terça-feira, fevereiro 04, 2014

Philip Seymour Hoffman


Uma pessoa está uns dias afastada do Mundo, a orare e laborare, afastado das notícias, da azáfama citadina, da vida mundana e das suas mesquinhices, e quando regressa e abre o computador, depara-se com isto. Simplesmente o desaparecimento de um actor de que bem se podia dizer que era "o melhor da sua geração" (no cinema americano, em todo o caso).

 Das pequenas participações em filmes dos irmãos Cohen e Minghella ao retrato afectado de Truman Capote, que lhe valeu um Óscar de Melhor Actor, dos filmes de Paul Thomas Andersson (e não consegui ver The Master...), de quem era uma espécie de actor-fetiche, a retratos hilariantemente realistas, como o agente da CIA de Charlie Wilson´s War, e de tantos outros, mais obscuros, é difícil escolher a sua melhor interpretação. Já há muito que tinha ultrapassado (e confirmado) o estatuto de simples "promessa", mas certamente esperávamos que ainda tivesse muito para dar à Sétima Arte. Certo é que nunca se negou a interpretar os papéis mais difíceis e arriscados, que qualquer filme em que entrasse era sinónimo de dinheiro bem gasto no bilhete, e que será daqueles actores que continuarão a ser recordados daqui a cinquenta anos - desde que ainda haja cinema.


sexta-feira, janeiro 31, 2014

Praxes, causas e consequências


De repente, toda a gente fala em praxes, práticas académicas, toda a gente discute se são "tradições" ou "barbárie", se devem ser preservadas, proibidas ou modificadas. A discussão já tem décadas (séculos, até), mas anda sempre em círculo, sem se chegar a acordo possível. Desta vez surgiu a propósito dos estudantes arrastados por uma onda na praia do Meco. A tragédia aconteceu dias antes do Natal, gerou o choque normal durante uns dias, e depois pouco se falou. Quando li a notícia pensei que fosse uma embriaguez estudantil académica nocturna, não necessariamente uma praxe, que os tinha levado à praia numa noite de Inverno em que havia avisos pelo estado do mar, e que por causa de uma terrível irresponsabilidade, tinham pago com a vida. Parece agora que houve mais qualquer coisa.


Nem eu nem ninguém, excepto o sobrevivente, sabe o que realmente se passou, e se a causa da tragédia se deve a um qualquer ritual obscuro praxístico. Mas a violência do acontecimento, autêntica história trágico-marítima, e as reacções exacerbadas que daí resultaram, leva a que as pessoas procurem uma causa e um culpado. Lá voltou a praxe às conversas dos dias que passam, e os diferentes pontos de vista, quantas vezes exacerbados.

As opiniões sobre esta matéria dependem, naturalmente, da experiência de cada uma, e, de quem não a tendo, do que vê e ouve. No meu caso não tenho muito a dizer. A praxe que "sofria" na UCP do Porto, nos anos noventa, intimidava no primeiro dia porque não se sabia ao que se ia. A partir daí, era mais uma brincadeira que outra coisa. Sim, também tivemos praxes na praia, que aliás era muito perto, mas nada de rituais nocturnos junto à rebentação: eram sobretudo construções na areia, no tempo soalheiro de Outubro. Mesmo o "tribunal" era uma audiência de cenário tétrico, de janelas fechadas e decorado com capas negras, iluminado com velas, onde os caloiros faziam o possível para não rir. Pelo meio, uns jantares, uns copos, o "baptismo" no chafariz do Passeio Alegre, e depois parava tudo, até à Queima. Numa situação, foram mesmo os "veteranos" a sanar um problema em que um professor se tinha recusado a dar uma aula por mau comportamento dos alunos (todos acabados de entrar na faculdade).Claro que havia quem não gostasse, e um caso ou outro de uma caloira que desatava a chorar. Imediatamente os responsáveis tinham uma conversa com ela, tratando-a como uma amiga, até que as coisas se compunham. E pelo meio havia também um ou outro trajado que, inseguro da sua autoridade natural, falava mais aos berros, ou revelava uma notável tendência para a parvoíce ou boçalidade.


