos que negam o Holocausto e o genocídio arménio é outro mau exemplo). Para mais, a ostentação nova-rica, as viagens para sítios luxuosos, a tentativa de nomeação do filho para um cargo para o qual não reunia competências, o caso célere com Carla Bruni, até o que envolveu o nascimento da filha, caíram mal entre os franceses. Não se podia mais com aquele mediatismo que ainda por cima mostrava à França o que ela menos suportava. Era demais. Vi um documentário com testemunhos de correspondentes estrangeiros em Paris dos mais conhecidos orgãos de imprensa pelo Mundo fora, e todos eles teciam as mesmas críticas ao presidente (embora me parecesse demasiado parcial aquilo aparecer antes das eleições). Os gauleses estavam fartos, e qualquer um que lhes colocassem à frente como alternativa teria francas possibilidades de sair vencedor, desde que não fosse demasiado radical. Strauss-Khan ganharia com uma perna às costas e os olhos vendados, mas caiu na sua própria desgraça. Hollande aproveitou o espaço em branco, afastou Martine Aubry e ganhou. Ou melhor, conseguiu estar no lugar certo quando os franceses precisavam de qualquer um para se verem livres de Sarkozy. Cabe-lhe mostrar que é mais do que um mal menor.

terça-feira, maio 15, 2012

Os sacrifícios da Arte



A busca da perfeição na Arte ou da beleza a todo o custo pode por vezes levar aos maiores sacrifícios. Não raros foram os artistas que pagaram o seu talento e a busca do resultado da sua inspiração com a sua própria liberdade, a saúde física, a rauína económica ou até a vida. O caso do desaparecimento de Bernardo Sasseti, uma queda de uma falésia perto da praia do Abano, parece ser um caso extremo, ainda que involuntário, dessa busca. Ultimamente tinha-se afastado da música, em busca de paz interior, segundo o próprio, e dedicava-se mais à sua outra paixão, a fotografia. Terá sido precisamente quando fotografava, tendo como cenário a fantástica paisagem a norte de Cascais, que se deu o acidente fatal. Desapareceu aos 41 anos um dos mais talentosos músicos portugueses, no desempenho de outra arte que não a música. A memória que retenho dele, para além do casamento com Beatriz Batarda (de quem tinha duas filhas), era a dos recitais de piano com Mário Laginha e Pedro Burmester, e uma aparente introversão, que, garantem os mais próximos, não correspondia à verdade. Fiquei igualmente a saber que teve uma curta aparição no filme O Talentoso Mr Ripley, onde figurava como pianista de jazz numa interpretação de My Funny Valentine, cantado por Matt Damon e acompanhado no saxofone por Jude Law (ver aos segundos 9 e 1.52).

quarta-feira, maio 09, 2012

O ciclo francês


Não percebo, sinceramente, tanta excitação com a eleição de François Hollande. Dir-se-ia que o homem é um Messias descido aos Campos Elísios. Que Obama fosse considerado como tal, ainda vá, agora Hollande...ainda por cima, era uma coisa esperada.
No rescaldo das eleições em dois dos países que me são mais queridos, falei antes da Grécia porque o resultado das suas eleições me parece muito mais decisivo para a Europa do que o das presidenciais francesas. Não é pelo PS francês estar à frente do poder executivo que o rumo da Europa vai fazer uma inflexão extrema, até porque os Euros não abundam. Por cá, houve quem entrasse em pânico e previsse a catástrofe, não sei porquê. E há também quem esteja em êxtase e ache que com Hollande tudo vai mudar, os problemas serão resolvidos e vai chover mel. Mário Soares é um desses, e até acha que o PS deve rasgar o acordo com o memorando do triunvirato. Já teve dias melhores, até a nível psíquico e de memória. Talvez nem se lembre que também ele teve de cumprir acordos semelhantes quando estava à frente do governo


É possível que com os socialistas no poder em França as medidas europeias de combate à dívida pública e crescimento da economia mudem qualquer coisa, mas não se esperem alterações radicais. É impossível que Hollande cumpra as medias populistas que prometeu, como aquela coisa de taxação em 75% dos rendimentos de quem receba mais de um milhão de euros ao ano, ou então, aí sim, ficaria no limiar do desastre. Parece-me que terá de ser mais modesto. De resto, os franceses quiseram acima de tudo livrar-se de Sarkozy, de quem estavam fartos, e votaram na alternativa à mão. Os socialistas já estiveram mais vezes no poder - embora tivessem tido poucos presidentes, é certo - mas só mudaram realmente as políticas vigentes quando tiveram como aliados os comunistas: em 1936, com a Frente Popular de Leon Bloum, e em 1981, com a eleição de Miterrand para o Eliseu (deixaram contudo dois marcos que nunca ninguém se atreveu a mudar: as férias pagas e a abolição da pena de morte). Nas outras, pouco mudou. Este é mais um normal ciclo eleitoral, em que o PS volta ao poder, e que só tem de mais incomum o Presidente no cargo ser derrotado nas urnas. Por isso, observemos calmamente qual será o percurso do futuro presidente Hollande, mas olhe-se como mais atenção - e apreensão - para a Grécia.

PS: e Segolène Royal, a ex-companheira de Hollande, derrotada em 2007 por Sarko, estará a roer-se de inveja?

segunda-feira, maio 07, 2012

Uma tragicomédia grega


Entre eventos eclécticos que propõem arremesso de coktails molotovs na Praça Syntagma, brindes de Ouzo nas esplanadas da Plaka e a contemplação do horizonte no Pireu (com sorte, no cabo Sounion,) à espera de salvação ou prevendo o salto para fora, segura momentaneamente por novo resgate europeu e alguns perdões, a Grécia teve finalmente novas eleições ao fim do desastre dos três últimos anos.
Lucas Papademos, primeiro-ministro cessante da Grécia, tem uma qualidade rara entre os que ocuparam o cargo: é dos poucos que não pertence a um dos clãs familiares políticos do país, que já dominam a vida política helénica há várias décadas, atravessando os vários regimes e mantendo-se sempre à tona. Nesse aspecto (como em vários outros, aliás), a Grécia mais parece um país asiático, o que não deixa de ser irónico, tendo em conta que ali se estabeleceu um dos berços da civilização ocidental e um dos baluartes contra a ameaça dos inimigos vindos de Oriente, talvez uma das maiores razões orgulho dos gregos. Talvez derive da longa ocupação otomana, mas o que é certo é que os gregos actuais pouco herdaram dos seus antepassados a não ser as ruínas, a língua - modernizada - e os nomes. Acima de tudo, é um povo balcânico, cuja herança directa é muito mais bizantina e ortodoxa do que helenística, conservando ainda alguns traços dos odiados turcos. Da verdadeira democracia ateniense, da filosofia da ágora e das ilhas onde o tempo sobejava, do espírito de sacrifício de Esparta, na da sobrou. Até mesmo o empreendedorismo naval, das poucas coisas que tinham em comum com a Grécia clássica, está moribundo, sem Onassis ou Niarchos que lhe valham.

A Grécia é um país à deriva, com taxas altíssimas de desemprego, pobreza crescente e poder de compra em constante quebra, além de enorme crispação social e política e da corrupção endémica. Junte-se a isso tudo um clientelismo monstruoso e poderosas instituições que, ao invés de cimentarem e servirem de exemplo à sociedade, constituem um pesadíssimo lastro, como as forças armadas, jogando com a ameaça turca e a divisão de Chipre, a Igreja Ortodoxa, força moral do país desde a independência mas que continua a não pagar impostos e a ser a maior proprietária do país, e os sindicatos, meros grupos subsidiados pelo estado. Mas pelo menos alguma coisa vai mudar com estas eleições: as tradicionais famílias políticas vão por agora ser afastadas. Pode-se falar de autênticas dinastias que dominam os partidos e os governos atravessando transversalmente os regimes. São os Papandreou, que deram três primeiros-ministros nos últimos sessenta anos (George, no regime antes da ditadura, Andreas, fundador do PASOK e figura maior do actual regime, antes e depois da ditadura, e o seu filho George, que chefiou o governo até há poucos meses), os Karamanlis (Konstantinos, várias vezes primeiro-ministro, em dois regimes diferentes, presidente da Grécia nos anos oitenta e fundador da Nova Democracia, e o seu sobrinho, Kostas, que chefiou o governo da ND até 2009, responsável maior do descalabro financeiro do país), e os Mitsotakis (Konstantinos, primeiro-ministro e líder da ND, a sua filha, antiga presidente da câmara de Atenas e ministra, e que por sua vez são descendentes de Eleftherios Venizelos, talvez o mais proeminente político grego do século XX, que chefiou o governo noas anos trinta, inspirou várias correntes partidárias até hoje e deu até o seu nome ao aeroporto de Atenas). Os partidos tradicionais livraram-se por ora deles. A Nova Democracia é liderada por Antonis Samaras e o PASOK pelo mastodôntico Evangelos Venizelos (que ao contrário do que disseram alguns comentadores portugueses, nada tem a ver com Elephterios Venizelos). Uma das muitas reformas imperativas (e refrescantes) do país é precisamente o afastamento destas corporações familiares, autênticas fontes de clientelismo e nepotismo em larga escala.



