domingo, agosto 25, 2013

Imagens dos dias que correm


 



Os dias correm quase literalmente, levados pela furiosa nortada que sopra aqui pelo litoral do Minho. Por um lado é bom, porque revigora as mazelas resultantes das festividades populares que aqui há quase diariamente, de Caminha a Ponte da Barca. Por outro, levam tudo pelo ar, proíbem oficiosamente a entrada na praia e fazem-nos dar voltas à cabeça sobre como ocupar o tempo (alternativas não faltam, falta é decisão a tempo e horas). Agora que cheguei aos 35, a antiga "meia-idade", devia começar a organizar mentalmente melhor o meu tempo, de forma a perdê-lo menos, coisa que faço com mestria. Por estes dias, entre praias, nortadas, viras e gastronomia local, também se perdem muitas horas a olhar para ontem. Mas afinal de contas, as férias são isso mesmo. E pelo meio vou encontrando coisas novas nestas terras que conheço desde sempre, como trechos do Caminho Português da Costa -  de Santiago - que passam entre o mar e as floresta e nos quais nunca tinha reparado. Vendo bem, os dias que correm não são tempo nada mal gasto.


 

segunda-feira, agosto 19, 2013

A tirania militar de volta ao Egipto




No Egipto, a efémera "Primavera Árabe" esfuma-se a olhos vistos. A deposição de Morsi não resultou em nenhuma "agora sim, democracia" com que alguns líricos sonhavam. Afinal de contas, o presidente tinha sido eleito por mais de metade dos eleitores, e a sua deposição seria sempre antidemocrática, por muito que as suas origens na Irmandade Muçulmana provoquem desconfianças. Quiseram instalar um governo "laico" no seu lugar e as consequências estão à vista: protestos em massa dos apoiantes do presidente deposto, reacção duríssima por parte das forças armadas, centenas (ou milhares?) de mortos nas ruas, e agora até a ameaça dos militares em ilegalizar de novo a Irmandade Muçulmana e os partidos que dela fazem parte, e que tiveram os votos de mais de metade dos egípcios. Por causa disso, Mohamed el-Baradei já se demitiu do cargo de vice-presidente interino. Aquilo a que assistimos não é uma democratização do país, já que isso só poderá acontecer com a inclusão dos islamitas, nunca os marginalizando: o que se passa é que o Egipto está à beira de voltar a ser um regime militar, com até 2011, porventura mais duro do que era antes da queda de Mubarak. Aqueles que aplaudem a intervenção das forças armadas, incluindo as suas acções mais violentas contra supostos extremistas islâmico,s estão na realidade a caucionar um regime igualmente tirânico e sem real base popular. Não é mais "democrático" ou pluralista massacrar cristãos, islamitas, apoiantes dos militares ou liberais. Em qualquer dos casos, estamos perante medidas despóticas e tirânicas. Parece que não se lembram do lamentável casos da Argélia, em que depois de anularem as eleições ganhas pelos islamitas e ilegalizarem os partidos vencedores, se verificou uma feroz guerra civil que deixou marcas profundas no país. além disso, como se pôde verificar durante o século XX nas "democracias populares", os regimes laicos não são necessariamente mais benignos que os religiosos. Entre Saddam e Khomeiny, viesse o diabo e escolhesse. Ao menos Morsi não quis ilegalizar partido algum. Aguentem-se agora com o regresso da ditadura militar.

domingo, agosto 18, 2013

A época começou como se imaginava



Começou a época 2013-2014. Não tive tempo de fazer um pequeno apanhado do que possa ser o Benfica desta nova época, mas também não era preciso, porque a equipa começou exactamente como o previsto: perdendo. Se nas outras épocas o Benfica empatava sempre na primeira jornada, desta vez conseguiu perder num terreno difícil mas onde até tem alcançado bons resultados. A equipa não jogou horrorosamente mal, não tinha Salvio e Markovic, não jogou pior que o adversário e ainda contou com a habitual arbitragem prejudicial do duvidoso Jorge Sousa. Mas teve uma incrível falta de objectividade no momento do remate, jogou atabalhoadamente e em alguns momentos muito devagar e teve novos erros defensivos que foram fatais. Jorge Jesus, mais uma vez, parecia longe...
 
A pré-época já deixava o credo na boca, mas desde que se soube que Jesus tinha renovado por mais dois anos, com o mesmíssimo (e alto) salário, depois do final calamitoso da época passada, que se previa que a coisa não ia correr bem. A querela com Cardozo, o homem de área do Benfica dos últimos anos (e o mais influente em duas décadas), cujo problema ficaria resolvido "até 17 de Julho", mas que se arrasta indefinidamente, deixou um balneário tenso, um goleador desaproveitado e despeitado e uma enorme ausência na frente de ataque. As aquisições duvidosas (Mitrovic, Fariña, Loló) misturam-se com as acertadas (Markovic) e com as que se espera que venham a render, dada a qualidade técnica dos jogadores (Sulejmani, Lisandro Lopez). Há excesso de jogadores no plantel e quase nenhuma venda para equilibrar as finanças e pagar os avultados empréstimos; existe o receio fundado dos melhores saírem no fim da época de compras, deixando a equipa coxa; os jogadores formados no clube, mesmo os que demonstram qualidade, como Miguel Rosa, são dispensados em proveito de estrangeiros desconhecidos; realizam-se negócios obscuros, torneando a boa fé comercial e a dos sócios, como a estranhíssima troca de Roberto (que se julgava do Zaragoza) por Pizzi, do Atlético, e imediato empréstimo deste ao Espanhol de Barcelona; e a relação entre os jogadores e um treinador desgastado e esgotado, que parece que ficou apenas para amealhar um bom pé-de-meia, parece tensa q.b.
 
Assim sendo, a derrota não surpreende. Até pode haver queixas a fazer da arbitragem, mas é sabido que quando o Benfica está mais frágil isso acontece com maior frequência. O grande culpado não se chama Jorge de Sousa, mas Jorge Jesus, um treinador que está a mais e que se tivesse a convicção do seu dever, teria saído pelo próprio pé, em lugar de ser sustentado pela vontade teimosa de Luís Filipe Vieira. Se se aguentar pouco tempo no banco, como alguns prevêem, contra a sua vontade, que seja Vieira a pagar-lhe a indemnização. Os benfiquistas estão fartos das humilhações causadas pelas invenções do mister, da bazófia, das mãos cheias de nada, das desilusões constantes. Se já se concluiu que a época começou torta e jamais se endireitará, então ao menos que as finanças do clube sejam poupadas das opções de Vieira. É o mínimo. Se nem isso se cumprir, então terá que haver uma seriíssima mudança no clube.

quinta-feira, agosto 15, 2013

Gibraltar ou os telhados de vidro espanhóis

 
A polémica internacional deste Verão é o regresso à questão de Gibraltar. Espanha decidiu apertar o controlo fronteiriço ao "rochedo" em resposta a uma barreira de blocos de cimento que impedirá a passagem dos barcos de pesca espanhóis. Agora, filas e filas de carros esperam para sair de Gibraltar. O Reino Unido já reagiu, e o habitual desbocado Boris Johnson, Mayor de Londres e possível futuro líder do Partido Conservador, atroou aos espanhóis um Hands out of our rock, com o seu peculiar estilo, através do Telegraph.
 
A verdade é que Gibraltar é uma zona franca, que domina a entrada do Mediterrâneo e ocupa uma posição estratégica de relevo (passe a piada com a altura do rochedo), como se verificou na Segunda Guerra. Não é muito cómodo para Espanha e para todos os que pretendem acabar com o colonialismo, uma vez que se trata de uma autêntica colónia. Mas nunca percebi esses ímpetos anti-colonialistas quando os próprios "colonizados" não pretendem mudar de situação. No caso particular de Gibraltar, tratou-se da cedência daquele espaço à Grã-Bretanha no culminar da Guerra da Sucessão de Espanha, (muito embora as pretensões espanholas tivessem vencido, com ascensão de Filipe de Anjou ao trono), a título perpétuo, excepto por vontade britânica, há precisamente trezentos anos. O Direito Internacional retira por isso qualquer fundamento a Espanha, e mesmo que nos anos sessenta (numa época em que muitos estados do Terceiro Mundo alcançaram a independência e dirigiam o seu voto contra os antigos colonizadores) a ONU tenha feito aprovar uma declaração sobre a necessidade de rever o estatuto de Gibraltar, o certo é que os locais decidiram, por um quase consenso, em conservar-se tal como estavam. Alguém se atreve a contrapor os princípios da contiguidade dos estados e do anti-colonialismo ao do primado do Direito e da autodeterminação?
 
Pelos vistos, Espanha atreve-se, como se fosse um país recente do Terceiro Mundo e não uma das maiores potências coloniais de sempre. Para mais, resolveu pedir a colaboração da Argentina, lembrando-se das pretensões de Buenos Aires sobre as ilhas Falklands, que estão numa posição semelhante à de Gibraltar (ou seja, a população local não tem a menor ideia de trocar a jurisdição de Londres pela da Argentina). Pena que não se tenha lembrado que os argentinos já fizeram uma manifestação de força que redundou em humilhação e derrota, levada a cabo pela sinistra ditadura militar, numa fuga para a frente de nacionalismo para ganhar popularidade. Em diferente situação, mas também a precisar de balões de oxigênio de popularidade como de pão para a boca. o Governo de Mariano Rajoy, escaldado pela caso Barcenas, precisa de uma pequena trica internacional. Não se lembrou que os argentinos acabaram da pior forma. Claro que ninguém está à espera de uma batalha naval, de uma invasão do rochedo pelos Tercios, nem por um novo Drake e destruir a armada espanhola. O que a Espanha pode ganhar é uma nota de rodapé de ridículo na história deste Verão, já que nada parece sustentar as suas pretensões, e muito menos o caso argentino. Para mais, têm telhado de vidro de sobra: Ceuta, ali em frente, e Melila, também são exigidos por Marrocos (já viram se os espanhóis controlassem ambas as portas do Mediterrâneo, Gibraltar e Ceuta?). E a isso ainda podíamos acrescentar o caso da "nossa" Olivença, onde ainda há réstias de língua portuguesa e que os tratados internacionais nunca atribuíram aos vizinhos. Problemas de sobra para quem exige um território como se fosse um pobre país explorado por todos. Até os mitos estão contra Espanha, neste caso: diz a tradição que Gibraltar, território onde coexistem espanhóis e ingleses, judeus e marroquinos, portugueses e genoveses, pertencerá à Grã-Bretanha enquanto houver macacos (os únicos da Europa em liberdade)  no rochedo. Se Espanha não estiver disposta a fazer um crime ambiental...
 