Também por isso espanto-me a ver, todo o santo ano, grupos de caloiros com as respectivas "cores" e
roupagens de praxe, guiados pelos respectivos "doutores", a desfilar pelas ruas com os seus cânticos de guerra. Que eu me lembre, estas coisas aconteciam em outubro. Mas em Janeiro e Fevereiro, em épocas de exames? Ou antes do Verão, quando supostamente já nem há caloiros? Quem é que se lembra de tamanha excentricidade? Ou as alturas de estudo mudaram, ou as praxes tornaram-se uma forma de vida do quotidiano.

Talvez seja por esta explosão praxística, esta overdose de "tradição", originada obviamente pelo boom de universidades privadas, como a Lusófona, que só é notícia pelas piores razões, como agora, que se discute com mais virulência as praxes e as formas de a controlarem. Talvez fosse melhor olhar antes de mais para essa causa, a da multiplicação de cursos e cursilhos nem sempre muito exigentes, para ser bondoso. É que a sofreguidão em se possuir um "canudo", ser-se tratado por "doutor" e poder-se dizer que se andou na faculdade, que afecta boa parte da classe política, e que tanta mediatização tem atraído, também se reflecte nos morcegos de traje, os tais "doutores" académicos. Se o universo de politécnicos, institutos e universidades de vão de escada é tão pouco regulado em Portugal, porque não haveria de o ser igualmente as suas extracções, cópias de verdadeiras tradições que havia em academias e universidades mais antigas? Se acham que as praxes estão fora de controlo, mexa-se antes nas instituições que estão na sua origem. e talvez se faça alguma coisa. Proibir pura e simplesmente, como quer fazer o Bloco (só podia), com o argumento do "fascismo", é pura retórica supostamente anti-populista. As praxes devem continuar, porque têm realmente um efeito integrador, para quem o deseje. Se houver abusos, os seus responsáveis devem prestar contas entre eles ou perante os corpos da faculdade respectiva, ou na pior das hipóteses, nas instâncias criminais. Mas antes, vejam onde é que elas se produzem, e se o ambiente académico e pedagógico respectivo não é de mera compra e venda de cursos, sem muito mais exigências.


sábado, janeiro 25, 2014

Liaisons dangereuses ou nem tanto?



As escapadelas de Monsieur Hollande, esse "presidente normal", deixaram a França meio a rir, meio admirada de ver um tipo com o carisma de um cágado e aparência do perfeito manga de alpaca com um currículo feminino de respeito. Dadas as tradições de casos amorosos dos chefes de estado do hexágono, dos luíses aos presidentes da V República, passando por Bonaparte, os franceses não terão certamente estranhado, bem pelo contrário, e Hollande não terá perdido qualquer voto com as suas aventuras. Aliás, dado esse historial só reforçam o seu estatuto de "presidente normal".

Muito embora o adultério seja um traço deplorável em relação à pessoa com quem supostamente se quer partilhar a vida, a verdade é que, casos extremos à parte, não mancham qualquer actuação do incumbente de um político. Sórdidas novelas como a que vimos à volta de Bill Clinton, e que tivemos a desonra de assistir em finais dos anos noventa naquela terra puritana a que chamamos vulgarmente Estados Unidos, não têm grande audiência deste lado do Atlântico, felizmente. E para ser franco e descer um pouco à conversa de comadre, não sinto pena algum pela actual "primeira dama" do Eliseu, a frondeuse Valérie Trierweiler. Além de possuir um ar muito pouco simpático, é bom recordar que também ela se tinha envolvido com Hollande quando ele ainda se encontrava com Segoléne Royal (aliás muito mais interessante), e que aliás já este ano influenciou a sua derrota no círculo eleitoral para a qual era candidata ao parlamento.

