A derrota no Parque dos Príncipes é deprimente não pelos números nem pelos pontos, porque já se sabia que este PSG não somente tem fundos sem fundo para fazer compras e que Ibrahimovic, Lavezzi e Cavani juntos são aterradores, mas é enfim uma equipa entrosada; o que aflige é a exibição apática, sem chama, própria de amadores, que já se tinha verificado contra o Belenenses. O problema do Benfica não são os erros de arbitragem e as lesões (que existem e não ajudam): o problema é o estado de depressão que vem da época passada, contaminou os reforços e faz com que, segundo a imprensa desportiva o confirma, a relação entre os jogadores e Jorge Jesus seja tensa. Quando um treinador não tem o balneário consigo, os maus resultados são uma certeza. Confirma-se que Jesus é o problema, e não a solução, e que o prazo de validade se esgotou no fim da época passada. Só que a resolução desse problema vai-nos custar caro. Seria bom tentar salvar o que ainda pode ser salvo e começar já a pensar a sério na próxima época. Isto se Vieira não estiver tão agarrado ao poder que prefira afundar-se lentamente e prejudicar o clube a reconhecer os seus erros...ou a sair pelo seu próprio pé.
sexta-feira, outubro 04, 2013
quinta-feira, outubro 03, 2013
Rescaldo autárquico (global)
E vamos agora aos resultados das autárquicas fora do Porto. Ouviram-se muitas análises, mais ou menos a quente, muitas absolutamente divergentes, algumas totalmente desconexas.
O PS ganhou. Não há que relativizar nem camuflar. O PS é o vencedor destas eleições e muda assim o ciclo de doze anos, em que normalmente o panorama camarário dá uma volta - tinha sido assim em 1989 e 2001. Ganhou em Lisboa com uma maioria inédita para um só partido (eu sei que a vitória é de António Costa, mas que eu saiba ele ainda é do PS, e seria bom não esquecerem os movimentos de Helena Roseta e Sá Fernandes), reconquistou Sintra, Gaia, Gondomar e Valongo (para quem não reparou, voltou a ser o partido dominante no Grande Porto), conquistou pela primeira vez Vila Real e o Funchal (com uma larga coligação), e teve um resultado no Porto que não envergonha. Como as autárquicas são uma infinidade de eleições, também teve alguns desaires de monta, como a Guarda, Braga (finalmente), e sobretudo as que perdeu para a CDU: as capitais distritais Évora e Beja, a populosa Loures, Grândola, Alcácer, etc. No cômputo geral, é uma vitória clara - ganha metade das câmaras - mas não tem muitos mais votos que o PSD. E o aviso dos independentes também se lhe aplica. Nos próximos 12 anos deverá ser o partido maioritário nas autarquias.
O PSD perdeu com estrondo. Perdeu o Porto de forma humilhante, Sintra, Gaia (aqui perdeu cerca de 40 pontos em relação a 2009), Vila Real, Coimbra, Funchal, e nos grandes centros urbanos, a começar por Lisboa, teve resultados anedóticos, mesmo em coligação com o CDS. Símbolos maiores da clara derrota foram o Porto, para onde Menezes tinha deslocado mundos e fundos, e a Madeira, onde o jardinismo se esboroa a olhos vistos e da totalidade das câmaras passa a apenas quatro, perdendo mesmo a capital regional. De conquistas de registo temos a Guarda, desde sempre do PS, e Braga, onde Ricardo Rio conseguiu à terceira tentativa acabar com o feudo de Mesquita Machado e herdeiros. Manteve ainda capitais de distrito onde o anterior titular se retirava (Bragança. Aveiro, Viseu, Santarém, Faro, Ponta Delgada). Não sei quais os "efeitos nacionais" que se podem retirar daqui, mas de certeza que não são muito bons.
A CDU faz lembrar aquele exemplo do relógio parado que acerta duas vezes ao dia. Depois de tantos anos a afirmar que "os objectivos foram cumpridos", teve enfim toda a razão: ganhou inequivocamente e atingiu os seus grandes objectivos: subiu em votos e mandatos e reconquistou câmaras emblemáticas, como Évora, Beja, Loures e Grândola. Voltou a dominar o Alentejo e a margem Sul do Tejo, afirmou-se novamente como uma poderosa força autárquica, meteu o Bloco no bolso e rejuvenesceu o eleitorado e os candidatos (se bem que tenha recorrido a alguns "dinossauros"). A acompanhar com atenção.
O CDS pode esboçar algum pequeno sorriso, mas longe da euforia de Portas e do "penta". Travou um declínio até agora imparável, descolou da única câmara que tinha, conquistando cinco, aumentou a influência nas ilhas e acompanha o PSD nalgumas vitórias de coligação. Mas ao mesmo tempo partilha com os "laranjas" algumas derrotas humilhantes, e em termos de votos nacionais subiu pouquíssimo. E olhando mais de perto, teve votações residuais, quase invisíveis, em autarquias que tem tempos dominou (Bragança, Vila Verde, Paredes, S. João da Madeira). Tem uma quota parte de mérito na vitória de Moreira, mas menos do que o que quiseram fazer crer. Já não é o partido de uma câmara só, mas está ainda muito longe de voltar a ser uma força local a sério (como a CDU).
O Bloco confirma-se como agregador de votos urbanos nalguns nichos específicos. Municipalmente, vale quase nada. Ninguém está interessado em atitudes de protestos e propostas fracturantes para resolver os problemas locais. Por isso perderam Salvaterra e nem o "coordenador" conseguiu entrar na vereação de Lisboa, mais uma vez. Deve ser a maldição de Sá Fernandes. No Porto, outro resultado decepcionante, e nem os movimentos que apoiaram em Braga e Coimbra tiveram grande êxito. Comparativamente com a CDU, fazem figuras de anões. Não adianta falar na "derrota do governo", até porque nas explicações para o desastre meteram os pés pelas mãos.
Os independentes, guindados pela sucesso de Rui Moreira (mas também pelos casos de Matosinhos ou Portalegre) ganharam um enorme destaque. Já não era sem tempo. Já lá vai o tempo em que os partidos se julgavam donos e senhores dos votos e das câmaras, mas aparentemente nem todos entenderam isso.
Gostei: obviamente da vitória no Porto da candidatura, que apoiei e na qual quase ninguém acreditava no início; das mudanças em Vila Real (desde 1976 nas mãos do PSD, e a que o meu Avô presidiu no tempo da outra senhora) e Braga, do triunfo de Guilherme Pinto em Matosinhos e do terramoto na Madeira. Não gostei da vitória dos Isaltinos em Oeiras e da derrota do PSD em Caminha (o candidato parecia-me um homem sério). Bem vistas as coisas, foram umas boas eleições.
