quinta-feira, fevereiro 28, 2013

A grande tradição italiana de ingovernabilidade


A Itália depois das eleições está ingovernável, diz-se. Grande novidade. Quando é que a Itália teve uma fase de estabilidade governativa (desde Mussolini, perceba-se)?

A 1ª República italiana distinguiu-se pelo seu sistema proporcional e por uma infinidade de governos, todos com a Democracia Cristã à frente. O outro grande bloco era o Partido Comunista, que durante alguns anos se manteve fiel à URSS, tanto que o slogan dos democratas-cristãos nas primeiras eleições do pós-guerra, tirado dos livros de Guareschi, era: "no segredo da cabine eleitoral, Deus vê-te, Estaline não". A DC invariavelmente ganhava as eleições com maioria relativa, a pouca distância do PCI, e recorria a alianças com outros partidos, como o Socialista, o Liberal, o Republicano ou o Social-Democrata. Ainda assim, os governos raramente duravam dois anos, e este estado de coisas manteve-se até ao escândalo Tangentopoli, ao referendo eleitoral e ao desmoronar de uma partidocracia apodrecida, dando origem à 2ª República.

Aí surgiram novos partidos dos cacos dos anteriores. O PCI tinha acabado, entretanto, dando origem ao PDS, de ideologia social-democrata, que ocupou o lugar do desacreditado PSI, de Craxi, e do PSDI, enquanto a minoria mais radical originava a Refundação Comunista. Berlusconi, até aí ligado ao seu império da comunicação social e ao futebol, surgiu em cena na política, largando a sua Força Itália, que juntamente com pequenos partidos centristas, engoliu o voto da extinta DC. A direita votava na Liga Norte, do populista Bossi, e na renovada Aliança Nacional, de Fini, que deixara para trás o neo-fascismo, num movimento semelhante ao do PCI/PDS.
Berlusconi dominou esse período, ora assumindo o governo, com apoio de Fini e da Liga Norte, ora revezando-se com o bloco constituído à volta do PDS. Sucediam-se as coligações, listas em torno de uma personalidade ou pequenos partidos efémeros.

Este estado de coisas acabou com a ascensão de Mario Monti ao governo. A sua governação parecia agradar aos italianos, mas quando estes foram chamados às urnas, há dias, deram um resultado desconsolador à aliança política centrista que sustentava Monti, uma parca confiança ao Partido Democrático, de centro-esquerda, herdeiro do PDS, recuperaram Berlusconi, considerado há meses politicamente cadavérico, e deram uma enorme votação ao movimento cinco Estrelas, do comediante populista Beppe Grillo.
 
Agora, Bersani tem maioria na câmara dos deputados, mas não no Senado, nem sequer coligando-se com monti, que seria o objectivo principal. Beppe Grillo, o maior fenómeno destas eleições, com comícios de centenas de milhares de pessoas em autêntica tourné por Itália, teve um resultado estrondoso. Munido das suas novas armas eleitorais, brama contra o sistema e considera que os adversários são "cadáveres políticos": não se alia a Berlusconi mas também não viabiliza um governo com Bersani à frente. O seu movimento elegeu desempregados e trabalhadores precários para os órgãos legislativos; vão poder renovar a classe política, e ao mesmo tempo saber o que custa fazer parte da mesma. Se vão mudar alguma coisa ou ganhar vícios políticos é coisa que se verá daqui para a frente. Mas se Grillo persistir em fazer meramente de travão e impedir qualquer solução governativa, o apoio popular de que gozou esvaziar-se-à mais rapidamente do que o do velho PRD.
 
Um novo governo italiano, sustentado no Partido Democrático e na coligação que apoiou Monti, terá de se sustentar num equilíbrio instável para aguentar o país e tentar algumas reformas. Mas já se sabe que nunca durará assim tanto tempo. Berlusconi, como se viu, tem mais vidas que um gato, e mesmo abandonado por antigos aliados, como Fini, mantém-se à tona, o que mostra que os italianos votam mais depressa em projectos populistas do que em partidos de quadros qualificados. Grillon é a grande incógnita. Bersani tem a batata quente, a meses da saída do velho presidente Giorgio Napolitano.
 Aconteça o que acontecer, manter-se-à essa grande instituição italiana chamada "instabilidade governativa".

quarta-feira, fevereiro 27, 2013

A última audiência de Bento XVI


Trechos das palavras do Papa Bento XVI, esta manhã, em S. Pedro, na sua última audiência ao público, perante  mais de 150 mil pessoas, antes de efectivamente renunciar, às 20:00 horas (menos uma em Portugal), e de se retirar como Papa Emérito. Para se ver o discurso completo, basta carregar no link.



E o que disse em português:


Óscares 2013


Pareceu-me um sentimento quase generalizado, mas este ano pouco me interessaram os Óscares. Fosse pela safra de menor qualidade, pelo desconhecimento do que ia a jogo, ou por raramente constituírem surpresa, não dediquei muito do meu tempo à cerimónia e aos resultados. Ainda assim, vi o resumo que habitualmente a TV dedica ao acontecimento da "Academia". Não fazia a menor ideia quem era o apresentador, e só depois é que soube que era o argumentista do filme em que o urso de peluche ganha vida e se torna no melhor (e mais javardo) amigo de Mark Whalberg, que andou pelos cinemas há pouco tempo. Umas piadas com mais ou menos graça, uns números de dança banais para "celebrar os musicais", e dois vídeos hilariantes (o das "we saw your boobs" e a recriação de Flight com marionetas feitas de meias), assim se resumiu a apresentação do evento.
 
Nos vencedores, a vitória de Daniel Day Lewis pela sua interpretação de Lincoln, que lhe deu um inédito terceiro Óscar de Melhor Actor (ele, que entra em filmes de 3 em 3 anos e que promete não ficar por aqui) foi uma não-surpresa; o contrário é que teria deixado todos de queixos no chão. Um filme sobre um presidente americano com uma imensa carga mítica e simbólica, realizado por Spielberg e protagonizado por Day-Lewis estaria fatalmente votado ao sucesso. E no entanto, poucas distinções levou. Era dos poucos filmes a concurso que tinha visto; não é exactamente um biopic, nem um épico, mas antes uma fita sobre os procedimentos políticos, incluindo os mais duvidosos, para defender as causas mais nobres (José Dirceu, do "Mensalão", pode usar o filme na sua defesa no tribunal). E a par de Day-Lewis, as outras interpretações são também muito conseguidas. Sally Field já tem alguns Óscares para decorar a lareira, e decerto não se importará de ter perdido para Anne Hathaway; mas provavelmente houve quem se importasse, porque o prémio deveu-se a umas cenas desesperadas num musical integral sobre os Miseráveis de Victor Hugo, que é, ao que tudo indica, uma valente pessegada. Qualquer uma das concorrentes merecê-lo-ia com mais distinção.
 
Amour também não surpreendeu ao ganhar o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. Não sou grande fã de Michael Haneke e preferia que este seu último trabalho tivesse ganho outro galardão: o de Melhor Actriz para Emmanuelle Riva, a protagonista de Hiroshima Mon Amour. Assim não o entendeu a "Academia", que deu o prémio à jovem (sessenta e dois anos de diferença para Riva), engraçada e para mim desconhecida Jennifer Lawrence, esperando que a sua carreira não despenque agora por aí abaixo.

Antes de Haneke, outro austríaco ganhou o Óscar de Melhor Secundário: Cristoph Waltz, de novo por um Tarantino, Django Unchained. Não sou também grande fã dos esguichos de sangue e de lutas em que vale tudo sobretudo tirar olhos, mas as actuações de Waltz costumam ser convincentes, e o filme era tudo menos politicamente correcto.
Ang Lee também ganhou (de novo) o galardão de melhor realizador, ele, que partiu de Taiwan e é agora um dos mais respeitados em Hollywood. E Ben Afleck, que nem estava nomeado para esse prémio, acabou por ficar com o de Melhor Filme pelo seu Argo, uma obra muito interessante e inteligente, com excelente fotografia, interpretações competentes e à qual nem falta suspense qb. Valeu até pelo seu discurso engasgado. E, claro, é sempre bom ver a outrora tão sofredora Adele ser galardoada com um Óscar, principalmente nas bodas de ouro de James Bond, pela sua envolvente Skyfall.


A reter: um conjunto de filmes estrangeiros que me pareceram interessantes (sobretudo o da famosa saga do norueguês Thor Heyerdahl pelo Pacífico, que espero que seja exibido nos cinemas de Portugal). E o facto de finalmente haver portugueses ligados a filmes vencedores de Óscares: a proeza coube a Rita Blanco, que faz de "concierge" em Amour. Mais sinais portugueses do que este é impossível.

quinta-feira, fevereiro 21, 2013

Estalinegrado, setenta anos


Volgogrado é uma cidade como tantas outras da sua dimensão, na Rússia. Cerca um milhão de habitantes, inúmeras fábricas e também ruínas industriais, modernos edifícios mostrando semi-prosperidade, metro de superfície, alguns teatros e um importante porto fluvial, essencial ao tráfego do Volga, o enorme rio que lhe dá nome.

O que a distingue é ter servido de palco da mais terrível batalha que a História regista, que durou cinco meses, em condições infra-humanas (apanhou o terrível inverno russo), no meio de ruínas e trincheiras, provocando cerca de dois milhões de mortos, entre soviéticos, alemães, italianos, romenos e húngaros e outras nacionalidades, mas que mudou decisivamente o curso da guerra contra os alemães.

