segunda-feira, novembro 05, 2012

Uma mentira pouco notada


 
Uma das polémicas periféricas e condenada a ser esquecida numa questão de dias é a das declarações do Embaixador de Israel, Ehud Gol, na Gulbenkian, esta semana. O diplomata israelita disse que "Portugal tem uma nódoa que os judeus não esquecem", mesmo que "hoje não seja o mesmo do passado". E em que consiste principalmente essa nódoa? Na história de que " Portugal foi o único país que colocou a sua bandeira a meia haste durante três dias", quando soube da morte de Adolf Hitler". E sublinho "história" porque de facto não corresponde à verdade. Sim, é certo que o governo português ordenou que se pusesse a bandeira a meia-haste quando se soube do morte/suicídio do Fuhrer, como aliás manda o protocolo em relação a todos os países com quem se mantém relações diplomáticas. Mas esteve longe de ser o único. Recordando o sempre oportuno Herdeiro de Aécio (que está de parabéns, por chegar ao sétimo aniversário), constata-se que as bandeiras a meia-haste não foram içadas apenas em território português: também a Espanha (neutral mas pró-eixo), a Irlanda, a Suécia e a Suíça o fizeram, e Éamon De Valera, o chefe de governo irlandês (Taioseach) e um dos fundadores da República da Irlanda, visitou mesmo a legação alemã e assinou o livro de condolências.
 
Talvez fosse conveniente ao representante hebraico não enveredar por mitos históricos antes de fazer quaisquer críticas ao país onde apresentou credenciais. Além de deselegante e petulante, não lhe fica nada bem dizer mentiras em público, mesmo que poucos o soubessem. Até porque falando em nódoas, não há nação que não as tenha, e Israel não escapa à regra.

sexta-feira, novembro 02, 2012

Dedicado aos dias antes de Novembro


Lisboa antes do Terramoto de 1755



Ver também aqui o projecto em 3D que nos permite saber como era a zona ribeirinha de Lisboa antes do cataclismo de 1 de Novembro de 1755. Foca-se sobretudo na área do antigo Paço da Ribeira, com a Igreja Patriarcal e a Ópera do Tejo, inaugurada poucos meses antes, no Terreiro do Paço e na Ribeira das Naus. Um excelente trabalho de divulgação e tecnologia do Centro de História de Arte e Investigação Científica da Universidade de Évora.

quinta-feira, novembro 01, 2012

Fim de uma era?


 
Muito se tem falado na crise da imprensa, em Portugal e no mundo, e o caso não é para menos. As últimas semanas não têm poupado os jornais tais como os conhecemos. Em Portugal tivemos as greves na Agência Lusa e no Público, uma por causa dos cortes salariais, a outra devido aos despedimentos anunciados de dezenas de funcionários e jornalistas, cuja escolha dependerá, dizem as más línguas, das boas relações que mantêm com a direcção do jornal. Fala-se mesmo na sobrevivência a curto prazo do Público, que desde 1990 só apresentou resultados positivos num ano, e que só existe graças às contribuições do proprietário/mecenas Belmiro de Azevedo.
 
Entretanto, Joaquim Oliveira resolveu vender a sua Controlinveste a um grupo angolano, de que ninguém sabe sequer o nome, a não ser provavelmente o próprio Oliveira. Recorde-se que no grupo empresarial português estão o Diário de Notícias, Jornal de Notícias, Jogo, o Jornal do Fundão e o Açoriano Oriental, o mais antigo título de imprensa publicado em Portugal. tudo isto pode ir parar às mãos de um grupo angolano sem rosto. O negócio ainda não se concretizou porque as garantias financeiras ainda não foram enviadas ("Não há graveto, não há negócio", terá dito Oliveira), mas a confirmar-se, depois do Sol, é praticamente metade da imprensa portuguesa que passará a ser negociada em kwanzas. E com que objectivos?
 
A juntar a isto, a pior notícia nem vem de Portugal. A histórica revista Newsweek, que em tempos cheguei a assinar, um dos grandes nomes da imprensa norte-americana, a rival de sempre da Time, anunciou que a partir de 2013 só vai existir em formato digital. Acabou a Newsweek nas bancas, na caixa de correio, nas bibliotecas. Agora, só por computador e sobretudo, só por assinatura.
é todo um mundo que acaba? Esperava que a invenção de Gutenberg perdurasse, mas receio que outros imitem o gesto da revista norte-americana. O Guardian esteve quase a fazê-lo, mas recuou.
 
 
Mas para além da questão da radical mudança de hábitos, de razões ecológicas inerentes, dos custos das edições em papel e dos despedimentos que tudo isto acarretará, sobram ainda outras questões. Pensará tudo que o conhecimento vai ficar arquivado na net, passe a expressão? Acabaram-se as bibliotecas em detrimento de um kindle ou de um i-qualquer coisa? O conhecimento ficará sempre robotizado? E será isso um prenúncio do novo "homem biónico", como alguns já profetizaram?
Ainda que tais mudanças não sejam tão radicais, e possamos viver com os modelos em papel e digitais lado a lado, como seria um mundo em que os jornais só existissem em formato digital? Imagine-se que faríamos uma pesquisa a um número de há muitos anos, para um estudo científico, uma investigação jornalística, ou por simples amadorismo ou passatempo. Haverá a possibilidade de chegarmos a números antigos, ou o perigo de que qualquer artigo melindroso possa ser apagado é real? No formato em papel, podemos sempre guardar o que nos interessa, via recorte ou outro. E com o formato digital, guardamos numa pen? Os meus conhecimentos técnicos destas questões não me permitem respondê-las, mas não me sinto muito seguro num Mundo em que os jornais percam a sua base palpável e passem a meros sites de informação.
 

sexta-feira, outubro 26, 2012

Eleições no Benfica e traços da guerra das audiências



Finalmente Luís Filipe Vieira tem como adversário um candidato com alguma credibilidade. Infelizmente, Rui Rangel pareceu-me demasiado verde para a contenda. anunciou a candidatura já tarde, não reuniu tantos apoios como se esperava e cometeu inúmeras gaffes. Seria bom que Vieira apanhasse no mínimo um susto e parasse com declarações demagógicas. Sim, o Benfica está nitidamente melhor do que há nove anos, mas também podia ter arrumado melhor o passivo e os empréstimos bancários e ganho o campeonato do ano passado. E cesarismos nunca deram grande resultado no clube da Luz. Ar fresco precisa-se, mas não estou a ver grandes meios de ser Rui Rangel a abrir as janelas. Além disso, quem conta na sua lista com Eusébio, Rui Costa, Nuno Gomes, Fernando Martins, etc, é praticamente imbatível.
 
Mas há um pormenor irónico e que nos remete para as antigas batalhas de audiências entre os canais televisivos. José Eduardo Moniz é um fortíssimo trunfo de Vieira, e não há dúvida de que, se tiver poder para isso, poderá ser uma enorme mais valia no Benfica. Rui Rangel é irmão de Emídio Rangel, o antigo homem forte da SIC, que levou a estação de Carnaxide aos píncaros e que teve batalhas titânicas com Moniz, ultrapassando-o largamente quando este era director de programas da RTP, e deixando-se passar novamente quando o agora candidato do Benfica transitou para a TVI, graças ao infame Big Brother. Fosse outro Rangel o adversário de Vieira nestas eleições, e teríamos a reedição de uma grande rivalidade e de um combate longo, com pormenores de destruição maciça, qual Primeira Grande Guerra. Felizmente os tempos de Vale e Azevedo já lá vão. Mas avizinham.se novas guerras com a Olivedesportos e quem a possui.
 
 

A queda de um mito vivo



Causa-me enorme impressão o "banimento" de Lance Armstrong do ciclismo, o seu nome riscado, os títulos anulados de um ápice. Bem sei que o doping é a degenerescência do desporto, mas se passaram tantos anos até descobrirem que a equipa de Armstrong usava substâncias proibidas, não será possível que os seus adversários não tenham feito o mesmo? No fundo, acabaria por ser uma competição entre os melhores dos dopados, acarretando com uma certa justiça. Depois, o desporto precisa de heróis, de símbolos, de figuras. O americano era A figura do ciclismo, tendo ultrapassado os antigos ídolos franceses do Tour, o espanhol Indurain e o belga Eddy Merckx. A história da superação do cancro ajudava ainda mais à sua aura de herói que, "mais do que prometia a força humana", ultrapassou todos os obstáculos e pulverizou recordes. Com as decisões dos organismos internacionais que tutelam a modalidade de lhe retirar todos os títulos e bani-lo para sempre do selim, qual República de Veneza ao Doge Faliero, acabou-se com um mito e varreu-se a história recente do ciclismo. Pode muito bem ser o início de uma longa agonia. Irá a história reabilitar o texano, o seu mito e o próprio Tour, ou deixá-lo-à como exemplo dos que subiram demasiado alto e caíram em desgraça?
 
 

terça-feira, outubro 23, 2012

A emigração como uma novela tragiridícula



Já tinha decidido que não ia escrever nada sobre o assunto, mas ao ouvir hoje de manhã a Antena 1 colocar no seu "fórum do ouvinte" o assunto da "emigração dos jovens quadros" por causa da "carta de um jovem enfermeiro que emocionou o país", mudei furiosamente de ideias.
 
Não sei que país é esse que ficou emocionado, para além dos editores da rádio, mas eu não me conto nessa mirífica terra. A princípio, achei tudo isso um pouco cabotino. Mas ao encontrar mais e mais notícias sobre o assunto, comecei a fartar-me, e sobretudo encontrei dos aspectos detestáveis no Portugal dos estranhos dias de hoje.
 
