sexta-feira, outubro 18, 2013

Mortes anunciadas de resvés

 
No meio dos epitáfios que todos os dias vemos de personalidades mais ou menos relevantes, saltaram-me à vista duas mortes de que só soube vários dias depois e que, embora noticiadas, passaram em modestas colunas dos jornais, sem grandes notas.

Um era António José de Brito, filósofo e professor da universidade do Porto, morto aos 85 anos. Era uma referência para grupúsculos de extrema-direita em Portugal, até porque seria o único fascista auto-classificado em Portugal. Considerava-se "fascista totalitário", ou um "funesto fascista", à original maneira italiana e mussoliniana, em parte monárquico (mas não tradicionalista, como já ouvi não sei onde, senão não seria da direita revolucionária), e publicou um conjunto de obras que fizeram doutrina entre a minúscula extrema-direita intelectual pensante (já que a maior parte, como sabemos, é absolutamente iletrada e bronca e passa mais tempo a com barras de ferro nas mãos do que com livros). Alguém que não tinha medo de se considerar aquilo que hoje em dia é um insulto seria no mínimo um espírito livre, por muito que o modelo político que defendia o negasse.
 
 
Do outro lado do mundo e da ideologia política, e também com uma carreira muito diferente, Vo Nguyen Gap foi um dos maiores cabos-de-guerra dos últimos cem anos. Mero professor de história, desde a juventude que fazia parte de organizações revolucionárias contra a presença francesa na Indochina. Desenvolveu como ninguém as técnicas de guerrilha, e assim combateu os japoneses na Segunda Guerra; mais tarde, comandou os vietnamitas na guerra da independência contra os franceses, que venceria em definitivo, em 1954, na batalha de Dien Bien-Phu, em que apesar de tecnologicamente estar em inferioridade, contava com voluntários em massa, e a sua táctica, que cortou o caminho a eventuais reforços. E nos anos 60 e 70, como comandante supremo das forças do Vietname do Norte e ministro da defesa, seria o mentor da guerrilha dos Vietcong, que apesar das enormes perdas humanas, venceria o muito mais poderoso exército norte-americano e o Vietname do Sul, num conflito que dispensa apresentações, tantas foram as vezes que o levaram às salas de cinema, até à unificação do Vietname sob o regime comunista que vigora até hoje, embora com óbvias diferenças na economia. Depois disso, comandou com êxito a intervenção no Cambodja, que acabou com o hediondo regime dos Khmers Vermelhos de Pol Pot, e ainda resistiu às posteriores retaliações da China. Há tempos vi um referência sua e perguntei-me que idade teria. Morreu há dias, aos 102 anos. Para além de ser um brilhante general (e várias vezes capa da revista Time), Giap, que nem formação militar de base tinha, merece ser também recordado, muito embora fosse a figura mais admirada de um regime tirânico, por ser um dos responsáveis pelo fim dos Khmers Vermelhos, dos mais genocidas que o mundo já conheceu.
 
 
 
Nem Brito nem Giap eram propriamente amigos da liberdade ou da exaltação do ser humano, colectivistas como eram. Ainda assim, paz às suas almas. 
 

A "reforma do Estado" é fechar o interior

 
 
Parece que está previsto o fecho de 11 das 14 repartições de finanças no distrito de Vila Real. Quem conhece, sabe que apesar das novas autoestradas, continua a ser complicado circular em certos locais e em certas alturas em Trás-os-Montes. Mais abaixo, no distrito da Guarda, querem fechar outras dez repartições de finanças, deixando abertas apenas quatro, todas implantadas no Sul do distrito, o que implica que quem viva no Norte do mesmo tenha de fazer dezenas de quilómetros para efectuar um pagamento. Só em Celorico da Beira, pretende-se fechar as finanças, o tribunal e os serviços nocturnos do centro de saúde. Dirá quem viva no litoral urbano, que tem tudo quase à mão, que não pode haver serviços públicos em cada aldeia e que há que racionalizar os recursos. Como elegem pouquíssimo deputados, os transmontanos e beirões não são tidos nem achados. Pergunto-me se alguém disse alguma coisa aos responsáveis governamentais do desenvolvimento regional ou se existem para fazer figura de corpo presente. Tribunais, centros de saúde, postos dos correios, polícia, finanças, em breve provavelmente os próprios municípios (já começaram com as freguesias)...o que é que resta àquelas pessoas? Nada. Se é isto a tão propalada "reforma do Estado", então estamos conversados. Como sempre nestas questões, é-se forte com os fracos: se não der para cortar na despesa, aumentam-se impostos, e se for preciso cortar alguma coisa, vai-se ao interior, onde vivem os "labregos". Nesse caso, é de perguntar se esses "labregos" devem continuar a pagar impostos (ou a ceder os seus espaços benefício do litoral, como as barragens da EDP). Não há que cumprir obrigações se os mínimos direitos são achincalhados. É um princípio com séculos, da mais elementar justiça.
 
PS: outros distritos massacrados serão Bragança (querem fechar nove repartições), Portalegre (doze) e Viseu (dezassete), mas todo por todo o interior, a "reforma" tende a alastrar.

quinta-feira, outubro 17, 2013

Se Machete não mata, mói

 
Já começa a ser demais. Rui Machete entrou para o Governo, para surpresa geral, para levar "cabelos brancos" onde havia uma "confusão de garotos". Mal chegou, provocou logo celeuma com as suas ligações ao BPN e à SLN, que negou sempre, para além da sua controversa passagem à frente da Fundação Luso Americana. Depois, vieram os dados que tinha omitido (a posse de acções da SLN). A tudo isto, chutava para canto com as desculpas da "podridão da vida política" e eufemismos como "incorrecções factuais". E como se não bastasse este cúmulo de vícios bem digna do bloco central de interesses de onde provém (e que aliás simboliza), ainda se desculpou perante os angolanos pelas investigações a altas figuras daquele país feitas pelo Ministério-Público português, curvando-se perante Luanda e violando o princípio de separação de poderes. O que conseguiu? A crítica generalizada em Portugal, novos insultos com óbvio desprezo daquela coisa chamada Jornal de Angola e o anúncio do fim da parceria (seja ela qual for) entre Portugal e Angola pelo próprio Eduardo dos Santos. Ou seja, ainda conseguiu humilhar o país perante a antiga colónia. Eu sei que mudar de MNE constantemente não transmite a melhor mensagem lá para fora (o cargo é quase sinónimo de estabilidade), mas neste caso não há alternativa: Machete tem de ser corrido das necessidades, antes que provoque mais estragos. É uma urgência moral e material.
 
 
 

segunda-feira, outubro 14, 2013

Os refugiados e a Vergonha


E enquanto nos debruçamos sobre a nossa politicazinha interna, os ajustes de contas,os jogos de palavras, as "irrevogabilidades", e as "incorrecções factuais", passou-se mais de uma semana desde o horrível naufrágio de passageiros africanos no Mediterrâneo, a menos de um quilómetro de Lampedusa. Trezentas e cinquenta pessoas, sobretudo eritreus e somalis, grande parte mulheres e crianças, perderam-se no mar. Pelo meio, Barroso e responsáveis italianos deslocaram-se à ilha para prestar homenagens às vítimas, e foram apupados pelos que assistiram a tudo aquilo sem poder fazer nada, para grande surpresa sua. Quem raramente anda fora dos corredores climatizados de Bruxelas talvez fique surpreendido, mas a verdade é que a UE andou este tempo todo indiferente à tragédia repetida dos refugiados que se fazem ao mar - excepto quando Kadhafi lhes servia e fazia de barreira a esses refugiados, mas desde que o poder verde na Líbia se desintegrou que deixou de haver qualquer controlo.
 
 
 
O Papa já tinha chamado a atenção para este problema, em Julho, aquando da primeira visita oficial do seu pontificado, precisamente a Lampedusa. A oportunidade e o simbolismo não foram por acaso. Na altura, viu-se aquilo como uma visita de caridade e pouco se  ligou. Agora, face à magnitude da tragédia, é impossível virar os olhos. Parece que finalmente as autoridades europeias e italianas se decidiram a fazer alguma coisa. Acredito que a voz trémula de Durão depois de ver as urnas dos mortos (e nem todos foram encontrados) fosse sincera, mas tivemos de chegar a um acidente destas proporções para que alguma coisa fosse feita. Entretanto, houve novo naufrágio, igualmente com vítimas, embora bastante menos. Palavras e boas intenções, só por si, não auxiliam os náufragos.
 
O Papa voltou a falar, com a autoridade moral que tem para o fazer, ele que alertou antes de todos para o que se vivia ali. Quando disse que havia temas importantes mas que não podíamos viver obcecados com eles, era disto que estava a falar. Quantas pessoas que dissertaram e se manifestaram a propósito do casamento gay, por exemplo, escreveram alguma coisa sobre o drama dos refugiados?
A situação resumiu-se bem na palavra que o Santo Padre usou para a classificar: "Vergonha". Estamos demasiado ocupados para prestar atenção ao que se passa à nossa porta. Isso sim, devia ser razão de vergonha.
 

terça-feira, outubro 08, 2013

Facciosismo opinativo ou incompetência jornalística?

 
A questão da falta de isenção jornalística e da ausência de critérios voltou a marcar os últimos dias, e a blogosfera não tem deixado o caso por mãos alheias: segundo Ribeiro e Castro, a Caminhada pela Vida, uma manifestação em defesa da Vida contra as regras actuais que regulam o aborto, teve a participação de perto de duas mil pessoas, mas ao que parece, exceptuando a Renascença, nenhum órgão de comunicação social se lembrou de noticiá-la, optando por um pedregoso silêncio. Ao mesmo tempo, a manifestação dos "Que se lixe a Troika" teve ampla difusão dos media, embora só tenha tido trinta participantes, mas como ululavam, pugnavam por "causas justas", gritavam slogans circunstancialmente correctos e ainda tiveram a benesse de um deles ser detido. Depois fica a ideia sempre abusiva de que uns falam em nome "do Povo" (como se houvesse um grupo específico que pudesse representar toda a população) e que outros nem sequer existem. Critérios...
 