                      (Karamanlis e Papandreou: uma história de gerações)

Com as eleições de Domingo, o cenário partidário grego estilhaçou-se com a queda abrupta do PASOK e o bisonho resultado da ND. O SYRIZA - Bloco de Esquerda do sítio, a quem Louçã deu apoio directo - ganhou o segundo lugar e pode formar governo, por mais impensável que isso possa ser. Ou então, poderá até ser de novo o PASOK, com os seus 13%, a fazê-lo, já que a ND assumiu a sua incapacidade em formar um executivo nacional. A esquerda mais moderada e a direita saída da ND exigem condições impossíveis de cumprir. Os comunistas do KKE, que sonham com uma Revolução de Outubro transposta para a Grécia de 2012, e os skins descaradamente admiradores de Hitler do Aurora Dourada nem foram tidos em conta (pudera). O cenário é caótico, e admitem-se novas eleições no próximo mês, se não houver governo. Já aconteceu, em 1989, mas desta vez, dada a terrível situação económica e social do país e a ausência de  verdadeiras reformas, a dispersão de votos e a ascensão de extremistas e radicais prometem tempos complicados para a Grécia, o Euro e a União Europeia. qualquer novo governo terá um trabalho hercúleo pela frente, no saneamento financeiro, reajustamento administrativo, recuperação da economia e resistência às corporações e corrupção que minam a sociedade helénica. Em todo o caso, a saída de cena dessas dinastias políticas "asiáticas" não resolve muito, mas bem pode ser um começo para algo novo.

sábado, maio 05, 2012

Trincheiras ideológicas que as promoções escavam


Certos factos da sociedade portuguesa tornam-se objecto de combate ideológico curioso e acirrado, propositadamente ou não. O acontecimento mais discutido da semana, a promoção do Pingo Doce de Dia 1 de Maio, tornou-se uma autêntica trincheira de discussões politicas, sociais e económicas. O Insurgente (que alcançou máximos de visitas) e restantes blogues liberais aplaudem ruidosamente a "generosidade" de Soares dos Santos para com os desvalidos e lançam hurras à menor participação das festividades sindicalistas do dia em questão. À esquerda, acusa-se o Pingo Doce de tudo e meia alguma coisa, de concorrência desleal a pressões sobre os trabalhadores. Curiosamente, na esquerda mais lunática encontramos alguns pontos em comum com a direita libertária. Verbera os capitalistas, claro, como é seu dever ideológico, mas compreende o pobre povo que passa fome e que aproveita a oferta...



Muito francamente, não fiquei muito sensibilizado com a piedade miserabilista pelos desvalidos. Não que não haja gente que legitimamente quis adquirir bens prioritários a mais baixo custo. Mas alguém acha que pessoas que gastam logo centenas de euros estejam assim em tão má situação económica? que compras de enormes valores sejam apenas de bens de primeira necessidade? Como se explica que pessoas de poucas posses tenham rapidamente desencantado dinheiro para gastos imensos? E aqueles que passam mesmo dificuldades e que não tinham cem euros para gastar, ou que não tiveram oportunidade de se servir por causa das torrentes de multidão?  Baseio-me não apenas em juízos de valor, mas em situações que me foram contadas. Pior ainda, é a volúpia das compras, as cenas indignas de estalo, ameaças, autênticos (e literais) casos de polícia que se verificaram em vários supermercados. Fala-se agora em concorrência desleal, dumping, enganos aos fornecedores, ameaças aos trabalhadores da cadeia (também há quem fale em benesses a estes, como três dias de folga, mas na realidade é apenas mais, como estipula a Lei, e uma semana com alguns descontos especiais: nem oito nem oitenta), em "afronta ao Dia do Trabalhador". Desconheço se houve irregularidades, embora tal seja provável. O que choca é mesmo a imagem do que o pior do consumismo desenfreado nos trouxe: gente a atirar-se às prateleiras como se não houvesse amanhã, lutas com naifas por desodorizantes, filas de sete horas, pessoas a garantir que "nunca mais se metiam noutra", congelados a descongelar-se...isto é a tão propalada liberdade económica, os mercados a funcionarem por si, a milagrosa auto-regulação? Então é mais uma razão para que existam mesmo regras que nos poupem a comportamentos tão abjectos, por muito que isso horrorize os liberais/libertários. E que relembrem que liberdade implica responsabilidade, o que a distingue da pura anarquia. Acham mesmo que houve "caridade" do Pingo Doce? Mas será essa a função dos retalhistas? E a Caridade, como sempre me ensinaram, não implica respeito pelo próximo? Leiam a esse propósito o excelente artigo de Pacheco Pereira de ontem no Público. Distribui as críticas e os elogios de forma equitativa e certeira. Sempre se aprende alguma coisa nesta sociedadezinha ultra-materialista e sectária.

quinta-feira, maio 03, 2012

O regresso da Sétima Legião (no Porto)


Emotivo regresso da Sétima Legião aos grandes palcos, na Casa da Música, no Domingo. É verdade que os seus elementos ocasionalmente dão uns concertos para os amigos no Frágil, no Bairro Alto, mas aí não se pode falar propriamente em "palcos". Com o pretexto dos trinta anos para voltar à "estrada", desejo há muito alimentado por Rodrigo Leão (o membro da banda que mais sucesso obteve fora dela, a solo ou nos Madredeus), o grupo pop-rock-folk-mistico-nacionalista que tanta sensação causou nos anos oitenta/noventa levou uma data de gente, onde se inclui o autor destas linhas, a recebê-los na cidade onde, segundo reza a lenda, ouviram os primeiros aplausos de carreira, muito embora sejam lisboetas até à medula. Passaram hinos como Noutro Lugar, Sete Mares, Por Quem não Esqueci, e lá mais para o fim, a primeva Glória, escrita por Miguel Esteves Cardoso, quanto o autor das letras ainda não era o actual chefe de gabinete de Passos Coelho. O público pouco se aguentou nas cadeiras almofadadas e aplaudiu longamente, de tal forma que obrigou a banda a um segundo encore, com direito a repetição de algumas músicas, que fechou da melhor forma um concerto que começou algo tímido mas cujo tom aumentou a pouco e pouco. 

Pedro Oliveira mantém a sua voz  grave (melhor ao vivo do que pensava), Paulo Abelho continua a saltitar pelo palco com instrumentos de percussão, Rodrigo Leão é canhoto e Francisco Ribeiro de Menezes toca umas teclas, e os músicos por vezes trocavam instrumentos entre si. O ecletismo dos sons, uma das imagens de marca da Sétima Legião, mostrou-se de forma vincada, com a entrada de um grupo de gaiteiros e de bombos, juntando-se às guitarras eléctricas, bateria, sintetizadores, outros gaitas de foles, acordeões e adufes. Faltaram as versões de músicas de Zeca Afonso, que teriam ligado bem com tais instrumentos, e também as amostras da fase "electrónica" do grupo, presente no último disco de originais. Seriam mais umas cerejas no topo, mas o bolo já estava bem assim. O grupo estava realmente animado, talvez por contágio do público que o obrigou a regressar ao palco. Parece que já anunciaram novo regresso ao Porto, lá para o fim do ano, significando que a coisa pegou mesmo. Mas a Casa da Música, muito embora não seja talhada para concertos mais "mexidos", proporcionou as condições acústicas ideais para se desfrutar de toda a panóplia sónica dos "sete rapazes da Avenida de Roma", como lhes chamava Rui Reininho (eu contei nove). A volta da Sétima Legião aos grandes palcos nacionais é das boas notícias musicais do ano.



                      
                          (Foto retirada do Facebook, os autores que me desculpem)

segunda-feira, abril 30, 2012

Ultrapassando um trauma de 75 anos


Confesso que fui pouco patriota na meia-final da UEFA (essa história do patriotismo no futebol também é muito engraçada para embalar crianças de colo), mas não poderia deixar de apoiar o meu clube preferido do outro bocado da península, o Athletic de Bilbao. Os lagartos até se bateram galhardamente, mas o ambiente do público fervoroso que enchia a catedral de San Mamés era demais e não os deixou ir à final. No fim ficou a euforia basca que nem por isso deixou de aplaudir os adversários, mesmo que Sá Pinto já tenha jogado nos rivais de San Sebastian.

Mas o dia do jogo teve ainda um simbolismo que terá escapado à maioria. Exactamente 75 anos antes dava-se uma das maiores tragédias da região. A 26 de Abril de 1937, em plena Guerra Civil de Espanha, a Legião condor e a aviação fascista italiana, aliados dos nacionalistas, bombardeavam a cidade de Guernica, símbolo espiritual dos costumes bascos, com o seu lendário carvalho, à sombra da qual gerações e gerações tomavam as resoluções para a comunidade local, e que sobreviveu ao bombardeamento. O bombardeamento, cujo número de vítimas é alvo de discussão pelas suas disparidades, ficou mundialmente conhecido pelo quadro de Picasso, que retratou o sofrimento provocado por uma guerra atroz e que se tornaria num dos símbolos da Espanha do século XX. A árvore de Guernica manteve-se até há poucos anos, sendo substituída por outra, e é lá que o governador eleito do País Basco, o Lehendakari, faz o seu juramento de tomada de posse. Surge igualmente no brasão do Athletic de Bilbao.













