segunda-feira, abril 22, 2013

Os verdadeiros motivos para uma campanha miserável

 
Já lá vão umas semanas, mas não queria deixar fazer referência à chamada de atenção do Declínio e Queda a um post do blogue Cinco Dias, onde se afirma nem mais nem menos que "o que temos que defender é a revolução contra o perigo da democracia, que em quarenta anos nos reduziu a isto". A frase não é uma distracção nem uma gaffe: está lá escrita a negrito, prova que quem a escreveu pensa exactamente isso e quis vincá-lo, sem outras interpretações.
 
Importante é também repararmos na sua autoria: trata-se tão só de Raquel Varela, uma investigadora da FCSH da Nova (onde mais?), que defendeu em tempos que "nunca existiu o risco de o PCP tomar o poder em Portugal” nos anos de 1974 e 1975". A sua apologia da revolução parece contrariar essa tese, até porque se notam nos seus textos amplas simpatias pelo PC. Mas mais interessante ainda é pensar - quem tenha boa memória e não se tenha deixado levar pelo agit-prop - que esta académica foi uma das principais responsáveis, senão a principal, pela violenta campanha lamacenta contra Isabel Jonet em Novembro último, um dos maiores e menos justificados linchamentos mediáticos que tenho visto. Dizia Varela na altura que "a fome é um problema cuja origem reside única e exclusivamente no sistema capitalista" (as fomes na Coreia do Norte, na Ucrânia, na China, no Camboja e na Etiópia, provocadas pelos regimes comunistas, deviam ser meros pormenores) e que "as suas políticas (Jonet) geram fome". Essas afirmações revelavam um radicalismo político, um enviesamento da realidade e uma defesa de teses político-sociais mais que duvidosas que mostravam já muito as verdadeiras intenções da autora: a de, aproveitando declarações potencialmente mais polémicas, fazer um ataque cerrado ao que chamam de "caridadezinha", neste caso ao Banco Alimentar, colando-o ao Governo e acirrando as opiniões, para daí culpar todo um sistema e tentar a disseminação discreta de ideias que sustentassem um modelo diferente. O aproveitamente da crise para fazer germinar ideias revolucionárias é desde há muito conhecido. O uso da fome como argumento (aliás, Varela chamou à sua carta "a comida é uma arma", que caracteriza exactamente o seu método), ligada à habitual ideia da pobreza como uma abstracção teórica, tão típica da esquerda radical e o aproveitamento deturpado de declarações que caíram que nem gingas fizeram o resto a todos os que caíram no engodo (ou quiseram cair).

Agora confirma-se: as motivações de Varela eram totalmente políticas, e desse modo tentou fazer com que as do Banco Alimentar também o fossem. Como disse atrás, tentou-se culpabilizar uma instituição que tira potencial "terreno" ou apoio social às teses mais revolucionárias, eliminando a fome, tão necessária ao aumento do radicalismo político, para afastar um eventual obstáculo à revolta social. Com estas últimas declarações, escarrapachadas, Varela disse ao que vinha: quer a revolução em lugar da democracia, impedida pelo contra-golpe de 25 de Novembro de 1975, e não resolver qualquer problema de fome, que de resto só beneficia o seu projecto revolucionário. Duvido que o consiga, mas em todo o caso é bom vermos confirmadas as verdadeiras motivações dos ataques a Jonet e ao BA. É bom que as pessoas aprendam a distinguir motivações políticas, para mais extremistas, quando se eleve uma polémica para enlamear o bom nome de uma instituição que tanto tem ajudado os mais carentes, tratando-os como pessoas e não como abstracções.

Magia no derby


Haja o que houver, o golo do ano é o segundo ao Sporting, de Lima. O primeiro, marcado por Salvio, já tinha sido muito bom; o resultado é fundamental para a caminhada para o título, mas este golo, a jogada mirabolante em que Gaitan que passa por dois jogadores sem se perceber como, a tabelinha e os passes sem deixar cair a bola, o golo em vólei de Lima, tudo isso é do domínio da pura magia. Maradona certamente pensará que esta jogada de um seu sucessor seria digna dele. E consegue ser ainda melhor do que outro golo do mesmo Gaitan. A posteridade não deixará de assinalar estes momentos inclassificáveis, que só por si deviam dar direito a um triunfo por 5-0.
 
 

domingo, abril 21, 2013

250 anos de Torre dos Clérigos


O campanário de igreja mais famoso do país, o ex-líbris do Porto, a materialização do barroco na vertical, a torre tantas vezes representada que se tornou na obra eterna de Nasoni domina a silhueta da cidade há 250 anos. Feitos hoje, 21 de Abril de 2013. E  não faltam eventos ou lançamentos de produtos comemorativos para celebrar a efeméride. Fica a pergunta, ligada ao velho provérbio que diz que "em casa de ferreiro, espeto de pau": quantos portuenses nunca terão subido à Torre dos Clérigos?
 
 

sábado, abril 20, 2013

Pequenos déjà vus (ou os círculos da História)

 
Em França, verificam-se não apenas discussões e controvérsias saudáveis que são sempre característica de um regime pluralista, a propósito da aprovação do casamento e adopção homossexual, mas também um clima de confronto e de agressividade que faz lembrar, nas devidas proporções, os famosos motins de Fevereiro de 1934.
 