Essa memória permanece na cidade, considerada talvez a principal das "cidades-heróis" da URSS, pelo seu papel e heroísmo na "Grande Guerra Patriótica", a sub-guerra dentro da II Guerra Mundial entre alemães (e aliados) e soviéticos, que estes venceriam e que tanto influenciaria a Europa nas décadas seguintes. Não faltam monumentos em memória da batalha, alguns edifícios escalavrados da época, e muita simbologia soviética, à mistura com marcos do capitalismo global que invadiu a ex-URSS. Talvez por isso a cidade seja um bastião do Partido Comunista russo, com um presidente da câmara igualmente comunista, se denomine Estalinegrado durante alguns dias específicos do ano, e haja mesmo um movimento que quer que a cidade volte definitivamente à antiga denominação que homenageava o tirano georgiano.
 
 
A 2 de Fevereiro passaram setenta anos desde a rendição dos alemães na Batalha de Estalinegrado. A Rússia obviamente não se esqueceu de uma das datas mais importantes da "Grande Guerra Patriótica", particularmente na cidade onde se deu a batalha, e Putin esteve mesmo nas comemorações que lá se realizaram, assim como a memória de Estaline. Mas não me lembro de ver na nossa comunicação social, sempre carregada com as últimas manchetes bombásticas, qualquer artigo ou sequer uma notícia da data. Nada. Pode ser distracção minha ou então grave lacuna dos jornais e revistas.
 
 
Para relembrar o acontecimento, podiam ao menos reeditar Estalinegrado, de Anthony Beevor, uma biografia da batalha há muito esgotada no catálogo da Bertrand, Será pedir muito?

segunda-feira, fevereiro 18, 2013

A queda de Pistorius

 
Depois de Lance Armstrong, eis outro desportista que subiu aos píncaros e caiu com estrondo. Oscar Pistorius, o homem das pernas de metal, o atleta das próteses, o campeão paralímpico que atingiu os olímpicos da forma como nunca antes vista, a grande inspiração para todos os deficientes físicos do Mundo, preso por assassinar a namorada. O caso é diferente do de Armstrong, porque não está em causa o seu valor como atleta nem qualquer subterfúgio ou falácia desportiva, mas talvez seja ainda pior. Ao assassinar a namorada, fosse por drogas ou loucura repentina, Pistorius deu cabo da sua carreira e da sua imagem de desportista indómito que conseguia ultrapassar obstáculos sobre-humanos. Mostrou-se afinal um desvairado, um homem violento capaz de disparar sobre a sua própria namorada. Ultrapassou incríveis barreiras físicas e psicológicas, mas, e quem sabe se algumas coisas não influenciarão outras (lembram-se dos auxiliares artificiais dos atletas da RDA?), cedeu à raiva e ao total descontrolo. E assim caiu mais um herói dos desporto, logo um que certamente  inspirou tanta gente limitada fisicamente. O mundo precisa desesperadamente de heróis, como bem sabiam os gregos. Mais crimes ou revelações de manias não, por favor.
 
 

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

Fúrias divinas


Há milénios que as tempestades, e particularmente as trovoadas, são interpretadas como sendo produto de uma fúria divina. Zeus dardejava raios do Olimpo, e para os nórdicos, Thor produzia-os a golpes de martelo. Ainda me lembro de ouvir mulheres a afirmar que quando havia trovoada era com certeza "Deus a ralhar".
 
Por muito que conheçamos os fenómenos metereológicos e as suas causas, há coisas que parecem mesmo demonstrar uma qualquer fúria divina. O terramoto descrito nos Evangelhos, quando Cristo expirou na Cruz, por exemplo, e cuja veracidade foi reconfirmada há pouco tempo. Mas nada desperta mais essa ideia do que os relâmpagos, por surgirem do negrume dos céus e fulminarem os seus alvos.
 
Na sequência do anúncio da renúncia do Papa, no mesmo dia, e a meio de uma tempestade nada estranha para a época, uma imagem condizente com o "estrondo" da notícia. Se passarmos o simples "fenómeno metereológico" e imaginarmos que seria uma mensagem divina, seria uma atitude de reprovação do gesto do Papa? Ou tal como no baptismo de Jesus, Deus quereria dizer "Este é o meu filho Bento, meu vigário sobre a Terra. Ouvi-o!"?
 
 

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

Uma renúncia inspirada pela Providência?


Como toda a gente, fui apanhado de surpresa pelo anúncio de renúncia do Papa Bento XVI ao Trono de Pedro, em plena travessia de um Marão coberto de neve. Já tinha pensado para mim próprio quanto tempo ainda duraria, dada a sua idade e alguns problemas de saúde, mas nunca me passou  pela cabeça que pudesse renunciar. Mais uma vez, Bento XVI surpreendeu-nos, tal como tem feito desde que ascendeu a Bispo de Roma, perante a desconfiança de muitos (eu incluído) por causa do seu cargo de Prefeito para a Congregação da Fé e da sua fama de "perseguidor de teólogos". Mas desde então, a ideia que tinha dele tem vindo, felizmente, a mudar por completo.

A "biografia" do seu Pontificado está bem resumida aqui, mas há alguns momentos a realçar, como as encíclicas Deus Caritas Est e Caritas in Veritate, o diálogo ecuménico com outros credos e com intelectuais ateus, como Habermas, ou as visitas arriscadas à Turquia, depois de mais uma polémica desencadeada por radicais islâmicos, e ao Líbano, em Setembro último, onde rezou uma missa para 350 mil assistentes quando a poucas dezenas de quilómetros dali continuava (e continua) a sangrenta guerra civil síria.
 
É verdade que a sua reconhecida inteligência e capacidade intelectual não evitaram um dos períodos mais cinzentos da Igreja Católica nas últimas décadas, com os tristemente célebres casos de pedofilia que vieram à tona (e a incapacidade para os resolver conjugada com más opções), a polémica com a questão de readmissão de alguns grupos integristas ou o recente caso do furto de documentos pelo próprio mordomo pessoal do Papa, o que levou à detenção deste e a revelar a guerra surda que se passa entre a Cúria. Mais: revelou que Bento XVI não era informado de um conjunto de assuntos de que deveria ter conhecimento. 
 
Também por isso se percebe o desgaste físico e psicológico do Papa. A idade não perdoa - quem, aos 85 anos, consegue passar o tempo a escrever matéria teológica com força ex cathedra, a rezar missas para milhares de pessoas, a receber em audiências semanais, a viajar para todo o mundo com uma agenda carregada, a ouvir os problemas de uma Igreja de mil milhões de seguidores - a sua saúde está em declínio, e nessas condições não tem já forças para afastar todos os problemas que o sobrecarregam. A decisão, surpreendente e estranha, não terá sido tomada de ânimo leve pelo bispo de Roma e grande pensador e teólogo que é Bento XVI.
 
A comparação com os últimos dias de João Paulo II é gritante. As opiniões dividem-se entre a "coragem e humildade" de Bento XVI e a "abnegação e sentido de missão" do antecessor. Recordo-me com sincera admiração do enormíssimo esforço do Papa polaco nos seus últimos dia, mostrando as suas fraquezas humanas a todos, sem se esconder dos olhos do mundo. E ao mesmo tempo não posso deixar de admirar o gesto quase pioneiro do Papa germânico, estrondoso, arrebatador e corajoso, pois provocaria sempre ondas de choque, que lhe dá um tremendo carácter de humanidade, com todas as suas fraquezas, que o coloca entre os restantes homens, como era Cristo na sua vinda ao Mundo.
 
 
Dizia um amigo meu que a concordância com gestos tão opostos era afinal a prova de um enorme relativismo por parte dos católicos. Esqueceu-se no entanto de um ponto: só ao Papa cabe decidir a sua continuação ou não no Trono de Pedro, pelo que só pode ser tomada se motivada por fortíssimos motivos. E que por ser uma decisão que só a ele cabe tomar, nela se manifesta a intercessão do Espírito Santo e a tão generalizada "infalibilidade Papal". Bento. XVI encontrou esses motivos, e ainda decapitou em boa parte os jogos de influências para a eleição do sucessor. É certo que mesmo em Castelgandolfo projectará sempre a sua sombra sobre o Conclave, mas permite que o novo Papa seja escolhido rapidamente e enfrente os problemas como ele já não podia fazê-lo e com uma renovada energia que ele já não detinha. Algumas decisões de homens da Igreja podem chocar e causar estranheza, mas não se duvide que nelas reside uma decisiva influência Providencial.

quinta-feira, fevereiro 07, 2013

"Casas de Brasileiro"


 
Sempre tive um fraco pelas chamadas "casas de brasileiro". Em tempos eram consideradas um símbolo de novo-riquismo e ostentação dos que voltavam a Portugal com grande fortuna feita no Brasil, para onde tinham partido décadas antes com uma trouxa e a roupa do corpo. Um pouco à imagem de muitos emigrantes que actualmente vêm de França ou da Suíça e constroem enormes vivendas de gosto duvidoso que os façam esquecer um passado pouco digno de memória. A grande diferença é que as casas dos brasileiros torna-viagem tinham na maioria das vezes uma sensibilidade estética e uma grandiosidade que os mamarrachos de betão actuais nem de longe nem de perto atingem (mas daqui a uns cem anos se verá se é mesmo assim ou não).
 
