sábado, fevereiro 08, 2014

Esperança em que as europeias sejam mais interessantes do que o costume


Se as autárquicas já foram interessantes e animadas, com o fim dos dinossauros, o sismo na Madeira e o protagonismo dos independentes, as próximas europeias prometem não defraudar as expectativas, o que não é difícil, dado o nível de interesse que o eleitorado tem por este tipo de eleições, convencidos que "é para votar nos tipos que vão lá para a Europa".

É verdade que os assuntos da UE interessam muito pouco ao comum dos portugueses - provavelmente também aos outros membros, excepto talvez aos do Benelux - e quem sabe, à maioria dos candidatos. Talvez por isso as eleições europeias sejam usadas mais como barómetro à popularidade do governo vigente. Geralmente, com raras excepções (1987, 2004), são-lhes desfavoráveis, embora não signifiquem necessariamente a sua total recusa (vide 2009). O Parlamento Europeu é visto como o representante mais visível da euroburocracia comunitária, ou exílio dourado como recompensa de sacrifícios partidários. Ainda para mais, os dias das eleições costumam ser feitas no início do Verão. Não admira que a abstenção seja sempre o vencedor absoluto.

É raro vermos outsiders nas Europeias. Em 2009 tivemos como novidade o Movimento Esperança Portugal, que entretanto já se extinguiu como partido, encabeçado por Laurinda Alves. Em 1987 e 1989 tinha sido Miguel Esteves Cardoso, pelo PPM, a quase conseguir ser eleito graças a uma campanha bem disposta e politicamente incorrecta (com aquele slogan Patriotas sim, pataratas não). Em 1994, Ivan Nunes infiltrou-se nas eleições com o Política XXI, que nem sequer era um partido. E de resto, nada mais, tirando a bizarra candidatura do Maestro Vitorino de Almeida pelo MDP-CDE em 1989.


É pena, porque no meio das banalidades e da competição para ver quem tira mais pontos ao partido no poder (ou, tratando-se deste, saber o quanto aguenta), não se ouvem ideias praticamente nenhumas. E nos casos supracitados houve sempre algo de inovador, de novo, ou pelo menos de mais animado entre o torpor das noites soalheiras que são por norma as campanhas das europeias.

Por isso, a campanha de Maio promete. Já se sabe que não há união da esquerda radical (que surpresa!), uma vez que o Bloco não quer nada com o Livre, provavelmente ainda agastado com Rui Tavares, o "3 D" queria juntar-se-lhes porque, não sendo um partido, não pode concorrer; e o Livre entretanto já enviou as assinaturas necessárias para o TC, mas está numa corrida contra o tempo, porque a legalização pode chegar apenas depois do fim do prazo para os partidos apresentarem as suas candidaturas. Espero sinceramente que o consigam, mesmo que o "3 D" não o apoie: Rui Tavares, partindo do princípio que será cabeça de lista, revelou-se competente em Estraburgo (até recebeu sarcasmos num comício do primeiro-ministro húngaro), e ao menos sabe-se que irão discutir assuntos relacionados com a UE.

Depois temos o Partido da Terra com Marinho Pinto a cabeça de lista. Não faço a menor ideia quais serão os temas que o ex-bastonário da Ordem dos Advogados vai abordar, até porque nunca o vi falar de problemas ambientais das questões do mundo rural.. Provavelmente converterá os seus habituais alvos em Portugal em alvos europeus. Certo é que se for a debate esperam-nos afirmações exclamativas e interrupções frequentes. Será uma boa oportunidade para testar finalmente o que vale nas urnas.

E agora até Nicolau Breyner resolveu ir a jogo. Não é a primeira incursão do actor na política, se nos recordarmos que em 1993 se candidatou a Serpa pelo CDS-PP e conseguiu a proeza de eleger dois vereadores, mesmo que nem tenha aquecido o lugar. Desta vez é o cabeça de lista de uma coligação eurocéptica, de que se sabe fazer parte o Partido da Nova Democracia (os outros serão provavelmente o PPV e o PPM, que com o PND formaram uma candidatura conjunta a Lisboa) e que fará sobretudo campanha pela saída de Portugal do Euro. Haja ao menos alguém que vem completar o nicho de eurocépticos, e sobretudo, lançar a discussão sobre a permanência no Euro. Até porque não se limitam a fazer de barómetro partidário. a questão é saber se o "Nico" estuda devidamente os dossiers sobre a matéria.
Em todo o caso, seria interessante ver num mesmo debate Nicolau Breyner, Rui Tavares e Marinho Pinto, fora outras eventuais surpresas (estou a excluir os grandes, evidentemente). Ao menos não se ficam por meias palavras e sempre podem travar alguma abstenção.

terça-feira, fevereiro 04, 2014

Philip Seymour Hoffman


Uma pessoa está uns dias afastada do Mundo, a orare e laborare, afastado das notícias, da azáfama citadina, da vida mundana e das suas mesquinhices, e quando regressa e abre o computador, depara-se com isto. Simplesmente o desaparecimento de um actor de que bem se podia dizer que era "o melhor da sua geração" (no cinema americano, em todo o caso).