À partida, as bodas de diamante da mais conhecida catástrofe basca não seria a melhor prenúncio para uma vitória marcante do maior emblema desportivo da região. O que é certo é que acabou por ser um dia de alegria para os adeptos biscainhos (talvez não para os da Real Sociedad), como que a mostrar que as efemérides podem ser de sentido contrário. O Sporting que os desculpe, mas dificilmente haveria melhor dia para um triunfo assim, que bem podia ser uma homenagem à martirizada Guernica. Agora só falta mesmo vencerem o clube madrileno a quem emprestaram nome e cores e levar a taça UEFA para Bilbao. Exposta no Guggenheim, ficaria lindamente.


quinta-feira, abril 26, 2012

Miguel Portas


A morte de Miguel Portas não é totalmente inesperada, mas julgava-se que ainda ficaria mais algum tempo entre os vivos. Mas a doença venceu-o, em Antuérpia. Apesar de algum sectarismo e radicalismo de esquerda, era um homem de valor, sincero, afável, idealista e lúcido, como se prova nesta entrevista que deu ao Expresso no Verão passado. Teve uma carreira multifacetada, entre o jornalismo, lançando várias publicações (chegou a haver piadas quanto ao toque anti-Midas de Portas, que não conseguia fundar uma jornal/revista sem que o mesmo falisse em pouco tempo),  a animação cultural e as actividades culturais da câmara de Lisboa (um dos impulsionadores das Festas da Cidade), e a política, participando no catolicismo progressista herdado do seu pai, militante heterodoxo do PCP, de onde saiu para a Plataforma de Esquerda, e por fim como um dos fundadores do Bloco de Esquerda. Era aliás dos mais valorosos dirigentes desta movimento (e dos menos irritantes, por comparação com Louça e Fazenda), e há vários anos que era deputado no Parlamento Europeu, funções em que se manteve até ao fim.
Apresentou e criou também um excelente documentário televisivo, Mar das Índias, onde percorria as Arábias, a Índia e sobretudo a Etiópia. Na única vez em que lhe dirigi a palavra, para lhe falar desse programa, respondeu-me com a sua proverbial simpatia, revelando-me que já estava a preparar outro sobre o Mediterrâneo, que de facto viria a exibir na televisão, mais tarde. Pergunto-me se haverá hipótese de rever esses programas, em reposição na TV ou em suporte DVD...
Outra das razões de Portas ser conhecido era porque a sua família próxima é igualmente afamada. Tanto a mãe, Helena Sacadura Cabral (que aliás bloga no Delito de Opinião), como o pai Nuno Portas, viveram para assistir a isto, a esse acontecimento anti-natura dos pais sobreviverem aos filhos. Hoje, por casualidade, estive em Guimarães, na exposição O Ser Urbano, homenagem a Nuno Portas por ocasião da Capital Europeia da Cultura, com uma colóquio/debate que contaria com a presença do próprio arquitecto, e que por razões óbvias, não compareceu. Terá sido provavelmente na abertura da exposição, em Março, que os três irmãos, Miguel, Paulo e Catarina Portas, estiveram juntos, com o pai. Seguramente que Miguel Portas saberia que não lhe restava muito mais tempo, mas dificilmente adivinharia que resistiria até um  24 de Abril, uma semana antes de chegar aos 54 anos. Um dia que certamente não desejaria para se despedir.

Os votos da Frente Nacional vão para quem?


As presidenciais francesas, como se percebeu, vão ser uma guerra até à sua segunda volta, apesar do favoritismo de que goza Hollande. O que fica como maior curiosidade é que o fenómeno Mélenchon acabou por se revelar muito menor do que se previa, e que Marine LePen ficou próxima do que as sondagens há uns tempos lhe atribuíam. conclusão: a Frente Nacional continua a agregar os votos do operariado (ou ex-operariado) que roubou ao Partido Comunista nos anos oitenta e a gerir os receios dos franceses. Desta vez, com a tónica no "perigo islâmico", e aparentemente com sucesso, porque colhe votos entre luso-descendentes e até de africanos subsarianos, quem sabe se com medo do Islão, dados os acontecimentos recentes na Nigéria. Não são votos de direita clássica, nem ideológicos, mas de empregados precários, semi-reformados, operários, pequena burguesia que deixou de acreditar nos comunistas. E é por isso mesmo que muitos deles preferirão votar em Hollande na segunda volta, a não ser que este se exceda em declarações amorosas multiculturais e a mensagem de Sarkozy passe mesmo. E vamos a ver o que fazem os votantes de Bayrou.

domingo, abril 22, 2012

Eleições no hexágono


E agora? Cinco anos depois de ter chegado ao Eliseu com pompa e circunstância, sob um enorme manto de esperança, Sarkozy desiludiu os seus apoiantes e afastou mesmo muitos deles. Não abriu a economia francesa, antes prometeu mais proteccionismo, não consegui levar avante o projecto de "afrancesar" o Islão vigente, apenas proibiu o véu nos espaços públicos, e ficou aquém nas suas promessas reformistas, apenas cumpriu o aumento da idade da reforma, e mesmo assim como um elefante numa loja de porcelanas. Tentou, isso sim, o seu famigerado directório europeu e reaproximou-se dos Estados Unidos. E só. O seu estilo frenético, a sua proximidade com os muito ricos, o modo de vida ostentatório, mesmo a sua filha recente, que soou a jogada eleitoralista, a pressa na invasão da Líbia quando se falava em apoios de Kadhafi na sua campanha eleitoral de 2007, tornaram-no impopular aos olhos dos franceses. Está agora prestes a ser derrotado nas urnas. Será o segundo caso na V república francesa de um presidente em exercício ser apeado eleitoralmente, depois de Giscard D´Estaing.

François Hollande será muito provavelmente o próximo presidente de França, o primeiro de esquerda desde 1995 (se virmos bem, no actual regime, que data de 1958, só houve um socialista na presidência, por sinal o que lá ficou mais tempo). Há cinco anos era o marido de Segoléne Royal, a adversária eleitoral de Sarkozy, e discreto líder do PS francês. Separado de Royal, que falhou a liderança partidária, Hollande conseguirá chegar ao topo graças ao sentido de oportunidade e sobrevivência que muitos líderes sem carisma têm, à imagem de Durão Barroso e Mariano Rajoy. Não arrebata multidões, as suas ideias são duvidosas ou mesmo populistas (o regresso da reforma aos 60 anos, por exemplo), mas o contraste da sua imagem banal com o frenesi de Sarko favorece-o.

Além do mais, deverá beneficiar na segunda volta dos votos de Jean-Luc Mélenchon, o candidato da esquerda radical, uma espécie de Manuel Alegre francês (parece-me a mim, que não o conhecia até há pouco), que deixou o PS para formar o seu próprio movimento de esquerda radical e colher o apoio do Partido Comunista, outrora pujante, que vê aqui uma forma de retomar a antiga importância, perdida com a sangria de votos para a Frente Nacional. Ao mesmo tempo, deverá roubar o voto útil das formações trotsquistas e anticapitalistas que pululam, embora já não contem com Arlette Laguiller, a Carmelinda Pereira lá do sítio.Mais dificuldade terá em captar o voto ecologista, até porque em França não se situa apenas à esquerda.

Ao centro, Bayrou, legatário da antiga UDF, engolida pela UMP de Sarkozy, tenta obter votos para ser o fiel da balança na segunda volta. Consta que poderá ser o primeiro-ministro de Sarko ou ministro de um governo nomeado por Hollande, o que revela bem como se podem vender votos.

À direita, Marine LePen perdeu um pouco do gás que lhe dava possibilidades de passar à segunda volta, à frente de Sarkozy. Nas intenções de voto, passou do segundo para o quarto lugar, mas as últimas indicações dão-lhe agora o terceiro, à frente de Melenchon. Conseguiu virar o discurso mais contra o islamismo do que contra a emigração tout court. Veremos se servirá para ultrapassar os votos do seu pai.
Ainda há direita, um dissidente da UMP, Dupont-Aignan, tenta agarrar as sobras do gaullismo e os votos dos tradicionalistas com dúvidas em votar na Frente Nacional dos LePen. O seu francesíssimo apelido deve ajudar, e será interessante observar se uma franja importante da eleitorado, o das direitas soberanistas e tradicionalistas, aposta nele.

Os habituais campos políticos franceses estão aqui representados, apesar de haver candidatos de ideologia duvidosa. A primeira volta servirá sobretudo para saber que hipóteses terão os dois principais candidatos, principalmente Sarkozy, mais tremido, se a terceira força em França pende para o extremo esquerdo ou direito, e em que ponto está o centro. Porque é destas forças que irão os votos para o vencedor e os acordos para futuros executivos. Em todo o caso, terá sempre muita dificuldade em devolver o Triplo A a França.


sábado, abril 21, 2012

Bizantinices


Duas questões gravíssimas atormentaram a Humanidade (a eurocêntrica, ao menos) esta semana: a saudação de Anders Breivik e a lesão de Juan Carlos I numa caçada.