Mais patético ainda parece ser esta situação descrita no Corta-Fitas: o Diário de Notícias mostrando uma vintena de saudosistas da 1ª República a homenagear os revolucionários de 1910, enquanto que lá atrás passa a Marcha pela Vida...que não tem a menor referência no jornal (ainda por cima a redação é mesmo ali em frente). Os repórteres estariam demasiado distraídos ou não falaram da marcha voluntariamente? Em qualquer uma das hipóteses, incompetência ou facciosismo, trata-se de jornalismo de novela, sem critérios editorais que o guie e que nem ao menos sabe disfarçar as  gaffes. Mais do que tendencioso, é puramente anedótico.
 
 

segunda-feira, outubro 07, 2013

Aguiar-Branco, o McCarthy do PSD


Os pedidos de ajustes de contas no PSD depois da derrota (e particularmente das humilhações) das autárquicas revelam-nos o que de pior há  na política partidária. E de quem à partida não imaginaríamos. Enquanto Passos Coelho e Marco António assobiam para o ar para mudar de assunto, Aguiar-Branco pede sangue e atira-se aos antigos compagnons de route com uma fúria raivosa que não se lhe conhecia. Para o Ministro da Defesa, há que punir «"aqueles que estiveram na sombra a apoiar os adversários do partido”, numa alusão a Rui Rio, e os que “escreveram artigos contra a lei de limitação de mandatos”, numa indirecta a Paulo Rangel», além de que "censurou Rui Rio, Paulo Rangel e Valente de Oliveira por não terem apoiado Luís Filipe Menezes no Porto, que registou a maior derrota do PSD desde 1976". Ou seja, o actual titular da defesa (e ex-candidato à presidência da assembleia municipal do Porto) vai atrás não apenas dos que estiveram noutras candidaturas que concorreram com o PSD, mas também de supostas conspirações "na sombra" e ainda daqueles que expressaram uma posição jurídica própria (e com moral para isso). Se no primeiro casos ainda se aceita, mesmo que revele uma notória falta de pluralismo, no outro mostra uma sanha persecutória, e acima de tudo uma total intolerância com "delitos de opinião" jurídicos. Recordo que é um ex-Ministro da Justiça, que já teve importantes responsabilidades na Ordem dos Advogados, que tem este comportamento digno do Senador McCarthy (para não dizer pidesco), ou soviético, como o acusaram.
 
Ainda podia admitir que se tratasse de uma reacção à rasteira que Rangel lhe pregou nas anteriores eleições à liderança do PSD, mesmo que da pior forma (punir por uma divergência jurídica) e reveladora de um imenso rancor. Mas o cúmulo da deslealdade é atirar-se desta forma a Rui Rio, que sempre esteve ao seu lado, e que inclusivamente foi a única figura de primeiro plano do partido a não o abandonar na dita eleição para a liderança laranja. É difícil imaginar  um comportamento mais viperino. Não poupa, pelo caminho, Valente de Oliveira (que deve estar preocupadíssimo com o assunto), e calculo que diga o mesmo de Miguel Veiga, o homem com quem estagiou e que o levou para a política.
 
 
Mas porque é que o habitualmente pacato Aguiar-Branco se revela de repente mais passista que Passos? A única explicação é a de que está a ver o futuro do Governo (e do PSD) negro, e não quer deixar de assegurar o seu lugar como deputado, se possível como cabeça de lista no Porto. Mas esta sanha contra os "traidores" e quem pense pela sua cabeça, mais própria do PC ou de um grupúsculo extremista do que de um partido democrático e supostamente pluralista, mostra bem o desvario do ministro da Defesa, aliás a revelar-se absolutamente medíocre, com a questão da privatização às três pancadas do estaleiros de Viana e a absurda ideia de juntar o Colégio Militar ao Instituto de Odivelas, acabando na prática com esta instituição de séculos. Revelada a nulidade política que é, sem o menor peso eleitoral, restará a Aguiar-Branco um lugar nos bancos traseiros do Parlamento, murmurando "apoiados" e pouco mais.

sexta-feira, outubro 04, 2013

E o problema arrasta-se

 

A derrota no Parque dos Príncipes é deprimente não pelos números nem pelos pontos, porque já se sabia que este PSG não somente tem fundos sem fundo para fazer compras e que Ibrahimovic, Lavezzi e Cavani juntos são aterradores, mas é enfim uma equipa entrosada; o que aflige é a exibição apática, sem chama, própria de amadores, que já se tinha verificado contra o Belenenses. O problema do Benfica não são os erros de arbitragem e as lesões (que existem e não ajudam): o problema é o estado de depressão que vem da época passada, contaminou os reforços e faz com que, segundo a imprensa desportiva o confirma, a relação entre os jogadores e Jorge Jesus seja tensa. Quando um treinador não tem o balneário consigo, os maus resultados são uma certeza. Confirma-se que Jesus é o problema, e não a solução, e que o prazo de validade se esgotou no fim da época passada. Só que a resolução desse problema vai-nos custar caro. Seria bom tentar salvar o que ainda pode ser salvo e começar já a pensar a sério na próxima época. Isto se Vieira não estiver tão agarrado ao poder que prefira afundar-se lentamente e prejudicar o clube a reconhecer os seus erros...ou a sair pelo seu próprio pé.

quinta-feira, outubro 03, 2013

Rescaldo autárquico (global)

E vamos agora aos resultados das autárquicas fora do Porto. Ouviram-se muitas análises, mais ou menos a quente, muitas absolutamente divergentes, algumas totalmente desconexas.

O PS ganhou. Não há que relativizar nem camuflar. O PS é o vencedor destas eleições e muda assim o ciclo de doze anos, em que normalmente o panorama camarário dá uma volta - tinha sido assim em 1989 e 2001. Ganhou em Lisboa com uma maioria inédita para um só partido (eu sei que a vitória é de António Costa, mas que eu saiba ele ainda é do PS, e seria bom não esquecerem os movimentos de Helena Roseta e Sá Fernandes), reconquistou Sintra, Gaia, Gondomar e Valongo (para quem não reparou, voltou a ser o partido dominante no Grande Porto), conquistou pela primeira vez Vila Real e o Funchal (com uma larga coligação), e teve um resultado no Porto que não envergonha. Como as autárquicas são uma infinidade de eleições, também teve alguns desaires de monta, como a Guarda, Braga (finalmente), e sobretudo as que perdeu para a CDU: as capitais distritais Évora e Beja, a populosa Loures, Grândola, Alcácer, etc. No cômputo geral, é uma vitória clara - ganha metade das câmaras - mas não tem muitos mais votos que o PSD. E o aviso dos independentes também se lhe aplica. Nos próximos 12 anos deverá ser o partido maioritário nas autarquias.
 
O PSD perdeu com estrondo. Perdeu o Porto de forma humilhante, Sintra, Gaia (aqui perdeu cerca de 40 pontos em relação a 2009), Vila Real, Coimbra, Funchal, e nos grandes centros urbanos, a começar por Lisboa, teve resultados anedóticos, mesmo em coligação com o CDS. Símbolos maiores da clara derrota foram o Porto, para onde Menezes tinha deslocado mundos e fundos, e a Madeira, onde o jardinismo se esboroa a olhos vistos e da totalidade das câmaras passa a apenas quatro, perdendo mesmo a capital regional. De conquistas de registo temos a Guarda, desde sempre do PS, e Braga, onde Ricardo Rio conseguiu à terceira tentativa acabar com o feudo de Mesquita Machado e herdeiros. Manteve ainda capitais de distrito onde o anterior titular se retirava (Bragança. Aveiro, Viseu, Santarém, Faro, Ponta Delgada). Não sei quais os "efeitos nacionais" que se podem retirar daqui, mas de certeza que não são muito bons.
 
A CDU faz lembrar aquele exemplo do relógio parado que acerta duas vezes ao dia. Depois de tantos anos a afirmar que "os objectivos foram cumpridos", teve enfim toda a razão: ganhou inequivocamente e atingiu os seus grandes objectivos: subiu em votos e mandatos e reconquistou câmaras emblemáticas, como Évora, Beja, Loures e Grândola. Voltou a dominar o Alentejo e a margem Sul do Tejo, afirmou-se novamente como uma poderosa força autárquica, meteu o Bloco no bolso e rejuvenesceu o eleitorado e os candidatos (se bem que tenha recorrido a alguns "dinossauros"). A acompanhar com atenção.
 
O CDS pode esboçar algum pequeno sorriso, mas longe da euforia de Portas e do "penta". Travou um declínio até agora imparável, descolou da única câmara que tinha, conquistando cinco, aumentou a influência nas ilhas e acompanha o PSD nalgumas vitórias de coligação. Mas ao mesmo tempo partilha com os "laranjas" algumas derrotas humilhantes, e em termos de votos nacionais subiu pouquíssimo. E olhando mais de perto, teve votações residuais, quase invisíveis, em autarquias que tem tempos dominou (Bragança, Vila Verde, Paredes, S. João da Madeira). Tem uma quota parte de mérito na vitória de Moreira, mas menos do que o que quiseram fazer crer. Já não é o partido de uma câmara só, mas está ainda muito longe de voltar a ser uma força local a sério (como a CDU).
 
