segunda-feira, junho 03, 2013

Park(da Cidade)live

 
Com a passagem dos anos, vai-se encurtando a lista dos grupos musicais que há muito queria ver em concerto. Até porque não tenho visto novidades interessantes, ou quando as encontro já não são novidade. Assim, os que marcaram a minha adolescência, particularmente nos anos noventa, vão sendo avistados ao vivo quando surge a oportunidade.
 
Na última semana, o festival Primavera Sound regressou ao Porto e ao Parque da Cidade, magnífico espaço, bem diferente dos estádios de betão e arenas poeirentas. Três palcos entre lagos e arvoredo, tendas de música, espreguiçadeiras e mantas, tudo sobre o relvado do parque, que descia para os palcos em anfiteatro. Só a "praça da alimentação", onde estavam representadas algumas das mais conhecidas casas do Porto, assentava no asfalto do "queimódromo".
 
Muitos elementos da chamada "música indie" passaram pelo festival, apoiados por alguns veteranos como Nick Cave e os Bad Seeds, Breeders ou My Bloody Valentine, e outros, como Swans e Grizzly Bear. Mas na Sexta aterraram no parque os grandes atractivos e razão maior da minha ida: os Blur. Os criadores da Britpop, os rivais de morte dos Oasis, os mestres da ironia british dos anos noventa em forma de música, ali, no Porto, entre o mar, a avenida e a circunvalação. Apareceram com pontualidade londrina, e entraram em grande, com uma Girls and Boys de rajada. Depois começou o desfile de grandes canções dos anos noventa do grupo de Londres, com as mui british e irónicas Parklife e Country House (que os levou ao auge da fama, em plena "guerra do Britpop"), o futurista The Universal, a magnífica balada gospel Tender, com o respectivo coro de vozes negra, a primordial There's No Other Way,  e a desopilante Cofee and TV, cantada pelo guitarrista Graham Coxon, e onde não faltaram no meio do público duas embalagens de leite gigantes a imitar as ternurentas personagens do respectivo e fantástico videoclip. Pelo meio, Damon Albarn cantava, tocava, erguia os braços e os olhos ao céu como se fosse um profeta e chegou a "navegar" nos braços do público, saindo de lá com uma das muitas grinaldas de flores que as senhoras usavam naquela noite. Tudo num ritmo alto devidamente acompanhado pelo público, que saltou em coro no final com a apoteótica Song Two. 
 
 
Ficou um pequeníssimo travo de insuficiência, mas olhando bem, tirando Charmless Man e a belíssima e romanticíssima To the End, estava lá quase tudo o que se pedia. Talvez o ambiente do parque nos tornasse mais exigentes. Os velhos Blur cumpriram com o que se lhes pedia, felizmente, e consegui finalmente ver ao vivo um dos grupos por que esperava há mais anos, enquanto eles andavam dispersos entre a música africana, a agricultura e a advocacia, já esquecidos do Britpop. E a propósito, como se lembrou no fim do concerto, para o ano podiam convidar os Oásis, se eles se voltarem a juntar. Ou talvez os Pulp (que até já vi). Até porque os Suede (também já tive a honra de os vislumbrar), que o último Ipsilon diz que acabaram e foram esquecidos "felizmente", o que não só é injusto como falso, estiveram no Primavera Sound do ano passado. Mas assim, o festival deixava de ser a meca da música alternativa para passar a ser o revivalismo do Britpop. E não se pode conciliar tudo?
 

sexta-feira, maio 31, 2013

Uma Sorrow de seis horas

 
Os The National estão aí com álbum novo, Trouble Will Find Me. Há dois anos, por estes fins de Maio, tive a oportunidade de os ver no Coliseu do Porto. um concerto emotivo e que só será esquecido quando tiver problemas degenerativos, com as habituais corridas de Matt Berninger entre o público. Por isso mesmo recordo-me que estava à espera que tocassem a excelsamente melancólica Sorrow, do álbum que apresentavam na altura, High Violet, mas infelizmente o meu pedido mental não teve correspondência.
Só que, talvez atacada pelo remorso, a banda resolveu compensar a música esquecida de forma particularmente enfática: numa dependência do novaiorquino MOMA, no âmbito de uma instalação artística, tocaram Sorrow durante seis horas. Isso mesmo, a mesma música tocada de forma seguida por um quarto de dia. Não sei em que estado saiu o grupo e o público, caso alguém tenha resistido à repetição constante da canção. Gosto muito de Sorrow e tive a maior pena que não a tivessem interpretado no Porto, mas se quisesse ser compensado desta forma avassaladora, teria provavelmente acabado com uma crise aguda de melancolia. Para este mês, já me bastou o Benfica.
Em cima, performance da música no MOMA; abaixo, versão original

O Expresso ou um manifesto fraquinho do PSOE?


Quando leio um artigo de jornal sobre política internacional, ou sobre factos passados noutras paragens, longe ou perto, confio que tenham um mínimo de isenção. Não é o caso do último artigo de Angel Luis de la Calle no Expresso, sobre o que se passa em Espanha. Todos sabemos da delicadíssima situação do país vizinho, com um desemprego monstruoso, uma situação bancária insuportável, ameaças de separatismo, acusações à coroa e descrédito dos partidos políticos. Escrever sobre tudo isto pretensas colunas informativas com óbvios preconceitos políticos é mera desinformação grosseira. O título já é logo apocalíptico: "genocídio social a pretexto da crise". Depois, De la Calle afirma que  o governo do PP quer instalar um modelo de "neoliberalismo" e "neocon", como "a ala mais à direita do Partido republicano nos EUA". Se a comparação já é infeliz, a confusão de conceitos, entre um modelo económico e uma teoria política, ainda é mais. Com a inevitável farpa à influência da "hierarquia católica", nos casos do aborto, células estaminais e eutanásia, acaba eloquentemente a declarar que "a maioria da população(...) não está disposta a seguir a tendência nacional-populista (deus, pátria e família) que tenta impor-se na Europa". A conclusão não é apenas facciosa: é puramente estúpida, porque além de na Europa a trilogia "Deus-Pátria-Família" tem sido severamente fustigada e mesmo abertamente desdenhada, o autor parece não se lembrar que foi precisamente depois de instaurar medidas fracturantes e regras aberrantes (como a permissão de aborto abaixo dos 16 anos sem permissão dos pais, ou a imposição do politicamente correcto nas escolas) que o PSOE teve a sua maior derrota de sempre e o PP a maioria mais ampla.
De La Calle pode ser um saudosista da república a vontade, mas pede-se-lhe que comente a situação com factos e descrições, não com opiniões pouco isentas que levem o português ao engano. Para ler panfletos políticos vou à procura de um, não preciso de abrir a secção Internacional do jornal Expresso.

terça-feira, maio 28, 2013

Os caminhos do Benfica e de Jesus separam-se aqui (espero)


Acabou. Depois do que vi na Final da Taça, não há hipóteses de Jorge Jesus permanecer no Benfica. Não existem condições emocionais nem materiais, os adeptos não o querem, o ambiente entre a equipa não é bom. Sim, já sei, Jesus devolveu o bom futebol ao Benfica, ganhou um campeonato, valorizou jogadores que renderam bom dinheiro ao clube, tudo isso. Mas acabou. Já são quatro anos em que um dos técnicos mais bem pagos do Mundo apresentou escassos títulos, muitas desilusões, e pior que isso, iludiu aqueles que nele tanto confiavam. Esta época de 2013, que chegou a parecer fabulosa naquela semana em que vencemos o Fenerbahçe, acabou em tremendo desapontamento, com zero títulos e derrotas amargas no espaço de quinze dias. Nunca pensei que o caso do Bayer Leverkussen de 2002 (que ficou conhecido como "Neverkussen") se pudesse repetir no Benfica, para mal dos nossos pecados, embora estejamos igualmente bem acompanhados pelo Bayern do ano passado e pelo Real Madrid de 1983, em tudo semelhantes. Jesus não terá toda a culpa, claro, ele que chegou a considerar a competição europeia um estorvo e não teve outro remédio senão continuar nela. Mas as suas reacções, a sua incapacidade emocional e de dar alento aos jogadores (excepto talvez no jogo da final europeia), traçaram o inevitável: agora que acaba o contrato, Jesus deve rumar a outras paragens. Chega de míngua de títulos com enormes condições para o fazer. Chega de salários milionários a troco de quase nada, e acima de tudo, chega de ilusões fulminadas nos últimos minutos. Jorge Jesus esteve quatro anos no Benfica. Toni e Trapattonni estiveram menos e mostraram mais. Voltemos esta página. Contrate-se um novo técnico (fala-se em Rui Vitória, nosso algoz da Taça, que eu há muito queria que fosse o próximo, até porque é homem da casa e lançou promissores talentos). Vendamos Gaitan, já que precisamos de algum encaixe financeiro e já temos quem o renda, e mais alguns emprestados, conservemos a maior parte do plantel e compremos um defesa esquerdo, fazendo regressar jogadores como Nelson Oliveira e Airton. Já agora, um novo guarda-redes também não seria má ideia. Já estou por aqui com os falhanços de Artur em jogos decisivos.