O assassino em série norueguês entrou na sala de audiência fazendo uma saudação de braço estndido e punho fechado. Logo uma chusma de jornais informou que se tratava da "saudação nazi", vindo de imediato logo um conjunto de bloggers e comentadores contrapôr que se tratava de uma saudação comunista. Na grande discussão que se seguiu, vi referência não só a nazis e a comunistas, mas também a romanos, anarquistas, esquerdistas de vária ordem, templários, etc. Fiquei mais ou menos satisfeito com o esclarecimento de que se tratava de uma saudação nacional-bolchevique. É sempre grato encontrar especialistas em saudações que nos saciem as nossas dúvidas mais prementes. Em Bizâncio também os devia haver.


Entretanto, no país vizinho, e não só, rebentou o escândalo: Juan Carlos, Rei de espanha pela Graça de Deus e aprovação referendária da constituição, partiu uma anca numa caçada aos elefantes em África. A indignação não tinha tanto que ver com os gastos da aventura, que foram pagos por um qualquer amigo árabe, numa altura em que o Reino de Espanha está sob ameaça dos juros e se pede contenção e austeridade, mas mais com a sua natureza, ou seja, ser uma caçada, contra elefantes, pelo Rei. Um acto legal (no Botswana tem o seu carácter ecológico, pelo perigo de aumento do número de elefantes, que a prazo se torna perigoso), de carácter controverso e subjectivo, tem levantado uma vozearia contra o Rei, aproveitando-se os meios anti-monárquicos para denunciar o acto "criminoso" e "contra os direitos humanos" (os elefantes são agora detentores de "direitos humanos"). Juan Carlos pediu entretanto desculpa. Alguns aceitaram e acalmaram-se, outros não, protestando contra a "hipocrisia", esse termo que se tornou no pior dos pecados, embora em boa verdade não haja quem não o pratique. Ou seja, o "crime" estará em caçar elefantes  - e pelo que ouvi, se fossem animais de menor porte, a indignação seria menor - não na exuberância do gasto em tempos de sacrifício. Dá-me ideia que se África Minha fosse rodado nos dias de hoje, a personagem do caçador de Robert Redford teria de mudar de profissão para, sei lá, "agricultor biológico".

Entretanto, na Síria prossegue a mortandade, os líbios dividem-se, o Sudão ameaçar invadir o seu novo vizinho do Sul, os islamitas da nigéria atacam igrejas à bomba, os talibans fazem o que querem no Afeganistão, a crise do Euro agrava-se uma vez mais.
Em Bizâncio, perdão, Constantinopla, também se divertiam muito com questões teóricas, sem dúvida muito interessantes e intrincadas, até descobrirem que os turcos estavam às portas da capital com intenção de a fazerem sua.

terça-feira, abril 17, 2012

Tragédia recriada em tempo real


 
Explosão e incêndio no Porto de Leixões, a semana que passou, provocada pela queda de uma grua quando se mudavam as peças de um dos Titãs, os gigantescos guindastes que construíram os molhes artificiais e que lá se têm mantido há mais de cem anos. As estátuas da praia parecem recriar em tempo real as reacções à tragédia, além das desgraças do mar. Tragédia porque provocou um morto e alguns feridos, além do pânico que instalou na frente marítima matosinhense, antigamente composta por tascas e comércio ligados à pesca, hoje mais por edifícios de classe média alta. O Titã, esse, apesar de danificado, vai ser consertado e continuará a ser o guardião de ferro da entrada do porto. Valha-nos isso.

domingo, abril 15, 2012

Efemérides e lições

As efemérides são sempre um pretexto para se trazer à baila acontecimentos ou personalidades que marcaram determinada época. Os cem anos do naufrágio do Titanic são um bom pretexto para séries de TV, documentários, reposição de filmes (o de James Cameron em 3D é das coisas mais desavergonhadamente divertidas que já vi no mundo do cinema), lançamento de livros com "novas revelações", artigos de jornal, seminários, etc.
Mas é justo reconhecer que não se trata de um evento de somenos: há cem anos, afundava-se boa parte das esperanças na redenção da tecnológica, do progresso imparável, no controlo da natureza pelo homem, do optimismo desenfreado. Uma enorme e orgulhosa construção marítima, considerada "inafundável", acabou engolida pelo oceano na sua primeira viagem, em menos de três horas. Perdeu-se milhar e meio de vidas, assistiu-se a cenas de cobardia e a outras de grande coragem (o comandante afundou-se com o navio), mas a humanidade perdeu boa parte da Esperança ali. Os anos que se seguiram, os da Grande Guerra, só acentuariam essa descrença. Depois voltou o optimismo, por dez anos, até regressar a miséria, o totalitarismo e novamente a guerra.

No entanto, cem anos depois, a maior parte - ou uma grande parte - das pessoas ainda acredita na redenção pela tecnologia e na imparável marcha do progresso tecnológica, que há de tornar este mundo perfeito. Num seu artigo desta semana no Público, Pedro Lomba tecia uma comparação entre o terramoto de 1755 e o naufrágio do Titanic, com referências a Pangloss, essa personagem voltairiana para quem "tudo ia pelo melhor dos mundos", acontecesse o que acontecesse (e fica a ideia de que a orquestra do transatlântico seria o Pangloss de serviço). O pessimismo será comparável, apesar das causas serem diferentes, mas dá-me ideia que continua a haver muitos mais panglossianos crentes na invencibilidade da tecnologia do que seria norma. O que não deixa de ser bizarro.

domingo, abril 08, 2012

Páscoa


Terminado o sábado, ao romper do primeiro dia da semana, Maria de Magdala e a outra Maria foram visitar o sepulcro. 2Nisto, houve um grande terramoto: o anjo do Senhor, descendo do Céu, aproximou-se e removeu a pedra, sentando-se sobre ela. 3O seu aspecto era como o de um relâmpago; e a sua túnica, branca como a neve. 4Os guardas, com medo dele, puseram-se a tremer e ficaram como mortos. 5Mas o anjo tomou a palavra e disse às mulheres:«Não tenhais medo. Sei que buscais Jesus, o crucificado;6não está aqui, pois ressuscitou, como tinha dito. Vinde, vede o lugar onde jazia7e ide depressa dizer aos seus discípulos: ‘Ele ressuscitou dos mortos e vai à vossa frente para a Galileia. Lá o vereis.’ Eis o que tinha para vos dizer.» 8Afastando-se rapidamente do sepulcro, cheias de temor e de grande alegria, as mulheres correram a dar a notícia aos discípulos. 9Jesus saiu ao seu encontro e disse-lhes: «Salve!» Elas aproximaram-se, estreitaram-lhe os pés e prostraram-se diante dele. 10Jesus disse-lhes: «Não temais. Ide anunciar aos meus irmãos que partam para a Galileia. Lá me verão.»


Evangelho segundo São Marcos, 28

sábado, abril 07, 2012

Derrotas imorais (ou o contrário de uma vitória pírrica)


 

Há no desporto desaires que geram mágoa, frustração, depressão, vergonha. Outras, pelo contrário, geram revolta, orgulho e determinação para os desafios seguintes. O jogo do Benfica em Londres, frente ao Chelsea, pertence claramente ao segundo grupo. Depois de um desaire por uma bola na Luz, num jogo em que os ingleses pouco atacaram e puderam agradecer a não marcação de uma grande penalidade escancarada, o Benfica chegou a Stanford Bridge sem um único central de raíz, sofreu um golo de penalty cedo, viu Maxi ser expulso sem que se percebesse o primeiro amarelo, ao mesmo tempo que o resto da equipa era corrida a cartões e a equipa de Abramovitch escapava pelos pingos da chuva. Ainda assim, os jogadores do Benfica atacaram sempre que puderam, tiveram tantas ou mais oportunidades de golo que o adversário e chegaram a marcar a cinco minutos do fim, antes de sofrerem o segundo golo nos descontos, em contragolpe. Não é uma "vitória moral", é antes uma derrota imoral
Quando nas aulas teóricas de futebol se quiser dar o exemplo de uma equipa que caiu de pé e lutou até ao máximo das suas forças com o mínimo de condições e entre incríveis adversidades, pode colocar em primeiro lugar o video do bravíssimo Benfica de Stanford Bridge.

quinta-feira, abril 05, 2012

A Dama de Ferro e o regresso da questão Falklands


O filme A Dama de Ferro, tentativa de biopic sobre Margareth Thatcher, ainda se exibe nalgumas salas de cinema. Consegui vê-lo já depois da esperada consagração da grande Meryl Streep na última sessão de Óscares. De facto, e tal como diziam inúmeras críticas, não é tanto uma "biografia filmada" mas mais um filme sobre a caminhada para o topo de uma self made woman, a posterior perda desse mesmo poder e a cruel comparação com a decadência física e mental de quem o assumiu. É um pouco também uma afirmação feminista.
 