O Bloco confirma-se como agregador de votos urbanos nalguns nichos específicos. Municipalmente, vale quase nada. Ninguém está interessado em atitudes de protestos e propostas fracturantes para resolver os problemas locais. Por isso perderam Salvaterra e nem o "coordenador" conseguiu entrar na vereação de Lisboa, mais uma vez. Deve ser a maldição de Sá Fernandes. No Porto, outro resultado decepcionante, e nem os movimentos que apoiaram em Braga e Coimbra tiveram grande êxito. Comparativamente com a CDU, fazem figuras de anões. Não adianta falar na "derrota do governo", até porque nas explicações para o desastre meteram os pés pelas mãos.
 
Os independentes, guindados pela sucesso de Rui Moreira (mas também pelos casos de Matosinhos ou Portalegre) ganharam um enorme destaque. Já não era sem tempo. Já lá vai o tempo em que os partidos se julgavam donos e senhores dos votos e das câmaras, mas aparentemente nem todos entenderam isso.
 
Gostei: obviamente da vitória no Porto da candidatura, que apoiei e na qual quase ninguém acreditava no início; das mudanças em Vila Real (desde 1976 nas mãos do PSD, e a que o meu Avô presidiu no tempo da outra senhora) e Braga, do triunfo de Guilherme Pinto em Matosinhos e do terramoto na Madeira. Não gostei da vitória dos Isaltinos em Oeiras e da derrota do PSD em Caminha (o candidato parecia-me um homem sério). Bem vistas as coisas, foram umas boas eleições.
 
Momentos que ficaram da noite: Guilherme Aguiar e CAA a reivindicarem ambos terem sido a escolha pessoal de Luís Filipe Menezes e a histeria em volta de Isaltino, que levou uns quantos perturbados a irem vitoriá-lo junto aos muros da prisão.

segunda-feira, setembro 30, 2013

Rescaldo autárquico: a vitória anunciada de Rui Moreira

 
Ainda a contas com défice de sono depois da extraordinária noite de ontem, faço finalmente o balanço das Autárquicas. Mas devagar, porque muito há a dizer e a temperança é uma virtude cristã. Por isso, vou-me cingir para já ao que se passou no Porto, e noutro post falarei dos outros resultados.
 
A vitória de Rui Moreira apanhou muitos desprevenidos. Havia quem começasse a acreditar que podia acontecer a partir do momento em que foram divulgadas as sondagens da Universidade Católica que lhe davam um curto triunfo. Mas a maioria caiu de quatro: quase todas as sondagens previam a vitória de Menezes, e os analistas de TV iam atrás desses números. Rui Moreira era um outsider simpático, mas pouco mais.
 
Mas quem seguia, e sobretudo, quem participava na campanha fazia outro tipo de previsões. O exemplo da vitória de Rio sobre Fernando Gomes, em 2001, estava na memória de todos. Os contactos de rua também eram animadores. Além disso, os excessos de campanha, numa altura em que se pede contenção e austeridade, eram contraproducentes. Desde o início, a apresentação no Ferreira Borges, que mais e mais gente se começou a entusiasmar com a candidatura independente. O CDS-PP, horrorizado com a hipótese de Menezes atravessar a ponte, deu o seu apoio a Moreira. Alguns militantes do PSD, como Miguel Veiga, também. Na altura, aí por Abril, em que entrei nas primeiras acções de campanha, lembro-me de nos cálculos que fazia com pessoas amigas, em que apostava que Moreira conseguiria mais de 15% dos votos, O vencedor seria Menezes, com todo o seu CV de autarca e o séquito laranja, ou Manuel Pizarro, confiante na força do PS portuense e na divisão de votos. Mas o tempo passou, e chegado o Verão, já se acreditava que a campanha rua a rua, porta a porta, e a persistência trariam um combate mais interessante. Há poucas semanas, convenci-me finalmente que a vitória era realmente possível. As últimas sondagens não me espantaram nada mesmo (até porque sabia que o JN estava descaradamente com Menezes). Espantou-me, sim, a dimensão da vitória de Rui Moreira, e a derrota clamorosa e humilhante de Luís Filipe Menezes, que muitos consideravam que daria um passeio de uma margem à outra do rio.
 
Digam o que disserem, Moreira é o grande vencedor destas autárquicas. António Costa era um vencedor anunciado e os seus opositores estenderam-lhe uma passadeira vermelha. Pela primeira vez, uma candidatura independente ganha uma grande câmara no país. O rótulo de "candidato de Rio e do CDS" é redutor e ignorante. Moreira, que presidiu até há pouco à Associação Comercial do Porto, é um digno representante da burguesia liberal portuense, e os habitantes da cidade reconheceram-no. Ganhou contra aparelhos partidários, jornais e analistas televisivos, sondagens, bloggers, campanhas bojudas e com meios sem fim, troças e remoques; só não se pode dizer que ganhou "contra tudo e contra todos" porque seria injusto: ganhou COM  uma larga fatia dos portuenses. É uma vitória que prescinde de caciques, ajudas líderes partidários nacionais, aparelhos eleitorais e até, como confirmei hoje, da tradicional visita ao Bolhão (cuja reabilitação, de resto, está contemplada no programa eleitoral de RM). Não precisou de nada disso para obter uma vitória seguríssima, que se estende à conquista da Assembleia Municipal e de 5 das sete (novas) freguesias da cidade. É o novo Presidente da Câmara Municipal do Porto com todo o mérito.

 
 Do lado dos adversários, Pizarro, que terá algo a dizer na nova vereação camarária, saudou a vitória de Moreira com visível alívio, já que não só impediu a tomada do poder por parte de Menezes como ainda conseguiu um honroso segundo lugar. Já o ex-autarca de Gaia teve até um discurso invulgarmente digno e tranquilo, envolvido num ambiente sepulcral. O mesmo não se pode dizer de alguns dos seus apoiantes, que aparentemente, não perceberam nada. Não perceberam que o "politiquez" que se usa nos aparelhos partidários nada diz às pessoas, que a política das prendas e dos grandes gastos de campanha, das promessas de tudo e mais alguma coisa já nada garantem, e que sobretudo essa mania de falar aos eleitores como se eles fossem pobres patetas é chão que deu uvas. Acabou. Rui moreira demonstrou isso mesmo. Mas os derrotados desta noite devem aproveitar para meditar e perceber os seus erros, e não atirar as culpas para cima dos eleitores, que "preferem ser enganados". Neste rol meto também alguns bloguistas que compensam o seu patético despeito pré-eleitoral com análises tão estapafúrdias na sua evidentíssima azia que nem ao menos disfarçam um bocadinho que seja. Nestes casos, a desonestidade intelectual paga tornando-se puro objecto de gozo, como os respectivos comentários atestam.
 
Moreira ganhou, e ganhou bem, não porque tinha o apoio do CDS, de Rio ou de Veiga e demais "históricos do PSD", mas porque soube conquistar os portuenses, que viram nele um digno representante sem passado de dirigismo partidário. É uma enorme lição e uma oportunidade que o país deve aproveitar. Se não o fizer, o aparelhismo partidário acabará (ou será substituído) de maneira mais dolorosa. Mas no Porto, a hora é de esperança e de orgulho. Terei saudades desta campanha renhida mas alegre, em que se gritava "o meu partido é o Porto". Mas nesta cidade, confiança não falta.
 
 

sexta-feira, setembro 27, 2013

Os veículos das campanhas


Habitualmente sigo muito cada eleição autárquica. É por aí que se conhece o chamado "país real", que se ouve falar de terras até aí desconhecidas (conheci de nome imensos concelhos só por causa destas eleições), que se vêm as mais divertidas e disparatadas campanhas, que se viaja no fundo um pouco por todo o território. E até o peso sociológico dos partidos pode ser avaliado com o passar dos tempos - concelhos que com a mudança do presidente passam a mudar a cor do voto em todas as eleições, por exemplo, o desaparecimento do CDS da Beira interior, onde já dominou, a menor influência do PCP no Alentejo e na "cintura industrial de Lisboa", etc.

Para além dos resultados, sigo as campanhas. E esta, a par dos "tesourinhos das autárquicas", dos comícios-concerto e dos porcos assados, revelou um fenómeno curioso: a Vokswagen Kombi, ou Transporter, vulgarmente conhecida como "pão de forma", tornou-se um dos veículos mais usados na propaganda eleitoral. Esta velha e fiável carrinha, venerada pela geração flower-power, é um dos grandes mitos automóveis, pelos milhares de unidades construídas e por um certo romantismo construído à sua volta. E muitas foram recuperadas para andar pelos concelhos fora, como veículo de campanha (literalmente), com alguns resultados engraçados. Na de Rui Moreira, por exemplo, a "pão de forma" tornou-se num ex-líbris da sua campanha, sempre com a "juventude moreirista" em grande algazarra. Em Bragança, Júlio Meirinhos, o ex-autarca de Miranda e antigo Governador Civil que tenta reconquistar a capital do Nordeste transmontano para o PS, usa uma como sede móvel de campanha. e tenho notícias de outras, que agora não me ocorrem.


 
Simplesmente, soube-se há pouco que a Volkswagen não mais produzirá as "pães de forma", fechando a última linha de montagem, no Brasil, no fim do ano, devido a novas regras de segurança que não são adaptáveis às célebres carrinhas. A notícia não apanhou ninguém de surpresa, já que se previa o fim muito próximo. Assim sendo, o que motivará o seu uso massivo nas eleições, ou noutros contextos (ambulâncias, por exemplo)? Será o revivalismo que surgiu de súbito com o pré-anunciada fim de linha? Ou o espírito "peace and love" invadiu as campanhas eleitorais? Olhando para as habituais guerrilhas, parece menos provável do que a primeira hipótese. Ou talvez quisessem manter um espírito de romantismo, ou uma imagem de irreverência, de "juventude", para cativar os eleitores. De facto, as campanhas autárquicas precisam de algum sangue novo, se bem que por vezes exagerem e acabem em autênticas criancices. Seja como for, as históricas carrinhas dão mais cor e simpatia às campanhas. Por mim, podem continuar, até porque, avaliando o enorme número que saiu das linhas de montagem, não vão desaparecer assim tão cedo.

