terça-feira, outubro 09, 2012

Página necrológica


A última semana tem sido demasiado necrológica. Começou com a morte de Armando Marques Guedes, o primeiro presidente do Tribunal Constitucional, um Senhor que aos noventa anos ainda exercia o cargo de provedor dos CTT, que se destacou no Direito Internacional, Marítimo e da Guerra, e que tive o prazer de conhecer há anos, enquanto auditor de um curso de política externa, além de ser o Pai de uma pessoa de que me prezo de ser amigo. Acreditava que o futuro da Europa não estaria isento de secessões, e a escalada catalã pode vir a dar-lhe razão.

Depois Eric Hobsbawm, um dos mais conhecidos historiadores da actualidade, tão cosmopolita que que viveu em Alexandria, Viena, Berlim e Londres. Historiador rigoroso, a sua crença marxista não o impediu, ao contrário do que algumas críticas lhe apontam, de não ser  cego perante o "socialismo real". Destacou-se por inúmeras obras, a mais conhecida das quais é A Era dos Extremos, um livro que me deram nos meus dezoito anos e que conta a história do século XX. Uma curiosidade, capaz de pôr Manuel Loff aos saltos: Hobsbawm, apesar de marxista, não considerava que Salazar fosse fascista. E pelo seu obituário, soube igualmente da morte recente de outro importante historiador britânico: John Keegan.

Há dias desapareceu Margarida Marante, de ataque cardíaco. Habituou-nos ao seu estilo de entrevistadora impetuosa, agressiva mesmo, uma imagem de marca que mais ninguém conseguiu alcançar (Moura Guedes tentou-o, mas de uma forma mais teatral e desinformada). Era uma das estrelas da televisão de qualidade e das grandes entrevistas de uma certa época, em tempos de maioria cavaquista, e que bem falta nos faria hoje. Nos últimos anos deixou a comunicação social, era sobretudo notícia por más razões, e entrou num declínio irreversível. Nas mais recentes imagens aparecia gordíssima, quase disforme. E tinha apenas 53 anos...

Ontem, finalmente, o Professor Nuno Grande. A notícia não espantou, dado o seu muito debilitado estado de saúde. Teve alguma participação política supra-partidária (soube apenas agora quer tinha sido mandatário da candidatura presidencial de Maria de Lurdes Pintassilgo), mas ficou mais conhecido por ser o fundador do Instituto Abel Salazar (ICBAS) do Porto e pela sua carreira académica e intervenção cívica. Gozava de um enorme respeito de todos. Pela minha parte, chegou a ser meu médico e ouviu-me em várias ocasiões. Era afável, tinha sentido de humor e arranjava sempre tempo para ouvir os outros. Vivíamos também na mesma rua. Infelizmente já não terei oportunidade de o ver passear na companhia da sua mulher, a Dr Ana Maria. Numa altura em que necessitamos mais do que nunca de uma intervenção cívica mais lúcida e pensada, é uma perda inestimável.
 
 

domingo, outubro 07, 2012

Grosseira falta de memória



Desastradas, as comemorações do 5 de Outubro de 1910. Além do patético (mas simbólico) hastear da bandeira ao contrário, tivemos discursos oficiais em salas reservadas à classe política - nunca o divórcio entre a dita classe e o povo esteve tão escarrapachada - críticas ideológicas a esses mesmo discursos, protestos aos berro ou em forma de canto lírico, manifestações de sindicalistas, etc
 
Entretanto, muita gente se escandalizou porque Pedro Passos Coelho não este presente, trocando as "comemorações" por uma cimeira em Bratislava. Ou sofrem de amnésia, ou são ignorantes ou então são total e vergonhosamente subservientes ao regime imposto em 1910, colocando-o acima de tudo o resto. Afinal de contas há quantos anos é que o chefe de estado e de governo não comemoram oficialmente o 1º de Dezembro, Dia da Independência?
 
 

terça-feira, outubro 02, 2012

Contra o Barcelona, sem meio-campo

 
Até aos últimos dias de Agosto estava confiante no Benfica, apesar do empate com o Braga. Achava que ainda íamos vender Gaitan e preservar Witsel. Faltava um defesa esquerdo, é certo, estava-se q queimar Melgarejo numa posição que não é a dele, e faltava um substituto para Maxi, até porque ainda falta traquejo ao miúdo Cencelo. Depois veio a venda de Javi Garcia. O espanhol é um dos esteios do Benfica e tem raça, mas por vinte milhões dava perfeitamente, e ainda temos Matic. O problema é que o raide de S Petersburgo patrocinado pela Gazprom levou-nos o belga (também levou Hulk a preço abaixo do anunciado, valha-nos isso), um jogador de uma qualidade rara, indispensável na equipa e que esperava manter por mais um ano. Como resultado, o meio campo ficou uma passador, uma manta de retalhos sem a necessária filtragem, e o resultado está à vista. No jogo de Coimbra, pese a habitual Xistrada e os seus penaltys forçados, viu-se bem o quão macio está o meio campo. Enzo Perez está a mostrar que tem qualidade técnica mesmo fora do seu lugar, mas não se lhe podem pedir funções muito defensivas, e Matic não chega para as encomendas. Para mais, Luisão está fora por castigo. Tínhamos uma boa solução para tapar o buraco, chamada Airton. Infelizmente, está emprestado ao Flamengo até Junho...
 

Se o Benfica conseguir aguentar-se até Janeiro sem perder muitos pontos, há esperança no campeonato. Aí, poderá reforçar-se (fala-se no regresso de Manuel Fernandes), vender finalmente Gaitán, que é muito bom, mas por alguma razão se comprou Ola John, e equilibrar o plantel. o problema são as competições europeias, os três próximos jogos, e sobretudo o de hoje à noite. Apesar de alguma pressão afastada pela última jornada, o Benfica recebe hoje o Barcelona na Luz, que está um pouco remendado, mas apenas lá atrás. Não fossem as baixas do defeso e haveria algum equilíbrio e a perspectiva de um jogo renhido. Assim, com um meio-campo provisório, resta-nos esperar por uma noite desinspirada dos culés e alguma sorte. Talvez dessa forma consigamos um ponto, o que ajudava muito. De outras vezes, o Barça empatou na Luz e mais tarde sagrou-se campeão europeu (o primeiro confronto aconteceu na final de 1961 e deu o primeiro título ao Benfica). Não sou grande fã da equipa blaugraná, que deve as suas cores ao Basileia, mas se ganharem nova competição e isso significar que o Benfica passa a fase de grupos, tanto melhor. Espero que a tradição se mantenha. Não que tenha grande esperança em não ver Artur ir buscar a bola várias vezes ao fundo da baliza, mas deixem-nos sonhar, nem que seja baixo.
 
 

segunda-feira, outubro 01, 2012

O perigo da agitação espanhola



Muito boas almas, a começar pelas das televisões, ficaram entusiasmadas com as manifestações que se verificaram em Espanha na última semana. Ao que parece, o "povo" saiu à rua e cercou o parlamento porque os políticos "não os representam" e para exigir "verdadeira democracia", perante a "brutalidade policial". Desconheço em que mundo vivem  os que assim pensaram. No caso da comunicação social, vejo apenas o desejo que lançar a manchete e de conseguir aumentar as audiências a todo o preço. Se as revistas usam as vidas dos desgraçados da "casa dos Segredos, os outros recorrem às armas disponíveis.

O que se viu foram seis mil pessoas (num universo de milhões) numa manifestação ilegal, tentando invadir as Cortes, que se encontravam reunidas. Não estamos a falar de largas camadas representativas da população, e sim de franjas mais radicais, como se entendia pelas indumentárias e pelos símbolos (bandeiras republicanas, por exemplo), tentando fazer um descarado aproveitamento político da situação. Isso mesmo registou a mais conceituada imprensa espanhola, ao que parece mais sensata do que as nossas TVs, lembrando que o ataque ao parlamento nacional por uma minoria era um completo desrespeito pela vontade da maioria. Quanto à brutalidade policial, parece realmente ter havido alguns excessos da polícia, mas quando uma chusma de gente tenta à força entrar na sede do poder legislativo, quebrando todas as barreiras, o que se poderia esperar?

A insanidade dos manifestantes é mais um dado inquietante num país onde inquietações não faltam. A cada semana uma nova região administrativa pede auxílio ao governo central, revelando a enorme estupidez da existência de tantas divisões autonómicas para além das mais óbvias - pelas suas características culturais e linguísticas - e das províncias. Os bancos estão descapitalizados depois dos investimentos insensatos na bolha da construção civil, que após anos e anos de ilusões, estourou  deixando à vista condomínios e blocos habitacionais às moscas, sem ninguém que os compre, levando à falência as construtoras civis e as imobiliárias e aumentando ainda mais o assustador número do desemprego. A economia não cresce, os juros estão próximos do vermelho, o resgate das instituições europeias e financeiras está iminente. Rajoy parece que afinal não enganou quanto à sua falta de carisma e tacto, tomando medidas à bruta sem consultar ninguém, permitindo que as tensões sociais se avolumem, e nem ao menos conseguindo ser minimamente eficaz nas tentativas de negociação do mais que provável resgate. E depois, os problemas máximos, postos a nu por toda esta situação: a fractura ideológica da sociedade espanhola, esse monte de  ressentimentos que a Transição não conseguiu liquidar definitivamente; e a ameaça de secessão da Catalunha. Imaginam os catalães que vão conseguir separar-se do resto de Espanha rompendo com a Constituição de 1977, mantendo-se tranquilamente no Euro, gozando da sua (pretensa) exclusiva capacidade económica e até com os seus clubes a continuar a jogar na Liga espanhola de futebol como se nada se tivesse passado e não tivesse de sofrer quaisquer consequências pelo seu acto pouco reflectido. Ou seja, querem todas as vantagens e nenhuma das responsabilidades. Se levarem em frente a sua loucura revivalista de um obscuro condado medieval, talvez não demore muito tempo a arrependerem-se.
 