Dito isto, há alguns pormenores que não são exactamente da "estrita vida privada" dos estadistas: por exemplo, os achaques de Madame Trierweiler, que gasta uns bons milhares de euros por mês aos fundos estatais, o mau ambiente que isso possa trazer ao Eliseu. mas sobretudo, as questões de segurança do próprio Hollande. Claro que é cómico vermos a personagem fugindo à socapa do apartamento de Gayet (que a propósito, já não é exactamente uma "jovem", e sim uma quarentona) naquela moa-triciclo, com o capacete a mostra-lhe os olhos assustados. Mas e se alguém menos recomendável - um jihadista, por exemplo, aborrecido com a intervenção no Mali -  soubesse quem ia ali? E depois, há ainda a questão do apartamento, ao que parece propriedade de uma amiga da actriz, com relações obscuras com mafiosos corsos. É bom lembrar que a profissão de espião é das mais antigas da humanidade. E que a alcova é das mais clássicas (e eficazes) maneiras de se sacar segredos de relevo, influenciar-se augustas figuras, e assim se moldar o curso da História.


PS: claro que se o normal monsieur Hollande escapar disso, das críticas de todos os socialistas da Europa já não escapa, depois da incrível inversão do programa económico para os próximos anos, ultrapassando Sarkozy pela direita. e pensar que era a "esperança" da esquerda há menos de dois anos. Mas Miterrand teve uma actuação muito semelhante.

quarta-feira, janeiro 22, 2014

O tacticismo de Marcelo



Duvido muito que Marcelo Rebelo de Sousa, ao contrário do que disse na sua crónica semanal televisiva, tenha desistido da candidatura presidencial. Já há anos que alimenta esse objectivo e sabe que tem popularidade e notoriedade para o conseguir. Mas bom tacticista como é, preferiu revelar a ideia aos telespectadores para obter reacções de desagravo do PSD (Passos coelho já veio apressadamente desmentir) e o apoio por parte do público, que de outra forma nem ligaria à moção do actual PM. E é verdade que esta impressiona pela sua tonteria e credulidade de que irá fatalmente ganhar as eleições de 2015 e impor o seu candidato presidencial, para além da arrogância em fazer crer que bom, bom, é um presidente imóvel e meramente institucional. Se é para isso, mais vale fazer como na Alemanha ou em Itália e pôr o parlamente a votar num "venerando senador". Poupava-se dinheiro e seria menos um argumento a favor da república. Mas Marcelo sabe que as divisões no PSD, a impopularidade do governo e as duvidosas hipóteses de Durão e Santana jogam a seu favor. Até porque se o aparelho laranja o afastar explicitamente em favor de outro, pode sempre recorrer a um exemplo vitorioso e fresco na memória: Rui Moreira.

quinta-feira, janeiro 16, 2014

Dez anos





E assim chegámos aos dez anos de A Ágora. Sim, este espaço que estão a ler completa hoje dez anos de idade. Uma década, desde aquela madrugada em Janeiro de 2004, em que decidi que nome haveria de dar ao blogue e em que escrevi as primeiras linhas, antes da surpresa de me ver publicado online.

Não é preciso lembrar que raríssimos blogues chegam a esta idade. Da primeira leva, de 2003, quase não deve haver nenhum activo. Da segunda, de 2004, ao qual este pertence por longevidade própria, tão pouco. Claro que na altura jamais pensaria em manter-me tanto tempo no mesmo formato. Cheguei a pensar em convidar mais pessoas para o blogue, em mudar o formato da página, o subtítulo que mostra aos leitores incautos ao que vêm, coisas que acabaram por nunca acontecer. Hoje escrevo estas linhas no mesmíssimo quarto e que o iniciei. O blogue continua a reflectir o mundo do seu escriba, faça ou não parte da actualidade mediática, diga muito ou pouco a quem se depara, nas inúmeras ligações que quotidianamente faz por acaso, pela primeira vez com esta página. Algumas ideias mudaram, o estilo terá sofrido mudanças imperceptíveis, a técnica e os instrumentos à disposição deram nova arrumação aos escritos, e hoje olho para alguns textos que me parecem mais pueris de forma benevolente. Julgo que isso deve acontecer em qualquer pessoa que encontre coisas por si escritas com uma década, sobretudo se se tratar de um projecto no início.