Esperava esta obra há já alguns anos. A ideia se fazer um filme sobre Tatcher não era nova e já tinha bastante tempo. A de que o papel principal fosse interpretado por Streep também, e houve mesmo quem visse um ensaio em The Manchurian Candidate, de 2004, onde a podíamos encontrar como uma senadora fria e manipuladora (que no estilo, que não nas intenções, lembrava um pouco Thatcher).

Se a ideia era mostrar as fragilidade dos que em tempos assumiram um poder que parecia inexpugnável, então o resultado é satisfatório. Uma Thatcher de terceira idade, trôpega e semi-esquecida, atormentada pelo fantasma do marido Dennis, mas que ainda conserva parte da lucidez, necessária para as recordações de tempos idos e as comparações. Interessante, nesse ponto, para quem gosta do género da "biografia psicológica". Mas eu prefiro as clássicas, e nesse sentido senti-me um pouco defraudado pela insistência na "velha Thatcher", que aparece tantas vezes no filme como o restante percurso. Não que haja qualquer problema em construir uma biografia filmada com recurso a flashbacks e recordações, mas a insistência na senilidade da dama de Ferro, e sobretudo na obsessão com o marido torna-se cansativa.
Esperava, confesso, que o filme se debruçasse mais sobre a vida de Thatcher, em especial os anos oitenta. A política económica, que marcou o seu governo, quase nem aparece, assim como a crise social que se gerou (desemprego, hooliganismo, etc), e entre a Guerra das Malvinas e a saída provocada pelos adversários internos, ou seja, oito anos, limitam-se a colocar algumas fotografias e nada mais. E depois da demissão, passa-se directamente para o período da "Thatcher velha", num enorme salto sem que se perceba o que lhe aconteceu nos anos subsequentes aos seus governos. A minha semi-desilusão com o filme deve-se a esses saltos não explicados, às omissões graves e à escassa explicação dos factos. Para mim, uma verdadeira biografia não deve deixar buracos nem cenas que só lá estão porque sim (e que na realidade têm mais relevância do que aparentam). Preferiu-se enveredar pelos intrincados caminhos psicológicos do poder e da sua passagem. São opções...
 
Meryl Streep ganhou o Óscar pela sua interpretação da baronesa. Houve quem dissesse que era "o papel da sua vida", mas discordo, porque a maior parte das interpretações da actriz americana seriam a "da vida" de quase todos os actores de cinema. Este é soberbamente interpretado, de acordo, e mereceu o galardão, mas Streep já o merecia noutras ocasiões. Madison County, "I had a farm in Africa", só a título de exemplo.
 
É interessante verificar que o filme chegou aos cinemas em 2011 e 2012, e que precisamente por estes dias comemoram-se os trinta anos do início da Guerra das Malvinas, em Abril de 1982, um dos principais momentos de A Dama de Ferro (e no ano em que Streep recebia o primeiro Óscar de melhor actriz). Justamente, a Argentina, pela voz da presidente Cristina Kirchner, vem de novo reivindicá-las, com um discurso nacionalista e populista, apostando agora não na guerra militar mas na diplomática, apoiando-se nos vizinhos sul-americanos. O argumento é o da contiguidade territorial e a pouca distância das ilhas do continente sul-americano. Mas parecem esquecer-se do princípio da auto-determinação dos povos, e que a população das ilhas é exclusivamente composta por ingleses e escoceses que não têm a menor vontade de ficar sob domínio argentino.

É claro que Londres já respondeu que quanto à soberania das Malvinas/Falklands não havia qualquer conversa. Mas para além da onda de nacionalismo populista, Kirchner sabe que os mares a área à volta das ilhas escondem inúmeros recursos, incluindo petróleo e gás natural. As razões são mais compreensíveis do que em 1982, quando a junta militar, para fazer subir a sua popularidade, invadiu as ilhas, certas de que o Reino Unido não reagiria. Enganaram-se, e depois de semanas de combate, os britânicos afundaram o cruzador General Belgrano (as imagens constam do filme), cercaram as forças argentinas, na sua maioria compostas por soldados inexperientes, em contraste com os ingleses, habituados às emboscadas no Ulster, e forçaram-nas à rendição, hasteando de novo a Union Jack no território. A humilhação da derrota conduziu a grandes revoltas e à queda da junta, levando ao regresso da democracia no país das pampas. O grande jogo da Mão de Deus, no Mundial de 1986, entre os dois inimigos de 1982, tinha por isso uma carga política enorme.

Evidentemente que ninguém espera um confronto militar, nem Kirchner será tão obtusa e audaciosa como o ditador Galtieri, apesar de Londres estar a cortar nas despesas militares. Mas poderá ser um caso a seguir com interesse no futuro. Irónico é ver manifestações esquerdistas em Buenos Aires, queimando bandeiras britânicas em frente à embaixada, como se estivessem ao lado do brutal regime ditatorial e pró-fascista que então vigorava, durante o qual foram mortas e desapareceram milhares de pessoas, e que caiu precisamente graças à derrota militar. Nesse aspecto, os argentinos que não fossem apoiantes da ditadura deviam estar gratos à Dama de Ferro.


sábado, março 31, 2012

Dois andares

Finalmente! Consta que há um ano que eles andam por aí, mas só nos últimos dias é que finalmente pude ver os autocarros de dois andares de nova geração que agora circulam pelo Porto. Parece-me que fazem percursos mais periféricos (para reduzirem o número de veículos e não agravarem o trânsito para essas periferias?), ao contrário do que acontecia antigamente. Têm um ar elegante, mas meramente funcional, muito germanizado, o que não admira, já que são da marca alemã MAN.
Claro que são muito diferentes dos velhos autocarros duplos que circularam na cidade até primórdios dos anos noventa. Esses venerandos meios de transporte, construídos pela British Leyland e iguais aos seus irmãos londrinos, marcaram gerações que neles se deslocaram por toda a cidade. A carreira, agora suprimida, que mais os popularizou terá sido certamente a do 78, que atravessava a cidade desde o Castelo do Queijo até ao Hospital de S. João. Era fantástico, talvez devido à idade, subir a Avenida da Boavista e percorrer as perpendiculares lá em cima, no andar superior, com uma grande vista panorâmica, nesses autocarros vermelhos, laranjas ou até, em versões mais antigas, verde-escuros, normalmente com publicidade associada. Prática comum era a dos "gunas", ou miúdos de bairro, subirem para a parte de trás do veículo, uma saliência no vidro traseiro, e deixarem-se ir.
Os novos autocarros, com o seu pragmatismo disciplinar alemão, não têm espaço para gunas nem grande paleta de cores. Não sei como são por dentro nem qual o ângulo de vista superior. Mas servem pelo menos para suprir uma memória viva dos transportes da cidade do Porto. Falta-lhes alguma publicidade, para abater no passivo dos STCP, e novas cores, para cumprirem ainda melhor essa função complementar ao transporte de passageiros.

quarta-feira, março 28, 2012

Verdade e consequência


A busca da verdade é das mais antigas aspirações do Homem, seja através da religião, da ciência das letras, da música e das artes, entre outras. Hoje em dia, a maioria fá-lo-à preferencialmente pela tecnologia, apesar dos seus duvidosos limites. Por isso, quaisquer razões que nos levem na sua busca, ou a pensar em como a avistar, serão sempre proveitosas.
No último fim de semana ouvi vários caminhos para a encontrar. É verdade que o evento que motivou esta busca partiu de uma entidade inspiração religiosa, o que nem por isso retira significado, já que para os cristãos a Verdade é dada pela Revelação de Cristo, mesmo que nem sempre seja muito compreensível à mente humana. Mas também ouvi outras vias: a música e as suas inúmeras interpretações (e outras tantas verdades respectivas), a busca jornalística no apuramento dos factos, a verdade revelada pela caridade e conhecimento dos outros, mesmo quando pareçam insignificantes. Ou ainda descoberta a contrario, quando nos deparamos com o relativismo, o fanatismo e uma busca maquiavélica do poder e sua manutenção, o que será sempre uma distorção da Verdade. E as suas faces, a Aletheia dos gregos, ou o desvelar, a Veritas latina, ou a verdade dos factos, concreta, e a Emunah, a verdade pragmática que estabelece a confiança. Por fim, as suas consequências, como o Amor e a Esperança. Nem sempre fáceis de atingir, porque se alguma coisa aprendi foi que a verdade tem várias dimensões, e quando julgamos lá chegar, temos que continuar a busca, como numa escalada a uma montanha; e quando lá chegamos, nem sempre a reconhecemos, ou queremos reconhecê-la.
Para além de tudo, uma excelente oportunidade de ouvir testemunhos que deveriam forçar os que o ouviram a olhar para as suas próprias misérias comodistas, de conhecer personalidades marcantes (e algo desconcertantes nas suas várias facetas) e de reencontrar outras que inspiraram nos primórdios da blogoesfera.