Antes de mais, os factos: um jovem enfermeiro de 22 anos, não tendo encontrado colocação em Portugal, partiu para o Reino Unido, mais precisamente Northampton, com mais 24 portugueses, onde vai ganhar 2000 euros mensais, com condições de progressão na carreira. Antes da partida, largamente coberta pelas TVs (previamente avisadas, com certeza), enviou uma carta de despedida a Cavaco Silva, dizendo-se "expulso do seu próprio país", pedindo-lhe para "odiar este país" e "chorar, por não poder sentir o cheiro da comida (...)e dos campos da aldeia", e por fim suplicando " para que não crie um imposto sobre as lágrimas e a saudade".
 
Para além do estilo lamechas com laivos de provincianismo (é portuense e fala "da sua aldeia"?) e da inutilidade do pedido, como se o PR tivesse quaisquer competências em matéria fiscal, revolta-me a imensa acomodação de alguns pós-universitários, que acham que a profissão lhes deve cair aos pés mal transponham a soleira da faculdade. Sim, isso acontece nalguns casos, sobretudo com os melhores alunos dos respectivos cursos, mas é cada vez menos regra. O que se passa aqui é o costumeira ideia de que por se tirar um curso superior, surge por artes mágicas um direito a ganhar-se de imediato um emprego, de preferência dado pelo Estado, ainda que não seja necessário. Caso contrário, "estão a ser expulsos do país". Note-se que o autor da missiva tem 22 anos, não andou provavelmente meses ou anos à procura de emprego e a aturar ofícios precários. Com essa idade já tem contrato de trabalho e um ordenado que a esmagadora maioria das pessoas com a sua idade não tem (com o desconto de o custo de vida nas ilhas britânicas ser maior). Talvez preferisse permanecer em Portugal. É compreensível e está no seu absoluto direito,e partir muitas vezes é duro. Mas fazer um drama porque vai para o Reino Unido com contrato de trabalho, na era do skype, das redes sociais e das viagens low-cost, que levam um pessoa do Porto a Londres por poucos euros?
 
O outro aspecto absolutamente deplorável é a cobertura maciça da comunicação social a esta não notícia, sobre "a carta que emociona o país". Isto vindo de orgãos ligados ao estado e aos principais jornais, não aos Correios da Manhã desta vida. Não é jornalismo, é cronicazinha de costumes com pretensas historietas de faca e alguidar (que nem são). Nem emocionou "o país" nem espelha o menor drama,  talvez apenas o exemplo da actual emigração inter União Europeia. E só. Está ao nível das revistas de novelas que querem é criar a lagrimazinha fácil e vender o mais possível. Bem sei que a imprensa atravessa maus momentos, mas tudo tem critérios.
 
O caso e o seu acompanhamento ainda é mais revoltante num país que tanto viveu da emigração, que viu dezenas de milhares de portugueses partirem nos anos sessenta das suas aldeias para ir viver nos bidonvilles de Paris, em Genebra, em Estugarda, no Luxemburgo, sem saber o que os esperaria, que trabalharam nas obras e conseguiram subir na vida e dar aos filhos aquilo que nunca tinham recebido. Para não falar dos milhares e milhares que há cem anos cruzavam o Atlântico rumo a um desconhecido chamado Brasil ou América, de onde poucos voltaram, e dos quais quase nenhum reviu a família, não só de Portugal, mas de Espanha, de Itália, da Irlanda...Eu próprio tive um bisavô que partiu, e que teve a sorte de voltar. Tive em tempos a oportunidade de visitar o museu da emigração de Ellis Island, em Nova York, porta de entrada de milhões de emigrantes de todos os pontos do globo na América. No meio da vastidão de memórias e de objectos, encontrei também traços dos portugueses que ali chegaram. Pessoas do continente, da Madeira, e sobretudo dos Açores, a maioria com a roupa do corpo e uma pequena trouxa, e por vezes uma imagem religiosa da sua devoção, como o Senhor Santo Cristo, que lhes daria forças para enfrentar a nova terra e a vida futura. E emocionei-me com essas imagens de tantos anónimos lusos acabados de chegar ao Novo Mundo, vindos do mar, sem saber o que os esperaria.
 
Qualquer comparação destas pessoas, que nunca enviaram carta alguma ao soberano,  até porque nem deviam saber ler, e que partiram rumo ao desconhecido, e este enfermeiro que em duas horas chegou ao seu destino e que poderá comunicar todos os dias por telemóvel com ligeiro acréscimo no roaming, é pura imaginação de uma época em que a tecnologia superou tudo o se havia imaginado e em que se acha que "em pleno século XXI" a Humanidade caminharia para o pleno emprego, direitos satisfeitos ao minuto e em que as crises seriam uma recordação. Não são. Felizmente ainda há alternativas razoáveis, em países próximos e civilizados. Haver quem considere isso uma tragédia e chame a comunicação social para atirar a culpa para "os políticos" é um sinal de que parte deste país pensa que nada mudou ou que nasceu nos anos noventa e que continua a expor-se ao ridículo. Ainda bem que os portugueses que embarcavam nas naus da Índia em busca de um futuro melhor não se lembraram de carpir mágoas ao Rei pelos pregoeiros oficiais.
 
                                   
                                Ford Madox Brown, A última vista de Inglaterra
 
 
 

sábado, outubro 20, 2012

Manuel António Pina, 1943 - 2012



Manuel António Pina deixou-nos ontem. Os seus problemas de saúde eram conhecidos, mas estava longe de saber que eram tão graves. O poeta, escritor cronista, contador de histórias infantis que gostava de gatos e mantinha sempre a bonomia ganhou no ano passado o Prémio Camões, o mais importante galardão literário lusófono, com largo consenso. Ainda bem que não o adiaram, como acontece tantas vezes. Fizeram justiça a um homem talentoso e afável, beirão que há muitas décadas vivia no Porto, que vai fazer muita falta ao não só à cidade mas ao país, à cultura e à imprensa, que por estes dias tem andado tão por baixo. Assim fica imortalizado, e ao contrário do que profetizava, daqui a cem e mais anos continuará a ser lembrado. Esperemos.
 
 

Os Açores não são o melhor barómetro



Os resultados das eleições nos Açores fizeram-me crer que se deviam à conjuntura nacional e à impopularidade de que o governo goza. Dias depois, já não estou tão certo disso.
 
De facto, o PS venceu com nova maioria absoluta, ultrapassando o obstáculo da saída de Carlos César, substituindo-o com êxito por Vasco Cordeiro, o que significa que se manterá no poder regional por mais uns mandatos. Depois de uma semana desastrosa para os socialistas, que começou com as divergências entre Seguro e o grupo parlamentar sobre a diminuição de deputados, passou pela entrevista do inenarrável Paulo Campos e com a polémica da renovação da frota automóvel, o partido da rosa ganhou uma novo fôlego. Berta Cabral, a popular autarca de Ponta Delgada, há muito figura grada do PSD e grande esperança de reconquista dos Açores, não conseguiu mais do que elevar ligeiramente a percentagem de votos do seu partido. O CDS, que esperava tornar-se o fiel da balança, apanhou por tabela, perdendo dois mandatos. O PPM de Paulo Estêvão manteve o seu, graças aos votos corvinos. o BE perdeu um e a CDU manteve também o seu.
 
Na actual contestação ao governo de Passos Coelho, parece improvável que o PS, mesmo crescendo, pudesse ganhar uma enorme maioria. Afinal de contas, também é responsável, e de que maneira, pelo que estamos a passar, e Sócrates não está em Paris assim há tanto tempo. Outra improbabilidade seria a de o PSD se aguentar com idêntica votação. E se uma diminuição de votos no CDS parece plausível, já as magras percentagens obtidas pelos partidos mais à esquerda dão a ideia de que não estão a capitalizar o descontentamento e não traduzem o que as sondagens nacionais lhes dão.
Assim, parece-me que mesmo que possa haver algum descontentamento à mistura, as eleições são mais uma expressão da realidade regional, e de uma certa concordância com o governo de Carlos César e a inutilidade de mudar, mesmo com uma candidata credível, e não tanto de reprovação do actual governo. Que poderá talvez ser corporizada, assim como algum enfado com o sistema partidário, pela elevadíssima taxa de abstenção.
 
Mas se o PS conseguiu aqui um suplemento vitamínico de que tanto precisava, o mesmo não significa que nas autárquicas do próximo ano isso venha a suceder. Ninguém sabe qual será a situação, embora não haja razões para optimismos, e há variadíssimas causas localizadas para que as câmaras mudem ou não de mãos. Para além do "voto de protesto",  a limitação de mandatos que desalojará muitos dinossauros terá efeitos interessantes. a antecipar isso, Menezes, ávido de se sentar na Câmara do Porto, já pré-lançou a sua candidatura, provocando muitas divisões no PSD, e com tanta inabilidade política que convidou Miguel Relvas para a apadrinhar. com menos escaramuça. o PS lançou Manuel Pizarro como seu candidato. Resta ver o que faz o CDS, a esquerda mais radical (depois dos desaires sucessivos do BE e de Rui Sá, da CDU, se retirar da vereação) e os PSD anti-Menezes, naquela que promete ser uma das disputas eleitorais mais interessantes por que o Porto já passou.
 
Entretanto, o governo vai-se aguentando, depois do anúncio de aprovação do orçamento pelo CDS-PP, um "sim, apesar de tudo..." resignado. Vamos ver por quanto tempo mais. Porque depois da votação na generalidade, e da ameaça com chantagem à mistura de Passos Coelho e do desdém de Vítor Gaspar pelo trabalho de casa de corte na despesa dos restantes ministros, que provocou previsível tensão no executivo, Paulo Portas não se vai deixar ficar, apesar de todo o "sentido de estado".
 