 

quarta-feira, agosto 07, 2013

O Jocker bloquista de Bessa Leite


Sigo afanosamente campanhas eleitorais, sou a favor de criatividade e imaginação (e se for sem o auxílio de empresas de marketing e imagem mais valor terão), de frases e imagens criativas e apelativas do potencial eleitor, não só para apelar ao voto mas para fazer germinar uma qualquer ideia na cabeça do passante. Mas há algumas que de tão originais acabam por ser de gosto duvidoso. É o caso do cartaz do candidato do Bloco à Câmara do Porto, José Soeiro, pintado na rotunda de Bessa Leite. O slogan tem o seu interesse, embora seja claramente direccionado para o habitual votante bloquista. Mas aquela cara do candidato lá estampada tem qualquer coisa de animalesco e apalhaçado ao mesmo tempo. Se fizermos uma metáfora cinematográfica, faz lembrar o sinistro Jocker, na versão Eath Ledger, ou o Chewbaca de A Guerra das Estrelas. Bem sei que os cartazes do Bloco nem sempre primam pela elegância estética, mas este, que foi certamente pensado e delineado com alguma preparação, até porque é exemplar único, faz com que se pergunte que raio terá passado pela cabeça de Soeiro e dos artistas que pintaram isto. Em tempos, o PSR, espinha dorsal do actual BE, tinha campanhas imaginativas e que atraíam a atenção, mesmo que os resultados eleitorais fossem inconsequentes. Agora, a tradição da criatividade mantém-se, mas com campanha tão esquisita, dá-me ideia que os resultados também não vão ser famosos. Nas autárquicas elegem-se pessoas, senhores directores de campanha do Bloco, não vilões de banda desenhada.
 
 

segunda-feira, agosto 05, 2013

Símbolos dos eighties que se vão

 
 
Os anos oitenta registaram grandes perdas nos últimos dias de Julho. Não só Fernando Martins, o presidente do Benfica que teve a brilhante ideia de contratar Eriksson (com o êxito que lhe é reconhecido), fechou o grandioso terceiro anel da Luz e recuperou a moral a uma equipa que tinha acabado de perder 7-1 para o seu maior rival, levando-a a conquistar o título daquele ano. Também desapareceu Dennis Farina, habitual em séries policiais, que ora fazia de gangster, ora de polícia. Foi precisamente no papel de um cop, o temerário Mike Torello, que protagonizou uma famosa série policial dos anos oitenta, Crónica do Crime (ou Crime Story), numa América pujante e mitificada dos anos cinquenta, sempre numa luta interminável de morte contra o impiedoso vilão Ray Luca, e que teve um final algo abrupto. Lembrei-me precisamente da série e da sua banda sonora quando soube da sua morte. Ficou o genérico, como recordação.
 
 

Pibulls e juízes a iniciar a silly season


A silly season está aí, não haja dúvida. Mal chegou Agosto e surgiram logo notícias a comprovar a época com estrondo, em situações caracterizadas pela total ausência de bom senso e lucidez mínima.
 
A notícia da entrega provisória do célebre Zico - o pitbull que matou uma criança em Beja, há meses - à associação Animal, por força de uma providência cautelar, para o "reeducar", levou a sua dirigente máxima à total excitação, de tal forma que decidiu rebaptizar o animal de "Mandela". Razão?  Segundo os animalistas, "tal como o líder sul-africano este cão também é um símbolo de liberdade. Esteve preso sete meses sem saber porquê, tal como Mandela esteve preso mais de duas décadas". Não me lembro de ver o autêntico Mandela a estraçalhar criancinhas, nem me parece que o cão tenha promovido a paz e a reconciliação entre comunidades, mas é difícil pedir discernimento a esta gente, obcecada que está em proteger tudo o que é "pessoa não-humana" (parece que os indianos, que tratam melhor as vacas do que as crianças, têm a mesma ideia). Mas e se a acção principal não proceder, a providência cautelar (que, recorde-se, tem efeitos provisórios e temporários) caducar, e o cão for mesmo abatido, que irá dizer a Animal? Foge com o cão? Dá-lhe o nome de Cristo ou de um mártir qualquer, passando o referir-se-lhe como uma vítima da luta pela "causa animalista"? Valha-os Deus...
 
No mesmo dia, outro caso, o da decisão do tribunal da Relação do Porto, que obrigou uma empresa a reintegrar um trabalhador que tinha sido despedido por estar com um grau excessivo de álcool no horário de trabalho (e ser protagonista de um acidente, com outro colega também com os copos). Pode-se discutir se o despedimento seria ou não uma sanção demasiado gravosa, mas atente-se no acórdão, de uma tribunal que até já absolveu um violador comprovado: "Note-se que, com álcool, o trabalhador pode esquecer as agruras da vida e empenhar-se muito mais a lançar frigoríficos sobre camiões, e por isso, na alegria da imensa diversidade da vida, o público servido até pode achar que aquele trabalhador alegre é muito produtivo e um excelente e rápido removedor de electrodomésticos". Se isto fizer jurisprudência, bem podemos ir todos aos bordos para o respectivo trabalho para "esquecer as agruras da vida" e ser mais "produtivos". Aliás, se acreditam tão piamente no que decidiram, os doutos juízes da Relação deviam seguir o seu próprio acórdão, para se empenharem e ficarem mais produtivos, de forma a acelerar os procedimentos da justiça e tirá-la da sua eterna morosidade. É de perguntar se não teriam experimentado tal método alcoólico quando redigiram o acórdão. Não me espantava nada.

PS: para completar o ramalhete, ainda tivemos o caso de Américo Piçarreira, um assassino condenado a vinte nos de cadeia por matar uma mulher e os dois filhos menores num assalto (mas que beneficiou de uma redução de pena), que entretanto já tinha fugido outra vez e feito uma data de assaltos, e que agora fugiu de novo aproveitando uma precária, com ameaças de morte a quem o tentasse capturar. Felizmente apanharam-no antes que conseguisse fazer mais vítimas. Gostava de saber quem são as bondosas autoridades responsáveis pela liberdade temporária de um infanticida que mostrou por mais do que uma vez estar longe da redenção. A Justiça, para cumprir o seguimento escrupuloso da Lei, precisa antes de mais de bom senso. É por não o haver que acontecem casos aberrantes como estes (ao passo que um ladrão de galinhas tem muitas vezes menos sorte). Esqueceram-se disso nas aulas do CEJ ou não faz parte da formação?

sábado, agosto 03, 2013

Resumidamente, Rio partiu tudo


A entrevista que Rui Rio deu à RTP acabou por ser muito mais contundente do que eu esperava. Críticas implícitas ao governo e à candidatura de Menezes, apoiada pela clique mais aparelhista do partido, seriam expectáveis. Mas o que se ouviu foram torpedos directos ao alvo: Maria Luís Albuquerque, a quem Rio não reconheceu condições nem "capacidade" para o cargo que ocupa (pela história dos swaps, da SRU, e não só); o próprio PSD, que acusou de apoiar uma política municipal durante 12 anos e querer vir agora defender o contrário; e Menezes, evidentemente, que teme que vá "destuir tudo o que fizeram em 12 anos", deixar um problema gigantesco em Gaia e a quem acusou de lhe fazer oposição por tudo e por nada, mais que a própria oposição. Se dúvidas havia do que Rui rio pensava do PSD actual, e sobretudo de quem o seu partido quer pôr à frente da câmara do Porto, ficaram agora completamente desfeitas. Será difícil substituir a Ministra das Finanças quando só ocupou o cargo há um mês, mas ao menos que os eleitores do Porto tenham compreendido o que os espera caso o bipolar Menezes ganhe, por desgraça, as próximas autárquicas. E se alguém quisesse um resumo do que Rio disse na entrevista, bastaria duas palavras: partiu tudo.

terça-feira, julho 30, 2013

O Imperador e a rendição

 
 
 
Já deve estar a sair das salas de cinema, mas há que dizer que nesta época em que quase só se encontram blockbusters de super-heróis recauchutados, comédias requentadas e fitas animação (nada contra, excepto reincidirem em chamar Smurfs aos Estrumfes), o filme Imperador é um autêntico oásis.
 
Não faltam toneladas filmes sobre a Segunda Guerra Mundial. Do pós-guerra na Europa, esses anos tão duros de renascimento das cinzas,  encontram-se alguns clássicos como O Terceiro Homem, Ladrões de Bicicletas, ou mais recentes, como O Bom Alemão, de Soderbergh, por exemplo. Mas acerca do Japão, da sua rendição, as enormes mudanças políticas e militares, a reconstrução depois do pesadelo atómico sobre Hiroshima e Nagasaki, e o milagre económico que se seguiu, pouco há, a não ser Hiroshima meu Amor. É possível que haja outros, até na filmografia japonesa, mas desconheço por completo.
 
Em Imperador, o cenário de destruição e de humilhação pela derrota está sempre presente. Os americanos sentem-no, mas querem varrer por completo o espírito militarista japonês, sempre com Pearl Harbour na memória. Mas o que realmente se nota é a força das instituições e dos cerimoniais, e o carácter divino e inalcançável do Imperador Hirohito, que nunca se deixava ver, e muito menos recebia estrangeiros na sua presença. A sua voz tinha-se ouvido pela primeira vez na rádio, para enorme espanto e terror dos japoneses, anunciando a rendição - mas sem nunca usar essa palavra. Mas o Imperador mantinha-se longe da vista, no seu palácio. A enorme desafio das forças americanas, chefiadas pelo truculento Douglas McArthur (interpretado por Tommy Lee Jones), e obter dados que provem ou não que Hirohito teve responsabilidade na desencadear das hostilidades, nomeadamente nos ataques de Pearl Harbour, e se consequentemente deve enfrentar o Tribunal como criminoso de guerra, o que poderia levar à pena de morte (aplicada de resto a Hideki Tojo e outras altas figuras do regime militarista japonês). E nesse caso, a uma revolta generalizada dos nipónicos e a impossibilidade de reconstrução do país, unido em torno da figura do Imperador.
 