Em Espanha, os republicanos comemoram o "seu" dia para se manifestarem contra o Rei e contra a Monarquia em plena Madrid (embora não com a dimensão que a comunicação social lhe quis dar, longe das "dezenas de milhar" de manifestantes).
 
Na Ásia-Pacífico, a Coreia do Norte ameaça os vizinhos ao passo que o Japão resvala para uma toada nacionalista e o rearmamento para além das simples forças de autodefesa está na ordem do dia.
 
Em Itália, Beppe Grillo promete uma "marcha sobre Roma" em protesto contra a reeleição do velho Napolitano.
 
Bem sei que a Alemanha não pretende expandir-se militar nem territorialmente, e que Passos coelho não é exactamente um Salazar (até porque peca por defeito e falta de sentido de estado). Mas é inquietante pensar como tantas destas coisas nos lembram os anos 20/30 do século XX. O conhecimento da História e o valor da memória são hoje em dia mais valiosos do que nunca. É bom que não os coloquemos de lado. O preço a pagar seria altíssimo.

segunda-feira, abril 15, 2013

A remodelação e os aparelhismos


A nomeação de Luís Marques Guedes para o lugar que era de Miguel Relvas e de Miguel Poiares Maduro para o Desenvolvimento Regional é um feliz acontecimento, num Governo com falta de boas notícias (por culpa própria, em boa parte). O primeiro é um político experiente, idóneo, competente e respeitado pelos adversários. O segundo é um jurista brilhante, especialista em direito comunitário (e ao que parece, não é pior nos domínios da cozinha), professor em Florença e com carreira no TJCE. Se era para mostrar as diferenças com Miguel Relvas e o seu nulo percurso académico, a comparação não podia ser mais avassaladora. Temos ainda novos secretários de Estado, entre os quais Pedro Lomba, como adjunto de Poiares Maduro. É caso para a blogoesfera rejubilar: um dos seus fundadores chegou ao Governo.
Não sei se algo de essencial irá mudar, ou se o currículo académico dará necessariamente origem a um bom governante. não sei se se exigira uma remodelação mais profunda. Mas dá-me muito mais conforto ver que um chico-esperto aparelhista como Relvas substituído por gente acima de qualquer suspeita, bem mais preparada juridicamente, e aparentemente sem esqueletos no armário. O PSD puro e duro e as suas "bases" é que parecem não ser da mesma opinião: aprovaram um voto de louvor a Relvas, com a excepção notável da histórica Virgínia Estorninho, e ao que parece, não viram com bons olhos a entrada de Poiares Maduro. Aparelhismos...

sexta-feira, abril 12, 2013

Mais que merecido

 
 
 
O prémio Sir Geoffrey Jellicoe, o maior que se pode atribuir a arquitectos paisagistas, atribuído esta semana a Gonçalo Ribeiro Telles, coroa uma carreira de verticalidade na defesa do ambiente, do ordenamento do território e da terra (em todos os sentidos) da erosão e da especulação urbana que a ameaçam. Aos noventa anos não desistiu de lutar pelos valores mais genuínos do nosso país, e ao que parece começou por fim a ser ouvido. Que seja uma lição para todos os que o ignoraram ou encolheram os ombros quando falava de agricultura nas cidades, de construção em sobre cursos de água encanados ou de corredores verdes, em lugar de meros jardins de bairro.

quinta-feira, abril 11, 2013

O adeus esperado de Thatcher

 
 
Os jornais dos últimos dias, como era esperado, deram destaque à morte de Margaret Thatcher (que também não surpreendeu, dado o estado de saúde era menos de ferro do que a Dama tinha sido). O desaparecimento de uma das figuras-chave dos anos oitenta, senão das últimas décadas, de um dos últimos grandes líderes europeus, não podia passar despercebida. Até porque, apesar de há já muito estar retirada do espaço público, nunca passou ao esquecimento. Todos os seus sucessores foram condicionados pelos seus anos de governo, e no ano passado voltou mesmo aos escaparates dos jornais com o filme-biopic que deu o Óscar de Melhor Actriz a Meryl Streep, na sua superior interpretação da Primeira-Ministra britânica.

Thatcher estava longe de ser das minhas figuras preferidas. Mas ser popular ou amada não lhe dizia nada. Até é crível que, pelo seu gosto pelo confronto, preferisse os apupos e às manifestações sindicais e da oposição trabalhista (liderada por Michael Foot, que estava tão à esquerda como ela estava à direita), sinal de que a sua política tinha sucesso. A uns ignorou, a outros venceu frequentemente nos Comuns. O choque ideológico, as discussões, a capacidade de comando estavam-lhe no sangue. Na cabeça, trazia as ideias de Hayek e uma vontade de gerir a Grã-Bretanha como uma mercearia, contra os "inimigos internos", sobretudo os sindicatos, que em fins dos anos setenta faziam o que queriam do país, levando-o à estagnação e à ruína. Thatcher aplicou as suas políticas de choque, a que podemos chamar com alguma propriedade de neoliberalismo, com resultados controversos: por um lado criou uma nova classe de pequenos empresários, fomentou o sector terciário, tornou a City londrina numa grande praça financeira; por outro arruinou a indústria e os sectores mineiros que fizeram a Revolução Industrial, com o crescimento do desemprego, da mendicidade e da criminalidade. Era popular no Sul e impopular no Norte e no Merseyside. Pelo meio afrontou a Europa e no caso das Malvinas impôs uma derrota humilhante à clique militar argentina, levando à sua queda.
 