 

quinta-feira, outubro 18, 2012

Sim, os blogues em Portugal já têm dez anos


No Complexidade e Contradição recorda-se outro aniversário (como remissão para este texto de Tiago Cavaco): o dos dez anos da Coluna Infame, o primeiro grande blogue português, o espaço virtual que deu o tiro de partida para a blogoesfera em Portugal. Confesso que não era leitor assíduo da Coluna, e só tive conhecimento precisamente quando acabou, numa implosão que deu brado. Mas depois disso li-o todo, de fio a pavio. O blogue de Pedro Mexia, João Pereira Coutinho e Pedro Lomba abalou o salão opinativo em Portugal, até aí confinado aos jornais e demais comunicação social, revelou que cada pessoa com internet à mão podia lançar o seu próprio diário, ou jornal, ou simples espaço de opinião, e pô-lo à vista de toda a gente. Inspirou rivais, como o Blog de Esquerda, e a partir daí os blogues surgiram como coelhos. É por isso que estas linhas que estão a ler só existem graças à Coluna Infame. Como devedor da sua própria existência, era imperioso que os dez anos do seu aparecimento fossem devidamente lembrados. A memória e a gratidão são valores que este espaço ainda não dispensa.

terça-feira, outubro 16, 2012

Os noventa anos de Agustina


Já estamos a 16. Mas associo-me a vários blogues que não deixaram passar em branco o 15 de Outubro, dia em que Agustina Bessa-Luís completou 90 anos. Mesmo com a saúde bastante debilitada, a senhora de Amarante (hoje talvez mais do Porto, ali tão perto dos Caminhos do Romântico) é um dos grandes vultos da nossa literatura que ainda nos restam. As homenagens foram discretas, mas dignas, e contaram com o lançamento de alguns textos inéditos e de um círculo literário debruçado na sua obra. Será que os "agentes culturais" que tanto se manifestaram no sábado contra a "morte da cultura" se lembraram da data?

segunda-feira, outubro 15, 2012

A esquizofrenia cultural


 
Os fins de semana foram transformados em jornadas contínuas de protestos contra a política de apertar o cinto do governo. Manifestações convocadas por vastos sectores da sociedade, como as de 15 de Setembro, pela CGTP e variados sindicatos, pela polícia, pelos enfermeiros, etc. Neste último  tivemos a manifestação de protesto dos "artistas" e da "gente da cultura", ou mais precisamente, pessoas ligadas ao teatro e à música, sob o lema, emprestado de outras caminhadas, "Que se lixe a Troika".
 
 
É natural que num período tão incerto e duro se queira proporcionar a quem passa, num Sábado solarengo, uma ampla oferta musical ao ar livre e de borla, ainda que a lisboeta Praça de Espanha se preste pouco a que se pare lá (a nossa D. João I sempre é mais aconchegada). Menos natural, ou mais disparatado, se quiserem, é virem os ditos "agentes culturais" querer que "a Troika se lixe". Ainda não percebi se estas pessoas organizaram aquilo por lirismo de classe ou se vivem no planeta Marte. Sim, mandam-se os componentes da "Troika" embora, dizendo-lhes que "queremos as nossas vidas". Resta saber como vivê-las quando o Estado se vir sem dinheiro para pagar seja a quem for passados poucos meses e com os bancos a fechar-lhe a porta na cara. Da música de intervenção? Da cantiga que "é uma arma"? Do ar ou do vento que passa?

O mais espantoso é que ao mesmo tempo que querem que a "Troika" se vá e que gritam "FMI fora daqui" (logo a instituição mais aberta a um alívio das condições dos acordos), como se isso não tivesse as nefastas consequências atrás resumidas, protestam acima de tudo contra os cortes do Estado na cultura. Se já há dificuldade em cumprir tudo o resto, em pagar a nossa imensa dívida, em honrar os compromissos, em continuar sequer obras paradas, como o túnel do Marão, e se para mais protestam contra a subida dos impostos, como querem que o Estado subsidie a cultura, ou não faça cortes? Que esquizofrenia é essa de quererem expulsar quem nos financia e ao mesmo tempo exigirem o retorno aos subsídios? Que alternativas propõem? A ideia que passam, com slogans mais ou menos pueris como "não nos deixam sonhar" ou "querem matar a cultura", é a de que sem subsídios, ou seja, sem lhes pagarem, não há "cultura". Será que os tais sonhos estão a ser esboroados ou é mais uma fonte de rendimentos que seca?

Não que o Estado não possa ou não deva subsidiar as várias expressões de Arte, como aliás aconteceu ao longo dos séculos. Os Estados Pontifícios foram dos maiores fomentadores das obras do Renascimento, e não podem ser acusados de ser propriamente "socialistas", como diriam os nossos liberais mais dogmáticos. Nem tampouco o nosso D. João V, Frederico II ou os Filipes, nas suas encomendas a Velasquez. O risco é de o Estado e demais poderes públicos se tornarem nas únicas ou maioritárias fontes de financiamento dos artistas, que se tornam assim agentes políticos, ao serviço de uma dada ideologia ou interesse estatal, cerceando a sua criatividade e independência. É isso que se passa nos estados totalitários e autoritários, onde grandes artistas se puseram ao serviço do respectivo poder, como Eisenstein, na URSS de Estaline, Leni Riefenstahl na Alemanha Nazi, Pirandello na Itália fascista, Dali na Espanha franquista, e o grande Almada Negreiros, que tantos trabalhos criou para o Estado Novo. A lista é infinda.
 
Aparentemente, a nossa "gente das artes" não se lembra disso. Ontem, ouvi Camané falar "no medo que havia há um ou dois anos", e que agora parece que está a ser posto de parte pelas pessoas em manifestações como aquela. A ideia, encapotada, de que vivemos num  sucedâneo do Estado Novo é tão ridícula que merecia uma imensa pateada ao fadista. E enquanto observava os conjuntos musicais, aliás talentosos, a sucederem-se no palco, com intervalos em que uma criatura grotesca aparecia a fazer momices (haveria subsídios estatais para isso?), pensava na estranha esquizofrenia daquela gente toda, que quer mais apoios do Estado e ao mesmo tempo quer mandar embora quem o subsidia. Sim, em tempos de vacas gordas até se justificam. Mas estamos numa época de vacas magrérrimas, em que outros sectores são prioritários. Os criadores culturais terão de viver dos seus Mecenas e do público, trabalhando com criatividade, talento paciência e suor. A crise quando chega é para todos, e não é por se empunhar uma guitarra ou se criarem umas abstracções elogiadas por críticos amigos que se ganha o direito a ficar imune.

terça-feira, outubro 09, 2012

Página necrológica


A última semana tem sido demasiado necrológica. Começou com a morte de Armando Marques Guedes, o primeiro presidente do Tribunal Constitucional, um Senhor que aos noventa anos ainda exercia o cargo de provedor dos CTT, que se destacou no Direito Internacional, Marítimo e da Guerra, e que tive o prazer de conhecer há anos, enquanto auditor de um curso de política externa, além de ser o Pai de uma pessoa de que me prezo de ser amigo. Acreditava que o futuro da Europa não estaria isento de secessões, e a escalada catalã pode vir a dar-lhe razão.

Depois Eric Hobsbawm, um dos mais conhecidos historiadores da actualidade, tão cosmopolita que que viveu em Alexandria, Viena, Berlim e Londres. Historiador rigoroso, a sua crença marxista não o impediu, ao contrário do que algumas críticas lhe apontam, de não ser  cego perante o "socialismo real". Destacou-se por inúmeras obras, a mais conhecida das quais é A Era dos Extremos, um livro que me deram nos meus dezoito anos e que conta a história do século XX. Uma curiosidade, capaz de pôr Manuel Loff aos saltos: Hobsbawm, apesar de marxista, não considerava que Salazar fosse fascista. E pelo seu obituário, soube igualmente da morte recente de outro importante historiador britânico: John Keegan.

Há dias desapareceu Margarida Marante, de ataque cardíaco. Habituou-nos ao seu estilo de entrevistadora impetuosa, agressiva mesmo, uma imagem de marca que mais ninguém conseguiu alcançar (Moura Guedes tentou-o, mas de uma forma mais teatral e desinformada). Era uma das estrelas da televisão de qualidade e das grandes entrevistas de uma certa época, em tempos de maioria cavaquista, e que bem falta nos faria hoje. Nos últimos anos deixou a comunicação social, era sobretudo notícia por más razões, e entrou num declínio irreversível. Nas mais recentes imagens aparecia gordíssima, quase disforme. E tinha apenas 53 anos...

Ontem, finalmente, o Professor Nuno Grande. A notícia não espantou, dado o seu muito debilitado estado de saúde. Teve alguma participação política supra-partidária (soube apenas agora quer tinha sido mandatário da candidatura presidencial de Maria de Lurdes Pintassilgo), mas ficou mais conhecido por ser o fundador do Instituto Abel Salazar (ICBAS) do Porto e pela sua carreira académica e intervenção cívica. Gozava de um enorme respeito de todos. Pela minha parte, chegou a ser meu médico e ouviu-me em várias ocasiões. Era afável, tinha sentido de humor e arranjava sempre tempo para ouvir os outros. Vivíamos também na mesma rua. Infelizmente já não terei oportunidade de o ver passear na companhia da sua mulher, a Dr Ana Maria. Numa altura em que necessitamos mais do que nunca de uma intervenção cívica mais lúcida e pensada, é uma perda inestimável.
 
 

domingo, outubro 07, 2012

Grosseira falta de memória



Desastradas, as comemorações do 5 de Outubro de 1910. Além do patético (mas simbólico) hastear da bandeira ao contrário, tivemos discursos oficiais em salas reservadas à classe política - nunca o divórcio entre a dita classe e o povo esteve tão escarrapachada - críticas ideológicas a esses mesmo discursos, protestos aos berro ou em forma de canto lírico, manifestações de sindicalistas, etc
 
Entretanto, muita gente se escandalizou porque Pedro Passos Coelho não este presente, trocando as "comemorações" por uma cimeira em Bratislava. Ou sofrem de amnésia, ou são ignorantes ou então são total e vergonhosamente subservientes ao regime imposto em 1910, colocando-o acima de tudo o resto. Afinal de contas há quantos anos é que o chefe de estado e de governo não comemoram oficialmente o 1º de Dezembro, Dia da Independência?
 
