Está lá tudo: a riqueza combinada com rigor estético, o retro-fashion nostálgico impecável, os laços de paternidade subsidiária, o elenco impressionante, com rostos de sempre (Bill Murray e Owen Wilson, claro) e algumas estreias (a começar pelo protagonista, Ralph Fiennes). Desta vez, o cenário passa-se na Europa Central, em épocas diversas, fazendo flashes de flashes do passado, mas sempre com o Hotel do título como cenário. Mas a acção principal dá-se em 1932, na fictícia república de Zubrowka, típico estado da Mitteleuropa arrancado ao Império dos Habsburgos, em que o Grand Hotel, sob a guarda do seu zeloso concierge, atrai aristocratas de todo o continente. Em fundo, a ameaça de invasão militar, a fazer lembrar o Anschluss. Não faltam exércitos "prussianos", com oficiais disciplinados mas respeitáveis (lá está, entre o espírito prussiano e o austro-húngaro), agentes psicopatas directamente vindos das SS (ou no caso, das ZZ), estâncias de inverno, mosteiros beneditinos nas montanhas, aristocratas decrépitos, cidades barrocas, pastelarias quase de fantasia e um conjunto de personagens bizarras e multi-étnicas, como é comum nos filmes de Andersson, a começar no paquete Zero Mustafá, que anos mais tarde se tornará no proprietário do hotel e narrará toda a história, já num ambiente soviético decadente. Mas o filme reveste-se de todo um típico ambiente de entre-guerras, já nostálgico do passado e a pressentir a vinda de um novo mundo, não necessariamente melhor. Não é por acaso que o cenário real do hotel baseia-se em Karlovy Vary, uma deliciosa cidade termal, hoje checa, a fazer lembrar Sintra, mas com mais floresta, e também em Dresden (curiosamente passei pelas duas no espaço de horas) e em Gorlitz. E aquela dedicatória a Stefan Zweig, um autor outrora muito na moda e cuja obra está felizmente a ser reeditada, depois de longos anos de relativo esquecimento. Zweig era um dos grandes representantes desse mundo legado pelo império dos Habsburgos, e acabou com a vida, fugido da 2ª Guerra, porque acreditava que tinha acabado definitivamente. A dedicatória é não só compreensível como inteiramente merecida.
sábado, abril 26, 2014
Grand Budapest Hotel
terça-feira, abril 22, 2014
Trinta e três
Deixemos as habituais piadas de "Jorge Jesus ressuscitou na Páscoa" e as referências ao número trinta e três como idade de Jesus aquando da sua morte (sim, esses também usei no último post). A Páscoa é também época de arrependimento e redenção. Por isso, há que fazer mea culpa: precipitei-me quando escrevi isto e isto. Achei que a época seria um fiasco total, que Jesus era prejudicial e que ficaríamos atrás do Porto, que faria uma época q.b., embora com mais dificuldades, e do Sporting, em recuperação. Nada disso sucedeu, felizmente. E embora eu ache que talvez outro técnico conseguisse os mesmos resultados, e que o Benfica tinha sérias dificuldades no início da época, tenho de reconhecer que Jorge Jesus corrigiu vários erros, teve força para unir e acalmar a equipa quando necessário e levar a nau a bom porto. Também Luís Filipe Vieira arriscou todas as fichas e ganhou. Seria sempre injusto recusar o mérito a quem o teve.
E por muito que se diga agora que o Benfica teve o caminho facilitado pelos erros clamorosos do Porto e pela "verdura" do Sporting, é bom recordar que os escolhos não foram poucos: a depressão do terrível final da época passada ainda estava nas cabeças de todos, o péssimo início de campeonato, o clima tenso no balneário, ainda sem sanar o caso de Cardozo, as inúmeras lesões, que ainda não terminaram (vejam-se Salvio e Sílvio, que começaram lesionados e lesionados terminam), e até o desaparecimento de símbolos vivos como Eusébio e Coluna, que podem ter servido também de incentivo à equipa. A verdade é que o Benfica começou a mostrar melhor futebol precisamente quando morreu o "Pantera", no jogo contra o Porto, verdadeiro click deste campeonato. A partir daí só não ganhou um jogo (em Barcelos), dando pelo meio um baile de futebol ao Sporting, chegou às meias finais da UEFA, com cinco triunfos e um empate, e classificou-se para a final da Taça de Portugal, afastando um derrotado FCP. Melhor seria quase impossível. E neste domingo de Páscoa, alcançou o 33º título, pondo como sempre meio país em festa. As imagens dos festejos no Marquês de Pombal foram particularmente impressionantes, com aquelas tochas a fazer lembrar a recente revolta na praça Maidan, em Kiev. Nem Sebastião de Carvalho e Melo escapou à camisola sagrada. Há quatro anos também ali estive, num cenário idêntico, mas desta vez limitei-me a festejar o triunfo em Vila Real, onde, como no resto do país, houve festa rija, inundando a Carvalho Araújo.
