quarta-feira, maio 22, 2013

Os perigos das novas engenharias sociais


A votação da lei que permite a co-adopção pelos "cônjuges" em casais do mesmo sexo poderá parecer uma melhoria nos direitos das crianças. Percebo que se pretenda dar uma maior protecção à criança em caso de morte do progenitor. Mas tendo em conta os autores da proposta - a nova sacerdotisa das causas fracturantes, Isabel Moreira, e um ex-líder da JS (outro apaniguados das "fracturas") - e os seus intentos, aliás revelados, de se dar "um passo civilizacional" em direcção à "igualdade plena", desconfio que a intenção é mais de privilegiar os "direitos gays" do que das crianças, como bem explica Pedro Picoito. A tónica é sempre a mesma, por vezes mal disfarçada, e não me admira que, depois de muito se falar na urgência de tais "igualdades" e no "progresso dos direitos civis", se proponha mesmo a total adopção da adopção plena por casais do mesmo sexo. A ideia parece-me simplesmente absurda. A natureza e mesmo a psicologia, que tantas vezes falha na sua abstracção, já nos ensinaram que meras engenharias ou experimentalismos sociais e familiares têm resultados duvidosos. E a igualdade, que eu saiba, é tratar coisas iguais da mesma forma e coisas diferentes de forma diferente. Quando calcula tudo pela mesma bitola, transforma-se num igualitarismo esmagador, nefasto e anti-natura. Mas já se sabe, há dez anos todos se ririam da norma aprovada na sexta. Hoje, quem defende isto arrisca-se imediatamente a ser apelidado de reaccionário, preconceituosos, quando não de fascista. E no entanto, falamos de crianças e famílias, elementos de suma importância em qualquer sociedade, cuja importância concreta devia ser discutida e reforçada, mas que tendem a ser reduzidos e meras abstracções de combate ideológico pelos novos engenheiros sociais.

sexta-feira, maio 17, 2013

Mini-análise já mais a frio

 
Ora lá vamos, à análise. Será curta. A doutrina divide-se, mas pouco: o Benfica jogou melhor, dominou a segunda parte, mas hesitou no momento do remate. O Chelsea mostrou-se mais matreiro e ganhou.
 
Em parte concordo. O Benfica hesitou em alguns momentos de início. o que me deixou aos urros. Ou por cerimónia ou porque estava lá sempre um defesa, a bola nunca tomava a direcção certa. Nesse período, Enzo Perez brilhou a grande altura: cortava, defendia, distribuía jogo, atacava, cruzava...um médio total. Quem diria, no início da época, quando víamos como extremo mediano, ou mais ainda, no ano passado, em que esteve quase a ser definitivamente recambiado. Nesse aspecto, o Benfica soube reconstituir o meio campo depois da saída de Javi e Witsel de forma notável, e sem mais custos.
 
O resto, já sabemos: golo de Fenando Torres num lançamento longo (ele já tinha marcado um assim na final do Euro 2008), penalty de Cardozo, que não falhou frente a um Cech especialista em defendê-los, remates perigosos de parte a parte, e no fim, aquele golo surgido num canto. Sim, houve falhas, segundo os comentadores, mas caramba, nos últimos minutos de uma final, como esperam sangue-frio a toda a prova? Num canto? A prová-lo, o mesmo Ivanovic que marcou o golo teve depois um falhanço em que Cardozo quase marcava, mesmo a acabar.
 
Pronto, perdemos mais uma final. jogámos optimamente, dominámos, etc, mas não ficámos com a Taça, apesar de posições nesse sentido dos "nossos" Ramires e David Luiz. De novo. Já são sete finais perdidas. Há bastante má sorte pelo meio, pelo que, supersticioso na bola como sou, me pergunto se a maldição do húngaro Bélla Guttmann seria real. Se não é, voltaremos a ganhá-las, mas para isso é preciso que regressemos às finais.
 