Momentos que ficaram da noite: Guilherme Aguiar e CAA a reivindicarem ambos terem sido a escolha pessoal de Luís Filipe Menezes e a histeria em volta de Isaltino, que levou uns quantos perturbados a irem vitoriá-lo junto aos muros da prisão.
segunda-feira, setembro 30, 2013
Rescaldo autárquico: a vitória anunciada de Rui Moreira
Ainda a contas com défice de sono depois da extraordinária noite de ontem, faço finalmente o balanço das Autárquicas. Mas devagar, porque muito há a dizer e a temperança é uma virtude cristã. Por isso, vou-me cingir para já ao que se passou no Porto, e noutro post falarei dos outros resultados.
A vitória de Rui Moreira apanhou muitos desprevenidos. Havia quem começasse a acreditar que podia acontecer a partir do momento em que foram divulgadas as sondagens da Universidade Católica que lhe davam um curto triunfo. Mas a maioria caiu de quatro: quase todas as sondagens previam a vitória de Menezes, e os analistas de TV iam atrás desses números. Rui Moreira era um outsider simpático, mas pouco mais.
Mas quem seguia, e sobretudo, quem participava na campanha fazia outro tipo de previsões. O exemplo da vitória de Rio sobre Fernando Gomes, em 2001, estava na memória de todos. Os contactos de rua também eram animadores. Além disso, os excessos de campanha, numa altura em que se pede contenção e austeridade, eram contraproducentes. Desde o início, a apresentação no Ferreira Borges, que mais e mais gente se começou a entusiasmar com a candidatura independente. O CDS-PP, horrorizado com a hipótese de Menezes atravessar a ponte, deu o seu apoio a Moreira. Alguns militantes do PSD, como Miguel Veiga, também. Na altura, aí por Abril, em que entrei nas primeiras acções de campanha, lembro-me de nos cálculos que fazia com pessoas amigas, em que apostava que Moreira conseguiria mais de 15% dos votos, O vencedor seria Menezes, com todo o seu CV de autarca e o séquito laranja, ou Manuel Pizarro, confiante na força do PS portuense e na divisão de votos. Mas o tempo passou, e chegado o Verão, já se acreditava que a campanha rua a rua, porta a porta, e a persistência trariam um combate mais interessante. Há poucas semanas, convenci-me finalmente que a vitória era realmente possível. As últimas sondagens não me espantaram nada mesmo (até porque sabia que o JN estava descaradamente com Menezes). Espantou-me, sim, a dimensão da vitória de Rui Moreira, e a derrota clamorosa e humilhante de Luís Filipe Menezes, que muitos consideravam que daria um passeio de uma margem à outra do rio.
Digam o que disserem, Moreira é o grande vencedor destas autárquicas. António Costa era um vencedor anunciado e os seus opositores estenderam-lhe uma passadeira vermelha. Pela primeira vez, uma candidatura independente ganha uma grande câmara no país. O rótulo de "candidato de Rio e do CDS" é redutor e ignorante. Moreira, que presidiu até há pouco à Associação Comercial do Porto, é um digno representante da burguesia liberal portuense, e os habitantes da cidade reconheceram-no. Ganhou contra aparelhos partidários, jornais e analistas televisivos, sondagens, bloggers, campanhas bojudas e com meios sem fim, troças e remoques; só não se pode dizer que ganhou "contra tudo e contra todos" porque seria injusto: ganhou COM uma larga fatia dos portuenses. É uma vitória que prescinde de caciques, ajudas líderes partidários nacionais, aparelhos eleitorais e até, como confirmei hoje, da tradicional visita ao Bolhão (cuja reabilitação, de resto, está contemplada no programa eleitoral de RM). Não precisou de nada disso para obter uma vitória seguríssima, que se estende à conquista da Assembleia Municipal e de 5 das sete (novas) freguesias da cidade. É o novo Presidente da Câmara Municipal do Porto com todo o mérito.
Do lado dos adversários, Pizarro, que terá algo a dizer na nova vereação camarária, saudou a vitória de Moreira com visível alívio, já que não só impediu a tomada do poder por parte de Menezes como ainda conseguiu um honroso segundo lugar. Já o ex-autarca de Gaia teve até um discurso invulgarmente digno e tranquilo, envolvido num ambiente sepulcral. O mesmo não se pode dizer de alguns dos seus apoiantes, que aparentemente, não perceberam nada. Não perceberam que o "politiquez" que se usa nos aparelhos partidários nada diz às pessoas, que a política das prendas e dos grandes gastos de campanha, das promessas de tudo e mais alguma coisa já nada garantem, e que sobretudo essa mania de falar aos eleitores como se eles fossem pobres patetas é chão que deu uvas. Acabou. Rui moreira demonstrou isso mesmo. Mas os derrotados desta noite devem aproveitar para meditar e perceber os seus erros, e não atirar as culpas para cima dos eleitores, que "preferem ser enganados". Neste rol meto também alguns bloguistas que compensam o seu patético despeito pré-eleitoral com análises tão estapafúrdias na sua evidentíssima azia que nem ao menos disfarçam um bocadinho que seja. Nestes casos, a desonestidade intelectual paga tornando-se puro objecto de gozo, como os respectivos comentários atestam.
Moreira ganhou, e ganhou bem, não porque tinha o apoio do CDS, de Rio ou de Veiga e demais "históricos do PSD", mas porque soube conquistar os portuenses, que viram nele um digno representante sem passado de dirigismo partidário. É uma enorme lição e uma oportunidade que o país deve aproveitar. Se não o fizer, o aparelhismo partidário acabará (ou será substituído) de maneira mais dolorosa. Mas no Porto, a hora é de esperança e de orgulho. Terei saudades desta campanha renhida mas alegre, em que se gritava "o meu partido é o Porto". Mas nesta cidade, confiança não falta.
sexta-feira, setembro 27, 2013
Os veículos das campanhas
Habitualmente sigo muito cada eleição autárquica. É por aí que se conhece o chamado "país real", que se ouve falar de terras até aí desconhecidas (conheci de nome imensos concelhos só por causa destas eleições), que se vêm as mais divertidas e disparatadas campanhas, que se viaja no fundo um pouco por todo o território. E até o peso sociológico dos partidos pode ser avaliado com o passar dos tempos - concelhos que com a mudança do presidente passam a mudar a cor do voto em todas as eleições, por exemplo, o desaparecimento do CDS da Beira interior, onde já dominou, a menor influência do PCP no Alentejo e na "cintura industrial de Lisboa", etc.