Este caminho solitário, em que é obrigatório alimentar o "bicho" amiúde, ou perdemos imediatamente auditório, nem sempre é fácil. E é bem provável que um dia destes tire umas férias - só e apenas isso. Mas por enquanto, e porque ainda me sobra paciência e tenho algumas coisas que me saltam à vista para escrever, este blogue manter-se-à activo. Quando achar que nada mais tenho para dizer, que não faz sentido ou que se tornou numa obrigação pesada, então encerrarei a sua publicação. Mas não por agora. O que não significa que não possa haver algumas mudanças, ao layout e à apresentação, por exemplo. O nome, esse, garanto, é que nunca irá mudar. 

O caso que faltava para animar o congresso



O curto faits divers dos delegados do CDS do Algarve num restaurante de leitões era a pincelada que faltava para colorir um congresso bocejante, em que quase nada mudou no partido, e que só serviu para a oposição a Portas ganhar mais uns elementos nos órgãos nacionais e Nobre Guedes (caramba, envelheceu como tudo!) fazer o papel de António Costa dos conservadores. Ou seja, uma ou duas coisas mudaram para que tudo ficasse na mesma. Ao menos reuniram-se numa zona fora dos grandes centros urbanos e levaram alguma animação à Bairrada. Mas como quase não há congresso do CDS em que não se assista a casos rocambolescos (do café de Manuel Monteiro ao "eu sei que você sabe que eu sei" de Nogueira Pinto, passando pelas sessões de pugilato protagonizadas por Ferreira Torres e outras facécias), o micro-caso dos leitões apareceu na altura certa. E com evidentes vantagens: deu para saber mais nomes de restaurantes da especialidade, quais os melhores, testemunhos de apreciadores, etc.

O líder, esse, permanece inamovível, ainda que não incontestável, mesmo que os seus mais directos seguidores demonstrem apoio até ao fim.


                                                   (tirado do Corta-Fitas)

quarta-feira, janeiro 15, 2014

Uma semana desportiva proveitosa


Depois da morte física de Eusébio, a semana futebolística tem sido fabulosa. Como se o espírito do Pantera Negra se tivesse apoderado dos seus directos sucessores (o Benfica e o seu legítimo representante como melhor jogador da actualidade) e os tivesse guiado aos respectivos triunfos.

Apesar de saber que os jogadores teriam motivação extra, temia que não fosse suficiente o que acusassem a pressão. Ou algum golpe de menos fortuna, como no ano passado. Mais do que um jogo importante para o campeonato, a tentativa de chegar à liderança, um confronto com o grande adversário dos últimos anos ou mesmo a superação de fantasmas recentes, era a própria honra, mais, era a sobrevivência moral do Benfica que estava em jogo. A homenagem a Eusébio, nos dias a seguir à sua morte, exigia o maior esforço possível.

E os jogadores cumpriram, justiça lhes seja feita. Não com um jogo de uma qualidade extrema ou com a famosa "nota artística", mas com raça, entrega, vontade. Rodrigo, ao marcar aquele primeiro golo de raiva, era a perfeita imagem disso. E com isso desconcertou o Poro, que baixou os braços e pouco ameaçou. O golo de Garay só confirmou a justíssima vitória (que podia ser maior se Rodrigo tivesse sido um pouco mais certeiro), depois do que o Benfica descansou um pouco e o Porto mostrou uns fogachos insuficientes por Quaresma. o árbitro resolveu fazer-se notar, negando um penalty para cada parte e expulsando o jogador errado (expulsou Danilo, deveria ser Jackson) O Benfica não ameaçou mais, mas havia que gerir emoções, e sem Cardozo e Salvio o poder de fogo também era menor. Ficou a vitória natural, o melhor tributo ao Pantera.

Mas ainda antes tínhamos assistido a uma das mais belas coreografias de estádio que provavelmente já se viram em Portugal (podem ver aqui mais em pormenor), a um minuto de silêncio escrupulosamente respeitado, excepto pela meia-dúzia de anti-sociais que aparece sempre, e a uma homenagem singular dos jogadores do Benfica, envergando todos uma camisola com o nome Eusébio. Não era inocente: o peso da camisola e a responsabilidade de a honrar fariam, como fizeram, o seu papel no jogo.