Indiscutivelmente, esta semana, porventura a mais decepcionante de sempre, deixou marcas no Benfica. Esteve muito perto da glória, mas ela escapou-se. Temos boa equipa, sem dúvida, com aquela pequena pecha do lateral esquerdo, mas mesmo assim não conseguiu ser A equipa. ainda assim, como vou passar por lisboa, farei os possíveis para ir ver o último jogo da época. Não que esteja crente num milagre, mas quero aplaudir os jogadores. Eles merecem. Até porque ainda há a Taça de Portugal (a que infelizmente não deverei poder ir). e depois, quem sabe, talvez este ano seja para o Benfica o que 1984 era para o Porto: o trampolim para uma grande (re)caminhada. Esperemos. Até lá, vejam o apoio incrível dos adeptos benfiquistas em Amsterdão.

quinta-feira, maio 16, 2013

Depois da final

 
É quase uma da manhã, e olhando agora, ainda tenho o cachecol do Benfica ao pescoço. Passaram mais de três horas desde que acabou o jogo, um dos mais cruéis a encerrar aquela que é, provavelmente, a mais cruel semana na longa história do Benfica. Ia escrever muita coisa sobre a injustiça do resultado verificado, a sorte que uns têm (o emprego de Hilário e Paulo Ferreira é que devia ser considerado o melhor do Mundo), e como a ousadia e a coragem muitas vezes acabam em desastre. Mas prefiro deixar para a amanhã, até porque francamente estas coisas arrasam com um homem. Amanhã tentarei fazer uma análise qualquer. Por hoje, só posso dizer que o meu clube me tira anos de vida e me dá tristezas, mas ainda me dá mais orgulho. E ainda não consegui tirar o cachecol...

quarta-feira, maio 15, 2013

Para que seja Dia de Benfica



Chegou o dia da Final. Aquela que já esperávamos há vinte e três anos. Bom, não é a final dos Campeões Europeus, chamem-lhe Taça ou Liga. Mas é uma final da UEFA (rebaptizada duvidosamente de "Liga Europa", ou euroliga, na minha versão preferida), digna dos campeões europeus, como vários lembraram, onde se defrontam o actual detentor do troféu e um dos clubes que mais contribuiu para a sua grandeza. Ou a "Velha europa" suportada pela paixão dos adeptos contra a "Nova Europa" dos cheques dos bilionários.

É uma evidência que à partida o Chelsea é favorito. Além de deter o título maior, depois de arrebatá-lo ao Bayern em plena Allianz Arena e de ultrapassar o Barcelona, e claro, o Benfica, tem jogadores incríveis e uma capacidade financeira quase sem fundo, mercê da fortuna do seu famoso proprietário russo Roman Abramovic. Depois de conquistar o troféu mais ambicionado, não está a passar propriamente por uma época de sonho: perdeu a Supertaça europeia (goleado pelo Atlético de Madrid de Falcao!), as outras taças, teve um campeonato modesto, e a meio da temporada contratou o mal amado Rafa Benitez como treinador assumidamente interino. Passa por um período de transição, à espera do regresso de Mourinho, de quem nunca se livrou de um certo sentimento de orfandade.

O Benfica vem de uma época longa e de um desaire psicologicamente tremendo, que muito dificilmente o impedirá de conquistar o campeonato nacional. Embora tenha uma boa equipa, substituindo muito bem as peças que teve de vender no ano passado, tem de lutar contra o cansaço, a memória dos jogos mais recentes, o favoritismo do adversário e o peso da história nas finais. Não é coisa pouca. São adversários tremendos, só superáveis por uma grande equipa. Jorge Jesus nem sempre se dá bem em momentos decisivos, mesmo que não tenha muitas finais no currículo. Preferia, hoje, que no banco estivesse Ronald Koeman, que nos ensinou a vencer equipas inglesas detentoras do título europeu na sua própria casa (e até treinadas por Rafa Benitez), como estarão certamente recordados. Mas não está, e só podemos contar com quem lá está.

Não sei se vamos ganhar hoje. A tarefa é complicada. O que peço é que joguem com a mesma garra como jogaram contra o Fenerbahçe, e com a mesma inteligência com que pisaram Anfield Road em 2006. Usando a linguagem do nosso adversário de hoje e uma expressão do país do seu treinador e de boa parte dos jogadores, aprendida nos Caminhos de Santiago, No Pain, No Glory. Honrem a camisola. É a única forma de alcançar os objectivos. Contra todos os favoritismos e "maldições". Para que hoje seja realmente Dia de Benfica!