Para além dos resultados, sigo as campanhas. E esta, a par dos "tesourinhos das autárquicas", dos comícios-concerto e dos porcos assados, revelou um fenómeno curioso: a Vokswagen Kombi, ou Transporter, vulgarmente conhecida como "pão de forma", tornou-se um dos veículos mais usados na propaganda eleitoral. Esta velha e fiável carrinha, venerada pela geração flower-power, é um dos grandes mitos automóveis, pelos milhares de unidades construídas e por um certo romantismo construído à sua volta. E muitas foram recuperadas para andar pelos concelhos fora, como veículo de campanha (literalmente), com alguns resultados engraçados. Na de Rui Moreira, por exemplo, a "pão de forma" tornou-se num ex-líbris da sua campanha, sempre com a "juventude moreirista" em grande algazarra. Em Bragança, Júlio Meirinhos, o ex-autarca de Miranda e antigo Governador Civil que tenta reconquistar a capital do Nordeste transmontano para o PS, usa uma como sede móvel de campanha. e tenho notícias de outras, que agora não me ocorrem.
Simplesmente, soube-se há pouco que a Volkswagen não mais produzirá as "pães de forma", fechando a última linha de montagem, no Brasil, no fim do ano, devido a novas regras de segurança que não são adaptáveis às célebres carrinhas. A notícia não apanhou ninguém de surpresa, já que se previa o fim muito próximo. Assim sendo, o que motivará o seu uso massivo nas eleições, ou noutros contextos (ambulâncias, por exemplo)? Será o revivalismo que surgiu de súbito com o pré-anunciada fim de linha? Ou o espírito "peace and love" invadiu as campanhas eleitorais? Olhando para as habituais guerrilhas, parece menos provável do que a primeira hipótese. Ou talvez quisessem manter um espírito de romantismo, ou uma imagem de irreverência, de "juventude", para cativar os eleitores. De facto, as campanhas autárquicas precisam de algum sangue novo, se bem que por vezes exagerem e acabem em autênticas criancices. Seja como for, as históricas carrinhas dão mais cor e simpatia às campanhas. Por mim, podem continuar, até porque, avaliando o enorme número que saiu das linhas de montagem, não vão desaparecer assim tão cedo.
Antes das autárquicas
No próximo Domingo teremos as eleições autárquicas mais
importantes de que tenho memória. Por um conjunto de razões: porque prenunciam
o fim de um ciclo eleitoral, que normalmente se altera de 3 em 3 eleições (e
pudemos ver isso em 1989 e 2001), dando primazia a um dos partidos do poder;
porque a lei de limitação de mandatos finalmente estabelecida marca o fim dos
dinossauros autárquicos, alguns na cadeira desde os anos setenta, se bem que se
possam candidatar a outras autarquias (o que não é bem a mesma coisa), o que
irá provocar alguns pequenos sismos e mudar a composição de muitas câmaras onde
os partidos dominantes já tinham criado raízes; e porque finalmente assistimos
a uma verdadeira disseminação de candidaturas independentes.
Até agora, a maior parte destas listas era de independência
duvidosa, já que se tratava, na prática, de uma qualquer secessão num partido
de determinado candidato preterido pela escolha de outro, ou pelo seu
afastamento ditado pelas cúpulas partidárias. Houve algumas tentativas de se
formarem reais listas independentes, como o movimento de Helena Roseta, em
Lisboa, que rapidamente acabou absorvido pelo PS, mas na realidade apenas em
juntas de freguesia se conseguiram levar a votos – e à vitória – listas sem
ligações partidárias.
Agora observam-se outros movimentos que não apenas os
recusados que abandonam o partido. Fenómenos que acontecem em cidades de relevo, como Coimbra
ou Tomar, e em concelhos menos visíveis, como Oleiros. E, evidentemente, no
Porto, onde se verifica a mais interessante experiência deste tipo – e não falo
do ex-socialista Nuno Cardoso.
Desde há muito que se sussurrava que Rui Moreira, até há
pouco presidente da Associação Comercial do Porto e habitual comentador de
jornais e televisões, poderia ser candidato à Câmara do Porto. Em Março,
perante uma enorme plateia no simbólico Mercado Ferreira Borges, lançou
finalmente a sua candidatura independente. O CDS-PP, que não se revia nos
projectos que o candidato do PSD tinha para o Porto, deu-lhe o apoio oficial,
prescindindo de avançar em listas próprias. Moreira aceitou o apoio mas não
estabeleceu qualquer compromisso, preferindo manter-se liminarmente
independente. A princípio, havia regozijos com uma candidatura que poderia
baralhar as contas e trazer uma lufada de ar fresco à campanha. A pouco e
pouco, percebeu-se que uma maior ambição era justificada. De repente, Moreira
surgia nas sondagens em segundo, à frente do candidato socialista, Manuel
Pizarro, e logo atrás do “vencedor anunciado”, Luís Filipe Menezes. O
entusiasmo encontrado nas ruas, mesmo em locais onde se pensou que se encontraria
indiferença ou hostilidade, deu razões para acreditar que se podia conseguir
mais do que o segundo lugar. Ontem, as sondagens da Universidade Católica
mostraram finalmente a candidatura de Rui Moreira em primeiro lugar, enquanto
que hoje o JN deu um empate técnico, depois de Menezes aparecer sucessivamente
uns bons pontos à frente.
Como já perceberam, não escrevo com distância nem sequer com imparcialidade.
Apoio a candidatura de Rui Moreira, e já há uns tempos tenho a convicção de que
a sua vitória é mais do que possível. O contacto com as pessoas na rua dá-nos
uma visão mais clara das tendências dominantes, muito embora cada um tenha as
suas razões. Mas também sei que o eleitorado portuense pensa por si próprio,
indiferente a quem as cúpulas partidárias escolhem para o representar. Já deu
essa prova noutras ocasiões, como em 2001, em que Rui Rio bateu o até ali “invicto”
Fernando Gomes. E numa altura de carências e apertos, não é com promessas
descabeladas de gastos sem fim e campanhas pomposas e exorbitantes que
convencem os eleitores do Porto.
Rui Moreira representa uma certa burguesia liberal do Porto,
aquela mesma que o tornou numa cidade comercial e industrial dinâmica, e, acima
de tudo, livre e com amor pela liberdade. É esse mesmo amor pela liberdade que
leva a que tanta gente queira votar nele, não só pelo que propõe mas para dar
uma valente bofetada aos caciquismos, ao aparelhismo mais boçal, à arrogância
dos partidos que julgam que os votos lhes pertencem e que os municípios são a
sua coutada pessoal, para alimentar clientelas, as famosas “bases”, e demais pedinchices
locais. O voto em Rui Moreira no Domingo é não só útil para o Porto mas
para o país inteiro, porque será um seriíssimo aviso aos aparelhos partidários.
Sim, nestas autárquicas vamos ver fenómenos interessantes, mas não apenas um “cartão
amarelo” ao governo: o fim dos presidentes jurássicos e a emergência dos
independentes como alternativa aos bolorentos aparelhos clientelares. Por isso,
mesmo com a chuva, saiam de casa e votem. É não só um dever e um direito, mas uma oportunidade única que não devem desperdiçar.