Se Jesus ficar, possibilidade não tão irreal assim pela teimosia de Vieira, não pretendo assistir aos jogos do Benfica ao vivo enquanto ele lá continuar. Tudo tem limites, e quatro anos é mais que tempo para os perceber. De qualquer modo, não pude deixar de sentir uma certa pena de JJ no final da Taça (a que não pude assistir a vivo, por falta de bilhete, que deixei de ver a partir do golo do empate, prevendo o desfecho). Há anos que ele a persegue, por razões familiares e pessoalíssimas. Perdeu uma final contra o Sporting, à frente do Belenenses, perdeu há dois anos numa meia final com um golo em fora de jogo, voltou a perder perto do fim, de novo com um golo em fora de jogo (que não serve de desculpa). É natural que não tenha contido as lágrimas. Espero sinceramente que ganhe um dia o "caneco", para honrar o seu avô, e no Jamor, não num qualquer estádio modernamente asséptico, num nó de auto-estradas. Mas noutro clube que não o Benfica. Há que virar a página.


segunda-feira, maio 27, 2013

Do apocalipse civilizacional à morte desesperada


O inquietante caso do ensaísta e historiador francês ligado à extrema-direita que se suicidou esta semana em plena Catedral de Notre-Dame tem muito mais que se lhe diga do que uma mera acção espectacular de protesto desesperado contra a aprovação do casamento/adopção gay em França.
Olhando para as suas ideias e para o seu currículo, parece ser o típico militante da extrema-direita identitária e nacionalista, anti-semita e anti-emigração, com poucas ligações ao cristianismo e à mensagem cristã mas que admira a estrutura e autoridade da Igreja Católica, embora neste caso a acuse de "patrocinar a imigração afro-magrebina". Ou seja, um representante contemporâneo da Action Française, que dominou a intelectualidade e os meios universitários com as suas campanhas virulentas nos anos vinte e trinta.
 
 
A escolha de Notre Dame parece ajudar a essa ideia: o templo maior de França, símbolo, juntamente com Chartres e Reims, da cristandade e ao mesmo tempo do poder real centralizado, como guardião dos valores da "velha" França, bastião contra a invasão estrangeira e a degradação dos costumes. O símbolo de uma ideia de ordem e de autoridade, mesmo que depurada da mensagem do Cristianismo, inspiração que já vem desde os tempos de De Maistre e continuou com Maurras e outros ideólogos legitimistas.

O editor de Venner, comentando a sua morte, aludiu ao suicídio de Mishima. Como se sabe, o escritor japonês, também ele defensor dos valores tradicionais japoneses pré-Guerra (e que curiosamente era homossexual, tendo elevado a figura de S. Sebastião martirizado a ícone homoerótico), suicidou-se cometendo sepukku ao falhar um levantamento militar destinado a devolver os poderes de semi-divindade ao Imperador. Para Mishima, o passado glorioso e tradicional do Japão não voltaria, pelo que preferia abandonar o mundo através do terrível e "glorioso" ritual de morte próprio dos samurais. As declarações finais de Venner, prevendo a "substituição" da população francesa, e um novo sistema de valores no qual não se reconhecia de todo, em boa parte contraditório, e o seu suicídio carregado de simbolismo, são em tudo parecidas com a do escritor japonês. Mais do que "um acto tresloucado de ódio", como vi escrito, tratou-se de um fim desesperado, de alguém que já não se reconhecia num mundo emergente (que ninguém sabe dizer qual será), e cujo fim violento e público é consequente com as ideias mais radicais que defendia.
 
 
 
Outro caso similar, provocado também pela ideia angustiante do fim de um certo modelo civilizacional, neste caso muito diferente dos anteriores, é o de Stefan Zweig. O escritor, ensaísta e biógrafo austríaco, quase esquecido durante décadas e hoje de novo editado, suicidou-se no Brasil, em plena Segunda Guerra, assistindo ao segundo suicídio da Europa, crendo que o seu mundo, construído na faiscante Viena dos Habsburgos pré-Grande Guerra, tinha sido esmagado pelo totalitarismo. As suas ideias eram em boa parte opostas às de Mishima e Venner, mas a assunção de que o seu modelo de civilização tinha acabado, que os valores que defendia estavam a ser espezinhados e extintos, é exactamente a mesma. A sensação de fim de uma ideia de mundo, aliada a acontecimentos preocupantes, pode em muitos casos levar ao desespero e a colocar um fim à vida. Sejam quais forem os valores que se defende. e o suicídio tumultuoso de Venner deve ser entendido mais como um último acto de revolta contra um estado de coisas, ainda que tresloucado, do que mera acção radical de propaganda.
A prova infalível de que o francês não era realmente cristão é que atentou contra a própria vida, dádiva de Deus, diante do altar que O celebra.

sexta-feira, maio 24, 2013

"Parabéns"? E porque não um manguito?


Acabado o campeonato, parece que a mini-conversa futebolística mais ouvida é que Jorge Jesus não deu os parabéns ao FCP e a Vítor Pereira. Devia dá-los? Não me lembro de darem parabéns a Jesus pelo últimos campeonato ganho (pelo contrário, diziam que era o "campeonato dos túneis", aqueles em que alguns andaram a espancar stewards, e a conversa continua até hoje), nem nos anteriores. Até duas semanas antes, ouvíamos o treinador portista a comentar com azedume um jogo que lhe era alheio e a dizer que o campeonato ia ser "sujinho,sujinho" (seria uma premeditação, depois do que se viu Domingo em Paços de Ferreira?) Ao que parece, tudo está esquecido em função do resultado final.
Ao mesmo tempo, os cronistas de serviço falam do "mau perder" do Benfica. Um dos que vem com essa conversa é Miguel Sousa Tavares, porque ele sim, "sabe ganhar". Eu não sei qual é o problema de falta de memória desta gente, ou se estarão simplesmente a gozar. Sabem ganhar, os mesmos que há duas semanas só falavam do "Capela", que nunca reconheceram os últimos títulos benfiquistas e que até publicaram uma suposta (e em boa parte falsa) lista de supostas aleivosias cometidas pelo Benfica nos últimos anos? Que cantam cânticos injuriosos para os benfiquistas como quando ganharam a UEFA? E têm bom perder,  os que impediram os benfiquistas de festejar no centro do Porto com a justificação (dada por dirigentes portistas e pelo mesmíssimo Sousa Tavares) de que se tratava de uma "provocação" porque "queriam comemorar o segundo lugar"? Provocação essa que deve desaparecer quando se vêm cachecóis azuis no Marquês de Pombal. Sorte a deles que os benfiquistas jamais comemoraram segundo lugar algum.
Agora, exigem que Jesus lhes dê os parabéns. O treinador do Benfica reconheceu mérito a quem ganhava, e era tudo o que devia dizer. Queriam parabéns? Mais justo seria que lhes tivesse mandado um manguito, nunca pérolas a porcos. Já não há paciência para a hipocrisia futeboleira.

quarta-feira, maio 22, 2013

Os perigos das novas engenharias sociais


A votação da lei que permite a co-adopção pelos "cônjuges" em casais do mesmo sexo poderá parecer uma melhoria nos direitos das crianças. Percebo que se pretenda dar uma maior protecção à criança em caso de morte do progenitor. Mas tendo em conta os autores da proposta - a nova sacerdotisa das causas fracturantes, Isabel Moreira, e um ex-líder da JS (outro apaniguados das "fracturas") - e os seus intentos, aliás revelados, de se dar "um passo civilizacional" em direcção à "igualdade plena", desconfio que a intenção é mais de privilegiar os "direitos gays" do que das crianças, como bem explica Pedro Picoito. A tónica é sempre a mesma, por vezes mal disfarçada, e não me admira que, depois de muito se falar na urgência de tais "igualdades" e no "progresso dos direitos civis", se proponha mesmo a total adopção da adopção plena por casais do mesmo sexo. A ideia parece-me simplesmente absurda. A natureza e mesmo a psicologia, que tantas vezes falha na sua abstracção, já nos ensinaram que meras engenharias ou experimentalismos sociais e familiares têm resultados duvidosos. E a igualdade, que eu saiba, é tratar coisas iguais da mesma forma e coisas diferentes de forma diferente. Quando calcula tudo pela mesma bitola, transforma-se num igualitarismo esmagador, nefasto e anti-natura. Mas já se sabe, há dez anos todos se ririam da norma aprovada na sexta. Hoje, quem defende isto arrisca-se imediatamente a ser apelidado de reaccionário, preconceituosos, quando não de fascista. E no entanto, falamos de crianças e famílias, elementos de suma importância em qualquer sociedade, cuja importância concreta devia ser discutida e reforçada, mas que tendem a ser reduzidos e meras abstracções de combate ideológico pelos novos engenheiros sociais.

sexta-feira, maio 17, 2013

Mini-análise já mais a frio

 
Ora lá vamos, à análise. Será curta. A doutrina divide-se, mas pouco: o Benfica jogou melhor, dominou a segunda parte, mas hesitou no momento do remate. O Chelsea mostrou-se mais matreiro e ganhou.
 
Em parte concordo. O Benfica hesitou em alguns momentos de início. o que me deixou aos urros. Ou por cerimónia ou porque estava lá sempre um defesa, a bola nunca tomava a direcção certa. Nesse período, Enzo Perez brilhou a grande altura: cortava, defendia, distribuía jogo, atacava, cruzava...um médio total. Quem diria, no início da época, quando víamos como extremo mediano, ou mais ainda, no ano passado, em que esteve quase a ser definitivamente recambiado. Nesse aspecto, o Benfica soube reconstituir o meio campo depois da saída de Javi e Witsel de forma notável, e sem mais custos.
 
O resto, já sabemos: golo de Fenando Torres num lançamento longo (ele já tinha marcado um assim na final do Euro 2008), penalty de Cardozo, que não falhou frente a um Cech especialista em defendê-los, remates perigosos de parte a parte, e no fim, aquele golo surgido num canto. Sim, houve falhas, segundo os comentadores, mas caramba, nos últimos minutos de uma final, como esperam sangue-frio a toda a prova? Num canto? A prová-lo, o mesmo Ivanovic que marcou o golo teve depois um falhanço em que Cardozo quase marcava, mesmo a acabar.
 
Pronto, perdemos mais uma final. jogámos optimamente, dominámos, etc, mas não ficámos com a Taça, apesar de posições nesse sentido dos "nossos" Ramires e David Luiz. De novo. Já são sete finais perdidas. Há bastante má sorte pelo meio, pelo que, supersticioso na bola como sou, me pergunto se a maldição do húngaro Bélla Guttmann seria real. Se não é, voltaremos a ganhá-las, mas para isso é preciso que regressemos às finais.
 