Talvez pelo seu exotismo ou por descender de um "brasileiro" que voltou à pátria, desde pequeno que estas casas me intrigaram. Há-as às dezenas pelo país, sobretudo no Norte e Centro, revivalistas, neomanuelinas, neogóticas, etc. A mais conhecida é o Palácio da Quinta da Regaleira, com os seus símbolo maçónicos e o seu poço iniciático, mas há muitas outras, como o palácio do conde Dias Garcia, em S. João da Madeira, a "Villa Idalina", em Seixas (talvez a de que me lembro há mais tempo), mesmo sobre a estrada e o rio Minho, o "castelo de Dona Chica", perto de Braga, a "Villa Campos" à saída de Vila Real, a Quinta do Montadonuma colina de Gaia sobranceira à foz do Douro, e tantas com menor ou igual valor arquitectónico.
 
Quem gostar destas construções pode ver a exposição de cinquenta fotografias de "casas de brasileiro" no Centro Português de fotografia, na antiga Cadeia da Relação, no centro do Porto. Não convém é haja grandes atrasos, porque só está aberta até dia 12 de Fevereiro, dia de Carnaval.
 
 

terça-feira, fevereiro 05, 2013

Princípio absoluto: final da Taça é no Jamor

 


Final da Taça que se preze é no belíssimo cenário do Jamor. Já passou pelas Antas e por Alvalade, certo (curiosamente, nunca pela Luz), mas não com a mesma mística e o mesmo simbolismo. Querer fazer a final da Taça em monos de cimento rodeados de nenhures como o Algarve ou Aveiro (ou mesmo Coimbra e Leiria), como sugerem os anti-Estádio Nacional, é pura tacanhez, ou então detestam a competição. Felizmente, e por ora, vai continuar a ser lá. Se tudo correr bem, irei pela primeira vez a uma final da Taça naquele estádio majestoso rodeado de bosques. Para ser perfeito, só mesmo se fosse de novo a 10 de Junho e desse para ir de comboio até à estação do Estádio Nacional. Mas que acima de tudo o Benfica ganhe o caneco, claro. Para alegria do povo...e minha.
 

A desaparecida estação do Estádio Nacional, terminal do ramal com o mesmo nome. Hoje em dia, no seu lugar, há um complexo de piscinas.

segunda-feira, fevereiro 04, 2013

Bond girl à falta de melhor


Vi há tempos o último James Bond, Skyfall, e fiquei dividido. Por um lado, não faltam boas cenas de acção, incluindo uma explosão na sede do MI-6 (curiosamente, dias depois de ver o filme ocorreu em Vauxhall, em frente ao mesmo edifício, do outro lado do rio, um choque entre um helicóptero e um guindaste, que provocou dois mortos e levantou suspeitas de atentado aos serviços secretos), um vilão ambíguo e torturado, o tradicional londrino e a curiosa homenagem a Sean Connery, indo às próprias raízes de Bond (além de uma espécie de eterno retorno em círculo ao início da carreira).
Por outro, a quase completa ausência de Bond girls, absurda e imperdoável falha, por certo com medo de acusações "sexistas", os irritantes estados de alma de 007, demasiado "introspectivo",  e claro, uma vez mais o próprio Daniel Craig, demasiado louro, demasiado atarracado, demasiado carrancudo.
 
Porém, há uma coisa há que desempata o julgamento: o tema título, de Adele, é do melhor, senão mesmo o melhor, que já ouvi em toda a saga. E isso já ajuda a decidir pela compra do bilhete, embora o filme já esteja a dar as últimas nos multiplexes. Mas não há problema, mesmo que resulte melhor com o resto da fita e no grande ecrã, não é preciso aturar a carranca de Craig para a ouvir. Adele é definitivamente a Bond girl do filme.

 

quinta-feira, janeiro 31, 2013

Jaime Neves, o homem certo na altura certa



O artigo do Público de 30/01, da autoria de Paulo Moura, sobre Jaime Neves, é o mais corrosivo que vi sobre o militar que agora nos deixou (descontando os comentários dos saudosistas do PREC, que o detestavam). Entre os louvores dos Comandos e dos muitos que lhe dão graças por ter provocado o estertor final dos que queriam fazer de Portugal um regime de loucos, e os insultos dos apoiantes desse projecto, refere-se a bravura do militar mas também as suas atitudes impetuosas e o seu carácter violento, nomeadamente na guerra em África, além de uma faceta conhecida: a de boémio, que surge aliás no antetítulo da sua recente biografia, de Rui Azevedo Teixeira (consta que na noite de 24 para 25 de abril de 1974 estava no cabaré Maxime, em Lisboa).
Como em todas as histórias com heróis, as proezas são sempre mitificadas e não se olha a defeitos. Jaime Neves, que comandava regimento dos Comandos, era trasmontano, como a maioria dos Comandos, gente resistente e habituada às contrariedades naturais, de São Martinho da Anta (também a aldeia de Miguel Torga), oficial duro, corajoso, impetuoso, a quem os seus homens seguiam sem hesitar. O homem certo no lugar certo. Na tentação de eliminar os inimigos, que tinham espalhado o caos pelo país, conseguiu controlar o desejo de sangue dos seus "boinas vermelhas". Obteve a rendição da Polícia Militar, guarda pretoriana da extrema-esquerda - se é que não é um contrasenso - e acabou assim com o PREC.

Depois disso, manteve-se nos Comandos, passou à reserva, e mais tarde receberia as mais altas condecorações militares e o posto de General, o que causou muito burburinho. Aí podem-se encontrar claras distinções com Salgueiro Maia. Mas no essencial, teve bastantes semelhanças com o mítico "Capitão de Abril". Tal como Maia, também Jaime Neves, ele próprio um dos militares de Abril, comandou os homens no terreno onde tudo se decidia, deu o peito às balas e tornou-se um símbolo da democracia. Podia não ser um homem de mil virtudes ou despojado, ou um político hábil, mas era um militar bravo, eficaz e competente. E isso era tudo o que no momento concreto se lhe exigia. Audaces Fortuna Juvat, como diz o lema dos seus Comandos. À sua audácia e dos seus "boinas vermelhas" devemos a nossa liberdade. Que descanse em paz.

terça-feira, janeiro 29, 2013

Surfando uma muralha de água


Hoje é impossível escapar a esta imagem avassaladora, ainda que igualmente enganadora. Ainda estamos em Janeiro, mas uma das fotos do ano será inevitavelmente esta que está reproduzida em baixo. E Garrett McNamara, se realmente ultrapassou o seu próprio recorde, vencendo uma onda de trinta metros, torna-se por direito próprio no maior cavaleiro de ondas à escala mundial.
 
 

segunda-feira, janeiro 28, 2013

Um Credo punitivo...


...segundo Johnny Cash

terça-feira, janeiro 22, 2013

Sucesso no "Dakar"


O "Dakar" de 2013 chegou ao fim, e Ruben Faria ficou em segundo lugar na prova de motas, a melhor posição de sempre de um português na competição. Para um auxiliar do seu companheiro e estrela da equipa, numa prova dificílima, é um resultado soberbo e que merecia maior atenção, tanto mais que num tempo de depressão colectiva (ou eufemisticamente falando, pior humor), as boas notícias de feitos portugueses devem ser sempre tidas em conta.
 
Mas reportando-me ao post anterior, e tendo em conta que a prova, que se mudou para a América do Sul e para o Atacama há uns anos por medidas de segurança, conserva símbolos do traçado original pelo Norte de África (a começar pelo nome, que inicialmente até era Paris-Dakar), pergunto-me se o logótipo irá permanecer? É que alguns tuaregues, outrora com uma imagem pacífica, ficaram conotados com o jihadismo e fanatismo islâmico, principalmente os do Ansar Dine. Conservar-se-à a imagem gráfica, símbolo de exotismo e aventura, ou, para não enaltecer o fundamentalismo maometano, será a prazo substituída por qualquer logótipo estilizado de um inca do Atacama?
 


 

domingo, janeiro 20, 2013

Os outrora "cobardes" enfrentando a crise do Mali


Há dez anos, os EUA, com o apoio do Reino Unido, da Itália, de Espanha, de países do ex-Pacto de Varsóvia, e simbolicamente, de Portugal, preparavam-se para invadir o Iraque com o pretexto de que o regime de Saddam Hussein teria em seu poder armas químicas e biológicas e que daria guarida a terroristas islâmicos responsáveis pelo 11 de Setembro. A França e a Alemanha opuseram-se terminantemente, embora tivessem os seus interesses próprios. Surgiu logo uma reacção a apelidar quem não apoiava a invasão de "anti-americanos", cobardes, "amigos dos terroristas", e Donald Rumsfeld falava das diferenças entre a "velha Europa" e a "nova Europa", ou seja, a que apoiava os Estados Unidos. Mas como se sabe, a invasão, feita com bombardeamentos maciços e posterior invasão terrestre, derrubou o regime e eliminou os seus dirigentes, mas atolou o país numa situação de ferro e fogo, dado que a desintegração do forte poder central exercido por Saddam e pelo seu Partido Baath permitiu a entrada dos jihadistas afectos à al-Qaeda, o que provocou centenas de milhares de mortos. Hoje já se vislumbra alguma luz para o futuro do Iraque, mas o quotidiano ainda é preenchido por atentados, rivalidades entre sunitas e xiitas (enquanto os cristãos fogem em massa) e instabilidade política.


