A Bulgária não é exactamente um dos destinos mais comuns para os europeus do sul, e como tal, os guias não abundam. Para conhecer melhor o país, fiz uma data de leituras, que foram de Gonçalo Cadilhe a Claudio Magris, passando por Michael Palin. E quase todos eram unânimes: aquele território no extremo sudeste da Europa é um dos menos conhecidos do continente, uma terra incógnita até há não muito tempo, mais usada como passagem do que como destino, conhecida sobretudo pelos produtos à base de rosas, pela sua talentosa equipa de futebol dos anos noventa (da qual muitos jogadores passaram por Portugal) e pelos caracteres em cirílico, que nasceram precisamente aí. E pouco mais.
Mas vale a pena conhecer mais. A Bulgária, nação balcânica muito tardiamente independente dos turcos, em 1878, após mais de quatrocentos anos de domínio otomano, com um povo meio eslavo meio trácio, com turcos e ciganos pelo meio, sofreu duas derrotas nas Guerras Mundiais, e tornou-se um valete previlegiado da URSS, antes da queda do comunismo e da entrada na UE, em 2007. Nos últimos cem anos, como se vê, teve uma história muito atribulada e uma herança confusa, com a qual os búlgaros ainda não sabem bem lidar.
Vejamos a capital, Sófia. Uma cidade de perto de um milhão de habitantes, quase sem subúrbios, dominada pelo maciço de Vitosha, é bastante mais pequena do que algumas cidades de países vizinhos, como Bucareste, Atenas ou Istambul. Testemunhou a passagem de vários povos, mas as severas destruições no século XX não lhe deixaram um grande legado histórico. Ainda assim, tem inúmeros motivos de interesse.
O monumento mais conhecido é provavelmente a Catedral de Alexandre Nevsky, uma das maiores igrejas ortodoxas do Mundo, que tem o nome do príncipe russo imortalizado por Eisenstein em homenagem aos soldados russos mortos na guerra da independência da Bulgária, O sentimento de irmandade (ou de paternidade) entre russos e búlgaros tornou-se evidente a partir dessa altura, para além de um grande afinidade cultural e religiosa (o alfabeto cirílico, usado pelos russos, teve origem na Bulgária), danificada quando ficaram em lados opostos nas guerras mundiais, e sobretudo com o advento do regime comunista, visto como uma quase anexação por parte de Moscovo. O sentimento dentro do templo é de mais fervor do que curiosidade turística. Ao lado, uma conhecida feira de antiguidades, onde se podem comprar ícones e
memorabilia com símbolos comunistas e nazis (entre os mais interessantes contavam-se uma charuteira e um copo misturador de coktails com as insígnias das SS), além de produtos à base de rosas, condecorações, matrioskas, armas cortantes, t-shirts, etc.
A capital tem aquele skyline que esperamos encontrar numa cidade balcânica, com igrejas ordtodoxas e mesquitas, e alguns arranha-céus, além da herança comunista. Mas nem toda resistiu ao tempo.
Depois da queda do Pacto de Varsóvia e da confusão subsequente, os governos esforçaram-se por apagar os vestígios do comunismo da face do país. Um dos maiores era o mausoléu de Georgi Dimitrov, o Estaline búlgaro, que fielmente copiou o "mestre" até nas homenagens póstumas. O enorme mausoléu, todo em pedra e mármore, fronteiro ao antigo palácio real, demorou apenas seis dias a ser construído, e o mesmo tempo a ser demolido, à força de explosivos. Hoje resta apenas um ligeiro vestígio de terraplanagem, junto a um jardim (há-os em grande quantidade, em Sófia).

Mas os vestígios comunistas de maior dimensão permaneceram e foram reaproveitados. Depois dos bombardeamentos dos Aliados na II Guerra, o centro da cidade estava em escombros. Os novos senhores do país aproveitaram para erguer um conjunto de estruturas de poder com a emblemática e esmagadora arquitectura estalinista. Ao lado da mesquita de Banya Bashi e do edifício termal, abriu-se o Largo, um espaço onde se concentravam alguns edifícios gêmeos, sendo um deles uma enorme "loja do povo", hoje um centro comercial em parte albergando ministérios, e outro, fronteiro, era e é composto pela presidência da república, na parte traseira, e por mais ministérios (hoje em dia é também parcialmente ocupado pelo hotel Sheraton, à frente). No espaço central conservou-se a antiquíssima igreja de S. Jorge, um templo redondo do século IV tido como a estrutura mais antiga de Sófia. Entre esses dois enormes edifícios, e um pouco atrás, está um terceiro, que porventura era o mais importante desse trio e de onde emanava o poder: a antiga sede do Partido, outrora encimada por uma estrela, arrancada durante a revolução e substituida pela bandeira nacional. Serve hoje em dia de apoio ao parlamento, que se situa num palacete menos megalómano.

O comunismo teve poucas contemplações com a prática religiosa. Inúmeras mesquitas, por exemplo, foram derrubadas, começando pelos seus minaretes, para lhes retirar o simbolismo e préstimo. Ainda assim, conservam-se inúmeros templos na cidade. Em frente à mesquita de Banya Bashi, uma sinagoga. Mais adiante uma igreja católica fronteira a uma antiga igreja ortodoxa, que aliás não faltam, ou não fosse a Bulgária uma velha nação ortodoxa, onde a religiosidade irrompeu de novo com a queda do regime comunista. Ali ao lado, na catedral de Sveta Nedelya, em 1925, durante a cerimónia fúnebre de um general, um enorme atentado, provocado por explosivos colocados por militantes do partido comunista, vitimou 150 pessoas e feriu centenas, entre os quais numerosos representantes da leite militar e política búlgara. O rei Boris III não se encontrava presente, já que tinha ido a outro funeral. Os desmandos comunistas no país começaram verdadeiramente aí...
Os dois edifícios gêmeos, os vestígios romanos nas obras do metro, a igreja de Sveta Sofia e o monte Vitosha, lá atrás
No centro encontram-se ainda outras antigas igrejas, teatros, edifícios universitários, as antigas instalações termais (é possível beber-se água termal em fontes na própria rua) , e, desenterradas pelas obras do metro, as ruínas da antiga cidade trácia e romana de Serdica. A meio da avenida principal, em frente, directamente virada para o Largo, uma estátua à alegórica Santa Sofia, com uma coruja no braço - provavelmente o legado cristão da deusa Atena, da Sabedoria - substituiu nos anos noventa outra estátua, de um russo chamado Lenine.
Esta cidade balcânica, com herança estalinista (que limparam o mais que puderam) que pretende a todo o custo seguir as modas do ocidente, situa-se num largo planalto, cercado pelos montes Balcãs a Norte, pelos de Rila a Sul, e pelo impressionante maciço Vitosha a Oeste, dominando toda a cidade. É para este que os habitantes da capital se dirigem, no Inverno, para fazerem uma pausa ao fim do dia ou da semana, nas suas estâncias de desportos de neve.