Passado o primeiro objectivo há que pensar nos outros. O próximo já aí está, contra uma fortíssima Juventus que dará tudo para ganhar a competição no seu estádio e que não deixou boas recordações na última vez em que defrontou o Benfica (que o diga Silvino, a quem partiram o nariz sob a complacência do árbitro). Exige-se a desforra contra a equipa dos Agnelli. A equipa do Benfica certamente que terá isso em mente. Isso depois de pôr um país a dizer TRINTA E TRÊS.
quinta-feira, abril 17, 2014
Uma vitória decisiva
Uma confissão que se impõe: tenho sido um homem de pouca fé em numerosas ocasiões dos últimos tempos. Não em Deus nem na Santíssima Trindade, mesmo que haja dias em que essa Fé esteja mais ou menos clara (Santa Teresa de Ávila explicaria melhor), mas no meu clube, o Benfica. Fruto das desilusões dos últimos anos, sem dúvida, e de acontecimentos que minaram a minha confiança. Nas coisas da bola sou supersticioso, e normalmente quando estou optimista as coisas saem ao contrário. Por exemplo, no ano passado estava convencido de que íamos sair das Antas com uma derrota. E quando entrámos nos empatados descontos, comecei enfim a crer que podíamos sair com um resultado satisfatório. Eis senão que o improvável Kelvin marca um golo saído do nada e de uma abada as coisas se alteram completamente. Nas semanas seguintes, tudo o que laboriosamente tinha sido construído pelo Benfica ruiu de forma trágica. E no início deste ano, parecia que a época se arrastaria tristonhamente, e que seríamos espectadores do confronto entre o Porto e o revitalizado Sporting.
Como se sabe, os acontecimentos seguiram outro rumo, particularmente neste segundo turno do campeonato, em que o Porto segue de desastre em desastre, o Sporting perdeu algum fulgor inicial, e o Benfica segue na frente quase imaculado, com oportunidade de ganhar mais taças e perto de um confronto com a Juventus. Ontem era um dia decisivo: perto de se tornar campeão, o Benfica recebia o FCP para a Taça de Portugal com a tarefa de dar a volta a uma derrota de 1-0 na primeira mão. As numerosas ausências já tornavam a missão bastante complicada. E a expulsão exagerada de Siqueira mais ainda, deixando o Benfica a ganhar por 1-0 mas a jogar uma hora com menos um. Mas os jogadores mostraram, para além da sua qualidade técnica, uma união, uma raça e uma vontade que ainda não lhes tinha visto. Mesmo em inferioridade numérica foram capazes de dar a volta ao jogo, e num ambiente absolutamente louco, André Gomes marcou um fabuloso golo que pôs o Benfica no Jamor. Mas a importância desta vitória passa além da própria Taça: revelou que o Benfica perdeu o temor ao Porto, que afastou os fantasmas dos últimos anos e que marcou uma posição que poderá ser importantíssima para o futuro. Tem a hipótese de ganhar mais troféus e retirou ao Porto a possibilidade de atenuar a desastrosa época que vem fazendo, incluindo a supertaça do próximo ano, onde por norma estão representados. Se isso significa que se mudou um ciclo no futebol português só se verá daqui a uns tempos. Mas se alguém ainda negava, ficou provado que o Benfica é sem sombra de dúvidas a melhor e mais confiante equipa portuguesa da actualidade. O duplo confronto com a Juventus será o grande teste internacional desta época.
quarta-feira, abril 16, 2014
Domingo de Páscoa não é Domingo de bola
É certo que o Benfica está à beira de ganhar o 33º título de campeão nacional. E que ainda está envolvido em mais três provas, quase umas em cima das outras, uma contra a Juventus e outras duas contra o Porto (a próxima é hoje e o Benfica não só parte em desvantagem como tem cinco titulares lesionados), qualquer delas muito difícil de conquistar. Mas apesar disso, disputar um jogo, para mais aquele que pode dar o título de campeão, no Domingo de Páscoa, não é uma escolha acertada. Por alguma razão não há jogos na Páscoa: mesmo que nem todos comemorem a Ressureição, é sempre um dia para reunir a família, à mesa e onde for. Em Portugal, o futebol não é exactamente como no Reino Unido, nem sequer como em Espanha, não é um factor de aglutinação familiar. Arriscamo-nos ainda mais a esboroar os momentos familiares sacrificando-os à idolatria desportiva. Por isso mesmo, devia-se deixar o dia que marca a quadra livre de competições oficiais. Até porque os jogadores também merecem gozá-lo. O Benfica podia perfeitamente jogar no Sábado ou na Segunda à noite, que era quase igual, e não inaugurar um mau precedente, que ameaça banalizar a Páscoa e transformá-la num simples Domingo em que há bola e em que algumas famílias se decidem reunir ao almoço. Já que os compassos se tornaram raros, ao menos mantenham o cabrito pascal.
PS: para mais, se o Benfica ganhar, haverá inundação de piadas que já circula, como "Jorge Jesus ressuscitou na Páscoa", ou "na Páscoa o Benfica tem tantos títulos como a idade de Jesus".
terça-feira, abril 15, 2014
O grande fogo de Valparaíso
A magnífica Valparaíso, a maior pérola da América do Sul no Pacífico, segunda cidade chilena e sede da respectiva assembleia nacional, uma espécie de S. Francisco do hemisfério Sul, com uma extensa baía e bairros de casas coloridas a despenhar-se das colinas, unidas por eléctricos e funiculares, está por estes dias sob chamas e sob fumo. Quinze pessoas morreram, várias ficaram gravemente feridas, quase três mil casas foram destruídas, e milhares de pessoas foram desalojadas. Não se conhecem ainda as causas do fogo, que trepou e desceu pelas colinas, sem dar grande oportunidade de o apagar. A zona da baía e o centro terão ficado incólumes, bem como o parlamento, mas muitos bairros mais modestos foram completamente destruídos, deixando milhares sem nada. Ainda há dias "viajei" por Valparaíso, no âmbito de um trabalho de pesquisas baseada na net, e descobri que não só é uma cidade encantadora como tem uma vida cultural intensa e vibrante. Apeteceu-me na altura fazer as malas e voar, ou mais ainda, navegar até lá. Se o tivesse feito estaria provavelmente a apagar fogos e a ajudar no rescaldo. Valparaíso bem merecia.