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terça-feira, setembro 24, 2013
Uma vitória ligeiramente pírrica
Sim, Angie e a CDU/CSU ganharam com uma "super-maioria", a mais robusta desde os tempos áureos da Reunificação, em que Helmut Kohl não dava hipótese à oposição. Mas secou o terreno em volta, e além de deixar o SPD a milhas, conseguiu eclipsar o seu aliado de coligação, os liberais do FDP, que depois de em 2009 terem conseguido o seu melhor resultado eleitoral de sempre, passaram agora, como temiam, pela humilhação de se quedarem com menos de 5%, e ficarem por isso fora da representação do Bundestag. Com quase a mesma percentagem ficou o movimento anti-euro, E o tão propalado Partido Pirata, dos libertários da net (lembram-se do entusiasmo, aqui há pouco tempo?), desinchou para umas décimas que o deixam a uma distância abissal da representação diplomática. Quanto à esquerda, tirando os sociais-democratas, recuou claramente.
Agora, com uma imensa maioria que expulsou os liberais para fora do ringue parlamentar, mas aquém da maioria absoluta, a CDU terá de negociar para formar um novo governo. O Linke, de esquerda mais radical, estará absolutamente fora de causa, com os Verdes também parece pouco provável, pelo que provavelmente se reeditará a Grande coligação de centro com o SPD. Quem diria que os sociais-democratas, com um resultado fraco, ainda poderiam entrar no governo, mercê dos votos que transitaram em massa dos liberais para a CDU e os anti-euro? e que as comemorações de vitória da CDU afinal tiveram a visita de Pirro? Veremos se um novo governo mantém a obstinação na política de dar as tranches aos países aflitos pela dívida, como Portugal, em troca de uma férrea política de apertar o cinto, mesmo que isto tenha custos sociais. E se Frau Angie não terá mais dores de cabeça no futuro do que certamente pensaria.
segunda-feira, setembro 23, 2013
Nos cinemas, a última viagem marítima de descoberta
Já tinha deixado expresso o meu desejo de que este filme passasse em Portugal, e as distribuidoras fizeram-me a vontade. As salas de cinema (poucas, e só em Porto e Lisboa) exibem agora Kon-Tiki, o filme norueguês que chegou a ser nomeado para o Óscar de "melhor filme estrangeiro", e que como o nome indica, relata a viagem imprevisível que o aventureiro Thor Heyerdahl empreendeu em 1947, desde as costas do Peru até à Polinésia. Um percurso de quase 7000 kilómetros e mais de cem dias, em que seis homens singraram numa jangada construída segundo métodos de outrora, para desvendar que os habitantes da Polinésia descendiam não de povos vindos da Ásia mas sim das Américas, e que por meio de jangadas tinham percorrido boa parte do Pacífico, à mercê dos elementos. Heyerdahl queria a todo o custo provar a sua teoria, e com mais cinco companheiros singrou pelos mares fora, anotando tudo o que lhe parecia relevante, filmando e realizando uma película que ganharia o Óscar de Melhor Documentário. Agora, a sua aventura é contada em filme, mostrando as teorias, as hesitações, a determinação para levar a cabo uma empresa na qual ninguém acreditava, o sacrifício da vida familiar, os momentos de angústia (a imensa calmaria no meio do Pacífico, a fauna oceânica a rondar, as tempestades), o companheirismo, a Fé...não sendo uma obra-prima, é um filme de aventuras à antiga, e ainda por cima baseado numa aventura autêntica, das últimas viagens de descoberta feitas no nosso planeta antes do Google Maps desvendar todos os recantos. Deixem os filmes da moda para depois, porque ainda ficam mais uns tempos, apanhem este antes que saia das salas e apreciem uma aventura marítima dos tempos modernos feita numa jangada vetusta, que seguiu a direcção do Sol.
quinta-feira, setembro 19, 2013
As dificuldades de Abreu Amorim
Também num debate, igualmente da Porto Canal, mas em Gaia, reuniram-se os candidatos à edilidade local (ou seja, os que vão aguentar com a conta deixada por Menezes). Só vi uns segundos, mas chegaram para apanhar uma declaração surpreendente: Carlos Abreu Amorim, candidato do PSD/CDS, e antigo blogger, afirmou alto e bom som que Luís Filipe Menezes era provavelmente "o melhor autarca da democracia". Surpreendente, porque vindo de um liberal assumido como CAA, seria pouco previsível ouvir um elogio destes a um autarca que se destacou precisamente pela enorme despesa e por gastos de dinheiros públicos. E também porque não hesitou em falar do púlpito de uma igreja numa campanha encapotada, coisa que deveria escandalizar o anticlerical Abreu Amorim. Ou talvez não. Pode ser que o anticlericalismo seja coisa do passado, uma vez que o candidato agora até vai a Fátima. Realmente, como o próprio CAA dizia, "é difícil ser liberal em Portugal". Tão difícil que mal se encabeça uma candidatura autárquica, esse liberalismo é logo atirado para a valeta.
domingo, setembro 15, 2013
Um debate com todos - notas
Finalmente pudemos assistir a um debate entre todos os candidatos à Câmara Municipal do Porto, emitido pela Porto Canal. O modelo adivinhava-se complicado, mas Júlio Magalhães soube geri-lo bem, com o brinde não haver palmas de apesar da presença de público e de apoiantes dos candidatos, sobretudo integrantes das suas listas. Ouviram-se algumas ideias com interesse, houve muita palha pelo meio, e as habituais picardias e momentos caricatos da praxe.
- Rui Moreira: sóbrio no geral, sintetizou o seu programa de maneira eficaz e simples, mas podia ter sido mais concreto nalgumas áreas e afirmar-se mais relembrando a sua luta contra a centralização da ANA e de Leixões, além de que devia ter defendido mais eficazmente o seu mandato na SRU. Ganhou nos apartes com outros candidatos, embora pudesse ter sido mais contundente contra Menezes.
- Luís Filipe Menezes: mais contido do que se pensaria, excepto quando se envolveu numa troca de palavras com Moreira e Pizarro. Conseguiu camuflar as propostas megalómanas e puxar dos galões das suas vitórias em Gaia. Aguentou-se bem, mesmo sem conseguir passar totalmente a imagem de liderança que desejaria.
- Manuel Pizarro: conhecedor do Porto, menos talvez da situação da Câmara, desaproveitou uma oportunidade de se afirmar como real alternativa, apesar dos despiques com Menezes e Cardoso. Mostrou ideias sóbrias e a merecer estudo. A falta de notoriedade e carisma são os seus maiores adversários. Como disseram alguns comentadores, seria melhor presidente do que candidato.