 Das pequenas participações em filmes dos irmãos Cohen e Minghella ao retrato afectado de Truman Capote, que lhe valeu um Óscar de Melhor Actor, dos filmes de Paul Thomas Andersson (e não consegui ver The Master...), de quem era uma espécie de actor-fetiche, a retratos hilariantemente realistas, como o agente da CIA de Charlie Wilson´s War, e de tantos outros, mais obscuros, é difícil escolher a sua melhor interpretação. Já há muito que tinha ultrapassado (e confirmado) o estatuto de simples "promessa", mas certamente esperávamos que ainda tivesse muito para dar à Sétima Arte. Certo é que nunca se negou a interpretar os papéis mais difíceis e arriscados, que qualquer filme em que entrasse era sinónimo de dinheiro bem gasto no bilhete, e que será daqueles actores que continuarão a ser recordados daqui a cinquenta anos - desde que ainda haja cinema.


sexta-feira, janeiro 31, 2014

Praxes, causas e consequências


De repente, toda a gente fala em praxes, práticas académicas, toda a gente discute se são "tradições" ou "barbárie", se devem ser preservadas, proibidas ou modificadas. A discussão já tem décadas (séculos, até), mas anda sempre em círculo, sem se chegar a acordo possível. Desta vez surgiu a propósito dos estudantes arrastados por uma onda na praia do Meco. A tragédia aconteceu dias antes do Natal, gerou o choque normal durante uns dias, e depois pouco se falou. Quando li a notícia pensei que fosse uma embriaguez estudantil académica nocturna, não necessariamente uma praxe, que os tinha levado à praia numa noite de Inverno em que havia avisos pelo estado do mar, e que por causa de uma terrível irresponsabilidade, tinham pago com a vida. Parece agora que houve mais qualquer coisa.


Nem eu nem ninguém, excepto o sobrevivente, sabe o que realmente se passou, e se a causa da tragédia se deve a um qualquer ritual obscuro praxístico. Mas a violência do acontecimento, autêntica história trágico-marítima, e as reacções exacerbadas que daí resultaram, leva a que as pessoas procurem uma causa e um culpado. Lá voltou a praxe às conversas dos dias que passam, e os diferentes pontos de vista, quantas vezes exacerbados.

As opiniões sobre esta matéria dependem, naturalmente, da experiência de cada uma, e, de quem não a tendo, do que vê e ouve. No meu caso não tenho muito a dizer. A praxe que "sofria" na UCP do Porto, nos anos noventa, intimidava no primeiro dia porque não se sabia ao que se ia. A partir daí, era mais uma brincadeira que outra coisa. Sim, também tivemos praxes na praia, que aliás era muito perto, mas nada de rituais nocturnos junto à rebentação: eram sobretudo construções na areia, no tempo soalheiro de Outubro. Mesmo o "tribunal" era uma audiência de cenário tétrico, de janelas fechadas e decorado com capas negras, iluminado com velas, onde os caloiros faziam o possível para não rir. Pelo meio, uns jantares, uns copos, o "baptismo" no chafariz do Passeio Alegre, e depois parava tudo, até à Queima. Numa situação, foram mesmo os "veteranos" a sanar um problema em que um professor se tinha recusado a dar uma aula por mau comportamento dos alunos (todos acabados de entrar na faculdade).Claro que havia quem não gostasse, e um caso ou outro de uma caloira que desatava a chorar. Imediatamente os responsáveis tinham uma conversa com ela, tratando-a como uma amiga, até que as coisas se compunham. E pelo meio havia também um ou outro trajado que, inseguro da sua autoridade natural, falava mais aos berros, ou revelava uma notável tendência para a parvoíce ou boçalidade.


Também por isso espanto-me a ver, todo o santo ano, grupos de caloiros com as respectivas "cores" e
roupagens de praxe, guiados pelos respectivos "doutores", a desfilar pelas ruas com os seus cânticos de guerra. Que eu me lembre, estas coisas aconteciam em outubro. Mas em Janeiro e Fevereiro, em épocas de exames? Ou antes do Verão, quando supostamente já nem há caloiros? Quem é que se lembra de tamanha excentricidade? Ou as alturas de estudo mudaram, ou as praxes tornaram-se uma forma de vida do quotidiano.

Talvez seja por esta explosão praxística, esta overdose de "tradição", originada obviamente pelo boom de universidades privadas, como a Lusófona, que só é notícia pelas piores razões, como agora, que se discute com mais virulência as praxes e as formas de a controlarem. Talvez fosse melhor olhar antes de mais para essa causa, a da multiplicação de cursos e cursilhos nem sempre muito exigentes, para ser bondoso. É que a sofreguidão em se possuir um "canudo", ser-se tratado por "doutor" e poder-se dizer que se andou na faculdade, que afecta boa parte da classe política, e que tanta mediatização tem atraído, também se reflecte nos morcegos de traje, os tais "doutores" académicos. Se o universo de politécnicos, institutos e universidades de vão de escada é tão pouco regulado em Portugal, porque não haveria de o ser igualmente as suas extracções, cópias de verdadeiras tradições que havia em academias e universidades mais antigas? Se acham que as praxes estão fora de controlo, mexa-se antes nas instituições que estão na sua origem. e talvez se faça alguma coisa. Proibir pura e simplesmente, como quer fazer o Bloco (só podia), com o argumento do "fascismo", é pura retórica supostamente anti-populista. As praxes devem continuar, porque têm realmente um efeito integrador, para quem o deseje. Se houver abusos, os seus responsáveis devem prestar contas entre eles ou perante os corpos da faculdade respectiva, ou na pior das hipóteses, nas instâncias criminais. Mas antes, vejam onde é que elas se produzem, e se o ambiente académico e pedagógico respectivo não é de mera compra e venda de cursos, sem muito mais exigências.


sábado, janeiro 25, 2014

Liaisons dangereuses ou nem tanto?