 

Festa na Baixa 2013


A festa na Baixa, promovida pelo Centro Nacional de Cultura, está de volta ao Porto. É entre 22 e 25 de Maio, em vários locais do centro da cidade. A quem interessar, aqui fica a notícia e o anúncio onde podem ver o respectivo cartaz.

sábado, maio 11, 2013

Só um milagre?


Amanhã joga-se o jogo do título deste ano. O empate de segunda-feira com o Estoril obrigou a que o Benfica fosse às Antas a precisar de não perder para não dar o campeonato ao Porto. O cansaço físico e a quebra psicológica dos jogadores, mais a final da UEFA na próxima semana, tornam essa tarefa particularmente hercúlea. Enzo Perez, preponderante a meio-campo, pode falhar o jogo. E o árbitro escolhido era o único que não podia ser: Pedro Proença, aquele que prejudica sempre, sempre o Benfica, seja com que clube for, e não apenas contra o Porto, há mais de dez anos. Com esta oportunidade caída do céu, já se sabe que à volta do jogo vai-se espalhar um ambiente de ameaça e intimidação, que aliás já começou à chegada dos jogadores do Benfica ao hotel de Gaia. Desde bolas de golfe a gases no balneário do Benfica, passando por agressões a dirigentes e árbitros, de tudo um pouco já aconteceu por aqueles lados, neste clássico. Houve quem soubesse contorná-lo, mas poucos o conseguiram.

 
 Se acredito em milagres no futebol? Sim, mas são tão raros... Não tenho é ilusões. Muito dificilmente o Benfica sairá com qualquer ponto e a equipa inteira, tomando como referência os anos recentes naquele recinto (ou os últimos vinte, se quiserem), o homem do apito e a passividade da autoridade. Se o Benfica sair com um mero ponto, será quase um prodígio. Ganhar lá, sagrar-se campeão, já é uma quimera a que não me atrevo a tanto. Um dia acontecerá, mas tenho as maiores dúvidas que seja amanhã.


PS: como calculava, aconteceu. Não porque a equipa tenha jogado mal - equivaleram-se, mais uma vez - nem por erros arbitrais, mas por uma questão de sorte: além do primeiro golo do Porto ser daqueles "brindes" absolutamente involuntários, o que surgiu do céu nos descontos deu cabo de uma partida que em tudo tinha sido equilibrada. O título voará mais uma vez para uma boa equipa mas comandada por um dos maiores imbecis que jamais treinou equipas em Portugal, e os jogadores do Benfica ficaram certamente com a moral de rastos, proibitivo para quem tem uma final europeia daqui a dias. Percebem agora a descrença para estes jogos? O Benfica é a equipa que melhor futebol pratica em Portugal, e mais uma vez ficará a ver navios. Mas hoje, ao ver Jorge Jesus de joelhos, impotente para travar a má sina, fiquei a simpatizar muito mais com ele. Como se fosse uma personagem das tragédias gregas, um herói mortal e combativo que luta ingloriamente contra o destino, ou um Sísifo. Uma das imagens mais humanas que vi no futebol.

quinta-feira, maio 09, 2013

Andreotti não era afinal eterno


 
Morreu Giulio Andreotti, "Il Divo" da política italiana, aos 94 anos. Terá sido provavelmente a figura tutelar da 1ª república italiana, onde ocupou todos os cargos:  membro da câmara dos deputados desde o início do regime, em 1946, ministro de quase todas as pastas, primeiro-ministro por várias vezes, entre os anos setenta e oitenta, e por fim senador vitalício. Só não ocupou a cadeira da presidência da república porque não lho permitiram, observadas as suas ligações suspeitas com círculos da máfia.