Indiscutivelmente, esta semana, porventura a mais decepcionante de sempre, deixou marcas no Benfica. Esteve muito perto da glória, mas ela escapou-se. Temos boa equipa, sem dúvida, com aquela pequena pecha do lateral esquerdo, mas mesmo assim não conseguiu ser A equipa. ainda assim, como vou passar por lisboa, farei os possíveis para ir ver o último jogo da época. Não que esteja crente num milagre, mas quero aplaudir os jogadores. Eles merecem. Até porque ainda há a Taça de Portugal (a que infelizmente não deverei poder ir). e depois, quem sabe, talvez este ano seja para o Benfica o que 1984 era para o Porto: o trampolim para uma grande (re)caminhada. Esperemos. Até lá, vejam o apoio incrível dos adeptos benfiquistas em Amsterdão.

quinta-feira, maio 16, 2013

Depois da final

 
É quase uma da manhã, e olhando agora, ainda tenho o cachecol do Benfica ao pescoço. Passaram mais de três horas desde que acabou o jogo, um dos mais cruéis a encerrar aquela que é, provavelmente, a mais cruel semana na longa história do Benfica. Ia escrever muita coisa sobre a injustiça do resultado verificado, a sorte que uns têm (o emprego de Hilário e Paulo Ferreira é que devia ser considerado o melhor do Mundo), e como a ousadia e a coragem muitas vezes acabam em desastre. Mas prefiro deixar para a amanhã, até porque francamente estas coisas arrasam com um homem. Amanhã tentarei fazer uma análise qualquer. Por hoje, só posso dizer que o meu clube me tira anos de vida e me dá tristezas, mas ainda me dá mais orgulho. E ainda não consegui tirar o cachecol...

quarta-feira, maio 15, 2013

Para que seja Dia de Benfica



Chegou o dia da Final. Aquela que já esperávamos há vinte e três anos. Bom, não é a final dos Campeões Europeus, chamem-lhe Taça ou Liga. Mas é uma final da UEFA (rebaptizada duvidosamente de "Liga Europa", ou euroliga, na minha versão preferida), digna dos campeões europeus, como vários lembraram, onde se defrontam o actual detentor do troféu e um dos clubes que mais contribuiu para a sua grandeza. Ou a "Velha europa" suportada pela paixão dos adeptos contra a "Nova Europa" dos cheques dos bilionários.

É uma evidência que à partida o Chelsea é favorito. Além de deter o título maior, depois de arrebatá-lo ao Bayern em plena Allianz Arena e de ultrapassar o Barcelona, e claro, o Benfica, tem jogadores incríveis e uma capacidade financeira quase sem fundo, mercê da fortuna do seu famoso proprietário russo Roman Abramovic. Depois de conquistar o troféu mais ambicionado, não está a passar propriamente por uma época de sonho: perdeu a Supertaça europeia (goleado pelo Atlético de Madrid de Falcao!), as outras taças, teve um campeonato modesto, e a meio da temporada contratou o mal amado Rafa Benitez como treinador assumidamente interino. Passa por um período de transição, à espera do regresso de Mourinho, de quem nunca se livrou de um certo sentimento de orfandade.

O Benfica vem de uma época longa e de um desaire psicologicamente tremendo, que muito dificilmente o impedirá de conquistar o campeonato nacional. Embora tenha uma boa equipa, substituindo muito bem as peças que teve de vender no ano passado, tem de lutar contra o cansaço, a memória dos jogos mais recentes, o favoritismo do adversário e o peso da história nas finais. Não é coisa pouca. São adversários tremendos, só superáveis por uma grande equipa. Jorge Jesus nem sempre se dá bem em momentos decisivos, mesmo que não tenha muitas finais no currículo. Preferia, hoje, que no banco estivesse Ronald Koeman, que nos ensinou a vencer equipas inglesas detentoras do título europeu na sua própria casa (e até treinadas por Rafa Benitez), como estarão certamente recordados. Mas não está, e só podemos contar com quem lá está.

Não sei se vamos ganhar hoje. A tarefa é complicada. O que peço é que joguem com a mesma garra como jogaram contra o Fenerbahçe, e com a mesma inteligência com que pisaram Anfield Road em 2006. Usando a linguagem do nosso adversário de hoje e uma expressão do país do seu treinador e de boa parte dos jogadores, aprendida nos Caminhos de Santiago, No Pain, No Glory. Honrem a camisola. É a única forma de alcançar os objectivos. Contra todos os favoritismos e "maldições". Para que hoje seja realmente Dia de Benfica!

 

Festa na Baixa 2013


A festa na Baixa, promovida pelo Centro Nacional de Cultura, está de volta ao Porto. É entre 22 e 25 de Maio, em vários locais do centro da cidade. A quem interessar, aqui fica a notícia e o anúncio onde podem ver o respectivo cartaz.

sábado, maio 11, 2013

Só um milagre?


Amanhã joga-se o jogo do título deste ano. O empate de segunda-feira com o Estoril obrigou a que o Benfica fosse às Antas a precisar de não perder para não dar o campeonato ao Porto. O cansaço físico e a quebra psicológica dos jogadores, mais a final da UEFA na próxima semana, tornam essa tarefa particularmente hercúlea. Enzo Perez, preponderante a meio-campo, pode falhar o jogo. E o árbitro escolhido era o único que não podia ser: Pedro Proença, aquele que prejudica sempre, sempre o Benfica, seja com que clube for, e não apenas contra o Porto, há mais de dez anos. Com esta oportunidade caída do céu, já se sabe que à volta do jogo vai-se espalhar um ambiente de ameaça e intimidação, que aliás já começou à chegada dos jogadores do Benfica ao hotel de Gaia. Desde bolas de golfe a gases no balneário do Benfica, passando por agressões a dirigentes e árbitros, de tudo um pouco já aconteceu por aqueles lados, neste clássico. Houve quem soubesse contorná-lo, mas poucos o conseguiram.

 
 Se acredito em milagres no futebol? Sim, mas são tão raros... Não tenho é ilusões. Muito dificilmente o Benfica sairá com qualquer ponto e a equipa inteira, tomando como referência os anos recentes naquele recinto (ou os últimos vinte, se quiserem), o homem do apito e a passividade da autoridade. Se o Benfica sair com um mero ponto, será quase um prodígio. Ganhar lá, sagrar-se campeão, já é uma quimera a que não me atrevo a tanto. Um dia acontecerá, mas tenho as maiores dúvidas que seja amanhã.


PS: como calculava, aconteceu. Não porque a equipa tenha jogado mal - equivaleram-se, mais uma vez - nem por erros arbitrais, mas por uma questão de sorte: além do primeiro golo do Porto ser daqueles "brindes" absolutamente involuntários, o que surgiu do céu nos descontos deu cabo de uma partida que em tudo tinha sido equilibrada. O título voará mais uma vez para uma boa equipa mas comandada por um dos maiores imbecis que jamais treinou equipas em Portugal, e os jogadores do Benfica ficaram certamente com a moral de rastos, proibitivo para quem tem uma final europeia daqui a dias. Percebem agora a descrença para estes jogos? O Benfica é a equipa que melhor futebol pratica em Portugal, e mais uma vez ficará a ver navios. Mas hoje, ao ver Jorge Jesus de joelhos, impotente para travar a má sina, fiquei a simpatizar muito mais com ele. Como se fosse uma personagem das tragédias gregas, um herói mortal e combativo que luta ingloriamente contra o destino, ou um Sísifo. Uma das imagens mais humanas que vi no futebol.

quinta-feira, maio 09, 2013

Andreotti não era afinal eterno


 
Morreu Giulio Andreotti, "Il Divo" da política italiana, aos 94 anos. Terá sido provavelmente a figura tutelar da 1ª república italiana, onde ocupou todos os cargos:  membro da câmara dos deputados desde o início do regime, em 1946, ministro de quase todas as pastas, primeiro-ministro por várias vezes, entre os anos setenta e oitenta, e por fim senador vitalício. Só não ocupou a cadeira da presidência da república porque não lho permitiram, observadas as suas ligações suspeitas com círculos da máfia.

O regime que simbolizou, a 1ª república italiana, e o partido que dirigiu, a Democracia-Cristã, já se tinham estilhaçado sob o peso da corrupção e dos jogos de poder onde se mantinham sempre as mesmas formações partidárias (a começar pelo seu), e para os quais Andreotti muito tinha contribuído. Desapareceu agora o seu máximo representante, uma relíquia política apenas com peso simbólico, mas que conseguiu escapar sempre das acusações mais graves que lhe fizeram. Corcovado, com pequenos olhos melífluos, grandes óculos de massa e um rosto pouco expressivo (ou de expressão misteriosa), Andreotti era certamente um cultor de Maquiavel, com cujo nome era aliás apelidado, e provavelmente descendia de políticos florentinos do Renascimento, ou de tribunos romanos intriguistas. Em todo o caso, era o melhor representante desses traços conspirativos bem italianos.

segunda-feira, maio 06, 2013

Os novos valores académicos


Marlon Correia, estudante de Desporto e jogador e treinador de futebol amador, foi assassinado a tiro por um gang de encapuçados ao tentar defender o cofre com as receitas de bilheteira da Queima das Fitas do Porto, no recinto do Queimódromo (e ao que parece, os próprios amigos). A Queima arrancava oficialmente, um dia depois, à meia-noite de Domingo, como acontece todos os anos. Que decidiu a Federação Académica do Porto? Cancelar a noite seguinte, por respeito ao estudante que para eles trabalhava e que deu a vida no cumprimento das suas funções para com a FAP? Nada disso. O programa manteve-se inalterado, porque, segundo se dizia " seria um enorme prejuízo". É bom ver a real solidariedade e respeito que os dirigentes académicos têm para com gente que perde a vida ao seu serviço. E os valores actuais por que se pautam as academias - neste caso, a FAP. Fixem bem o nome do seu presidente, Ruben Alves. E depois não digam que a ganância parte apenas dos bancos e das agências de rating. Como se observa por este triste caso, há muitas outras entidades que mostram até que ponto são gananciosas e materialistas. Que raio de exemplos e valores têm estes dirigentes, "doutores" e "DUXes" a mostrar a quem entra nas faculdades?