Como se sabe, as provas foram inconclusivas. O filme mostra isso mesmo, de forma competente. Pelo meio também aparece a costumeira história de amor, para dar um toque de "romantismo" e assim quebrar o ambiente cinza de destruição. Até hoje, não se sabe se Hirohito terá tido real interferência no desencadear da guerra. Mas teve com toda a certeza no advento da paz. Quando se decidiu pela rendição, e por anunciá-la aos nipónicos via rádio, enfrentou a ira dos ultras do regime, para quem render-se era impensável, e para quem a honra militar estava acima do próprio Imperador, contra quem desencadearam até um motim. Mas após a inaudita declaração radiofónica (note-se que ainda hoje é muito raro o Imperador falar aos japoneses, como aconteceu com os desastres de Fukushima), o Japão, completamente arrasado, teve de hastear a bandeira branca. Hirohito aceitou as condições que lhe ofereciam, e até quebrou todos os protocolos ao aceitar encontrar-se com McArthur, apertar-lhe a mão, deixar-se fotografar ao seu lado e declarar-se único responsável pela guerra, se tal servisse para ilibar o seu povo. O general americano, sabiamente, poupou-o a qualquer julgamento, mas com a Constituição imposta pelos americanos, o Imperador passou a ser um monarca constitucional e não já uma figura divinizada e quase imaterial. Ainda assim, manteve-se no trono do Crisântemo até à sua morte, em 1989. Pôde assistir ao completo renascimento do seu país e à sua ascensão como uma das mais fortes economias globais. Apesar das dúvidas que se mantêm sobre o seu real responsabilidade na guerra e nos crimes cometidos pelo Império, a sua decisiva intervenção na rendição e na derrota dos mais fanáticos militaristas permitiu salvar o Japão de desgraças ainda maiores. E indubitavelmente, ao humilhar-se perante o inimigo e aos aceder à perda do estatuto de que gozava até aí, também a ele se ficaram a dever as décadas de ouro que os japoneses viveram depois da guerra que desencadearam e que quase os aniquilou.
 
 

sexta-feira, julho 26, 2013

Santiago manchado


A tragédia aqui ao lado, em Santiago, impressiona não só pela proximidade e pelos números brutais (já iam em oitenta mortos, e ainda há vários feridos graves), mas também pelas aparentes causas do acidente - a passagem numa curva a mais do dobro da velocidade aconselhada, o que parece demonstrar que podia perfeitamente ser evitado. Mas impressiona também por acontecer logo na véspera do dia de Santiago, o dia nacional da Galiza. E u próprio estive para ir a um evento ligado ao Caminho Português de Santiago, propositadamente marcado para hoje. Um desastre destes é sempre atroz, mas não consigo imaginar época pior para acontecer. Durante os próximos anos, este dia, por norma de alegria e comemoração, e de grande afluência de peregrinos nos anos de Xacobeo (quando o dia 25 calha num Domingo), vai certamente empalidecer.
 


(Na foto acima, evocação de Santiago Matamouros, frontaria da Igreja de Santiago, Tavira).

 

quinta-feira, julho 25, 2013

Corrigindo erros antigos



A nova composição do governo - afinal de contas aquilo que estava previsto antes da intervenção de Cavaco Silva - tem algumas vantagens. A divisão dos Ministérios da Agricultura e do ambiente em dois titulares é a correcção de um disparate que só teve lugar por causa do tacticismo partidário na hora de dividir pastas e que apenas deu acrescidas canseiras à voluntariosa Assunção Cristas (que para mais nem é especialista nas matérias). Jorge Moreira da Silva é um especialista em questões ambientais e alterações climáticas (era relator desta matéria no Parlamento Europeu e também passou pela ONU) e a sua entrada para a cadeira só peca por atraso. Além do mais, fica também com a energia a seu cargo, aliviando o outro super-ministério, o da Economia, que perde ainda a pasta do emprego para Mota Soares, noutra correção positiva.
 
Precisamente, na Economia, entra Pires de Lima, um ministeriável há anos. É verdade que conhece muito bem as empresas e os empresários e que tem uma larga e recomendável experiência atrás de si, e que será a pessoa indicada para se entender com Paulo Portas, que na prática fica com boa parte das matérias económicas. Mas soa um pouco a injustiça a saída de Álvaro Santos Pereira, que era realmente um OVNI quando cá aterrou vindo do Canadá, e não gozava de grande respeito dos media, mas que até teve iniciativas interessantes, como as que fizeram reviver a indústria mineira, entre outras, ou que permitiram um reequilíbrio da balança comercial.
 
A grande surpresa é a nomeação como Ministro dos Negócios Estrangeiros de Rui Chancerelle de Machete, um antigo nome grado do PSD, afastado das primeiras fileiras da política nacional desde o Bloco Central e que desde então se tem dedicado à Fundação Luso-Americana. Mas apesar dessa surpresa inicial, a ida de Machete para as Necessidades faz algum sentido: depois de ser apelidado durante semanas de "bando de garotos", convidar um veterano era a melhor forma do Governo se tentar livrar dessa "acusação". Por curiosidade, depois do falhanço da solução de Cavaco Silva, é precisamente um homem da velha guarda do PSD pré- Cavaco (e seu antigo opositor) que agora sobe a MNE e Ministro de Estado. E Paulo Portas, entretanto, quase suplanta o PSD. Ele há coisas...
 
 

quarta-feira, julho 17, 2013

Um estalinista nas redes sociais


 Via Estado Sentido, pude ver o belo comentário que Miguel Tiago, deputado do PCP que mais parece um cruzamento de porteiro de discoteca com um vendedor de sapatos na feira (ou um estivador, cuja greve eles apoiaram tanto), colocou aqui há uns tempos no Facebook. Eu nem acho que postagens destas mereçam grande importância, mas depois do escarcéu por causa de uma piadinha inócua de Carlos Abreu Amorim, abriu-se a comporta da crítica.

O notório saudosista da Revolução de Outubro diz isto: "A corja que despreza a constituição que se ponha a pau. É que se o meu direito à saúde, educação, pensão, trabalho, habitação, não valem nada, então também os seus direitos à propriedade privada, ao lucro, à integridade física e moral deixam de valer! E nós somos mais que eles."

É um belo texto digno de um totalitário convicto. Defende obviamente a actual Constituição, como se ela não tivesse elementos datados de um período político especial, em que o PCP tinha forte influência, e estivesse acima de todas as discordâncias, sem que se pudesse mudar nada. Exibe a sua faceta mais comunista, dando a entender que os direitos que enumera têm de ser todos assegurados pelo Estado (ou seja, caberiam aos organismos estatais, por exemplo, empregar toda a gente para que não houvesse desemprego, como na URSS), e que não existem como direitos negativos (aqueles que o Estado não pode proibir os cidadãos de os exercerem); e que os direitos à propriedade privada, etc, pertencem a pessoas completamente diferentes, como se não fossem direitos fundamentais e gerais, e coubessem apenas "aos poderosos". Só que o direito de propriedade também pode ser sobre uma horta ou um par de rezes, que asseguram o mesmo direito à alimentação a que o deputado Tiago se refere.

Exibe a sua faceta de controleiro e brigadista, ao fazer ameaças à integridade física de seja lá quem for. E quer fazer as pessoas passar por parvas, ao afirmar que "somos mais que eles". "Somos" quem? Que eu saiba, o PCP só tem 13 deputados (a par dos apêndices Verdes e Intervenção Democrática), a CDU teve menos de 8% nas últimas legislativas, e mesmo que as sondagens actuais sejam favoráveis, não conseguem chegar sequer aos níveis de 1987. Ou considerar-se-à Miguel Tiago uma pobre vítima como o "povo" de que se acha o máximo representante? Pobrezinho, como deputado que é deve estar a passar por imensas dificuldades. Esquece-se também de que é tanto representante do Povo como qualquer outro deputado eleito. E que o salário que lhe pagam com o dinheiro dos contribuintes e o seu estatuto não admitem que faça ameaças físicas seja a quem for.

Depois da referida piada inócua de Abreu Amorim a gozar com os "magrebinos" (entre os quais me incluo), escândalo que o levou a pedir desculpas públicas, seria de esperar que Miguel Tiago optasse no mínimo por algum recato depois da divulgação desta bazófia estalinista. Mas não. Ao que parece, e desta vez no twitter, classifica quem a mostrou de "bloggers de extrema-direita " pagos "pela Assunção Esteves". Não sei o que será pior: se a falta de senso e de decoro de certos agentes políticos, se a compreensão e tolerância de que gozam, em comparação com outros que aparecem logo trucidados na imprensa. 


segunda-feira, julho 15, 2013

Uma vingança de Cavaco sobre Portas?


Ainda dentro da solução que Cavaco Silva encontrou, fico a pensar com os meus botões: Paulo Portas, pelas responsabilidades que tomaria, esteve quase a cumprir o seu velho sonho de suplantar o PSD. Cavaco Silva puxou-lhe o tapete e impediu que o alcançasse. Será que o PR se lembrou das capas do Independente, das vésperas angustiantes das sextas-feiras, que o governo cavaquista vivia em sobressalto com os possíveis torpedos mediáticos que seriam lançados daquele autêntico órgão de oposição à direita daquele PSD, dos estragos que provocaram? Fica a dúvida se no subconsciente Cavaco Silva não terá cedido a velhos impulsos que estavam escondidos, escolhendo uma via mais sinuosa (e que impede o CDS de aumentar a sua importância) para resolver a crise governamental.

quinta-feira, julho 11, 2013

Incompreensões e cenas tristes, eis o Portugal dos últimos dias


Ontem pensei que tinha percebido bem a mensagem de Cavaco Silva. Hoje, afinal, depois de ler as notícias e ouvir alguns comentários da especialidade, confesso que afinal não percebo muito bem. é melhor esperar e observar, e talvez daqui a uns dias compreenda melhor. Até lá, continuaremos com certeza a ser ultrapassados pelos acontecimentos de hora a hora.
 
Entretanto, depois dos patéticos aplausos nos Jerónimos, temos agora o lançamento de panfletos e os berros de slogans de "demissão" e outras coisas envolvendo "fascismo" em pleno Parlamento, pela entourage da srª Ana Avoila. Será que se perderam completamente as noções de saber estar e do respeito por locais em que se exige algum decoro?