O regime que simbolizou, a 1ª república italiana, e o partido que dirigiu, a Democracia-Cristã, já se tinham estilhaçado sob o peso da corrupção e dos jogos de poder onde se mantinham sempre as mesmas formações partidárias (a começar pelo seu), e para os quais Andreotti muito tinha contribuído. Desapareceu agora o seu máximo representante, uma relíquia política apenas com peso simbólico, mas que conseguiu escapar sempre das acusações mais graves que lhe fizeram. Corcovado, com pequenos olhos melífluos, grandes óculos de massa e um rosto pouco expressivo (ou de expressão misteriosa), Andreotti era certamente um cultor de Maquiavel, com cujo nome era aliás apelidado, e provavelmente descendia de políticos florentinos do Renascimento, ou de tribunos romanos intriguistas. Em todo o caso, era o melhor representante desses traços conspirativos bem italianos.

segunda-feira, maio 06, 2013

Os novos valores académicos


Marlon Correia, estudante de Desporto e jogador e treinador de futebol amador, foi assassinado a tiro por um gang de encapuçados ao tentar defender o cofre com as receitas de bilheteira da Queima das Fitas do Porto, no recinto do Queimódromo (e ao que parece, os próprios amigos). A Queima arrancava oficialmente, um dia depois, à meia-noite de Domingo, como acontece todos os anos. Que decidiu a Federação Académica do Porto? Cancelar a noite seguinte, por respeito ao estudante que para eles trabalhava e que deu a vida no cumprimento das suas funções para com a FAP? Nada disso. O programa manteve-se inalterado, porque, segundo se dizia " seria um enorme prejuízo". É bom ver a real solidariedade e respeito que os dirigentes académicos têm para com gente que perde a vida ao seu serviço. E os valores actuais por que se pautam as academias - neste caso, a FAP. Fixem bem o nome do seu presidente, Ruben Alves. E depois não digam que a ganância parte apenas dos bancos e das agências de rating. Como se observa por este triste caso, há muitas outras entidades que mostram até que ponto são gananciosas e materialistas. Que raio de exemplos e valores têm estes dirigentes, "doutores" e "DUXes" a mostrar a quem entra nas faculdades?

sexta-feira, maio 03, 2013

Rumo a Amsterdão

 
 
23 anos depois, o regresso às finais europeias.  Tacuara Cardozo, Gaitan e restante turma encarregaram-se esta noite de remeter os turcos para longe, mesmo com uma arbitragem fajuta. A crise que assolou o Benfica entre os anos noventa e 2000 atirou muito do prestígio internacional do Glorioso para o cano. Felizmente recuperámo-lo. A 15 de Maio, em Amsterdão, onde em 1962 o Benfica goleou o todo poderoso Real Madrid e se sagrou bicampeão europeu, tudo pode acontecer. Até acredito que o Chelsea esteja à frente nas casas de apostas, mas temos contas a ajustar desde o ano passado. Para já, o Raul Meireles, que entretanto se mudou para o clube dos otomanosdo lado asiático da velha Constantinopla, pagou as favas. Falta todo o resto da equipa de Abramovich. Mas até à final, temos um campeonato por que lutar. O prestígio europeu do Benfica, esse, está de volta e não vai voltar a escapar. Deves-nos isso, David Luiz. Os blues que se cuidem.

quarta-feira, maio 01, 2013

Pelos Caminhos de Santiago


Passei esta semana sem blogar, o que por vezes é mentalmente higiénico, por força da minha peregrinação a Santiago de Compostela. Já lá tinha ido umas vezes de carro e por auto-estrada. A pé, submetido às intempéries, por caminhos com séculos e séculos, as coisas são bem diferentes.

Os Caminhos de Santiago são percorridos há mais de mil anos pelos peregrinos, aos quais devem essa mesma designação (per ager, pelos campos). Apesar da grande afluência e utilização, permanecem afastados das grandes rotas viárias modernas, que os pouparam, e em muitos troços não serão muito diferentes do que eram na Idade Média. Existem, como se sabe, muitos Caminhos de Santiago (o Inglês, o aragonês, os de Portugal, que são vários, o de Finisterra, etc), mas o mais frequentado, aquele que percorri, é o Caminho Francês, que começa em Saint-Jean-Pied-de-Port, passa para a mítica Roncesvalles e daí, por Pamplona, Burgos, Léon e Sarria, até Santiago. O Caminho assume muitas vezes forma de trilho florestal, o que é particularmente agradável quando as ávores são autóctones, ou de via campestre, não raras vezes coberta de lama ou quase leito de riacho, o que os torna complicados no Inverno.Ppelo meio, pequenas aldeolas de pedra,  que parecem esquecidas no tempo, mas que vivem graças ao Caminho, cada qual com o seu café-venda onde se acrescenta um novo carimbo à credencial do peregrino, necessária para se obter a Compostela, o certificado que atesta que se cumpriram mais de cem quilómetros a pé (duzentos se for a cavalo ou de bicicleta).
 