As escapadelas de Monsieur Hollande, esse "presidente normal", deixaram a França meio a rir, meio admirada de ver um tipo com o carisma de um cágado e aparência do perfeito manga de alpaca com um currículo feminino de respeito. Dadas as tradições de casos amorosos dos chefes de estado do hexágono, dos luíses aos presidentes da V República, passando por Bonaparte, os franceses não terão certamente estranhado, bem pelo contrário, e Hollande não terá perdido qualquer voto com as suas aventuras. Aliás, dado esse historial só reforçam o seu estatuto de "presidente normal".

Muito embora o adultério seja um traço deplorável em relação à pessoa com quem supostamente se quer partilhar a vida, a verdade é que, casos extremos à parte, não mancham qualquer actuação do incumbente de um político. Sórdidas novelas como a que vimos à volta de Bill Clinton, e que tivemos a desonra de assistir em finais dos anos noventa naquela terra puritana a que chamamos vulgarmente Estados Unidos, não têm grande audiência deste lado do Atlântico, felizmente. E para ser franco e descer um pouco à conversa de comadre, não sinto pena algum pela actual "primeira dama" do Eliseu, a frondeuse Valérie Trierweiler. Além de possuir um ar muito pouco simpático, é bom recordar que também ela se tinha envolvido com Hollande quando ele ainda se encontrava com Segoléne Royal (aliás muito mais interessante), e que aliás já este ano influenciou a sua derrota no círculo eleitoral para a qual era candidata ao parlamento.

Dito isto, há alguns pormenores que não são exactamente da "estrita vida privada" dos estadistas: por exemplo, os achaques de Madame Trierweiler, que gasta uns bons milhares de euros por mês aos fundos estatais, o mau ambiente que isso possa trazer ao Eliseu. mas sobretudo, as questões de segurança do próprio Hollande. Claro que é cómico vermos a personagem fugindo à socapa do apartamento de Gayet (que a propósito, já não é exactamente uma "jovem", e sim uma quarentona) naquela moa-triciclo, com o capacete a mostra-lhe os olhos assustados. Mas e se alguém menos recomendável - um jihadista, por exemplo, aborrecido com a intervenção no Mali -  soubesse quem ia ali? E depois, há ainda a questão do apartamento, ao que parece propriedade de uma amiga da actriz, com relações obscuras com mafiosos corsos. É bom lembrar que a profissão de espião é das mais antigas da humanidade. E que a alcova é das mais clássicas (e eficazes) maneiras de se sacar segredos de relevo, influenciar-se augustas figuras, e assim se moldar o curso da História.


PS: claro que se o normal monsieur Hollande escapar disso, das críticas de todos os socialistas da Europa já não escapa, depois da incrível inversão do programa económico para os próximos anos, ultrapassando Sarkozy pela direita. e pensar que era a "esperança" da esquerda há menos de dois anos. Mas Miterrand teve uma actuação muito semelhante.

quarta-feira, janeiro 22, 2014

O tacticismo de Marcelo



Duvido muito que Marcelo Rebelo de Sousa, ao contrário do que disse na sua crónica semanal televisiva, tenha desistido da candidatura presidencial. Já há anos que alimenta esse objectivo e sabe que tem popularidade e notoriedade para o conseguir. Mas bom tacticista como é, preferiu revelar a ideia aos telespectadores para obter reacções de desagravo do PSD (Passos coelho já veio apressadamente desmentir) e o apoio por parte do público, que de outra forma nem ligaria à moção do actual PM. E é verdade que esta impressiona pela sua tonteria e credulidade de que irá fatalmente ganhar as eleições de 2015 e impor o seu candidato presidencial, para além da arrogância em fazer crer que bom, bom, é um presidente imóvel e meramente institucional. Se é para isso, mais vale fazer como na Alemanha ou em Itália e pôr o parlamente a votar num "venerando senador". Poupava-se dinheiro e seria menos um argumento a favor da república. Mas Marcelo sabe que as divisões no PSD, a impopularidade do governo e as duvidosas hipóteses de Durão e Santana jogam a seu favor. Até porque se o aparelho laranja o afastar explicitamente em favor de outro, pode sempre recorrer a um exemplo vitorioso e fresco na memória: Rui Moreira.

quinta-feira, janeiro 16, 2014

Dez anos





E assim chegámos aos dez anos de A Ágora. Sim, este espaço que estão a ler completa hoje dez anos de idade. Uma década, desde aquela madrugada em Janeiro de 2004, em que decidi que nome haveria de dar ao blogue e em que escrevi as primeiras linhas, antes da surpresa de me ver publicado online.

Não é preciso lembrar que raríssimos blogues chegam a esta idade. Da primeira leva, de 2003, quase não deve haver nenhum activo. Da segunda, de 2004, ao qual este pertence por longevidade própria, tão pouco. Claro que na altura jamais pensaria em manter-me tanto tempo no mesmo formato. Cheguei a pensar em convidar mais pessoas para o blogue, em mudar o formato da página, o subtítulo que mostra aos leitores incautos ao que vêm, coisas que acabaram por nunca acontecer. Hoje escrevo estas linhas no mesmíssimo quarto e que o iniciei. O blogue continua a reflectir o mundo do seu escriba, faça ou não parte da actualidade mediática, diga muito ou pouco a quem se depara, nas inúmeras ligações que quotidianamente faz por acaso, pela primeira vez com esta página. Algumas ideias mudaram, o estilo terá sofrido mudanças imperceptíveis, a técnica e os instrumentos à disposição deram nova arrumação aos escritos, e hoje olho para alguns textos que me parecem mais pueris de forma benevolente. Julgo que isso deve acontecer em qualquer pessoa que encontre coisas por si escritas com uma década, sobretudo se se tratar de um projecto no início.