D. Manuel e os Jerónimos mereciam melhor



Ao ver na televisão a primeira missa celebrada por D. Manuel Clemente, como Patriarca de Lisboa, nos Jerónimos, e o friso de convidados nas primeiras filas (que incluía Cavaco, Passos e Portas), pensei logo que apareceriam inevitavelmente os comentários quanto à "violação da laicidade". Dito e feito: em caixas de comentários de jornais e blogues, vieram logo os guardiões da "sua" laicidade, bramindo contra a "incrível promiscuidade entre estado e Igreja", que mais lembrava "tempos medievais" e "o salazarismo". A esse propósito, houve uns quantos que compararam D. Manuel Clemente a D. Manuel Cerejeira, o que prova que a ignorância e a estupidez opinativas se propagam à velocidade da luz. Ainda por cima, o novo Patriarca falou durante a Missa do exemplo das populações do Norte, que "bem nos pode inspirar a todos, pela capacidade de resistir, recomeçar e inovar": mais protestos, desta vez porque "promoveu o separatismo", ou então era porque o Norte "tem mais reaccionários e beatos do que o Sul (que como todos sabem, é um modelo ímpar de desenvolvimento)". Está visto que para alguns, elogios às populações do Norte equivalem a tentativas de achincalhar o Sul. Mas que terá esta gente para ser tão ressabiada?
 
Entretanto, ouviram-se palmas à entrada de Cavaco e de Passos Coelho. Mário Soares, na versão decadente e radical que lhe conhecemos agora, acusou os "capangas" do Governo de serem os autores dos aplausos, e D. Manuel Martins de não os ter impedido "começando mal" o seu mandato, num evento que relembrava os tempos "em que o fascismo" andava colado à igreja. Palavras de um primo-republicanismo e de um facciosismo para quem a Igreja só é aceitável se estiver submetida aos joelhos do laicismo, e  a direita só pode ser aplaudida por "capangas", pois que o povo, o bom povo, estará sempre do lado dos "laicos, republicanos e socialistas".
 
Este jacobinismo não é novo nem, como disse no início do post, inesperado, e manifesta-se em ocasiões em que o ódio político anda à tona do vapor de água. Ficou parado nos anos setenta, tem constantemente de ir buscar vocabulário que contém coisas como "fascismo", Salazar", "Idade Média", "beatos", e agora até vão desenterrar o Cardeal Cerejeira para o compararem a ...D. Manuel clemente. De D. António Ferreira Gomes ou D. António Barroso é que esta gente não se lembra. Nem que o aproveitamento político que fazem também viola a laicidade.
 
Verdade seja dita que quem aplaudiu também não tinha muito a noção de onde estava. Como disse Azeredo Lopes, uma Igreja (e logo aquela) não é um local para se aplaudir nem para se apupar, muito menos para se fazer chicana política. Até porque demonstrou uma clara falta de respeito para com o novo Arcebispo de Lisboa. Este, ao contrário do que disseram os detractores de ocasião, quando lhe perguntaram o que achou dos aplausos aos políticos presentes, limitou-se a responder: "terá de perguntar isso a quem aplaudiu, porque nessa altura estava na Sacristia a paramentar-me". Simples e cortante. Os Jerónimos e D. Manuel mereceram a solenidade e o cumprimento de quem lá estava, mas dispensavam as vénias subservientes e as criticazinhas ocas que se ouviram. Que Deus lhes perdoe.
 
 

segunda-feira, julho 08, 2013

Para uma belíssima história de espionagem (real)


As histórias de espionagem têm sempre umas lascas de romance amoroso ou de humor. A da fuga de Edward Snowden para países pouco dados à liberdade de expressão, além de irónica, parece querer juntar uns pozinhos que a podem tornar ainda mais apetecível: agora é Anna Chapman, a "Mata-Hari russa", a sensualíssima espia presa nos Estados Unidos e recambiada para a Rússia numa troca de espiões, que se quer casar com Snowden para que este adquira cidadania russa que impeça qualquer extradição para os EUA. O americano, que está há vários dias na zona de trânsito do aeroporto de Moscovo, não se negou a este plano (e alguém o pode criticar?), que pode pôr fim à sua fuga. Chapman já tem uma história que seguramente dava um bom livro ou filme (rave partys e casamentos em Inglaterra, espionagem em Nova York, actividades na juventude do partido do poder na Rússia como recompensa, etc), e esta novidade promete um bom desenvolvimento. Espera-se que John Le Carré ou qualquer autor de semelhante gabarito se cheguem à frente para redigirem esta belíssima (como a protagonista) história de espionagem que já está praticamente escrita.
 
 
 
 
 

sábado, julho 06, 2013

A jogada mais arriscada de Portas



A história de Paulo Portas não é das mais virtuosas, embora seja das mais interessantes da política deste regime (as duas coisas terão provavelmente proporção directa). São bem conhecidos os seus ataques, por vezes injustos e exagerados, quando dirigia o Independente, a forma como aos poucos retirou o apoio a Manuel Monteiro, ocupando-lhe sem seguida o lugar à frente do partido, ou como rebentou com a AD que acordara em conjunto com Marcelo Rebelo de Sousa, ou ainda o golpe contra a liderança de Ribeiro e Castro. São também por demais conhecidos os rocambolescos casos com a Universidade Moderna, com o processo de aquisição dos submarinos alemães, com as fotocópias do Ministério da Defesa, etc. É verdade que pelo meio lhe puxaram o tapete algumas vezes (o próprio Monteiro, com a saudosa história da caneta que não escrevia para não votar em Portas para líder parlamentar), e nunca como neste Governo, em que o desrespeito de Passos Coelho e Vítor Gaspar pelo CDS se tornou mais que evidente.
 
Ainda assim, a jogada de Paulo Portas teve riscos mais que evidentes, a começar pelo trambolhão das bolsas e da subida vertiginosa das taxas de juro (os mercados, como sempre, "enervaram-se"), e por não ter dito nada ao partido nem aos mais próximos. Os riscos eram que o Governo caísse ali mesmo, como teria acontecido caso Coelho tivesse dado azo à sua louca ideia de prosseguir sozinho. Agora, depois de todas as ameaças de instabilidade, Portas conseguiu forçar a sua nota nas negociações. Com o beneplácito de Cavaco, conseguiu ser nomeado Vice-Primeiro-Ministro, um cargo que já não existia há vinte anos (o último fora Eurico de Melo) e ainda ficar responsável pelas negociações com a Troika (que fica a fazer Poiares Maduro?) e pela anunciada reforma do Estado. Prefiro, obviamente, que seja ele a tratar destes delicadíssimos dossiers do que um qualquer génio de gabinete ou um Relvas qualquer. Portas ganhou, para já, a sua parada e fica com quase tantos poderes como o Primeiro-Ministro, mesmo que não se saibam quais as outras alterações governamentais. Mas ao mesmo tempo, perdeu boa parte da face: afinal, a sua saída do Governo não era assim tão "irrevogável", a não ser que nos convença de que se estava referir ao cargo concreto de MNE. Mas também não seria a primeira vez: lembram-se de quando ele disse que o CDS "não tinha emenda" e que não queria ser candidato a líder, e passados dias lá estava ele a ser empossado à frente do tal partido "sem emenda"?
 
Ao menos que o país fique a ganhar com estas alterações políticas surgidas com a enésima jogada política arriscada de Portas.
 
PS: a definição e competências de um Vice-Primeiro-Ministro pode ser encontrada na recente Enciclopédia da Constituição Portuguesa (Quid Juris, pág. 390), por Francisco Pereira Coutinho. A de Primeiro-Ministro também lá se encontra (pág. 293), tendo sido escrita pelo autor destas linhas.

quarta-feira, julho 03, 2013

Vão marcando a data


Está um homem aqui posto em sossego a pensar em postar sobre as maravilhas do nosso país quando de súbito a realidade, que não pára, se antecipa. Ou neste caso, antecipa certos actos, como a demissão de Paulo Portas, apenas prevista para daqui a uns tempos. Estaria já por dias, a ser calculada para o melhor momento, ou terá sido a saída de Gaspar (melhor dizendo, a sua substituição por Maria Luís Albuquerque) a gota de água num copo que já desde a história da TSU ameaçava transbordar? As versões de Pedro e Paulo são contraditórias. A verdade é que Portas tem um registo interessante de facadinhas dadas, mas ao longo destes dois anos teve várias ocasiões de experimentar as que lhe eram discretamente atiradas por Passos, Relvas, Gaspar & Cia. E a paciência tem limites. Houve alturas em que o vimos como nunca o víramos antes, sem saber bem o que fazer. Até que bateu com a porta, e com ele os outros ministros do CDS.


Ficando o PSD em minoria, contando na melhor das hipóteses com pontuais apoios do CDS no Parlamento, a melhor solução seria a demissão de Passos Coelho e a nomeação de outro governo, com base na mesma maioria e que de preferência se estendesse ao PS. Mas o Primeiro Ministro inviabilizou totalmente essa hipótese, a manter-se teimosamente à frente do governo. Não percebeu que o seu tempo está contado. Deve ser das pouquíssimas pessoas em Portugal e não entender isso. Numa época de profunda crise, temos um político sem a menor habilidade, instinto ou inteligência política a governar-nos. O resultado, a curto prazo, é fácil de prever: eleições. Marquem a data para o provável dia 29 de Setembro. Juntando-se às autárquicas, sempre se poupam uns euros.


terça-feira, julho 02, 2013

A surpreendente promoção


Sabia-se que Vítor Gaspar acabaria por cair, só não se sabia era quando. As previsões eram demasiado furadas e os resultados demasiado desastrosos para que o cargo estivesse seguro. Caiu agora, sem aviso, deixando uma carta surpreendente que não augura nada de bom para o governo e que mostra algum espírito revanchista e muita saturação. Depois de Relvas, é o segundo esteio que Passos vê ir ao fundo, mais agora que Portas se torna, definitivamente, no nº dois do executivo. Mas a nomeação da sucessora de Gaspar deixa-me confuso: até à tarde de hoje, Maria Luís Albuquerque era uma governante a prazo, por causa do caso dos swaps de empresas públicas; subitamente , torna-se na máxima responsável pela pasta mais decisiva. Confuso, não é? Depois da recondução de Braga Lino ao Metro do Porto, é caso para pensar que quem se envolveu com os ditos swaps pode sempre contar com uma (re)promoção.

domingo, junho 30, 2013

O exemplo dos brasileiros


 O tiki-taka espanhol está a levar uma séria abada da técnica brasileira, em pleno Maracanã. O Brasil está próxima de ganhar a Taça das Confederações (se pensarmos que ganhou as duas anteriores edições, nem é grande augúrio para o Mundial), no renovado Maracanã. Lá fora, e mesmo lá dentro, houve novos protestos.
 