Antes das autárquicas


No próximo Domingo teremos as eleições autárquicas mais importantes de que tenho memória. Por um conjunto de razões: porque prenunciam o fim de um ciclo eleitoral, que normalmente se altera de 3 em 3 eleições (e pudemos ver isso em 1989 e 2001), dando primazia a um dos partidos do poder; porque a lei de limitação de mandatos finalmente estabelecida marca o fim dos dinossauros autárquicos, alguns na cadeira desde os anos setenta, se bem que se possam candidatar a outras autarquias (o que não é bem a mesma coisa), o que irá provocar alguns pequenos sismos e mudar a composição de muitas câmaras onde os partidos dominantes já tinham criado raízes; e porque finalmente assistimos a uma verdadeira disseminação de candidaturas independentes.
Até agora, a maior parte destas listas era de independência duvidosa, já que se tratava, na prática, de uma qualquer secessão num partido de determinado candidato preterido pela escolha de outro, ou pelo seu afastamento ditado pelas cúpulas partidárias. Houve algumas tentativas de se formarem reais listas independentes, como o movimento de Helena Roseta, em Lisboa, que rapidamente acabou absorvido pelo PS, mas na realidade apenas em juntas de freguesia se conseguiram levar a votos – e à vitória – listas sem ligações partidárias.

Agora observam-se outros movimentos que não apenas os recusados que abandonam o partido. Fenómenos que acontecem em cidades de relevo, como Coimbra ou Tomar, e em concelhos menos visíveis, como Oleiros. E, evidentemente, no Porto, onde se verifica a mais interessante experiência deste tipo – e não falo do ex-socialista Nuno Cardoso.

Desde há muito que se sussurrava que Rui Moreira, até há pouco presidente da Associação Comercial do Porto e habitual comentador de jornais e televisões, poderia ser candidato à Câmara do Porto. Em Março, perante uma enorme plateia no simbólico Mercado Ferreira Borges, lançou finalmente a sua candidatura independente. O CDS-PP, que não se revia nos projectos que o candidato do PSD tinha para o Porto, deu-lhe o apoio oficial, prescindindo de avançar em listas próprias. Moreira aceitou o apoio mas não estabeleceu qualquer compromisso, preferindo manter-se liminarmente independente. A princípio, havia regozijos com uma candidatura que poderia baralhar as contas e trazer uma lufada de ar fresco à campanha. A pouco e pouco, percebeu-se que uma maior ambição era justificada. De repente, Moreira surgia nas sondagens em segundo, à frente do candidato socialista, Manuel Pizarro, e logo atrás do “vencedor anunciado”, Luís Filipe Menezes. O entusiasmo encontrado nas ruas, mesmo em locais onde se pensou que se encontraria indiferença ou hostilidade, deu razões para acreditar que se podia conseguir mais do que o segundo lugar. Ontem, as sondagens da Universidade Católica mostraram finalmente a candidatura de Rui Moreira em primeiro lugar, enquanto que hoje o JN deu um empate técnico, depois de Menezes aparecer sucessivamente uns bons pontos à frente.

Como já perceberam, não escrevo com distância nem sequer com imparcialidade. Apoio a candidatura de Rui Moreira, e já há uns tempos tenho a convicção de que a sua vitória é mais do que possível. O contacto com as pessoas na rua dá-nos uma visão mais clara das tendências dominantes, muito embora cada um tenha as suas razões. Mas também sei que o eleitorado portuense pensa por si próprio, indiferente a quem as cúpulas partidárias escolhem para o representar. Já deu essa prova noutras ocasiões, como em 2001, em que Rui Rio bateu o até ali “invicto” Fernando Gomes. E numa altura de carências e apertos, não é com promessas descabeladas de gastos sem fim e campanhas pomposas e exorbitantes que convencem os eleitores do Porto.
 
 
Rui Moreira representa uma certa burguesia liberal do Porto, aquela mesma que o tornou numa cidade comercial e industrial dinâmica, e, acima de tudo, livre e com amor pela liberdade. É esse mesmo amor pela liberdade que leva a que tanta gente queira votar nele, não só pelo que propõe mas para dar uma valente bofetada aos caciquismos, ao aparelhismo mais boçal, à arrogância dos partidos que julgam que os votos lhes pertencem e que os municípios são a sua coutada pessoal, para alimentar clientelas, as famosas “bases”, e demais pedinchices locais. O voto em Rui Moreira no Domingo é não só útil para o Porto mas para o país inteiro, porque será um seriíssimo aviso aos aparelhos partidários. Sim, nestas autárquicas vamos ver fenómenos interessantes, mas não apenas um “cartão amarelo” ao governo: o fim dos presidentes jurássicos e a emergência dos independentes como alternativa aos bolorentos aparelhos clientelares. Por isso, mesmo com a chuva, saiam de casa e votem. É não só um dever e um direito, mas uma oportunidade única que não devem desperdiçar.

terça-feira, setembro 24, 2013

Uma vitória ligeiramente pírrica

 
Sim, Angie e a CDU/CSU ganharam com uma "super-maioria", a mais robusta desde os tempos áureos da Reunificação, em que Helmut Kohl não dava hipótese à oposição. Mas secou o terreno em volta, e além de deixar o SPD a milhas, conseguiu eclipsar o seu aliado de coligação, os liberais do FDP, que depois de em 2009 terem conseguido o seu melhor resultado eleitoral de sempre, passaram agora, como temiam, pela humilhação de se quedarem com menos de 5%, e ficarem por isso fora da representação do Bundestag. Com quase a mesma percentagem ficou o movimento anti-euro, E o tão propalado Partido Pirata, dos libertários da net (lembram-se do entusiasmo, aqui há pouco tempo?), desinchou para umas décimas que o deixam a uma distância abissal da representação diplomática. Quanto à esquerda, tirando os sociais-democratas, recuou claramente.
 
Agora, com uma imensa maioria que expulsou os liberais para fora do ringue parlamentar, mas aquém da maioria absoluta, a CDU terá de negociar para formar um novo governo. O Linke, de esquerda mais radical, estará absolutamente fora de causa, com os Verdes também parece pouco provável, pelo que provavelmente se reeditará a Grande coligação de centro com o SPD. Quem diria que os sociais-democratas, com um resultado fraco, ainda poderiam entrar no governo, mercê dos votos que transitaram em massa dos liberais para a CDU e os anti-euro? e que as comemorações de vitória da CDU afinal tiveram a visita de Pirro? Veremos se um novo governo mantém a obstinação na política de dar as tranches aos países aflitos pela dívida, como Portugal, em troca de uma férrea política de apertar o cinto, mesmo que isto tenha custos sociais. E se Frau Angie não terá mais dores de cabeça no futuro do que certamente pensaria.
 
 
 

segunda-feira, setembro 23, 2013

Nos cinemas, a última viagem marítima de descoberta

 
 
 
Já tinha deixado expresso o meu desejo de que este filme passasse em Portugal, e as distribuidoras fizeram-me a vontade. As salas de cinema (poucas, e só em Porto e Lisboa) exibem agora Kon-Tiki, o filme norueguês que chegou a ser nomeado para o Óscar de "melhor filme estrangeiro", e que como o nome indica, relata a viagem imprevisível que o aventureiro Thor Heyerdahl empreendeu em 1947, desde as costas do Peru até à Polinésia. Um percurso de quase 7000 kilómetros e mais de cem dias, em que seis homens singraram numa jangada construída segundo métodos de outrora, para desvendar que os habitantes da Polinésia descendiam não de povos vindos da Ásia mas sim das Américas, e que por meio de jangadas tinham percorrido boa parte do Pacífico, à mercê dos elementos. Heyerdahl queria a todo o custo provar a sua teoria, e com mais cinco companheiros singrou pelos mares fora, anotando tudo o que lhe parecia relevante, filmando e realizando uma película que ganharia o Óscar de Melhor Documentário. Agora, a sua aventura é contada em filme, mostrando as teorias, as hesitações, a determinação para levar a cabo uma empresa na qual ninguém acreditava, o sacrifício da vida familiar, os momentos de angústia (a imensa calmaria no meio do Pacífico, a fauna oceânica a rondar, as tempestades), o companheirismo, a Fé...não sendo uma obra-prima, é um filme de aventuras à antiga, e ainda por cima baseado numa aventura autêntica, das últimas viagens de descoberta feitas no nosso planeta antes do Google Maps desvendar todos os recantos. Deixem os filmes da moda para depois, porque ainda ficam mais uns tempos, apanhem este antes que saia das salas e apreciem uma aventura marítima dos tempos modernos feita numa jangada vetusta, que seguiu a direcção do Sol.
 
 

quinta-feira, setembro 19, 2013

As dificuldades de Abreu Amorim


Também num debate, igualmente da Porto Canal, mas em Gaia, reuniram-se os candidatos à edilidade local (ou seja, os que vão aguentar com a conta deixada por Menezes). Só vi uns segundos, mas chegaram para apanhar uma declaração surpreendente: Carlos Abreu Amorim, candidato do PSD/CDS, e antigo blogger, afirmou alto e bom som que Luís Filipe Menezes era provavelmente "o melhor autarca da democracia". Surpreendente, porque vindo de um liberal assumido como CAA, seria pouco previsível ouvir um elogio destes a um autarca que se destacou precisamente pela enorme despesa e por gastos de dinheiros públicos. E também porque não hesitou em falar do púlpito de uma igreja numa campanha encapotada, coisa que deveria escandalizar o anticlerical Abreu Amorim. Ou talvez não. Pode ser que o anticlericalismo seja coisa do passado, uma vez que o candidato agora até vai a Fátima. Realmente, como o próprio CAA dizia, "é difícil ser liberal em Portugal". Tão difícil que mal se encabeça uma candidatura autárquica, esse liberalismo é logo atirado para a valeta.
 