Este caminho solitário, em que é obrigatório alimentar o "bicho" amiúde, ou perdemos imediatamente auditório, nem sempre é fácil. E é bem provável que um dia destes tire umas férias - só e apenas isso. Mas por enquanto, e porque ainda me sobra paciência e tenho algumas coisas que me saltam à vista para escrever, este blogue manter-se-à activo. Quando achar que nada mais tenho para dizer, que não faz sentido ou que se tornou numa obrigação pesada, então encerrarei a sua publicação. Mas não por agora. O que não significa que não possa haver algumas mudanças, ao layout e à apresentação, por exemplo. O nome, esse, garanto, é que nunca irá mudar. 

O caso que faltava para animar o congresso



O curto faits divers dos delegados do CDS do Algarve num restaurante de leitões era a pincelada que faltava para colorir um congresso bocejante, em que quase nada mudou no partido, e que só serviu para a oposição a Portas ganhar mais uns elementos nos órgãos nacionais e Nobre Guedes (caramba, envelheceu como tudo!) fazer o papel de António Costa dos conservadores. Ou seja, uma ou duas coisas mudaram para que tudo ficasse na mesma. Ao menos reuniram-se numa zona fora dos grandes centros urbanos e levaram alguma animação à Bairrada. Mas como quase não há congresso do CDS em que não se assista a casos rocambolescos (do café de Manuel Monteiro ao "eu sei que você sabe que eu sei" de Nogueira Pinto, passando pelas sessões de pugilato protagonizadas por Ferreira Torres e outras facécias), o micro-caso dos leitões apareceu na altura certa. E com evidentes vantagens: deu para saber mais nomes de restaurantes da especialidade, quais os melhores, testemunhos de apreciadores, etc.

O líder, esse, permanece inamovível, ainda que não incontestável, mesmo que os seus mais directos seguidores demonstrem apoio até ao fim.


                                                   (tirado do Corta-Fitas)

quarta-feira, janeiro 15, 2014

Uma semana desportiva proveitosa


Depois da morte física de Eusébio, a semana futebolística tem sido fabulosa. Como se o espírito do Pantera Negra se tivesse apoderado dos seus directos sucessores (o Benfica e o seu legítimo representante como melhor jogador da actualidade) e os tivesse guiado aos respectivos triunfos.

Apesar de saber que os jogadores teriam motivação extra, temia que não fosse suficiente o que acusassem a pressão. Ou algum golpe de menos fortuna, como no ano passado. Mais do que um jogo importante para o campeonato, a tentativa de chegar à liderança, um confronto com o grande adversário dos últimos anos ou mesmo a superação de fantasmas recentes, era a própria honra, mais, era a sobrevivência moral do Benfica que estava em jogo. A homenagem a Eusébio, nos dias a seguir à sua morte, exigia o maior esforço possível.

E os jogadores cumpriram, justiça lhes seja feita. Não com um jogo de uma qualidade extrema ou com a famosa "nota artística", mas com raça, entrega, vontade. Rodrigo, ao marcar aquele primeiro golo de raiva, era a perfeita imagem disso. E com isso desconcertou o Poro, que baixou os braços e pouco ameaçou. O golo de Garay só confirmou a justíssima vitória (que podia ser maior se Rodrigo tivesse sido um pouco mais certeiro), depois do que o Benfica descansou um pouco e o Porto mostrou uns fogachos insuficientes por Quaresma. o árbitro resolveu fazer-se notar, negando um penalty para cada parte e expulsando o jogador errado (expulsou Danilo, deveria ser Jackson) O Benfica não ameaçou mais, mas havia que gerir emoções, e sem Cardozo e Salvio o poder de fogo também era menor. Ficou a vitória natural, o melhor tributo ao Pantera.

Mas ainda antes tínhamos assistido a uma das mais belas coreografias de estádio que provavelmente já se viram em Portugal (podem ver aqui mais em pormenor), a um minuto de silêncio escrupulosamente respeitado, excepto pela meia-dúzia de anti-sociais que aparece sempre, e a uma homenagem singular dos jogadores do Benfica, envergando todos uma camisola com o nome Eusébio. Não era inocente: o peso da camisola e a responsabilidade de a honrar fariam, como fizeram, o seu papel no jogo.

O Benfica guindou-se assim para a liderança isolada do campeonato, recebendo o galardão simbólico de "campeão de Inverno". Insisto no simbólico. Porque com a saída de Nemanja Matic, o esteio do meio-campo e da equipa, o jogador cuja ausência mais se nota, e sem substitutos à altura, será muito complicado manter o nível. Se fosse no Verão, entre épocas, a situação seria ultrapassável. Não agora, a meio. 
Mas de qualquer forma, mesmo que o Benfica nada ganhe (e longe vá o Agouro, que o ano passado já bastou), pelo menos ganhou este simbolicíssimo jogo e defendeu a honra da casa. Isso já ninguém lhe tira.