Pode-se dizer que muito embora o Reino Unido precisasse de um valente tratamento ao estado em que estava em finais de setenta, Thatcher exagerou na dose. Libertou o país de uma doença para lhe trazer outras maleitas. Com isso, era admirada até à idolatria e odiada de morte. Mesmo agora, na sua partida, mais de vinte anos depois de deixar o poder, isso se nota: os defensores querem fazer-lhe um funeral de estado, apenas reservado à Família Real, mesmo contra a sua vontade expressa; os detractores festejaram e dançaram à notícia da sua morte, numa atitude reles mas ilustrativa (em Bristol, por exemplo, onde me recordo de ver, na primeira metade dos anos 90, inúmeros pedintes). Thatcher, líder convicta mas errática, incansável mas implacável, partiu, mas o seu simbolismo e o seu legado ficaram. Mesmo que esteja longe de ser positivo, reconheça-se que era uma figura carismática, com alguma grandeza, e que faz as actuais classes políticas da Europa parecer um bando de gnomos.
 

terça-feira, abril 09, 2013

Vá lá, Sr. Primeiro-Ministro

 
 
 
...queixe-se das implicações que a inconstitucionalidade das normas que aprovou poderão trazer, das dificuldades em cortar na despesa (mas não era tão fácil, há dois anos?), da revisão  extraordinária da Troika, do amuo do PS, da irresponsabilidade da oposição, da própria Constituição e do cunho ideológico que mantém. Mas por favor, não mate o mensageiro.

quinta-feira, abril 04, 2013

Largar lastro

 
Como diria Durão Barroso, sabia-se que Miguel Relvas iria deixar de ser Ministro antes do fim do Governo, só não se sabia quando. Para além dos problemas com os dossiers que tinha a seu cargo (uma infinidade deles, da reforma municipal à televisão, passando pelo desporto), carregava as sombras de casos polémicos, como as relações com Silva Carvalho, as pressões sobre o Público e a sua inacreditável "licenciatura". E seria o relatório desta a mostrar-lhe a porta da rua, quando se cogitava o que mais seria preciso para que ele saísse.
Relvas era um abcesso que teria de ser removido para que o Governo sobrevivesse. Um chico-esperto que trepou à custa do aparelho partidário e que parecia não entender o quanto a sua manutenção minava o executivo. Diga-se o que se disser do relatório e dos procedimentos a que obedeceu para apenas produzir efeitos práticos nesta altura, o momento não podia ser o mais adequado. Entalado entre uma moção de censura de toda a oposição (ainda que com óbvios efeitos nulos, mas sempre incómoda) e a anunciada posição do Tribunal Constitucional que por certo chumbaria algumas medidas, o Governo precisava urgentemente de um balão de oxigénio, ou mais precisamente, de largar um saco de lastro. Relvas era o lastro mais evidente que arrastava o "balão" governamental na queda. E era preciso largá-lo agora na esperança de que as fissuras não o fizessem cair ainda mais.
 
 

quarta-feira, abril 03, 2013

Se a sabedoria popular continuar a errar, muitas graças a Deus vou dar

 
 Por estes dias, a "sabedoria popular" anda muito por baixo. Diz-se que "se a Senhora das Candeias rir, está o Inverno para vir". Ora a comemoração da Senhora das Candeias é a 2 de Fevereiro, e tanto quanto me lembro desse dia, não houve grandes risos climatéricos. Dizem também os ditos populares que "Carnaval na rua, Páscoa em casa", ou seja, se no Carnaval estiver bom tempo, então o Domingo de Ressureição será sob chuva. No último Entrudo choveu, ventou, nevou até, e mesmo assim tivemos uma Páscoa diluviana. 
E se "em Abril, águas mil", faço votos para que a sabedoria popular continue errática. As populações das margens ribeirinhas dos rios, da lezíria ribatejana e da zona de Aveiro, entre outras, agradecem. E eu também, que já começo a desesperar com este Inverno que dura há quase meio ano e nos deixa a cabeça em água. E com constantes más notícias, do que precisamos agora é de sol a rodos.

domingo, março 31, 2013

Páscoa


E no primeiro dia da semana, muito de madrugada, foram elas ao sepulcro, levando as especiarias que tinham preparado, e algumas outras com elas.
E acharam a pedra revolvida do sepulcro.
E, entrando, não acharam o corpo do Senhor Jesus.
E aconteceu que, estando elas muito perplexas a esse respeito, eis que pararam junto delas dois homens, com vestes resplandecentes.
E, estando elas muito atemorizadas, e abaixando o rosto para o chão, eles lhes disseram: Por que buscais o vivente entre os mortos?
Não está aqui, mas ressuscitou. Lembrai-vos como vos falou, estando ainda na Galiléia,
Dizendo: Convém que o Filho do homem seja entregue nas mãos de homens pecadores, e seja crucificado, e ao terceiro dia ressuscite.
E lembraram-se das suas palavras.
E, voltando do sepulcro, anunciaram todas estas coisas aos onze e a todos os demais.
E eram Maria Madalena, e Joana, e Maria, mãe de Tiago, e as outras que com elas estavam, as que diziam estas coisas aos apóstolos.
E as suas palavras lhes pareciam como desvario, e não as creram.
Pedro, porém, levantando-se, correu ao sepulcro e, abaixando-se, viu só os lençóis ali postos; e retirou-se, admirando consigo aquele caso.