 

terça-feira, outubro 02, 2012

Contra o Barcelona, sem meio-campo

 
Até aos últimos dias de Agosto estava confiante no Benfica, apesar do empate com o Braga. Achava que ainda íamos vender Gaitan e preservar Witsel. Faltava um defesa esquerdo, é certo, estava-se q queimar Melgarejo numa posição que não é a dele, e faltava um substituto para Maxi, até porque ainda falta traquejo ao miúdo Cencelo. Depois veio a venda de Javi Garcia. O espanhol é um dos esteios do Benfica e tem raça, mas por vinte milhões dava perfeitamente, e ainda temos Matic. O problema é que o raide de S Petersburgo patrocinado pela Gazprom levou-nos o belga (também levou Hulk a preço abaixo do anunciado, valha-nos isso), um jogador de uma qualidade rara, indispensável na equipa e que esperava manter por mais um ano. Como resultado, o meio campo ficou uma passador, uma manta de retalhos sem a necessária filtragem, e o resultado está à vista. No jogo de Coimbra, pese a habitual Xistrada e os seus penaltys forçados, viu-se bem o quão macio está o meio campo. Enzo Perez está a mostrar que tem qualidade técnica mesmo fora do seu lugar, mas não se lhe podem pedir funções muito defensivas, e Matic não chega para as encomendas. Para mais, Luisão está fora por castigo. Tínhamos uma boa solução para tapar o buraco, chamada Airton. Infelizmente, está emprestado ao Flamengo até Junho...
 

Se o Benfica conseguir aguentar-se até Janeiro sem perder muitos pontos, há esperança no campeonato. Aí, poderá reforçar-se (fala-se no regresso de Manuel Fernandes), vender finalmente Gaitán, que é muito bom, mas por alguma razão se comprou Ola John, e equilibrar o plantel. o problema são as competições europeias, os três próximos jogos, e sobretudo o de hoje à noite. Apesar de alguma pressão afastada pela última jornada, o Benfica recebe hoje o Barcelona na Luz, que está um pouco remendado, mas apenas lá atrás. Não fossem as baixas do defeso e haveria algum equilíbrio e a perspectiva de um jogo renhido. Assim, com um meio-campo provisório, resta-nos esperar por uma noite desinspirada dos culés e alguma sorte. Talvez dessa forma consigamos um ponto, o que ajudava muito. De outras vezes, o Barça empatou na Luz e mais tarde sagrou-se campeão europeu (o primeiro confronto aconteceu na final de 1961 e deu o primeiro título ao Benfica). Não sou grande fã da equipa blaugraná, que deve as suas cores ao Basileia, mas se ganharem nova competição e isso significar que o Benfica passa a fase de grupos, tanto melhor. Espero que a tradição se mantenha. Não que tenha grande esperança em não ver Artur ir buscar a bola várias vezes ao fundo da baliza, mas deixem-nos sonhar, nem que seja baixo.
 
 

segunda-feira, outubro 01, 2012

O perigo da agitação espanhola



Muito boas almas, a começar pelas das televisões, ficaram entusiasmadas com as manifestações que se verificaram em Espanha na última semana. Ao que parece, o "povo" saiu à rua e cercou o parlamento porque os políticos "não os representam" e para exigir "verdadeira democracia", perante a "brutalidade policial". Desconheço em que mundo vivem  os que assim pensaram. No caso da comunicação social, vejo apenas o desejo que lançar a manchete e de conseguir aumentar as audiências a todo o preço. Se as revistas usam as vidas dos desgraçados da "casa dos Segredos, os outros recorrem às armas disponíveis.

O que se viu foram seis mil pessoas (num universo de milhões) numa manifestação ilegal, tentando invadir as Cortes, que se encontravam reunidas. Não estamos a falar de largas camadas representativas da população, e sim de franjas mais radicais, como se entendia pelas indumentárias e pelos símbolos (bandeiras republicanas, por exemplo), tentando fazer um descarado aproveitamento político da situação. Isso mesmo registou a mais conceituada imprensa espanhola, ao que parece mais sensata do que as nossas TVs, lembrando que o ataque ao parlamento nacional por uma minoria era um completo desrespeito pela vontade da maioria. Quanto à brutalidade policial, parece realmente ter havido alguns excessos da polícia, mas quando uma chusma de gente tenta à força entrar na sede do poder legislativo, quebrando todas as barreiras, o que se poderia esperar?

A insanidade dos manifestantes é mais um dado inquietante num país onde inquietações não faltam. A cada semana uma nova região administrativa pede auxílio ao governo central, revelando a enorme estupidez da existência de tantas divisões autonómicas para além das mais óbvias - pelas suas características culturais e linguísticas - e das províncias. Os bancos estão descapitalizados depois dos investimentos insensatos na bolha da construção civil, que após anos e anos de ilusões, estourou  deixando à vista condomínios e blocos habitacionais às moscas, sem ninguém que os compre, levando à falência as construtoras civis e as imobiliárias e aumentando ainda mais o assustador número do desemprego. A economia não cresce, os juros estão próximos do vermelho, o resgate das instituições europeias e financeiras está iminente. Rajoy parece que afinal não enganou quanto à sua falta de carisma e tacto, tomando medidas à bruta sem consultar ninguém, permitindo que as tensões sociais se avolumem, e nem ao menos conseguindo ser minimamente eficaz nas tentativas de negociação do mais que provável resgate. E depois, os problemas máximos, postos a nu por toda esta situação: a fractura ideológica da sociedade espanhola, esse monte de  ressentimentos que a Transição não conseguiu liquidar definitivamente; e a ameaça de secessão da Catalunha. Imaginam os catalães que vão conseguir separar-se do resto de Espanha rompendo com a Constituição de 1977, mantendo-se tranquilamente no Euro, gozando da sua (pretensa) exclusiva capacidade económica e até com os seus clubes a continuar a jogar na Liga espanhola de futebol como se nada se tivesse passado e não tivesse de sofrer quaisquer consequências pelo seu acto pouco reflectido. Ou seja, querem todas as vantagens e nenhuma das responsabilidades. Se levarem em frente a sua loucura revivalista de um obscuro condado medieval, talvez não demore muito tempo a arrependerem-se.
 
 
É este o perigo que ameaça a Europa, e muito particularmente Portugal. O de convulsões num país a braços com pré-avisos de separatismo, bancarrota financeira, velhos ódios de regresso à superfície, tudo isto sob a tutela de um governo inepto que age como um elefante na fábrica da Vista Alegre. Será bom recordar aos entusiastas das manifs das metástases dos "Indignados" que a Segunda Guerra teve o seu grande ensaio em Espanha, precisamente pelos ódios, violência e separatismos que varriam o país. Não os queiram repetir.

domingo, setembro 30, 2012

Notas sobre a Bulgária - das montanhas de Rila ao Mar Negro


Aqueles a quem modernamente chamamos "búlgaros" são no fundo um conjunto de etnias amalgamadas ao longo dos tempos. Aos trácios, o povo original da região (dos quais os mais famosos terão sido Spartacus e o mitológico Orfeu), juntaram-se mais tarde tribos eslavas, seguidos dos búlgaros originais, da região do Volga e de origem túrquica. Pelo meio receberam a "visita" de macedónios, gauleses e romanos. Esse cocktail étnico deu origem ao primeiro e segundo império búlgaro, que se formaram após a conversão ao cristianismo, e que duraram toda a Idade Média, até à anexação otomana, que abriu caminho à queda de Constantinopla. O jugo dos turcos manteve-se por mais de quatrocentos anos, até que em 1878 os búlgaros obtiveram definitivamente a sua independência.

Não admira que o país sofresse tantas marchas de tantos invasores. A Norte fica o vale do Danúbio, dividido do resto do país pelos montes Balcãs, que se prolongam também para a Sérvia; a Sul são os Ródopes que o dividem da Grécia; e no miolo destes sistemas montanhosos situa-se a extensa planície trácia, algo semelhante ao Alentejo, com intermináveis campos de girassóis e matagais, vendo-se aqui e além algumas cidades. Se as montanhas exigem algumas dificuldades em transpô-las, a planície, que se estende até ao Mar Negro, facilitava qualquer invasão.

A Bulgária é um país desprovido de grandes palácios ou castelos, talvez devido ao longo domínio turco. A sua grande riqueza patrimonial são as igrejas e sobretudo os mosteiros. O mais conhecido (e visitado) é o de Rila, incrustado num apertado vale entre montanhas imponentes. Fundado pelo eremita São Ivan Rilsky, que se refugiou naquelas inóspitas serranias em oração e por muito austero espírito monástico, é um vasto conjunto, formado pelo mosteiro propriamente dito, com vários pisos, onde continuam a viver monges, pela torre central, e pela igreja, a meio do complexo de edifícios. Boa parte do mosteiro foi reconstruído nos séculos XVI e XIX. A igreja é, à boa maneira ortodoxa, uma explosão de frescos, ícones e talha dourada, uma combinação admirável, com as enormes montanhas cobertas de floresta como fundo.