E logo no dia seguinte, claro, a semi-esperada vitória de Cristiano Ronaldo na Bola de Ouro da FIFA, consagrando-o como melhor jogador de 2013. Até ao anúncio oficial, pela voz de Pélé, ainda estava algo apreensivo com a hipótese de ganhar Messi. Felizmente, ganhou aquele que mais lutou pelo galardão (e que teve alguma sorte, convenhamos, com os disparates de Joseph Blatter). O argentino já parecia um vencedor administrativo, "porque sim", mudando todos os anos os critérios e os pretextos para que ele vencesse. Já Ribery estava lá como representante do Bayern de Munique, vencedor em todas as frentes, uma raciocínio um pouco absurdo dado que se tratava de um prémio individual e não de uma equipa (e para isso talvez Lham ou Robben). E como disse Pélé, quando o português não aguentou a emoção e se desmanchou em lágrimas, "Deus ajuda a quem merece". Mereceu.

Uma nota: o Benfica estava particularmente bem representado na Gala da FIFA. Para além da homenagm a Eusébio ainda tivemos lá Matic, ainda nosso jogador, candidato ao melhor golo de 2013, precisamente um ano atrás (ficou em segundo, mas o golo vencedor, de Ibrahimovic, era mesmo imbatível, mesmo que na realidade datasse de 2012). E o troféu de melhor treinador coube, sem surpresas, a Jupp Heinckes, antigo técnico do Benfica, que depois da humilhação de Vigo e de despedir João Vieira Pinto saiu sem glória para dar lugar a José Mourinho, curiosamente numa das piores épocas de sempre do Benfica.


segunda-feira, janeiro 13, 2014

Ah, o Mar, sempre tão encantador



Até aos 3 anos, andei no centro social infantil neste mesmo local (fica à direita da foto). Pergunto-me que imagem de infância guardaria se tivesse visto ondas deste calibre, como as que assolaram a Foz na semana passada, com um cenário de que ninguém se lembrava. Os actuais "utentes" tiveram de ser levados dali para fora, tal como os velhinhos do centro de dia ao lado. Já agora: tantos mirones apesar do perigo óbvio e previsto? Felizmente tudo não passou de uma molha, alguns riscos nos carros e um grande susto, porque se tivesse acontecido alguma tragédia falava-se logo em "azar" ou em "ondas que apareceram não se sabe de onde" (como ainda há uns tempos ouvi, a propósito de um naufrágio junto à costa). E apesar do reboliço, alguns imprudentes ou fotógrafos temerários não deixaram de fazer a sua incursãozinha para lá das fitas de protecção. As vagas dessa segunda feira de Reis, de Norte a Sul do país, não deixarão certamente de ser recordadas durante anos. Espera-se é que tenham ensinado alguma coisa.



quinta-feira, janeiro 09, 2014

A importância de Eusébio



A despedida do Pantera Negra foi comovente, grandiosa e superlativa, como era justo que fosse. Portugal despediu-se de um dos seus representantes mais notáveis, e certamente o mais conhecido no último século. Em Dia de Reis, como convinha ao "King". Sob a chuva, para reforçar ainda mais as lágrimas. E no meio de toda a emoção, não faltaram os exageros, como propor que o seu nome fosse dado ao Estádio da Luz (coisa que o próprio nunca quis), ou sugestões óbvias, como a sua futura transladação para o Panteão Nacional, coisa absolutamente previsível, já que todos os partidos políticos suportam a ideia sem objecções.

Igualmente previsíveis foram algumas críticas à futura transladação. Desde argumentos clubistas mal disfarçados, até à habitual pedantice a armar ao intelectual despeitado porque seria "um escândalo" que "um futebolista" fosse colocado na mesma situação que essas eminentes figuras que tanto deram à Pátria, como Teófilo Braga, Óscar Carmona ou João de Deus. A deposição dos restos mortais do Pantera Negra é para mim um acto da mais elementar justiça e gratidão. Um homem que é simplesmente o português mais conhecido fora de Portugal dos últimos cem anos, sem internet, Youtubes e smart phones, que numa altura em que o país era notícia por razões obscuras, como a guerra, ou pura e simplesmente ignorado, milhões de pessoas por esse Mundo fora souberam o que era Portugal graças a ele, por boas razões. O primeiro grande futebolista africano (talvez o maior até agora) causou alguma estranheza no mundial de 1966, em Inglaterra, pelo exotismo de um negro jogar numa equipa europeia (além dele ainda havia outros, como o próprio capitão da equipa, Coluna). Para mais, sagrou-se como o melhor goleador e impressionou as assistências. Por causa dele, havia mini-tréguas na guerra colonial. E por ele, agora, inúmeras capas de jornais internacionais colocaram a notícia da sua morte na primeira página, imensos noticiários por todo o Mundo deram a triste notícia, incontáveis figuras do desporto, e não só, sentiram-se na obrigação de dar uma palavra em honra do rapaz da Mafalala. E sobretudo impressionou a reverência feita pelo Manchester United e pelo Real Madrid, que fizeram um minuto de silêncio antes dos respectivos jogos e puseram a bandeira portuguesa a meia-haste. Reparem que estamos a falar dos dois clubes mais titulados de Espanha e Inglaterra, o país vizinho que durante séculos nos tentou anexar e o velho "aliado" que sempre se aproveitou das nossas debilidades quando lhe convinha. Ou seja, dois países que sempre não raras vezes desprezaram (e muitas vezes ainda desprezam) Portugal, que tanto ameaçaram o nosso povo, inclinaram-se e aplaudiram respeitosamente um português africano. Se este homem não merece as honras do Panteão, então que desapareça o Panteão, porque não tem qualquer serventia e não passará de um mono ridículo.