Lucas 24:1-12

sábado, março 30, 2013

Os trabalhistas na confusão eleitoral israelita

 
 
Israel ficou novamente perante o enorme quebra-cabeças de formar um governo, depois de novas eleições, em Janeiro, confirmarem uma enorme polarização dos votos em inúmeras formações populistas, centristas, e ortodoxos. Os tradicionais partidos que se revezaram a partir de certa altura no poder têm de se confrontar com novos adversários que lhes aliciam o eleitorado, e vêem-se obrigados a fazer concessões à esquerda e à direita, aos seculares e aos religiosos. O sistema eleitoral, muito proporcional, não ajuda.

Porém, e ao contrário do que vinha sendo observado nas votações mais recentes, os eleitores não se viraram tanto para as formações de direita e ortodoxas, à excepção do Casa Judaica, novo movimento criado sobre as cinzas do Partido Nacional-Religioso. O Likud de Benjamin Netanyahu falhou a tentativa de solidificar-se o poder e perdeu votos para todos. O único partido que teve uma sangria eleitoral superior foi o Kadima de Shaul Mofaz, que há poucos anos governou Israel, mas que com a saída de Tzipi Livni para formar o Hatnuah (depois de uma humilhante derrota interna), recuou para níveis quase irrelevantes, com apenas dois lugares no Knesset. Quem apanhou os votos directos do Likud e do Kadima foram o supracitado Hatnuah, o esquerdista Meretz e principalmente o novo partido centrista "da classe média" liderado pelo mediático jornalista Yaïr Lapid, que apareceu como um furacão e ficou em segundo lugar. E com toda esta dispersão de votos, Netanyahu viu-se obrigado a formar um governo altamente instável, com cinco partidos, composto por membros do Likud, ultra-ortodoxos e centristas seculares, entre os quais Lapid e Livni.

No meio disto tudo, o histórico Partido Trabalhista recuperou um pouco das sucessivas tareias eleitorais que vinha levando nas votações anteriores. Com a saída, aos poucos, de líderes carismáticos como Shimon Peres, Barak ou Amir Peretz, o esboroamento do eleitorado tradicional (que escolhe partidos mais recentes) e o crescimento do números de judeus ultra-ortodoxos, e ainda com a incapacidade demonstrada em levar a cabo o processo de paz com os palestinianos, o velho Avoda, ou Labor, tornou-se dispensável e secundário. No entanto, este partido, anteriormente com o nome de Mapai, tem um enormíssimo peso histórico: governou Israel desde a sua fundação até aos anos setenta, e teve como líderes Ben Gurion (que declarou a independência de Israel em 1948) e Golda Meir.
 
Após a independência e a invasão árabe que se lhe seguiu, Israel teve as suas primeiras eleições legislativas. O Mapai ganhou-as, deixando em segundo lugar o Mapam, de tendência mais marxista. Os israelitas estavam na altura firmemente virados à esquerda. A maioria vivia em Kibbutzim, comunidades em que o colectivismo (voluntário e cooperativo) era levado quase ao extremo. Todos trabalhavam na agricultura e pesca, à cabeça, e noutros ofícios. As ferramentas eram comunitárias, assim como quase todos os bens, e até mesmo o nome das crianças que nasciam era por vezes decidido pelos membros do kibbutz, e não apenas pelos pais. E chegado o tempo de combater, todos, homens e mulheres, pegavam em armas para defender o Estado de Israel (ainda hoje todos, independentemente do sexo, têm de cumprir o serviço militar), lembrando as provações por que tinham passado. Com esse espírito radicalmente comunitário e de pertença à terra, o exíguo estado judaico conseguiu assim defender-se de inimigos à partida mais fortes, embora os seus comandantes militares e a tecnologia de guerra também ajudassem.
 
O Mapai era o principal impulsionador da política de kibbutz. O próprio Ben Gurion, assim como a maioria dos governantes israelitas, vivia num. A URSS chegou a apoiar Israel nos primeiros anos, na esperança de ali encontrar um estado soviético no medio Oriente e um aliado. Quando percebeu que a sua natureza era diferente, resolveu apoiar o Egipto, onde Nasser assumira o poder, e desde então o grosso dos estados e dos movimentos comunistas a mando da URSS tornou-se virulentamente anti-israelita. Outra das bandeiras do partido eram os serviços públicos, como a saúde e os transportes.
 