O Benfica guindou-se assim para a liderança isolada do campeonato, recebendo o galardão simbólico de "campeão de Inverno". Insisto no simbólico. Porque com a saída de Nemanja Matic, o esteio do meio-campo e da equipa, o jogador cuja ausência mais se nota, e sem substitutos à altura, será muito complicado manter o nível. Se fosse no Verão, entre épocas, a situação seria ultrapassável. Não agora, a meio. 
Mas de qualquer forma, mesmo que o Benfica nada ganhe (e longe vá o Agouro, que o ano passado já bastou), pelo menos ganhou este simbolicíssimo jogo e defendeu a honra da casa. Isso já ninguém lhe tira.

E logo no dia seguinte, claro, a semi-esperada vitória de Cristiano Ronaldo na Bola de Ouro da FIFA, consagrando-o como melhor jogador de 2013. Até ao anúncio oficial, pela voz de Pélé, ainda estava algo apreensivo com a hipótese de ganhar Messi. Felizmente, ganhou aquele que mais lutou pelo galardão (e que teve alguma sorte, convenhamos, com os disparates de Joseph Blatter). O argentino já parecia um vencedor administrativo, "porque sim", mudando todos os anos os critérios e os pretextos para que ele vencesse. Já Ribery estava lá como representante do Bayern de Munique, vencedor em todas as frentes, uma raciocínio um pouco absurdo dado que se tratava de um prémio individual e não de uma equipa (e para isso talvez Lham ou Robben). E como disse Pélé, quando o português não aguentou a emoção e se desmanchou em lágrimas, "Deus ajuda a quem merece". Mereceu.

Uma nota: o Benfica estava particularmente bem representado na Gala da FIFA. Para além da homenagm a Eusébio ainda tivemos lá Matic, ainda nosso jogador, candidato ao melhor golo de 2013, precisamente um ano atrás (ficou em segundo, mas o golo vencedor, de Ibrahimovic, era mesmo imbatível, mesmo que na realidade datasse de 2012). E o troféu de melhor treinador coube, sem surpresas, a Jupp Heinckes, antigo técnico do Benfica, que depois da humilhação de Vigo e de despedir João Vieira Pinto saiu sem glória para dar lugar a José Mourinho, curiosamente numa das piores épocas de sempre do Benfica.


segunda-feira, janeiro 13, 2014

Ah, o Mar, sempre tão encantador



Até aos 3 anos, andei no centro social infantil neste mesmo local (fica à direita da foto). Pergunto-me que imagem de infância guardaria se tivesse visto ondas deste calibre, como as que assolaram a Foz na semana passada, com um cenário de que ninguém se lembrava. Os actuais "utentes" tiveram de ser levados dali para fora, tal como os velhinhos do centro de dia ao lado. Já agora: tantos mirones apesar do perigo óbvio e previsto? Felizmente tudo não passou de uma molha, alguns riscos nos carros e um grande susto, porque se tivesse acontecido alguma tragédia falava-se logo em "azar" ou em "ondas que apareceram não se sabe de onde" (como ainda há uns tempos ouvi, a propósito de um naufrágio junto à costa). E apesar do reboliço, alguns imprudentes ou fotógrafos temerários não deixaram de fazer a sua incursãozinha para lá das fitas de protecção. As vagas dessa segunda feira de Reis, de Norte a Sul do país, não deixarão certamente de ser recordadas durante anos. Espera-se é que tenham ensinado alguma coisa.



quinta-feira, janeiro 09, 2014

A importância de Eusébio



A despedida do Pantera Negra foi comovente, grandiosa e superlativa, como era justo que fosse. Portugal despediu-se de um dos seus representantes mais notáveis, e certamente o mais conhecido no último século. Em Dia de Reis, como convinha ao "King". Sob a chuva, para reforçar ainda mais as lágrimas. E no meio de toda a emoção, não faltaram os exageros, como propor que o seu nome fosse dado ao Estádio da Luz (coisa que o próprio nunca quis), ou sugestões óbvias, como a sua futura transladação para o Panteão Nacional, coisa absolutamente previsível, já que todos os partidos políticos suportam a ideia sem objecções.