As chamas à noite, com a Assembleia Nacional chilena em primeiro plano.
segunda-feira, abril 14, 2014
Enfim um Bispo para o Porto
O Porto e a sua milenar diocese têm finalmente Bispo. Já não era sem tempo. Desde Julho, altura em que D. Manuel Clemente ocupou o Patriarcado de Lisboa, que a Sé do Porto não tinha titular. Durante o hiato, especularam-se nomes, como D. António Marto, bispo de Leiria e Fátima (e saudoso professor de mundividência cristã na Católica do Porto) e D. António Couto, bispo de Lamego (e, segundo me dizem, também ele um excelente pedagogo), ou mesmo D. Pio Alves, o administrador apostólico que geriu o lugar enquanto não era nomeado sucessor de D. Manuel Clemente. Depois de tão longa espera, a escolha: D. António Francisco dos Santos, até agora bispo de Aveiro, será o novo titular da Diocese portuense. O facto de os aveirenses terem ficado pouco contentes com esta mudança é bom sinal para o Porto.
Na semana passada D. António tomou posse como Bispo do Porto, com a Sé e o terreiro fronteiro a abarrotar de gente, tanto leigos como clérigos das mais diversas ordens religiosas, e seminaristas diocesanos. No portal da sé, o bispo cumprimentou as pessoas que o apludiam, com ar risonho mas algo envergonhado e humilde. É um bom sinal. O Porto tem novamente bispo. De novo um António, o mesmo nome de alguns bispos notáveis que passaram recentemente por esta diocese, como eram D. António Barroso e D. António Ferreira Gomes.
sexta-feira, abril 11, 2014
Desaparecimentos recentes
Não conheço a fundo a obra de Jacques Le Goff para fazer uma crítica póstuma à sua extensíssima obra de medievalista. Mas para além de uma carreira profícua, longa e honesta, há que relembrar o homem que sempre tratou a Idade Média como uma época extremamente complexa e rica, de alguma transição, mas nunca a "Idade das Trevas" e do "obscurantismo" com que os Iluministas a pintaram (ou melhor, descoloriram). Houvesse mais gente minimamente atenta a isso e que se prestasse mais a debruçar-se sobre a história do que a macaquear lugares-comuns e não veríamos sempre o epíteto "medieval" colado a situações menos positivas ou consideradas "ultrapassadas".
De José Wilker muitos falaram do seu papel na Gabriela (a original, já que tempo apareceu no remake com um papel totalmente diferente). Como não me posso recordar da novela que fazia com que os trabalhos do Parlamento encerrassem diariamente antes do seu começo, recordo o papel do actor em Roque Santeiro, tão ou mais popular (deu o nome ao maior mercado africano, em Luanda)que Gabriela, em que interpretava um ex-artesão que todos julgavam morto, 17 anos depois da data presumida da sua morte, e que se tinha tornado entretanto um mártir popular e objecto de veneração e de comércio, quando na realidade era apenas um vigarista fugitivo. Morreu agora, com sessenta e tal anos, mas deixou o seu nome bem firmado no cinema, teatro, e claro, na televisão brasileira, exportadora de boa parte da imagem do gigante sul-americano que inventámos. Seria interessante se alguma vez passassem por cá a minissérie JK, sobre a vida de Juscelino Kubitschek, encarnado por Wilker.
sábado, abril 05, 2014
E um pouco mais abaixo, em Israel
Israel é um país sob críticas constantes. Algumas são justas e oportunas, sobretudo quando mais um colonato ocupa irregularmente uma terra pertencente a palestinianos. Outras são claramente abusivas e até aberrantes, como quando dizem que Israel tem "um regime nazi"(ou mais patético ainda, um regime "nazi-sionista"). Não haverá nenhum país nas proximidades de que se possa dizer da mesma forma que é um estado de direito.
Recentemente tivemos mais uma prova disso: o ex-primeiro-ministro Ehud Olmert começou a semana condenado por um caso que remetia ao tempo em que presidia à câmara de Jerusalém, por um suborno que recebeu para dar luz verde a um enorme complexo residencial e que se tornou num dos maiores escândalos de corrupção no país. E o mais provável é que Olmert, que governou o país durante três anos depois do AVC do recentemente desaparecido Ariel Sharon e que enfrentou a crise do Líbano em 2006, dê mesmo entrada na prisão.
Mas já não é a primeira vez que uma alta figura de estado ouve uma sentença condenatória em Israel: em 2011 o ex-presidente Moshe Katsav (que protagonizou alguns segundos históricos ao falar com o então presidente iraniano, Kathami, no funeral do Papa João Paulo II) foi condenado em todas as instâncias a pena de prisão por violação. Registe-se que as primeiras acusações ainda vinham do tempo em que estava na presidência.
Pergunto-me se em países vizinhos poderia acontecer algo de semelhante. Houve o caso de Mubarak, claro, e agora o de Morsi, no Egipto, mas ambos resultaram da alteração da situação política por meio de revoluções ou golpes de estado, e não de um processo judicial apolítico que ninguém imagina que pudesse acontecer sem o seu derrube do poder. A maior parte dos dirigentes políticos do Médio Oriente tem uma condição financeira algo difícil de atingir com simples remunerações. A Arafat nunca se questionou a enorme fortuna que acumulou, na Síria o clã Assad tem um histórico de violação dos direitos humanos que veio até aos nossos dias. E mesmo na Turquia o primeiro-ministro Erdogan tem torpedeado os fortes indícios de nepotismo que se têm acumulado.