sexta-feira, maio 03, 2013

Rumo a Amsterdão

 
 
23 anos depois, o regresso às finais europeias.  Tacuara Cardozo, Gaitan e restante turma encarregaram-se esta noite de remeter os turcos para longe, mesmo com uma arbitragem fajuta. A crise que assolou o Benfica entre os anos noventa e 2000 atirou muito do prestígio internacional do Glorioso para o cano. Felizmente recuperámo-lo. A 15 de Maio, em Amsterdão, onde em 1962 o Benfica goleou o todo poderoso Real Madrid e se sagrou bicampeão europeu, tudo pode acontecer. Até acredito que o Chelsea esteja à frente nas casas de apostas, mas temos contas a ajustar desde o ano passado. Para já, o Raul Meireles, que entretanto se mudou para o clube dos otomanosdo lado asiático da velha Constantinopla, pagou as favas. Falta todo o resto da equipa de Abramovich. Mas até à final, temos um campeonato por que lutar. O prestígio europeu do Benfica, esse, está de volta e não vai voltar a escapar. Deves-nos isso, David Luiz. Os blues que se cuidem.

quarta-feira, maio 01, 2013

Pelos Caminhos de Santiago


Passei esta semana sem blogar, o que por vezes é mentalmente higiénico, por força da minha peregrinação a Santiago de Compostela. Já lá tinha ido umas vezes de carro e por auto-estrada. A pé, submetido às intempéries, por caminhos com séculos e séculos, as coisas são bem diferentes.

Os Caminhos de Santiago são percorridos há mais de mil anos pelos peregrinos, aos quais devem essa mesma designação (per ager, pelos campos). Apesar da grande afluência e utilização, permanecem afastados das grandes rotas viárias modernas, que os pouparam, e em muitos troços não serão muito diferentes do que eram na Idade Média. Existem, como se sabe, muitos Caminhos de Santiago (o Inglês, o aragonês, os de Portugal, que são vários, o de Finisterra, etc), mas o mais frequentado, aquele que percorri, é o Caminho Francês, que começa em Saint-Jean-Pied-de-Port, passa para a mítica Roncesvalles e daí, por Pamplona, Burgos, Léon e Sarria, até Santiago. O Caminho assume muitas vezes forma de trilho florestal, o que é particularmente agradável quando as ávores são autóctones, ou de via campestre, não raras vezes coberta de lama ou quase leito de riacho, o que os torna complicados no Inverno.Ppelo meio, pequenas aldeolas de pedra,  que parecem esquecidas no tempo, mas que vivem graças ao Caminho, cada qual com o seu café-venda onde se acrescenta um novo carimbo à credencial do peregrino, necessária para se obter a Compostela, o certificado que atesta que se cumpriram mais de cem quilómetros a pé (duzentos se for a cavalo ou de bicicleta).
 
Encontram-se caminhantes das mais variadas nacionalidades, sobretudo espanhóis e irlandeses. A maioria por Fé e devoção, mas também por aventura, desafio ou quaisquer outras razões. Grande parte transporta a sua mochila, por vezes um bastão, e quase sempre a Vieira, símbolo inconfundível de Santiago, a par da sua Cruz. A solidariedade entre peregrinos é grande, e presume-se que a sua idoneidade também, tanto assim é que há vendas à beira do caminho onde se serve do produto e se deixa o valor...sem que haja um vendedor ou quem quer que seja que controle. Mas além dos grupos de caminhantes, há também os que fazem solitariamente, alguns deles singulares. Encontrar numa floresta um templário com as suas vestes pode levar-nos a pensar que recuámos ao Século XIII, mas não é impossível: alguns fazem-no, recordando os cavaleiros que outrora tinham como missão proteger os Caminhos, e deixam mesmo um registo bloguístico.


Depois de um caminho encantador mas exaustivo (e que deixa mazelas), a chegada à praça do Obradoiro (provavelmente uma das mais bonitas do mundo) e a contemplação da soberba catedral, com o Apóstolo a acenar-nos lá em cima, é gratificante. E se se apanhar a missa do peregrino mais ainda: entre os muitos caminhantes que assistem à homilia, agradecemos a protecção divina no caminho e contemplamos o Botafumero no seu pêndulo majestoso, a derramar incenso sobre os assistentes.

Depois, com o objectivo cumprido, abraça-se o Santo, apresentam-se as credenciais na Casa do Peregrino para que obter a Compostela, recuperam-se forças na taperia mais convidativa e começa-se a pensar em novo percurso numa data futura qualquer.

                       
                              O peregrino, escritor destas linhas, contempla a Catedral de Santiago, meta desta sua viagem

segunda-feira, abril 22, 2013

Os verdadeiros motivos para uma campanha miserável

 
Já lá vão umas semanas, mas não queria deixar fazer referência à chamada de atenção do Declínio e Queda a um post do blogue Cinco Dias, onde se afirma nem mais nem menos que "o que temos que defender é a revolução contra o perigo da democracia, que em quarenta anos nos reduziu a isto". A frase não é uma distracção nem uma gaffe: está lá escrita a negrito, prova que quem a escreveu pensa exactamente isso e quis vincá-lo, sem outras interpretações.
 
Importante é também repararmos na sua autoria: trata-se tão só de Raquel Varela, uma investigadora da FCSH da Nova (onde mais?), que defendeu em tempos que "nunca existiu o risco de o PCP tomar o poder em Portugal” nos anos de 1974 e 1975". A sua apologia da revolução parece contrariar essa tese, até porque se notam nos seus textos amplas simpatias pelo PC. Mas mais interessante ainda é pensar - quem tenha boa memória e não se tenha deixado levar pelo agit-prop - que esta académica foi uma das principais responsáveis, senão a principal, pela violenta campanha lamacenta contra Isabel Jonet em Novembro último, um dos maiores e menos justificados linchamentos mediáticos que tenho visto. Dizia Varela na altura que "a fome é um problema cuja origem reside única e exclusivamente no sistema capitalista" (as fomes na Coreia do Norte, na Ucrânia, na China, no Camboja e na Etiópia, provocadas pelos regimes comunistas, deviam ser meros pormenores) e que "as suas políticas (Jonet) geram fome". Essas afirmações revelavam um radicalismo político, um enviesamento da realidade e uma defesa de teses político-sociais mais que duvidosas que mostravam já muito as verdadeiras intenções da autora: a de, aproveitando declarações potencialmente mais polémicas, fazer um ataque cerrado ao que chamam de "caridadezinha", neste caso ao Banco Alimentar, colando-o ao Governo e acirrando as opiniões, para daí culpar todo um sistema e tentar a disseminação discreta de ideias que sustentassem um modelo diferente. O aproveitamente da crise para fazer germinar ideias revolucionárias é desde há muito conhecido. O uso da fome como argumento (aliás, Varela chamou à sua carta "a comida é uma arma", que caracteriza exactamente o seu método), ligada à habitual ideia da pobreza como uma abstracção teórica, tão típica da esquerda radical e o aproveitamento deturpado de declarações que caíram que nem gingas fizeram o resto a todos os que caíram no engodo (ou quiseram cair).

Agora confirma-se: as motivações de Varela eram totalmente políticas, e desse modo tentou fazer com que as do Banco Alimentar também o fossem. Como disse atrás, tentou-se culpabilizar uma instituição que tira potencial "terreno" ou apoio social às teses mais revolucionárias, eliminando a fome, tão necessária ao aumento do radicalismo político, para afastar um eventual obstáculo à revolta social. Com estas últimas declarações, escarrapachadas, Varela disse ao que vinha: quer a revolução em lugar da democracia, impedida pelo contra-golpe de 25 de Novembro de 1975, e não resolver qualquer problema de fome, que de resto só beneficia o seu projecto revolucionário. Duvido que o consiga, mas em todo o caso é bom vermos confirmadas as verdadeiras motivações dos ataques a Jonet e ao BA. É bom que as pessoas aprendam a distinguir motivações políticas, para mais extremistas, quando se eleve uma polémica para enlamear o bom nome de uma instituição que tanto tem ajudado os mais carentes, tratando-os como pessoas e não como abstracções.

Magia no derby


Haja o que houver, o golo do ano é o segundo ao Sporting, de Lima. O primeiro, marcado por Salvio, já tinha sido muito bom; o resultado é fundamental para a caminhada para o título, mas este golo, a jogada mirabolante em que Gaitan que passa por dois jogadores sem se perceber como, a tabelinha e os passes sem deixar cair a bola, o golo em vólei de Lima, tudo isso é do domínio da pura magia. Maradona certamente pensará que esta jogada de um seu sucessor seria digna dele. E consegue ser ainda melhor do que outro golo do mesmo Gaitan. A posteridade não deixará de assinalar estes momentos inclassificáveis, que só por si deviam dar direito a um triunfo por 5-0.
 
 

domingo, abril 21, 2013

250 anos de Torre dos Clérigos


O campanário de igreja mais famoso do país, o ex-líbris do Porto, a materialização do barroco na vertical, a torre tantas vezes representada que se tornou na obra eterna de Nasoni domina a silhueta da cidade há 250 anos. Feitos hoje, 21 de Abril de 2013. E  não faltam eventos ou lançamentos de produtos comemorativos para celebrar a efeméride. Fica a pergunta, ligada ao velho provérbio que diz que "em casa de ferreiro, espeto de pau": quantos portuenses nunca terão subido à Torre dos Clérigos?
 
 

sábado, abril 20, 2013

Pequenos déjà vus (ou os círculos da História)

 
Em França, verificam-se não apenas discussões e controvérsias saudáveis que são sempre característica de um regime pluralista, a propósito da aprovação do casamento e adopção homossexual, mas também um clima de confronto e de agressividade que faz lembrar, nas devidas proporções, os famosos motins de Fevereiro de 1934.
 
Em Espanha, os republicanos comemoram o "seu" dia para se manifestarem contra o Rei e contra a Monarquia em plena Madrid (embora não com a dimensão que a comunicação social lhe quis dar, longe das "dezenas de milhar" de manifestantes).
 