Nos anos sessenta, sofrendo de algum desgaste, o Mapai agregou alguns pequenos partidos de esquerda e tomou o nome de de Partido Trabalhista, mas nos anos setenta veria o seu principal adversário, o conservador e revisionista Likud-Herut, de Begin, chegar pela primeira vez ao poder. Pior que isso: seria Begin a assinar pela primeira vez um tratado de paz com um país árabe, o Egipto de Sadat.  Durante 15 anos, o Likud permaneceu no governo e só em 1992 os trabalhistas conseguiriam afastá-los, com Yitzhak Rabin. Este assinaria os acordos de Oslo com Arafat, mas em 1995 acabaria assassinado numa manifestação pela paz, e pouco depois, sem que fosse previsível, o Likud, agora com Ariel Sharon, voltaria ao poder. Em fins dos anos noventa, os trabalhistas chefiaram pela última vez um governo. A partir daí, e com a sangria de quadros dirigentes, seria o declínio do partido. A sociedade dos kibbutzim era bem mais exígua do que nas origens do estado de Israel, as ambições dos israelitas eram outras, o número de ultra-ortodoxos, pouco receptivos às ideias dos trabalhistas, cresceu enormemente, e outras formações de esquerda e de centro levaram-lhe dirigentes e eleitorado e ocuparam em boa parte o seu lugar.
 
Agora, o Partido Trabalhista tem à sua frente um jornalista feminista, que conseguiu uma pequena inversão na tendência de queda. Mas para fazer frente aos novos movimentos de centro, parece insuficiente. O histórico movimento que representou o sionismo socialista deu um enorme contributo a Israel, começando na sua formação e continuando na sua defesa, mas parece não passar de uma instituição discreta e inofensiva nos dias que correm. Conserva algum peso histórico mas não diz muito às aspirações dos israelitas (que são aliás muito contraditórias, entalados entre seculares e religiosos, pacifistas e irredentistas). Provavelmente, com a sua romântica memória dos agricultores-soldados que se entregavam ao colectivismo dos kibbutzim e defendiam o estado tão arduamente conquistado com unhas e dentes, permaneceu algures no século XX.

quinta-feira, março 28, 2013

A vitória mediática de Sócrates

 
Do que vi sobre José Sócrates retive que o ex- Primeiro Ministro, como esperava, se mantém o mesmo: petulante, combativo, rancoroso, determinado, misturando verdades com aldrabices (assumiu a responsabilidade por 8 PPPs rodoviárias, mas misturou os números das suas negociações; considerou que o PEC4 salvaria o país, quando a intervenção externa era necessária havia meses), e, evidentemente, recusando qualquer responsabilidade pelo estado do país - António Guterres mantém-se mesmo como caso único.
 
Mas a entrevista teve um êxito retumbante. Conseguiu imensa audiência, pôs o país inteiro a falar - bem ou mal -  de Sócrates, e sobretudo, como exemplo maior dessa divulgação, colocou tudo quanto é comentador e político (ainda hoje no Parlamento a usaram), ou as duas coisas, a utilizar a palavra "narrativa". Isto sim, espelha bem a sua a vitória mediática.

domingo, março 24, 2013

Entrudo de Podence, com atraso


Bem sei que estamos a entrar na Semana Santa, mas correndo o risco de cometer um micro-sacrilégio, não resisto a colocar algumas fotografias do último Carnaval - ou neste caso, Entrudo - em Podence, como em tempos fiz com Lazarim. Como muitos saberão, Podence é uma aldeia próxima de Macedo de Cavaleiros que deve a sua fama à antiquíssima tradição dos Caretos. Pelo Carnaval, rapazes (e raparigas, também) entram dentro de umas vestes de lã de cores garridas com chocalhos agarrados, colocam uma máscara, de latão ou madeira, empunham uma vara e percorrem a aldeia fazendo diabruras, chocalhando os transeuntes e espalhando alarido pelas ruelas. Este antiquíssimo hábito de origens pagãs, vem, crê-se, do tempo dos celtas. Prolongou-se pelo tempo, com as devidas adaptações, pelo Nordeste Transmontano (mas também nas proximidades do Douro, como Lazarim comprova) e chegou aos nossos dias, com a designação de Entrudo Chocalheiro. Hoje é uma atracção da aldeia que tem um museu dedicado aos caretos, e que aproveitando  a chegada de visitantes e curiosos, promove eventos que incluem caça, competições de bombos, projecção de filmes sobre os caretos, gastronomia, etc. O nosso interior, em particular em Trás-os-Montes, continua a revelar coisas magníficas a quem raramente sai das áreas (sub)urbanizadas do litoral.
 




(Sim, é um javali caçado horas antes nos montes próximos; lá em baixo, a albufeira do Azibo, a praia de Verão do Nordeste Transmontano, com bandeira azul e tudo).
 

quinta-feira, março 21, 2013

Enfim, Moreira



Rui Moreira apresentou oficialmente a sua candidatura. Não se tratou propriamente de uma novidade de estrondo, há meses que era esperada, e a questão era de quando seria lançada, para gerir prazos curtos ou pelo contrário, um tempo demasiado longo que fizesse passar o efeito esperado.