Os brasileiros saíram à rua em força, puseram Dilma Roussef a gaguejar e até conseguiram fazer com que o anunciado aumento do preço dos transportes fosse cancelado. As razões são mais que justas: apesar de todo o crescimento económico, os gastos públicos em estádios e outros luxos em detrimento do que deveriam ser as suas funções primordiais são obscenos e incompreensíveis. É verdade que, como noutras situações semelhantes, aparecem os bárbaros de sempre, com ideia de incendiar, pilhar e destruir; tivemos oportunidade de ver isso em Brasília (que diria o revolucionário Niemeyer?), e noutras "badernas". Nesses é que a polícia deve aplicar a sua vontade latente de utilizar os meios que lhe põem à disposição (e nestes incluo o cassetete). Mas na sua maioria, os protestos têm toda a razão de ser. O Brasil é até dos poucos países que se pode dar ao luxo de organizar eventos destes e ainda acumulá-los com os Jogos Olímpicos de 2016 - nada contra, desde que se aproveitem estruturas comuns e se façam as necessárias reformas urbanas no Rio. Mas também sabemos que são antes de mais uma afirmação de potências emergentes, e que em países onde a corrupção é toda uma cultura, os custos tendem a multiplicar-se, como tem acontecido. Os protestos visam também as altas instâncias desportivas que lucram com tudo isto, como a FIFA.
 
Ao olhar para isso, não posso deixar de pensar que os brasileiros mostram mais maturidade que os portugueses: andámos a fazer caminhadas de protesto de meio em meio ano, com "cantigas de intervenção" à mistura, mas onde andavam os simpáticos contestatários quando trazíamos alegremente para Portugal o Euro-2004 e os dez estádios (lembram-se de dizerem que a UEFA impunha esse número: pois no evento da Polónia/Ucrânia só ergueram oito recintos), quando os custos do CCB e Casa da Música derraparam, quando se construíram autoestradas para pouquíssimo movimento, quando levantaram barragens regiões classificadas pela UNESCO, etc. Agora andamos "intervencionados", pois andamos, mas a culpa é antes de mais de todo, e não apenas da "classe política", que de resto gastou o que gastou porque isso trazia mais votos.
 
Sim, digam o que disserem, mas as razões dos protestos dos brasileiros são uma lição para os portugueses, que não souberam tratar do que era seu na devida altura. E nem ao menos ganharmos aos espanhóis...

quinta-feira, junho 27, 2013

Outros enquadramentos da ponte

 
A Ponte da Arrábida tem um toque vanguardista, mas fica muito bem enquadrada com alguns elementos tradicionais. Mesmo que estes apresentem algumas derrogações coloridas a características que supostamente deveriam possuir. Como dizia um velho anúncio, a "a tradição já não é o que era".
 

segunda-feira, junho 24, 2013

Nos cinquenta anos da Ponte da Arrábida


Parece ser o ano das comemorações de "cinquenta anos" dos monumentos mais visíveis do Porto. Há pouco tempo tivemos a Torre dos Clérigos. Agora, é a Ponte da Arrábida que faz meio século de vida. A obra do Eng. Edgar Cardoso, à época o maior arco de betão do Mundo, continua a manter a mesma elegância, mas a sua utilidade aumentou muito, tendo em conta o trânsito que lá pára em hora de ponta. O toque de modernidade é óbvio, mesmo nos dias de hoje, até pelo pormenor dos elevadores da base ao tabuleiro (que obviamente já não funcionam) ,e só tem como senão o facto dos seus acessos terem cortado metade da quinta dos Andresen. Cinquenta anos já é algum tempo, o suficiente para que a ponte tenha sido recentemente classificada como monumento nacional, mas a mim parece-me que existiu desde sempre, e não consigo imaginar o rio sem aquele arco branco (que alguns tags envergonham). Curioso é que tenha sido inaugurada na véspera de feriado sanjoanino, sendo que a outra ponte do genial Edgar Cardoso, a apropriadamente chamada Ponte de S. João, que veio substituir a de Dona Maria como travessia ferroviária, também entrou em funções no mesmo dia. 


sábado, junho 22, 2013

A despedida de Pablito


Como há meses era previsível, Pablo Aimar deixou o Benfica ao terminar o seu contrato. No último ano, fruto das lesões, da consequente falta de ritmo e da experiência acumulada, já pouco tinha contribuído. Deixa na memória colectiva do Benfica as suas jogadas dignas do génio que era (sobretudo na parceria com o amigo Saviola), o grande respeito que sempre demonstrou pelo clube, o comportamento exemplar e a empatia que gerou nos adeptos. Só é pena que não tenha ganho mais títulos. Mas Aimar é daqueles que não será certamente esquecido.

segunda-feira, junho 17, 2013

Os telhados de vidro dos herdeiros de Ataturk


Regressado de uns dias a explorar o Sul do país, onde felizmente havia sol, pouco dei pelas actualidades nacionais e internacionais. Entre a greve das professores em dia de exames, a apresentação de Paulo Fonseca como treinador do Porto e as eleições no Irão, parece que o impasse na Turquia continua, embora com algum diálogo à mistura.
 
Falar sobre um país do qual não se tem conhecimento profundo é sempre arriscado. O que eu vi nas enormes manifestações contra Erdogan foram reivindicações aparentementes justas contra a destruição de uma praça ajardinada em Istambul, a agora célebre Praça Thaksim,para a construção de um enorme e kitsch centro comercial, e creio, uma mesquita. A Turquia neo-otomana de Erdogan, próspera e orgulhosa, com pretensões extra-fronteiras, caracteriza-se em boa parte por isso mesmo: centros comerciais espaventosos e mesquitas. Novo-riquismo e religiosidade. São os símbolos da nova burguesia piedosa, proveniente da Anatólia, que apoia maciçamente o partido no poder. Contra eles estão os manifestantes, a tal elite jovem e urbana, devedora do laicismo de Ataturk, e ainda curdos, esquerdistas, anarquistas, comunistas, tudo o que não se revê em Erdogan e o seu partido. Curiosidade maior é ver adeptos dos três grandes clubes de Istambul (Galatasaray, Fenerbahçe e Besiktas) e unirem-se sob a designação de "Istambul United", brandindo os seus símbolos em prol do protesto comum.
 

 Mas o que é irónico é vê-los a protestar contra a falta de democracia, a imposição de algumas normas moralistas, como as que restringem o comércio e consumo público de álcool, e que "se pretendem imiscuir nas vidas privadas". É que a maioria dos manifestantes são "kemalistas", revê-se em Kemal Ataturk; e que se saiba, o antigo líder da nova Turquia, embora a tenha feito dar um enorme salto em frente, não era propriamente um democrata exemplar, bem pelo contrário: era antes um perfeito autocrata, que governou com mão de ferro e teve algumas implicações na matança dos arménios. Além do mais, Ataturk (em português, Pai dos Turcos, nome que adoptou e que mostra bem o seu pendor de "querido líder"), em nome do laicismo e da ocidentalização, proibiu alguns costumes, como o uso do fez e do véu islâmico em público. Também os regimes comunistas dispuseram sempre das vidas de todos aqueles que tiveram a pouca sorte de viver sob eles. Ou seja, aqueles que se queixam de que o governo quer interferir nas suas vidas apoiaram regimes que fizeram isso mesmo. Agora, Erdogan, escudado em sólidas maiorias eleitorais, retribui-lhes com a mesma moeda. Para mais, o perigo "islâmico" não parece fazer muito sentido na Turquia, que cultiva sobretudo o misticismo sufi, pouco dado a extremismos, e que mesmo nos tempos em que era um império e um califado tinha milhões de cristãos e judeus vivendo dentro das duas fronteiras, em harmonia com a maioria muçulmana. Haverá certamente razões para protestar, começando na brutalidade policial, mas os kemalistas e comunistas, que quando puderam dominaram a seu bel-prazer, deveriam ser os últimos a vir para a rua com tais reivindicações.

quinta-feira, junho 06, 2013

Não se fazem carroséis ao lado de bibliotecas



Luís Filipe Menezes é pródigo em loucuras e projectos populistas e dispendiosos, mas desta vez exagerou: deu-lhe para declarar que quer "devolver os jardins do Palácio de Cristal ao Porto", e "relançar projectos no espaço público", construindo ali um parque de diversões e uma praça da alimentação. Os jardins do palácio, um oásis urbano, com os seus miradouros, as suas alamedas, a concha acústica, a biblioteca, onde se pode parar um pouco para respirar, e que qualquer mente lúcida pensaria em deixar em paz, estão agora ameaçados pela fúria obreira de Menezes. Devolvê-los aos portuenses? Que eu saiba, ninguém lhos tirou. As portas estão abertas durante todo o dia, o pavilhão Rosa Mota (a maior chaga daquele espaço) tem eventos constantes, no fim do Verão realizam-se ali as Noites Ritual. Esta ideia peregrina não abona nada a favor do conhecimento que Menezes tem dos espaços públicos do Porto.
O modelo a copiar é o dos Jardins de Tivoli, em Copenhaga, que já foram inaugurados com o propósito de jardim público com diversões para a  burguesia emergente. Os do Palácio (cujo edifício original infelizmente já não existe) tiveram alguns divertimentos para tardes de fim de semana, em tempos, com um pequeno jardim zoológico com leões e macacos, lagos com barcos a remos e julgo que também um parque infantil. Os jardins, esses, conservaram-se intactos, apesar dos muitos anos de Queima das Fitas que lá se realizava os deixarem anualmente despedaçados.
Ao que parece, os pavões, patos e outras aves que por lá andam, últimas recordações dos animais que lá havia (com leões e macacos), terão de arranjar outro pouso se Menezes for eleito e cumprir esta nova promessa, que tem o custo anunciado de cinco milhões de euros. Os jardins, esses, não sei que forma irão tomar, nem como vão preservar a concha acústica. E acima de tudo, alguém devia perguntar a Menezes se sabe que actualmente lá se construiu a Biblioteca Almeida Garrett. é que parece-me muito estranho fazer-se um parque de diversões com o propósito confessado de atrair turistas ao lado de jardins e sobretudo de bibliotecas. Deus nos livre desta perfeita loucura.