Por isso, a conversa de que Israel é "um estado ditatorial" deveria evaporar-se sempre que se apontar a incomparável diferença com que a justiça actua num e noutros países. Mesmo assim, haverá sempre obstinados que se recusam a olhar para isso e que, organicamente politizados, porão sempre em causa as evidências e dirão que se trata de "propaganda sionista".
segunda-feira, março 31, 2014
Já na Turquia as consequências são outras
Na Turquia, também com eleições municipais, decidia-se o futuro do sr. Erdogan. Depois das enormes manifestações antigovernamentais do ano passado em Istambul, dos escândalos de corrupção que afectaram o governo, do envolvimento na guerra da Síria, das ameaças e do autoritarismo do primeiro-ministro, que fizeram com que tentasse bloquear o Twitter e o YouTube, que revelaram indícios de nepotismo que lhe eram prejudiciais, provocando uma chuva de críticas, do Galatasaray ao presidente da república, era grande a expectativa sobre como se aguentaria o partido do poder nas urnas. A resposta não deixou margem para dúvidas: Erdogan e o seu AKP venceram com confortável maioria, suplantando o anterior resultado, e ao que parece venceram nas principais cidades, a capital Ankara e a imperial Istambul. Quase o oposto do que aconteceu a Hollande na França. A partir de agora, e com o seu poder reforçado, Erdogan desafiará ainda mais a oposição interna. Já fora da Turquia, entre as hesitações da UE, a guerra na Síria, o reerguer da Rússia e os desejos independentistas nunca adormecidos dos curdos, terá tendência a querer afirmar ainda mais a influência russa entre o Mediterrâneo e a Ásia e a dar azo ao seu neo-otomanismo, que aliás nunca escondeu. E será interessante saber até que ponto os desejos expansionistas e imperialistas de Erdogan e Putin, dois claros saudosistas do apogeu dos seus países, irão chocar.
As consequências das municipais francesas
Não vale a pena criar monstros e anunciar catástrofes onde não existem. A Frente Nacional conseguiu o seu melhor resultado de sempre nas municipais francesas, mesmo que tenha falhado o objectivo de conquistar Perpignan e Avignon. O PSF confirmou a extrema impopularidade de que vem gozando (sobretudo por causa de Hollande), mesmo que tenha conservado Paris, ganha sem surpresas por Anne Hidalgo, e a UMP reforçou-se com a conquista de numerosas cidades, além de conservar as já tradicionais Bordéus, com o eterno Allain Juppé, e Marselha (onde a FN também teve um resultado de respeito). Resultados? Hollande já substituiu o governo, colocando à sua frente o popular Manuel Valls - tal como Hidalgo, de origem espanhola - , a UMP canta vitória e reforça-se, amaciando o clima de tensão interna em que vivia depois da luta fratricida pela sua liderança, e o partido do clã LePen reforça-se e prepara agora o assalto às europeias, em que ficar atrás do segundo lugar é derrota. A extrema-esquerda, por sua vez, desaparece, e é bom lembrar que o Partido Comunista esteve à frente de importantes cidades. Se tudo isto terá consequências para o futuro da França para além das europeias, é coisa impossível de prever. Quem poderá responder a isso no futuro próximo serão os munícipes franceses. Tudo o resto é futurologia.
sexta-feira, março 28, 2014
O regresso da Serenissima?
A moda dos referendos para secessões parece estar em grande, sob várias formas: temos o da Escócia, com a provação do governo britânico, em Setembro, o da Catalunha, sem essa aprovação de Madrid, na mesma altura, tivemos agora o plebiscito organizado numa semana para que os russos da Crimeia votassem no regresso à Rússia, e tivemos por fim, também esta semana, um referendo online no Veneto, para se decidir se a região se devia ou não cindir do resto de Itália para voltar à sua antiga condição de Sereníssima República de Veneza. E segundo a votação, devia mesmo. Pelo menos é a ideia de 89% dos que participaram (segundo os organizadores do plebiscito, 73% dos eleitores da região votaram).
Há no entanto, alguns problemas práticos que deviam ser abordados. Desde logo, o facto destas votações online poderem ser facilmente manipuláveis e trabalhadas (por exemplo, votando-se muitas vezes no mesmo) por quem as organiza. Ou votar-se por gozo, por coacções ou enganos, etc. Depois, mesmo que fosse real, que as autoridades italianas consentissem num referendo a sério, e, em caso de vitória dos independentistas na secessão daquele território, iam mesmo recriar a Serenissima? O chefe de estado teria de novo o título de Doge? E envergaria aquele simpático gorro? E as infraestruturas principais, funcionariam onde? A cidade de Veneza precisaria de um monte de obras, o que prejudicaria o turismo e afectaria as estruturas onde assenta a cidade, já de si debilitadas. A câmara legislativa teria de funcionar num edifício próprio, já que é pouco provável que o Palácio dos Doges, onde se reunia o Grande Conselho e demais entidades que governavam a república, tenha condições para isso. E de que viveria o renascido estado, para além do turismo? Do comércio e da construção naval? No primeiro é melhor não pensar, porque definhou desde que Vasco da Gama chegou a Calecut; a construção naval precisaria de bem maiores apetrechos do que os que há ou havia no venerável Arsenale, até porque as galeras estão um pouco desactualizadas. Talvez como base da armada veneziana...