Igualmente previsíveis foram algumas críticas à futura transladação. Desde argumentos clubistas mal disfarçados, até à habitual pedantice a armar ao intelectual despeitado porque seria "um escândalo" que "um futebolista" fosse colocado na mesma situação que essas eminentes figuras que tanto deram à Pátria, como Teófilo Braga, Óscar Carmona ou João de Deus. A deposição dos restos mortais do Pantera Negra é para mim um acto da mais elementar justiça e gratidão. Um homem que é simplesmente o português mais conhecido fora de Portugal dos últimos cem anos, sem internet, Youtubes e smart phones, que numa altura em que o país era notícia por razões obscuras, como a guerra, ou pura e simplesmente ignorado, milhões de pessoas por esse Mundo fora souberam o que era Portugal graças a ele, por boas razões. O primeiro grande futebolista africano (talvez o maior até agora) causou alguma estranheza no mundial de 1966, em Inglaterra, pelo exotismo de um negro jogar numa equipa europeia (além dele ainda havia outros, como o próprio capitão da equipa, Coluna). Para mais, sagrou-se como o melhor goleador e impressionou as assistências. Por causa dele, havia mini-tréguas na guerra colonial. E por ele, agora, inúmeras capas de jornais internacionais colocaram a notícia da sua morte na primeira página, imensos noticiários por todo o Mundo deram a triste notícia, incontáveis figuras do desporto, e não só, sentiram-se na obrigação de dar uma palavra em honra do rapaz da Mafalala. E sobretudo impressionou a reverência feita pelo Manchester United e pelo Real Madrid, que fizeram um minuto de silêncio antes dos respectivos jogos e puseram a bandeira portuguesa a meia-haste. Reparem que estamos a falar dos dois clubes mais titulados de Espanha e Inglaterra, o país vizinho que durante séculos nos tentou anexar e o velho "aliado" que sempre se aproveitou das nossas debilidades quando lhe convinha. Ou seja, dois países que sempre não raras vezes desprezaram (e muitas vezes ainda desprezam) Portugal, que tanto ameaçaram o nosso povo, inclinaram-se e aplaudiram respeitosamente um português africano. Se este homem não merece as honras do Panteão, então que desapareça o Panteão, porque não tem qualquer serventia e não passará de um mono ridículo.

domingo, janeiro 05, 2014

Eusébio da Silva Ferreira 1942 - 2014

 
O Pantera deixou-nos. Definitivamente. Confesso que era uma notícia que temia quando se anunciava novo internamento do King. E fatalmente, teria de chegar. Agora, a pouco tempo de completar 72 anos, (curiosamente seria no dia em que passariam dez anos sobre a morte em campo de Miklos Feher).Causa muita estranheza e impressão ver o símbolo maior do nosso futebol deixar-nos, um homem que, apesar de nunca ter visto jogar, fazia parte do meu imaginário e de que sempre tinha ouvido falar. A lenda tornou-se um pouco mais terrena nos únicos segundos em que o vi, no corrupio daquele aeroporto alemão em dias de grande competição da bola, e em que fui cumprimentar o Pantera, que de repente ali estava à minha frente.
 
A notícia que acordou os portugueses neste triste Domingo deixou a maior parte chocada. Se ainda há alguém que não percebeu a importância de Eusébio, passo a explicar. Não era um mero jogador muito talentoso e um pouco ingénuo que ganhava títulos: era o português mais conhecido em todo um mundo, num tempo sem internet nem telemóveis, o homem que pôs o futebol português no mapa, o primeiro grande ídolo africano, quando moçambique era um colónia e a maioria dos novos estados de África um conjunto de propriedades de sobas que tinham estudado na Europa. Era um português africano que encantou o Mundo e pôs a Inglaterra de 1966, em plena ascensão dos Beatles, boquiaberta de espanto. Era o homem de quem, quando se falava em qualquer ponto do globo, criava um imediato sentimento de simpatia respeitosa para com Portugal. Era, enfim, alguém capaz de calar as armas da guerra colonial nas picadas de África com os seus golos, e que nunca, mas nunca, se queixou dos seu países, o de nascimento e o de sempre. Por tudo isso, o Benfica, e já nem falo dos países mencionados, devia colocar a bandeira a meia-haste durante todo o ano e os seus jogadores pensare nele antes de entrar em cada relvado.
 