- Pedro Carvalho: à semelhança do seu antecessor da CDU, Rui Sá, mostra que mantém intenso contacto com a população e um bom conhecimento das condições sociais mais preocupantes e dos vários dossiers. Perdeu ao tentar colar Rui Moreira ao governo, mas marcou pontos quando obteve dos outros candidatos a promessa explícita de revogação do novo regulamento dos bairros municipais.
- José Soeiro: estudou bem determinadas situações, como a do futuro do Aleixo, em que era sem dúvida o mais informado. Perdeu-se muito no discurso ideológico, como as arremetidas contra "os privados", ou no apelo à "revolução cidadã" e a "viragem nacional à esquerda". Deverá ficar-se pelo nicho do BE e dificilmente será eleito vereador. Apesar das suas qualidades, no futuro terá de se focar mais em problemas concretos e menos ideologizados.
- José Manuel Santos: o menos interventivo, levantou o problema de falta de escala e de dimensão do Porto, apontou alguns projectos internacionais a ser aproveitados, mas também caiu na excessiva ideologização, e mostrou que era o mero candidato do MRPP de ocasião ao afirmar que o que importava era a ideologia e não o candidato.
- Costa Pereira: se a ideia era mostrar-se ao público, conseguiu. Protagonizou alguns momentos rocambolescos, embora sem atingir o nível de burlesco dos candidatos do seu movimento, o PTP (que parece ser um autêntico alfobre de "cromos" destas autárquicas). Ficou bem expresso o seu "romantismo" ao propor um minuto de silêncio em memória dos bombeiros (o que conseguiu, com ajuda de Cardoso), e quando dizia, qual D. Quixote desta eleição, que todos os outros candidatos "tinham partidos por trás", e que ele tinha um pequeno grupo de cidadãos, como se não concorresse sob a sigla do PTP.
- Nuno Cardoso: deixei para o fim propositadamente, não apenas por ser o último a apresentar-se mas porque me merece mais algumas notas. A princípio julguei que fosse um candidato fantoche de Menezes (que em Gaia concedeu ajustes directos à empresa a que presidia) para tirar votos ao PS. Vejo agora que talvez me tenha enganado. Ou talvez isso também possa ser considerado, mas acima de tudo o que notei é que Nuno Cardoso tem-se numa conta absurdamente alta e cultiva uma mitomania patética. Segundo o candidato independente, o traçado e a concretização do metro do Porto deveram-se a ele, bem como a conclusão da VCI, o alargamento do Parque da Cidade, e até o manifesto que desencadeou o movimento popular que impediu a venda do Coliseu à IURD. O facto do presidente à altura ser Fernando Gomes e dele nem sequer ser em boa parte do tempo vereador, mas um assessor, pouco lhe importa. Entre os sms que apareciam no ecrã, invariavelmente a babujar os candidatos, apareceu um, certeiro, que exclamava que "daqui a pouco Cardoso diz que mandou construir a Torres dos Clérigos!" Para cúmulo, a certa altura falava de si na terceira pessoa. Resta acrescentar que no logótipo da sua candidatura aparece um "N" com a inscrição "sou ÉNE", e como o slogan "Porto de Futuro" não tem a palavra "Norte" incluída, isso indicia que Nuno Cardoso tem um sentimento napoleónico pouco discreto. De positivo ficou a abertura e limpeza do Cinema Batalha para sede de candidatura, bem como o convento de Francos, e algum conhecimento da rede viária e urbana da cidade (embora tenha lançado a ideia peregrina de que a desertificação do centro da cidade se devia às deficientes vias de comunicação, como se estas não permitissem tanto a entrada de gente como a saída). Claro que não se referiu às obras inacabadas e às dívidas de quando saiu da presidência da câmara, ou aos processos judiciais em que se viu envolvido. Um mitómano nunca tem uma má face. Nuno Cardoso acha-se "éne" fantástico, que se há de fazer?
quinta-feira, setembro 12, 2013
Sérvios vs croatas (e quem se trama é o jogador do Benfica)
Dobrado o século e o milénio, o ódio entre sérvios e croatas permanece intacto. Não espanta. Passaram poucos anos desde que se andaram a matar uns aos outros com particular crueldade, digna de gente tão amável como Átila, o Huno. Para além dos julgamentos na Haia, dos terrenos minados na Bósnia, dos problemas com o Kosovo e de outras questões pendentes, a faísca entre os dois povos "eslavos do Sul" vê-se no futebol (onde mais?). Pela primeira vez, Sérvia e Croácia enfrentaram-se em jogos oficiais. Em Março, os croatas tinham ganho em Zagreb. Agora, no "Marakana" de Belgrado, as duas selecções empataram a um golo, e os sérvios disseram praticamente adeus ao Mundial do Brasil.
Em nenhum dos dois jogos estiveram presentes adeptos da equipa visitante. Não haveria certamente lugar seguro onde os colocar, nem a sua protecção estaria garantida. Isso ficou bem visível quando tocaram os hinos no jogo de Belgrado: o da casa entoado com vivacidade; o da Croácia nem se conseguiu ouvir, tais eram os ruídos e pateadas da parte do público.
Mas o momento do jogo, já de si quezilento, que serve de demonstração a essa rivalidade foi o da falta assassina de um defesa croata a Sulejmani, que ia embalado com a bola: o agressor nem a viu, antes atropelou o sérvio com toda a intenção e brutalidade. Escusado será dizer que viu vermelho directo e que quase via um par de tabefes. Mas com isto, demonstrou com toda a clareza a inimizade que permanece entre aqueles dois povos, agora materializada no relvado. E ainda nos conseguiu lesionar o jogador do Benfica, o carniceiro. Como se não bastassem os que já estão na enfermaria.
segunda-feira, setembro 09, 2013
Um debate com quase todos
Algumas associações portuenses conseguiram juntar os candidatos à Câmara Municipal do Porto em debate na sede da AICCOPN, na última quinta à noite. Infelizmente, à última da hora não consegui ir, para ver um momento raro: a troca de ideias entre pretendentes à segunda autarquia mais importante do país (Sintra que me perdoe, mas não é pelo facto de terem ultrapassado em população que ganharam importância ao Porto), sem que seja uma televisão a fazer a convocatória. Estão por isso de parabéns a Campo Aberto, a AMO e a APRUPP, pela organização do evento que se debruçava sobre temas como o ambiente, a reabilitação urbana e o património. E também todos os candidatos, que se dispuseram a debater projectos e ideias sem chicana nem acusações demagógicas de parte a parte.
Todos os candidatos? Não. Houve dois que por razões de atrasos na resposta não compareceram, e ainda outro, precisamente o que proclama o "Porto forte", que se recusou a ir, aparentemente sem razão válida, porque "sobre esses assuntos não dá resposta". Estranho que alguém que pretende fazer frente ao centralismo tenha assim tanto receio de debater ideias, talvez porque ali não possa fazer os seus habituais discursos grandiloquentes, rodeado dos subalternos do costume. Aliás, a sua carreira política não revela momentos de grande coragem bem pelo contrário.