Provavelmente as estruturas governativas e administrativas da neo-Sereníssima teriam de ficar em solo mais fiável, como Pádua ou Mestre. Mas a primeira é demasiado longe e descaraterizaria a ideia romântica subjacente, ao passo que Mestre é demasiado prosaica, para não dizer desinteressante e desengraçada. Assim sendo, e depois da euforia do momento e de reflectirem bem, talvez os venetos chegassem à conclusão que não seria muito viável, ao menos por agora, fazer renascer a respeitável república marítima (até porque boa parte do seu território pertence hoje à Grécia e à Croácia). Faltariam as condições mínimas para isso. Mas se insistirem na ideia, ficariam, e isso ninguém lhes tira, ficariam com a que provavelmente seria a mais bela bandeira de todos os estados soberanos.
terça-feira, março 25, 2014
Adolfo Suárez 1932 - 2014
Não têm faltado mortes de figuras públicas, mas esta era tudo menos inesperada. Adolfo Suárez, o homem que, a par do Rei, conduziu a transición espanhola entre os numerosos escolhos que a poderiam fazer afundar para o caminho da democracia, fazendo a ponte entre as duas Espanhas e estabelecendo os consensos possíveis, desapareceu neste Domingo. Já há muito que se tinha retirado da vida pública, sofrendo de alzheimer profundo.
Natural de Ávila, na Castela profunda, Chefe de governo no período conhecido com transición, escolhido pessoalmente pelo Rei Juan Carlos, Suárez tinha sido secretário geral do Movimiento Nacional, o partido único do regime franquista, que amalgamava falangistas, carlistas e conservadores autoritários, e era bastante mais novo do que os antecessores. Conseguiu com que as Cortes votassem nas suas leis reformistas que permitiram a constituição de partidos políticos, eleições livres e o fim da maior parte das normas restritivas (daí os franquistas considerarem que se tratava de uma ruptura e não de uma reforma), incluindo o regresso de velhos inimigos de Franco. Reconciliou velhos inimigos e permitiu a elaboração de uma nova constituição, que consagrava o regime monárquico parlamentar. Ele próprio obteve legitimidade nas urnas ao ganhar as primeiras eleições, em 1977, à frente da sua UCD, um muito heterogéneo partido centrista, algo aparentado ao "nosso" PSD. Voltou a ganhar em 1979, mas entretanto diversos desaires, tanto com a oposição (o governo era minoritário) com com o partido e com os militares levaram-no apresentar a demissão. No dia da tomada de posse do novo governo, presidido por Leopoldo Calvo Sotello, deu-se a invasão das Cortes pelo bando do picaresco Tejero Molina, no célebre 23-F, e até ao desfecho da situação, por intermédio e determinação do Rei, Suárez não virou a cara aos golpistas, justificando com a sua posição que ainda era a de Presidente do Governo espanhol.
Retirou-se da acção governativa e da UCD, que rapidamente se desintegrou, e fundou o CDS, esperando recolher o eleitorado centrista. Mas depois de bons prenúncios nos anos oitenta, apenas umas franjas se lhe mantiveram fiéis, particularmente na sua Castela. O grosso do antigo eleitorado da UCD transitou para o PSOE e principalmente para a Aliança Popular de Fraga, tornada Partido Popular e por consequência o grande partido do centro direita. Sentindo-se abandonado pelos seus, farto da política partidária e com graves problemas de saúde na sua família, Suárez deixou então a política activa. Só voltaria para um discurso na campanha do filho, Adolfo Suárez Illana, nas eleições para o governo de Castela-La Mancha pelo PP. Antes tinha ganho o prémio Príncipe das Astúrias pela Concórdia e passado pela tragédia da morte da mulher e de uma filha. Depois disso, o silêncio.
Suárez Illana, que entretanto também deixou a política activa para se dedicar à advocacia e à tauromaquia, revelou mais tarde que o pai sofria de alzheimer profundo. É dele a fotografia, aliás premiada, em que Juan Carlos se passeia com o amigo que já não o reconhecia, na ocasião em que lhe quis entregar a altíssima condecoração Ordem do Tosão de Ouro, e encontrou um homem já completamente fora do mundo. Seria a última fotografia pública de um dos homens que mais lutou pela liberdade em Espanha, em todos os sentido da palavra. Depois disso, as homenagens de quem lhe sucedeu à frente dos destinos de Espanha. Entretanto, mais confrontos em Madrid provocados por franjas radicais. Seria bom que tanto políticos como manifestantes tomassem como exemplo Adolfo Suárez e a sua capacidade de compromisso, de coragem e de desprendimento. Depois da democracia, seria o maior legado de um homem que merecia mais em vida.
PS: algumas revelações sobre as deslealdades políticas feitas a Suárez podem ser vistas nesta entrevista, já com algum tempo, concedida por Suárez Illana.