 
É este o perigo que ameaça a Europa, e muito particularmente Portugal. O de convulsões num país a braços com pré-avisos de separatismo, bancarrota financeira, velhos ódios de regresso à superfície, tudo isto sob a tutela de um governo inepto que age como um elefante na fábrica da Vista Alegre. Será bom recordar aos entusiastas das manifs das metástases dos "Indignados" que a Segunda Guerra teve o seu grande ensaio em Espanha, precisamente pelos ódios, violência e separatismos que varriam o país. Não os queiram repetir.

domingo, setembro 30, 2012

Notas sobre a Bulgária - das montanhas de Rila ao Mar Negro


Aqueles a quem modernamente chamamos "búlgaros" são no fundo um conjunto de etnias amalgamadas ao longo dos tempos. Aos trácios, o povo original da região (dos quais os mais famosos terão sido Spartacus e o mitológico Orfeu), juntaram-se mais tarde tribos eslavas, seguidos dos búlgaros originais, da região do Volga e de origem túrquica. Pelo meio receberam a "visita" de macedónios, gauleses e romanos. Esse cocktail étnico deu origem ao primeiro e segundo império búlgaro, que se formaram após a conversão ao cristianismo, e que duraram toda a Idade Média, até à anexação otomana, que abriu caminho à queda de Constantinopla. O jugo dos turcos manteve-se por mais de quatrocentos anos, até que em 1878 os búlgaros obtiveram definitivamente a sua independência.

Não admira que o país sofresse tantas marchas de tantos invasores. A Norte fica o vale do Danúbio, dividido do resto do país pelos montes Balcãs, que se prolongam também para a Sérvia; a Sul são os Ródopes que o dividem da Grécia; e no miolo destes sistemas montanhosos situa-se a extensa planície trácia, algo semelhante ao Alentejo, com intermináveis campos de girassóis e matagais, vendo-se aqui e além algumas cidades. Se as montanhas exigem algumas dificuldades em transpô-las, a planície, que se estende até ao Mar Negro, facilitava qualquer invasão.

A Bulgária é um país desprovido de grandes palácios ou castelos, talvez devido ao longo domínio turco. A sua grande riqueza patrimonial são as igrejas e sobretudo os mosteiros. O mais conhecido (e visitado) é o de Rila, incrustado num apertado vale entre montanhas imponentes. Fundado pelo eremita São Ivan Rilsky, que se refugiou naquelas inóspitas serranias em oração e por muito austero espírito monástico, é um vasto conjunto, formado pelo mosteiro propriamente dito, com vários pisos, onde continuam a viver monges, pela torre central, e pela igreja, a meio do complexo de edifícios. Boa parte do mosteiro foi reconstruído nos séculos XVI e XIX. A igreja é, à boa maneira ortodoxa, uma explosão de frescos, ícones e talha dourada, uma combinação admirável, com as enormes montanhas cobertas de floresta como fundo.

Há ainda outros mosteiros, como o de Bachkovo, e uma profusão notável de túmulos trácios por toda a parte. Mas há ainda outros vestígios. Plovdiv é a segunda cidade búlgara, e situa-se na planura trácia, junto ao rio Miritsa. Distingue-se da paisagem envolvente pelas suas estranhas colinas, e tem marcas visíveis dos povos que por lá passaram ao longo dos milénios. Chamou-se Filipópolis quando Filipe II da Macedónia a tomou, mudando o nome para Trimontium no tempo dos romanos. Os eslavos chamaram-lhe Paldin, os turcos Filibe, em latim continuou a ser Philippopolis, até que a língua búlgara a transformou em Plovdiv, que manteve até hoje. Dos romanos sobejam vestígios, como o antigo estádio, de que só uma parte das bancadas é visível à superfície, já que o resto se estende por baixo das ruas centrais da cidade, e sobretudo o teatro, bem conservado, provavelmente o ex-líbris da cidade, semelhante ao que existe em Mérida. Entre os dois vestígios romanos, também no centro, situa-se o maior legado dos turcos, uma enorme mesquita.


O teatro romano, virado para a zona plana, está encostado numa colina, para onde partem ruelas empedradas, algumas delas medievais, com casas de estilo revivalista búlgaro (mais do século XIX, como aquela em que ficou hospedado o poeta francês Lamartine), igrejas, torres, até à "fortaleza trácia", de onde se colhe estranha antena de televisão e outra um memorial ao exército soviético. Talvez devido ainda ao seu passado multicultural e à sua localização no cruzamento de diversas vias, são visíveis pela cidade as minorias turcas (forçadas pelo regime comunista a mudar os seus apelidos) e ciganas. Nota-se a dada altura um certo ambiente mais asiático do que balcânico. Existe também uma sinagoga, mas é pouco crível que haja muitos judeus, apesar do auxílio prestado pelos búlgaros durante a Segunda Guerra. De gregos e arménios que lá viveram tampouco há sinais.



De Plovdiv segue-se pela interminável planície que só acaba no Mar Negro, que surge quase sem se anunciar. Entre as principais cidades costeiras, Burgas e Varna, situam-se as grandes estâncias balneares, como as tradicionais Nessebar e Pomorie, a pitoresca Sozopol, uma estreita península com inúmeras casas de madeira, e a movimentada Sunny Beach. Esta espécie de cruzamento entre uma Ibiza de Leste e Lloret del Mar, em que até o nome é anglicizado, é destino de famílias inteiras e adolescentes desenfreados, contando-se ingleses, alemães, russos, turcos, e outras nacionalidades bizarras, como bielorrussos. Há também bastantes israelitas, atraídos pela relativa proximidade do Mar Negro e pelos casinos. De tal forma que há pouco tempo houve mesmo um atentado ali ao lado, em Burgas, contra um autocarro israelita que provocou vários mortos e feridos. Em Sunny Beach, entre filas de hotéis majestático-pirosos, bares, restaurantes, discotecas, interminável comércio de produtos de marca falsificada, e a comprida praia que se estende até ao promontório mais próximo, quase não se vê uma tabuleta em cirílico. Há também consumidores búlgaros, mas a maior parte está lá para trabalhar para as hordas que os visitam, que entram e saem dos restaurantes da comida rápida, assistem aos jogos de futebol da Premier League a da Bundesliga, e invadem os discos onde ecoa desde o house mais rasca até aos grandes hits da actualidade, incluindo o omnipresente Ai se eu te Pego e Dança Kuduro. A globalização do turismo faz que dentro dos resorts não se veja nada de absolutamente inesperado. a não ser, talvez, pequenas provas de como a religiosidade dos búlgaros tem marcas em toda a parte: mesmo nos bares mais barulhentos e com ambiente mais hedonista, não falta, junto às garrafas de vodka ou à caixa registadora, um ícone de um Cristo Pantocrator ou de um santo, em especial o padroeiro S. Jorge ou os venerados S. Cirilo e S. Metódio.

sexta-feira, setembro 21, 2012

Notas sobre a Bulgária - Sófia



A Bulgária não é exactamente um dos destinos mais comuns para os europeus do sul, e como tal, os guias não abundam. Para conhecer melhor o país, fiz uma data de leituras, que foram de Gonçalo Cadilhe a Claudio Magris, passando por Michael Palin. E quase todos eram unânimes: aquele território no extremo sudeste da Europa é um dos menos conhecidos do continente, uma terra incógnita até há não muito tempo, mais usada como passagem do que como destino, conhecida sobretudo  pelos produtos à base de rosas, pela sua talentosa equipa de futebol dos anos noventa (da qual muitos jogadores passaram por Portugal) e pelos caracteres em cirílico, que nasceram precisamente aí. E pouco mais.
 
Mas vale a pena conhecer mais. A Bulgária, nação balcânica muito tardiamente independente dos turcos, em 1878, após mais de quatrocentos anos de domínio otomano, com um povo meio eslavo meio trácio, com turcos e ciganos pelo meio, sofreu duas derrotas nas Guerras Mundiais, e tornou-se um valete previlegiado da URSS, antes da queda do comunismo e da entrada na UE, em 2007. Nos últimos cem anos, como se vê, teve uma história muito atribulada e uma herança confusa, com a qual os búlgaros ainda não sabem bem lidar.
 
Vejamos a capital, Sófia. Uma cidade de perto de um milhão de habitantes, quase sem subúrbios, dominada pelo maciço de Vitosha, é bastante mais pequena do que algumas cidades de países vizinhos, como Bucareste, Atenas ou Istambul. Testemunhou a passagem de vários povos, mas as severas destruições no século XX não lhe deixaram um grande legado histórico. Ainda assim, tem inúmeros motivos de interesse.