 

domingo, setembro 15, 2013

Um debate com todos - notas


Finalmente pudemos assistir a um debate entre todos os candidatos à Câmara Municipal do Porto, emitido pela Porto Canal. O modelo adivinhava-se complicado, mas Júlio Magalhães soube geri-lo bem, com o  brinde não haver palmas de apesar da presença de público e de apoiantes dos candidatos, sobretudo integrantes das suas listas. Ouviram-se algumas ideias com interesse, houve muita palha pelo meio, e as habituais picardias e momentos caricatos da praxe.
- Rui Moreira: sóbrio no geral, sintetizou o seu programa de maneira eficaz e simples, mas podia ter sido mais concreto nalgumas áreas e afirmar-se mais relembrando a sua luta contra a centralização da ANA e de Leixões, além de que devia ter defendido mais eficazmente o seu mandato na SRU. Ganhou nos apartes com outros candidatos, embora pudesse ter sido mais contundente contra Menezes.
- Luís Filipe Menezes: mais contido do que se pensaria, excepto quando se envolveu numa troca de palavras com Moreira e Pizarro. Conseguiu camuflar as propostas megalómanas e puxar dos galões das suas vitórias em Gaia. Aguentou-se bem, mesmo sem conseguir passar totalmente a imagem de liderança que desejaria.
- Manuel Pizarro: conhecedor do Porto, menos talvez da situação da Câmara, desaproveitou uma oportunidade de se afirmar como real alternativa, apesar dos despiques com Menezes e Cardoso. Mostrou ideias sóbrias e a merecer estudo. A falta de notoriedade e carisma são os seus maiores adversários. Como disseram alguns comentadores, seria melhor presidente do que candidato.
- Pedro Carvalho: à semelhança do seu antecessor da CDU, Rui Sá, mostra que mantém intenso contacto com a população e um bom conhecimento das condições sociais mais preocupantes e dos vários dossiers. Perdeu ao tentar colar Rui Moreira ao governo, mas marcou pontos quando obteve dos outros candidatos a promessa explícita de revogação do novo regulamento dos bairros municipais.
- José Soeiro: estudou bem determinadas situações, como a do futuro do Aleixo, em que era sem dúvida o mais informado. Perdeu-se muito no discurso ideológico, como as arremetidas contra "os privados", ou no apelo à "revolução cidadã" e a "viragem nacional à esquerda". Deverá ficar-se pelo nicho do BE e dificilmente será eleito vereador. Apesar das suas qualidades, no futuro terá de se focar mais em problemas concretos e menos ideologizados.
- José Manuel Santos: o menos interventivo, levantou o problema de falta de escala e de dimensão do Porto, apontou alguns projectos internacionais a ser aproveitados, mas também caiu na excessiva ideologização, e mostrou que era o mero candidato do MRPP de ocasião ao afirmar que o que importava era a ideologia e não o candidato.
- Costa Pereira: se a ideia era mostrar-se ao público, conseguiu. Protagonizou alguns momentos rocambolescos, embora sem atingir o nível de burlesco dos candidatos do seu movimento, o PTP (que parece ser um autêntico alfobre de "cromos" destas autárquicas). Ficou bem expresso o seu "romantismo" ao propor um minuto de silêncio em memória dos bombeiros (o que conseguiu, com ajuda de Cardoso), e quando dizia, qual D. Quixote desta eleição, que todos os outros candidatos "tinham partidos por trás", e que ele tinha um pequeno grupo de cidadãos, como se não concorresse sob a sigla do PTP.
- Nuno Cardoso: deixei para o fim propositadamente, não apenas por ser o último a apresentar-se mas porque me merece mais algumas notas. A princípio julguei que fosse um candidato fantoche de Menezes (que em Gaia concedeu ajustes directos à empresa a que presidia) para tirar votos ao PS. Vejo agora que talvez me tenha enganado. Ou talvez isso também possa ser considerado, mas acima de tudo o que notei é que Nuno Cardoso tem-se numa conta absurdamente alta e cultiva uma mitomania patética. Segundo o candidato independente, o traçado e a concretização do metro do Porto deveram-se a ele, bem como a conclusão da VCI, o alargamento do Parque da Cidade, e até o manifesto que desencadeou o movimento popular que impediu a venda do Coliseu à IURD. O facto do presidente à altura ser Fernando Gomes e dele nem sequer ser em boa parte do tempo vereador, mas um assessor, pouco lhe importa. Entre os sms que apareciam no ecrã, invariavelmente a babujar os candidatos, apareceu um, certeiro, que exclamava que "daqui a pouco Cardoso diz que mandou construir a Torres dos Clérigos!" Para cúmulo, a certa altura falava de si na terceira pessoa. Resta acrescentar que no logótipo da sua candidatura aparece um "N" com a inscrição "sou ÉNE", e como o slogan "Porto de Futuro" não tem a palavra "Norte" incluída, isso indicia que Nuno Cardoso tem um sentimento napoleónico pouco discreto. De positivo ficou a abertura e limpeza do Cinema Batalha para sede de candidatura, bem como o convento de Francos, e algum conhecimento da rede viária e urbana da cidade (embora tenha lançado a ideia peregrina de que a desertificação do centro da cidade se devia às deficientes vias de comunicação, como se estas não permitissem tanto a entrada de gente como a saída). Claro que não se referiu às obras inacabadas e às dívidas de quando saiu da presidência da câmara, ou aos processos judiciais em que se viu envolvido. Um mitómano nunca tem uma má face. Nuno Cardoso acha-se "éne" fantástico, que se há de fazer?

quinta-feira, setembro 12, 2013

Sérvios vs croatas (e quem se trama é o jogador do Benfica)


Dobrado o século e o milénio, o ódio entre sérvios e croatas permanece intacto. Não espanta. Passaram poucos anos desde que se andaram a matar uns aos outros com particular crueldade, digna de gente tão amável como Átila, o Huno. Para além dos julgamentos na Haia, dos terrenos minados na Bósnia, dos problemas com o Kosovo e de outras questões pendentes, a faísca entre os dois povos "eslavos do Sul" vê-se no futebol (onde mais?). Pela primeira vez, Sérvia e Croácia enfrentaram-se em jogos oficiais. Em Março, os croatas tinham ganho em Zagreb. Agora, no "Marakana" de Belgrado, as duas selecções empataram a um golo, e os sérvios disseram praticamente adeus ao Mundial do Brasil.

Em nenhum dos dois jogos estiveram presentes adeptos da equipa visitante. Não haveria certamente lugar seguro onde os colocar, nem a sua protecção estaria garantida. Isso ficou bem visível quando tocaram os hinos no jogo de Belgrado: o da casa entoado com vivacidade; o da Croácia nem se conseguiu ouvir, tais eram os ruídos e pateadas da parte do público.
 

 
Mas o momento do jogo, já de si quezilento, que serve de demonstração a essa rivalidade foi o da falta assassina de um defesa croata a Sulejmani, que ia embalado com a bola: o agressor nem a viu, antes atropelou o sérvio com toda a intenção e brutalidade. Escusado será dizer que viu vermelho directo e que quase via um par de tabefes. Mas com isto, demonstrou com toda a clareza a inimizade que permanece entre aqueles dois povos, agora materializada no relvado. E ainda nos conseguiu lesionar o jogador do Benfica, o carniceiro. Como se não bastassem os que já estão na enfermaria.


segunda-feira, setembro 09, 2013

Um debate com quase todos

 
Algumas associações portuenses conseguiram juntar os candidatos à Câmara Municipal do Porto em debate na sede da AICCOPN, na última quinta à noite. Infelizmente, à última da hora não consegui ir, para ver um momento raro: a troca de ideias entre pretendentes à segunda autarquia mais importante do país (Sintra que me perdoe, mas não é pelo facto de terem ultrapassado em população que ganharam importância ao Porto), sem que seja uma televisão a fazer a convocatória. Estão por isso de parabéns  a Campo Aberto, a AMO e a APRUPP, pela organização do evento que se debruçava sobre temas como o ambiente, a reabilitação urbana e o património. E também todos os candidatos, que se dispuseram a debater projectos e ideias sem chicana nem acusações demagógicas de parte a parte.
 
Todos os candidatos? Não. Houve dois que por razões de atrasos na resposta não compareceram, e ainda outro, precisamente o que proclama o "Porto forte", que se recusou a ir, aparentemente sem razão válida, porque  "sobre esses assuntos não dá resposta". Estranho que alguém que pretende fazer frente ao centralismo tenha assim tanto receio de debater ideias, talvez porque ali não possa fazer os seus habituais discursos grandiloquentes, rodeado dos subalternos do costume. Aliás, a sua carreira política não revela momentos de grande coragem bem pelo contrário.
Esperemos que no debate promovido pela Porto Canal estejam realmente todos. Senão, poderemos desde já tirar algumas consequências definitivas.

quinta-feira, setembro 05, 2013

A desunião do pan-arabismo

 
É extraordinário as voltas que a História dá em poucas décadas. Durante três breves anos, o Egipto e a Síria constituíram uma efémera República Árabe Unida, sob a liderança do carismático Nasser, em que o que se pretendia era criar uma grande estado árabe, englobando também o Iémen e o Iraque (que por sua vez tentara, com a Jordânia, formar um grande reino Hachemita). Mas o domínio total do Egipto desagradou aos sírios, quem em 1961, através de um golpe de estado, estabeleceram a secessão e voltaram a constituir um estado sírio autónomo. Nunca mais, desde então, houve tentativas sérias para unificar o mundo árabe, sobretudo sob a forma laico-nacionalista.
 