Há ainda outros mosteiros, como o de Bachkovo, e uma profusão notável de túmulos trácios por toda a parte. Mas há ainda outros vestígios. Plovdiv é a segunda cidade búlgara, e situa-se na planura trácia, junto ao rio Miritsa. Distingue-se da paisagem envolvente pelas suas estranhas colinas, e tem marcas visíveis dos povos que por lá passaram ao longo dos milénios. Chamou-se Filipópolis quando Filipe II da Macedónia a tomou, mudando o nome para Trimontium no tempo dos romanos. Os eslavos chamaram-lhe Paldin, os turcos Filibe, em latim continuou a ser Philippopolis, até que a língua búlgara a transformou em Plovdiv, que manteve até hoje. Dos romanos sobejam vestígios, como o antigo estádio, de que só uma parte das bancadas é visível à superfície, já que o resto se estende por baixo das ruas centrais da cidade, e sobretudo o teatro, bem conservado, provavelmente o ex-líbris da cidade, semelhante ao que existe em Mérida. Entre os dois vestígios romanos, também no centro, situa-se o maior legado dos turcos, uma enorme mesquita.


O teatro romano, virado para a zona plana, está encostado numa colina, para onde partem ruelas empedradas, algumas delas medievais, com casas de estilo revivalista búlgaro (mais do século XIX, como aquela em que ficou hospedado o poeta francês Lamartine), igrejas, torres, até à "fortaleza trácia", de onde se colhe estranha antena de televisão e outra um memorial ao exército soviético. Talvez devido ainda ao seu passado multicultural e à sua localização no cruzamento de diversas vias, são visíveis pela cidade as minorias turcas (forçadas pelo regime comunista a mudar os seus apelidos) e ciganas. Nota-se a dada altura um certo ambiente mais asiático do que balcânico. Existe também uma sinagoga, mas é pouco crível que haja muitos judeus, apesar do auxílio prestado pelos búlgaros durante a Segunda Guerra. De gregos e arménios que lá viveram tampouco há sinais.



De Plovdiv segue-se pela interminável planície que só acaba no Mar Negro, que surge quase sem se anunciar. Entre as principais cidades costeiras, Burgas e Varna, situam-se as grandes estâncias balneares, como as tradicionais Nessebar e Pomorie, a pitoresca Sozopol, uma estreita península com inúmeras casas de madeira, e a movimentada Sunny Beach. Esta espécie de cruzamento entre uma Ibiza de Leste e Lloret del Mar, em que até o nome é anglicizado, é destino de famílias inteiras e adolescentes desenfreados, contando-se ingleses, alemães, russos, turcos, e outras nacionalidades bizarras, como bielorrussos. Há também bastantes israelitas, atraídos pela relativa proximidade do Mar Negro e pelos casinos. De tal forma que há pouco tempo houve mesmo um atentado ali ao lado, em Burgas, contra um autocarro israelita que provocou vários mortos e feridos. Em Sunny Beach, entre filas de hotéis majestático-pirosos, bares, restaurantes, discotecas, interminável comércio de produtos de marca falsificada, e a comprida praia que se estende até ao promontório mais próximo, quase não se vê uma tabuleta em cirílico. Há também consumidores búlgaros, mas a maior parte está lá para trabalhar para as hordas que os visitam, que entram e saem dos restaurantes da comida rápida, assistem aos jogos de futebol da Premier League a da Bundesliga, e invadem os discos onde ecoa desde o house mais rasca até aos grandes hits da actualidade, incluindo o omnipresente Ai se eu te Pego e Dança Kuduro. A globalização do turismo faz que dentro dos resorts não se veja nada de absolutamente inesperado. a não ser, talvez, pequenas provas de como a religiosidade dos búlgaros tem marcas em toda a parte: mesmo nos bares mais barulhentos e com ambiente mais hedonista, não falta, junto às garrafas de vodka ou à caixa registadora, um ícone de um Cristo Pantocrator ou de um santo, em especial o padroeiro S. Jorge ou os venerados S. Cirilo e S. Metódio.

sexta-feira, setembro 21, 2012

Notas sobre a Bulgária - Sófia



A Bulgária não é exactamente um dos destinos mais comuns para os europeus do sul, e como tal, os guias não abundam. Para conhecer melhor o país, fiz uma data de leituras, que foram de Gonçalo Cadilhe a Claudio Magris, passando por Michael Palin. E quase todos eram unânimes: aquele território no extremo sudeste da Europa é um dos menos conhecidos do continente, uma terra incógnita até há não muito tempo, mais usada como passagem do que como destino, conhecida sobretudo  pelos produtos à base de rosas, pela sua talentosa equipa de futebol dos anos noventa (da qual muitos jogadores passaram por Portugal) e pelos caracteres em cirílico, que nasceram precisamente aí. E pouco mais.
 
Mas vale a pena conhecer mais. A Bulgária, nação balcânica muito tardiamente independente dos turcos, em 1878, após mais de quatrocentos anos de domínio otomano, com um povo meio eslavo meio trácio, com turcos e ciganos pelo meio, sofreu duas derrotas nas Guerras Mundiais, e tornou-se um valete previlegiado da URSS, antes da queda do comunismo e da entrada na UE, em 2007. Nos últimos cem anos, como se vê, teve uma história muito atribulada e uma herança confusa, com a qual os búlgaros ainda não sabem bem lidar.
 
Vejamos a capital, Sófia. Uma cidade de perto de um milhão de habitantes, quase sem subúrbios, dominada pelo maciço de Vitosha, é bastante mais pequena do que algumas cidades de países vizinhos, como Bucareste, Atenas ou Istambul. Testemunhou a passagem de vários povos, mas as severas destruições no século XX não lhe deixaram um grande legado histórico. Ainda assim, tem inúmeros motivos de interesse.

O monumento mais conhecido é provavelmente a Catedral de Alexandre Nevsky, uma das maiores igrejas ortodoxas do Mundo, que tem o nome do príncipe russo imortalizado por Eisenstein em homenagem aos soldados russos mortos na guerra da independência da Bulgária, O sentimento de irmandade (ou de paternidade) entre russos e búlgaros tornou-se evidente a partir dessa altura, para além de um grande afinidade cultural e religiosa (o alfabeto cirílico, usado pelos russos, teve origem na Bulgária), danificada quando ficaram em lados opostos nas guerras mundiais, e sobretudo com o advento do regime comunista, visto como uma quase anexação por parte de Moscovo. O sentimento dentro do templo é de mais fervor do que curiosidade turística. Ao lado, uma conhecida feira de antiguidades, onde se podem comprar ícones e  memorabilia com símbolos comunistas e nazis (entre os mais interessantes contavam-se uma charuteira e um copo misturador de coktails com as insígnias das SS), além de produtos à base de rosas, condecorações, matrioskas, armas cortantes, t-shirts, etc.


A capital tem aquele skyline que esperamos encontrar numa cidade balcânica, com igrejas ordtodoxas e mesquitas, e alguns arranha-céus, além da herança comunista. Mas nem toda resistiu ao tempo.
Depois da queda do Pacto de Varsóvia e da confusão subsequente, os governos esforçaram-se por apagar os vestígios do comunismo da face do país. Um dos maiores era o mausoléu de Georgi Dimitrov, o Estaline búlgaro, que fielmente copiou o "mestre" até nas homenagens póstumas. O enorme mausoléu, todo em pedra e mármore, fronteiro ao antigo palácio real, demorou apenas seis dias a ser construído, e o mesmo tempo a ser demolido, à força de explosivos. Hoje resta apenas um ligeiro vestígio de terraplanagem, junto a um jardim (há-os em grande quantidade, em Sófia).



Mas os vestígios comunistas de maior dimensão permaneceram e foram reaproveitados. Depois dos bombardeamentos dos Aliados na II Guerra, o centro da cidade estava em escombros. Os novos senhores do país aproveitaram para erguer um conjunto de estruturas de poder com a emblemática e esmagadora arquitectura estalinista. Ao lado da mesquita de Banya Bashi e do edifício termal, abriu-se o Largo, um espaço onde se concentravam alguns edifícios gêmeos, sendo um deles uma enorme "loja do povo", hoje um centro comercial em parte albergando ministérios, e outro, fronteiro, era e é composto pela presidência da república, na parte traseira, e por mais ministérios (hoje em dia é também parcialmente ocupado pelo hotel Sheraton, à frente). No espaço central conservou-se a antiquíssima igreja de S. Jorge, um templo redondo do século IV tido como a estrutura mais antiga de Sófia. Entre esses dois enormes edifícios, e um pouco atrás, está um terceiro, que porventura era o mais importante desse trio e de onde emanava o poder: a antiga sede do Partido, outrora encimada por uma estrela, arrancada durante a revolução e substituida pela bandeira nacional. Serve hoje em dia de apoio ao parlamento, que se situa num palacete menos megalómano.

 
 O comunismo teve poucas contemplações com a prática religiosa. Inúmeras mesquitas, por exemplo, foram derrubadas, começando pelos seus minaretes, para lhes retirar o simbolismo e préstimo. Ainda assim, conservam-se inúmeros templos na cidade. Em frente à mesquita de Banya Bashi, uma sinagoga. Mais adiante uma igreja católica fronteira a uma antiga igreja ortodoxa, que aliás não faltam, ou não fosse a Bulgária uma velha nação ortodoxa, onde a religiosidade irrompeu de novo com a queda do regime comunista. Ali ao lado, na catedral de Sveta Nedelya, em 1925, durante a cerimónia fúnebre de um general, um enorme atentado, provocado por explosivos colocados por militantes do partido comunista, vitimou 150 pessoas e feriu centenas, entre os quais numerosos representantes da leite militar e política búlgara. O rei Boris III não se encontrava presente, já que tinha ido a outro funeral. Os desmandos comunistas no país começaram verdadeiramente aí...