A crise do Mali (e em toda a região do Sahel) domina agora as páginas das  secções internacionais dos órgão de comunicação social. Aproveitando um golpe de estado em Bamako, forças combinadas do Movimento Azawad, cujo objectivo é o de formar uma nação tuaregue na parte norte do Mali, do Ansar Dine, grupo jihadista islâmico tuaregue que pretende estabelecer a Sharia no país inteiro, e de outros grupos ligados à Al Qaeda do Magrebe tomaram todo o território setentrional do país, uma larga porção ocupada em boa parte por deserto e que vai até  às margens do rio Níger (via de comunicação por excelência da região, e que também passa em Bamako), incluindo as históricas cidades de Gao e Tombuctu.
Os tuaregues independentistas proclamaram em Abril a independência de Azawad, mas depressa se desentenderam com os jihadistas e começaram os combates entre as facções. Os integristas islâmicos, bem armados com os despojos do exértio líbio arrebanhados aquando da queda do regime de Kadhafi, e com auxílio dos grupos argelinos que nos anos noventa espalharam o terror na Argélia (e que se aproveitam da ausência de fronteira, em pleno deserto, entre os estados), tomaram várias cidades, como Tombuctu, a mítica urbe do Sahel, o antigo entreposto comercial onde negros e berberes se encontravam com a sua universidade corânica, as suas mesquitas de lama seca e sobretudo os seus 700 mil manuscritos e os mausoléus de santos islâmicos, venerados pela população. Os jihadistas consideram blasfemas estas construções e tais venerações e já destruíram uma parte importante dos monumentos sagrados da cidade, classificada pela UNESCO, perante a impotência dos habitantes, fazendo lembrar a destruição dos budas de Bamyan pelos taliban afegães.

 
As forças islamitas avançaram para lá do rio Níger, e a impreparação das tropas malianas levou o governo de Bamako a pedir auxílio internacional. Vários países vizinhos enviaram alguns contingentes, mas das potências ocidentais, só a França ocorreu, com o envio de tropas e ataques aéreos, a partir das bases que mantém no Chade e na Costa do Marfim, com a aprovação do conselho de Segurança da ONU. Todos os outros membros da NATO limitaram-se a dar apoio logístico ou de formação de tropas locais, mas não intervieram directamente. A França tem interesses óbvios na estabilidade de todo aquele espaço: alguns milhares de franceses vivem no Mali, e a economia da região é explorada em grande por empresas francesas, incluindo minas de urânio, fosfatos e de ouro. Mas acima de tudo, a ausência de ordem estadual num vasto espaço desértico e a fraqueza dos regimes vizinhos (ou a sua queda, como sucedeu ao da Líbia, curiosamente  provocada pela França, que beneficiou directamente estes grupos fundamentalistas) pode levar à criação de um vasto emirado regido pela sharia no centro de África, uma enorme base para grupos islâmicos que ameaçaria o Magrebe e seria também um perigo para todo o Mediterrâneo, incluindo a Europa. O interesse em neutralizar a ameaça jihadista é de todos os estados da NATO, como Portugal, e não apenas da França. No entanto, há hesitação em avançar no terreno, mesmo com toda a legitimidade, talvez pela dificuldade de lutar em zonas desérticas, sabendo-se que o adversário está bem armado, ou pela experiência traumática do Afeganistão e do Iraque.
 
 


Sim, dez anos depois, são aqueles a que muitos apelidaram de "cobardes" que lutam na orla do Sahara contra uma ameaça real e perigosa, sem inventar falsas armas nem usar invadir territórios contra a vontade dos locais. Já os antigos "combatentes pela liberdade" ficam de fora, dando "apoio moral" e tímidas formações. Quem disse que a França tinha desaprendido de combater enganou-se redondamente, tal como os que acreditaram que a invasão do Iraque era justificada. A História contemporânea tem ironias para dar e vender.

quarta-feira, janeiro 16, 2013

Nove anos


De ano para ano, surge um post com um número que lembra uma contagem crescente. Na realidade, trata-se apenas de mais um ano de A Ágora. Há nove anos, numa noite como esta, dei início a esta discreta página onde escrevo. Já se pode considerar algum tempo neste meio, em que constantemente vemos novos espaços a abrir e outros a encerrar (e infelizmente a desaparecer da nossa vista, sem deixar rasto). E a própria blogoesfera já atravessou picos de popularidade, quando as redes sociais e o twitter ainda não faziam sombra. Mas A Ágora chegou ao nono aniversário, e por aqui continuará enquanto o seu mentor tiver paciência e alguma coisa para dizer.
 
 

terça-feira, janeiro 15, 2013

A faustosa "vida privada" do sr. Relvas



As minhas desconfianças sobre as amizades de Miguel Relvas não eram em vão. Já tinha ouvido um rumor, mas ainda pensei que fosse uma notícia apressada. Mas não, era mesmo verdade, com pormenores agravantes: Miguel Relvas passou mesmo o reveillon no Rio de Janeiro, no Hotel Copacabana Palace, um dos mais distintos do Rio, e cujo preço é absolutamente proibitivo para quase todos os portugueses; a acompanhá-lo, Dias Loureiro e José Luís Arnaut. O primeiro dispensa apresentações, mais pelo seu papel na escândalo BPN do que pelo seu papel nos governos de Cavaco silva. O outro, que também teve cargos ministeriais, é um dos rostos principais dos escritórios de advogados a que o Estado recorre tantas vezes a peso de ouro, como ainda agora mesmo aconteceu, com as privatizações da TAP e da ANA. Mas ao grupinho luso juntou-se ainda outra figura: Paulo Maluf, ex-prefeito e governador de S. Paulo, ex-candidato presidencial (derrotado por Tancredo Neves), e um dos rostos da corrupção em larga escala do Brasil, com mandado de captura emitido pela Interpol por lavagem de capitais e fraudes várias. Ou seja, Miguel Relvas dá-se com os melhores representantes da corrupção brasileira, à esquerda (José Dirceu, o homem do "Mensalão") e à direita.

O mais incrível é que temos discutido assuntos como o "Zico" e a mala da Pepa Xavier mas aparentemente este assunto passou ao lado dos debates e dos opinadores do Reino. Apenas o Correio da Manhã e o Governo Sombra lhe pegaram, e bem, além do. Dirá o sr Relvas - peço desculpa, mas recuso-me a tratá-lo por um título académico que não me merece confiança - que não discute "a sua vida privada". Como disse João Miguel Tavares, "vida privada, o caraças": Relvas é um dos estrategas-mor de um Governo que cortou nos salários e nas pensões, que propõe às pessoas emigrar e que afirma que temos de empobrecer, é a ele que cabem alguns dos programas mais controversos, como as privatizações, e os seus rendimentos provêm do erário público. Estando reunido com gente que contribuiu para o descalabro moral e financeiro do país (e do Brasil, já agora), ou que está envolvida por fora no processo de privatizações, há uma quebra total da imparcialidade e compatibilidade que os governantes deviam respeitar acima de tudo, além de que parece uma piada de mau gosto quando a população portuguesa passa por sérios apertos económicos e mergulha numa crise de confiança. Do sr. Relvas, infelizmente, já se espera tudo (até que seja amigo de Madoff). Da nossa comunicação social, habitualmente tão lesta a denunciar os pecados da nação, é que esperava um pouco mais de investigação.

segunda-feira, janeiro 14, 2013

O idiota útil azulado

 
O Benfica tinha hoje uma hipótese de ouro para assegurar definitivamente o comando do campeonato e geri-lo até ao fim, mas falhou por erros defensivos inaceitáveis a este nível e porque não teve artes para fazer o terceiro golo quando teve essa oportunidade. A conquista do título torna-se agora mais complicada, com esta desvantagem e com uma penúltima jornada que acaba passa pelo reduto portista. O Porto soube aproveitar os erros, controlou o meio campo e limitou-se a gerir o empate na segunda parte. Há que reconhecer que têm boa equipa. Já do treinador não  se pode dizer o mesmo: Vítor Pereira é das coisinhas mais patéticas que o futebol português viu nos últimos anos. Figura avinagrada, treinador medíocre, consegue singrar graças ao conjunto de jogadores legado por Villas-Boas, não se sabe muito bem como, conseguiu ganhar o campeonato do ano passado (ao mesmo tempo que era corrido de todas as outras provas) e tem a mão de Pinto da Costa a ampará-lo a quem, como bom treinador portista, babuja. Num jogo com o Benfica no ano passado já tinha inventado uma história de uma agressão de Cardozo a um jogador portista (uma cena de teatro memorável). Agora, resolveu armar-se em pobre vítima e acusar o árbitro de não expulsar jogadores benfiquistas e de marcar foras de jogo inexistentes. Os jogadores em questão eram Matic (o melhor em campo) e Maxi Pereira, mas Moutinho e Fernando não desmereceram de menos "elogios". Quanto a foras de jogo, até o maior amnésico se lembrará da forma como o Porto ganhou na Luz no ano passado, com um golo estupidamente para lá da linha aceitável. Mas como obviamente estamos perante um capacho obtuso, obedecendo à voz do dono, que veio também ele criticar arbitragens depois de assegurar que não o fazia, não se pode esperar muito mais. Aliás, ainda há dias se tinha queixado de que "os entendidos diziam sempre que o Benfica estava melhor do que o Porto". Não disse quem eram nem deu exemplos, mas sendo isso uma rotunda mentira, também não podia fazê-lo. Vítor Pereira é o perfeito idiota útil azulado, que diz os disparates para galvanizar as massas ululantes.
 