Na Ásia-Pacífico, a Coreia do Norte ameaça os vizinhos ao passo que o Japão resvala para uma toada nacionalista e o rearmamento para além das simples forças de autodefesa está na ordem do dia.
 
Em Itália, Beppe Grillo promete uma "marcha sobre Roma" em protesto contra a reeleição do velho Napolitano.
 
Bem sei que a Alemanha não pretende expandir-se militar nem territorialmente, e que Passos coelho não é exactamente um Salazar (até porque peca por defeito e falta de sentido de estado). Mas é inquietante pensar como tantas destas coisas nos lembram os anos 20/30 do século XX. O conhecimento da História e o valor da memória são hoje em dia mais valiosos do que nunca. É bom que não os coloquemos de lado. O preço a pagar seria altíssimo.

segunda-feira, abril 15, 2013

A remodelação e os aparelhismos


A nomeação de Luís Marques Guedes para o lugar que era de Miguel Relvas e de Miguel Poiares Maduro para o Desenvolvimento Regional é um feliz acontecimento, num Governo com falta de boas notícias (por culpa própria, em boa parte). O primeiro é um político experiente, idóneo, competente e respeitado pelos adversários. O segundo é um jurista brilhante, especialista em direito comunitário (e ao que parece, não é pior nos domínios da cozinha), professor em Florença e com carreira no TJCE. Se era para mostrar as diferenças com Miguel Relvas e o seu nulo percurso académico, a comparação não podia ser mais avassaladora. Temos ainda novos secretários de Estado, entre os quais Pedro Lomba, como adjunto de Poiares Maduro. É caso para a blogoesfera rejubilar: um dos seus fundadores chegou ao Governo.
Não sei se algo de essencial irá mudar, ou se o currículo académico dará necessariamente origem a um bom governante. não sei se se exigira uma remodelação mais profunda. Mas dá-me muito mais conforto ver que um chico-esperto aparelhista como Relvas substituído por gente acima de qualquer suspeita, bem mais preparada juridicamente, e aparentemente sem esqueletos no armário. O PSD puro e duro e as suas "bases" é que parecem não ser da mesma opinião: aprovaram um voto de louvor a Relvas, com a excepção notável da histórica Virgínia Estorninho, e ao que parece, não viram com bons olhos a entrada de Poiares Maduro. Aparelhismos...

sexta-feira, abril 12, 2013

Mais que merecido

 
 
 
O prémio Sir Geoffrey Jellicoe, o maior que se pode atribuir a arquitectos paisagistas, atribuído esta semana a Gonçalo Ribeiro Telles, coroa uma carreira de verticalidade na defesa do ambiente, do ordenamento do território e da terra (em todos os sentidos) da erosão e da especulação urbana que a ameaçam. Aos noventa anos não desistiu de lutar pelos valores mais genuínos do nosso país, e ao que parece começou por fim a ser ouvido. Que seja uma lição para todos os que o ignoraram ou encolheram os ombros quando falava de agricultura nas cidades, de construção em sobre cursos de água encanados ou de corredores verdes, em lugar de meros jardins de bairro.

quinta-feira, abril 11, 2013

O adeus esperado de Thatcher

 
 
Os jornais dos últimos dias, como era esperado, deram destaque à morte de Margaret Thatcher (que também não surpreendeu, dado o estado de saúde era menos de ferro do que a Dama tinha sido). O desaparecimento de uma das figuras-chave dos anos oitenta, senão das últimas décadas, de um dos últimos grandes líderes europeus, não podia passar despercebida. Até porque, apesar de há já muito estar retirada do espaço público, nunca passou ao esquecimento. Todos os seus sucessores foram condicionados pelos seus anos de governo, e no ano passado voltou mesmo aos escaparates dos jornais com o filme-biopic que deu o Óscar de Melhor Actriz a Meryl Streep, na sua superior interpretação da Primeira-Ministra britânica.

Thatcher estava longe de ser das minhas figuras preferidas. Mas ser popular ou amada não lhe dizia nada. Até é crível que, pelo seu gosto pelo confronto, preferisse os apupos e às manifestações sindicais e da oposição trabalhista (liderada por Michael Foot, que estava tão à esquerda como ela estava à direita), sinal de que a sua política tinha sucesso. A uns ignorou, a outros venceu frequentemente nos Comuns. O choque ideológico, as discussões, a capacidade de comando estavam-lhe no sangue. Na cabeça, trazia as ideias de Hayek e uma vontade de gerir a Grã-Bretanha como uma mercearia, contra os "inimigos internos", sobretudo os sindicatos, que em fins dos anos setenta faziam o que queriam do país, levando-o à estagnação e à ruína. Thatcher aplicou as suas políticas de choque, a que podemos chamar com alguma propriedade de neoliberalismo, com resultados controversos: por um lado criou uma nova classe de pequenos empresários, fomentou o sector terciário, tornou a City londrina numa grande praça financeira; por outro arruinou a indústria e os sectores mineiros que fizeram a Revolução Industrial, com o crescimento do desemprego, da mendicidade e da criminalidade. Era popular no Sul e impopular no Norte e no Merseyside. Pelo meio afrontou a Europa e no caso das Malvinas impôs uma derrota humilhante à clique militar argentina, levando à sua queda.
 
Pode-se dizer que muito embora o Reino Unido precisasse de um valente tratamento ao estado em que estava em finais de setenta, Thatcher exagerou na dose. Libertou o país de uma doença para lhe trazer outras maleitas. Com isso, era admirada até à idolatria e odiada de morte. Mesmo agora, na sua partida, mais de vinte anos depois de deixar o poder, isso se nota: os defensores querem fazer-lhe um funeral de estado, apenas reservado à Família Real, mesmo contra a sua vontade expressa; os detractores festejaram e dançaram à notícia da sua morte, numa atitude reles mas ilustrativa (em Bristol, por exemplo, onde me recordo de ver, na primeira metade dos anos 90, inúmeros pedintes). Thatcher, líder convicta mas errática, incansável mas implacável, partiu, mas o seu simbolismo e o seu legado ficaram. Mesmo que esteja longe de ser positivo, reconheça-se que era uma figura carismática, com alguma grandeza, e que faz as actuais classes políticas da Europa parecer um bando de gnomos.
 

terça-feira, abril 09, 2013

Vá lá, Sr. Primeiro-Ministro

 
 
 
...queixe-se das implicações que a inconstitucionalidade das normas que aprovou poderão trazer, das dificuldades em cortar na despesa (mas não era tão fácil, há dois anos?), da revisão  extraordinária da Troika, do amuo do PS, da irresponsabilidade da oposição, da própria Constituição e do cunho ideológico que mantém. Mas por favor, não mate o mensageiro.

quinta-feira, abril 04, 2013

Largar lastro

 
Como diria Durão Barroso, sabia-se que Miguel Relvas iria deixar de ser Ministro antes do fim do Governo, só não se sabia quando. Para além dos problemas com os dossiers que tinha a seu cargo (uma infinidade deles, da reforma municipal à televisão, passando pelo desporto), carregava as sombras de casos polémicos, como as relações com Silva Carvalho, as pressões sobre o Público e a sua inacreditável "licenciatura". E seria o relatório desta a mostrar-lhe a porta da rua, quando se cogitava o que mais seria preciso para que ele saísse.
Relvas era um abcesso que teria de ser removido para que o Governo sobrevivesse. Um chico-esperto que trepou à custa do aparelho partidário e que parecia não entender o quanto a sua manutenção minava o executivo. Diga-se o que se disser do relatório e dos procedimentos a que obedeceu para apenas produzir efeitos práticos nesta altura, o momento não podia ser o mais adequado. Entalado entre uma moção de censura de toda a oposição (ainda que com óbvios efeitos nulos, mas sempre incómoda) e a anunciada posição do Tribunal Constitucional que por certo chumbaria algumas medidas, o Governo precisava urgentemente de um balão de oxigénio, ou mais precisamente, de largar um saco de lastro. Relvas era o lastro mais evidente que arrastava o "balão" governamental na queda. E era preciso largá-lo agora na esperança de que as fissuras não o fizessem cair ainda mais.
 
 

quarta-feira, abril 03, 2013

Se a sabedoria popular continuar a errar, muitas graças a Deus vou dar

 
 Por estes dias, a "sabedoria popular" anda muito por baixo. Diz-se que "se a Senhora das Candeias rir, está o Inverno para vir". Ora a comemoração da Senhora das Candeias é a 2 de Fevereiro, e tanto quanto me lembro desse dia, não houve grandes risos climatéricos. Dizem também os ditos populares que "Carnaval na rua, Páscoa em casa", ou seja, se no Carnaval estiver bom tempo, então o Domingo de Ressureição será sob chuva. No último Entrudo choveu, ventou, nevou até, e mesmo assim tivemos uma Páscoa diluviana. 
E se "em Abril, águas mil", faço votos para que a sabedoria popular continue errática. As populações das margens ribeirinhas dos rios, da lezíria ribatejana e da zona de Aveiro, entre outras, agradecem. E eu também, que já começo a desesperar com este Inverno que dura há quase meio ano e nos deixa a cabeça em água. E com constantes más notícias, do que precisamos agora é de sol a rodos.

domingo, março 31, 2013

Páscoa


E no primeiro dia da semana, muito de madrugada, foram elas ao sepulcro, levando as especiarias que tinham preparado, e algumas outras com elas.
E acharam a pedra revolvida do sepulcro.
E, entrando, não acharam o corpo do Senhor Jesus.
E aconteceu que, estando elas muito perplexas a esse respeito, eis que pararam junto delas dois homens, com vestes resplandecentes.
E, estando elas muito atemorizadas, e abaixando o rosto para o chão, eles lhes disseram: Por que buscais o vivente entre os mortos?
Não está aqui, mas ressuscitou. Lembrai-vos como vos falou, estando ainda na Galiléia,
Dizendo: Convém que o Filho do homem seja entregue nas mãos de homens pecadores, e seja crucificado, e ao terceiro dia ressuscite.
E lembraram-se das suas palavras.
E, voltando do sepulcro, anunciaram todas estas coisas aos onze e a todos os demais.
E eram Maria Madalena, e Joana, e Maria, mãe de Tiago, e as outras que com elas estavam, as que diziam estas coisas aos apóstolos.
E as suas palavras lhes pareciam como desvario, e não as creram.
Pedro, porém, levantando-se, correu ao sepulcro e, abaixando-se, viu só os lençóis ali postos; e retirou-se, admirando consigo aquele caso.