domingo, janeiro 05, 2014

Eusébio da Silva Ferreira 1942 - 2014

 
O Pantera deixou-nos. Definitivamente. Confesso que era uma notícia que temia quando se anunciava novo internamento do King. E fatalmente, teria de chegar. Agora, a pouco tempo de completar 72 anos, (curiosamente seria no dia em que passariam dez anos sobre a morte em campo de Miklos Feher).Causa muita estranheza e impressão ver o símbolo maior do nosso futebol deixar-nos, um homem que, apesar de nunca ter visto jogar, fazia parte do meu imaginário e de que sempre tinha ouvido falar. A lenda tornou-se um pouco mais terrena nos únicos segundos em que o vi, no corrupio daquele aeroporto alemão em dias de grande competição da bola, e em que fui cumprimentar o Pantera, que de repente ali estava à minha frente.
 
A notícia que acordou os portugueses neste triste Domingo deixou a maior parte chocada. Se ainda há alguém que não percebeu a importância de Eusébio, passo a explicar. Não era um mero jogador muito talentoso e um pouco ingénuo que ganhava títulos: era o português mais conhecido em todo um mundo, num tempo sem internet nem telemóveis, o homem que pôs o futebol português no mapa, o primeiro grande ídolo africano, quando moçambique era um colónia e a maioria dos novos estados de África um conjunto de propriedades de sobas que tinham estudado na Europa. Era um português africano que encantou o Mundo e pôs a Inglaterra de 1966, em plena ascensão dos Beatles, boquiaberta de espanto. Era o homem de quem, quando se falava em qualquer ponto do globo, criava um imediato sentimento de simpatia respeitosa para com Portugal. Era, enfim, alguém capaz de calar as armas da guerra colonial nas picadas de África com os seus golos, e que nunca, mas nunca, se queixou dos seu países, o de nascimento e o de sempre. Por tudo isso, o Benfica, e já nem falo dos países mencionados, devia colocar a bandeira a meia-haste durante todo o ano e os seus jogadores pensare nele antes de entrar em cada relvado.
 
Eusébio, o Pantera Negra, o português mais conhecido e admirado do século XX (que me perdoe Amália), era um mito e agora tornou-se definitivamente numa Lenda que nunca será esquecida. Que Deus o guarde pelo muito que nos deu.

 

sábado, janeiro 04, 2014

Recomeço

 
E ao quarto dia do novo ano, décimo primeiro deste espaço, A Ágora reentra em actividade. Com pouco para dizer, note-se. recomeça vagarosamente, ao contrário do clima. Tal como os britânicos, poderíamos começar por falar no tempo, que, depois de uma trégua na noite de ano novo, piorou ainda mais em relação ao Natal, com cataratas a caírem dos céus, ventos arrasadores, granizo com amostras do tamanho de ovos de pomba, raios e coriscos nos céus, vagalhões a assolarem a costa, rios a visitar terreno por norma (mas nem sempre por costume) enxuto e neves abaixo do alto das serras. Para início, estamos bem servidos. E ainda o Inverno está longe do termo. Ah, e temos também um imposto acrescido e com outro nome sobre os reformados. o aumento das receitas fiscais acima das expectativas não devia servir para alguma coisa?

terça-feira, dezembro 31, 2013

O costume do dia de hoje

 
Ah, 2013. Tinha ainda tantos posts para escrever, mas infelizmente a voragem inexorável do tempo vai-me obrigar a deixá-los para o ano que vem (i.e. os próximos dias). E já que a pressão social nos obriga aos desejos, às resoluções para o novo ano, às retrospectivas com "os acontecimentos" e as "figuras" do que passou, à festa na noite de hoje, etc, desejo apenas o trivial: saúde paz, amor e convívio. Para mim, apesar de ter tido alguns momentos curiosos, 2013 desiludiu em vários capítulos. Por isso, e perdoem-me o egoísmo, espero que 2014 me surpreenda pela positiva, que já vai sendo tempo. Ah, e não esquecer que em 2014 A Ágora completará 10 anos de existência. Não é para todos os blogues, perdoem-me a imodéstia.

Um feliz 2014 para todos os leitores.

segunda-feira, dezembro 30, 2013

Albino Aroso 1923-2013


De Albino Aroso, justamente apelidado de "pai do planeamento familiar", só tenho uma discordância mais profunda quanto à questão da liberalização do aborto a pedido. De resto, o médico e professor portuense agora desaparecido aos noventa anos não o terá feito sem grandes lutas de consciência, e de qualquer maneira, poucos ou nenhuns, como ele, terão evitado tanto a mortalidade infantil reduzindo-a em Portugal a níveis que fazem inveja a todos os demais (e quanto algum estrangeiro lhes disser que Portugal é um país de "terceiro-mundo", lancem-lhe essa à cara). O seu modelo de planeamento familiar, construído com base em discussões e acordos, e nunca por imposição, permitiu isso e muito mais, melhorando consideravelmente as condições de maternidade e a saúde infantil, mesmo que para isso tivesse por vezes adoptado atitudes polémicas, a que o tempo daria razão, ou batido com a porta quando entendeu ser necessário. E é da mais elementar justiça que ao novo Centro Materno Infantil do Norte, quase a abrir, seja atribuído o seu nome.
 