Adenda: a anunciada candidatura de Nuno Cardoso, a acontecer, é das coisas mais despudoradas que se viram e verão na política por estes anos. Sim, o poço é sempre mais fundo do que pensamos. Um ex-presidente da Câmara, que deixou uma herança de obras paradas, dívidas e negócios pouco claros, apoiou a candidatura de Menezes, que, segundo a Visão, recebeu da câmara de Gaia mais de noventa mil euros nos últimos dois anos com ajustes directos, e que vem dizer que se candidata porque recebeu "um apelo brutal" dos portuenses, ou não tem vergonha na cara ou sofre de problemas psíquicos. "Apelo brutal"? Está-se mesmo a ver. Os portuenses é que não apelaram para ele, com toda a certeza.

quarta-feira, junho 05, 2013

A impossível convergência das esquerdas


Acho muita piada a estas "convergências das esquerdas" que Mário Soares anda a tentar arranjar, na esteira do Congresso das Alternativas, depois de anos de tentativas falhadas, com o propósito de constituir novo governo depois de derrubar o actual. Esquece-se é de uns meros pormenores: o executivo em funções só pode cair ou por dissolução do parlamento por Cavaco Silva, ou se o CDS romper com a coligação e esvair-se a maioria parlamentar. Ou seja, não é pela esquerda que o Governo cai. Mais importante, quem iria ocupar o lugar? O PS? Com certeza, mas sem maioria? E que estas "convergências" esquerdistas são muito bonitas e muito utópicas, mas esquecem-se do magno problema da natureza de cada um dos partidos: como é que um partido como o PS, que assinou o memorando da "Troika" e apoia a NATO, pode convidar para um executivo elementos de um partido que manda condolências pela morte de Kim jong Il ao mesmo tempo que vota contra votos de pesar a Vaclav Hável, e outro que se diz "anticapitalista" e se que divide em facções de esquerda radical? Nem para as autárquicas se conseguem coligar, quanto mais a nível nacional. Se surgir um qualquer movimento mais moderado, como aconteceu na Alemanha, com pessoas como Daniel Oliveira, talvez o PS possa pensar em coligações à esquerda. Até lá, terá de se desenrascar e continuar a acenar discretamente a Paulo Portas.

terça-feira, junho 04, 2013

Centralismo clerical

 
D. Manuel clemente será o próximo Patriarca de Lisboa, e seguramente mais tarde, receberá a distinção cardinalícia. Confirmou-se o que já se adivinhava desde a sua nomeação para Bispo do Porto. Tenho ouvido nos últimos dias muita gente a referir-se à sua nomeação com regozijo e elogios. Talvez se tenham esquecido de um pormenor: é que sendo o novo Patriarca de Lisboa, o Porto perde-o como Bispo. Não sabemos quem irá ocupar o Paço Episcopal, mas não vi ninguém a lamentar esta saída. E pronto, cá temos mais uma vez Lisboa a levar o que de melhor há no Porto.  Não me digam que o centralismo (via Vaticano9 agora também se manifesta na forma eclesiástica.

segunda-feira, junho 03, 2013

Park(da Cidade)live

 
Com a passagem dos anos, vai-se encurtando a lista dos grupos musicais que há muito queria ver em concerto. Até porque não tenho visto novidades interessantes, ou quando as encontro já não são novidade. Assim, os que marcaram a minha adolescência, particularmente nos anos noventa, vão sendo avistados ao vivo quando surge a oportunidade.
 
Na última semana, o festival Primavera Sound regressou ao Porto e ao Parque da Cidade, magnífico espaço, bem diferente dos estádios de betão e arenas poeirentas. Três palcos entre lagos e arvoredo, tendas de música, espreguiçadeiras e mantas, tudo sobre o relvado do parque, que descia para os palcos em anfiteatro. Só a "praça da alimentação", onde estavam representadas algumas das mais conhecidas casas do Porto, assentava no asfalto do "queimódromo".
 
Muitos elementos da chamada "música indie" passaram pelo festival, apoiados por alguns veteranos como Nick Cave e os Bad Seeds, Breeders ou My Bloody Valentine, e outros, como Swans e Grizzly Bear. Mas na Sexta aterraram no parque os grandes atractivos e razão maior da minha ida: os Blur. Os criadores da Britpop, os rivais de morte dos Oasis, os mestres da ironia british dos anos noventa em forma de música, ali, no Porto, entre o mar, a avenida e a circunvalação. Apareceram com pontualidade londrina, e entraram em grande, com uma Girls and Boys de rajada. Depois começou o desfile de grandes canções dos anos noventa do grupo de Londres, com as mui british e irónicas Parklife e Country House (que os levou ao auge da fama, em plena "guerra do Britpop"), o futurista The Universal, a magnífica balada gospel Tender, com o respectivo coro de vozes negra, a primordial There's No Other Way,  e a desopilante Cofee and TV, cantada pelo guitarrista Graham Coxon, e onde não faltaram no meio do público duas embalagens de leite gigantes a imitar as ternurentas personagens do respectivo e fantástico videoclip. Pelo meio, Damon Albarn cantava, tocava, erguia os braços e os olhos ao céu como se fosse um profeta e chegou a "navegar" nos braços do público, saindo de lá com uma das muitas grinaldas de flores que as senhoras usavam naquela noite. Tudo num ritmo alto devidamente acompanhado pelo público, que saltou em coro no final com a apoteótica Song Two. 
 
 
Ficou um pequeníssimo travo de insuficiência, mas olhando bem, tirando Charmless Man e a belíssima e romanticíssima To the End, estava lá quase tudo o que se pedia. Talvez o ambiente do parque nos tornasse mais exigentes. Os velhos Blur cumpriram com o que se lhes pedia, felizmente, e consegui finalmente ver ao vivo um dos grupos por que esperava há mais anos, enquanto eles andavam dispersos entre a música africana, a agricultura e a advocacia, já esquecidos do Britpop. E a propósito, como se lembrou no fim do concerto, para o ano podiam convidar os Oásis, se eles se voltarem a juntar. Ou talvez os Pulp (que até já vi). Até porque os Suede (também já tive a honra de os vislumbrar), que o último Ipsilon diz que acabaram e foram esquecidos "felizmente", o que não só é injusto como falso, estiveram no Primavera Sound do ano passado. Mas assim, o festival deixava de ser a meca da música alternativa para passar a ser o revivalismo do Britpop. E não se pode conciliar tudo?
 

sexta-feira, maio 31, 2013

Uma Sorrow de seis horas

 
Os The National estão aí com álbum novo, Trouble Will Find Me. Há dois anos, por estes fins de Maio, tive a oportunidade de os ver no Coliseu do Porto. um concerto emotivo e que só será esquecido quando tiver problemas degenerativos, com as habituais corridas de Matt Berninger entre o público. Por isso mesmo recordo-me que estava à espera que tocassem a excelsamente melancólica Sorrow, do álbum que apresentavam na altura, High Violet, mas infelizmente o meu pedido mental não teve correspondência.
Só que, talvez atacada pelo remorso, a banda resolveu compensar a música esquecida de forma particularmente enfática: numa dependência do novaiorquino MOMA, no âmbito de uma instalação artística, tocaram Sorrow durante seis horas. Isso mesmo, a mesma música tocada de forma seguida por um quarto de dia. Não sei em que estado saiu o grupo e o público, caso alguém tenha resistido à repetição constante da canção. Gosto muito de Sorrow e tive a maior pena que não a tivessem interpretado no Porto, mas se quisesse ser compensado desta forma avassaladora, teria provavelmente acabado com uma crise aguda de melancolia. Para este mês, já me bastou o Benfica.
Em cima, performance da música no MOMA; abaixo, versão original

O Expresso ou um manifesto fraquinho do PSOE?


Quando leio um artigo de jornal sobre política internacional, ou sobre factos passados noutras paragens, longe ou perto, confio que tenham um mínimo de isenção. Não é o caso do último artigo de Angel Luis de la Calle no Expresso, sobre o que se passa em Espanha. Todos sabemos da delicadíssima situação do país vizinho, com um desemprego monstruoso, uma situação bancária insuportável, ameaças de separatismo, acusações à coroa e descrédito dos partidos políticos. Escrever sobre tudo isto pretensas colunas informativas com óbvios preconceitos políticos é mera desinformação grosseira. O título já é logo apocalíptico: "genocídio social a pretexto da crise". Depois, De la Calle afirma que  o governo do PP quer instalar um modelo de "neoliberalismo" e "neocon", como "a ala mais à direita do Partido republicano nos EUA". Se a comparação já é infeliz, a confusão de conceitos, entre um modelo económico e uma teoria política, ainda é mais. Com a inevitável farpa à influência da "hierarquia católica", nos casos do aborto, células estaminais e eutanásia, acaba eloquentemente a declarar que "a maioria da população(...) não está disposta a seguir a tendência nacional-populista (deus, pátria e família) que tenta impor-se na Europa". A conclusão não é apenas facciosa: é puramente estúpida, porque além de na Europa a trilogia "Deus-Pátria-Família" tem sido severamente fustigada e mesmo abertamente desdenhada, o autor parece não se lembrar que foi precisamente depois de instaurar medidas fracturantes e regras aberrantes (como a permissão de aborto abaixo dos 16 anos sem permissão dos pais, ou a imposição do politicamente correcto nas escolas) que o PSOE teve a sua maior derrota de sempre e o PP a maioria mais ampla.
De La Calle pode ser um saudosista da república a vontade, mas pede-se-lhe que comente a situação com factos e descrições, não com opiniões pouco isentas que levem o português ao engano. Para ler panfletos políticos vou à procura de um, não preciso de abrir a secção Internacional do jornal Expresso.