Lucas 24:1-12

sábado, março 30, 2013

Os trabalhistas na confusão eleitoral israelita

 
 
Israel ficou novamente perante o enorme quebra-cabeças de formar um governo, depois de novas eleições, em Janeiro, confirmarem uma enorme polarização dos votos em inúmeras formações populistas, centristas, e ortodoxos. Os tradicionais partidos que se revezaram a partir de certa altura no poder têm de se confrontar com novos adversários que lhes aliciam o eleitorado, e vêem-se obrigados a fazer concessões à esquerda e à direita, aos seculares e aos religiosos. O sistema eleitoral, muito proporcional, não ajuda.

Porém, e ao contrário do que vinha sendo observado nas votações mais recentes, os eleitores não se viraram tanto para as formações de direita e ortodoxas, à excepção do Casa Judaica, novo movimento criado sobre as cinzas do Partido Nacional-Religioso. O Likud de Benjamin Netanyahu falhou a tentativa de solidificar-se o poder e perdeu votos para todos. O único partido que teve uma sangria eleitoral superior foi o Kadima de Shaul Mofaz, que há poucos anos governou Israel, mas que com a saída de Tzipi Livni para formar o Hatnuah (depois de uma humilhante derrota interna), recuou para níveis quase irrelevantes, com apenas dois lugares no Knesset. Quem apanhou os votos directos do Likud e do Kadima foram o supracitado Hatnuah, o esquerdista Meretz e principalmente o novo partido centrista "da classe média" liderado pelo mediático jornalista Yaïr Lapid, que apareceu como um furacão e ficou em segundo lugar. E com toda esta dispersão de votos, Netanyahu viu-se obrigado a formar um governo altamente instável, com cinco partidos, composto por membros do Likud, ultra-ortodoxos e centristas seculares, entre os quais Lapid e Livni.

No meio disto tudo, o histórico Partido Trabalhista recuperou um pouco das sucessivas tareias eleitorais que vinha levando nas votações anteriores. Com a saída, aos poucos, de líderes carismáticos como Shimon Peres, Barak ou Amir Peretz, o esboroamento do eleitorado tradicional (que escolhe partidos mais recentes) e o crescimento do números de judeus ultra-ortodoxos, e ainda com a incapacidade demonstrada em levar a cabo o processo de paz com os palestinianos, o velho Avoda, ou Labor, tornou-se dispensável e secundário. No entanto, este partido, anteriormente com o nome de Mapai, tem um enormíssimo peso histórico: governou Israel desde a sua fundação até aos anos setenta, e teve como líderes Ben Gurion (que declarou a independência de Israel em 1948) e Golda Meir.
 
Após a independência e a invasão árabe que se lhe seguiu, Israel teve as suas primeiras eleições legislativas. O Mapai ganhou-as, deixando em segundo lugar o Mapam, de tendência mais marxista. Os israelitas estavam na altura firmemente virados à esquerda. A maioria vivia em Kibbutzim, comunidades em que o colectivismo (voluntário e cooperativo) era levado quase ao extremo. Todos trabalhavam na agricultura e pesca, à cabeça, e noutros ofícios. As ferramentas eram comunitárias, assim como quase todos os bens, e até mesmo o nome das crianças que nasciam era por vezes decidido pelos membros do kibbutz, e não apenas pelos pais. E chegado o tempo de combater, todos, homens e mulheres, pegavam em armas para defender o Estado de Israel (ainda hoje todos, independentemente do sexo, têm de cumprir o serviço militar), lembrando as provações por que tinham passado. Com esse espírito radicalmente comunitário e de pertença à terra, o exíguo estado judaico conseguiu assim defender-se de inimigos à partida mais fortes, embora os seus comandantes militares e a tecnologia de guerra também ajudassem.
 
O Mapai era o principal impulsionador da política de kibbutz. O próprio Ben Gurion, assim como a maioria dos governantes israelitas, vivia num. A URSS chegou a apoiar Israel nos primeiros anos, na esperança de ali encontrar um estado soviético no medio Oriente e um aliado. Quando percebeu que a sua natureza era diferente, resolveu apoiar o Egipto, onde Nasser assumira o poder, e desde então o grosso dos estados e dos movimentos comunistas a mando da URSS tornou-se virulentamente anti-israelita. Outra das bandeiras do partido eram os serviços públicos, como a saúde e os transportes.
 
Nos anos sessenta, sofrendo de algum desgaste, o Mapai agregou alguns pequenos partidos de esquerda e tomou o nome de de Partido Trabalhista, mas nos anos setenta veria o seu principal adversário, o conservador e revisionista Likud-Herut, de Begin, chegar pela primeira vez ao poder. Pior que isso: seria Begin a assinar pela primeira vez um tratado de paz com um país árabe, o Egipto de Sadat.  Durante 15 anos, o Likud permaneceu no governo e só em 1992 os trabalhistas conseguiriam afastá-los, com Yitzhak Rabin. Este assinaria os acordos de Oslo com Arafat, mas em 1995 acabaria assassinado numa manifestação pela paz, e pouco depois, sem que fosse previsível, o Likud, agora com Ariel Sharon, voltaria ao poder. Em fins dos anos noventa, os trabalhistas chefiaram pela última vez um governo. A partir daí, e com a sangria de quadros dirigentes, seria o declínio do partido. A sociedade dos kibbutzim era bem mais exígua do que nas origens do estado de Israel, as ambições dos israelitas eram outras, o número de ultra-ortodoxos, pouco receptivos às ideias dos trabalhistas, cresceu enormemente, e outras formações de esquerda e de centro levaram-lhe dirigentes e eleitorado e ocuparam em boa parte o seu lugar.
 
Agora, o Partido Trabalhista tem à sua frente um jornalista feminista, que conseguiu uma pequena inversão na tendência de queda. Mas para fazer frente aos novos movimentos de centro, parece insuficiente. O histórico movimento que representou o sionismo socialista deu um enorme contributo a Israel, começando na sua formação e continuando na sua defesa, mas parece não passar de uma instituição discreta e inofensiva nos dias que correm. Conserva algum peso histórico mas não diz muito às aspirações dos israelitas (que são aliás muito contraditórias, entalados entre seculares e religiosos, pacifistas e irredentistas). Provavelmente, com a sua romântica memória dos agricultores-soldados que se entregavam ao colectivismo dos kibbutzim e defendiam o estado tão arduamente conquistado com unhas e dentes, permaneceu algures no século XX.

quinta-feira, março 28, 2013

A vitória mediática de Sócrates

 
Do que vi sobre José Sócrates retive que o ex- Primeiro Ministro, como esperava, se mantém o mesmo: petulante, combativo, rancoroso, determinado, misturando verdades com aldrabices (assumiu a responsabilidade por 8 PPPs rodoviárias, mas misturou os números das suas negociações; considerou que o PEC4 salvaria o país, quando a intervenção externa era necessária havia meses), e, evidentemente, recusando qualquer responsabilidade pelo estado do país - António Guterres mantém-se mesmo como caso único.
 
Mas a entrevista teve um êxito retumbante. Conseguiu imensa audiência, pôs o país inteiro a falar - bem ou mal -  de Sócrates, e sobretudo, como exemplo maior dessa divulgação, colocou tudo quanto é comentador e político (ainda hoje no Parlamento a usaram), ou as duas coisas, a utilizar a palavra "narrativa". Isto sim, espelha bem a sua a vitória mediática.

domingo, março 24, 2013

Entrudo de Podence, com atraso


Bem sei que estamos a entrar na Semana Santa, mas correndo o risco de cometer um micro-sacrilégio, não resisto a colocar algumas fotografias do último Carnaval - ou neste caso, Entrudo - em Podence, como em tempos fiz com Lazarim. Como muitos saberão, Podence é uma aldeia próxima de Macedo de Cavaleiros que deve a sua fama à antiquíssima tradição dos Caretos. Pelo Carnaval, rapazes (e raparigas, também) entram dentro de umas vestes de lã de cores garridas com chocalhos agarrados, colocam uma máscara, de latão ou madeira, empunham uma vara e percorrem a aldeia fazendo diabruras, chocalhando os transeuntes e espalhando alarido pelas ruelas. Este antiquíssimo hábito de origens pagãs, vem, crê-se, do tempo dos celtas. Prolongou-se pelo tempo, com as devidas adaptações, pelo Nordeste Transmontano (mas também nas proximidades do Douro, como Lazarim comprova) e chegou aos nossos dias, com a designação de Entrudo Chocalheiro. Hoje é uma atracção da aldeia que tem um museu dedicado aos caretos, e que aproveitando  a chegada de visitantes e curiosos, promove eventos que incluem caça, competições de bombos, projecção de filmes sobre os caretos, gastronomia, etc. O nosso interior, em particular em Trás-os-Montes, continua a revelar coisas magníficas a quem raramente sai das áreas (sub)urbanizadas do litoral.
 




(Sim, é um javali caçado horas antes nos montes próximos; lá em baixo, a albufeira do Azibo, a praia de Verão do Nordeste Transmontano, com bandeira azul e tudo).
 

quinta-feira, março 21, 2013

Enfim, Moreira



Rui Moreira apresentou oficialmente a sua candidatura. Não se tratou propriamente de uma novidade de estrondo, há meses que era esperada, e a questão era de quando seria lançada, para gerir prazos curtos ou pelo contrário, um tempo demasiado longo que fizesse passar o efeito esperado.