O monumento mais conhecido é provavelmente a Catedral de Alexandre Nevsky, uma das maiores igrejas ortodoxas do Mundo, que tem o nome do príncipe russo imortalizado por Eisenstein em homenagem aos soldados russos mortos na guerra da independência da Bulgária, O sentimento de irmandade (ou de paternidade) entre russos e búlgaros tornou-se evidente a partir dessa altura, para além de um grande afinidade cultural e religiosa (o alfabeto cirílico, usado pelos russos, teve origem na Bulgária), danificada quando ficaram em lados opostos nas guerras mundiais, e sobretudo com o advento do regime comunista, visto como uma quase anexação por parte de Moscovo. O sentimento dentro do templo é de mais fervor do que curiosidade turística. Ao lado, uma conhecida feira de antiguidades, onde se podem comprar ícones e  memorabilia com símbolos comunistas e nazis (entre os mais interessantes contavam-se uma charuteira e um copo misturador de coktails com as insígnias das SS), além de produtos à base de rosas, condecorações, matrioskas, armas cortantes, t-shirts, etc.


A capital tem aquele skyline que esperamos encontrar numa cidade balcânica, com igrejas ordtodoxas e mesquitas, e alguns arranha-céus, além da herança comunista. Mas nem toda resistiu ao tempo.
Depois da queda do Pacto de Varsóvia e da confusão subsequente, os governos esforçaram-se por apagar os vestígios do comunismo da face do país. Um dos maiores era o mausoléu de Georgi Dimitrov, o Estaline búlgaro, que fielmente copiou o "mestre" até nas homenagens póstumas. O enorme mausoléu, todo em pedra e mármore, fronteiro ao antigo palácio real, demorou apenas seis dias a ser construído, e o mesmo tempo a ser demolido, à força de explosivos. Hoje resta apenas um ligeiro vestígio de terraplanagem, junto a um jardim (há-os em grande quantidade, em Sófia).



Mas os vestígios comunistas de maior dimensão permaneceram e foram reaproveitados. Depois dos bombardeamentos dos Aliados na II Guerra, o centro da cidade estava em escombros. Os novos senhores do país aproveitaram para erguer um conjunto de estruturas de poder com a emblemática e esmagadora arquitectura estalinista. Ao lado da mesquita de Banya Bashi e do edifício termal, abriu-se o Largo, um espaço onde se concentravam alguns edifícios gêmeos, sendo um deles uma enorme "loja do povo", hoje um centro comercial em parte albergando ministérios, e outro, fronteiro, era e é composto pela presidência da república, na parte traseira, e por mais ministérios (hoje em dia é também parcialmente ocupado pelo hotel Sheraton, à frente). No espaço central conservou-se a antiquíssima igreja de S. Jorge, um templo redondo do século IV tido como a estrutura mais antiga de Sófia. Entre esses dois enormes edifícios, e um pouco atrás, está um terceiro, que porventura era o mais importante desse trio e de onde emanava o poder: a antiga sede do Partido, outrora encimada por uma estrela, arrancada durante a revolução e substituida pela bandeira nacional. Serve hoje em dia de apoio ao parlamento, que se situa num palacete menos megalómano.

 
 O comunismo teve poucas contemplações com a prática religiosa. Inúmeras mesquitas, por exemplo, foram derrubadas, começando pelos seus minaretes, para lhes retirar o simbolismo e préstimo. Ainda assim, conservam-se inúmeros templos na cidade. Em frente à mesquita de Banya Bashi, uma sinagoga. Mais adiante uma igreja católica fronteira a uma antiga igreja ortodoxa, que aliás não faltam, ou não fosse a Bulgária uma velha nação ortodoxa, onde a religiosidade irrompeu de novo com a queda do regime comunista. Ali ao lado, na catedral de Sveta Nedelya, em 1925, durante a cerimónia fúnebre de um general, um enorme atentado, provocado por explosivos colocados por militantes do partido comunista, vitimou 150 pessoas e feriu centenas, entre os quais numerosos representantes da leite militar e política búlgara. O rei Boris III não se encontrava presente, já que tinha ido a outro funeral. Os desmandos comunistas no país começaram verdadeiramente aí...

 
 Os dois edifícios gêmeos, os vestígios romanos nas obras do metro, a igreja de Sveta Sofia e o monte Vitosha, lá atrás
 
No centro encontram-se ainda outras antigas igrejas, teatros, edifícios universitários, as antigas instalações termais (é possível beber-se água termal em fontes na própria rua) , e, desenterradas pelas obras do metro, as ruínas da antiga cidade trácia e romana de Serdica. A meio da avenida principal, em frente, directamente virada para o Largo, uma estátua à alegórica Santa Sofia, com uma coruja no braço - provavelmente o legado cristão da deusa Atena, da Sabedoria - substituiu nos anos noventa outra estátua, de um russo chamado Lenine.
 

Esta cidade balcânica, com herança estalinista (que limparam o mais que puderam) que pretende a todo o custo seguir as modas do ocidente, situa-se num largo planalto, cercado pelos montes Balcãs a Norte, pelos de Rila a Sul, e pelo impressionante maciço Vitosha a Oeste, dominando toda a cidade. É para este que os habitantes da capital se dirigem, no Inverno, para fazerem uma pausa ao fim do dia ou da semana, nas suas estâncias de desportos de neve.
 

quinta-feira, setembro 20, 2012

Santiago Carrillo 1915-2012


Morreu Santiago Carrillo, o histórico ex-líder do PCE, aos 97 anos. Com ele, desaparece quase toda uma geração que ainda viveu a Guerra Civil, atravessou o regime franquista e participou na Transição para a democracia e para a monarquia constitucional.
Na Guerra Civil, já militante do PCE, ainda muito novo, rezam as crónicas e algumas memórias que teve uma participação activa e não muito feliz - terá feito parte dos esquadrões responsáveis pelas purgas em Paracuellos de Jarama, nesse conflito fratricida em que não havia prisioneiros e ninguém era inocente. Exilou-se entretanto em Paris, e durante anos continuou a seguir o estalinismo oficial, até que a invasão da Hungria em 1956 e a da Checoslováquia em 1968 o fizeram romper com a URSS. Já na altura era o secretário-geral do PCE, substituindo a Passionaria Iabarruri, e derivou então, com Berlinguer do PC italiano, e Marchais, do PC francês, os dois maiores partidos comunistas da Europa ocidental de então, para o Eurocomunismo, aceitando as regras das democracias liberais. Teve oportunidade de demonstrar essas novas convicções, quando na Transicion espanhola, o Rei Juan Carlos e Adolfo Suarez impuseram aos mais cépticos a legalização do PCE, como prova de uma autêntica democracia. Carrillo não desperdiçou a oportunidade e aceitou o novo regime parlamentar e a Monarquia, voltando definitivamente ao seu país. Acabaria por se tornar numa das figuras-chave desse processos, ao fazer com que a esquerda mais radical, a que combatia ferozmente contra os conservadores quarenta anos antes, a aceitar igualmente o novo estado de coisas. Enfrentou o pronunciamento trágico-ridículo de Tejero Molina em 1981, com grande coragem, e haveria pouco depois de deixar o próprio PCE, criando uma nova formação de esquerda. Acabaria por ficar à margem partidária, mas nunca deixando de exprimir as suas opiniões, até ao fim conservando a lucidez (e fumando sempre imenso, o que não o impediu de chegar quase aos cem).
Curiosamente, desaparece no mesmo ano que Manuel Fraga Iribarne, antigo ministro de Franco  e seu adversário político da outro lado da barricada, com quem mantinha relações cordiais. 2012 é assim o ano em que as últimas grandes figuras que atravessaram o franquismo e protagonizaram a  Transición espanhola desapareceram. Restam o Rei e Felipe González, que já são da geração posterior, e Adolfo Suarez, reduzido ao silêncio por uma doença degenerativa. Fechou-se definitivamente um livro da política espanhola.

terça-feira, setembro 18, 2012

Lições a reter das manifs


 
Mandar a Troika lixar-se não será a opção mais sensata e mais aconselhável nos próximos anos. O mote das manifestações que sacudiram o país no último Sábado pareceu-me infeliz, mas havia mais do que razões para as pessoas o fazerem. A magnitude destes movimentos reuniu pessoas de esquerda e de direita, sindicalistas, comunistas, fascistas, anarquistas (esses mais em frente à AR), liberais, monárquicos, todas as camadas da sociedade portuguesa. Tinham razões diferentes, mas partilhavam de igual indignação de ver um governo fugir de novo às suas promessas (como era aquela história das gorduras do estado?), a sobrecarregar os contribuintes de impostos, a fazer os trabalhadores pagarem mais pela segurança social, em detrimento das empresas, com resultados mais que duvidosos, numa operação que Vítor Gaspar dissera em tempos ser uma experiência nunca testada.
 
O povo português, o que estava na rua e o que não esteve presente, apoiou na sua grande maioria esta enorme expressão de mal-estar. Isso mesmo se viu na blogoesfera, excepto nalguns blogues totalmente equivocados, completamente fora da realidade ou que resolveram muito simplesmente fazer-se (nos)de parvos (ou então trata-se de pura subserviência). Se o executivo se mantém nos seus gabinetes julgando tratar-se de um movimento passageiro, corre um seriíssimo risco de cair dentro de pouco tempo. não por culpa de uma revolução nas ruas, ou de uma intentona das forças armadas, que de resto preferem estar nos quartéis ou passear em protesto. Mas a pressão da sociedade, cujas manifestações são cada vez mais numerosas, pode provocar a exoneração do Governo por outros meios constitucionais, incluindo os que tenham fonte em Belém. E talvez aí apareça uma Mario Monti, se o houver, para tomar as medidas necessárias mas lembrando-se que sem equidade não há o mínimo suporte popular possível. Governar sem ser para as eleições é muito louvável, mas abstrair-se por completo da opinião pública, exasperando-a continuamente sem a ouvir, é em democracia pura loucura. As manifestações são um barómetro de importância crescente. Ignorá-las será sempre uma opção desastrosa.
 