 

quinta-feira, dezembro 26, 2013

O Madeiro entre os ventos


O tradicional Madeiro da véspera de Natal, em frente à Sé da Guarda, ficou cancelado por causa do temporal de vento e chuva que se fazia sentir na cidade dos três Efes (e em quase todo o país). Mas alguém desobedeceu ou ignorou o cancelamento, porque na manhã do dia de Natal, o Madeiro estava em brasa, apesar do vento diabólico e rodopiante que dominava o terreiro.
 


 
 

segunda-feira, dezembro 23, 2013

Natal no interior


Do frio que assola Beira interior, semi-protegido pelos montes que rodeiam o vale do Mondego, vos desejo a todos um santo e feliz Natal!

domingo, dezembro 22, 2013

Seta para cima para Rajoy


O Público de Sábado passado coloca Mariano Rajoy, o Presidente do Governo espanhol, com uma seta para baixo por causa da alteração à lei do aborto espanhola, considerando que é um "retrocesso", "uma vingança da direita espanhola em relação aos passos dados na era Zapatero", "e uma visão moralista e arcaica". Pois eu acho que desta vez Rajoy, que navega entre a incapacidade de fazer frente aos problemas sociais que afectam Espanha, como o desemprego, e a embaraçosa história do caso Barcenas e dos dinheiros distribuídos pelos dirigentes do PP, merecia uma seta bem para cima. Além de cumprir uma promessa dada nas legislativas de 2011, consegue reverter uma lei aberrante, que entre outras coisas permitia que raparigas com mais de 16 anos pudessem abortar sem autorização parental. É um retrocesso? Com certeza, e quando se caminha para o lado errado há que saber retroceder. Vingança contra Zapatero? Não seria o ex-governante do PSOE , que continuamente levantou tensões na sociedade espanhola, que recorria a provocações? Quanto à visão "moralista e arcaica", prefiro-a mil vezes à visão "amoral e progressista" que supostamente o Público tem. Os jornais não devem ser neutros, mas uma coluna não assinada soltar atoardas deste gênero mostra bem que há por aí quem não perceba que há quem seja contra o aborto, o considere uma prática degradante e banalizada, e a sua liberalização pura e simples um atentado contra a vida humana. digna dos tempos dos referendos, em que esse jornal, sem pudor, se dizia neutro ao mesmo tempo que fazia uma campanha descarada a favor da liberalização. numa altura em que há tantos contraceptivos e instituições que tratam de crianças, a insistência no aborto, para além de profundamente obsceno é que parece ser arcaica. Já agora, dizer que "ninguém é a favor do aborto" é uma perfeita mentira: não faltam pessoas a dizer-se "a favor do aborto", sem hesitações, nem desvairadas, como as Femen, que se manifestam de seios ao léu reclamando "o sagrado direito de abortar". A nova lei, que pelo que li parece-me nalguns casos bastante permissiva, é pelo menos uma lufada de ar fresco no ambiente "pró-aborto" que se vive na Europa e que mostra claramente não um "avanço civilizacional", mas uma degradante decadência de valores. Esperemos que esta atitude seja copiada no futuro, a começar por Portugal (coisa que só poderia acontecer em novo referendo).

quarta-feira, dezembro 18, 2013

As personagens reais que inspiraram Hugo Pratt


Mais de dois anos depois do fim oficial da guerra civil na Líbia, que começou com o levantamento da população de Bengazi, em Fevereiro de 2011, da morte do até aí todo-poderoso Muammar Kadhafi e da desintegração do regime "verde", o país permanece num caos, dividido entre milícias várias e grupos de jihadistas que não hesitam em atacar embaixadas e raptar membros do frágil governo vigente. É difícil adivinhar o futuro para esta imensa extensão de areia com uma costa habitável, dividida em três regiões naturais sobre enormes jazidas de petróleo.
 
Mas em tempos da 2ª grande Guerra, quando aquele território estava sob o domínio da Itália de Mussolini, houve alguém que se atreveu a "profetizar" o futuro daquela região. Escrevo entre aspas porque a "profecia", na realidade, datava do pós-guerra, e o "áugure" era o desenhador Hugo Pratt, criador do célebre Corto Maltese.
 
Numa outra série que assinou, Os Escorpiões do Deserto, Pratt narra as peripécias de um oficial polaco pouco ortodoxo, Koinsky, e a sua luta para minar as forças do Eixo no norte de África. A sua equipa, os tais Escorpiões que davam nome à série, era um grupo heterogéneo que juntava agentes sionistas judias, espiões gregos e beduínos da Cirenaica. 
É exactamente nesta região da actual Líbia que se dá um dos primeiros episódios, Nada a assinalar em Djaraboub. A cidade do título é um afrancesamento da al-Jaghbūb árabe, ou da Giarabub italiana (que inspirou mesmo um filme glorificando a presença dos transalpinos naquelas paragens), que se situa num oásis em pleno deserto líbio, e que era, e o álbum de Pratt refere isso mesmo, a cidade santa dos senússios, uma ordem muçulmana com ligações ao sufismo e que daria origem à dinastia dos Al Senussi, que reinou na Líbia até ao golpe de estado de Kadhafi, em 1969.
 