Encontram-se caminhantes das mais variadas nacionalidades, sobretudo espanhóis e irlandeses. A maioria por Fé e devoção, mas também por aventura, desafio ou quaisquer outras razões. Grande parte transporta a sua mochila, por vezes um bastão, e quase sempre a Vieira, símbolo inconfundível de Santiago, a par da sua Cruz. A solidariedade entre peregrinos é grande, e presume-se que a sua idoneidade também, tanto assim é que há vendas à beira do caminho onde se serve do produto e se deixa o valor...sem que haja um vendedor ou quem quer que seja que controle. Mas além dos grupos de caminhantes, há também os que fazem solitariamente, alguns deles singulares. Encontrar numa floresta um templário com as suas vestes pode levar-nos a pensar que recuámos ao Século XIII, mas não é impossível: alguns fazem-no, recordando os cavaleiros que outrora tinham como missão proteger os Caminhos, e deixam mesmo um registo bloguístico.


Depois de um caminho encantador mas exaustivo (e que deixa mazelas), a chegada à praça do Obradoiro (provavelmente uma das mais bonitas do mundo) e a contemplação da soberba catedral, com o Apóstolo a acenar-nos lá em cima, é gratificante. E se se apanhar a missa do peregrino mais ainda: entre os muitos caminhantes que assistem à homilia, agradecemos a protecção divina no caminho e contemplamos o Botafumero no seu pêndulo majestoso, a derramar incenso sobre os assistentes.

Depois, com o objectivo cumprido, abraça-se o Santo, apresentam-se as credenciais na Casa do Peregrino para que obter a Compostela, recuperam-se forças na taperia mais convidativa e começa-se a pensar em novo percurso numa data futura qualquer.

                       
                              O peregrino, escritor destas linhas, contempla a Catedral de Santiago, meta desta sua viagem

segunda-feira, abril 22, 2013

Os verdadeiros motivos para uma campanha miserável

 
Já lá vão umas semanas, mas não queria deixar fazer referência à chamada de atenção do Declínio e Queda a um post do blogue Cinco Dias, onde se afirma nem mais nem menos que "o que temos que defender é a revolução contra o perigo da democracia, que em quarenta anos nos reduziu a isto". A frase não é uma distracção nem uma gaffe: está lá escrita a negrito, prova que quem a escreveu pensa exactamente isso e quis vincá-lo, sem outras interpretações.
 
Importante é também repararmos na sua autoria: trata-se tão só de Raquel Varela, uma investigadora da FCSH da Nova (onde mais?), que defendeu em tempos que "nunca existiu o risco de o PCP tomar o poder em Portugal” nos anos de 1974 e 1975". A sua apologia da revolução parece contrariar essa tese, até porque se notam nos seus textos amplas simpatias pelo PC. Mas mais interessante ainda é pensar - quem tenha boa memória e não se tenha deixado levar pelo agit-prop - que esta académica foi uma das principais responsáveis, senão a principal, pela violenta campanha lamacenta contra Isabel Jonet em Novembro último, um dos maiores e menos justificados linchamentos mediáticos que tenho visto. Dizia Varela na altura que "a fome é um problema cuja origem reside única e exclusivamente no sistema capitalista" (as fomes na Coreia do Norte, na Ucrânia, na China, no Camboja e na Etiópia, provocadas pelos regimes comunistas, deviam ser meros pormenores) e que "as suas políticas (Jonet) geram fome". Essas afirmações revelavam um radicalismo político, um enviesamento da realidade e uma defesa de teses político-sociais mais que duvidosas que mostravam já muito as verdadeiras intenções da autora: a de, aproveitando declarações potencialmente mais polémicas, fazer um ataque cerrado ao que chamam de "caridadezinha", neste caso ao Banco Alimentar, colando-o ao Governo e acirrando as opiniões, para daí culpar todo um sistema e tentar a disseminação discreta de ideias que sustentassem um modelo diferente. O aproveitamente da crise para fazer germinar ideias revolucionárias é desde há muito conhecido. O uso da fome como argumento (aliás, Varela chamou à sua carta "a comida é uma arma", que caracteriza exactamente o seu método), ligada à habitual ideia da pobreza como uma abstracção teórica, tão típica da esquerda radical e o aproveitamento deturpado de declarações que caíram que nem gingas fizeram o resto a todos os que caíram no engodo (ou quiseram cair).