 

domingo, setembro 09, 2012

Concurso desfalcado


Estava ali a dar na TV a cerimónia de "escolha" das sete praias mais maravilhosas de Portugal, ou como se chama o concurso. Não lhe dei grande importância, embora a parte que tenha ouvido, felizmente, tenha sido a vitória da praia da albufeira do Azibo, em Trás-os-Montes (antes assim), e recusei-me absolutamente a votar nisso. É que um programa que quer eleger as melhor praias de Portugal e não apresenta como concorrente a praia de Moledo, que seria uma maravilha nacional até num concurso que não fosse exclusivamente de praias, não vale a ponta de um chavo.
 
 

sábado, setembro 08, 2012

Adriano, aos noventa


 
Os noventa anos de Adriano Moreira foram amplamente celebrados, com várias entrevistas, reportagens e homenagens. É mais que justo. Adriano é não apenas um digno Senador ou ancião, no melhor sentido da palavra, quando o havia, mas um dos políticos mais lúcidos e dignos que Portugal teve no último meio século. Transmontano de raiz, habituado a lutar com pouco, tem uma distintíssima carreira académica, com a criação de cursos em Angola e Moçambique, a direcção do ISCSP e a presidência actual da Academia de Ciências de Lisboa. Ocupou lugares governamentais de destaque no anterior regime, onde percebeu bem a questão colonial, e em que tomou medidas de justiça ímpar, como a extinção do Estatuto do Indigenato, passando assim todos os habitantes dos territórios ultramarinos a ser reconhecidos como cidadãos portugueses. Depois de um breve tempo no Brasil, dada a situação do PREC, voltou a Portugal, foi eleito deputado por Bragança pelo CDS, e mais tarde liderou este partido. Mas eleições de 1987, com a onda laranja, os eleitores prefeririam o "Portugal de sucesso" de Cavaco e deram ao CDS o seu pior resultado, reduzindo-o ao célebre "partido do táxi". Adriano deixou assim a liderança do partido e a política activa, dedicando-se à carreira académica.
 
Ao ouvi-lo numa entrevista televisiva, vi-o demonstrar de novo a sua sabedoria tranquila e as suas preocupações. Que diferença para com os governantes dos últimos anos, falhos de cultura, carreira académica, idoneidade moral e sentido de serviço público! É sintomático que da única vez que se apresentou a eleições lhe tenham dado tão poucos votos: afinal, a classe política é o espelho do povo que neles vota. Felizmente, Adriano Moreira continua aí, como referência moral política indispensável, respeitado à esquerda e à direita. Parece estar em melhor forma que Mário Soares, por exemplo. É curioso que o outro vulto que melhor aconselha à boa governação do país, com ideias que tardam em ser adoptadas, Gonçalo Ribeiro Telles, também tenha este ano chegado aos noventa. Ao que parece, a sabedoria  e a dignidade política são hoje quase exclusivas de nonagenários. Ouçamo-los e sigamo-los enquanto é tempo.
 

terça-feira, setembro 04, 2012

Pela Bulgária

A região balcânica é tão visitável no Verão como outro local qualquer. A meio, a Bulgária, rodeada de vizinhos instáveis, pode ser um excelente percurso para quem quiser conhecer a história da zona e a evolução de um dos últimos estados eslavos a obter a independência do Império Otomano. É por me encontrar precisamente lá que este blogue tem andado mais parado, mas voltará muito em breve à sua actividade normal. Entretanto, fique-se a saber que Sófia, a capital nacional, tem quase tantos McDonalds como templos das várias religiões todas juntas. Um misto de culto misturado com a entrada em força do consumismo depois da queda do comunismo, aque aqui foi particularmente virulento.

segunda-feira, agosto 27, 2012

Pussy Riot contra a laicidade


Estive atento a uma das grandes polémicas da época, a do processo contra as Pussy Riot. Todo o procedimento contra a banda punk que desatou a entoar cânticos anti-Putin desencadeou vivos protestos da "comunidade internacional", dos governos ocidentais aos artistas, sobretudo músicos, e "activistas" de todo o tipo, com especial ênfase para Madonna.
 
Ora é sabido que o regime russo só no papel é que é democrático, com fraudes sucessivas nas eleições, trocas descaradas nos cargos de presidente e primeiro-ministro, repressão policial, tudo condensado num sistema autoritário que herdou métodos do tempo do comunismo, recuperou bandeiras do czarismo e aposta num nacionalismo soft e no regresso da Rússia ao papel de super-potência, sem intervenção directa nas áreas que não são da sua "influência". Em parte será inevitável, porque um país com a dimensão, a instabilidade e as condicionantes culturais da Rússia dificilmente se transformará num estado democrático como a restante Europa.
 
Dessa forma, é por demais evidente que o processo contra as Pussy Riot tem uma enorme componente política, até porque a Igreja Ortodoxa Russa é hoje um dos sustentáculos do "putinismo". Um protesto com tal brado, directamente contra o presidente, em plena Catedral do Cristo Salvador (destruída sob o estalinismo, reconstruída nos anos noventa), cujo simbolismo é grande, seria sempre objecto de repressão. Num estado de direito, levariam uma multa e uma repreensão. Não na Rússia. E isso as raparigas da banda sabiam-no com certeza. Teriam consciência do que se seguiria?
 
Em todo o caso, chamar a isto um "processo estalinista" é entrar no disparate desbragado. Não as espera o Gulag nem nenhum "campo de educação na Sibéria". Mas é curioso ver tantos defensores das acções da banda quando se está sempre a apelar ao "estado laico" para tudo e mais alguma coisa, até (ou sobretudo) para tentar calar a igreja. Laicidade significa separação entre dois tipos de instituições, as confissões religiosas e o Estado, e entre outras coisas, a não utilização dos púlpitos para mensagens estritamente políticas ou partidárias. Que era exactamente o que a banda punk estava a fazer. a regra aplica-se todos ou só atinge os sacerdotes, permitindo que qualquer pândego o faça? O processo contra as Riot pode ser excessivo, mas o que fizeram tratou-se não apenas de vandalismo e de total desrespeito para com um espaço religioso e quem orava (imaginem sacerdotes a invadirem a festa do Avante para fazer propaganda religiosa), mas também de uma quebra das regras da laicidade por parte de um bando de miúdas de sangue na guelra mas musicalmente nulas - quem conhece a sua obra? As autênticas, não o que algumas inteligências pretendem tomar com verdadeiras.

quinta-feira, agosto 23, 2012

Fanáticos do nosso tempo


Na semana passada registaram-se duas situações paradigmáticas do maior grupo de fanáticos da nossa era. Num apartamento do Porto, um cão mordeu e matou uma criança de ano e meio. Imediatamente, a Associação animal veio queixar-se de que "diabolizavam animais sem culpa nenhuma" e que "o caso acabaria com a morte de dois inocentes" (a criança e o cão). Para quem tanto se bate pelos direitos dos animais, a desculpabilização ultrapassa o absurdo: os cães têm direitos, mas quando têm comportamentos agressivos a culpa cabe apenas e só aos donos, sendo que os animais são "inocentes". São sujeitos de direitos mas totalmente inimputáveis. Reparem como há aqui mais lamentos pela sorte do cão do que da criança.

Neste fim de semana, nas Festas da Senhora da Agonia, voltaram as corridas de Touros a Viana do Castelo, numa arena amovível montada nos campos da Areosa. As opiniões dividiram-se violentamente: os aficionados da Festa Brava aplaudiram ruidosamente, os adversários protestaram e convocaram várias manifestações de desagrado, encabeçados pela dita associação Animal e por Defensor Moura, ex-presidente da câmara de Viana e, como todos se lembrarão, ex-candidato à presidência da república não se sabe bem porquê. Como se sabe, Defensor conseguiu aprovar, em 2009, em reunião camarária, um regulamento que tornava Viana do Castelo em "município anti-touradas". Sempre achei esta regra bastante descabida, porque não só contrariava as leis nacionais como transpunha as convicções pessoais de um autarca para todo um município, proibindo uma tradição antiga em Viana e obrigando os seus habitantes a declarar-se anti-touradas. Precisamente por isto é que a associação PróToiro obteve o deferimento de uma providência cautelar, suspendendo tal deliberação camarária e permitindo a realização da corrida.
 
No Domingo, entre ameaças, manifs, urros e insultos, a corrida teve mesmo lugar. Contou com perto de 2500 assistentes. Cá fora, 300 manifestantes gritavam contra. A comunicação social (a que eu vi, ao menos), noticiou o evento de forma bastante parcial. A RTP, televisão pública, apresentou uma peça mostrando que "os vianenses estavam contra a corrida" (entrevistou apenas cinco). Os jornais mostravam apenas os manifestantes anti-tourada, e as opiniões dos editores iam no sentido de que a proibição de um "espectáculo bárbaro" tinha toda a razão de ser.
 
Não sou propriamente aficcionado nem nunca assisti a uma tourada, mas estando bastante próximo de Viana, tive ganas de ir a esta (só não fui porque o excelente dia de praia me impediu). Não vejo qualquer ilicitude nestes espectáculos. Ninguém estima e conhece bem os touros do que quem com eles lida, ao contrário de muitos auto-denominados "amigos dos animais". É um espectáculo com o seu quê de primitivismo e violência, mas demonstrativo de coragem, do simbolismo do confronto entre um homem e um animal, e que tanto inspirou inúmeros artistas  ao longo dos séculos. Há quem seja grande apreciador e quem abomine. Ninguém é obrigado a ver, da mesma forma que ninguém deve ser obrigado a não ver. Por isso, acho que qualquer regra que declare parte do território nacional como "anti-touradas" é abusiva e totalitária.