O que é irónico é que os antigos componentes da República Árabe Unida são talvez, actualmente, os estados árabes mais desunidos entre si, divididos entre grupos étnicos, religiosos, políticos, e até por grau dentro desses grupos. Um está numa guerra civil destrutiva, o outro receia-se que fique perto. O que prova que seria sempre uma utopia quase impossível (embora tenha chegado a existir) criar um estado com tais divisões dificilmente sanáveis.
 

sábado, agosto 31, 2013

Entretanto, a bola volta a rolar


O derby de amanhã contra o Sporting, que entrou no campeonato a matar, é tudo menos propício, mas terá de ser ultrapassado. Se o problema actual é Jorge Jesus, então mais vale lembrar que com ele o Benfica já venceu a lagartada por sete vezes, e perdeu apenas uma. As estatísticas valem o que valem, mas à falta de melhor, temos de nos agarrar a alguma coisa.
 
A vitória no último suspiro contra os de Barcelos deu talvez novo ânimo ao Benfica 2013-2014, mas não resolveu de maneira nenhuma os problemas, que, repito, se devem acima de tudo à permanência de um Jesus desgastado e fora de prazo. Os sérvios resolveram, claro, e ninguém lhes nega qualidade, mas o Benfica não pode contar apenas com eles (sobretudo se houver saídas, coisa que parece inevitável). De qualquer modo, se o balão de oxigénio tiver servido para alguma coisa, Salvio estiver em forma e Markovic apto a jogar, as esperanças em surpreender o Sporting aumentam consideravelmente. A propósito, o rapazinho que veio do Partizan continua a mostrar que é uma escolha acertada. Ainda diziam que o Benfica estaria interessado no Bruma, que até joga na mesma posição. Mas para que raio quereríamos o Bruma?
 
Entretanto, o sorteio para a Liga dos Campeões, em que reaparecemos no pote 1, pôs-nos de novo na rota do Paris Saint Germain, agora em versão patrocinado pelos petrodólares do Qatar. Contra Ibrahimovic, Lavezzi, Cavani e Thiago Silva, o Benfica terá um enorme desafio para evitar tantas ameaças. Pontos a favor: os emigrantes que vão sempre aos milhares dar o seu apoio, e as ridículas regras politicamente correctas, que os responsáveis do PSG resolveram estabelecer aos seus associados, e que pretendem fazer do estádio uma solene sala de ópera (um destes dias escrevo sobre isso).
Contra o Olympiacos, não faltam argumentos desportivos. Será preciso que os jogadores se abstraiam do ambiente infernal que vive sempre que o clube do Pireu joga em casa, e afastar a memória da última visita áquele estádio (que de bom só teve esta sátira). Esperança: que Roberto, recentemente transferido para o clube dos estivadores de Atenas no estranho negócio com o Atlético de Madrid, jogue e retribua alguns dos frangos que sofreu ao serviço do Benfica.
O Anderlecht é um clube de história respeitável, e o confronto que servirá para desempatar os resultados entre belgas e portugueses. Os mauves não são um adversário muito temível, nem têm uma equipa comparável com a do Benfica, mas contam com um ponta de lança sérvio muito promissor que fazia dupla com Markovic no Partizan.
 
Pede-se que passem à fase de eliminatórias. Num ano atribulado, já seria bom, e seria sempre um encaixe financeiro simpático. Tudo o que for para além disso é brinde.

sexta-feira, agosto 30, 2013

Obama e Hollande querem-se mesmo queimar?


Não tenho a menor dúvida de que o regime baathista de Assad, se não lançou um ataque químico, não seria por falta de vontade que evitaria fazê-lo. Afinal de contas, o regime irmão de Saddam divertia-se a gasear insurgentes no Iraque, e o pai Assad nunca teve hesitações em esmagar qualquer revolta através dos meios mais brutais.
 
Mas desconfio das "acções" que algumas potências ocidentais preparam para evitar acontecimentos como os verificados nos últimos dias. Recordo que em 2001 a resolução da ONU destinava-se apenas a criar uma zona de exclusão aérea para evitar que a aviação do regime líbio massacrasse os revoltosos, mas a França e o Reino Unido aproveitaram para efectivamente derrubar Kadhafi, apoiando os "combatentes pela liberdade", e com isso espalhar o caos. Agora observam-se novas complacências para esses mesmos combatentes, desta vez na Síria, mesmo que muitos sejam jihadistas que não hesitam em, por exemplo, executar publicamente frades e outros "infiéis". Isso parece pouco importar a Hollande e Obama - poderia falar em Cameron, mas avisadamente a Câmara dos Comuns recusou qualquer intervenção militar na Síria. Obama e Hollande, tão incensados aquando das respectivas eleições, preferem teimosamente avançar para o terreno. Surpreende sobretudo no francês, que depois de intervir (aí sim, com todo o propósito) no Mali, parece não perceber a nebulosa intensa em que se vai meter. Ou será que o "homem simples" afinal de contas já está acometido da síndrome da "grandeur de France", que desde De Gaulle não cessa de perseguir os presidentes do Hexágono?
 
As nações europeias deviam era preocupar-se com a quantidade de milicianos jihadistas nascidos no seu território, e que depois de doutrinação religiosa  em campos educação e madrassas no Paquistão, seguiram para o terreno para combater o regime de Assad, envolvidos em redes extremistas islâmicas. Novas serpentes podem estar a sair de imensos ovos aqui à nossa porta. Quanto a Obama, arrisca-se a perder todas as credenciais que apressadamente lhe deram (lembram-se do Nobel da Paz?). Entre Assad, o Irão e o Hezbollah, e os jihadistas apoiados pela Arábia Saudita, venha o Diabo e escolha. Mas o demo, que já lá anda há dois anos, parece estar com dificuldades em decidir-se. Esperemos que não tenha soprado ao ouvido de Obama e Hollande.
 
 

domingo, agosto 25, 2013

Imagens dos dias que correm


 



Os dias correm quase literalmente, levados pela furiosa nortada que sopra aqui pelo litoral do Minho. Por um lado é bom, porque revigora as mazelas resultantes das festividades populares que aqui há quase diariamente, de Caminha a Ponte da Barca. Por outro, levam tudo pelo ar, proíbem oficiosamente a entrada na praia e fazem-nos dar voltas à cabeça sobre como ocupar o tempo (alternativas não faltam, falta é decisão a tempo e horas). Agora que cheguei aos 35, a antiga "meia-idade", devia começar a organizar mentalmente melhor o meu tempo, de forma a perdê-lo menos, coisa que faço com mestria. Por estes dias, entre praias, nortadas, viras e gastronomia local, também se perdem muitas horas a olhar para ontem. Mas afinal de contas, as férias são isso mesmo. E pelo meio vou encontrando coisas novas nestas terras que conheço desde sempre, como trechos do Caminho Português da Costa -  de Santiago - que passam entre o mar e as floresta e nos quais nunca tinha reparado. Vendo bem, os dias que correm não são tempo nada mal gasto.


 

segunda-feira, agosto 19, 2013

A tirania militar de volta ao Egipto




No Egipto, a efémera "Primavera Árabe" esfuma-se a olhos vistos. A deposição de Morsi não resultou em nenhuma "agora sim, democracia" com que alguns líricos sonhavam. Afinal de contas, o presidente tinha sido eleito por mais de metade dos eleitores, e a sua deposição seria sempre antidemocrática, por muito que as suas origens na Irmandade Muçulmana provoquem desconfianças. Quiseram instalar um governo "laico" no seu lugar e as consequências estão à vista: protestos em massa dos apoiantes do presidente deposto, reacção duríssima por parte das forças armadas, centenas (ou milhares?) de mortos nas ruas, e agora até a ameaça dos militares em ilegalizar de novo a Irmandade Muçulmana e os partidos que dela fazem parte, e que tiveram os votos de mais de metade dos egípcios. Por causa disso, Mohamed el-Baradei já se demitiu do cargo de vice-presidente interino. Aquilo a que assistimos não é uma democratização do país, já que isso só poderá acontecer com a inclusão dos islamitas, nunca os marginalizando: o que se passa é que o Egipto está à beira de voltar a ser um regime militar, com até 2011, porventura mais duro do que era antes da queda de Mubarak. Aqueles que aplaudem a intervenção das forças armadas, incluindo as suas acções mais violentas contra supostos extremistas islâmico,s estão na realidade a caucionar um regime igualmente tirânico e sem real base popular. Não é mais "democrático" ou pluralista massacrar cristãos, islamitas, apoiantes dos militares ou liberais. Em qualquer dos casos, estamos perante medidas despóticas e tirânicas. Parece que não se lembram do lamentável casos da Argélia, em que depois de anularem as eleições ganhas pelos islamitas e ilegalizarem os partidos vencedores, se verificou uma feroz guerra civil que deixou marcas profundas no país. além disso, como se pôde verificar durante o século XX nas "democracias populares", os regimes laicos não são necessariamente mais benignos que os religiosos. Entre Saddam e Khomeiny, viesse o diabo e escolhesse. Ao menos Morsi não quis ilegalizar partido algum. Aguentem-se agora com o regresso da ditadura militar.

domingo, agosto 18, 2013

A época começou como se imaginava



Começou a época 2013-2014. Não tive tempo de fazer um pequeno apanhado do que possa ser o Benfica desta nova época, mas também não era preciso, porque a equipa começou exactamente como o previsto: perdendo. Se nas outras épocas o Benfica empatava sempre na primeira jornada, desta vez conseguiu perder num terreno difícil mas onde até tem alcançado bons resultados. A equipa não jogou horrorosamente mal, não tinha Salvio e Markovic, não jogou pior que o adversário e ainda contou com a habitual arbitragem prejudicial do duvidoso Jorge Sousa. Mas teve uma incrível falta de objectividade no momento do remate, jogou atabalhoadamente e em alguns momentos muito devagar e teve novos erros defensivos que foram fatais. Jorge Jesus, mais uma vez, parecia longe...
 