Em inícios de Fevereiro, com o lançamento de um manifesto cívico com o nome "Dar o Porto ao manifesto" (que o autor deste blogue subscreveu), e com posteriores elogios de Paulo Portas, a candidatura de Moreira estava praticamente selada. Ontem apresentou-se, no Mercado Ferreira Borges, símbolo do Porto liberal e burguês, ali a dois passos da Ribeira e da Bolsa onde se sedia a Associação Comercial do Porto, presidida pelo agora candidato. Perante algumas centenas de pessoas que enchiam a sala, num cenário de penumbra com fundo azul, apresentou os traços gerais da candidatura - coesão social, economia, cultura - e lançou aquele que muito provavelmente será o slogan principal: "o meu partido é o Porto". Caracterizou aquele movimento como apartidário (mas não anti-partidário), produto do "Porto liberal e empreendedor", e repetiu várias vezes as palavras "livre e independente". Não cessou de saudar as candidaturas já no terreno, de Menezes e Pizarro, mas lançou uma pequena farpa à primeira, quando disse que não tinha projectos de "negócios mirabolantes" nem queria "uma segunda ou terceira Barcelona" ou que o Porto seja "uma segunda Lisboa" (frase cujos direitos de autor primordiais cabem, se não me engano, a Paulo Rangel). Falou na importância do trabalho e da criatividade e na necessidade de interação entre a a câmara e as freguesias, as paróquias, associações de moradores, comerciais, etc. E frisou que em termos de rigor orçamental não se afastaria da política de Rui Rio, recordando a expressão popular "contas à moda do Porto".

Por vezes o discurso tornava-se algo redondo e repetitivo, mas a ideia de independência, liberdade e dinamismo ficou bem vincada. Era no fundo tudo o que se pretendia. A partir de agora, a candidatura de Moreira terá de se mostrar, de apresentar ideias concretas e de se libertar de uma certa conotação de movimento de quadros, apoiado pelas elites culturais e sociais da cidade, em busca dos votos da maior parte da população. Moreira é conhecido e popular, mas não terá tarefa fácil.

Lembrou ainda outro ponto: a de que era a primeira candidatura realmente independente a uma grande cidade em Portugal. Tivemos o precedente Sá Fernandes, em Lisboa, logo aproveitada pelo BE, com os resultados que se conhecem, e o de Helena Roseta, logo integrado no PS de António Costa. Rui Moreira colhe, à partida, os votos de grande parte do CDS, de importante quantidade do PSD e de umas franjas do PS. Mas numa altura em que os partidos não colhem grande popularidade e em que a partidocracia sofre acentuada erosão, é de esperar que colha muitos mais votos. É verdade que o CDS se prepara para dar o seu apoio a esta candidatura, mas sem obrigações para com qualquer aparelho político, evitam-se compromissos nocivos para a autarquia ou conflitos perniciosos, como aconteceu com Sá Fernandes e o Bloco.

Como se percebeu, o autor destas linhas apoia esta candidatura. Por razões positivas, mas também negativas. Luís Filipe Menezes e a clique que o rodeia representa o que de pior há no aparelhismo partidário (aliás, os ataquezinhos próprios da classe já começaram), bem representado pelo nepotismo político que colocou o seu filho no Parlamento e pelo inacreditável líder da concelhia do PDS-Porto. Além do mais, o edil de Gaia endividou o concelho até à medula, com obras muitas vezes espampanantes (veja-se o teleférico sobre o Cais de Gaia), a habitual "obra feita" de que tantos autarcas se gabaram e que levou tantas câmaras à situação de garrote financeiro em que se encontram. Menezes é um incoerente, que diz uma coisa numa semana e o seu contrário no mês seguinte, e sofre de uma instabilidade psicológica e emocional que ficou bem à vista na sua fugaz passagem pela liderança do PSD. Quanto a Manuel Pizarro, do que conheço, julgo ser um homem sério e com os pés assentes na terra, ainda que um pouco cinzento; mas está rodeado pelo PS Porto, que excepção feita a Francisco Assis e pouco mais, é tão mau ou pior que o PSD do mesmo distrito. É ver as traições e combates que se passam no PS de Matosinhos para se ficar com uma bela imagem do grupo.

Até por isso, por uma questão de higiene política e municipal, é desejável que a candidatura de Rui Moreira se implante no terreno e tenha sucesso. E que se isso acontecer, muitas mais se sigam. Para que os municípios se libertem enfim dos compromissos com as cúpulas dos partidos, das suas brigas e dos seus pequenos interesses de momento, que tão mau nome têm dado ao municipalismo.

Poderá Chipre ser o suicídio da União Europeia?


 

A insensata medida para taxar os depósitos bancários dos cipriotas sofreu um não consensual do parlamento da metade da ilha que pertence à União Europeia. Já era de esperar que não aceitassem essa imposição, mas a unanimidade na recusa de a acolher torna ainda mais visível o autêntico disparate que seria essa decisão do conselho de Ministros.

Não é só a medida em si, própria de um estádio totalitário que põe e dispõe das finanças dos seus cidadãos, que choca: a forma como a tomaram é quase patética, mas ilustra bem aquilo em que a UE se vem tornando. Uma decisão do que deveria ser um órgão colegial, na realidade tratou-se de uma imposição ao governo de Chipre dos ministros das finanças alemão e holandês, enquanto os outros membros homólogos do "Eurogrupo" entravam e saíam da sala, indiferentes (ou submissos?) à gravidade do que se estava a passar.

Sabe-se que Chipre deve o seu crescimento (ou a sua engorda) recente devido à zona franca, às condições fiscais e aos imensos depósitos que os oligarcas russos lá deixam. Um dos objectivos desta decisão era de diminuir a sua liberdade financeira, e ao mesmo tempo fazer pagar o resgate feito a Chipre através dos russos, sem consentimento da parte deles, claro está. O problema é que não somente se trata de uma imposição intolerável aos depositantes, que para além dos russos abrange os cipriotas com menos recursos, como vai contra resoluções anteriores que garantem depósitos até cem mil Euros. Cereja no cimo deste complicado bolo: Chipre acaba por pagar pelos danos colaterais que sofreu com o perdão parcial da dívida grega, outra decisão tomada pela UE. não somente é prejudicado por isso, como ainda de pagar os juros das decisões comunitárias.

A UE já está a arrepiar caminho, mas como se disse incessantemente nos últimos dias, o precedente está aberto. Com o autoritarismo que se verifica sobre os países com dívida excessiva e em dificuldades económicas, tudo se pode esperar. Chipre é uma meia ilha com menos de um milhão de habitantes, ali na ponta leste do Mediterrâneo, e o "Eurogrupo" pensou que podia impor as medidas que lhe surgissem na cabeça com a visão curta e burocrática e com a arrogância imensa que o caracteriza. Mais uma vez, não previu os perigos de contágio. De tal forma que os bancos da ilha continuam fechados, perante novas ameaças do BCE de fazer cessar a liquidez já para a semana se Chipre não aceitar ovo plano de resgate. O que a euroburocracia não previu, na sua completa incompetência e ignorância geostratégica, é que a mesmíssima posição geográfica e a afinidade cultural como a Grécia e com a Rússia podiam fazer a balança pender para esta última. De facto, com os depósitos dos seus oligarcas ameaçados, e com a guerra que se arrasta na Síria, cujo resultado desfavorável ao actual regime pode obrigá-los a retirar as suas bases navais que aí mantêm (as únicas que têm no Mediterrâneo), os russos podem aproveitar esta situação para ajudar economicamente Chipre em troca de aí instalarem novas bases, numa posição estratégica até mais favorável e estável do que a costa síria (estes dois posts no Estado Sentido explicam bem essa circunstância). E se a UE recusar e lançar novo ultimato (já que a Alemanha parece muito confiante na continuidade de fornecimento de energia por parte da Rússia)? Aí talvez se depare como um pequeno estado rebelde, que pode muito bem, em último caso, fazer a sua secessão do Euro e até da própria UE. A partir daí, seria o caos. Quem acende fogo de forma irresponsável acaba por se queimar.

 

É pela falta de de visão, conhecimentos e sensatez das classes políticas europeias que o entusiasmo com o Papa Francisco faz ainda mais sentido. Perdida a confiança na política e nas ideologias, será o cristianismo, contra algumas previsões, a salvar-nos uma vez mais.

sexta-feira, março 15, 2013

Francisco

 
 
 
Pela primeira vez consegui assistir ao anúncio do novo Papa e à sua chegada à varanda de S. Pedro. É certo que só tinha tido uma oportunidade, mas em 2005, por ligeiro atraso, perdi ambas, e só vi o já Bento XVI com as vestes papais.

Desta vez, consegui acompanhar o nervoso da espera, ouvir o cardeal Jean-Louis Taran anunciar o nome. À primeira impressão, ao ouvir o "Bergoglio", pensei: "elegeram um italiano"? Só depois é que as televisões revelaram que era argentino, e ouviu-se pelo meio que adoptava o nome Francisco. Como pensei, era nome inédito para um Papa. a explicação surgiu depois: uma homenagem a S. Francisco Xavier, e sobretudo, a S. Francisco de Assis.

Um Papa sul-americano é coisa inédita na Igreja, embora fosse previsível que um dia teria mesmo de ser. Mais inédito ainda é ser jesuíta. Raríssimas vezes os membros da Companhia de Jesus subiram a cargos tão altos. Sempre estiveram vocacionados para os lugares de missão, da ciência, da busca incessante da sabedoria e dos ensinamentos que outros povos lhes pudessem dar, e isso afastou-os dos lugares da hierarquia, de tal forma que chegaram a extinguir-se momentaneamente, com a "preciosa" ajuda de Pombal.
 
Mas notei logo no gesto simples com que o Papa brindou a multidão apinhada em S. Pedro, um gesto de adeus e um "buona sera", como se dirigisse a amigos. Aos seus irmãos, aos quais dará a função paternal como é própria do Sumo Pontífice.
 