segunda-feira, março 26, 2012

A Champions vai à Luz


O Benfica tem vivido nas últimas semanas uma autêntica montanha-russa no que diz respeito ao jogo jogado. Perda de muitos pontos e a liderança segura no campeonato, passagem aos quartos de final da Liga dos Campeões e à final da Taça da Liga foram as consequências dessa falta de estabilidade competitiva, culminada com um triste e soporífero empate em Olhão. Mas no meio disto tudo, chegou uma notícia honrosa: o Estádio da Luz vai ser o palco da final da Liga dos Campeões em 2014, um evento só reservado aos melhores. Não é a primeira vez que acolhe finais internacionais. Em 1983, quando a final Taça UEFA se jogava a duas mãos, o Benfica empatou com o Anderlecht, perdendo a oportunidade de ganhar o troféu. Em 1992 o Werder Bremen ganhou a Taça das Taças ao Mónaco, no cenário da Catedral. Em 2004, aquela triste final do Campeonato Europeu de Futebol, organizado por nós e que tinha corrido exemplarmente até aí, a essa tarde em que Charisteas silenciou um país (curiosamente a Grécia era treinada por Otto Rehhagel, que também ganhara ali com o Bremen em 1992). Mas antes de tudo isso houve outra final de campeões europeus em solo nacional: em 1967, o Celtic de Glasgow surpreendia e derrotava o Inter de Milão no Estádio Nacional. Os escoceses, que ficaram conhecidos como Lisbon Lions, tiveram a honra de ser a primeira equipa britânica a alcançar o ceptro de campeões europeus de clubes, quando até aí só clubes latinos o tinham conseguido.

Agora, a final da prova mais importante de clubes volta a Portugal. Daqui a dois anos e pouco, centenas ou milhares de milhões de espectadores em todo o Mundo estarão com os olhos virados para a Luz. Uma honra que o grandioso estádio do Benfica, herdeiro directo da Velha Luz, já merecia.

quarta-feira, março 21, 2012

Tesouros inesperados 3

Em (A invenção de) Hugo (Cabret), o último filme de Scorcese, ainda em exibição, também há a busca de tesouros, na forma de uma herança desconhecida que é das poucas coisa que o pai do protagonista, um rapazinho que vive no relógio da Gare Montparnasse, lhe legou. Mas mais do que uma herança, acaba por ser um tesouro perdido, que leva à descoberta de traços de mais uns quantos "tesouros" esquecidos por todos, menos pelo homem que os criou. Sempre pensei que George Meliés tivesse sido sempre um homem reconhecido pelo seu trabalho, mas a verdade é que Hugo, dentro do seu registo algo fantástico, conta a história (verdadeira, no que interessa) da queda e redenção do pioneiro do cinema, que chegou a tornar-se um simples comerciante de brinquedos antes do seu trabalho ser redescoberto e reapreciado, acabando mesmo por lhe valer a Legion d´Honneur.

Os tesouros descobertos são os traços da obra de Meliés (interpretado por um Ben Kingsley igual a Medina Carreira), os seus fabulosos desenhos escondidos e a sua obra cinematográfica redescoberta. Contam-se por dezenas os seus filmes, sobretudo fantásticos ou de terror, e os primeiros efeitos especiais. Mas o mais conhecido, e que dá o ponto de partida para a descoberta do tesouro cinematográfico de Meliés, é mesmo Voyage dans la Lune, esse ícone do primitivo cinema de aventuras e ficção científica que se tornou um ex-líbris do realizador francês. A sua utilização em alguns videoclips prolongou a sua popularidade ao longo das décadas. E ao ver as suas imagens, é impossível deixar de pensar na homenagem que os Smashing Pumpkins e os Queen lhe fizeram.





A propósito dos Queen, outro ponto de ligação: Sacha Baron Cohen, que interpreta o papel do desastrado guarda da estação de Montparnasse, fará de Freddy Mercury num biopic, ao que parece ainda este ano. Seja o que for, deve ser surpreendente.

segunda-feira, março 12, 2012

É preciso que uma ou duas coisas mudem...


...para que tudo fique na mesma (cortesia de Giuseppe Tomasi di Lampedusa).

(Ainda existirá o heliporto no topo?)
 
Athletic renascido

Na Taça UEFA, agora oficialmente Liga Europa (ou euroliga para os amigos), observaram-se alguns resultados interessantes, como a surpreendente vitória do Sporting sobre o novo-rico Manchester City. Mas o jogo mais fantástico, pelo futebol jogado e pelo resultado, terá sido o em casa do vizinho do City: o Manchester United-Athletic de Bilbao. Em Old Trafford, os bascos estiveram a perder e reagiram com três golos, acabando por vencer a partida por 3-2. Com o treinador argentino Marcelo Bielsa, o Athletic parece estar de novo em forma, com uma nova geração de jogadores, sempre bascos (embora alguns de segunda geração, com origens raciais diferentes), comandados pelo gigante Llorente. Pode ainda conseguir um lugar na Liga dos Campeões do próximo ano e vai à final da Copa do Rei (troféu de que chegou a ser o maior detentor, com 23 títulos) para enfrentar o favorito Barcelona. O jogo da segunda mão com a equipa de Alex Ferguson, na "catedral" de San Mamés, promete ser um embate memorável.


sábado, março 10, 2012

Degelo

Depois da derrota em Guimarães, do nulo em Coimbra (este injusto e condicionado) e de mais uma habitual proençada no jogo contra o Porto que pode muito bem ter sido decisivo para o título, o Benfica lá se redimiu e eliminou o Zenit de S. Petersburgo, acabando com a malapata de resultados que tinha começado precisamente sob o frio da cidade dos czares. Os russos, praticando um puro cattenacio, não tinham plano b, e depois de sofrerem o golo de Maxi não souberam minimamente reagir. Na segunda parte nem esboçaram um gesto de ataque, enquanto o Benfica ia desperdiçando ocasiões de golo, até que a fechar a esperança Nelson Oliveira pôs fim ao pouco nervosismo que ainda subsistia. Não houve Medvedev, Bruno Alves ou Gazprom que valessem aos russos. A alegria voltou à Luz, recuperou-se prestígio europeu e ganharam-se mais uns milhões de euros. Para os quartos, Jesus queria uma equipa inglesa, mas como é improvável ficaria contente com o vencedor da contenda Inter-Marselha (o Apoel traz menos emoção e com o Basel já jogámos esta época). Com sorte, chegamos às meias e depois seja o que Deus quiser (desde que se caia de pé).

Medvedev, o presidente cessante da Rússia vendo abismado a sua equipa a levar um banho de bola na Luz. Como se não bastassem os protestos públicos e a saída do cargo...

quarta-feira, março 07, 2012

Les Aventures de Tintin d´après Spielberg





Falei há dias dos filmes do ano passado. Um dos mais aguardados era a adaptação de Tintin ao grande ecrã por Steven Spielberg, e que teve uma nomeação discreta nos últimos Óscares, se excluirmos a rábula de Billy Crystal, disfarçado de Tintin numa cena da sua costumeira apresentação dos filmes.


Já vão uns tempos desde que o vi, mas voltei a recordá-lo a propósito dos filmes do ano passado. O grande projecto de Spielberg de levar ao grande ecrã uma adaptação do herói belga que se visse era um enorme desafio. A ideia já existia há mais de trinta anos, desde que o realizador americano conheceu Hergé, mas com a morte do desenhador belga o projecto ficou na gaveta durante décadas. Até que, depois de árduo trabalho e muito marketing, saltou para as telas.


Convenhamos que não é fácil adaptar BD ao cinema (a maioria das experiências é deplorável), quanto mais uma personagem com a carga mítica de Tintin, tão europeu, por americanos. Entendeu pegar-se em dois álbuns que se completam, O Segredo do Licorne e O Tesouro de Rachkam, o Vermelho (provavelmente os que conseguem aliar menor carga ideológica a maior dose de aventura), e acrescentar O Caranguejo das Tenazes de Ouro. Talvez fosse a abordagem mais correcta, por muito que gostasse de ver O Ceptro de Ottokar adaptado. Misturou-se tudo, criaram-se cenas novas, alterou-se o carácter de algumas personagens e filmou-se em motion-capture, com os actores a gesticular e a falar antes de serem revestidos pela imagem das personagens.

O resultado é satisfatório, confesso. As imagens da primeira parte no filme recriam uma Bruxelas fiel à época pós-Segunda Guerra (e aos álbuns), visível nos pequenos mercados de rua, na arquitectura e nos automóveis. Há ritmo, humor e aventura q.b. Os efeitos especiais são eficazes e a técnica encontrada para não pôr em cena personagens em carne e osso que eventualmente desvirtuassem os originais.