A pré-época já deixava o credo na boca, mas desde que se soube que Jesus tinha renovado por mais dois anos, com o mesmíssimo (e alto) salário, depois do final calamitoso da época passada, que se previa que a coisa não ia correr bem. A querela com Cardozo, o homem de área do Benfica dos últimos anos (e o mais influente em duas décadas), cujo problema ficaria resolvido "até 17 de Julho", mas que se arrasta indefinidamente, deixou um balneário tenso, um goleador desaproveitado e despeitado e uma enorme ausência na frente de ataque. As aquisições duvidosas (Mitrovic, Fariña, Loló) misturam-se com as acertadas (Markovic) e com as que se espera que venham a render, dada a qualidade técnica dos jogadores (Sulejmani, Lisandro Lopez). Há excesso de jogadores no plantel e quase nenhuma venda para equilibrar as finanças e pagar os avultados empréstimos; existe o receio fundado dos melhores saírem no fim da época de compras, deixando a equipa coxa; os jogadores formados no clube, mesmo os que demonstram qualidade, como Miguel Rosa, são dispensados em proveito de estrangeiros desconhecidos; realizam-se negócios obscuros, torneando a boa fé comercial e a dos sócios, como a estranhíssima troca de Roberto (que se julgava do Zaragoza) por Pizzi, do Atlético, e imediato empréstimo deste ao Espanhol de Barcelona; e a relação entre os jogadores e um treinador desgastado e esgotado, que parece que ficou apenas para amealhar um bom pé-de-meia, parece tensa q.b.
 
Assim sendo, a derrota não surpreende. Até pode haver queixas a fazer da arbitragem, mas é sabido que quando o Benfica está mais frágil isso acontece com maior frequência. O grande culpado não se chama Jorge de Sousa, mas Jorge Jesus, um treinador que está a mais e que se tivesse a convicção do seu dever, teria saído pelo próprio pé, em lugar de ser sustentado pela vontade teimosa de Luís Filipe Vieira. Se se aguentar pouco tempo no banco, como alguns prevêem, contra a sua vontade, que seja Vieira a pagar-lhe a indemnização. Os benfiquistas estão fartos das humilhações causadas pelas invenções do mister, da bazófia, das mãos cheias de nada, das desilusões constantes. Se já se concluiu que a época começou torta e jamais se endireitará, então ao menos que as finanças do clube sejam poupadas das opções de Vieira. É o mínimo. Se nem isso se cumprir, então terá que haver uma seriíssima mudança no clube.

quinta-feira, agosto 15, 2013

Gibraltar ou os telhados de vidro espanhóis

 
A polémica internacional deste Verão é o regresso à questão de Gibraltar. Espanha decidiu apertar o controlo fronteiriço ao "rochedo" em resposta a uma barreira de blocos de cimento que impedirá a passagem dos barcos de pesca espanhóis. Agora, filas e filas de carros esperam para sair de Gibraltar. O Reino Unido já reagiu, e o habitual desbocado Boris Johnson, Mayor de Londres e possível futuro líder do Partido Conservador, atroou aos espanhóis um Hands out of our rock, com o seu peculiar estilo, através do Telegraph.
 
A verdade é que Gibraltar é uma zona franca, que domina a entrada do Mediterrâneo e ocupa uma posição estratégica de relevo (passe a piada com a altura do rochedo), como se verificou na Segunda Guerra. Não é muito cómodo para Espanha e para todos os que pretendem acabar com o colonialismo, uma vez que se trata de uma autêntica colónia. Mas nunca percebi esses ímpetos anti-colonialistas quando os próprios "colonizados" não pretendem mudar de situação. No caso particular de Gibraltar, tratou-se da cedência daquele espaço à Grã-Bretanha no culminar da Guerra da Sucessão de Espanha, (muito embora as pretensões espanholas tivessem vencido, com ascensão de Filipe de Anjou ao trono), a título perpétuo, excepto por vontade britânica, há precisamente trezentos anos. O Direito Internacional retira por isso qualquer fundamento a Espanha, e mesmo que nos anos sessenta (numa época em que muitos estados do Terceiro Mundo alcançaram a independência e dirigiam o seu voto contra os antigos colonizadores) a ONU tenha feito aprovar uma declaração sobre a necessidade de rever o estatuto de Gibraltar, o certo é que os locais decidiram, por um quase consenso, em conservar-se tal como estavam. Alguém se atreve a contrapor os princípios da contiguidade dos estados e do anti-colonialismo ao do primado do Direito e da autodeterminação?
 
Pelos vistos, Espanha atreve-se, como se fosse um país recente do Terceiro Mundo e não uma das maiores potências coloniais de sempre. Para mais, resolveu pedir a colaboração da Argentina, lembrando-se das pretensões de Buenos Aires sobre as ilhas Falklands, que estão numa posição semelhante à de Gibraltar (ou seja, a população local não tem a menor ideia de trocar a jurisdição de Londres pela da Argentina). Pena que não se tenha lembrado que os argentinos já fizeram uma manifestação de força que redundou em humilhação e derrota, levada a cabo pela sinistra ditadura militar, numa fuga para a frente de nacionalismo para ganhar popularidade. Em diferente situação, mas também a precisar de balões de oxigênio de popularidade como de pão para a boca. o Governo de Mariano Rajoy, escaldado pela caso Barcenas, precisa de uma pequena trica internacional. Não se lembrou que os argentinos acabaram da pior forma. Claro que ninguém está à espera de uma batalha naval, de uma invasão do rochedo pelos Tercios, nem por um novo Drake e destruir a armada espanhola. O que a Espanha pode ganhar é uma nota de rodapé de ridículo na história deste Verão, já que nada parece sustentar as suas pretensões, e muito menos o caso argentino. Para mais, têm telhado de vidro de sobra: Ceuta, ali em frente, e Melila, também são exigidos por Marrocos (já viram se os espanhóis controlassem ambas as portas do Mediterrâneo, Gibraltar e Ceuta?). E a isso ainda podíamos acrescentar o caso da "nossa" Olivença, onde ainda há réstias de língua portuguesa e que os tratados internacionais nunca atribuíram aos vizinhos. Problemas de sobra para quem exige um território como se fosse um pobre país explorado por todos. Até os mitos estão contra Espanha, neste caso: diz a tradição que Gibraltar, território onde coexistem espanhóis e ingleses, judeus e marroquinos, portugueses e genoveses, pertencerá à Grã-Bretanha enquanto houver macacos (os únicos da Europa em liberdade)  no rochedo. Se Espanha não estiver disposta a fazer um crime ambiental...
 
 

quarta-feira, agosto 07, 2013

O Jocker bloquista de Bessa Leite


Sigo afanosamente campanhas eleitorais, sou a favor de criatividade e imaginação (e se for sem o auxílio de empresas de marketing e imagem mais valor terão), de frases e imagens criativas e apelativas do potencial eleitor, não só para apelar ao voto mas para fazer germinar uma qualquer ideia na cabeça do passante. Mas há algumas que de tão originais acabam por ser de gosto duvidoso. É o caso do cartaz do candidato do Bloco à Câmara do Porto, José Soeiro, pintado na rotunda de Bessa Leite. O slogan tem o seu interesse, embora seja claramente direccionado para o habitual votante bloquista. Mas aquela cara do candidato lá estampada tem qualquer coisa de animalesco e apalhaçado ao mesmo tempo. Se fizermos uma metáfora cinematográfica, faz lembrar o sinistro Jocker, na versão Eath Ledger, ou o Chewbaca de A Guerra das Estrelas. Bem sei que os cartazes do Bloco nem sempre primam pela elegância estética, mas este, que foi certamente pensado e delineado com alguma preparação, até porque é exemplar único, faz com que se pergunte que raio terá passado pela cabeça de Soeiro e dos artistas que pintaram isto. Em tempos, o PSR, espinha dorsal do actual BE, tinha campanhas imaginativas e que atraíam a atenção, mesmo que os resultados eleitorais fossem inconsequentes. Agora, a tradição da criatividade mantém-se, mas com campanha tão esquisita, dá-me ideia que os resultados também não vão ser famosos. Nas autárquicas elegem-se pessoas, senhores directores de campanha do Bloco, não vilões de banda desenhada.
 
 

segunda-feira, agosto 05, 2013

Símbolos dos eighties que se vão

 
 
Os anos oitenta registaram grandes perdas nos últimos dias de Julho. Não só Fernando Martins, o presidente do Benfica que teve a brilhante ideia de contratar Eriksson (com o êxito que lhe é reconhecido), fechou o grandioso terceiro anel da Luz e recuperou a moral a uma equipa que tinha acabado de perder 7-1 para o seu maior rival, levando-a a conquistar o título daquele ano. Também desapareceu Dennis Farina, habitual em séries policiais, que ora fazia de gangster, ora de polícia. Foi precisamente no papel de um cop, o temerário Mike Torello, que protagonizou uma famosa série policial dos anos oitenta, Crónica do Crime (ou Crime Story), numa América pujante e mitificada dos anos cinquenta, sempre numa luta interminável de morte contra o impiedoso vilão Ray Luca, e que teve um final algo abrupto. Lembrei-me precisamente da série e da sua banda sonora quando soube da sua morte. Ficou o genérico, como recordação.
 
 

Pibulls e juízes a iniciar a silly season


A silly season está aí, não haja dúvida. Mal chegou Agosto e surgiram logo notícias a comprovar a época com estrondo, em situações caracterizadas pela total ausência de bom senso e lucidez mínima.
 