 
 Os dois edifícios gêmeos, os vestígios romanos nas obras do metro, a igreja de Sveta Sofia e o monte Vitosha, lá atrás
 
No centro encontram-se ainda outras antigas igrejas, teatros, edifícios universitários, as antigas instalações termais (é possível beber-se água termal em fontes na própria rua) , e, desenterradas pelas obras do metro, as ruínas da antiga cidade trácia e romana de Serdica. A meio da avenida principal, em frente, directamente virada para o Largo, uma estátua à alegórica Santa Sofia, com uma coruja no braço - provavelmente o legado cristão da deusa Atena, da Sabedoria - substituiu nos anos noventa outra estátua, de um russo chamado Lenine.
 

Esta cidade balcânica, com herança estalinista (que limparam o mais que puderam) que pretende a todo o custo seguir as modas do ocidente, situa-se num largo planalto, cercado pelos montes Balcãs a Norte, pelos de Rila a Sul, e pelo impressionante maciço Vitosha a Oeste, dominando toda a cidade. É para este que os habitantes da capital se dirigem, no Inverno, para fazerem uma pausa ao fim do dia ou da semana, nas suas estâncias de desportos de neve.
 

quinta-feira, setembro 20, 2012

Santiago Carrillo 1915-2012


Morreu Santiago Carrillo, o histórico ex-líder do PCE, aos 97 anos. Com ele, desaparece quase toda uma geração que ainda viveu a Guerra Civil, atravessou o regime franquista e participou na Transição para a democracia e para a monarquia constitucional.
Na Guerra Civil, já militante do PCE, ainda muito novo, rezam as crónicas e algumas memórias que teve uma participação activa e não muito feliz - terá feito parte dos esquadrões responsáveis pelas purgas em Paracuellos de Jarama, nesse conflito fratricida em que não havia prisioneiros e ninguém era inocente. Exilou-se entretanto em Paris, e durante anos continuou a seguir o estalinismo oficial, até que a invasão da Hungria em 1956 e a da Checoslováquia em 1968 o fizeram romper com a URSS. Já na altura era o secretário-geral do PCE, substituindo a Passionaria Iabarruri, e derivou então, com Berlinguer do PC italiano, e Marchais, do PC francês, os dois maiores partidos comunistas da Europa ocidental de então, para o Eurocomunismo, aceitando as regras das democracias liberais. Teve oportunidade de demonstrar essas novas convicções, quando na Transicion espanhola, o Rei Juan Carlos e Adolfo Suarez impuseram aos mais cépticos a legalização do PCE, como prova de uma autêntica democracia. Carrillo não desperdiçou a oportunidade e aceitou o novo regime parlamentar e a Monarquia, voltando definitivamente ao seu país. Acabaria por se tornar numa das figuras-chave desse processos, ao fazer com que a esquerda mais radical, a que combatia ferozmente contra os conservadores quarenta anos antes, a aceitar igualmente o novo estado de coisas. Enfrentou o pronunciamento trágico-ridículo de Tejero Molina em 1981, com grande coragem, e haveria pouco depois de deixar o próprio PCE, criando uma nova formação de esquerda. Acabaria por ficar à margem partidária, mas nunca deixando de exprimir as suas opiniões, até ao fim conservando a lucidez (e fumando sempre imenso, o que não o impediu de chegar quase aos cem).
Curiosamente, desaparece no mesmo ano que Manuel Fraga Iribarne, antigo ministro de Franco  e seu adversário político da outro lado da barricada, com quem mantinha relações cordiais. 2012 é assim o ano em que as últimas grandes figuras que atravessaram o franquismo e protagonizaram a  Transición espanhola desapareceram. Restam o Rei e Felipe González, que já são da geração posterior, e Adolfo Suarez, reduzido ao silêncio por uma doença degenerativa. Fechou-se definitivamente um livro da política espanhola.

terça-feira, setembro 18, 2012

Lições a reter das manifs


 
Mandar a Troika lixar-se não será a opção mais sensata e mais aconselhável nos próximos anos. O mote das manifestações que sacudiram o país no último Sábado pareceu-me infeliz, mas havia mais do que razões para as pessoas o fazerem. A magnitude destes movimentos reuniu pessoas de esquerda e de direita, sindicalistas, comunistas, fascistas, anarquistas (esses mais em frente à AR), liberais, monárquicos, todas as camadas da sociedade portuguesa. Tinham razões diferentes, mas partilhavam de igual indignação de ver um governo fugir de novo às suas promessas (como era aquela história das gorduras do estado?), a sobrecarregar os contribuintes de impostos, a fazer os trabalhadores pagarem mais pela segurança social, em detrimento das empresas, com resultados mais que duvidosos, numa operação que Vítor Gaspar dissera em tempos ser uma experiência nunca testada.
 
O povo português, o que estava na rua e o que não esteve presente, apoiou na sua grande maioria esta enorme expressão de mal-estar. Isso mesmo se viu na blogoesfera, excepto nalguns blogues totalmente equivocados, completamente fora da realidade ou que resolveram muito simplesmente fazer-se (nos)de parvos (ou então trata-se de pura subserviência). Se o executivo se mantém nos seus gabinetes julgando tratar-se de um movimento passageiro, corre um seriíssimo risco de cair dentro de pouco tempo. não por culpa de uma revolução nas ruas, ou de uma intentona das forças armadas, que de resto preferem estar nos quartéis ou passear em protesto. Mas a pressão da sociedade, cujas manifestações são cada vez mais numerosas, pode provocar a exoneração do Governo por outros meios constitucionais, incluindo os que tenham fonte em Belém. E talvez aí apareça uma Mario Monti, se o houver, para tomar as medidas necessárias mas lembrando-se que sem equidade não há o mínimo suporte popular possível. Governar sem ser para as eleições é muito louvável, mas abstrair-se por completo da opinião pública, exasperando-a continuamente sem a ouvir, é em democracia pura loucura. As manifestações são um barómetro de importância crescente. Ignorá-las será sempre uma opção desastrosa.
 
 

domingo, setembro 09, 2012

Concurso desfalcado


Estava ali a dar na TV a cerimónia de "escolha" das sete praias mais maravilhosas de Portugal, ou como se chama o concurso. Não lhe dei grande importância, embora a parte que tenha ouvido, felizmente, tenha sido a vitória da praia da albufeira do Azibo, em Trás-os-Montes (antes assim), e recusei-me absolutamente a votar nisso. É que um programa que quer eleger as melhor praias de Portugal e não apresenta como concorrente a praia de Moledo, que seria uma maravilha nacional até num concurso que não fosse exclusivamente de praias, não vale a ponta de um chavo.
 
 

sábado, setembro 08, 2012

Adriano, aos noventa


 
Os noventa anos de Adriano Moreira foram amplamente celebrados, com várias entrevistas, reportagens e homenagens. É mais que justo. Adriano é não apenas um digno Senador ou ancião, no melhor sentido da palavra, quando o havia, mas um dos políticos mais lúcidos e dignos que Portugal teve no último meio século. Transmontano de raiz, habituado a lutar com pouco, tem uma distintíssima carreira académica, com a criação de cursos em Angola e Moçambique, a direcção do ISCSP e a presidência actual da Academia de Ciências de Lisboa. Ocupou lugares governamentais de destaque no anterior regime, onde percebeu bem a questão colonial, e em que tomou medidas de justiça ímpar, como a extinção do Estatuto do Indigenato, passando assim todos os habitantes dos territórios ultramarinos a ser reconhecidos como cidadãos portugueses. Depois de um breve tempo no Brasil, dada a situação do PREC, voltou a Portugal, foi eleito deputado por Bragança pelo CDS, e mais tarde liderou este partido. Mas eleições de 1987, com a onda laranja, os eleitores prefeririam o "Portugal de sucesso" de Cavaco e deram ao CDS o seu pior resultado, reduzindo-o ao célebre "partido do táxi". Adriano deixou assim a liderança do partido e a política activa, dedicando-se à carreira académica.
 
Ao ouvi-lo numa entrevista televisiva, vi-o demonstrar de novo a sua sabedoria tranquila e as suas preocupações. Que diferença para com os governantes dos últimos anos, falhos de cultura, carreira académica, idoneidade moral e sentido de serviço público! É sintomático que da única vez que se apresentou a eleições lhe tenham dado tão poucos votos: afinal, a classe política é o espelho do povo que neles vota. Felizmente, Adriano Moreira continua aí, como referência moral política indispensável, respeitado à esquerda e à direita. Parece estar em melhor forma que Mário Soares, por exemplo. É curioso que o outro vulto que melhor aconselha à boa governação do país, com ideias que tardam em ser adoptadas, Gonçalo Ribeiro Telles, também tenha este ano chegado aos noventa. Ao que parece, a sabedoria  e a dignidade política são hoje quase exclusivas de nonagenários. Ouçamo-los e sigamo-los enquanto é tempo.
 

terça-feira, setembro 04, 2012

Pela Bulgária

A região balcânica é tão visitável no Verão como outro local qualquer. A meio, a Bulgária, rodeada de vizinhos instáveis, pode ser um excelente percurso para quem quiser conhecer a história da zona e a evolução de um dos últimos estados eslavos a obter a independência do Império Otomano. É por me encontrar precisamente lá que este blogue tem andado mais parado, mas voltará muito em breve à sua actividade normal. Entretanto, fique-se a saber que Sófia, a capital nacional, tem quase tantos McDonalds como templos das várias religiões todas juntas. Um misto de culto misturado com a entrada em força do consumismo depois da queda do comunismo, aque aqui foi particularmente virulento.

segunda-feira, agosto 27, 2012

Pussy Riot contra a laicidade


Estive atento a uma das grandes polémicas da época, a do processo contra as Pussy Riot. Todo o procedimento contra a banda punk que desatou a entoar cânticos anti-Putin desencadeou vivos protestos da "comunidade internacional", dos governos ocidentais aos artistas, sobretudo músicos, e "activistas" de todo o tipo, com especial ênfase para Madonna.
 