Mas à parte isto, devo dizer que vi mais o dedo de Spielberg que de Hergé. Até assisti a uma sessão dobrada em português e sem recurso a 3-D, para evitar uma visão mais "americanizada". Mas Spielberg, apesar de todos os esforços em contrário (ou não), estava quase sempre lá. Não sei se será propositado ou não. Mas Hergé parece ser o mero e longínquo inspirador das aventuras do filme e das suas personagens, como se tudo o resto fosse uma adaptação livre de um qualquer romance esquecido e jamais reeditado. Estamos a falar de um mundo muito europeu, que partiu de uma inspiração católica e desconfiada do Novo Mundo, e para um americano não será tão fácil de reproduzir. Apesar dos esforços, ainda não é o Tintin dos álbuns, se é que isso é possível. É um Tintin de Spielberg, e provavelmente continuará a ser em próximas sequelas. Hergé ficou nos quadradinhos. O encontro entre a banda desenhada e o cinema é das empresas mais difíceis e constrangedoras da existência humana dos últimos cem anos. Quando alguém o consegue, merece uma coroa de louros. Spielberg esteve lá perto, mas usou uns esboços já existentes para construir uma obra sua. Talvez se aproximasse mais se tivesse utilizado a banda sonora mais fiel às aventuras do repórter belga.




Já houve outras tentativas de levar Tintin ao cinema. Esta adaptação do Caranguejo das Tenazes de Ouro, de 1947, em bonecos de trapo, é a primeira, e provavelmente a mais terna.



quarta-feira, fevereiro 29, 2012

Garzón e a tirania judicial


Baltazar Garzón acabou por ser absolvido da acusação de prevaricação ao reabrir processos contra crimes e abusos do regime franquista enquanto vigorou, até à morte do Caudillo. O Supremo Tribunal de Espanha considerou no entanto que apesar de não ter cometido um crime, não tinha competência para qualificar os actos em questão como Crimes contra a Humanidade, e que a Amnistia de 1977, um dos pilares do actual regime democrático, sanava.

Acaba por ser o desfecho mais feliz. Garzón já tinha ficado inibido de exercer as suas funções de magistrado - o que na prática acaba com a sua carreira - pelo uso de meios ilegais para a ceder a provas, nomeadamente escutas a conversas telefónicas entre arguidos e os seus advogados. Agora, embora na prática não tenha recebido nenhuma condenação, acabou por levar uma reprimenda por criar normas e tipificar crimes onde eles não existem.

Garzón, talvez o juiz mais conhecido da actualidade, cometeu o erro mais fatal dos magistrados: o justicialismo extremo, o querer ir mais além do que podia e devia e sobretudo de legislar onde devia julgar e aplicar as leis. usou meios inaceitáveis e pior, reabriu fissuras ideológicas num país que bem precisa de mais cimento para as fechar. Não pela vontade (legítima) de muitas famílias quererem saber onde foram enterrados os seus mortos, mas por considerar que uma parte de Espanha se podia vingar de outra, mesmo que uma lei de trinta anos, base do actual regime, o impedisse. Determinado, corajoso e incansável, o juiz acabou por ser vítima do seu sucesso e da sua vaidade profissional.

Mas esta última decisão é importante porque prova que afinal os juízes condenaram anteriormente Garzón não por razões ou pressões ideológicas, mas por considerarem que ele realmente prevaricou e usurpou competências. é um bofetada de luva branca nos saudosistas da 2ª república, por norma possuídos por histeria radical, que já bradavam que o franquismo se tinha apoderado da justiça

Não é manifestamente o caso. Um homem poderoso e popular acabou condenado porque usurpou funções que não eram as suas numa área fundamental como é a justiça, mas não por quaisquer razões políticas. Um juiz quis determinar qualificação de normas e criá-las ele próprio. Mas a função legislativa não cabe aos juízes, e sim ao poder legislativo. Quando o poder judicial tenta criar direito que não na jurisprudência, está a violar o princípio da separação dos poderes e consequentemente a instalar a tirania (dos tribunais). Isto é que devia ficar bem claro, por cima de todos os soundbytes gritados nas ruas. Que Garzón não o tenha percebido é que é mais grave, e prova que era realmente a altura de deixar o cargo, por mais competente que tivesse sido no passado.

terça-feira, fevereiro 28, 2012

Óscares 2012

Não, não concordo que não tenha havido qualquer surpresa nos Óscares: todos apostavam em George Clooney para a estátua de melhor actor, mas um quase desconhecido (fora do seu país) francês arrebatou-lha. E alguns espertinhos achavam que Meryl Streep seria ultrapassada. Mas não. Streep, que estava para os Óscares como o Benfica para as finais das competições europeias, conseguiu enfim a sua segunda estátua como melhor actriz, trinta anos depois da primeira. Ficou sanado o escândalo da melhor actriz do cinema moderno ter menos Óscares que Sally Field ou Hillary Swank.
De resto, gostei dos prémios ao velho Christopher Plummer e ao iraniano Uma Separação, ao melhor argumento original para Meia-Noite em Paris (mesmo que Woody Allen tenha, como aliás é tradição, primado pela ausência) e à tentativa de sabotagem cómica de Sacha Baron Cohen, vestido com um misto de Kadhafi e Bin Laden. Que se poderá esperar da sua futura interpretação de Freddy Mercury? E sim, claro que gostei do regresso do meu conhecido Billy Crystal, depois de um período de nojo, embora ache que antigamente ele estava mais inspirado. Desilusão só mesmo no tapete vermelho. Não houve nenhuma revelação feminina, o que transforma a gala deste ano numa desilusão. Mas ainda não vi o resumo da festa nem do desfile, pelo que admito estar a ser injusto e a reconsiderar uma segunda opinião.

segunda-feira, fevereiro 27, 2012

Depois do Carnaval

Chegou a Quaresma. Há que cumprir os quarenta dias de sacrifício, humildade e temperança. O Carnaval que a antecedeu podia ser mais apagado em função da avareza de tolerâncias de ponto verificadas este ano e pela crise da nossa economia. Mas ao que parece houve na mesma corsos, desfiles, máscaras, folias tradicionais e sambas com o fresco de Fevereiro. Acho uma certa piada às tradições semi-pagãs e telúricas que se assinalam por esse país fora, mas aos desfiles de samba não lhes vejo piadinha nenhuma. Uma pena que não tenham ido buscar a inspiração a Veneza em lugar do Rio. De qualquer modo, ainda há quem se esforce por, à falta dos entrudos de outrora, inspirar-se na Serenissima e deixar uma réstia de civilização para ver se pega. Mesmo que não faça escola nem se torne moda entre as massas, a tentativa é sempre bem vinda e o esforço digno de aplauso, para que continue.

sábado, fevereiro 25, 2012

Tesouros inesperados 2

Podem-se encontrar tesouros de grande valor material, ou então outros que não sendo tão comparáveis à caverna de Ali Babá, oferecem uma perspectiva comercial (ou estética, ou museológica) interessante, como os referidos no post anterior. E ainda há os que, a despeito do seu valor em dinheiro, ainda espantam pela sua utilidade, ao fim de anos e anos de protecção.

Houve uma notícia do ano passado que me deixou a sorrir pela perenidade de certos tesouros. Nas profundezas do mar Báltico, entre a Suécia e a Finlândia, uma equipa de mergulhadores descobriu um navio afundado, contendo uma carga de garrafas protegidas por trapos. Desarrolhadas, revelaram um champanhe de primeira ordem, que depois de várias amostras, e por não ser possível identificar o rótulo, se provou ser da Veuve Clicquot. Mais ainda, seriam uma oferta de Luís XV (ou XVI, depende do ano do naufrágio) a Catarina a Grande, da Rússia, o que só aumenta o valor da descoberta. Ao que parece, a temperatura ambiente a escassa luminosidade permitiram que a bebida se conservasse em perfeito estado. Assim, as garrafas com o néctar permaneceram intactas no fundo do Báltico sem que nunca tivessem chegado ao destino. Dificilmente chegarão, porque a carga, pela sua propriedade, deve pertencer a França, a não ser que algum dos habituais multimilionários russos compre alguma garrafa, o que é bem possível.