Esperemos que no debate promovido pela Porto Canal estejam realmente todos. Senão, poderemos desde já tirar algumas consequências definitivas.
quinta-feira, setembro 05, 2013
A desunião do pan-arabismo
É extraordinário as voltas que a História dá em poucas décadas. Durante três breves anos, o Egipto e a Síria constituíram uma efémera República Árabe Unida, sob a liderança do carismático Nasser, em que o que se pretendia era criar uma grande estado árabe, englobando também o Iémen e o Iraque (que por sua vez tentara, com a Jordânia, formar um grande reino Hachemita). Mas o domínio total do Egipto desagradou aos sírios, quem em 1961, através de um golpe de estado, estabeleceram a secessão e voltaram a constituir um estado sírio autónomo. Nunca mais, desde então, houve tentativas sérias para unificar o mundo árabe, sobretudo sob a forma laico-nacionalista.
O que é irónico é que os antigos componentes da República Árabe Unida são talvez, actualmente, os estados árabes mais desunidos entre si, divididos entre grupos étnicos, religiosos, políticos, e até por grau dentro desses grupos. Um está numa guerra civil destrutiva, o outro receia-se que fique perto. O que prova que seria sempre uma utopia quase impossível (embora tenha chegado a existir) criar um estado com tais divisões dificilmente sanáveis.
sábado, agosto 31, 2013
Entretanto, a bola volta a rolar
O derby de amanhã contra o Sporting, que entrou no campeonato a matar, é tudo menos propício, mas terá de ser ultrapassado. Se o problema actual é Jorge Jesus, então mais vale lembrar que com ele o Benfica já venceu a lagartada por sete vezes, e perdeu apenas uma. As estatísticas valem o que valem, mas à falta de melhor, temos de nos agarrar a alguma coisa.
A vitória no último suspiro contra os de Barcelos deu talvez novo ânimo ao Benfica 2013-2014, mas não resolveu de maneira nenhuma os problemas, que, repito, se devem acima de tudo à permanência de um Jesus desgastado e fora de prazo. Os sérvios resolveram, claro, e ninguém lhes nega qualidade, mas o Benfica não pode contar apenas com eles (sobretudo se houver saídas, coisa que parece inevitável). De qualquer modo, se o balão de oxigénio tiver servido para alguma coisa, Salvio estiver em forma e Markovic apto a jogar, as esperanças em surpreender o Sporting aumentam consideravelmente. A propósito, o rapazinho que veio do Partizan continua a mostrar que é uma escolha acertada. Ainda diziam que o Benfica estaria interessado no Bruma, que até joga na mesma posição. Mas para que raio quereríamos o Bruma?
Entretanto, o sorteio para a Liga dos Campeões, em que reaparecemos no pote 1, pôs-nos de novo na rota do Paris Saint Germain, agora em versão patrocinado pelos petrodólares do Qatar. Contra Ibrahimovic, Lavezzi, Cavani e Thiago Silva, o Benfica terá um enorme desafio para evitar tantas ameaças. Pontos a favor: os emigrantes que vão sempre aos milhares dar o seu apoio, e as ridículas regras politicamente correctas, que os responsáveis do PSG resolveram estabelecer aos seus associados, e que pretendem fazer do estádio uma solene sala de ópera (um destes dias escrevo sobre isso).
Contra o Olympiacos, não faltam argumentos desportivos. Será preciso que os jogadores se abstraiam do ambiente infernal que vive sempre que o clube do Pireu joga em casa, e afastar a memória da última visita áquele estádio (que de bom só teve esta sátira). Esperança: que Roberto, recentemente transferido para o clube dos estivadores de Atenas no estranho negócio com o Atlético de Madrid, jogue e retribua alguns dos frangos que sofreu ao serviço do Benfica.
O Anderlecht é um clube de história respeitável, e o confronto que servirá para desempatar os resultados entre belgas e portugueses. Os mauves não são um adversário muito temível, nem têm uma equipa comparável com a do Benfica, mas contam com um ponta de lança sérvio muito promissor que fazia dupla com Markovic no Partizan.
Pede-se que passem à fase de eliminatórias. Num ano atribulado, já seria bom, e seria sempre um encaixe financeiro simpático. Tudo o que for para além disso é brinde.
sexta-feira, agosto 30, 2013
Obama e Hollande querem-se mesmo queimar?
Não tenho a menor dúvida de que o regime baathista de Assad, se não lançou um ataque químico, não seria por falta de vontade que evitaria fazê-lo. Afinal de contas, o regime irmão de Saddam divertia-se a gasear insurgentes no Iraque, e o pai Assad nunca teve hesitações em esmagar qualquer revolta através dos meios mais brutais.
Mas desconfio das "acções" que algumas potências ocidentais preparam para evitar acontecimentos como os verificados nos últimos dias. Recordo que em 2001 a resolução da ONU destinava-se apenas a criar uma zona de exclusão aérea para evitar que a aviação do regime líbio massacrasse os revoltosos, mas a França e o Reino Unido aproveitaram para efectivamente derrubar Kadhafi, apoiando os "combatentes pela liberdade", e com isso espalhar o caos. Agora observam-se novas complacências para esses mesmos combatentes, desta vez na Síria, mesmo que muitos sejam jihadistas que não hesitam em, por exemplo, executar publicamente frades e outros "infiéis". Isso parece pouco importar a Hollande e Obama - poderia falar em Cameron, mas avisadamente a Câmara dos Comuns recusou qualquer intervenção militar na Síria. Obama e Hollande, tão incensados aquando das respectivas eleições, preferem teimosamente avançar para o terreno. Surpreende sobretudo no francês, que depois de intervir (aí sim, com todo o propósito) no Mali, parece não perceber a nebulosa intensa em que se vai meter. Ou será que o "homem simples" afinal de contas já está acometido da síndrome da "grandeur de France", que desde De Gaulle não cessa de perseguir os presidentes do Hexágono?