Sobre a tal Associação Animal, vejam-se os perfis dos seus dirigentes mais visíveis: são vegans, e como tal, acham que «é inconcebível partilhar casa com um carnívoro, quanto mais namorar ou casar(...) É nojenta a ideia de beijar alguém que esteve a degustar alegremente um animal morto. Seria pactuar com algo altamente imoral». Cada vez mais acho que os defensores mais radicais dos direitos dos animais são os grandes fanáticos do nosso tempo. Já chegaram a matar (lembram-se de Pim Fortuyn e do seu assassino?), mas por aqui limitam-se às ameaças cada vez que há um espectáculo taurino. Tratar bem os animais? Sem dúvida. O problema é quando há uns extremistas que querem fazer a "equiparação da espécie", quais Calígulas e o seu cavalo-senador. Adolf Hitler, aliás, também encaixava nos pressupostos. É bom que se dê alguma atenção a estes indivíduos, e já agora, que se pergunte o que fariam aos animais carnívoros. Obrigá-los-iam a comer vegetais?
 

sexta-feira, agosto 17, 2012

Ornatos vivos e pérolas arruinadas


É hoje que os Ornatos Violeta retornam aos palcos, no acolhedor anfiteatro de Paredes de Coura. Um regresso há muito esperado, como o comprovam os quatro concertos agendados para Outubro, no Porto e em Lisboa, há já algum tempo esgotados, mesmo com reforço de datas. No Alto Minho também não deve faltar público. Os Ornatos marcaram o fim dos anos noventa, e embora tenham lançado apenas dois álbuns, tornaram-se uma banda de (enorme) culto, ao mesmo tempo que se pulverizavam em inúmeros outros projectos, sobretudo do seu frontman, Manuel Cruz. Não deixarão certamente de tocar músicas como Ouvi Dizer, Capitão Romance (provavelmente sem o dueto com o vocalista dos Violent Femmes), a Dama do Sinal ou Punk Moda Funk.

Esta última, primeira faixa do primeiro álbum do grupo, abre logo a matar (com um corrosivo "quero mijar"), revelando a primeira faceta dos Ornatos, mais rocker, mais subversiva, com um vídeo ainda de qualidade incipiente. Mas chamou-me a atenção para um pormenor, o do lugar onde a banda encena a música.

 

Talvez pelo seu aspecto já decadente, escolheram a casa da quinta do Montado, ou Marques Gomes (nome do construtor), um palacete hoje decrépito no alto de uma colina em Canidelo, Gaia, perto da Afurada, bem visível da marginal da Foz do Douro. Não faltam na net imagens do exterior e dos interiores do palacete arruinado, com uma aura de imponência classicista, que, talvez pelo seu aspecto, tem, como não podia deixar de ser, fama de ser assombrado (pelo menos a acreditar num livro recente sobre o assunto).

Porque terão escolhido os Ornatos violeta semelhante cenário para o seu primeiro videoclip? É difícil de dizer. Mas há um interessante contraste entre as músicas corrosivamente juvenis do fim dos anos noventa e esta jóia arruinada. Talvez quisessem tomar um cunho de certa marginalidade e usassem um espaço devoluto, para acentuá-la, ainda que com requinte. O que é certo é que os Ornatos voltaram à vida e uma legião de fãs correm a assistir. Entretanto, todos podem também "assistir" ao palacete, e sem pagar bilhete. Mas neste caso, não se trata da sua ressureição, mas da morte lenta. O edil Luís Filipe Menezes, sempre pronto a abrir a bolsa, não tem nenhum plano para o local, ou já só pensa noutro edifício com uma torre, mas do outro lado do rio, no alto não de uma colina mas da Avenida dos Aliados?


quinta-feira, agosto 16, 2012

Portugal, um país sem cultura desportiva


Acabaram os Jogos Olímpicos, bem à inglesa, misturando pompa com cultura popular. E tivemos a ocasião, provavelmente única, de ver o estandarte de Portugal carregado por um atleta (medalhado) de apelido Pimenta.
Como não podia deixar de ser, acabada a festa, surge a discussão sobre "o que correu mal". Valeram-nos os remadores que nos deram a única medalha (já era tempo dos remadores portugueses, quase sempre do Minho, verem os seus esforços recompensados) para não passarmos outra vergonha de seca medalhística como em Barcelona. O resto foram desilusões sobre desilusões, mesmo que acreditemos que os atletas deram o que podiam. As declarações de Vicente de Moura são absolutamente certas e não têm nada de inesperado.

Sim, o que ele disse, ainda que certamente, como presidente do comité Olímpico português, não possa descartar responsabilidades, é de uma realidade crua mas inegável. Portugal não é uma nação de atletas. não é agora nem era no passado, tanto quanto os meus conhecimentos alcançam. A título de exemplo, vale a pena soccor-nos do inevitável Eça, e do que se dizia no tempo da monarquia constitucional:

(...) Pois é verdade, prefiro toiros. Cada raça possui o seu sport próprio, e o nosso é o toiro (...) É uma grande escola de força, de coragem e de destreza (...) Nós não temos os jogos de destreza das outras nações, exclamava ele, bracejando pela sala e esquecido dos seus males. Não temos o cricket, nem o foot-ball, nem o running, como os ingleses; não temos a ginástica como ela se faz em França; não temos o serviço militar obrigatório que é o que torna o alemão sólido… Não temos nada capaz de dar a um rapaz um bocado de fibra. Temos só a tourada… Tirem a tourada, e não ficam senão badamecos derreados da espinha, a melarem-se pelo Chiado!

Continuamos sem cricket, o "running" vai-se fazendo um pouco, a ginástica está cada vez mais desvalorizada, o serviço militar obrigatório não passa de uma recordação, e quanto à tourada não faltam "amigos dos animais", que com certeza só viram touros do comboio, a querer acabar com ela. O futebol instalou-se em Portugal e reina sobre todos os desportos, é certo, mas a maioria só o praticou no recreio da escola e nem ao estádio vai, preferindo a conversa de café sobre as arbitragens. Mas enfim, sempre é um desporto no qual temos sucesso, a par do hóquei patins. O ciclismo vai sobrevivendo, e quase tudo o resto é um deserto, sem visibilidade nem apoios.

Vicente de Moura reclamou mesmo um retorno às práticas desportivas da Mocidade Portuguesa, sem a "carga política". Muitos se terão escandalizado, mas a verdade é que essa instituição teve o mérito de fomentar os desportos e de levar inúmeras crianças a praticá-los, que de outro modo não fariam, e de levantar algumas estruturas desportivas, assim como a FNAT/INATEL. Mas essas condicionantes poderão não ser a escolha ideal: os resultados olímpicos dessas épocas foram muitíssimo modestos.

Actualmente, constroem-se inúmeros gimnodesportivos em qualquer freguesia média, mas a prática não aumentou. Os poderes públicos construíram novos estádios mas subtraíram-lhes as pistas de tartan, e lá se vão fazendo algumas ciclovias. E é tudo. Pode-se fazer algum jogging, há ginásios por toda a parte, mas mais paras manter a linha e moldar a silhueta do que com real intuito desportivo. O Estado pouco se importa, porque apenas serve para cortar fitas mas não traz votos. E o povo lá se vai movendo um pouco mais, mas sem real cultura desportiva, como no Reino Unido. Depois não se admirem que só uns poucos estóicos, com real sentido de sacríficio e disciplina, alcançem magros resultados, aqui e ali com uma medalha uma uma "boa participação". Daqui a quatro anos se verá se alguma coisa mudou.

sábado, agosto 11, 2012

Memórias da Guerra Fria na silly season 2012


Esta história sobre as técnicas de espionagem da FNAC que Zita Seabra trouxe a lume é das coisas mais divertidas (e mais dignas de uma perfeita silly season) que tenho visto nos últimos tempos. A alegação (puxada pelo entrevistador Mário Crespo) de que a antiga Fábrica Nacional de Ar Condicionado, que utilizava tecnologia alemã da antiga RDA, e que era próxima do PCP por via dos seus dirigentes, montava os seus aparelhos inseridos com microfones para escutas em tudo o que era gabinete de órgão público não pode deixar de fazer sorrir.


É verdade que a empresa de ar condicionado era presidida por Alexandre Alves, conhecido como o Barão Vermelho, por ser próximo do PCP e porque a FNAC patrocinava a camisola do Benfica (a cuja presidência se chegou a candidatar, perdendo para Jorge de Brito, que até era conotado com o Marcelismo). E que a tecnologia da RDA era mesmo usada nos aparelhos. Ninguém ignora também que a antiga Alemanha do outro lado de lá da Cortina de Ferro tinha como um dos principais desportos, a par da prática de atletismo coercivo para fazer boa figura, a espionagem obsessiva dos seus cidadãos através da famigerada STASI, que devia estar então muito avançada em técnicas de escuta. Assim, a ex-DDR financiaria a FNAC para que os funcionários do PC ouvissem o que se passava nos gabinetes ministeriais e o transmitissem ao exterior (ou seja, a Moscovo).