PS2: em tempos escrevi que restavam poucos líderes políticos de primeira linha dos tempos da Transição. De há dois anos para cá, desapareceram quase todos. Fraga Iribarne e Santiago Carrillo, em 2012, há pouco tempo Blas Piñar, chefe histórico da direita franquista dura, e agora o protagonista, Adolfo Suárez. Restam o Rei e Felipe González.
sexta-feira, março 21, 2014
Agradáveis déjàs vus
E em poucas semanas o Benfica guindou-se ao comando isolado do campeonato e chegou aos quartos de final da UEFA (prefiro esse nome a euroliga, ou Liga Europa). No primeiro caso deve-se à solidez da sua defesa e aos disparates dos seus imediatos seguidores. No segundo, a uma autoritária exibição em Londres, frente ao clássico Tottenham (precisamente o clube treinado até há semanas pelo treinador referido no fim do anterior post) e a um empate caseiro depois de um breve susto. É curioso como as vitórias em Londres são sempre pelos mesmos números (3-1). Afinal de contas, o Benfica saiu com esse resultado de uma famosa incursão ao Highbury, casa do Arsenal, em que Isaías brilhou (até porque o centro da defesa estava por conta de Rui Bento e Paulo Madeira!). E também empatou, na outra mão. Os ingleses ficaram algo eufóricos com esse empate, mas depois caíram na dura realidade, como relata Nick Hornby no seu livro de memórias futebolísticas Fever Pitch. Siga a competição.
Depois do plebiscito
E pronto, está concretizada a separação da Crimeia depois do plebiscito (e não referendo, como insistem em chamar-lhe) instituído pela Rússia e pelos seus acólitos em Simferopol. As milícias sem emblema e os deputados do parlamento local cumpriram bem o seu papel. Impedindo, na prática, a campanha a favor da Ucrânia, intimidando todos os que a apoiassem, cortando o sinal aos canais televisivos ucranianos, enchendo aldeias e cidades de cartazes pró-russos, impedindo a fiscalização a observadores estrangeiros, levaram ao boicote do plebiscito por parte dos ucranianos e tártaros através da ameaça e de agit-prop maciço. Agora, depois do resultado esmagador a seu favor, a Crimeia pede para se tornar uma república autónoma russa e a Grande Mãe, generosamente, acolhe-os no seu seio. Tanto a assembleia regional como a Duma não perderam tempo em "cumprir" as respectivas formalidades para que isso acontecesse, e Putin realizou um par de discursos irredentistas, um na Duma e outro na Praça Vermelha, para gáudio da multidão, falando no "regresso da Crimeia". Já na península, os apoiantes da nova situação festejavam nas praças, como se um festival se tratasse. Os opositores recolheram-se, temendo represálias.
Entretanto, já duas bases ucranianas na Crimeia foram tomadas, o Comandante da marinha ucraniana detido (mas liberto pouco depois) e Kiev iniciou manobras na região leste do país, onde milícias pró-russas foram avistadas. Fala-se em desordens provocadas nessa zona, de forma a dar novos "pretextos" para intervenções. Putin é ambíguo, dizendo que não precisa que a Ucrânia se divida e que "Kiev é uma cidade sagrada para os russos".
O momento não é para graças. A NATO não que de forma alguma abrir hostilidades, mas não vai deixar que haja novas intervenções russas naquele território. Prometem-se sanções, mas no imediato as mais contendentes podem vir da própria Ucrânia, com a interrupção da energia à Crimeia. Tempos complicados, naquelas paragens.
Apesar de tudo há mais gente a querer ir para a Rússia, e nem todos têm lá raízes: André Villas Boas confirmou oficialmente que será treinador do Zenit de S. Petersburgo. Depois das passagens falhadas por Londres, era de esperar que fosse para um clube mais pequeno. Afinal, escolheu um clube com um balneário difícil e muito dividido, com várias estrelas de feitio complicado e com um patrocínio da maior companhia de fornecimento de gás do mundo, que por certo quer que os seus enormes investimentos financeiros se transformem em ganhos desportivos. Ou quebra a malapata dos últimos anos ou, o que é mais provável, acumula mais um fiasco e vê a carreira seriamente comprometida.
quarta-feira, março 19, 2014
Medeiros Ferreira - 1942 - 2014
Medeiros Ferreira tem um percurso pouco comum na política portuguesa e não só pela relevância que alcançou a nível internacional. Pode-se dizer que teve uma carreira circular: começou na oposição radical ao Estado Novo, passou pelo PS, tornando-se um muito jovem Ministro dos Negócios Estrangeiros, com a responsabilidade de iniciar as conversações para a adesão de Portugal à CEE, rompeu depois com os socialistas, compôs o grupo dos Reformadores, que apoiou a AD, integrou o meteoro PRD, seguindo Eanes, e voltou mais tarde ao PS. Mas tal como antes, nunca se submeteu a tiranias partidárias nem às vontades dos dirigentes o momento, conservando sempre o seu espírito crítico, e talvez por isso não voltou a ocupar cargos políticos de relevo. Mas manteve-se publicamente visível em programas de debate televisivo (julgo que a última vez que o vi terá sido no Eixo do Mal, como convidado especial), nos jornais e na blogoesfera, onde durante anos escreveu assiduamente, primeiro no Bicho-Carpinteiro e depois no Cortéx Frontal, onde teve a generosidade de incluir este blogue na sua lista de ligações. Publicou há pouco tempo a sua última obra, Não Há Mapa Cor-de-Rosa, um pequeno livro, em parte um testemunho, com uma lúcida e esclarecedora história da comunidade europeia. E era um assumido e fervoroso benfiquista. Deixou-nos precisamente agora que o título está cada fim de semana mais próximo de voltar à Luz. Como testemunho involuntário, o seu último post, com a sua proverbial ironia, reporta-se precisamente ao Benfica. Bem merecia ter visto o regresso aos títulos do nosso clube.
domingo, março 16, 2014
Uma favela no Grande Porto?