terça-feira, maio 28, 2013

Os caminhos do Benfica e de Jesus separam-se aqui (espero)


Acabou. Depois do que vi na Final da Taça, não há hipóteses de Jorge Jesus permanecer no Benfica. Não existem condições emocionais nem materiais, os adeptos não o querem, o ambiente entre a equipa não é bom. Sim, já sei, Jesus devolveu o bom futebol ao Benfica, ganhou um campeonato, valorizou jogadores que renderam bom dinheiro ao clube, tudo isso. Mas acabou. Já são quatro anos em que um dos técnicos mais bem pagos do Mundo apresentou escassos títulos, muitas desilusões, e pior que isso, iludiu aqueles que nele tanto confiavam. Esta época de 2013, que chegou a parecer fabulosa naquela semana em que vencemos o Fenerbahçe, acabou em tremendo desapontamento, com zero títulos e derrotas amargas no espaço de quinze dias. Nunca pensei que o caso do Bayer Leverkussen de 2002 (que ficou conhecido como "Neverkussen") se pudesse repetir no Benfica, para mal dos nossos pecados, embora estejamos igualmente bem acompanhados pelo Bayern do ano passado e pelo Real Madrid de 1983, em tudo semelhantes. Jesus não terá toda a culpa, claro, ele que chegou a considerar a competição europeia um estorvo e não teve outro remédio senão continuar nela. Mas as suas reacções, a sua incapacidade emocional e de dar alento aos jogadores (excepto talvez no jogo da final europeia), traçaram o inevitável: agora que acaba o contrato, Jesus deve rumar a outras paragens. Chega de míngua de títulos com enormes condições para o fazer. Chega de salários milionários a troco de quase nada, e acima de tudo, chega de ilusões fulminadas nos últimos minutos. Jorge Jesus esteve quatro anos no Benfica. Toni e Trapattonni estiveram menos e mostraram mais. Voltemos esta página. Contrate-se um novo técnico (fala-se em Rui Vitória, nosso algoz da Taça, que eu há muito queria que fosse o próximo, até porque é homem da casa e lançou promissores talentos). Vendamos Gaitan, já que precisamos de algum encaixe financeiro e já temos quem o renda, e mais alguns emprestados, conservemos a maior parte do plantel e compremos um defesa esquerdo, fazendo regressar jogadores como Nelson Oliveira e Airton. Já agora, um novo guarda-redes também não seria má ideia. Já estou por aqui com os falhanços de Artur em jogos decisivos.

Se Jesus ficar, possibilidade não tão irreal assim pela teimosia de Vieira, não pretendo assistir aos jogos do Benfica ao vivo enquanto ele lá continuar. Tudo tem limites, e quatro anos é mais que tempo para os perceber. De qualquer modo, não pude deixar de sentir uma certa pena de JJ no final da Taça (a que não pude assistir a vivo, por falta de bilhete, que deixei de ver a partir do golo do empate, prevendo o desfecho). Há anos que ele a persegue, por razões familiares e pessoalíssimas. Perdeu uma final contra o Sporting, à frente do Belenenses, perdeu há dois anos numa meia final com um golo em fora de jogo, voltou a perder perto do fim, de novo com um golo em fora de jogo (que não serve de desculpa). É natural que não tenha contido as lágrimas. Espero sinceramente que ganhe um dia o "caneco", para honrar o seu avô, e no Jamor, não num qualquer estádio modernamente asséptico, num nó de auto-estradas. Mas noutro clube que não o Benfica. Há que virar a página.


segunda-feira, maio 27, 2013

Do apocalipse civilizacional à morte desesperada


O inquietante caso do ensaísta e historiador francês ligado à extrema-direita que se suicidou esta semana em plena Catedral de Notre-Dame tem muito mais que se lhe diga do que uma mera acção espectacular de protesto desesperado contra a aprovação do casamento/adopção gay em França.
Olhando para as suas ideias e para o seu currículo, parece ser o típico militante da extrema-direita identitária e nacionalista, anti-semita e anti-emigração, com poucas ligações ao cristianismo e à mensagem cristã mas que admira a estrutura e autoridade da Igreja Católica, embora neste caso a acuse de "patrocinar a imigração afro-magrebina". Ou seja, um representante contemporâneo da Action Française, que dominou a intelectualidade e os meios universitários com as suas campanhas virulentas nos anos vinte e trinta.
 
 
A escolha de Notre Dame parece ajudar a essa ideia: o templo maior de França, símbolo, juntamente com Chartres e Reims, da cristandade e ao mesmo tempo do poder real centralizado, como guardião dos valores da "velha" França, bastião contra a invasão estrangeira e a degradação dos costumes. O símbolo de uma ideia de ordem e de autoridade, mesmo que depurada da mensagem do Cristianismo, inspiração que já vem desde os tempos de De Maistre e continuou com Maurras e outros ideólogos legitimistas.

O editor de Venner, comentando a sua morte, aludiu ao suicídio de Mishima. Como se sabe, o escritor japonês, também ele defensor dos valores tradicionais japoneses pré-Guerra (e que curiosamente era homossexual, tendo elevado a figura de S. Sebastião martirizado a ícone homoerótico), suicidou-se cometendo sepukku ao falhar um levantamento militar destinado a devolver os poderes de semi-divindade ao Imperador. Para Mishima, o passado glorioso e tradicional do Japão não voltaria, pelo que preferia abandonar o mundo através do terrível e "glorioso" ritual de morte próprio dos samurais. As declarações finais de Venner, prevendo a "substituição" da população francesa, e um novo sistema de valores no qual não se reconhecia de todo, em boa parte contraditório, e o seu suicídio carregado de simbolismo, são em tudo parecidas com a do escritor japonês. Mais do que "um acto tresloucado de ódio", como vi escrito, tratou-se de um fim desesperado, de alguém que já não se reconhecia num mundo emergente (que ninguém sabe dizer qual será), e cujo fim violento e público é consequente com as ideias mais radicais que defendia.
 
 
 
Outro caso similar, provocado também pela ideia angustiante do fim de um certo modelo civilizacional, neste caso muito diferente dos anteriores, é o de Stefan Zweig. O escritor, ensaísta e biógrafo austríaco, quase esquecido durante décadas e hoje de novo editado, suicidou-se no Brasil, em plena Segunda Guerra, assistindo ao segundo suicídio da Europa, crendo que o seu mundo, construído na faiscante Viena dos Habsburgos pré-Grande Guerra, tinha sido esmagado pelo totalitarismo. As suas ideias eram em boa parte opostas às de Mishima e Venner, mas a assunção de que o seu modelo de civilização tinha acabado, que os valores que defendia estavam a ser espezinhados e extintos, é exactamente a mesma. A sensação de fim de uma ideia de mundo, aliada a acontecimentos preocupantes, pode em muitos casos levar ao desespero e a colocar um fim à vida. Sejam quais forem os valores que se defende. e o suicídio tumultuoso de Venner deve ser entendido mais como um último acto de revolta contra um estado de coisas, ainda que tresloucado, do que mera acção radical de propaganda.
A prova infalível de que o francês não era realmente cristão é que atentou contra a própria vida, dádiva de Deus, diante do altar que O celebra.

sexta-feira, maio 24, 2013

"Parabéns"? E porque não um manguito?


Acabado o campeonato, parece que a mini-conversa futebolística mais ouvida é que Jorge Jesus não deu os parabéns ao FCP e a Vítor Pereira. Devia dá-los? Não me lembro de darem parabéns a Jesus pelo últimos campeonato ganho (pelo contrário, diziam que era o "campeonato dos túneis", aqueles em que alguns andaram a espancar stewards, e a conversa continua até hoje), nem nos anteriores. Até duas semanas antes, ouvíamos o treinador portista a comentar com azedume um jogo que lhe era alheio e a dizer que o campeonato ia ser "sujinho,sujinho" (seria uma premeditação, depois do que se viu Domingo em Paços de Ferreira?) Ao que parece, tudo está esquecido em função do resultado final.
Ao mesmo tempo, os cronistas de serviço falam do "mau perder" do Benfica. Um dos que vem com essa conversa é Miguel Sousa Tavares, porque ele sim, "sabe ganhar". Eu não sei qual é o problema de falta de memória desta gente, ou se estarão simplesmente a gozar. Sabem ganhar, os mesmos que há duas semanas só falavam do "Capela", que nunca reconheceram os últimos títulos benfiquistas e que até publicaram uma suposta (e em boa parte falsa) lista de supostas aleivosias cometidas pelo Benfica nos últimos anos? Que cantam cânticos injuriosos para os benfiquistas como quando ganharam a UEFA? E têm bom perder,  os que impediram os benfiquistas de festejar no centro do Porto com a justificação (dada por dirigentes portistas e pelo mesmíssimo Sousa Tavares) de que se tratava de uma "provocação" porque "queriam comemorar o segundo lugar"? Provocação essa que deve desaparecer quando se vêm cachecóis azuis no Marquês de Pombal. Sorte a deles que os benfiquistas jamais comemoraram segundo lugar algum.
Agora, exigem que Jesus lhes dê os parabéns. O treinador do Benfica reconheceu mérito a quem ganhava, e era tudo o que devia dizer. Queriam parabéns? Mais justo seria que lhes tivesse mandado um manguito, nunca pérolas a porcos. Já não há paciência para a hipocrisia futeboleira.

quarta-feira, maio 22, 2013

Os perigos das novas engenharias sociais


A votação da lei que permite a co-adopção pelos "cônjuges" em casais do mesmo sexo poderá parecer uma melhoria nos direitos das crianças. Percebo que se pretenda dar uma maior protecção à criança em caso de morte do progenitor. Mas tendo em conta os autores da proposta - a nova sacerdotisa das causas fracturantes, Isabel Moreira, e um ex-líder da JS (outro apaniguados das "fracturas") - e os seus intentos, aliás revelados, de se dar "um passo civilizacional" em direcção à "igualdade plena", desconfio que a intenção é mais de privilegiar os "direitos gays" do que das crianças, como bem explica Pedro Picoito. A tónica é sempre a mesma, por vezes mal disfarçada, e não me admira que, depois de muito se falar na urgência de tais "igualdades" e no "progresso dos direitos civis", se proponha mesmo a total adopção da adopção plena por casais do mesmo sexo. A ideia parece-me simplesmente absurda. A natureza e mesmo a psicologia, que tantas vezes falha na sua abstracção, já nos ensinaram que meras engenharias ou experimentalismos sociais e familiares têm resultados duvidosos. E a igualdade, que eu saiba, é tratar coisas iguais da mesma forma e coisas diferentes de forma diferente. Quando calcula tudo pela mesma bitola, transforma-se num igualitarismo esmagador, nefasto e anti-natura. Mas já se sabe, há dez anos todos se ririam da norma aprovada na sexta. Hoje, quem defende isto arrisca-se imediatamente a ser apelidado de reaccionário, preconceituosos, quando não de fascista. E no entanto, falamos de crianças e famílias, elementos de suma importância em qualquer sociedade, cuja importância concreta devia ser discutida e reforçada, mas que tendem a ser reduzidos e meras abstracções de combate ideológico pelos novos engenheiros sociais.

sexta-feira, maio 17, 2013

Mini-análise já mais a frio

 
Ora lá vamos, à análise. Será curta. A doutrina divide-se, mas pouco: o Benfica jogou melhor, dominou a segunda parte, mas hesitou no momento do remate. O Chelsea mostrou-se mais matreiro e ganhou.
 