O Papa Francisco, o primeiro desse nome, calça agora as sandálias do Pescador e usa o Anel de Pedro. É para ele que se projectam os olhares de todos os católicos, não certamente à espera de nenhuma revolução, mas sim de alguns gestos que aproximem a Igreja dos fiéis e saiba reproduzir a mensagem de Cristo, deixando de lado pecados antigos ou mais recentes. Que os clérigos sigam o seu exemplo de simplicidade (e a do Papa Emérito Bento XVI), e que os leigos a compreendam. O conclave durou pouco tempo, e isso será prova de uma escolha feliz. Eis o nosso Papa. Francisco, Bispo de Roma e sucessor de S. Pedro. Que Deus o ajude na sua cruz.

PS: apesar de ser um "Papa das Américas", note-se que a língua materna é o espanhol, o apelido italiano, e o nome escolhido remete para França e homenageia um santo italiano. De certa maneira, as tradicionais antigas "potências" católicas continuam presentes.

quarta-feira, março 13, 2013

Á Chave


As agências noticiosas esfregam as mãos de contentes: nos próximos dias, os directos e os comentários "à situação" estão garantidos. Com o início do Conclave que irá eleger o novo Sumo Pontífice, após a surpreendente renúncia de Bento XVI, fazem-se apostas, dissecam-se favoritos, traçam-se cenários, pedem-se "reformas". Regressa aquele vocabulário adormecido durante anos, como Conclave, Camerlengo, "sandálias do Pescador", fumo branco, etc. Qualquer perigo de vazios televisivos está afastado, e sempre dá para alternar com os resumos futebolísticos, com as manifs  ao som da "Grândola..." e com a inspecção da Troika.
 
Todo esse estendal pode divertir o público, mas não influencia os cardeais eleitores. Estes sofrem, como é óbvio, pressões, e terão as suas preferências. Alguns, em especial o sector "italiano", terão as suas intrigas e os seus motivos conspirativos. Mas uma vez dentro da Capela Sistina, sob a opus magnum de Miguel Ângelo, isolados do mundo profano, farão a sua escolha. Felizmente já não são alimentados a pão e água. Ainda assim, que a espera não seja demorada. E que o Papa, seja lá qual for a sua proveniência, da Europa, América do Sul, Ásia, África, guie a Igreja Católica na sua missão pastoral. É o que se lhe pede. Confiemos no Espírito Santo e no bom senso. Até lá, resta-nos imaginar o que se passará dentro das paredes da Capela, fechada à chave.
 

segunda-feira, março 11, 2013

O genuíno baile dos vampiros


Parece que ontem teve lugar o habitual "Baile dos Vampiros", que pré-encerra o Fantasporto. Nunca estive em tal evento, mas duvido que chegue sequer perto da solenidade e pompa do baile dos vampiros idealizado por Polansky no seu Por Favor, Não me Morda o Pescoço, com a participação do próprio e da malograda Sharon Tate, sua mulher na altura, antes do crime diabólico que a assassinou, e que horrorizaria até o vampiro mais sedento. Música barroca tocada em cravo, derivações do menuet, trajes do século XVI ao XVII envergados por seres pálidos mas com gravidade aristocrática: eis um baile dos vampiros como deve ser.
 

domingo, março 10, 2013

Antes da deslocação à Gironde

 
O Benfica lá conseguiu vencer os girondinos, por escasso 1-0, graças a uma bomba de Rodrigo (que a UEFA, no seu futebolisticamente correcto, atribuiu ao guarda-redes Carraso), e pouco mais. É provável que em Bordéus se ultrapasse a equipa da casa, mas vai ser preciso suar um pouco mais. Verdade seja dita que os franceses não têm a mesma equipa que se sagrou campeã em 2009, sob a batuta de Gourcuff, nem contam com um Pauleta, um Chalana, e muito menos um Zidane. E acima de tudo não têm um líder com bolsos largos como o que presidiu ao clube nos anos oitenta, Claude Bez. Este excêntrico presidente, que contratou o "pequeno genial" Chalana por um valor recorde em 1984 (graças ao qual o Benfica fechou o Terceiro Anel), e que tinha uma imagem de milionário americano do Texas (usava um chapéu de texano, farto bigode e conduzia um Cadillac, mesmo quando ia a estádios adversários), tornou o Bordéus a força dominante do futebol francês da década de oitenta, tomando o lugar ao Saint-Etienne. Contratou grandes jogadores, como o génio do Barreiro, conquistou alguns títulos, e pelo meio venceu o Benfica numa eliminatória, antes do Marselha lhe arrancar a hegemonia do futebol gaulês, liderado por um dos grandes inimigos de Bez, o celebérrimo Bernard Tapie (mas esse não conseguiu ultrapassar o Glorioso).
 
Os anos oitenta passaram, Bez também, mas o Bordéus de vez em quando lá ganha um campeonato francês. Desta vez perdeu com o Benfica, e se tudo correr bem ficará pelo caminho. Agora tem um presidente que, com a época a correr pior, chama aos jogadores "passarinhos e galinhas". Não sei se Bez lhes dizia tais coisas no seu tempo, mas como o clube estava na mó de cima, é difícil imaginar. Pena, pena, é que cada vez mais os clubes tenham à sua frente gestores cerebrais com boas referências das empresas financeiras por onde passaram - ou pior, sheiks árabes ou oligarcas russos - e não líderes de carisma e amor paternal ao clube, que com todas as suas excentricidades, erros e frases fortes, marcam as colectividades e o seu tempo.
 
 

quinta-feira, março 07, 2013

Crónicas urbanas

 
Gosto muito das crónicas urbanas que vêm na página final da revista 2, o suplemento de Domingo do jornal Público. Os textos revezam-se semanalmente entre Lisboa e Porto, sendo respectivamente escritos por Alexandra Prado Coelho e Manuel Jorge Marmelo (mas nem sempre) e ilustrados por desenhadores vários, como Eduardo Salaviza.
Através dessas crónicas vamos recordando aspectos das cidades de que já estávamos esquecidos, reparando em pormenores nunca antes apercebidos e conhecendo lugares bizarros e por vezes semi-escondidos cuja existência nem sequer imaginávamos. Por causa disso mesmo, já tenho recortado e guardado várias desses textos.
 
Mas embora sejam um imenso manancial de ideias e de escrita, Lisboa e Porto também têm os seus limites, quanto mais não seja de criatividade. Assim, e antes que as crónicas dêem lugar a outra rubrica qualquer, sugiro aos editores do Público que comecem já a olhar para as outras cidades do nosso país. Podem ser subúrbios, de onde também brotam sempre histórias, como Matosinhos, Almada, Barreiro ou Maia (incluindo os que oficialmente não são cidades, e a Cascais e Estoril não faltam certamente matéria para histórias). As velhas cidades de Norte a Sul, Braga, Évora, Bragança, Coimbra, Viseu, Funchal, Guimarães, etc. E as novas cidades, que adquiriram o estatuto mais ou menos recentemente, como Famalicão, Portimão, S. João da Madeira, Caldas, e tantas outras. Comecem já a enviar os vosso escribas por esse país fora, ou a desencantar outros. Garanto que ficam com matéria para magníficas crónicas urbanas por mais um ror de tempo.

quarta-feira, março 06, 2013

Hugo Chávez 1954 - 2013

 
Morreu Hugo Chávez. Era previsível, só faltava mesmo saber quanto tempo sobreviveria ainda o presidente venezuelano reeleito. Aliás, ainda hoje os seus subalternos se lançaram noutra ridícula teoria da conspiração, sabendo provavelmente que o líder já morrera, acusando os Estados Unidos (que mais?) de serem os culpados pela doença de Chávez. É um processo típico de regimes pouco livres, o de espalhar teses histéricas para aquecer os ânimos das populações. O populismo é aliás uma das facetas mais visíveis da Venezuela, atirando as culpas sempre para cima dos EUA e do "capitalismo". Porque não acusam o famoso serviço de saúde de Cuba, onde o líder bolivariano esteve tanto tempo internado?
 
O que é certo é que o estado de saúde de Chavez era já preocupante aquando das eleições em Outubro, e nem assim se coibiu em recandidatar-se. O chamamento do poder revelou-se mais forte na altura do que a doença. Durante semanas a propaganda regimental jurou que a sua saúde estava a evoluir, que voltaria a ocupar o seu lugar na presidência. Depois tornou-se mais prudente. E quando tudo se precipitou, apressou-se a culpa o inimigo do costume.
 
Resta desejar que tenha morrido em paz, ele que sempre se mostrou um cristão fervoroso. Como bem diz Miguel Castelo Branco, não era um ditador nem um carniceiro, longe dos procedimentos do seu amigo Fidel Castro. Era um caudilho populista com uns pós de autoritarismo, eleito democraticamente, que instaurou um modelo político e económico controverso e dependente do petróleo, que por vezes ultrapassava o risco. Veremos se depois do luto e da comoção, o chavismo resiste ao desaparecimento do seu inspirador. Que descanse em paz.
 
 

terça-feira, março 05, 2013

O futuro não pode passar por ali

 
Houve certamente muitas razões para as manifestações de Sábado passado. Não participei porque não acho que se deva mandar a Troika embora, e muito menos que recuperaríamos "as nossas vidas" se tal acontecesse, como se não dependêssemos do exterior, ou estivesse tudo bem antes da chegada dos três emissários. E porque não podemos voltar a cometer os mesmos erros que nos trouxeram a esta situação (havemos de repeti-los, como temos feito ao longo da história, mas espero que muito lá para a frente).
 
Mas ver aquela tribuna no Terreiro do Paço, com uma data de gente e agitar o punho, de cravo vermelho ao peito, e com bandeiras do PCP a esvoaçar, enquanto gritavam slogans revolucionários, levou-me logo a recordar as imagens que vi do PREC. E ainda dizem que são "progressistas" e que os "jovens" estavam com a manifestação. O futuro é aquilo? Tinham mesmo de recuar aos anos setenta? Será que não arranjam nada de mais actualizado e optimista? Se assim é, os organizadores da manif não dão mais esperança que o governo ou a Troika.