Em inícios de Fevereiro, com o lançamento de um manifesto cívico com o nome "Dar o Porto ao manifesto" (que o autor deste blogue subscreveu), e com posteriores elogios de Paulo Portas, a candidatura de Moreira estava praticamente selada. Ontem apresentou-se, no Mercado Ferreira Borges, símbolo do Porto liberal e burguês, ali a dois passos da Ribeira e da Bolsa onde se sedia a Associação Comercial do Porto, presidida pelo agora candidato. Perante algumas centenas de pessoas que enchiam a sala, num cenário de penumbra com fundo azul, apresentou os traços gerais da candidatura - coesão social, economia, cultura - e lançou aquele que muito provavelmente será o slogan principal: "o meu partido é o Porto". Caracterizou aquele movimento como apartidário (mas não anti-partidário), produto do "Porto liberal e empreendedor", e repetiu várias vezes as palavras "livre e independente". Não cessou de saudar as candidaturas já no terreno, de Menezes e Pizarro, mas lançou uma pequena farpa à primeira, quando disse que não tinha projectos de "negócios mirabolantes" nem queria "uma segunda ou terceira Barcelona" ou que o Porto seja "uma segunda Lisboa" (frase cujos direitos de autor primordiais cabem, se não me engano, a Paulo Rangel). Falou na importância do trabalho e da criatividade e na necessidade de interação entre a a câmara e as freguesias, as paróquias, associações de moradores, comerciais, etc. E frisou que em termos de rigor orçamental não se afastaria da política de Rui Rio, recordando a expressão popular "contas à moda do Porto".

Por vezes o discurso tornava-se algo redondo e repetitivo, mas a ideia de independência, liberdade e dinamismo ficou bem vincada. Era no fundo tudo o que se pretendia. A partir de agora, a candidatura de Moreira terá de se mostrar, de apresentar ideias concretas e de se libertar de uma certa conotação de movimento de quadros, apoiado pelas elites culturais e sociais da cidade, em busca dos votos da maior parte da população. Moreira é conhecido e popular, mas não terá tarefa fácil.

Lembrou ainda outro ponto: a de que era a primeira candidatura realmente independente a uma grande cidade em Portugal. Tivemos o precedente Sá Fernandes, em Lisboa, logo aproveitada pelo BE, com os resultados que se conhecem, e o de Helena Roseta, logo integrado no PS de António Costa. Rui Moreira colhe, à partida, os votos de grande parte do CDS, de importante quantidade do PSD e de umas franjas do PS. Mas numa altura em que os partidos não colhem grande popularidade e em que a partidocracia sofre acentuada erosão, é de esperar que colha muitos mais votos. É verdade que o CDS se prepara para dar o seu apoio a esta candidatura, mas sem obrigações para com qualquer aparelho político, evitam-se compromissos nocivos para a autarquia ou conflitos perniciosos, como aconteceu com Sá Fernandes e o Bloco.

Como se percebeu, o autor destas linhas apoia esta candidatura. Por razões positivas, mas também negativas. Luís Filipe Menezes e a clique que o rodeia representa o que de pior há no aparelhismo partidário (aliás, os ataquezinhos próprios da classe já começaram), bem representado pelo nepotismo político que colocou o seu filho no Parlamento e pelo inacreditável líder da concelhia do PDS-Porto. Além do mais, o edil de Gaia endividou o concelho até à medula, com obras muitas vezes espampanantes (veja-se o teleférico sobre o Cais de Gaia), a habitual "obra feita" de que tantos autarcas se gabaram e que levou tantas câmaras à situação de garrote financeiro em que se encontram. Menezes é um incoerente, que diz uma coisa numa semana e o seu contrário no mês seguinte, e sofre de uma instabilidade psicológica e emocional que ficou bem à vista na sua fugaz passagem pela liderança do PSD. Quanto a Manuel Pizarro, do que conheço, julgo ser um homem sério e com os pés assentes na terra, ainda que um pouco cinzento; mas está rodeado pelo PS Porto, que excepção feita a Francisco Assis e pouco mais, é tão mau ou pior que o PSD do mesmo distrito. É ver as traições e combates que se passam no PS de Matosinhos para se ficar com uma bela imagem do grupo.

Até por isso, por uma questão de higiene política e municipal, é desejável que a candidatura de Rui Moreira se implante no terreno e tenha sucesso. E que se isso acontecer, muitas mais se sigam. Para que os municípios se libertem enfim dos compromissos com as cúpulas dos partidos, das suas brigas e dos seus pequenos interesses de momento, que tão mau nome têm dado ao municipalismo.

Poderá Chipre ser o suicídio da União Europeia?


 

A insensata medida para taxar os depósitos bancários dos cipriotas sofreu um não consensual do parlamento da metade da ilha que pertence à União Europeia. Já era de esperar que não aceitassem essa imposição, mas a unanimidade na recusa de a acolher torna ainda mais visível o autêntico disparate que seria essa decisão do conselho de Ministros.

Não é só a medida em si, própria de um estádio totalitário que põe e dispõe das finanças dos seus cidadãos, que choca: a forma como a tomaram é quase patética, mas ilustra bem aquilo em que a UE se vem tornando. Uma decisão do que deveria ser um órgão colegial, na realidade tratou-se de uma imposição ao governo de Chipre dos ministros das finanças alemão e holandês, enquanto os outros membros homólogos do "Eurogrupo" entravam e saíam da sala, indiferentes (ou submissos?) à gravidade do que se estava a passar.