As nações europeias deviam era preocupar-se com a quantidade de milicianos jihadistas nascidos no seu território, e que depois de doutrinação religiosa em campos educação e madrassas no Paquistão, seguiram para o terreno para combater o regime de Assad, envolvidos em redes extremistas islâmicas. Novas serpentes podem estar a sair de imensos ovos aqui à nossa porta. Quanto a Obama, arrisca-se a perder todas as credenciais que apressadamente lhe deram (lembram-se do Nobel da Paz?). Entre Assad, o Irão e o Hezbollah, e os jihadistas apoiados pela Arábia Saudita, venha o Diabo e escolha. Mas o demo, que já lá anda há dois anos, parece estar com dificuldades em decidir-se. Esperemos que não tenha soprado ao ouvido de Obama e Hollande.
domingo, agosto 25, 2013
Imagens dos dias que correm
Os dias correm quase literalmente, levados pela furiosa nortada que sopra aqui pelo litoral do Minho. Por um lado é bom, porque revigora as mazelas resultantes das festividades populares que aqui há quase diariamente, de Caminha a Ponte da Barca. Por outro, levam tudo pelo ar, proíbem oficiosamente a entrada na praia e fazem-nos dar voltas à cabeça sobre como ocupar o tempo (alternativas não faltam, falta é decisão a tempo e horas). Agora que cheguei aos 35, a antiga "meia-idade", devia começar a organizar mentalmente melhor o meu tempo, de forma a perdê-lo menos, coisa que faço com mestria. Por estes dias, entre praias, nortadas, viras e gastronomia local, também se perdem muitas horas a olhar para ontem. Mas afinal de contas, as férias são isso mesmo. E pelo meio vou encontrando coisas novas nestas terras que conheço desde sempre, como trechos do Caminho Português da Costa - de Santiago - que passam entre o mar e as floresta e nos quais nunca tinha reparado. Vendo bem, os dias que correm não são tempo nada mal gasto.
segunda-feira, agosto 19, 2013
A tirania militar de volta ao Egipto
No Egipto, a efémera "Primavera Árabe" esfuma-se a olhos vistos. A deposição de Morsi não resultou em nenhuma "agora sim, democracia" com que alguns líricos sonhavam. Afinal de contas, o presidente tinha sido eleito por mais de metade dos eleitores, e a sua deposição seria sempre antidemocrática, por muito que as suas origens na Irmandade Muçulmana provoquem desconfianças. Quiseram instalar um governo "laico" no seu lugar e as consequências estão à vista: protestos em massa dos apoiantes do presidente deposto, reacção duríssima por parte das forças armadas, centenas (ou milhares?) de mortos nas ruas, e agora até a ameaça dos militares em ilegalizar de novo a Irmandade Muçulmana e os partidos que dela fazem parte, e que tiveram os votos de mais de metade dos egípcios. Por causa disso, Mohamed el-Baradei já se demitiu do cargo de vice-presidente interino. Aquilo a que assistimos não é uma democratização do país, já que isso só poderá acontecer com a inclusão dos islamitas, nunca os marginalizando: o que se passa é que o Egipto está à beira de voltar a ser um regime militar, com até 2011, porventura mais duro do que era antes da queda de Mubarak. Aqueles que aplaudem a intervenção das forças armadas, incluindo as suas acções mais violentas contra supostos extremistas islâmico,s estão na realidade a caucionar um regime igualmente tirânico e sem real base popular. Não é mais "democrático" ou pluralista massacrar cristãos, islamitas, apoiantes dos militares ou liberais. Em qualquer dos casos, estamos perante medidas despóticas e tirânicas. Parece que não se lembram do lamentável casos da Argélia, em que depois de anularem as eleições ganhas pelos islamitas e ilegalizarem os partidos vencedores, se verificou uma feroz guerra civil que deixou marcas profundas no país. além disso, como se pôde verificar durante o século XX nas "democracias populares", os regimes laicos não são necessariamente mais benignos que os religiosos. Entre Saddam e Khomeiny, viesse o diabo e escolhesse. Ao menos Morsi não quis ilegalizar partido algum. Aguentem-se agora com o regresso da ditadura militar.
domingo, agosto 18, 2013
A época começou como se imaginava
Começou a época 2013-2014. Não tive tempo de fazer um pequeno apanhado do que possa ser o Benfica desta nova época, mas também não era preciso, porque a equipa começou exactamente como o previsto: perdendo. Se nas outras épocas o Benfica empatava sempre na primeira jornada, desta vez conseguiu perder num terreno difícil mas onde até tem alcançado bons resultados. A equipa não jogou horrorosamente mal, não tinha Salvio e Markovic, não jogou pior que o adversário e ainda contou com a habitual arbitragem prejudicial do duvidoso Jorge Sousa. Mas teve uma incrível falta de objectividade no momento do remate, jogou atabalhoadamente e em alguns momentos muito devagar e teve novos erros defensivos que foram fatais. Jorge Jesus, mais uma vez, parecia longe...
A pré-época já deixava o credo na boca, mas desde que se soube que Jesus tinha renovado por mais dois anos, com o mesmíssimo (e alto) salário, depois do final calamitoso da época passada, que se previa que a coisa não ia correr bem. A querela com Cardozo, o homem de área do Benfica dos últimos anos (e o mais influente em duas décadas), cujo problema ficaria resolvido "até 17 de Julho", mas que se arrasta indefinidamente, deixou um balneário tenso, um goleador desaproveitado e despeitado e uma enorme ausência na frente de ataque. As aquisições duvidosas (Mitrovic, Fariña, Loló) misturam-se com as acertadas (Markovic) e com as que se espera que venham a render, dada a qualidade técnica dos jogadores (Sulejmani, Lisandro Lopez). Há excesso de jogadores no plantel e quase nenhuma venda para equilibrar as finanças e pagar os avultados empréstimos; existe o receio fundado dos melhores saírem no fim da época de compras, deixando a equipa coxa; os jogadores formados no clube, mesmo os que demonstram qualidade, como Miguel Rosa, são dispensados em proveito de estrangeiros desconhecidos; realizam-se negócios obscuros, torneando a boa fé comercial e a dos sócios, como a estranhíssima troca de Roberto (que se julgava do Zaragoza) por Pizzi, do Atlético, e imediato empréstimo deste ao Espanhol de Barcelona; e a relação entre os jogadores e um treinador desgastado e esgotado, que parece que ficou apenas para amealhar um bom pé-de-meia, parece tensa q.b.
Assim sendo, a derrota não surpreende. Até pode haver queixas a fazer da arbitragem, mas é sabido que quando o Benfica está mais frágil isso acontece com maior frequência. O grande culpado não se chama Jorge de Sousa, mas Jorge Jesus, um treinador que está a mais e que se tivesse a convicção do seu dever, teria saído pelo próprio pé, em lugar de ser sustentado pela vontade teimosa de Luís Filipe Vieira. Se se aguentar pouco tempo no banco, como alguns prevêem, contra a sua vontade, que seja Vieira a pagar-lhe a indemnização. Os benfiquistas estão fartos das humilhações causadas pelas invenções do mister, da bazófia, das mãos cheias de nada, das desilusões constantes. Se já se concluiu que a época começou torta e jamais se endireitará, então ao menos que as finanças do clube sejam poupadas das opções de Vieira. É o mínimo. Se nem isso se cumprir, então terá que haver uma seriíssima mudança no clube.
quinta-feira, agosto 15, 2013
Gibraltar ou os telhados de vidro espanhóis
A polémica internacional deste Verão é o regresso à questão de Gibraltar. Espanha decidiu apertar o controlo fronteiriço ao "rochedo" em resposta a uma barreira de blocos de cimento que impedirá a passagem dos barcos de pesca espanhóis. Agora, filas e filas de carros esperam para sair de Gibraltar. O Reino Unido já reagiu, e o habitual desbocado Boris Johnson, Mayor de Londres e possível futuro líder do Partido Conservador, atroou aos espanhóis um Hands out of our rock, com o seu peculiar estilo, através do Telegraph.