A propósito, no álbum, o líder espiritual dos senússios, Omar el Muchtar, que se revelará bem diferente do que parecia, tem o nome "emprestado" de Omar al Mukhtar, principal resistente líbio ao domínio italiano, que acabaria executado por estes, e cuja fotografia Kadhafi exibiu, colada ao uniforme, numa visita a Itália, para o recordar aos antigos algozes. Mas se repararmos bem, a personagem do livro lembra antes o verdadeiro líder da Ordem de Senussi à época, que se tornaria no Rei Idris, o primeiro soberano da Líbia unida, e também o último, porque seria destronado por um golpe de estado em 1969. Ou seja, Pratt resolveu fundir o resistente mártir e o líder espiritual e temporal, sem a menor sombra de dúvida, para criar uma personagem com fundamento que se visse.
                                                       Na foto de baixo, o Rei Idris da Líbia.
Mas o mais interessante é a personagem de Hassan el-Muchtar, de quem Pratt nos diz, na apresentação da personagem, o seguinte: "Hassan - sobrinho de Omar el-Muchtar, chefe espiritual da Senússia. Este beduíno representa para o seu povo a continuação da revolução dos senússios (Líbia)....Não se atreve a ser revolucionário, provavelmente por causa da sua formação. Mas Pratt garante-nos que o encontraremos mais arde, desemenhando um papel político mais vincado, no quadro da ideologia do seu país."
 
Hassan é um rebelde ambicioso mas precipitado, mais interessado no poder do que nos ensinamentos do Corão. Mas a menção de Pratt, a tal "profecia" do papel político mais vincado é curiosa. Em que grau se dará essa relevância política?
 
Olhando bem para a imagem, parece-me que adivinho: sim, isso mesmo, Hassan el-Muchtar não é outro senão...Muammar Kadhafi. O seu papel político será indubitavelmente vincado, mas a ideologia do país mudaria radicalmente para um regime de culto pessoal, misto de pan-arabismo, socialismo e islamismo. E a certeza confirma-se ao saber que os Escorpiões do Deserto tiveram a sua primeira edição em 1969, precisamente o ano da subida ao poder do então jovem coronel. Hugo Pratt daria portanto ao novel ditador honras de personagem numa das suas obras.

Não sei se seria uma demonstração de simpatia por Kadhafi e o novo regime, e de antipatia pelo velho rei Idris, cuja "inspiração" não fica bem na fotografia, ou neste caso, nos quadradinhos do álbum. O autor italiano era um rebelde, à boa maneira das suas personagens, e um iconoclasta, muito embora fosse simpatizante de ordens maçónicas. Certo é que que tanto Al Mukhtar, como Idris e Kadhafi passaram à história, e a eles sucedeu uma posição caótica cujo fim ninguém pode prever. Se fosse vivo, será que o desenhador italiano alteraria alguma coisa nos Escorpiões do Deserto? E a quem  - ou a que grupo, entre liberais, monárquicos, islamitas e "verdes" saudosistas de Kadhafi - atribuiria um futuro "papel político mais vincado"?
 

segunda-feira, dezembro 16, 2013

Peter O´Toole 1932 - 2013

 
 
 
Lawrence da Arábia morreu pela segunda vez (um jornal diário roubou-me a graça). Mas agora, a valer. É que Peter O´Toole conseguiu ser mais Lawrence da Arábia do que o próprio T.E. Lawrence. Mas embora só esse filme, que conseguiu tornar o deserto no outro grande protagonista, fosse suficiente para o elevar à condição de mito vivo do cinema, "El Aurens" teve uma carreira de respeito, na qual recebeu de Hollywood sete nomeações ao Óscar de Melhor Actor, mas não conseguiu ganhar nenhum, excepto um Óscar honorário. E talvez essa eterna negação tenha igualmente contribuído para fazer dele um autêntico mito. Este Dezembro começa a ser um mês de desaparecimento de lendas vivas...

domingo, dezembro 15, 2013

As tristes figuras de uma estrela ressabiada

 
Edite Estrela sempre me pareceu uma pessoa de uma arroganciazinha irritante, num tom de pedagoga que não admite réplica. Agora confirmou isso tudo e ainda conseguiu ir mais além.
 
A votação desta semana no Parlamento Europeu de um relatório sobre "direitos sexuais" das mulheres, em que se recomendava, entre outras coisas, o acesso livre ao aborto em todos os estados e a introdução de educação sexual desde o ensino primário, da autoria da mesma Edite, acabou com o chumbo por parte do Partido Popular Europeu. Qual a reacção da sua mentora? Ao melhor estilo das radicais do Bloco ou do grupo Femen, queixou-se de que "a hipocrisia e o obscurantismo se tenham sobreposto aos legítimos direitos das mulheres”. A velha conversa, embora nunca tenha percebido como é que pessoas que defendem valores que consideram fundamentais possam ser considerados fundamentais possam ser consideradas hipócritas; e obscurantistas porquê, será Estrela a dona da verdade?
 
Como Nuno Melo naturalmente respondesse a isto, acusando-a de "democrata de circunstância " por não poupar ao insulto quem discordou da sua recomendação, Estrela conseguiu uma emenda pior que o soneto: a resposta do eurodeputado do PPE dever-se-ia à necessidade de fazer uma "prova de vida", porque a ele ninguém o conheceria, ao passo que ela é "a deputada mais famosa do Parlamento Europeu", e preveniu ainda os eleitores que "no momento da votação não é indiferente eleger uns ou outros deputados".
 
Pois não. Nisso, e apenas nisso, concordo com Edite. Porque não votar em Estrela traria sem dúvida uma maior higiene democrática ao PE. É que esta triste figura a que se prestou causou-me asco, vergonha e pena. Asco por fazer passar a estafada ideia do aborto sem restrições como um direito fundamental; vergonha por lançar-se em acusações inanes a quem votou de forma contrária; pena por não controlar a sua mitomania e julgar que é, mais do que meramente está escrito no seu apelido, a "estrela" do euro-hemiciclo.