Mas a história parece ser demasiado rocambolesca para ser verdade. No vídeo, o próprio Alexandre Alves esclarece que tal seria impossível porque os aparelhos eram montados nos próprios locais. Não sei qual a longevidade dos exemplares montados pela FNAC, mas será que ao fim de vinte e tal anos ninguém retirou nenhum e reparou em eventuais microfones? E por último, não esquecer que Alexandre Alves voltou à baila precisamente na última semana, a propósito da sua anunciada fábrica de painéis solares em Abrantes, que recebeu por antecipação fundos do AICEP. É exactamente na altura em que o seu nome reaparece que Zita Seabra recorda esta história? Parece que se trata de alguma revanche para aborrecer o velho PCP, por interposta FNAC. Ou então, Seabra, que agora milita no PSD, terá dito isso algo inconscientemente, levada pela entrevista ou instigada por alguém que queria ajustar contas com Alves ou prejudicá-lo na intenção em levar o projecto de painéis solares avante.
Em qualquer das hipóteses, duvido muito que esta história digna de órfãos do "confronto de blocos" (dos dois lados) vá para a frente. Será uma entre muitas da silly season, ideal para conversas de café ou para inspirar romances de cordel da Guerra Fria.

quinta-feira, agosto 09, 2012

Memórias vagas de um "sequestro"


A semana passada parecia uma página de necrologia, com as mortes de Gore Vidal, da actriz Carla Lupi ou de Eurico de Melo, entre outros. Sobre este último, histórico do PSD e antigo ministro todo-poderoso do cavaquismo outrora conhecido como "vice-rei do Norte", muito se disse. Mas houve uma história rocambolesca de que me lembro de ouvir falar na altura, ainda era pequeno, e que ninguém referiu, nem consegui encontrar registos na net. Aí por volta de 1988, um caso obscuro levou a que o FC Famalicão, acabado de subir à 1ª divisão de futebol, voltasse de imediato à Segunda. Beneficiou o FC Fafe, que se estreou entre os "grandes". Por causa disso, e numa visita da época a Famalicão, Eurico de Melo e o jovem delfim Marques Mendes ficaram retidos, quase sequestrados, por uma turba furiosa, durante umas boas horas. Tudo por razões futebolísticas. Alguém se lembra disso ou não há registos possíveis?

segunda-feira, agosto 06, 2012

Polémicas bloguísticas com totalitários


Vejam como uma manifestação de amor a tudo o que é ditadura (especialmente na sua versão anti-ocidental) provocou uma bela polémica blogoesférica de Verão. Na sua habitual verborreia totalitária, um dos membros do comité central do 5dias endereçou os votos de boa sorte olímpica a Coreias do Norte, Cuba, Hamas, e tutti quanti os que "lutam pela libertação nacional" (esqueceu-se lamentavelmente dos taliban). Pelo meio, há mesmo criaturas que julgam que Israel era uma criação do Irgun, ignorando completamente que durante trinta anos a esquerda esteve no poder, e que até ao golpe de Nasser no Egipto, a URSS deu todo o apoio ao novo estado sionista, opinião corroborada pelo Avante! da época. Soube desta bonita declaração via Estado Sentido.

Por causa disso, o Samuel Paiva Pires levou logo com uma intervenção de tanques de guerra datados de 1956 de outro dos cães de fila do 5dias, o bizarro Renato Teixeira, admirador confesso do regime de Teerão e provavelmente do seu sistema penal de enforcamento de adolescentes. Resposta pronta do Samuel com remédios contra a demência, mas essa parece incurável. Apanhou logo com uma acusação de fascismo, num post que tinha alguma defesa na substância mas que a estragou tudo numa forma patética (e em acusações de que a outra parte não respeitava a "liberdade individual", o que vindo de um comunista só pode ser uma boa piada). Entre outras intervenções aquecidas do Aventar (cujo autor, nos comentários, me chama "ignorante" porque ao que parece não sei distinguir um estalinista de um trotsquista, coisa complicada quando o apelidado trotsquista defende Estaline e zurze continuamente no Bloco de Esquerda) e do Insurgente, com mútuas acusações de apoio a inúmeras ditaduras seleccionadas.

A coisa não deve demorar muito, mas de novo pelo Estado Sentido dou pela mais recente proclamação lunática e totalitária do supracitado Renato (reparem no exemplo ternurento aos "sovietes do povo", e na forma maquiavélica como fala em "assassinatos"), fazendo curiosas alusões zoológicas. Felizmente, como a esmagadora maioria das pessoas já não liga nenhuma a comunistas encartados e ninguém quer voltar aos tempos pré-1989, nem sequer na Grécia, onde o estalinista KKE permanece fossilizado em ideologia e votos, coisas deste teor dão sobretudo para rir dos seus pobres autores. Mas servem também para demonstrar que os totalitariozinhos à esquerda andam por aí (à direita também não faltam), com desejos de calabouços para todos os que não partilhem da sua tenebrosa ideologia, como se estivéssemos na URSS ou num eterno PREC.


quinta-feira, agosto 02, 2012

A nova afirmação de Londres (com a sua Torre Eiffel)


Londres está em polvorosa. Depois do Jubileu de Isabel II, temos aí os Jogos Olímpicos, abertos com competência, criatividade, bom gosto. E, como em todos os grandes eventos, não faltaram as grandes infra-estruturas emblemáticas, que neste caso, não se ficaram pelos recintos desportivos.

Há poucas semanas ficou completa a London Bridge Tower, mais conhecida como de The Shard, um edifício-pirâmide de vidro com trezentos e dez metros nascido de um esboço de Renzo Piano. O novo arranha-céus, o mais alto do Reino Unido e da União Europeia, fica situado no centro da capital britânica e é mais um marco da Londres do século XXI a par do London Eye, da Tate Modern, do edifício Gherkin e da Millenium Bridge. Abrigará hotéis, restaurantes, escritórios e apartamentos, que a avaliar pelo preço serão provavelmente para conterrâneos do seu grande patrocinador. Como não podia deixar de ser, a fatia de leão dos custos foi assegurada por árabes, no caso, do Qatar.


A inauguração teve lugar a poucos dias da abertura dos Jogos, obviamente com esse propósito. A nova silhueta londrina, que dividiu opiniões, até por estar numa zona central da cidade, veio preencher ainda mais os festejos. Este tipo de afirmação a par de eventos grandiosos não é propriamente original. Em Portugal, por exemplo, a Expo-98 era ladeada pela Estação do Oriente e pela Torre Vasco da Gama. O Porto-Capital Europeia da Cultura pretendia inaugurar a Casa da Música (lamentavelmente isso só aconteceu em 2005).
Mas o exemplo que me ocorreu, até pela forma e pela altura do novo arranha-céus londrino, foi a da inauguração da Torre Eiffell, em 1889. A célebre estrutura metálica parisiense, que se tornou um ícone incontornável da cidade, era a porta de entrada e o símbolo da Exposição Universal de Paris, no ano em que se comemorava o centenário da Revolução Francesa. A época era dominada pela indústria pesada, pelo aço e pela dominação colonial, após a Conferência de Berlim de 1885. A França pretendia reafirmar-se como grande potência internacional, passada que estava a humilhação da guerra contra a Prússia, menos de vinte anos antes, e não hesitou em erguer um gigante de aço pelo seu mais competente engenheiro de pontes, responsável pela estrutura da Estátua da Liberdade e por várias pontes em Portugal, muitas ainda em uso.


A afirmação através de grandes construções e de eventos simbólicos e faraónicos é uma característica dos países que pretendem mostrar o seu estatuto ao Mundo, como vimos com a China há quatro anos, com o Terceiro Reich nos jogos de Berlim em 1936. Mas também podem ser uma forma de re-afirmação e manutenção de um certo estatuto, mostrando que ainda têm um papel internacional de relevo. Paris quis mostrar o quanto estava pujante, na cultura como no domínio da técnica, em 1889. O Reino Unido pretende fazer o mesmo, e a influência parisiense é mais que notória, como se a Shard quisesse ser a Torre Eiffel dos novos tempos, desafiando a velha construção de além-Mancha; aliás, um dos ícones destes Jogos é a Torre Olympic Orbit, uma estrutura metálica da autoria do conhecido artista Anish Kapoor, a fazer lembrar uma Torre Eiffel torta e desengonçada. Referência mais descarada não pode haver.


Não faço ideia se a Shard se vai tornar num ícone londrino, numa cidade que não tem falta deles. Mas pela altura e pela forma, é bem possível. Até porque será o miradouro por excelência da metrópole. Se o Reino Unido está muito longe de ser a grande potência que era até à Segunda Guerra (ou no papel, até à Crise do Suez), Londres pretende afirmar-se como a grande metrópole europeia e até mundial do Século XXI, enfrentando Nova York, Moscovo, Xangai e São Paulo. Está no bom caminho. Mas este novo símbolo de afirmação londrina não deixa de transparecer os sinais do tempo de novos actores da cena internacional: o patrocínio essencial dos fundos do Qatar, um dos novos Tigres Árabes que olham para além do petróleo.

terça-feira, julho 31, 2012

Cruzes e Quinas




...ou a Sagres vista do Creoula, Julho 2012.

quinta-feira, julho 26, 2012

Os méritos de Hermano Saraiva



O desaparecimento de José Hermano Saraiva foi dos acontecimentos mais comentados nos últimos dias. Como seria de esperar, de resto, tanto pela morte propriamente dita, já que por aparições recentes parecia extremamente doente e envelhecido, como pelos sentimentos que o seu falecimento despertou.