A verdade é que Gibraltar é uma zona franca, que domina a entrada do Mediterrâneo e ocupa uma posição estratégica de relevo (passe a piada com a altura do rochedo), como se verificou na Segunda Guerra. Não é muito cómodo para Espanha e para todos os que pretendem acabar com o colonialismo, uma vez que se trata de uma autêntica colónia. Mas nunca percebi esses ímpetos anti-colonialistas quando os próprios "colonizados" não pretendem mudar de situação. No caso particular de Gibraltar, tratou-se da cedência daquele espaço à Grã-Bretanha no culminar da Guerra da Sucessão de Espanha, (muito embora as pretensões espanholas tivessem vencido, com ascensão de Filipe de Anjou ao trono), a título perpétuo, excepto por vontade britânica, há precisamente trezentos anos. O Direito Internacional retira por isso qualquer fundamento a Espanha, e mesmo que nos anos sessenta (numa época em que muitos estados do Terceiro Mundo alcançaram a independência e dirigiam o seu voto contra os antigos colonizadores) a ONU tenha feito aprovar uma declaração sobre a necessidade de rever o estatuto de Gibraltar, o certo é que os locais decidiram, por um quase consenso, em conservar-se tal como estavam. Alguém se atreve a contrapor os princípios da contiguidade dos estados e do anti-colonialismo ao do primado do Direito e da autodeterminação?
Pelos vistos, Espanha atreve-se, como se fosse um país recente do Terceiro Mundo e não uma das maiores potências coloniais de sempre. Para mais, resolveu pedir a colaboração da Argentina, lembrando-se das pretensões de Buenos Aires sobre as ilhas Falklands, que estão numa posição semelhante à de Gibraltar (ou seja, a população local não tem a menor ideia de trocar a jurisdição de Londres pela da Argentina). Pena que não se tenha lembrado que os argentinos já fizeram uma manifestação de força que redundou em humilhação e derrota, levada a cabo pela sinistra ditadura militar, numa fuga para a frente de nacionalismo para ganhar popularidade. Em diferente situação, mas também a precisar de balões de oxigênio de popularidade como de pão para a boca. o Governo de Mariano Rajoy, escaldado pela caso Barcenas, precisa de uma pequena trica internacional. Não se lembrou que os argentinos acabaram da pior forma. Claro que ninguém está à espera de uma batalha naval, de uma invasão do rochedo pelos Tercios, nem por um novo Drake e destruir a armada espanhola. O que a Espanha pode ganhar é uma nota de rodapé de ridículo na história deste Verão, já que nada parece sustentar as suas pretensões, e muito menos o caso argentino. Para mais, têm telhado de vidro de sobra: Ceuta, ali em frente, e Melila, também são exigidos por Marrocos (já viram se os espanhóis controlassem ambas as portas do Mediterrâneo, Gibraltar e Ceuta?). E a isso ainda podíamos acrescentar o caso da "nossa" Olivença, onde ainda há réstias de língua portuguesa e que os tratados internacionais nunca atribuíram aos vizinhos. Problemas de sobra para quem exige um território como se fosse um pobre país explorado por todos. Até os mitos estão contra Espanha, neste caso: diz a tradição que Gibraltar, território onde coexistem espanhóis e ingleses, judeus e marroquinos, portugueses e genoveses, pertencerá à Grã-Bretanha enquanto houver macacos (os únicos da Europa em liberdade) no rochedo. Se Espanha não estiver disposta a fazer um crime ambiental...
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quarta-feira, agosto 07, 2013
O Jocker bloquista de Bessa Leite
Sigo afanosamente campanhas eleitorais, sou a favor de criatividade e imaginação (e se for sem o auxílio de empresas de marketing e imagem mais valor terão), de frases e imagens criativas e apelativas do potencial eleitor, não só para apelar ao voto mas para fazer germinar uma qualquer ideia na cabeça do passante. Mas há algumas que de tão originais acabam por ser de gosto duvidoso. É o caso do cartaz do candidato do Bloco à Câmara do Porto, José Soeiro, pintado na rotunda de Bessa Leite. O slogan tem o seu interesse, embora seja claramente direccionado para o habitual votante bloquista. Mas aquela cara do candidato lá estampada tem qualquer coisa de animalesco e apalhaçado ao mesmo tempo. Se fizermos uma metáfora cinematográfica, faz lembrar o sinistro Jocker, na versão Eath Ledger, ou o Chewbaca de A Guerra das Estrelas. Bem sei que os cartazes do Bloco nem sempre primam pela elegância estética, mas este, que foi certamente pensado e delineado com alguma preparação, até porque é exemplar único, faz com que se pergunte que raio terá passado pela cabeça de Soeiro e dos artistas que pintaram isto. Em tempos, o PSR, espinha dorsal do actual BE, tinha campanhas imaginativas e que atraíam a atenção, mesmo que os resultados eleitorais fossem inconsequentes. Agora, a tradição da criatividade mantém-se, mas com campanha tão esquisita, dá-me ideia que os resultados também não vão ser famosos. Nas autárquicas elegem-se pessoas, senhores directores de campanha do Bloco, não vilões de banda desenhada.
segunda-feira, agosto 05, 2013
Símbolos dos eighties que se vão
Os anos oitenta registaram grandes perdas nos últimos dias de Julho. Não só Fernando Martins, o presidente do Benfica que teve a brilhante ideia de contratar Eriksson (com o êxito que lhe é reconhecido), fechou o grandioso terceiro anel da Luz e recuperou a moral a uma equipa que tinha acabado de perder 7-1 para o seu maior rival, levando-a a conquistar o título daquele ano. Também desapareceu Dennis Farina, habitual em séries policiais, que ora fazia de gangster, ora de polícia. Foi precisamente no papel de um cop, o temerário Mike Torello, que protagonizou uma famosa série policial dos anos oitenta, Crónica do Crime (ou Crime Story), numa América pujante e mitificada dos anos cinquenta, sempre numa luta interminável de morte contra o impiedoso vilão Ray Luca, e que teve um final algo abrupto. Lembrei-me precisamente da série e da sua banda sonora quando soube da sua morte. Ficou o genérico, como recordação.
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