Ora é sabido que o regime russo só no papel é que é democrático, com fraudes sucessivas nas eleições, trocas descaradas nos cargos de presidente e primeiro-ministro, repressão policial, tudo condensado num sistema autoritário que herdou métodos do tempo do comunismo, recuperou bandeiras do czarismo e aposta num nacionalismo soft e no regresso da Rússia ao papel de super-potência, sem intervenção directa nas áreas que não são da sua "influência". Em parte será inevitável, porque um país com a dimensão, a instabilidade e as condicionantes culturais da Rússia dificilmente se transformará num estado democrático como a restante Europa.
 
Dessa forma, é por demais evidente que o processo contra as Pussy Riot tem uma enorme componente política, até porque a Igreja Ortodoxa Russa é hoje um dos sustentáculos do "putinismo". Um protesto com tal brado, directamente contra o presidente, em plena Catedral do Cristo Salvador (destruída sob o estalinismo, reconstruída nos anos noventa), cujo simbolismo é grande, seria sempre objecto de repressão. Num estado de direito, levariam uma multa e uma repreensão. Não na Rússia. E isso as raparigas da banda sabiam-no com certeza. Teriam consciência do que se seguiria?
 
Em todo o caso, chamar a isto um "processo estalinista" é entrar no disparate desbragado. Não as espera o Gulag nem nenhum "campo de educação na Sibéria". Mas é curioso ver tantos defensores das acções da banda quando se está sempre a apelar ao "estado laico" para tudo e mais alguma coisa, até (ou sobretudo) para tentar calar a igreja. Laicidade significa separação entre dois tipos de instituições, as confissões religiosas e o Estado, e entre outras coisas, a não utilização dos púlpitos para mensagens estritamente políticas ou partidárias. Que era exactamente o que a banda punk estava a fazer. a regra aplica-se todos ou só atinge os sacerdotes, permitindo que qualquer pândego o faça? O processo contra as Riot pode ser excessivo, mas o que fizeram tratou-se não apenas de vandalismo e de total desrespeito para com um espaço religioso e quem orava (imaginem sacerdotes a invadirem a festa do Avante para fazer propaganda religiosa), mas também de uma quebra das regras da laicidade por parte de um bando de miúdas de sangue na guelra mas musicalmente nulas - quem conhece a sua obra? As autênticas, não o que algumas inteligências pretendem tomar com verdadeiras.

quinta-feira, agosto 23, 2012

Fanáticos do nosso tempo


Na semana passada registaram-se duas situações paradigmáticas do maior grupo de fanáticos da nossa era. Num apartamento do Porto, um cão mordeu e matou uma criança de ano e meio. Imediatamente, a Associação animal veio queixar-se de que "diabolizavam animais sem culpa nenhuma" e que "o caso acabaria com a morte de dois inocentes" (a criança e o cão). Para quem tanto se bate pelos direitos dos animais, a desculpabilização ultrapassa o absurdo: os cães têm direitos, mas quando têm comportamentos agressivos a culpa cabe apenas e só aos donos, sendo que os animais são "inocentes". São sujeitos de direitos mas totalmente inimputáveis. Reparem como há aqui mais lamentos pela sorte do cão do que da criança.

Neste fim de semana, nas Festas da Senhora da Agonia, voltaram as corridas de Touros a Viana do Castelo, numa arena amovível montada nos campos da Areosa. As opiniões dividiram-se violentamente: os aficionados da Festa Brava aplaudiram ruidosamente, os adversários protestaram e convocaram várias manifestações de desagrado, encabeçados pela dita associação Animal e por Defensor Moura, ex-presidente da câmara de Viana e, como todos se lembrarão, ex-candidato à presidência da república não se sabe bem porquê. Como se sabe, Defensor conseguiu aprovar, em 2009, em reunião camarária, um regulamento que tornava Viana do Castelo em "município anti-touradas". Sempre achei esta regra bastante descabida, porque não só contrariava as leis nacionais como transpunha as convicções pessoais de um autarca para todo um município, proibindo uma tradição antiga em Viana e obrigando os seus habitantes a declarar-se anti-touradas. Precisamente por isto é que a associação PróToiro obteve o deferimento de uma providência cautelar, suspendendo tal deliberação camarária e permitindo a realização da corrida.
 
No Domingo, entre ameaças, manifs, urros e insultos, a corrida teve mesmo lugar. Contou com perto de 2500 assistentes. Cá fora, 300 manifestantes gritavam contra. A comunicação social (a que eu vi, ao menos), noticiou o evento de forma bastante parcial. A RTP, televisão pública, apresentou uma peça mostrando que "os vianenses estavam contra a corrida" (entrevistou apenas cinco). Os jornais mostravam apenas os manifestantes anti-tourada, e as opiniões dos editores iam no sentido de que a proibição de um "espectáculo bárbaro" tinha toda a razão de ser.
 
Não sou propriamente aficcionado nem nunca assisti a uma tourada, mas estando bastante próximo de Viana, tive ganas de ir a esta (só não fui porque o excelente dia de praia me impediu). Não vejo qualquer ilicitude nestes espectáculos. Ninguém estima e conhece bem os touros do que quem com eles lida, ao contrário de muitos auto-denominados "amigos dos animais". É um espectáculo com o seu quê de primitivismo e violência, mas demonstrativo de coragem, do simbolismo do confronto entre um homem e um animal, e que tanto inspirou inúmeros artistas  ao longo dos séculos. Há quem seja grande apreciador e quem abomine. Ninguém é obrigado a ver, da mesma forma que ninguém deve ser obrigado a não ver. Por isso, acho que qualquer regra que declare parte do território nacional como "anti-touradas" é abusiva e totalitária.

Sobre a tal Associação Animal, vejam-se os perfis dos seus dirigentes mais visíveis: são vegans, e como tal, acham que «é inconcebível partilhar casa com um carnívoro, quanto mais namorar ou casar(...) É nojenta a ideia de beijar alguém que esteve a degustar alegremente um animal morto. Seria pactuar com algo altamente imoral». Cada vez mais acho que os defensores mais radicais dos direitos dos animais são os grandes fanáticos do nosso tempo. Já chegaram a matar (lembram-se de Pim Fortuyn e do seu assassino?), mas por aqui limitam-se às ameaças cada vez que há um espectáculo taurino. Tratar bem os animais? Sem dúvida. O problema é quando há uns extremistas que querem fazer a "equiparação da espécie", quais Calígulas e o seu cavalo-senador. Adolf Hitler, aliás, também encaixava nos pressupostos. É bom que se dê alguma atenção a estes indivíduos, e já agora, que se pergunte o que fariam aos animais carnívoros. Obrigá-los-iam a comer vegetais?
 

sexta-feira, agosto 17, 2012

Ornatos vivos e pérolas arruinadas


É hoje que os Ornatos Violeta retornam aos palcos, no acolhedor anfiteatro de Paredes de Coura. Um regresso há muito esperado, como o comprovam os quatro concertos agendados para Outubro, no Porto e em Lisboa, há já algum tempo esgotados, mesmo com reforço de datas. No Alto Minho também não deve faltar público. Os Ornatos marcaram o fim dos anos noventa, e embora tenham lançado apenas dois álbuns, tornaram-se uma banda de (enorme) culto, ao mesmo tempo que se pulverizavam em inúmeros outros projectos, sobretudo do seu frontman, Manuel Cruz. Não deixarão certamente de tocar músicas como Ouvi Dizer, Capitão Romance (provavelmente sem o dueto com o vocalista dos Violent Femmes), a Dama do Sinal ou Punk Moda Funk.

Esta última, primeira faixa do primeiro álbum do grupo, abre logo a matar (com um corrosivo "quero mijar"), revelando a primeira faceta dos Ornatos, mais rocker, mais subversiva, com um vídeo ainda de qualidade incipiente. Mas chamou-me a atenção para um pormenor, o do lugar onde a banda encena a música.

 

Talvez pelo seu aspecto já decadente, escolheram a casa da quinta do Montado, ou Marques Gomes (nome do construtor), um palacete hoje decrépito no alto de uma colina em Canidelo, Gaia, perto da Afurada, bem visível da marginal da Foz do Douro. Não faltam na net imagens do exterior e dos interiores do palacete arruinado, com uma aura de imponência classicista, que, talvez pelo seu aspecto, tem, como não podia deixar de ser, fama de ser assombrado (pelo menos a acreditar num livro recente sobre o assunto).

Porque terão escolhido os Ornatos violeta semelhante cenário para o seu primeiro videoclip? É difícil de dizer. Mas há um interessante contraste entre as músicas corrosivamente juvenis do fim dos anos noventa e esta jóia arruinada. Talvez quisessem tomar um cunho de certa marginalidade e usassem um espaço devoluto, para acentuá-la, ainda que com requinte. O que é certo é que os Ornatos voltaram à vida e uma legião de fãs correm a assistir. Entretanto, todos podem também "assistir" ao palacete, e sem pagar bilhete. Mas neste caso, não se trata da sua ressureição, mas da morte lenta. O edil Luís Filipe Menezes, sempre pronto a abrir a bolsa, não tem nenhum plano para o local, ou já só pensa noutro edifício com uma torre, mas do outro lado do rio, no alto não de uma colina mas da Avenida dos Aliados?


quinta-feira, agosto 16, 2012

Portugal, um país sem cultura desportiva


Acabaram os Jogos Olímpicos, bem à inglesa, misturando pompa com cultura popular. E tivemos a ocasião, provavelmente única, de ver o estandarte de Portugal carregado por um atleta (medalhado) de apelido Pimenta.
Como não podia deixar de ser, acabada a festa, surge a discussão sobre "o que correu mal". Valeram-nos os remadores que nos deram a única medalha (já era tempo dos remadores portugueses, quase sempre do Minho, verem os seus esforços recompensados) para não passarmos outra vergonha de seca medalhística como em Barcelona. O resto foram desilusões sobre desilusões, mesmo que acreditemos que os atletas deram o que podiam. As declarações de Vicente de Moura são absolutamente certas e não têm nada de inesperado.