Era uma daquelas figuras que me habituei sempre a ver na televisão, em sucessivos programas de título inspirado. Havia quem não tivesse a melhor das impressões dele, do seu desempenho no cargo de Ministro da Educação ao tempo da crise académica de 1969, e os célebres "gorilas" da Situação. Mas Hermano Saraiva conseguiu livrar-se em boa parte dessa imagem graças ao mediatismo televisivo que adquiriu mais tarde. Foi o ministro de Salazar que, a par talvez de Adriano Moreira (que tinha fama de "liberal"), melhor acolhimento teve no actual regime. Caricaturável, acarinhado por pessoas como Herman José, com grande audiência e o seu muito peculiar estilo e forma de apresentar, a sua voz roufenha com assomos de gravidade, os gestos sincronizados, as frases marcantes (o inconfundível "...aqui, precisamente aqui..."), transmitia alguma bonomia, e apesar de ser até ao fim admirador confesso de Salazar, nunca se mostrou um homem amargurado ou derrotado. A sua obra mais conhecida é a "História Concisa de Portugal", que deve existir em cada estante ou pequena biblioteca por esse país fora. Não era exactamente um académico de imensa craveira e prestígio como tal, e nas suas dissertações criava amiúde algumas situações fictícias (como a dos comerciantes que na Idade média desciam o Guadiana até Vila Real de Santo António...que se fundou por vontade do Marquês de Pombal, ou a forma como Camões perdeu o olho, outro dos episódios que lhe mereceu algumas críticas). Mas teve o não pequeno mérito de contar a História de Portugal e das suas terras aos portugueses, fazendo com que muitos ficassem a saber mais sobre o seu país, ou pelo menos mais curiosos sobre isso. Percorreu Portugal de lés-a-lés, andou por vilas e aldeias, visitou castelos, igrejas, conventos, solares, museus, ruínas de todo o tipo. Deu a conhecer o país pela televisão e não só, sugeria mesmo propostas líricas, como levar os jovens portugueses pelo Mediterrâneo fora, para conhecer os vestígios da Grécia Antiga. Podia ser um pouco efabulador e criador de mitos; mas não será precisamente através da busca do que é fascinante, de conhecer as fábulas, de procurar no lendário e no mitológico, que se percebe e se descobre a História?

PS: de referir também o desaparecimento de Helena Cidade Moura, responsável pela edição da obra de Eça tal como a maior parte a conhece hoje, pelas extensas campanhas de alfabetização pós-25 de Abril e antiga dirigente e deputada do MDP/CDE, e uma das promotoras da definitiva secessão daquele histórico movimento de esquerda fundado por católicos progressistas das coligações com o PCP. Aqui fica um excelente epitáfio.

terça-feira, julho 24, 2012

As Astúrias de novo como fonte de tensão


A revolta dos mineiros nas Astúrias (e Aragão, e Castela-Leão), culminada na "Marcha Negra" até Madrid, recorda outros confrontos mais antigos e ilustra bem os problemas sociais e económicos que a Espanha atravessa. E não anuncia nada de bom.

Com os juros a crescer assustadoramente de cada vez que o estado espanhol se tem de "abastecer", o governo de Mariano Rajoy decidiu cortar radicalmente nos subsídios da indústria mineira de carvão sediada no Norte do país, sobretudo nas Astúrias. A medida ameaça encerrar praticamente toda a actividade extractiva e lançar mais de vinte mil pessoas, cujo trabalho depende directa ou indirectamente das minas, no desemprego. Recorde-se que a Espanha já tem 25% de desempregados.

As medidas do governo causaram pânico e fúria nas regiões afectadas. Imediatamente começou a contestação, e houve mesmo confrontos entre mineiros e a polícia de choque, com as primeiros a responder com engenhos artesanais de arremesso de projécteis e foguetes ao gás lacrimogêneo lançado pela guarda.


As escaramuças recordam os anos de chumbo da década de 1930, quando os mineiros, influenciados pelo anarco-sindicalismo e socialismo radical, se revoltaram, ocuparam as cidades e chegaram mesmo a proclamar uma "república socialista" nas Astúrias. A revolta, muito à base de ataques com explosivos, e que não poupou igrejas nem clérigos, seria esmagada pelas forças comandadas por Francisco Franco e as famigeradas tropas marroquinas de elite, célebres pela sua ferocidade. E anunciou a Guerra Civil que se seguiria poucos anos depois.

O tom e os protestos não atingem a dimensão dos anos trinta, é certo. Não há mortes, nem fuzilamentos, nem atentados. E os mineiros não têm o anti-clericalismo de outrora, até exibem imagens de santos Mas há mini-barricadas, arremesso de projécteis, contestação, ameaças de caos social. A "Marcha Negra" dos homens do carvão chegou a Madrid e teve logo o apoio de milhares de manifestantes e de "indignados". E não faltaram confrontos com a polícia e alguns feridos e detidos, embora em abono da verdade não tivessem sido os mineiros a despoletar, mas sim os anarcas anti-sistema que fazem disto o seu modo de vida.


"Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão". O ditado parece fazer sentido neste caso bicudo. No entanto, todos têm a sua razão. Os mineiros, porque a descida dos subsídios ameaça lançar milhares no desemprego. Num país onde isto é um problema crónico, e para pessoas com mais de quarenta anos que sempre trabalharam nesta área, pode ser traumático e cruel. Existe o real perigo de comunidades inteiras perderem o seu trabalho. é o velho erro de se apostar apenas numa actividade económica num mesmo espaço geográfico.
Mas o governo também tem as suas razões. O défice público é imenso e há que cortar em alguma coisa, e se as minas não são rentáveis, até porque o carvão que vem de fora é mais barato, não parece exequível mantê-las em funcionamento. Além do mais, exigências ecológicas e normas da União Europeia obrigam ao progressivo abandono do carvão como fonte de energia até ao fim desta década.

É uma situação complicada de difícil solução. Mais avisado seria talvez o governo diminuir os cortes à indústria do carvão (tendo obrigatoriamente que fazer alguns), diminuindo progressivamente os subsídios, de modo a evitar uma situação ainda mais explosiva e socialmente insustentável. O desemprego exige novas despesas por parte do estado. Já bastam as querelas ideológicas que subsistem desde há décadas, e o ambiente tenso e o medo que se vive no país. Recordar a História, sobretudo a não tão antiga, é imperioso, e aprender com as suas lições ainda mais. Há que usar bom senso. Do governo e dos que se lhe opõem, porque não será com certeza com greves sucessivas e "indignações" inconsequentes que Espanha irá enfrentar os gravíssimos problemas que tem pela frente.

sexta-feira, julho 20, 2012

Grandes veleiros em Lisboa


Quem for a Lisboa por estes dias não deve perder um espectáculo raro e majestoso. A Tall Ship Race, regata dos grandes veleiros, deitou as amarras na capital, mais concretamente em Santa Apolónia, até Domingo. A entrada é livre e a oportunidade de combinar beleza de navios como a Sagres, o Creoula, o alemão Alexander von Humboldt e o neerlandês Europa com o estuário do Tejo não pode ser desaproveitada. Afinal, os apelos do regresso de Portugal aos mares podem também começar por aqui.





 

 

God Forgive America



Talvez tenha passado despercebida a reportagem e a pequena entrevista do Expresso a Jonathan Winer, ex-secretário de Estado de Bill Clinton, sobre o caso de Joe Wright e a sua hipotética extradição para os Estados Unidos. Independentemente da justiça  da decisão dos juízes portugueses (recordemos que essa hipótese não se coloca no caso da haver pena de morte aplicável aos casos imputados), interessam-me os comentários do ex-governante americano, que sugere que caso Portugal (ou seja, o sistema judicial) não queria proceder à extradição, se devem "considerar outras opções". Quais? "Detenções extrajudiciais" (sequestro), engodos, caçadores de prémios; o entrevistado ainda acha que a sorte é não ser no Paquistão, senão dever-se-ia usar um drone para o eliminar, e que o caso é "anormal e injusto". Menos anormal para Winer será usar-se operações secretas para apanhar alguém em território português, uma vez que "não quer saber da lei portuguesa para nada". Sim, mesmo tendo em conta que Portugal é um aliado e fundador da NATO.

Por mais Obamas, okupas de Wall Street e activistas de tudo quanto são "direitos civis" que os EUA produzam, continua a ser a nação que se desenvolveu com a Bíblia e o revólver. Está-lhes entranhado, e quando se tornaram uma super-potência, espalharam a sua particular Pax pelo mundo, ou pelo menos pelas suas zonas de influência. É o excepcionalismo americano em todo o seu esplendor, a "nação indispensável", os Estados Unidos como farol da liberdade (outros consideravam-se o "farol do socialismo"), de democracia e da economia livre, espalhando-as nem que seja à bomba ou ao drone.