Sabe-se que Chipre deve o seu crescimento (ou a sua engorda) recente devido à zona franca, às condições fiscais e aos imensos depósitos que os oligarcas russos lá deixam. Um dos objectivos desta decisão era de diminuir a sua liberdade financeira, e ao mesmo tempo fazer pagar o resgate feito a Chipre através dos russos, sem consentimento da parte deles, claro está. O problema é que não somente se trata de uma imposição intolerável aos depositantes, que para além dos russos abrange os cipriotas com menos recursos, como vai contra resoluções anteriores que garantem depósitos até cem mil Euros. Cereja no cimo deste complicado bolo: Chipre acaba por pagar pelos danos colaterais que sofreu com o perdão parcial da dívida grega, outra decisão tomada pela UE. não somente é prejudicado por isso, como ainda de pagar os juros das decisões comunitárias.

A UE já está a arrepiar caminho, mas como se disse incessantemente nos últimos dias, o precedente está aberto. Com o autoritarismo que se verifica sobre os países com dívida excessiva e em dificuldades económicas, tudo se pode esperar. Chipre é uma meia ilha com menos de um milhão de habitantes, ali na ponta leste do Mediterrâneo, e o "Eurogrupo" pensou que podia impor as medidas que lhe surgissem na cabeça com a visão curta e burocrática e com a arrogância imensa que o caracteriza. Mais uma vez, não previu os perigos de contágio. De tal forma que os bancos da ilha continuam fechados, perante novas ameaças do BCE de fazer cessar a liquidez já para a semana se Chipre não aceitar ovo plano de resgate. O que a euroburocracia não previu, na sua completa incompetência e ignorância geostratégica, é que a mesmíssima posição geográfica e a afinidade cultural como a Grécia e com a Rússia podiam fazer a balança pender para esta última. De facto, com os depósitos dos seus oligarcas ameaçados, e com a guerra que se arrasta na Síria, cujo resultado desfavorável ao actual regime pode obrigá-los a retirar as suas bases navais que aí mantêm (as únicas que têm no Mediterrâneo), os russos podem aproveitar esta situação para ajudar economicamente Chipre em troca de aí instalarem novas bases, numa posição estratégica até mais favorável e estável do que a costa síria (estes dois posts no Estado Sentido explicam bem essa circunstância). E se a UE recusar e lançar novo ultimato (já que a Alemanha parece muito confiante na continuidade de fornecimento de energia por parte da Rússia)? Aí talvez se depare como um pequeno estado rebelde, que pode muito bem, em último caso, fazer a sua secessão do Euro e até da própria UE. A partir daí, seria o caos. Quem acende fogo de forma irresponsável acaba por se queimar.

 

É pela falta de de visão, conhecimentos e sensatez das classes políticas europeias que o entusiasmo com o Papa Francisco faz ainda mais sentido. Perdida a confiança na política e nas ideologias, será o cristianismo, contra algumas previsões, a salvar-nos uma vez mais.

sexta-feira, março 15, 2013

Francisco

 
 
 
Pela primeira vez consegui assistir ao anúncio do novo Papa e à sua chegada à varanda de S. Pedro. É certo que só tinha tido uma oportunidade, mas em 2005, por ligeiro atraso, perdi ambas, e só vi o já Bento XVI com as vestes papais.

Desta vez, consegui acompanhar o nervoso da espera, ouvir o cardeal Jean-Louis Taran anunciar o nome. À primeira impressão, ao ouvir o "Bergoglio", pensei: "elegeram um italiano"? Só depois é que as televisões revelaram que era argentino, e ouviu-se pelo meio que adoptava o nome Francisco. Como pensei, era nome inédito para um Papa. a explicação surgiu depois: uma homenagem a S. Francisco Xavier, e sobretudo, a S. Francisco de Assis.

Um Papa sul-americano é coisa inédita na Igreja, embora fosse previsível que um dia teria mesmo de ser. Mais inédito ainda é ser jesuíta. Raríssimas vezes os membros da Companhia de Jesus subiram a cargos tão altos. Sempre estiveram vocacionados para os lugares de missão, da ciência, da busca incessante da sabedoria e dos ensinamentos que outros povos lhes pudessem dar, e isso afastou-os dos lugares da hierarquia, de tal forma que chegaram a extinguir-se momentaneamente, com a "preciosa" ajuda de Pombal.
 
Mas notei logo no gesto simples com que o Papa brindou a multidão apinhada em S. Pedro, um gesto de adeus e um "buona sera", como se dirigisse a amigos. Aos seus irmãos, aos quais dará a função paternal como é própria do Sumo Pontífice.
 