Sim, o que ele disse, ainda que certamente, como presidente do comité Olímpico português, não possa descartar responsabilidades, é de uma realidade crua mas inegável. Portugal não é uma nação de atletas. não é agora nem era no passado, tanto quanto os meus conhecimentos alcançam. A título de exemplo, vale a pena soccor-nos do inevitável Eça, e do que se dizia no tempo da monarquia constitucional:

(...) Pois é verdade, prefiro toiros. Cada raça possui o seu sport próprio, e o nosso é o toiro (...) É uma grande escola de força, de coragem e de destreza (...) Nós não temos os jogos de destreza das outras nações, exclamava ele, bracejando pela sala e esquecido dos seus males. Não temos o cricket, nem o foot-ball, nem o running, como os ingleses; não temos a ginástica como ela se faz em França; não temos o serviço militar obrigatório que é o que torna o alemão sólido… Não temos nada capaz de dar a um rapaz um bocado de fibra. Temos só a tourada… Tirem a tourada, e não ficam senão badamecos derreados da espinha, a melarem-se pelo Chiado!

Continuamos sem cricket, o "running" vai-se fazendo um pouco, a ginástica está cada vez mais desvalorizada, o serviço militar obrigatório não passa de uma recordação, e quanto à tourada não faltam "amigos dos animais", que com certeza só viram touros do comboio, a querer acabar com ela. O futebol instalou-se em Portugal e reina sobre todos os desportos, é certo, mas a maioria só o praticou no recreio da escola e nem ao estádio vai, preferindo a conversa de café sobre as arbitragens. Mas enfim, sempre é um desporto no qual temos sucesso, a par do hóquei patins. O ciclismo vai sobrevivendo, e quase tudo o resto é um deserto, sem visibilidade nem apoios.

Vicente de Moura reclamou mesmo um retorno às práticas desportivas da Mocidade Portuguesa, sem a "carga política". Muitos se terão escandalizado, mas a verdade é que essa instituição teve o mérito de fomentar os desportos e de levar inúmeras crianças a praticá-los, que de outro modo não fariam, e de levantar algumas estruturas desportivas, assim como a FNAT/INATEL. Mas essas condicionantes poderão não ser a escolha ideal: os resultados olímpicos dessas épocas foram muitíssimo modestos.

Actualmente, constroem-se inúmeros gimnodesportivos em qualquer freguesia média, mas a prática não aumentou. Os poderes públicos construíram novos estádios mas subtraíram-lhes as pistas de tartan, e lá se vão fazendo algumas ciclovias. E é tudo. Pode-se fazer algum jogging, há ginásios por toda a parte, mas mais paras manter a linha e moldar a silhueta do que com real intuito desportivo. O Estado pouco se importa, porque apenas serve para cortar fitas mas não traz votos. E o povo lá se vai movendo um pouco mais, mas sem real cultura desportiva, como no Reino Unido. Depois não se admirem que só uns poucos estóicos, com real sentido de sacríficio e disciplina, alcançem magros resultados, aqui e ali com uma medalha uma uma "boa participação". Daqui a quatro anos se verá se alguma coisa mudou.

sábado, agosto 11, 2012

Memórias da Guerra Fria na silly season 2012


Esta história sobre as técnicas de espionagem da FNAC que Zita Seabra trouxe a lume é das coisas mais divertidas (e mais dignas de uma perfeita silly season) que tenho visto nos últimos tempos. A alegação (puxada pelo entrevistador Mário Crespo) de que a antiga Fábrica Nacional de Ar Condicionado, que utilizava tecnologia alemã da antiga RDA, e que era próxima do PCP por via dos seus dirigentes, montava os seus aparelhos inseridos com microfones para escutas em tudo o que era gabinete de órgão público não pode deixar de fazer sorrir.


É verdade que a empresa de ar condicionado era presidida por Alexandre Alves, conhecido como o Barão Vermelho, por ser próximo do PCP e porque a FNAC patrocinava a camisola do Benfica (a cuja presidência se chegou a candidatar, perdendo para Jorge de Brito, que até era conotado com o Marcelismo). E que a tecnologia da RDA era mesmo usada nos aparelhos. Ninguém ignora também que a antiga Alemanha do outro lado de lá da Cortina de Ferro tinha como um dos principais desportos, a par da prática de atletismo coercivo para fazer boa figura, a espionagem obsessiva dos seus cidadãos através da famigerada STASI, que devia estar então muito avançada em técnicas de escuta. Assim, a ex-DDR financiaria a FNAC para que os funcionários do PC ouvissem o que se passava nos gabinetes ministeriais e o transmitissem ao exterior (ou seja, a Moscovo).

Mas a história parece ser demasiado rocambolesca para ser verdade. No vídeo, o próprio Alexandre Alves esclarece que tal seria impossível porque os aparelhos eram montados nos próprios locais. Não sei qual a longevidade dos exemplares montados pela FNAC, mas será que ao fim de vinte e tal anos ninguém retirou nenhum e reparou em eventuais microfones? E por último, não esquecer que Alexandre Alves voltou à baila precisamente na última semana, a propósito da sua anunciada fábrica de painéis solares em Abrantes, que recebeu por antecipação fundos do AICEP. É exactamente na altura em que o seu nome reaparece que Zita Seabra recorda esta história? Parece que se trata de alguma revanche para aborrecer o velho PCP, por interposta FNAC. Ou então, Seabra, que agora milita no PSD, terá dito isso algo inconscientemente, levada pela entrevista ou instigada por alguém que queria ajustar contas com Alves ou prejudicá-lo na intenção em levar o projecto de painéis solares avante.
Em qualquer das hipóteses, duvido muito que esta história digna de órfãos do "confronto de blocos" (dos dois lados) vá para a frente. Será uma entre muitas da silly season, ideal para conversas de café ou para inspirar romances de cordel da Guerra Fria.

quinta-feira, agosto 09, 2012

Memórias vagas de um "sequestro"


A semana passada parecia uma página de necrologia, com as mortes de Gore Vidal, da actriz Carla Lupi ou de Eurico de Melo, entre outros. Sobre este último, histórico do PSD e antigo ministro todo-poderoso do cavaquismo outrora conhecido como "vice-rei do Norte", muito se disse. Mas houve uma história rocambolesca de que me lembro de ouvir falar na altura, ainda era pequeno, e que ninguém referiu, nem consegui encontrar registos na net. Aí por volta de 1988, um caso obscuro levou a que o FC Famalicão, acabado de subir à 1ª divisão de futebol, voltasse de imediato à Segunda. Beneficiou o FC Fafe, que se estreou entre os "grandes". Por causa disso, e numa visita da época a Famalicão, Eurico de Melo e o jovem delfim Marques Mendes ficaram retidos, quase sequestrados, por uma turba furiosa, durante umas boas horas. Tudo por razões futebolísticas. Alguém se lembra disso ou não há registos possíveis?

segunda-feira, agosto 06, 2012

Polémicas bloguísticas com totalitários


Vejam como uma manifestação de amor a tudo o que é ditadura (especialmente na sua versão anti-ocidental) provocou uma bela polémica blogoesférica de Verão. Na sua habitual verborreia totalitária, um dos membros do comité central do 5dias endereçou os votos de boa sorte olímpica a Coreias do Norte, Cuba, Hamas, e tutti quanti os que "lutam pela libertação nacional" (esqueceu-se lamentavelmente dos taliban). Pelo meio, há mesmo criaturas que julgam que Israel era uma criação do Irgun, ignorando completamente que durante trinta anos a esquerda esteve no poder, e que até ao golpe de Nasser no Egipto, a URSS deu todo o apoio ao novo estado sionista, opinião corroborada pelo Avante! da época. Soube desta bonita declaração via Estado Sentido.

Por causa disso, o Samuel Paiva Pires levou logo com uma intervenção de tanques de guerra datados de 1956 de outro dos cães de fila do 5dias, o bizarro Renato Teixeira, admirador confesso do regime de Teerão e provavelmente do seu sistema penal de enforcamento de adolescentes. Resposta pronta do Samuel com remédios contra a demência, mas essa parece incurável. Apanhou logo com uma acusação de fascismo, num post que tinha alguma defesa na substância mas que a estragou tudo numa forma patética (e em acusações de que a outra parte não respeitava a "liberdade individual", o que vindo de um comunista só pode ser uma boa piada). Entre outras intervenções aquecidas do Aventar (cujo autor, nos comentários, me chama "ignorante" porque ao que parece não sei distinguir um estalinista de um trotsquista, coisa complicada quando o apelidado trotsquista defende Estaline e zurze continuamente no Bloco de Esquerda) e do Insurgente, com mútuas acusações de apoio a inúmeras ditaduras seleccionadas.

A coisa não deve demorar muito, mas de novo pelo Estado Sentido dou pela mais recente proclamação lunática e totalitária do supracitado Renato (reparem no exemplo ternurento aos "sovietes do povo", e na forma maquiavélica como fala em "assassinatos"), fazendo curiosas alusões zoológicas. Felizmente, como a esmagadora maioria das pessoas já não liga nenhuma a comunistas encartados e ninguém quer voltar aos tempos pré-1989, nem sequer na Grécia, onde o estalinista KKE permanece fossilizado em ideologia e votos, coisas deste teor dão sobretudo para rir dos seus pobres autores. Mas servem também para demonstrar que os totalitariozinhos à esquerda andam por aí (à direita também não faltam), com desejos de calabouços para todos os que não partilhem da sua tenebrosa ideologia, como se estivéssemos na URSS ou num eterno PREC.