Nos próximos dias, o Jornal de Notícias (que já tinha entrado na discussão, proclamando que o árbitro nomeado era o "dos túneis") irá certamente fazer eco das palavras da criatura, o Jogo realçará a "superioridade táctica" azul e branca, a Porto Canal discutirá o tema vezes sem fim, o Grande Porto indignar-se-à veementemente, Miguel Sousa Tavares escreverá n´A Bola que "o Porto demostrou ser a melhor equipa da Europa e a que melhor sabe empatar contra tudo e contra todos" e os portistas repetirão as palavras do pobre técnico que lhes arranjaram. Esperem e verão. É assim que funciona a propaganda, mesmo que o detonador seja um qualquer chico-esperto.

domingo, janeiro 13, 2013

Chávez e o chamamento irresistível do poder


Como se esperava, Hugo Chavez não tomou posse como presidente da Venezuela. Continua em Cuba, meio enfermo, ninguém sabe bem em que estado, depois de mais uma operação ao seu problema oncológico. Apesar disso, a cerimónia de tomada de posse teve mesmo lugar, depois do tribunal constitucional venezuelano considerar que a presença do presidente não era indispensável. em Caracas, juntaram-se milhares de apoiantes de Chavez, clamando pelo "comandante" como se Cristo estivesse prestes a vir à Terra. Na bancada, o vice-presidente, membros do governo e órgãos de soberania, vestidos de fato de treino. Ao lado, alguns chefes de estado sul-americanos amigos de Chavez (exceptuando Cristina Kirchner, que preferiu visitá-lo pessoalmente em Cuba, enquanto ia redigindo no seu avião presidencial cartas abertas ao Reino Unido reivindicando as Falklands, para disfarçar a contestação popular), como o impagável Evo Morales, gritando a plenos pulmões que o presidente venezuelano era "toda a América Latina". Os líderes do Brasil, Colômbia e Chile provavelmente terão opinião diferente e não marcaram presença, talvez por estarem demasiado ocupados a fazer com que os respectivos estados progridam. Em suma, toda a cerimónia de tomada de posse do ausente teve o seu quê de cómico, idólatra, de delirante e até de narcótico, sendo de crer que Morales tenha levado da sua famosa coca para o evento.

Não sei qual a legitimidade para esta investidura de cadeira vazia, mas também não sou especialista nas normas venezuelanas que incidem sobre os seus órgãos de soberania, nem sobre a "constituição bolivariana". Toda esta manifestação de endeusamento não surpreende naquele regime. Chavez não é um ditador, bem entendido, mas também não é um democrata exemplar. Usa o petróleo para dar a impressão de que governa para o bem-estar da população, embora Caracas seja uma cidade ainda mais violenta do que quando chegou ao poder, indício de graves problemas sociais. Controla com mão de ferro a comunicação social, não hesitando em proibi-la se lhe é desfavorável, nacionaliza empresas a seu bel prazer quando está para aí virado, hostiliza as oposições, e dá-se com gente duvidosa como Ahmadinejad, Kadhafi (em tempos) e Fidel Castro. Aliás, oferece anualmente ums barris de crude aos compañeros cubanos, em troca de tratamento médico para os seus problemas que são a causa desta confusão, se bem que os serviços de saúde da ilha sejam muito mitificados. Chávez  não é um tirano, mas um caudilho eleito, alguém que abusa do seu poder e o usa para lá da sua legitimidade. Como tal, não lhe desejo nenhum mal físico, muito menos a morte, mas simplesmente que tivesse perdido ou perca no futuro as eleições.

O que não deixa de espantar nisto tudo é que Chávez já está doente há algum tempo, e teve recaídas. Apesar disso, não deixou de se recandidatar à presidência do seu país. O aroma do poder é irresistível, sobretudo para os populistas, e o seu exercício um vício. Mesmo no seu estado de saúde, sem saber se poderia cumprir as funções ou não, Chávez candidatou-se ao cargo para se reelegitimar e ouvir os brados da multidão endeusando-o, numa espécie da culto de personalidade adaptado às circunstâncias. Mas a vertigem do poder chavista pode levar a Venezuela a uma cadeira presidencial vazia e a uma crise política. A uma tomada de posse surreal, que teve lugar sem o titular, já conseguiu.

 

sábado, janeiro 12, 2013

Para a próxima, a FIFA pode enviar o prémio no correio ao seu vencedor administrativo


Outro grande assunto que abriu a semana, sem ser o estudo do FMI: a quarta Bola de Ouro consecutiva para Messi. Dedididamente o catalão tem muito melhor propaganda e boa imprensa do que Cristiano ronaldo. Razão tinha aquele jornalista espanhol que saiu do seu próprio programa, quando chamou a atenção para o facto das capas dos jornais desportivos quase nunca incluirem o português, excepto por más razões. Vejam-se as semelhanças: Ronaldo em 2011 ganhou uma Taça do Rei e sagrou-se melhor marcador do campeonato. Melhor jogador: Messi. O argentino ganhou em 2012 uma Taça do Rei e sagrou-se melhor marcador. Melhor jogador? Messi. Nas respectivas selecções nem vale a pena fazer o exercício. Cristiano Ronaldo , quando voltou à forma, guiou Portugal até às meias finais do último Europeu, e só não conseguiu mais frente aos penaltys dos colegas de Messi. No ano passado, o argentino jogou a Copa América em casa, e caiu nos quartos de final perante o vizinho Uruguai, sem marcar um único golo. Depois, o facto de um ser português, um país menos influente, e outro argentino, uma "nação do futebol", também contribui para estes desfechos. Antes da sessão, já havia gente, como Depardieu, quem sabe se influenciado pela vodka do seu novo país, que dizia lá estar para ver a entrega do prémio a Messi. Assim escusam de organizar a cerimónia nos próximos três anos, porque o "galardão" está administrativamente prometido ao gnomo das pintas.
 
 
 
E como escreveram, e bem, várias pessoas, só o traje assim era motivo para não ganhar nada.

sexta-feira, janeiro 11, 2013

A mania do desculpadismo


E a propósito de redes sociais e discussões estéreis: os vídeos de Pepa Xavier e amigas poderão ser tontinhos. Mas a Samsung vir pedir desculpas por isso ainda é mais. Lá porque a escolha é desastrosa e as meninas revelam uma futilidade cómica, será mesmo preciso pedir desculpa? Cometeram algum crime ou revelaram algum pecado mortal (para além da vaidade e da avareza, claro) que outros não tenham? Os vídeos causaram hilariedade geral, não propriamente choque e pavor. Pode haver quem se sinta "ofendido", mas não há hoje em dia opinião, gosto ou comentário que não provoque logo múltiplas almas ofendidas.Vivemos na época do desculpadismo e de acusações de ofensas (muitas vezes presumidas ou até antecipadas) por tudo e por nada. Se não se começar a ligar, acabaremos por cair numa sociedade paranóica, se é que em parte já não é.


 

quinta-feira, janeiro 10, 2013

Fóruns nauseabundos


Confesso que tenho a incurável mania de correr caixas de comentários de redes sociais, jornais online, etc. Vício muito pouco saudável, porque além de nos fazer perder tempo precioso, põe-nos em contacto com a lama opinativa: frustrações pessoais, insultos rascas, ignorância inimaginável, remoques grosseiríssimos, enfim, todo o tipo de rasquices e misérias.
 
Dois exemplos: uma notícia pavorosa, em que uma criança de um ano e meio tinha morrido depois de ser atacada por um pitbull, em Beja. O sentimento geral devia ser de consternação, mas o que se nota é a apologia feita ao cão, que coitadinho, estava "mal educado e maltratado", era "guardado numa varanda", "devia-se sentir muito infeliz e reagiu assim", seguindo-se uma discussão sobre se a culpa é do cão, dos pais ou dos donos, quais as responsabilidades destes, se o cão seria realmente responsável, etc. Parece que a morte de um bébé que mal devia saber andar é uma questão de somenos. Por muita culpa que tenha o responsável pelo cão e os seus tratos, é impossível dissociar-se o animal (ainda por cima de uma raça potencialmente perigosa) da morte. Para cúmulo, a suspeita do costume nestes casos, a associação Animal, vem pôr em causa o relatório da autópsia insinuando que os ferimentos que provocaram a morte da criança não têm origem na mordedura do cão, e no seguimento disso lançou agora uma petição para se impedir o abate do cão, porque o cão, se atacou, "é porque teria algum motivo" e "merece uma segunda oportunidade". Eu, que nunca vi ser dada uma segunda oportunidade a um infanticida, nem justificá-lo com "um qualquer motivo", fico pasmado com estas pessoas que estão tão ruidosamente a manifestar-se por um cão (algumas chegam a dizer que "é a única vítima"), dando as desculpas mais ridículas e infames como se não tivesse acontecido nada de especial. E ainda há algumas que querem criminalizar os pais, como se a tragédia não bastasse. Gostava de saber qual seria a reacção se lhes tivesse acontecido o mesmo. Esta gente defende os animais raiando a loucura e é tão cruelmente desumana.

Ao mesmo tempo, sabe-se que Assunção Cristas, a Ministra da Agricultura e do Ambiente, está grávida do quarto filho. Uma novidade, ao que parece nunca um membro do governo tinha engravidado no exercício de funções. Implicará a sua substituição interina, como aliás prevê a Constituição, sem grandes problemas. Num país de baixíssima natalidade, ver uma mulher com pesadas responsabilidades públicas ser mãe deveria ser motivo de regozijo. Pois bem, vi uma caterva de comentários afirmando que "era uma afronta às trabalhadoras que não tinham meios para gerar filhos", que se quem desempenha funções governamentais "não pode ficar grávida", que "ia beneficiar de clínicas privadas com o dinheiro de todos", e coisas ainda mais baixas, incluindo desejos de que o parto corra mal. Sim, parece que Cristas se tornou numa criminosa e que engravidar é uma terrível ofensa, ao mesmo tempo que se defende o direito a abortar sem razões aparentes e com direito a pagamentos e subsídios pós-aborto pelo estado. Num país a envelhecer cada vez mais, recorde-se.