Parece uma favela carioca a descer de um morro, visto daqui. Na realidade, não são barracos, mas vivendas construídas desordenadamente, num declive cruzado por ruas em ladeira e escadarias. Aqui muito perto, em S. Pedro da Cova, Gondomar, antiga terra de mineiros e agricultores, no fundo de um vale que justifica o seu nome, ao lado da Serra de Valongo. Em primeiro plano, o "bairro dos mineiros".
sexta-feira, março 14, 2014
D. José da Cruz Policarpo 1936- 2014
D. José Policarpo era o Reitor da Universidade Católica quando lá entrei. Por isso sempre o vi como uma figura de alguma autoridade "reitoral", mas também com certa bonomia, sem grande ar clerical, como se fosse o tio mais velho, que de vez em quando aparece, ocupado nos seus afazeres institucionais. Num encontro da universidade ainda o vi com essas funções, junto do então Patriarca D. António Ribeiro, já bastante doente, que aliás morreria poucos meses depois.
O Arcebispo de Lisboa, depois cardeal, tinha uma autoridade e um desassombro naturais, até pela constante tomada de posições frontais e politicamente incorrectas (mas nunca de forma truculenta ou provocadora), sem nunca ligar às críticas mais do que o estritamente necessário, como quando apelou às jovens portuguesas que pensassem bem antes de casar com um muçulmano de outro país, porque se podiam envolver num monte de sarilhos "que nem alá sabe onde acabam". Muitos chamaram-lhe "xenófobo", até "racista" (como se muçulmano fosse raça), "fundamentalista", etc. Eu limitei-me a rir, até porque os avisos não eram propriamente infundados. Ao longo da sua missão não deixou de dialogar e debater com pessoas de meios completamente diferentes, como Eduardo Prado Coelho, o que acabaria por levar à publicação do livro Diálogos sobre a Fé. E tomou a iniciativa de recordar e reconhecer o massacre de 1506, que vitimou perto de 2000 cristãos-novos, inaugurando, com a Comunidade Judaica e a câmara de Lisboa, o monumento que recorda esse episódio, no Largo de S. Domingos.
O seu hábito de fumar, que não escondia, inspirou algumas sátiras engraçadas, como o episódio da Contra Informação, em que no Conclave se ouve o povo lá fora clamando Habemus Papam, vendo fumo branco saír da Capela Sistina, quando se descobre que na realidade era D. José Policarpo que, farto das indecisões dos cardeais, se tinha retirado até uma janela para fumar um cigarrinho...provocando o falso fumo branco.
Há poucos anos visitei S. Vicente de Fora. Passando pelo panteão dos Patriarcas, cuja existência até então desconhecia, pensei logo que D. José não gostaria muito de passar por ali, sabendo que um dia seria a última morada do seu corpo. Se bem que não fosse assim tão importante, porque afinal de contas, como homem da igreja, interessar-lhe-ia mais o destino da sua Alma, e não tanto do corpo. Esse dia chegou. Numa cerimónia solene, com uma majestade e até uma encenação como só as Igrejas sabem fazer sem cair no ridículo, o Patriarca Emérito teve direito às últimas homenagens, dignas do seu papel de primeiro plano na Igreja e na sociedade portuguesa.
Que descanse em paz e que Deus o receba.
terça-feira, março 11, 2014
Uma boa solução
A solução encontrada pela Câmara Municipal do Porto para recuperar a Feira do Livro é um excelente exemplo de como entidades públicas podem fazer incentivos à cultura sem ceder às habituais chantagens dos "agentes culturais" e dos oportunistas da subsidiodependência do ramo. No ano passado, Rui Rio não quis ceder às exigências da APEL (que pretendia um acordo por vários anos com 75 mil euros anuais de subsídio) e quebrou a corda, deixando a cidade sem a Feira pela primeira vez em 80 anos. Agora, os senhores da APEL voltaram a exigir as mesmíssimas condições (i.e. subsídios e contrato prolongado, para além de todas as facilidades logísticas) depois de acordarem verbalmente que não as receberiam. Resultado: a Feira do Livro do Porto não se realiza em Junho, na rotunda da Boavista (para onde estava planeado regressar), mas sim nos jardins do Palácio de Cristal, em inícios de Setembro, organizada pela própria CMP. Não se perde nada, apenas se espera um pouco mais, o local é muito mais agradável e com melhores condições do que entre o trânsito da rotunda, há o apoio precioso da biblioteca Almeida Garrett e nessa altura ainda é Verão. A APEL que pense duas vezes, para a próxima.
sexta-feira, março 07, 2014
Óscares 2014
Não vi a maior parte dos filmes a concorrentes à estatueta dourada, e menos ainda aos que tinham mais nomeações, por isso as minas preferências eram localizadas. Não posso portanto dizer se compensa ficar Doze anos Escravo, se uma Golpada Americana não compensa, isso e ser um Lobo de Wall Street, ou se a Gravidade é assim tão reconhecida. É engraçado ver o já experiente Matthew Mcconaughey ganhar o prémio de Melhor Actor, mas Leonardo de Caprio, com tanta nomeação falhado ao prémio, arrisca-se a ser o novo Peter O´Toole (mas talvez possa ser um novo Paul Newman, que aliás ganhou essa estatueta num filme dirigido por Scorcese, de quem Di Caprio é o actual actor fetiche). Sobre a menina autenticamente afro-americana (vão ver a ascendência dela) não me pronuncio, porque não a conheço nem à sua interpretação. Também não vi o filme da estrela rock que ficou como Melhor Actor Secundário e que ainda há coisa de uns meses resolveu dar um concerto surpresa em pleno Chiado, agarrado à estátua do dito.