É verdade que descobrir preciosidades em ouro e pedras preciosas deve ser emocionante. Mas e descobrir uns invólucros com um líquido desconhecido dentro? À primeira ideia não parece ser grandemente divertido. Mas saber-se depois que é um champanhe do século XVIII, da melhor categoria e perfeitamente conservado talvez cause alguma emoção. Fica a dúvida se quereria uma gratificação monetária pela descoberta ou se preferia ficar com algumas garrafas em proveito próprio, que se não fosse um naufrágio naqueles mares tempestuosos, estas primeiras amostras de Veuve Clicquot teriam sido consumidos por boiardos russos e amantes da imperatriz.

sexta-feira, fevereiro 17, 2012

Tesouros inesperados


As histórias de descobertas de tesouros inesperados sempre me interessaram, pelo acaso da Fortuna poder estar ao virar da esquina, pela natureza dos objectos encontrados, e evidentemente, a parte glamourosa na novidade.
O famoso cozinheiro britânico Jamie Oliver encontrou na cave de um antigo banco que estava em obras de restauro para se transformar em restaurante, em Manchester, vários cofres, datados de 1935, com armas, jóias, dinheiro, e, mais importante, cassetes com gravações raras dos Joy Division e da sua metamorfose electrónica, os New Order. A descoberta levanta várias interrogações: a quem pertencem os bens ali guardados? Porque é que nunca os levantaram, quando o edifício mudou de funções? Qual a recompensa que caberá a Oliver? Os New Order farão ideia do material que ali estava? E a pergunta que mais pessoas farão, as cassetes estarão ainda em bom estado, de forma a que ainda se possa ouvir a voz de Ian Curtis em canções inéditas?
Nunca ninguém disse que um cozinheiro não podia ser editor de música.

quarta-feira, fevereiro 15, 2012

Memória e reconhecimento


Os timorenses têm a memória menos curta e são mais gratos do que os portugueses
. E não esquecem quem sempre esteve com eles, muito antes dos massacres de Santa Cruz, quando todos os outros, por desconhecimento ou falta de carácter, deixavam Timor à sua sorte. Quem se lembrar do vergonhoso episódio da delegação oficial portuguesa, na cerimónia da independência de Timor-Leste, que resolveu esquecer-se de convidar o Duque de Bragança, perceberá porquê. Agora essa aindignidade ficou em parte sanada. Graças a Ramos Horta, e não a qualquer autoridade oficial ou titular de um orgão de soberania da "república portuguesa".

sábado, fevereiro 11, 2012

Os gastos da república francesa



Já sabíamos que a Presidência da República de Portugal gastava mais do que a Casa Real de Espanha. Agora, um deputado socialista francês publicou um livro onde denuncia os gastos exorbitantes de Nicolas Sarkozy. Vejam um excerto:

No orçamento do Eliseu contam-se gastos como 120 mil euros por ano para os seguros da frota automóvel, mais 327 mil euros por ano em combustível. E só na semana passada, os cofres públicos terão perdido 26 mil euros para cobrir o envio de uma equipa de médicos à Ucrânia a bordo do avião presidencial para dar apoio a um dos filhos do presidente, Piérre, e trazê-lo de volta a Paris. E a austeridade, não chega ao presidente?, perguntarão os franceses. Há uns tempos, Sarkozy cancelou a festa anual nos jardins do Eliseu, num passo aplaudido pela opinião pública por poupar quase 600 mil euros dos cofres estatais. Mas desengane-se o eleitorado, diz Dosière, que a poupança fica por aí. O presidente de França gasta tanto, diz o socialista, que o Orçamento do Eliseu ultrapassa as despesas anuais da Rainha Isabel II de Inglaterra. Afirmação suficiente para engasgar o menos republicano da República por excelência.


Por trás de todas as mudanças dos últimos duzentos anos, permanecem traços imutáveis da velha França. Ao lado do motto "Liberté, Egalité, Fraternité", aparece sempre um presidente que poderia facilmente dizer L´Etat c´est moi, sobretudo desde De Gaulle. No caso de Sarko, é mais um Napoleão sem génio militar, com mal disfarçadas pretensões gaullistas mas sem a grandeza do general, e com o fausto de Luís XIV mas sem um Colbert.
Todas estas notícias, a serem verdadeiras, são mais uma machadada daquele ridículo mito de que "as monarquias gastam mais dinheiro do que as repúblicas".

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

Homenagem a uma Senhora



Falando ainda de senhoras pertencentes a famílias reais, a história de D. Adelaide de Bragança merece toda a atenção. Ao contrário de Isabel II, nunca reinou, e durante muitos anos nem sequer pôde pisar solo português, já que pertencia ao ramo miguelista banido pela Convenção de Évora Monte. Neta de D. Miguel, D. Adelaide cresceu em Viena e assistiu ao Anchluss. Trabalhou como enfermeira durante a guerra, integrou a resistência ao nazismo com o nome de código "Mafalda" e foi por isso condenada à morte e salva pela intervenção de Oliveira Salazar. Voltou à resistência, e a ser condenada à pena capital, e aí salvou-a a intervenção dos soviéticos, que por pouco não a enviaram para a Sibéria, só a libertando depois de descobrirem que ajudaram resistentes comunistas. Depois de tantas atribulações, conseguiu enfim ir para Portugal, extinta a Lei do Banimento, e instalou-se em Almada. Aí deparou-se com a miséria material da população e criou a Fundação Nun´Álvares Pereira, de apoio aos mais carenciados,em especial crianças e mulheres grávidas, fazendo disso o seu modo de vida, enquanto o marido, o médico holandês Nicolaas Van Uden, participava na criação do Instituto Gulbenkian de ciência.


Esta senhora notável recebeu do Presidente Cavaco Silva a Ordem de Mérito Civil a 31 de Janeiro último, dia em que completava cem anos, perfeitamente lúcida e rodeada de inúmeros familiares e admiradores. Quando tantas condecorações se tornam inúteis e corriqueiras, e vão parar a gente de pouco préstimo, é reconfortante saber que ainda há quem as mereça e seja lembrado, ainda que para isso tenha de chegar ao estado de centenário. Mas sobretudo o que me alegra é saber que há quem tenha tido vidas extraordinárias, passado por grandes tormentos e se tenha dedicado a cuidar dos outros, em especial dos mais carentes, e que esse exemplo e testemunho sejam reconhecidos antes que fosse tarde demais. Dona Adelaide teve uma vida extraordinária e exemplar, de que muito poucos, mesmo na literatura, se podem gabar.


segunda-feira, fevereiro 06, 2012

God Save the Queen



Poucos monarcas reinaram durante tanto tempo. A Rainha Vitória esticou de tal forma o seu reinado - quando a Grã-Bretanha era o maior império à face da Terra - que o tempo em que viveu e as regras sociais cunharam o seu nome. A sua trineta não teve anos tão esplendorosos. Vitória viu o Império crescer, Isabel II viu-o desaparecer e o Reino Unido perder a sua hegemonia, com simbolismo máximo no desastre do Suez. Ainda assim, agarrou ainda muito nova a coroa, com a morte de seu pai Jorge VI, depois de ter assistido à Segunda Guerra bem acima da sua cabeça e de conduzir ambulâncias, sem sair de Londres, devastada pelas bombas. viu, como se disse, o Império cair, mas a sua figura manteve-se como chefe de estado em muitas antigas colónias através da Commonwealth, prova do seu prestígio. Doze primeiros-ministros passaram por ela, começando em Sir Winston Churchill, passando por Eden, MacMillan, Wilson, Thatcher e Blair. Assistiu a todas as mudanças no mundo desde os anos cinquenta. Aguentou a decadência económica e militar britânica, o punk que fazia dela o bombo da festa, o thatcherismo que liquidou boa parte do que restava da Revolução Industrial, e o annus horribilis de 1992, que teria um prolongamento em 1997, com a morte da Princesa Diana. Passou por isso tudo e mantém-se como uma figura reverencial, uma espécie de mãe distante dos britânicos e dos povos da Commonwealth.


Isabel II tornou-se soberana há 60 anos. Faltam apenas três para suplantar a sua mítica antepassada. Mais antigo do que ela só Rama IX, da Tailândia. Durante esses sessenta anos, tem reinado com a dignidade a que está obrigada e a que as circunstâncias a obrigam. A sua figura inspirou mesmo um filme, The Queen, de Stephen Fears, e deu um Óscar de interpretação a Helen Mirren, que na cerimónia em que ganhou o prémio não deixou de a invocar e de a homenagear.
O reinado de Isabel I, um período de ascensão da Inglaterra, ficou conhecido como o período Isabelino. O de Vitória, outra época de apogeu britânico, como se disse, a época vitoriana. Não sei como ficarão conhecidos estes largos anos em que Isabel II reinou. Não foram anos brilhantes para o seu reino, agora chegado às Bodas de Diamante. Mas isso apesar dela, e nunca, nunca , por culpa de quem cumpriu o seu dever de forma irrepreensível. Pudessem os súbditos dizer o mesmo.
God Save the Queen.

domingo, fevereiro 05, 2012

Um "retrocesso" exemplar


A revisão da lei do aborto em Espanha é um dado que merecia mais atenção. Não me lembro de nenhum outro governo ou regime ter revertido uma norma semelhante. Neste caso, mais do que revogar as recentes mudanças de Zapatero (que permitiam, por exemplo, que raparigas de 16 anos abortassem sem autorização dos pais), eliminaram-se as leis do aborto livre e sem fundamento, sendo agora meramente permitido em caso da malformação do feto, perigo de vida para a mãe a violação. Não sei se será a feliz reversão isolada de uma tendência preocupante que parece ter-se tornado moda (ou pior ainda, um novo "direito humano das mulheres"), ou o início de uma nova discussão e de um novo entendimento sobre o aborto. Haja esperança. Em todo o caso, é de louvar a coragem do novo governo espanhol em remar contra a maré de lugares comuns politicamente correctos e propaganda massiva, mesmo que isso não agrade a muitos, como o nosso conhecido Bloco de Esquerda, de que escreverei daqui a dias.
Mais duvidosos foram alguns títulos de jornais, falando de "retrocessos", numa linha editorial de sensacionalismo (ou parcialidade) pouco saudáveis para uma imprensa credível. Mas até se pode desculpar: é que há retrocessos desejáveis, quando os avanços vão na direcção da auto-destruição.