O que estas duas notícias revelam aparentemente têm pouco a ver. Mas há um elo em comum: uma inversão de valores, em que crianças são consideradas abaixo de cão e uma grávida se torna num alvo de insultos pelo horrendo crime de ser ministra e ser remunerada por isso. As redes sociais e os "fóruns" tornaram-se emissores destes excrementos escritos. Aquilo que só se via em tascas, obras e portas de casas de banho públicas cai no espaço comum de forma nauseabunda. E vemos assim o terrível código de valores contemporâneos no seu ponto mais baixo. Bem sei que não é toda uma sociedade que se revê naquilo, mas uma boa parte dela, o que mostra que a doença que a afecta é grave. Mais do que a pobreza material, a pobreza moral, o desprezo pelo Homem, a ignorância atrevida, a inveja e a pura maldade saltam à vista. A bem da sanidade mental, é melhor fingir que nem existem.

terça-feira, janeiro 08, 2013

Leituras



2013 começou, mas as leituras habituais de blogues mantêm-se. O que não quer dizer que não possa haver novidades. Na blogoesfera, a renovação do ar é sempre bem vinda.

Noite Americana continua a ser uma casa recomendável: lá se debate e se defendem valores, para além da nobre Sétima Arte, agora tão vulgarizada pelo pequeno ecrã, como o pluralismo, o fato de três peças (ou "terno"), os charutos e as sessões da meia-noite (ok, estes últimos já são antigos, mas lembrava-me), e isso porque já não há sessões das duas da manhã. Isto, há que reconhecê-lo, é autêntica defesa da civilização.
 
No Declínio e Queda, irmãmente divido entre esquerda, direita e centro psicológico, a discussão entre as vantagens do ensino misto e ensino diferenciado.
 
O Herdeiro de Aécio, sempre com memória oportuna, lembra-nos a grande querela entre Mário Soares e Basílio Horta, nas presidenciais de 1991, que envolveu acusações e insultos. Agora, aquele apoia este à câmara de sintra nas autárquicas do próximo ano. Que diria Basílio, agora um fiel "independente" do PS, se o inquirissem porque é que à época disse de Soares o que Mafoma não dizia do toucinho?
Também no mesmo blogue, uma das mais incríveis e absurdas decisões da blogger (ou não só?). A reverter rapidamente.
 
A Catedral da Luz está de novo activa. Ainda bem. Num blogue que se debruça sobre um assunto tão importante e com tantos colaboradores, exige-se mais assiduidade na postagem. Menos desleixo, confrades benfiquistas, que a época está a atravessar uma fase crucial.
 
Alguns, como o estetizante Ericeira Norte e o  borgeano Questão dos Universais desapareceram de circulação, sem deixar rasto. É pena.
 
 

sexta-feira, janeiro 04, 2013

Notas sobre a Bulgária - a velha capital


Por incúria e esquecimento, a última parte da trilogia búlgara a que me dispus a escrever ficou parada em 2012. Tentarei consertar essa lamentável falta, depois dos dois anteriores posts acerca do país, começando 2013 colmatando falhas que vêm do ano que agora passou.
Na Bulgária, como disse anteriormente, não abunda a arquitectura militar. Há contudo alguns exemplares notáveis. Regressando da costa, de novo pela planície trácia, inflecte-se para Norte, atravessando montanhas e velhas aldeias meio escondidas. Nas proximidades fica o Vale das Rosas, cuja essência para a indústria de perfumes e cosméticos é uma das grandes exportações búlgaras. Por entre os montes Balcãs, encontra-se a cidade de Veliko Tarnovo.
Está longe de ser uma das maiores urbes do país, que já de si não são enormes, mas também não é um vilarejo perdido. A cidade propriamente dita assenta num promontório sobre o rio Yantra, afluente do Danúbio, marcada por uma cascata de casas e igrejas, alguma indústria pesada e o estádio onde o nosso conhecido Balakov deu os primeiros toques, na zona mais recente, e um pequeno centro histórico de ruelas empedradas e salpicadas de habitações de arquitectura revivalista búlgara, que em boa parte data do século XIX, na emergência do moderno estado búlgaro pós-otomano. Aos seus pés, nas margens do rio, espalha-se o bairro de Asenova, zona de artesãos.


 Só por isso a cidade já seria encantadora e digna de um passeio. Mas a sua grande marca, o seu grande legado, é a fortaleza de Tsarevets. Assente numa elevação separada da cidade pelo rio, rodeada por uma impressionante paisagem geológica que bem podia servir de cenário a Westerns, esta cidadela era o centro e o símbolo do poder político e espiritual búlgaro na Idade Média. Veliko Tarnovo era então a capital do Império Búlgaro, que ombreava com o vizinho bizantino e frequentemente entrava em guerra e derrotava as potências em redor, incluindo os cruzados que tinham saqueado Constantinopla na infame Quarta Cruzada. Atingiu o seu apogeu territorial e cultural durante o século XII.


Em Tsarevets, protegido por uma ponte fortificada, rodeado de uma extensa muralha e bastiões, ficava o palácio real dos Tsars búlgaros, além de diversos mosteiros e igrejas, e outros edifícios, como a torre onde se crê que esteve aprisionado o Imperador latino de Constantinopla, Balduíno, depois de derrotado e capturado pelos búlgaros. No alto do esporão rochoso que encima a colina situava-se a Catedral Patriarcal, sede do poder religioso e dos patriarcas da igreja búlgara, onde os Tsars eram coroados.



Em fins do século XIV, depois de um progressivo declínio do império, os otomanos cercaram Veliko Tarnovo. A cidade cairia após poucos meses. A batalha de Nicópolis, poucos anos depois, em que uma coligação de cruzados de diversas proveniências foi esmagadoramente derrotada pelos turcos, selou o fim definitivo do Império Búlgaro e permitiu que os otomanos ocupassem o seu território durante quase quinhentos anos e tomassem, meio século depois, Constantinopla. Tsarevets seria destruída e permaneceria um monte de ruínas até ao século XX, já com a Bulgária independente, altura em que a reconstruiram, embora nem sempre obedecendo ao modelo original.

A cidadela é uma marca do "idade do ouro" dos búlgaros e um dos monumentos mais impressionantes do país. Entre os séculos XII e XIV, no seu apogeu, deveria ser uma das urbes medievais mais interessantes da Europa. Hoje, Veliko Tarnovo permanece uma bela cidade com um cunho medievo e de forte significado nacional, um pouco como é Guimarães para nós, e combina a beleza natural e original da paisagem a respeitáveis monumentos. Na entrada da ponte pedregosa que liga Tsarevets à cidade, encontra-se um leão de pedra, o animal símbolo da Bulgária. Diz-se que embora não haja memória de tal animal naquele território, as tribos búlgaras que lá chegaram traziam relatos de leões e da autoridade que impunham. Desde então, o leão rampante tornou-se o símbolo do Império Búlgaro da Idade Média, do moderno estado búlgaro (incluindo o regime comunista) e da capital, Sófia. Embora a Bulgária tenha mudado muito ao longo dos séculos, com ocupantes diversos e prolongados, novidades étnicas e regimes políticos completamente diferentes dos anteriores, há alguns símbolos que não mudaram, ou que reemergiram: a igreja ortodoxa, o alfabeto cirílico e o leão como símbolo de coragem e autoridade.

segunda-feira, dezembro 31, 2012

O 2013 possível.

 Aproxima-se o Ano de 2013, a largas passadas, e as principais tradições da noite já estão a postos: as uvas passas, o espumante, a gala do reality show corrente da TVI e os concertos nas principais praças do país.
Não é exactamente a minha comemoração favorita. Este stress com a meia-noite enerva-me. Este ano, ainda para mais, reina o pessimismo e está mau tempo. Aliás, de ano para ano diz-se sempre que será pior que o anterior. Como 2013 não prenuncia grandes acontecimentos que mudem a nossa comunidade para melhor, esperemos é que seja generosos nos sucessos individuais e do dia-a-dia. Ou então, nunca pior que 2012.
 
A única coisa que asseguro é que tenho vários posts em pré-publicação. Um bom ano, dentro do possível.

sexta-feira, dezembro 28, 2012

Norman Schwarzkopf R.I.P.


Há vinte e dois anos, o Koweit tinha sido brutalmente anexado pelo Iraque de Saddam Hussein, que considerava o emirado uma província iraquiana, e uma extensa coligação militar multinacional, comandada pelos Estados Unidos, que envolvia a maior parte dos países árabes e europeus (sendo Portugal a notável excepção), com base na Arábia Saudita, preparava-se para o fim do prazo do ultimato dado ao Iraque para retirar. Em Janeiro, como tal não acontecesse, desencadeou-se uma fortíssima e rápida operação, com o nome de Tempestade do Deserto, em que esquadrilhas de aviões bombardearam alvos cirúrgicos no Iraque, destruindo os quarteis-generais militares, os palácios de Saddam e a força aérea iraquiana. Tropas terrestres entraram depois em acção, derrotando "o quarto maior exército do Mundo" na "mãe de todas as batalhas", como soberbamente lhe chamava Saddam. Ficaram célebres as imagens de soldados iraquianos pedindo rendição nas dunas do deserto. Em poucas semanas, os iraquianos estavam repelidos, o Koweit livre, e a força multinacional decretava o fim das hostilidades, não sem que antes alguns soldados do Iraque matassem civis e ateassem fogo aos poços de petóleo, por vingança. A Guerra teve uma cobertura televisiva nunca vista até aí, através da CNN. No liceu onde estudava na altura, a excitação era tanta que até se acendeu um aparelho de tv no bar. Os militares da coligação multinacional eram então os nosso heróis de carne e osso.