Em parte concordo. O Benfica hesitou em alguns momentos de início. o que me deixou aos urros. Ou por cerimónia ou porque estava lá sempre um defesa, a bola nunca tomava a direcção certa. Nesse período, Enzo Perez brilhou a grande altura: cortava, defendia, distribuía jogo, atacava, cruzava...um médio total. Quem diria, no início da época, quando víamos como extremo mediano, ou mais ainda, no ano passado, em que esteve quase a ser definitivamente recambiado. Nesse aspecto, o Benfica soube reconstituir o meio campo depois da saída de Javi e Witsel de forma notável, e sem mais custos.
 
O resto, já sabemos: golo de Fenando Torres num lançamento longo (ele já tinha marcado um assim na final do Euro 2008), penalty de Cardozo, que não falhou frente a um Cech especialista em defendê-los, remates perigosos de parte a parte, e no fim, aquele golo surgido num canto. Sim, houve falhas, segundo os comentadores, mas caramba, nos últimos minutos de uma final, como esperam sangue-frio a toda a prova? Num canto? A prová-lo, o mesmo Ivanovic que marcou o golo teve depois um falhanço em que Cardozo quase marcava, mesmo a acabar.
 
Pronto, perdemos mais uma final. jogámos optimamente, dominámos, etc, mas não ficámos com a Taça, apesar de posições nesse sentido dos "nossos" Ramires e David Luiz. De novo. Já são sete finais perdidas. Há bastante má sorte pelo meio, pelo que, supersticioso na bola como sou, me pergunto se a maldição do húngaro Bélla Guttmann seria real. Se não é, voltaremos a ganhá-las, mas para isso é preciso que regressemos às finais.
 
Indiscutivelmente, esta semana, porventura a mais decepcionante de sempre, deixou marcas no Benfica. Esteve muito perto da glória, mas ela escapou-se. Temos boa equipa, sem dúvida, com aquela pequena pecha do lateral esquerdo, mas mesmo assim não conseguiu ser A equipa. ainda assim, como vou passar por lisboa, farei os possíveis para ir ver o último jogo da época. Não que esteja crente num milagre, mas quero aplaudir os jogadores. Eles merecem. Até porque ainda há a Taça de Portugal (a que infelizmente não deverei poder ir). e depois, quem sabe, talvez este ano seja para o Benfica o que 1984 era para o Porto: o trampolim para uma grande (re)caminhada. Esperemos. Até lá, vejam o apoio incrível dos adeptos benfiquistas em Amsterdão.

quinta-feira, maio 16, 2013

Depois da final

 
É quase uma da manhã, e olhando agora, ainda tenho o cachecol do Benfica ao pescoço. Passaram mais de três horas desde que acabou o jogo, um dos mais cruéis a encerrar aquela que é, provavelmente, a mais cruel semana na longa história do Benfica. Ia escrever muita coisa sobre a injustiça do resultado verificado, a sorte que uns têm (o emprego de Hilário e Paulo Ferreira é que devia ser considerado o melhor do Mundo), e como a ousadia e a coragem muitas vezes acabam em desastre. Mas prefiro deixar para a amanhã, até porque francamente estas coisas arrasam com um homem. Amanhã tentarei fazer uma análise qualquer. Por hoje, só posso dizer que o meu clube me tira anos de vida e me dá tristezas, mas ainda me dá mais orgulho. E ainda não consegui tirar o cachecol...

quarta-feira, maio 15, 2013

Para que seja Dia de Benfica



Chegou o dia da Final. Aquela que já esperávamos há vinte e três anos. Bom, não é a final dos Campeões Europeus, chamem-lhe Taça ou Liga. Mas é uma final da UEFA (rebaptizada duvidosamente de "Liga Europa", ou euroliga, na minha versão preferida), digna dos campeões europeus, como vários lembraram, onde se defrontam o actual detentor do troféu e um dos clubes que mais contribuiu para a sua grandeza. Ou a "Velha europa" suportada pela paixão dos adeptos contra a "Nova Europa" dos cheques dos bilionários.

É uma evidência que à partida o Chelsea é favorito. Além de deter o título maior, depois de arrebatá-lo ao Bayern em plena Allianz Arena e de ultrapassar o Barcelona, e claro, o Benfica, tem jogadores incríveis e uma capacidade financeira quase sem fundo, mercê da fortuna do seu famoso proprietário russo Roman Abramovic. Depois de conquistar o troféu mais ambicionado, não está a passar propriamente por uma época de sonho: perdeu a Supertaça europeia (goleado pelo Atlético de Madrid de Falcao!), as outras taças, teve um campeonato modesto, e a meio da temporada contratou o mal amado Rafa Benitez como treinador assumidamente interino. Passa por um período de transição, à espera do regresso de Mourinho, de quem nunca se livrou de um certo sentimento de orfandade.

O Benfica vem de uma época longa e de um desaire psicologicamente tremendo, que muito dificilmente o impedirá de conquistar o campeonato nacional. Embora tenha uma boa equipa, substituindo muito bem as peças que teve de vender no ano passado, tem de lutar contra o cansaço, a memória dos jogos mais recentes, o favoritismo do adversário e o peso da história nas finais. Não é coisa pouca. São adversários tremendos, só superáveis por uma grande equipa. Jorge Jesus nem sempre se dá bem em momentos decisivos, mesmo que não tenha muitas finais no currículo. Preferia, hoje, que no banco estivesse Ronald Koeman, que nos ensinou a vencer equipas inglesas detentoras do título europeu na sua própria casa (e até treinadas por Rafa Benitez), como estarão certamente recordados. Mas não está, e só podemos contar com quem lá está.

Não sei se vamos ganhar hoje. A tarefa é complicada. O que peço é que joguem com a mesma garra como jogaram contra o Fenerbahçe, e com a mesma inteligência com que pisaram Anfield Road em 2006. Usando a linguagem do nosso adversário de hoje e uma expressão do país do seu treinador e de boa parte dos jogadores, aprendida nos Caminhos de Santiago, No Pain, No Glory. Honrem a camisola. É a única forma de alcançar os objectivos. Contra todos os favoritismos e "maldições". Para que hoje seja realmente Dia de Benfica!

 

Festa na Baixa 2013


A festa na Baixa, promovida pelo Centro Nacional de Cultura, está de volta ao Porto. É entre 22 e 25 de Maio, em vários locais do centro da cidade. A quem interessar, aqui fica a notícia e o anúncio onde podem ver o respectivo cartaz.

sábado, maio 11, 2013

Só um milagre?


Amanhã joga-se o jogo do título deste ano. O empate de segunda-feira com o Estoril obrigou a que o Benfica fosse às Antas a precisar de não perder para não dar o campeonato ao Porto. O cansaço físico e a quebra psicológica dos jogadores, mais a final da UEFA na próxima semana, tornam essa tarefa particularmente hercúlea. Enzo Perez, preponderante a meio-campo, pode falhar o jogo. E o árbitro escolhido era o único que não podia ser: Pedro Proença, aquele que prejudica sempre, sempre o Benfica, seja com que clube for, e não apenas contra o Porto, há mais de dez anos. Com esta oportunidade caída do céu, já se sabe que à volta do jogo vai-se espalhar um ambiente de ameaça e intimidação, que aliás já começou à chegada dos jogadores do Benfica ao hotel de Gaia. Desde bolas de golfe a gases no balneário do Benfica, passando por agressões a dirigentes e árbitros, de tudo um pouco já aconteceu por aqueles lados, neste clássico. Houve quem soubesse contorná-lo, mas poucos o conseguiram.

 
 Se acredito em milagres no futebol? Sim, mas são tão raros... Não tenho é ilusões. Muito dificilmente o Benfica sairá com qualquer ponto e a equipa inteira, tomando como referência os anos recentes naquele recinto (ou os últimos vinte, se quiserem), o homem do apito e a passividade da autoridade. Se o Benfica sair com um mero ponto, será quase um prodígio. Ganhar lá, sagrar-se campeão, já é uma quimera a que não me atrevo a tanto. Um dia acontecerá, mas tenho as maiores dúvidas que seja amanhã.


PS: como calculava, aconteceu. Não porque a equipa tenha jogado mal - equivaleram-se, mais uma vez - nem por erros arbitrais, mas por uma questão de sorte: além do primeiro golo do Porto ser daqueles "brindes" absolutamente involuntários, o que surgiu do céu nos descontos deu cabo de uma partida que em tudo tinha sido equilibrada. O título voará mais uma vez para uma boa equipa mas comandada por um dos maiores imbecis que jamais treinou equipas em Portugal, e os jogadores do Benfica ficaram certamente com a moral de rastos, proibitivo para quem tem uma final europeia daqui a dias. Percebem agora a descrença para estes jogos? O Benfica é a equipa que melhor futebol pratica em Portugal, e mais uma vez ficará a ver navios. Mas hoje, ao ver Jorge Jesus de joelhos, impotente para travar a má sina, fiquei a simpatizar muito mais com ele. Como se fosse uma personagem das tragédias gregas, um herói mortal e combativo que luta ingloriamente contra o destino, ou um Sísifo. Uma das imagens mais humanas que vi no futebol.