O Papa Francisco, o primeiro desse nome, calça agora as sandálias do Pescador e usa o Anel de Pedro. É para ele que se projectam os olhares de todos os católicos, não certamente à espera de nenhuma revolução, mas sim de alguns gestos que aproximem a Igreja dos fiéis e saiba reproduzir a mensagem de Cristo, deixando de lado pecados antigos ou mais recentes. Que os clérigos sigam o seu exemplo de simplicidade (e a do Papa Emérito Bento XVI), e que os leigos a compreendam. O conclave durou pouco tempo, e isso será prova de uma escolha feliz. Eis o nosso Papa. Francisco, Bispo de Roma e sucessor de S. Pedro. Que Deus o ajude na sua cruz.

PS: apesar de ser um "Papa das Américas", note-se que a língua materna é o espanhol, o apelido italiano, e o nome escolhido remete para França e homenageia um santo italiano. De certa maneira, as tradicionais antigas "potências" católicas continuam presentes.

quarta-feira, março 13, 2013

Á Chave


As agências noticiosas esfregam as mãos de contentes: nos próximos dias, os directos e os comentários "à situação" estão garantidos. Com o início do Conclave que irá eleger o novo Sumo Pontífice, após a surpreendente renúncia de Bento XVI, fazem-se apostas, dissecam-se favoritos, traçam-se cenários, pedem-se "reformas". Regressa aquele vocabulário adormecido durante anos, como Conclave, Camerlengo, "sandálias do Pescador", fumo branco, etc. Qualquer perigo de vazios televisivos está afastado, e sempre dá para alternar com os resumos futebolísticos, com as manifs  ao som da "Grândola..." e com a inspecção da Troika.
 
Todo esse estendal pode divertir o público, mas não influencia os cardeais eleitores. Estes sofrem, como é óbvio, pressões, e terão as suas preferências. Alguns, em especial o sector "italiano", terão as suas intrigas e os seus motivos conspirativos. Mas uma vez dentro da Capela Sistina, sob a opus magnum de Miguel Ângelo, isolados do mundo profano, farão a sua escolha. Felizmente já não são alimentados a pão e água. Ainda assim, que a espera não seja demorada. E que o Papa, seja lá qual for a sua proveniência, da Europa, América do Sul, Ásia, África, guie a Igreja Católica na sua missão pastoral. É o que se lhe pede. Confiemos no Espírito Santo e no bom senso. Até lá, resta-nos imaginar o que se passará dentro das paredes da Capela, fechada à chave.
 

segunda-feira, março 11, 2013

O genuíno baile dos vampiros


Parece que ontem teve lugar o habitual "Baile dos Vampiros", que pré-encerra o Fantasporto. Nunca estive em tal evento, mas duvido que chegue sequer perto da solenidade e pompa do baile dos vampiros idealizado por Polansky no seu Por Favor, Não me Morda o Pescoço, com a participação do próprio e da malograda Sharon Tate, sua mulher na altura, antes do crime diabólico que a assassinou, e que horrorizaria até o vampiro mais sedento. Música barroca tocada em cravo, derivações do menuet, trajes do século XVI ao XVII envergados por seres pálidos mas com gravidade aristocrática: eis um baile dos vampiros como deve ser.
 

domingo, março 10, 2013

Antes da deslocação à Gironde

 
O Benfica lá conseguiu vencer os girondinos, por escasso 1-0, graças a uma bomba de Rodrigo (que a UEFA, no seu futebolisticamente correcto, atribuiu ao guarda-redes Carraso), e pouco mais. É provável que em Bordéus se ultrapasse a equipa da casa, mas vai ser preciso suar um pouco mais. Verdade seja dita que os franceses não têm a mesma equipa que se sagrou campeã em 2009, sob a batuta de Gourcuff, nem contam com um Pauleta, um Chalana, e muito menos um Zidane. E acima de tudo não têm um líder com bolsos largos como o que presidiu ao clube nos anos oitenta, Claude Bez. Este excêntrico presidente, que contratou o "pequeno genial" Chalana por um valor recorde em 1984 (graças ao qual o Benfica fechou o Terceiro Anel), e que tinha uma imagem de milionário americano do Texas (usava um chapéu de texano, farto bigode e conduzia um Cadillac, mesmo quando ia a estádios adversários), tornou o Bordéus a força dominante do futebol francês da década de oitenta, tomando o lugar ao Saint-Etienne. Contratou grandes jogadores, como o génio do Barreiro, conquistou alguns títulos, e pelo meio venceu o Benfica numa eliminatória, antes do Marselha lhe arrancar a hegemonia do futebol gaulês, liderado por um dos grandes inimigos de Bez, o celebérrimo Bernard Tapie (mas esse não conseguiu ultrapassar o Glorioso).
 
Os anos oitenta passaram, Bez também, mas o Bordéus de vez em quando lá ganha um campeonato francês. Desta vez perdeu com o Benfica, e se tudo correr bem ficará pelo caminho. Agora tem um presidente que, com a época a correr pior, chama aos jogadores "passarinhos e galinhas". Não sei se Bez lhes dizia tais coisas no seu tempo, mas como o clube estava na mó de cima, é difícil imaginar. Pena, pena, é que cada vez mais os clubes tenham à sua frente gestores cerebrais com boas referências das empresas financeiras por onde passaram - ou pior, sheiks árabes ou oligarcas russos - e não líderes de carisma e amor paternal ao clube, que com todas as suas excentricidades, erros e frases fortes, marcam as colectividades e o seu tempo.