Norman Schwarzkopf era o chefe desse coligação, o estratega da Tempestade no Deserto, graças à qual se infligiu uma pesadíssima derrota ao temível exército iraquiano e às ameaças de Saddam, mas que soube fazer cessar as operações de guerra quando os objectivos de libertar o Koweit estavam cumpridos. Depois disso, afastou-se da carreira activa das armas, e recusou os lugares políticos que lhe ofereceram. Ainda que republicano, teceu críticas à invasão do Iraque, em 2003, numa guerra à qual faltava a legitimidade que ele tinha quando traçou o estratégia vitoriosa em 1990. Morreu hoje, aos 78 anos, um dos últimos grandes generais americanos, da craveira de um Patton, de um McArthur ou de um Eisenhower. Dificilmente se encontram nos últimos trinta anos outros cabos-de-guerra que se lhe possam igualar.
 
 

Ilusões tidas como verdades

 
O assunto mais discutido neste Natal de 2012 é o do impostor Artur Baptista da Silva, tema de capas de jornais, de posts com muitos pontos de exclamação (no caso de alguns blogues, de credulidade embevecida) e de discussões nas redes sociais. Cheguei a vislumbrar o indivíduo numa repetição do Expresso da Meia-Noite; a princípio pareceu-me João Carlos Espada (que não consta que tenha falsificado as suas credenciais académicas), mas depois reparei que tinha outro nome e nem dei atenção, até porque não é o tipo de programas que se siga em cafés. Antes do programa semanal da SIC Notícias, Baptista da Silva já tinha sido conferencista de destaque em algumas instituições de renome. Só no início da semana é que se percebeu que o seu currículo académico tinha sido aldrabado, o seu cargo e o "observatório" da ONU a que dizia pertencer eram fictícios e que tinha estado até há um ano preso por burlas e falsificações várias. Tal experiência de vida, se fosse qualificada pela Lusófona, podia-lhe dar uma pequena equivalência com o grande catedrático da aldrabice Vale e Azevedo. Para acrescentar mais galões para essa equivalência, Baptista da Silva também esteve envolvido no futebol: presidiu ao conselho fiscal do Sporting ao tempo da presidência de Jorge Gonçalves (outro excelente exemplo, esse antigo presidente do clube do Campo Grande antes de se raspar para Angola). E o nome Artur lembra também o grande falsário Artur Alves dos Reis.

O que espanta é que mesmo depois de se saber isto, ainda haja gente que pense que "ele só disse verdades" e que "há burlões muito piores no governo". Até pode nem ser mentira, mas esta estranha simpatia pela personagem está mais ligada às suas declarações, em que ataca as medidas da Troika, culpa apenas a Alemanha pela crise do Euro, declara que há alternativas e que a ONU está empenhada em segui-las, etc. Muitos tomaram isto como verdade. Também Vale e Azevedo dizia muitas coisas que os benfiquistas gostavam de ouvir, mas não passavam de ilusões. Neste caso, parece que muitos tomam por verdades aquilo que gostariam de ver acontecer. E caem de novo na miragem do caminho menos espinhoso, mas inverosímil, que desde sempre inúmeros charlatães e vendedores de ilusões lhes colocam à frente. A história nada tem de novo.

segunda-feira, dezembro 24, 2012

Resumo


Um Santo Natal a todos.

quinta-feira, dezembro 20, 2012

O fim do mundo pode esperar


O Mundo acaba amanhã, no dia mais curto do dano? Segundo uma sistema de contagem do tempo atribuído aos maias (e a algumas seitas, histéricos e new agers mais crentes), sim. O problema é que há vários sistemas de contagem em diferentes cidades maias, sem falar nos utilizados por restantes povos da América Central. Assim, o apocalipse segundo os pré-colombianos parece  improvável, sobretudo para quem como eu dê mais crédito aos Evangelhos - como Cristo ainda não voltou segunda vez à Terra, não há que nos preocuparmos.
Mas seria também um tremendo egoísmo por parte dos maias, ou até uma flagrantíssima falta de oportunidade de nos mostrarem melhor as maravilhas da sua civilização. É que mais de vinte anos depois, temos aqui a sequela das Misteriosas Cidade do Ouro, estreadas há pouco nos países francófonos, mas que não têm, tanto quanto julgo saber, data marcada para ser vista em Portugal. Como antigo e saudosos fã da série, é um falta inominável não mostrarmos às novas gerações tão fabulosa série, que combina história (havia sempre no fim um micro-documentário muito didáctico sobre os factos reais que tinham inspirado o respectivo episódio), aventura e ficção científica. Para os maias, então, essa falta deveria dar condenação certa para serem os primeiros a perecer. O pecado da avareza não podia escapar sem punição.

terça-feira, dezembro 18, 2012

Só falta descobrir que Relvas é amigo de Madoff

 
Ao Ministro Relvas, cada cavadela sua minhoca. O negócio da muito anunciada privatização da TAP estava já longe de ser transparente ou proveitoso, quando o único candidato é um duvidoso empresário colombiano-polaco-brasileiro. Os dossiers respeitantes à comunicação social são ainda mais nebulosos e preocupantes: o Sol pertence há muito a angolanos, os jornais de Joaquim Oliveira, entre os quais o DN, o JN e o açoriano Oriental, para lá caminham. E agora, a quase prevista privatização de parte da RTP (e haverá mercado para isso?) parece estar reservada a uma empresa angolana constituída há pouco tempo para o efeito, pertencente aos detentores do Sol. Sim, a RTP, a televisão pública portuguesa, pode estar a caminho de ficar maioritariamente em mãos angolanas. Isto quando nem do governo nem da justiça houve a menor reacção aos artigos absolutamente trauliteiros e insultuosos de um tal Jornal de Angola, reagindo à notícia de que a PGR tinha aberto uma investigação a altas figuras angolanas por branqueamento de capitais. Para além do nível, demonstraram uma ignorância a toda a prova: o Expresso é "o jornal oficial do PSD", antes da chegada de Diogo Cão os indígenas "apenas se moviam para honrar a sua dimensão humana" e aparentemente, desconhecem o que é a divisão de poderes (pudera). O que tem o Ministro Relvas a ver com o caso? Simples, é ele o responsável pelas privatizações de todas estas emblemáticas empresas públicas. Só que agora, a juntar ao seu "extenso currículo", que lhe serviu para obter a licenciatura mais desleixada de sempre, e ao rol de amigos pouco recomendáveis, tem mais um para a colecção: José Dirceu, o ex-número dois do PT, o homem do "Mensalão", a primeira grande condenação penal de um político no Brasil. E é este homem uma peça-chave do governo. A quem estamos entregues, afinal?

quarta-feira, dezembro 12, 2012

Guterres e Durão: descubra as semelhanças

 
Durão Barroso disse há dias que recusava qualquer responsabilidade do seu governo no actual momento do país. É um claro contraste com António Guterres, que antes tinha assumido exactamente o contrário, ou seja, que os seus anos de governação eram também responsáveis pelo estado actual do país. Sabia que eram dois estadistas completamente diferentes, mas estas duas afirmações cavam ainda mais o abismo entre os dois. Mas há mais diferenças. Ora veja-se:
 
- António Guterres demitiu-se a abandonou a política activa, ocupando hoje um cargo que só em parte se pode considerar eminentemente político. Durão Barroso demitiu-se para não deixar escapar a oportunidade de ocupar o cargo político mais alto que podia alcançar.
 
- Guterres demitiu-se depois de uma derrota nas Autárquicas porque não tinha capacidade para continuar a chefiar o governo, e assumiu-o. Durão via as coisas malparadas também depois de um desaire, nas Europeias, e usou o novo cargo como pretexto para abandonar o governo.
 
- Guterres deixou o caminho livre para a sua sucessão no PS. Durão convidou um sucessor e impô-lo ao partido.
 
- Guterres preferiu que a sua saída fosse resolvida através de eleições, mesmo sabendo que muito provavelmente perderia. Durão escolheu Santana para o substituir no governo sem que se convocassem eleições (ainda que esta escolha dependesse sempre da decisão de Sampaio).
 
- Guterres cumpriu as promessas mais significativas (o célebre "diálogo", o Rendimento Mínimo Garantido e a não subida dos impostos), ainda que estas tivessem levado o país ao descalabro financeiro. Durão prometeu o choque fiscal e pôr ordem nas contas públicas (do primeiro nunca mais se ouviu falar, e as contas foram disfarçadas com receitas extraordinárias e antecipadas).
 
- O feito de política externa (e de toda a sua governação) mais relevante de Guterres foi a gestão do caso de Timor, que acabou com a libertação e posterior independência do território, coisa em que muito poucos acreditariam anos antes. O de Durão foi a famosa cimeira dos Açores, em que posou na fotografia com Bush, Aznar e Blair, e em que se decidiu a desastrosa e infundada invasão do Iraque.

- No caso de Timor, Guterres obteve um rotundo êxito e alcançou todos os objectivos. Durão teve três anos de conversações com a Indonésia e nada conseguiu.