A same old America de sempre. A lei do Faroeste, a reminiscência puritana dos Founding Fathers e a sua influência cultural são demasiado fortes para não se aplicarem até aos dias de hoje. É inevitável. Está-lhes no sangue e na pele.


domingo, julho 15, 2012

Música nos jardins



E a propósito do recente trabalho de Miguel Araújo (Jorge), o próprio vai estar esta tarde nos jardins do Passeio Alegre a dar música aos transeuntes e a todos os que se disponham a lá ir, em mais uma sessão do Porto Sunday Sessions, que já vai na terceira sessão e que funcionará até ao fim do Verão. Tardes de Domingo passadas em jardins portuenses, com um DJ diferente em cada semana, colocando música mais alegre ou mais relaxante. Este mês as sessões funcionarão no Passeio Alegre, passando para o jardim de S. Lázaro em Agosto e para o Parque da Cidade em Setembro. À excepção deste último espaço, a música será emitida dos coretos dos respectivos jardins, verdadeiros pontos de referência, tal como acontecia outrora, quando era trivial as famílias dirigirem-se aos jardins públicos para ouvirem as bandas tocarem nesses grandes quiosques musicais. Os coretos voltam agora à sua função original, de espaços musicais, se bem que de forma ligeiramente alterada. Como diria o Príncipe de Salina, "é preciso que mude uma ou duas coisas para que tudo permaneça igual"


sábado, julho 14, 2012

Novas músicas portuguesas



A música portuguesa continua a demonstrar uma saudável avalanche criativa e a oferecer-nos também pequenas pérolas visuais. Exemplos recentes:
Os Capitães da Areia, espalhando ao redor o seu Verão Eterno, trazem-nos agora As Raparigas da Minha (sua?) Idade, num ritmo de electro-roque quase em looping, provocador e dançável.


Os Salto prosseguem no seu caminho para o estrelato e laçaram o single Deixar Cair, também numa toada entre a electrónica e o roque (riffs bem destacados), com um video irresistível composto por umas dezenas de personagens sub-30.


Uma das músicas mais tocadas nas rádios nacionais nos últimos meses, Os Maridos das Outras. Num intervalo entre dois discos dos Azeitonas, do qual é compositor e co-vocalista, Miguel Araújo Jorge subtraiu o último nome, ficando simplesmente Miguel Araújo (depois de usar o pseudónimo "Mendes" nos duetos com João Só), e lançou o disco Cinco Dias e Meio. As músicas revelam letras irónicas e agridoces, entre a observação da pequena vida contemporânea urbana e uma certa nostalgia de tempos dos fins da infância, que será familiar a muita gente que ande entre os trinta e os trinta e cinco. Fica aqui o video, que perde em qualidade o que ganha em genuinidade, de Os Maridos das Outras em versão ukelele.

quarta-feira, julho 11, 2012

Elvas Património da Humanidade


Já vai com uns dias de atraso, mas não podia deixar de saudar a classificação como Património da Humanidade das fortificações de Elvas, uma das mais encantadoras cidades portuguesas.

A UNESCO classificou o conjunto das muralhas da cidade, o forte de Santa Luzia, setecentista, o forte da Graça, saído do génio militar do Conde de Lippe (um grande "cabo de guerra" do Séc. XVIII que reorganizou o exército em tempos do Marquês de Pombal), o centro histórico da cidade (o que pressupõe a Sé, julgo eu), o soberbo e imponente Aqueduto da Amoreira, e ainda alguns fortins adjacentes. Ou seja, todo o conjunto abaluartado e algumas construções não estritamente militares. Um enorme, precioso e belíssimo testemunho da arquitectura militar e não só, que apesar das inúmeras guerras com estremenhos, castelhanos e franceses, chegou aos nossos dias intacto. Tudo graças aos elvenses, que souberam conservar a sua cidade e merecem bem este reconhecimento da UNESCO.






PS: logicamente, há que dar o mérito a quem o merece, em especial aos representantes portugueses na UNESCO.

segunda-feira, julho 09, 2012

Ler os outros e ouvir outras Vozes



Há para aí muitas remissões em muitos blogues com o simples título "ler os outros". Pois aqui vai uma. Um texto essencial de Tiago Cavaco (em tempos conhecido nos meios musicais por Guillul), no seu eterno Voz do Deserto, que exprime aquilo que muitas vezes não se diz, ou por temor reverencial de críticas situacionistas, ou porque realmente não se pensa no assunto. A ler, reflectir, discutir.


Há pessoas que, como eu, não vêm o aborto como um mal necessário mas como simplesmente um mal. Para nós o facto do aborto ser hoje um direito civil não derreteu a ideia que dele temos como uma coisa terrível. (...) Suspeito que parte das pessoas que foram contra o aborto sente-se aliviada que a sua posição tenha perdido. Porque a tarefa difícil que é defender convicções na praça pública parece no momento da derrota desnecessária. E todos os que nos envolvemos nesse debate sabemos que custa divergir de pessoas que respeitamos e amamos. Alguns saem meio traumatizados com discussões que tiveram com amigos achando que àquele lugar não querem mais voltar. Mas deixar de lutar por ideias pelo facto de que os nossos amigos que não as têm ficam escandalizados connosco parece-me um modo triste de revelar que essas ideias não são assim tão importantes para nós. As convicções vêem-se no que nos custam junto dos que nos são próximos mas distantes delas (...).
Os nossos adversários não devem admirar-se que queiramos reverter a Lei do Aborto. Isso não é aos nossos ouvidos uma acusação mas um elogio. Um sinal que estamos firmes no que dissemos no Passado. Do mesmo modo como lhes reconhecemos a vitória legítima no Referendo que ganharam, devem oferecer-nos a mesma legitimidade se fizermos que os mesmos cidadãos mudem de opinião. Democracia também é isto.

(Voz do Deserto, 06/07/2012)

domingo, julho 08, 2012

A miséria académica


O caso Miguel Relvas - mais um, depois das dispensas de Pedro Rosa Mendes, das pressões sobre o Público e dos contactos que afinal eram mais do que um, com Jorge Silva Carvalho - que tantas parecenças tem com os de Sócrates e outros elementos da política nacional obriga inevitavelmente a olhar para o nosso sistema académico e para o ensino universitário privado. O facto em si já é grave, e devia, por acumulação, levar à demissão de Relvas, o perfeito fura-vidas da política, que está em toda a parte sem se saber bem como. Mas como o "licenciado" tem igualmente o controlo do aparelho partidário do PSD, é mais inamovível do que uma lapa.

A tal licenciatura em não-se-sabe-bem-o-quê de Relvas deve, espera-se, ser ser a gota de água neste tipo de procedimentos, depois do famosíssimo caso da licenciatura de José Sócrates num Domingo, da de Armando Vara, e das de várias figuras da política portuguesa, ávidas de adquirirem um "canudo" que lhes dê o tratamento de "doutor" ou "engenheiro". A tampa soltou-se, e será doravante impossível que as coisas fiquem na mesma, tal o brado que têm provocado. O ensino privado tal como existe em Portugal passa por horas de amargura. Já tivemos a tristemente célebre Universidade Moderna, pertença da maçonaria da Casa do Sino, a sua publicidade maciça e os inúmeros atritos em que esteve envolvida; a Universidade Independente e as suas licenciaturas a pedido; e temos agora os estilhaços da antiga Universidade Livre, sobretudo a Lusófona, que distribui diplomas consoante o "currículo". Definitivamente, fora do ensino público e concordatário (Católica), poucas são as privadas que se destaquem pela positiva. Mal na fotografia  ficam também as instituições às quais cabem a supervisão destes centros de "ensino", que mais não são do que empresas que vendem cursos com alguma aparência de mérito. Depois dos tristes exemplo do Banco de Portugal sob essa ilusão chamada Vítor Constâncio, e da Autoridade para a Concorrência, temos agora as universidades privadas com rédea solta, onde o estudo, o mérito e o conhecimento são pormenores secundários face à posição e meios de certos alunos. Tudo isto numa altura em que licenciados, pós-graduados, mestres e doutorados em universidades a sério, a tal "geração mais qualificada de sempre", se vêem sem trabalho e muitas vezes emigram para onde o haja e onde os seus conhecimentos são aproveitados. É compreensível que se revoltem, ao lado destas nulidades que trepam na vida com cursos adquiridos a trouxe-mouxe.

Mas há outros aspecto que sobressai deste levantar do tapete do mundo das privadas e dos que nelas tiram cursos ao minuto: o de que a classe política, de há uns anos para cá, tem uma preparação medíocre, consequência de terem vindo dos partidos e respectivas juventudes e não terem carreira profissional ou académica minimamente relevantes. Repare-se: Mário Soares, ainda que sem notas brilhantes, tem duas licenciaturas. Cavaco Silva, Freitas do Amaral, Adriano Moreira, e o desaparecido Mota Pinto eram docentes respeitados nas suas áreas, com currículos assinaláveis nas suas universidades. Guterres formou-se em engenharia com nota 19. Durão Barroso ficou a meio do Doutoramento em Georgetown. Santana Lopes formou-se na Faculdade de Direito de Lisboa e esteve como bolseiro na Alemanha. Depois, de súbito, chega-se à fissura, a partir de Sócrates e do citado curso da Independente, passando por Passos Coelho e António José Seguro, com cursos tirados rapidamente e já com trinta e tais (as respectivas juventudes era impeditivas de maior aplicação ao estudo), e chegando aos casos extremos como Relvas. Olhemos para os líderes dos principais partidos: Francisco Louçã é catedrático do ISEG, em economia; Paulo Portas é licenciado em Direito, pela Católica; Jerónimo de Sousa não tem estudos universitários e não o esconde de ninguém (no PC até é bem visto, faz parte do sector "operário"). E se formos mais além, ainda descobrimos Garcia Pereira, doutorado em Direito do Trabalho. Passos e  Seguro, líderes dos partidos do poder, são o que se vê, e representam bem a miséria académica que grassa no centrão, de onde emanam políticos sem currículo além da vida partidária, e sem instrução, estudos ou obra relevantes ou sentido de serviço público.