Mas o grande momento do espectáculo seria, como não podia deixar de ser, a conquista do Óscar de Melhor Actriz por parte de Cate Blanchett, pelo seu papel arrasador de uma neurótica em queda em Blue Jasmine, de Woody Allen, ao fim de várias nomeações. Uma prova de que ainda há justiça neste mundo (com desculpas a Dame Judi Dench).
terça-feira, março 04, 2014
A 2ª guerra da Crimeia?
À crise na Ucrânia sucedeu a crise na Crimeia, que alguns já consideram como sendo estado de guerra. Com a alteração do estado de coisas em Kiev, boa parte da população da península, afecta aos russos, iniciou um contra-movimento, erguendo a bandeira russa onde podia, fazendo valer a sua maior ligação a Moscovo do que a Kiev. Na confusão que se seguiu, conseguimos ver manifestações e combates de rua entre tártaros da Crimeia, herdeiros do Kanato que ali reinou até ao século XVIII e que Estaline tentou exterminar, contra cossacos locais, que nos leva a perguntar se fomos transportados para a época de Catarina, a Grande ou o romance Miguel Strogoff.
As últimas notícias são confusas, mas muito pouco animadoras: grupos paramilitares a ocupar edifícios administrativos em Simferopol, com o governador local a declarar fidelidade ao "povo da Crimeia". A Duma de Moscovo a autorizar por unanimidade o emprego de tropas na região para "proteger os russos que aí habitam". Forças russas (não só da Marinha, da base naval de Sebastopol) a tomar posição, sendo já 22 mil - a Rússia pode ter efectivos até 25 mil homens na península, segundo os tratados que firmaram a concessão da base naval da frota do Mar Negro. Cerco dessas tropas a bases ucranianas, e mesmo um ultimato para se renderem (fontes russas já desmentiram). O comando naval ucraniano também a declarar a sua fidelidade ao "povo da Crimeia " (isto é, à Rússia). Manifestações pró-russas em várias cidades do Leste da Ucrânia, como Donetsk e Karkhov. Manifestações contra o envio das tropas em Moscovo, tendo resultado em trezentas prisões. Ou seja, a Rússia invocou o direito à protecção das suas populações para, de facto, ocupar militarmente a Crimeia. Não é muito diferente do que aconteceu em 2008, quando não hesitou em enviar os seus tanques e aviação para reprimir a Geórgia, sob o pretexto de proteger a Abkházia e a Ossétia do Sul. E se a Ucrânia se lembra de proteger os tártaros, esse povo das estepes asiáticas, tradicionalmente inimigo da Rússia, que já ali vivia há séculos e que em grande parte deportaram para a Sibéria depois da 2ª Guerra?
Entretanto, os países da NATO ameaçam com sanções, a expulsão da Rússia do G-8, etc. Pouco poderão fazer mais, até porque além da França e Inglaterra, únicas nações europeias com real poder militar, e que decerto não quererão intervir, quem rechaçaria a Rússia? A Polónia? Roménia? Repúblicas bálticas? Claramente insuficiente. Obama e os ministérios dos negócios estrangeiros europeus devem estar a passar dias de angústia, só de pensar na hipótese de guerra. e não é para menos.
Não é impunemente que se recorda a Guerra da Crimeia, em meados do século XIX, da invasão alemã da Checoslováquia para "proteger os Sudetas", do genocídio soviético ou da crise dos mísseis de Cuba. A Rússia assinou um tratado com a Ucrânia, em que se comprometia a respeitar a integridade territorial deste país em troca do arsenal nuclear que lá restava. Agora, prepara-se para rasgar esse acordo, para impedir a deriva dos ucranianos para o ocidente, depois de derrubarem o cleptómano Yanukovitch (que, coincidência, se refugiou em Rostov). Confiam no seu poderio militar e nos muito apoiantes que têm no leste e sul da Ucrânia, sobretudo na Crimeia. Mas também podem pôr o pé em falso. Aliás, ainda hoje a bolsa de Moscovo registou uma descida vertiginosa. O urso russo tem garras afiadas, mas algum barro nos pés.
Talvez o mais óbvio fosse a Crimeia fazer parte da Rússia (assim como a Bielorússia, ou Kalininegrado/Konigsberg na Alemanha) mas a "dádiva" de Krushev nos anos cinquenta, quando a URSS parecia eterna, a confusão da desagregação em 1991 e a incompetência dos russos em conseguir mantê-la determinaram no mapa que pertenceria à Ucrânia. Esperemos que nos próximos dias não rebente um real conflito armado nessa zona balnear, habitual estância de Verão do Mar Negro, que teria consequências funestas. E ninguém sairia a ganhar, mesmo que vencesse militarmente.
Para acompanharmos a situação, podemos ler o blogue Da Rússia, de José Milhazes, e as reportagens de Paulo Moura na Crimeia, entrevistando russos e tártaros.
PS: uma dúvida importante era qual seria o papel da Turquia, membro da NATO e ocupante da margem Sul do Mar Negro, em todo este caso. Rui Tavares esclarece-nos, num artigo desta semana: os turcos estão solidários com os tártaros da Crimeia. muita atenção a esta potência que provavelmente, e na senda do "neo-otomanismo" de anos recentes, quererá dar uma palavrinha em todo este caso.
PS: uma dúvida importante era qual seria o papel da Turquia, membro da NATO e ocupante da margem Sul do Mar Negro, em todo este caso. Rui Tavares esclarece-nos, num artigo desta semana: os turcos estão solidários com os tártaros da Crimeia. muita atenção a esta potência que provavelmente, e na senda do "neo-otomanismo" de anos recentes, quererá dar uma palavrinha em todo este caso.
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