Agora confirma-se: as motivações de Varela eram totalmente políticas, e desse modo tentou fazer com que as do Banco Alimentar também o fossem. Como disse atrás, tentou-se culpabilizar uma instituição que tira potencial "terreno" ou apoio social às teses mais revolucionárias, eliminando a fome, tão necessária ao aumento do radicalismo político, para afastar um eventual obstáculo à revolta social. Com estas últimas declarações, escarrapachadas, Varela disse ao que vinha: quer a revolução em lugar da democracia, impedida pelo contra-golpe de 25 de Novembro de 1975, e não resolver qualquer problema de fome, que de resto só beneficia o seu projecto revolucionário. Duvido que o consiga, mas em todo o caso é bom vermos confirmadas as verdadeiras motivações dos ataques a Jonet e ao BA. É bom que as pessoas aprendam a distinguir motivações políticas, para mais extremistas, quando se eleve uma polémica para enlamear o bom nome de uma instituição que tanto tem ajudado os mais carentes, tratando-os como pessoas e não como abstracções.

Magia no derby


Haja o que houver, o golo do ano é o segundo ao Sporting, de Lima. O primeiro, marcado por Salvio, já tinha sido muito bom; o resultado é fundamental para a caminhada para o título, mas este golo, a jogada mirabolante em que Gaitan que passa por dois jogadores sem se perceber como, a tabelinha e os passes sem deixar cair a bola, o golo em vólei de Lima, tudo isso é do domínio da pura magia. Maradona certamente pensará que esta jogada de um seu sucessor seria digna dele. E consegue ser ainda melhor do que outro golo do mesmo Gaitan. A posteridade não deixará de assinalar estes momentos inclassificáveis, que só por si deviam dar direito a um triunfo por 5-0.
 
 

domingo, abril 21, 2013

250 anos de Torre dos Clérigos


O campanário de igreja mais famoso do país, o ex-líbris do Porto, a materialização do barroco na vertical, a torre tantas vezes representada que se tornou na obra eterna de Nasoni domina a silhueta da cidade há 250 anos. Feitos hoje, 21 de Abril de 2013. E  não faltam eventos ou lançamentos de produtos comemorativos para celebrar a efeméride. Fica a pergunta, ligada ao velho provérbio que diz que "em casa de ferreiro, espeto de pau": quantos portuenses nunca terão subido à Torre dos Clérigos?
 
 

sábado, abril 20, 2013

Pequenos déjà vus (ou os círculos da História)

 
Em França, verificam-se não apenas discussões e controvérsias saudáveis que são sempre característica de um regime pluralista, a propósito da aprovação do casamento e adopção homossexual, mas também um clima de confronto e de agressividade que faz lembrar, nas devidas proporções, os famosos motins de Fevereiro de 1934.
 
Em Espanha, os republicanos comemoram o "seu" dia para se manifestarem contra o Rei e contra a Monarquia em plena Madrid (embora não com a dimensão que a comunicação social lhe quis dar, longe das "dezenas de milhar" de manifestantes).
 
Na Ásia-Pacífico, a Coreia do Norte ameaça os vizinhos ao passo que o Japão resvala para uma toada nacionalista e o rearmamento para além das simples forças de autodefesa está na ordem do dia.
 
Em Itália, Beppe Grillo promete uma "marcha sobre Roma" em protesto contra a reeleição do velho Napolitano.
 