Eis em curta síntese as principais diferenças entre Guterres e Durão Barroso enquanto estadistas e responsáveis pela governação do país (a responsabilidade pelas organizações a que presidem são de natureza diferente e não têm comparação, nem eu saberia fazê-la).



PS: no caso de Timor, diga-se em abono da verdade que durante o governo Guterres Suharto caiu do poder, o que muito ajudou a resolver o problema da ilha. Mas já na época Durão criticava o executivo português pelas opções que tomou, com os resultados bem conhecidos...

terça-feira, dezembro 11, 2012

Os "Abrantes" de Passos e Relvas

 
A ler esta sucessão de cinco posts que o Samuel escreveu no Estado Sentido - este, aquele, aqueloutro, mais outro e ainda outro. Infelizmente, os "Abrantes" continuam aí, os originais e os do actual governo. Depois dos boys socráticos imiscuídos nos blogues e nas redes sociais, temos agora os relváticos (à falta de melhor nome, porque este parece-me simbólico), pagos para a tarefa. Nada mudou no lobbying da net.

segunda-feira, dezembro 10, 2012

Niemeyer, mais próximo de Gaudi que de Estaline


A morte de Oscar Niemeyer, ainda que pouco imprevisível, dada a sua centenária idade e os seus recentes problemas de saúde, suscitou inúmeros artigos, retrospectivas e homenagens póstumas sobre a vida e obra do arquitecto brasileiro. Reviu-se a monumental construção de Brasília, essa nova capital surgida no sertão, que ainda hoje nos parece vanguardista, com a sua Esplanada dos Três Poderes e a Catedral em forma de coroa de espinhos; mostrou-se a conhecidíssima sede da ONU em Nova York e o bairro da Pampulha em Belo Horizonte, que anteciparam Brasília; explicitou-se que afinal o Casino da Madeira não era realmente de Niemeyer, porque segundo o próprio fora outro a acabar o projecto; passou-se ao de leve pela sede do PC francês, que com a leveza das suas linhas tanta carga ideológica lhe tirou, talvez antecipando o "Euromunismo" dos anos setenta; e ainda se chegou às últimas obras, como o extraordinário Museu de Arte Contemporânea de Niterói, que parece ter pousado directamente do espaço em frente à Baía de Guanabara. Houve mesmo espaço para alguma petite histoire curiosa, como a do colégio de Moimenta da Beira, que se inspirou no Palácio da Alvorada, de Brasília, para construir os arcos da sua fachada, tendo na altura recebido uma carta de apoio do próprio Niemeyer face ao desagrado que provocou entre as autoridades da época e à revolta a favor da obra. Aliás, a capital brasileira não cessou de povoar o imaginário por este país fora - em Vila Real, um prédio modernista dos anos sessenta ainda hoje é conhecido como "edifício Brasília"; e não esqueçamos o mítico shopping da rotunda da Boavista, que lá está em pleno funcionamento.
 
Mas também se falou no seu percurso de (longuíssima) vida e na sua orientação ideológica. Niemeyer permaneceu comunista até ao fim da vida, era amigo do histórico líder Luís Carlos Prestes, chegou a presidir ao PCB e viveu exilado durante a ditadura militar. Era autor também de algumas obras emblemáticas de partidos comunistas outora pujantes, como a supracitada sede do PCF e a do seu órgão oficial, L´Humanité, em Saint-Denis. Elogiou mesmo publicamente Estaline há não muitos anos.


Contudo, Niemeyer estava a anos-luz da arquitectura estalinista que se abateu sobre a URSS e os países do Pacto de Varsóvia depois da 2ª Guerra, com edifícios de estado esmagadores e funcionais. Os seus projectos demonstram antes uma leveza, uma preocupação estética que o afasta irremediavelmente dos modelos totalitários vigents nos estados comunistas. Talvez consequência de ser brasileiro e meridional, preferiu sempre a estética à funcionalidade, a leveza à imponência, as curvas ondulantes às rectas precisas e rígidas. Neste último aspecto aproxima-se de Antoni Gaudi, outro génio da arquitectura do século XX, que dizia que "a linha recta é do homem, e a curva de Deus". Não sendo religioso, apesar das suas obras para igrejas, Niemeyer procurou de certa forma atingir também o transcendente através do belo que criava com as suas obras, escapando às convenções arquitectónicas mais utilitaristas. Como ele próprio dizia, "não é o ângulo recto que me atrai. Nem a linha recta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual".

 

quinta-feira, dezembro 06, 2012

A frustração no Nou Camp


 
Um empate em Barcelona seria à partida um bom resultado se outras fossem as circunstâncias. Obrigado a ganhar para não depender de uma eventual "ajuda" do Spartak de Moscovo em Glasgow, o Benfica desperdiçou oportunidades sobre oportunidades de golo e a consequente vitória no Nou Camp, ou Camp Nou (que seria histórica, para contar às gerações futuras) e é assim despromovido para a Taça UEFA, ou Euroliga, ou lá como lhe chamam agora. As culpas devem ser assumidas, e o Benfica não pode deixar de o fazer, até porque se exigia mais em Moscovo e Glasgow. Ainda por cima os culés entraram com muitas reservas (mas de qualidade, sigam bem aquele Deulofeu), controladas pelos "velhinhos" Puyol e Villa, e só depois lançaram Messi. O Benfica também tinha muitas baixas e teve de levar alguns jovenzinhos, mas nem isso basta para justificar a "vitória moral". Empatar ali é bom, seria bom em 1992 e 2006, quando enfrentámos dos dream teams da época. Mas ontem o que se queria era ganhar. Não ganhámos e vimos uns toscos de uns irlandeses que jogam na Escócia a classificarem-se graças a um penalty inventado. É algo injusto, mas que nos sirva de lição para no futuro não ficarmos dependentes de irregularidades que aproveitem a outros e cumprirmos a nossa parte, coisa que deveria ser muito bem explicada aos nosso avançados. Os jogos com Celtic já parecem sina: sempre que os defrontamos, ficamos atrás na classificação, mesmo que não nos provem ser inferiores, ou pior, somos eliminados com base na pura sorte. Espero não os ver tão cedo. Ainda assim, ninguém se ficou a rir em Nou Camp: o Benfica pela eliminação, o Barcelona porque obedeceu aos pedidos dos adeptos e viu Messi lesionar-se. O desejado recorde do maior número de golos num ano civil fica assim adiado...ou ameaçado.
Única coisa a reter de bom, além dos 500 mil euros do empate: Ola John é mesmo um futuro craque.
 
 

terça-feira, dezembro 04, 2012

Quando as qualidades dos portugueses superam os seus defeitos

 
O Banco Alimentar contra a Fome conseguiu reunir no último fim de semana um número de ofertas semelhantes às de 2011. Havia preocupações depois da campanha de insultos a Isabel Jonet, Felizmente, a grande maioria das pessoas, independentemente de concordar ou não com as palavras recentes da coordenadora da federação de Bancos Alimentares, soube separar o essencial do acessório e contribuiu largamente, coisa tanto mais importante numa altura em que aumenta a população em risco de pobreza. Quanto aos inúteis que vieram com a conversa da "caridadezinha" e que se fartaram de prometer que "nunca mais dariam um grão de arroz para essa instituição" (frase curiosamente repetida nas redes sociais sempre com as mesmas palavras), ou nunca tinham dado antes ou então a sua contribuição era muito fraquinha. Como se viu, não fizeram falta e as suas ameaças e impropérios não tiveram qualquer resultado.
No Banco Alimentar do Porto as ofertas de alimentos conseguiram mesmo superar as de 2011. Quarenta mil pessoas ofereceram-se como voluntárias. E a alegria do trabalho própria destas campanhas voltou a ser a regra, nos armazéns ou locais de recolha. Se fosse igual na maioria das empresas, estou certo de que a produtividade seria bem maior. Uma das maiores qualidades dos portugueses é a solidariedade e a partilha em tempos de crise. E um dos maiores defeitos a maledicência e a criticazinha fácil e intriguista. Parece que neste fim de semana aquelas superaram largamente estas. Este país não é tão mau como às vezes se diz.

sábado, dezembro 01, 2012

O último dia oficial da Restauração


Já estamos a 1 de Dezembro. O último em que é feriado. Para o ano não notaremos muito, mas daqui a dois anos sairemos para ir trabalhar neste dia em que durante mais de um século se comemorou a Restauração da independência de Portugal. Em nome da "produtividade", e obedecendo a estudos dessa credível instituição que é a Universidade Lusófona que nos preparou o ministro Miguel Relvas e que juram que cada feriado custa 37 milhões de euros ao país, resolveu suprimir-se quatro feriados, entre os quais o mais importante e simbólico, o da própria independência do país. Nos dias 1 de Dezembro dos próximos anos, as comemorações, que já eram pobres e nem incluíam altas figuras de estado, resumir-se-ão a uns beberetes nos salões nobres de alguns municípios e pouco mais. Haja esperança que futuros governos reponham o 1 de Dezembro como Feriado Nacional. Mesmo Paulo Portas já admitiu que daqui a cinco anos deveria haver uma revisão, como com os religiosos. Não é mais um dia de descanso, é mesmo a memória de um momento fulcral da nossa História que está em jogo.
 
A ironia da coisa é que um dos programas mais aliciantes do dia de hoje é o debry madrileno, entre o Real de Cristiano Ronaldo e Mourinho e o Atlético de Radamel Falcao. E a 1 de Dezembro só podem ganhar os portugueses.