A notícia da entrega provisória do célebre Zico - o pitbull que matou uma criança em Beja, há meses - à associação Animal, por força de uma providência cautelar, para o "reeducar", levou a sua dirigente máxima à total excitação, de tal forma que decidiu rebaptizar o animal de "Mandela". Razão?  Segundo os animalistas, "tal como o líder sul-africano este cão também é um símbolo de liberdade. Esteve preso sete meses sem saber porquê, tal como Mandela esteve preso mais de duas décadas". Não me lembro de ver o autêntico Mandela a estraçalhar criancinhas, nem me parece que o cão tenha promovido a paz e a reconciliação entre comunidades, mas é difícil pedir discernimento a esta gente, obcecada que está em proteger tudo o que é "pessoa não-humana" (parece que os indianos, que tratam melhor as vacas do que as crianças, têm a mesma ideia). Mas e se a acção principal não proceder, a providência cautelar (que, recorde-se, tem efeitos provisórios e temporários) caducar, e o cão for mesmo abatido, que irá dizer a Animal? Foge com o cão? Dá-lhe o nome de Cristo ou de um mártir qualquer, passando o referir-se-lhe como uma vítima da luta pela "causa animalista"? Valha-os Deus...
 
No mesmo dia, outro caso, o da decisão do tribunal da Relação do Porto, que obrigou uma empresa a reintegrar um trabalhador que tinha sido despedido por estar com um grau excessivo de álcool no horário de trabalho (e ser protagonista de um acidente, com outro colega também com os copos). Pode-se discutir se o despedimento seria ou não uma sanção demasiado gravosa, mas atente-se no acórdão, de uma tribunal que até já absolveu um violador comprovado: "Note-se que, com álcool, o trabalhador pode esquecer as agruras da vida e empenhar-se muito mais a lançar frigoríficos sobre camiões, e por isso, na alegria da imensa diversidade da vida, o público servido até pode achar que aquele trabalhador alegre é muito produtivo e um excelente e rápido removedor de electrodomésticos". Se isto fizer jurisprudência, bem podemos ir todos aos bordos para o respectivo trabalho para "esquecer as agruras da vida" e ser mais "produtivos". Aliás, se acreditam tão piamente no que decidiram, os doutos juízes da Relação deviam seguir o seu próprio acórdão, para se empenharem e ficarem mais produtivos, de forma a acelerar os procedimentos da justiça e tirá-la da sua eterna morosidade. É de perguntar se não teriam experimentado tal método alcoólico quando redigiram o acórdão. Não me espantava nada.

PS: para completar o ramalhete, ainda tivemos o caso de Américo Piçarreira, um assassino condenado a vinte nos de cadeia por matar uma mulher e os dois filhos menores num assalto (mas que beneficiou de uma redução de pena), que entretanto já tinha fugido outra vez e feito uma data de assaltos, e que agora fugiu de novo aproveitando uma precária, com ameaças de morte a quem o tentasse capturar. Felizmente apanharam-no antes que conseguisse fazer mais vítimas. Gostava de saber quem são as bondosas autoridades responsáveis pela liberdade temporária de um infanticida que mostrou por mais do que uma vez estar longe da redenção. A Justiça, para cumprir o seguimento escrupuloso da Lei, precisa antes de mais de bom senso. É por não o haver que acontecem casos aberrantes como estes (ao passo que um ladrão de galinhas tem muitas vezes menos sorte). Esqueceram-se disso nas aulas do CEJ ou não faz parte da formação?

sábado, agosto 03, 2013

Resumidamente, Rio partiu tudo


A entrevista que Rui Rio deu à RTP acabou por ser muito mais contundente do que eu esperava. Críticas implícitas ao governo e à candidatura de Menezes, apoiada pela clique mais aparelhista do partido, seriam expectáveis. Mas o que se ouviu foram torpedos directos ao alvo: Maria Luís Albuquerque, a quem Rio não reconheceu condições nem "capacidade" para o cargo que ocupa (pela história dos swaps, da SRU, e não só); o próprio PSD, que acusou de apoiar uma política municipal durante 12 anos e querer vir agora defender o contrário; e Menezes, evidentemente, que teme que vá "destuir tudo o que fizeram em 12 anos", deixar um problema gigantesco em Gaia e a quem acusou de lhe fazer oposição por tudo e por nada, mais que a própria oposição. Se dúvidas havia do que Rui rio pensava do PSD actual, e sobretudo de quem o seu partido quer pôr à frente da câmara do Porto, ficaram agora completamente desfeitas. Será difícil substituir a Ministra das Finanças quando só ocupou o cargo há um mês, mas ao menos que os eleitores do Porto tenham compreendido o que os espera caso o bipolar Menezes ganhe, por desgraça, as próximas autárquicas. E se alguém quisesse um resumo do que Rio disse na entrevista, bastaria duas palavras: partiu tudo.

terça-feira, julho 30, 2013

O Imperador e a rendição

 
 
 
Já deve estar a sair das salas de cinema, mas há que dizer que nesta época em que quase só se encontram blockbusters de super-heróis recauchutados, comédias requentadas e fitas animação (nada contra, excepto reincidirem em chamar Smurfs aos Estrumfes), o filme Imperador é um autêntico oásis.
 
Não faltam toneladas filmes sobre a Segunda Guerra Mundial. Do pós-guerra na Europa, esses anos tão duros de renascimento das cinzas,  encontram-se alguns clássicos como O Terceiro Homem, Ladrões de Bicicletas, ou mais recentes, como O Bom Alemão, de Soderbergh, por exemplo. Mas acerca do Japão, da sua rendição, as enormes mudanças políticas e militares, a reconstrução depois do pesadelo atómico sobre Hiroshima e Nagasaki, e o milagre económico que se seguiu, pouco há, a não ser Hiroshima meu Amor. É possível que haja outros, até na filmografia japonesa, mas desconheço por completo.
 
Em Imperador, o cenário de destruição e de humilhação pela derrota está sempre presente. Os americanos sentem-no, mas querem varrer por completo o espírito militarista japonês, sempre com Pearl Harbour na memória. Mas o que realmente se nota é a força das instituições e dos cerimoniais, e o carácter divino e inalcançável do Imperador Hirohito, que nunca se deixava ver, e muito menos recebia estrangeiros na sua presença. A sua voz tinha-se ouvido pela primeira vez na rádio, para enorme espanto e terror dos japoneses, anunciando a rendição - mas sem nunca usar essa palavra. Mas o Imperador mantinha-se longe da vista, no seu palácio. A enorme desafio das forças americanas, chefiadas pelo truculento Douglas McArthur (interpretado por Tommy Lee Jones), e obter dados que provem ou não que Hirohito teve responsabilidade na desencadear das hostilidades, nomeadamente nos ataques de Pearl Harbour, e se consequentemente deve enfrentar o Tribunal como criminoso de guerra, o que poderia levar à pena de morte (aplicada de resto a Hideki Tojo e outras altas figuras do regime militarista japonês). E nesse caso, a uma revolta generalizada dos nipónicos e a impossibilidade de reconstrução do país, unido em torno da figura do Imperador.
 
Como se sabe, as provas foram inconclusivas. O filme mostra isso mesmo, de forma competente. Pelo meio também aparece a costumeira história de amor, para dar um toque de "romantismo" e assim quebrar o ambiente cinza de destruição. Até hoje, não se sabe se Hirohito terá tido real interferência no desencadear da guerra. Mas teve com toda a certeza no advento da paz. Quando se decidiu pela rendição, e por anunciá-la aos nipónicos via rádio, enfrentou a ira dos ultras do regime, para quem render-se era impensável, e para quem a honra militar estava acima do próprio Imperador, contra quem desencadearam até um motim. Mas após a inaudita declaração radiofónica (note-se que ainda hoje é muito raro o Imperador falar aos japoneses, como aconteceu com os desastres de Fukushima), o Japão, completamente arrasado, teve de hastear a bandeira branca. Hirohito aceitou as condições que lhe ofereciam, e até quebrou todos os protocolos ao aceitar encontrar-se com McArthur, apertar-lhe a mão, deixar-se fotografar ao seu lado e declarar-se único responsável pela guerra, se tal servisse para ilibar o seu povo. O general americano, sabiamente, poupou-o a qualquer julgamento, mas com a Constituição imposta pelos americanos, o Imperador passou a ser um monarca constitucional e não já uma figura divinizada e quase imaterial. Ainda assim, manteve-se no trono do Crisântemo até à sua morte, em 1989. Pôde assistir ao completo renascimento do seu país e à sua ascensão como uma das mais fortes economias globais. Apesar das dúvidas que se mantêm sobre o seu real responsabilidade na guerra e nos crimes cometidos pelo Império, a sua decisiva intervenção na rendição e na derrota dos mais fanáticos militaristas permitiu salvar o Japão de desgraças ainda maiores. E indubitavelmente, ao humilhar-se perante o inimigo e aos aceder à perda do estatuto de que gozava até aí, também a ele se ficaram a dever as décadas de ouro que os japoneses viveram depois da guerra que desencadearam e que quase os aniquilou.
 
 

sexta-feira, julho 26, 2013

Santiago manchado


A tragédia aqui ao lado, em Santiago, impressiona não só pela proximidade e pelos números brutais (já iam em oitenta mortos, e ainda há vários feridos graves), mas também pelas aparentes causas do acidente - a passagem numa curva a mais do dobro da velocidade aconselhada, o que parece demonstrar que podia perfeitamente ser evitado. Mas impressiona também por acontecer logo na véspera do dia de Santiago, o dia nacional da Galiza. E u próprio estive para ir a um evento ligado ao Caminho Português de Santiago, propositadamente marcado para hoje. Um desastre destes é sempre atroz, mas não consigo imaginar época pior para acontecer. Durante os próximos anos, este dia, por norma de alegria e comemoração, e de grande afluência de peregrinos nos anos de Xacobeo (quando o dia 25 calha num Domingo), vai certamente empalidecer.
 


(Na foto acima, evocação de Santiago Matamouros, frontaria da Igreja de Santiago, Tavira).