Bem sei que a Alemanha não pretende expandir-se militar nem territorialmente, e que Passos coelho não é exactamente um Salazar (até porque peca por defeito e falta de sentido de estado). Mas é inquietante pensar como tantas destas coisas nos lembram os anos 20/30 do século XX. O conhecimento da História e o valor da memória são hoje em dia mais valiosos do que nunca. É bom que não os coloquemos de lado. O preço a pagar seria altíssimo.

segunda-feira, abril 15, 2013

A remodelação e os aparelhismos


A nomeação de Luís Marques Guedes para o lugar que era de Miguel Relvas e de Miguel Poiares Maduro para o Desenvolvimento Regional é um feliz acontecimento, num Governo com falta de boas notícias (por culpa própria, em boa parte). O primeiro é um político experiente, idóneo, competente e respeitado pelos adversários. O segundo é um jurista brilhante, especialista em direito comunitário (e ao que parece, não é pior nos domínios da cozinha), professor em Florença e com carreira no TJCE. Se era para mostrar as diferenças com Miguel Relvas e o seu nulo percurso académico, a comparação não podia ser mais avassaladora. Temos ainda novos secretários de Estado, entre os quais Pedro Lomba, como adjunto de Poiares Maduro. É caso para a blogoesfera rejubilar: um dos seus fundadores chegou ao Governo.
Não sei se algo de essencial irá mudar, ou se o currículo académico dará necessariamente origem a um bom governante. não sei se se exigira uma remodelação mais profunda. Mas dá-me muito mais conforto ver que um chico-esperto aparelhista como Relvas substituído por gente acima de qualquer suspeita, bem mais preparada juridicamente, e aparentemente sem esqueletos no armário. O PSD puro e duro e as suas "bases" é que parecem não ser da mesma opinião: aprovaram um voto de louvor a Relvas, com a excepção notável da histórica Virgínia Estorninho, e ao que parece, não viram com bons olhos a entrada de Poiares Maduro. Aparelhismos...

sexta-feira, abril 12, 2013

Mais que merecido

 
 
 
O prémio Sir Geoffrey Jellicoe, o maior que se pode atribuir a arquitectos paisagistas, atribuído esta semana a Gonçalo Ribeiro Telles, coroa uma carreira de verticalidade na defesa do ambiente, do ordenamento do território e da terra (em todos os sentidos) da erosão e da especulação urbana que a ameaçam. Aos noventa anos não desistiu de lutar pelos valores mais genuínos do nosso país, e ao que parece começou por fim a ser ouvido. Que seja uma lição para todos os que o ignoraram ou encolheram os ombros quando falava de agricultura nas cidades, de construção em sobre cursos de água encanados ou de corredores verdes, em lugar de meros jardins de bairro.

quinta-feira, abril 11, 2013

O adeus esperado de Thatcher

 
 
Os jornais dos últimos dias, como era esperado, deram destaque à morte de Margaret Thatcher (que também não surpreendeu, dado o estado de saúde era menos de ferro do que a Dama tinha sido). O desaparecimento de uma das figuras-chave dos anos oitenta, senão das últimas décadas, de um dos últimos grandes líderes europeus, não podia passar despercebida. Até porque, apesar de há já muito estar retirada do espaço público, nunca passou ao esquecimento. Todos os seus sucessores foram condicionados pelos seus anos de governo, e no ano passado voltou mesmo aos escaparates dos jornais com o filme-biopic que deu o Óscar de Melhor Actriz a Meryl Streep, na sua superior interpretação da Primeira-Ministra britânica.

Thatcher estava longe de ser das minhas figuras preferidas. Mas ser popular ou amada não lhe dizia nada. Até é crível que, pelo seu gosto pelo confronto, preferisse os apupos e às manifestações sindicais e da oposição trabalhista (liderada por Michael Foot, que estava tão à esquerda como ela estava à direita), sinal de que a sua política tinha sucesso. A uns ignorou, a outros venceu frequentemente nos Comuns. O choque ideológico, as discussões, a capacidade de comando estavam-lhe no sangue. Na cabeça, trazia as ideias de Hayek e uma vontade de gerir a Grã-Bretanha como uma mercearia, contra os "inimigos internos", sobretudo os sindicatos, que em fins dos anos setenta faziam o que queriam do país, levando-o à estagnação e à ruína. Thatcher aplicou as suas políticas de choque, a que podemos chamar com alguma propriedade de neoliberalismo, com resultados controversos: por um lado criou uma nova classe de pequenos empresários, fomentou o sector terciário, tornou a City londrina numa grande praça financeira; por outro arruinou a indústria e os sectores mineiros que fizeram a Revolução Industrial, com o crescimento do desemprego, da mendicidade e da criminalidade. Era popular no Sul e impopular no Norte e no Merseyside. Pelo meio afrontou a Europa e no caso das Malvinas impôs uma derrota humilhante à clique militar argentina, levando à sua queda.
 
Pode-se dizer que muito embora o Reino Unido precisasse de um valente tratamento ao estado em que estava em finais de setenta, Thatcher exagerou na dose. Libertou o país de uma doença para lhe trazer outras maleitas. Com isso, era admirada até à idolatria e odiada de morte. Mesmo agora, na sua partida, mais de vinte anos depois de deixar o poder, isso se nota: os defensores querem fazer-lhe um funeral de estado, apenas reservado à Família Real, mesmo contra a sua vontade expressa; os detractores festejaram e dançaram à notícia da sua morte, numa atitude reles mas ilustrativa (em Bristol, por exemplo, onde me recordo de ver, na primeira metade dos anos 90, inúmeros pedintes). Thatcher, líder convicta mas errática, incansável mas implacável, partiu, mas o seu simbolismo e o seu legado ficaram. Mesmo que esteja longe de ser positivo, reconheça-se que era uma figura carismática, com alguma grandeza, e que faz as actuais classes políticas da Europa parecer um bando de gnomos.
 

terça-feira, abril 09, 2013

Vá lá, Sr. Primeiro-Ministro

 
 
 
...queixe-se das implicações que a inconstitucionalidade das normas que aprovou poderão trazer, das dificuldades em cortar na despesa (mas não era tão fácil, há dois anos?), da revisão  extraordinária da Troika, do amuo do PS, da irresponsabilidade da oposição, da própria Constituição e do cunho ideológico que mantém. Mas por favor, não mate o mensageiro.

quinta-feira, abril 04, 2013

Largar lastro

 
Como diria Durão Barroso, sabia-se que Miguel Relvas iria deixar de ser Ministro antes do fim do Governo, só não se sabia quando. Para além dos problemas com os dossiers que tinha a seu cargo (uma infinidade deles, da reforma municipal à televisão, passando pelo desporto), carregava as sombras de casos polémicos, como as relações com Silva Carvalho, as pressões sobre o Público e a sua inacreditável "licenciatura". E seria o relatório desta a mostrar-lhe a porta da rua, quando se cogitava o que mais seria preciso para que ele saísse.
Relvas era um abcesso que teria de ser removido para que o Governo sobrevivesse. Um chico-esperto que trepou à custa do aparelho partidário e que parecia não entender o quanto a sua manutenção minava o executivo. Diga-se o que se disser do relatório e dos procedimentos a que obedeceu para apenas produzir efeitos práticos nesta altura, o momento não podia ser o mais adequado. Entalado entre uma moção de censura de toda a oposição (ainda que com óbvios efeitos nulos, mas sempre incómoda) e a anunciada posição do Tribunal Constitucional que por certo chumbaria algumas medidas, o Governo precisava urgentemente de um balão de oxigénio, ou mais precisamente, de largar um saco de lastro. Relvas era o lastro mais evidente que arrastava o "balão" governamental na queda. E era preciso largá-lo agora na esperança de que as fissuras não o fizessem cair ainda mais.
 
 

quarta-feira, abril 03, 2013

Se a sabedoria popular continuar a errar, muitas graças a Deus vou dar

 
 Por estes dias, a "sabedoria popular" anda muito por baixo. Diz-se que "se a Senhora das Candeias rir, está o Inverno para vir". Ora a comemoração da Senhora das Candeias é a 2 de Fevereiro, e tanto quanto me lembro desse dia, não houve grandes risos climatéricos. Dizem também os ditos populares que "Carnaval na rua, Páscoa em casa", ou seja, se no Carnaval estiver bom tempo, então o Domingo de Ressureição será sob chuva. No último Entrudo choveu, ventou, nevou até, e mesmo assim tivemos uma Páscoa diluviana. 
E se "em Abril, águas mil", faço votos para que a sabedoria popular continue errática. As populações das margens ribeirinhas dos rios, da lezíria ribatejana e da zona de Aveiro, entre outras, agradecem. E eu também, que já começo a desesperar com este Inverno que dura há quase meio ano e nos deixa a cabeça em água. E com constantes más notícias, do que precisamos agora é de sol a rodos.