Eusébio, o Pantera Negra, o português mais conhecido e admirado do século XX (que me perdoe Amália), era um mito e agora tornou-se definitivamente numa Lenda que nunca será esquecida. Que Deus o guarde pelo muito que nos deu.

 

sábado, janeiro 04, 2014

Recomeço

 
E ao quarto dia do novo ano, décimo primeiro deste espaço, A Ágora reentra em actividade. Com pouco para dizer, note-se. recomeça vagarosamente, ao contrário do clima. Tal como os britânicos, poderíamos começar por falar no tempo, que, depois de uma trégua na noite de ano novo, piorou ainda mais em relação ao Natal, com cataratas a caírem dos céus, ventos arrasadores, granizo com amostras do tamanho de ovos de pomba, raios e coriscos nos céus, vagalhões a assolarem a costa, rios a visitar terreno por norma (mas nem sempre por costume) enxuto e neves abaixo do alto das serras. Para início, estamos bem servidos. E ainda o Inverno está longe do termo. Ah, e temos também um imposto acrescido e com outro nome sobre os reformados. o aumento das receitas fiscais acima das expectativas não devia servir para alguma coisa?

terça-feira, dezembro 31, 2013

O costume do dia de hoje

 
Ah, 2013. Tinha ainda tantos posts para escrever, mas infelizmente a voragem inexorável do tempo vai-me obrigar a deixá-los para o ano que vem (i.e. os próximos dias). E já que a pressão social nos obriga aos desejos, às resoluções para o novo ano, às retrospectivas com "os acontecimentos" e as "figuras" do que passou, à festa na noite de hoje, etc, desejo apenas o trivial: saúde paz, amor e convívio. Para mim, apesar de ter tido alguns momentos curiosos, 2013 desiludiu em vários capítulos. Por isso, e perdoem-me o egoísmo, espero que 2014 me surpreenda pela positiva, que já vai sendo tempo. Ah, e não esquecer que em 2014 A Ágora completará 10 anos de existência. Não é para todos os blogues, perdoem-me a imodéstia.

Um feliz 2014 para todos os leitores.

segunda-feira, dezembro 30, 2013

Albino Aroso 1923-2013


De Albino Aroso, justamente apelidado de "pai do planeamento familiar", só tenho uma discordância mais profunda quanto à questão da liberalização do aborto a pedido. De resto, o médico e professor portuense agora desaparecido aos noventa anos não o terá feito sem grandes lutas de consciência, e de qualquer maneira, poucos ou nenhuns, como ele, terão evitado tanto a mortalidade infantil reduzindo-a em Portugal a níveis que fazem inveja a todos os demais (e quanto algum estrangeiro lhes disser que Portugal é um país de "terceiro-mundo", lancem-lhe essa à cara). O seu modelo de planeamento familiar, construído com base em discussões e acordos, e nunca por imposição, permitiu isso e muito mais, melhorando consideravelmente as condições de maternidade e a saúde infantil, mesmo que para isso tivesse por vezes adoptado atitudes polémicas, a que o tempo daria razão, ou batido com a porta quando entendeu ser necessário. E é da mais elementar justiça que ao novo Centro Materno Infantil do Norte, quase a abrir, seja atribuído o seu nome.
 
 

quinta-feira, dezembro 26, 2013

O Madeiro entre os ventos


O tradicional Madeiro da véspera de Natal, em frente à Sé da Guarda, ficou cancelado por causa do temporal de vento e chuva que se fazia sentir na cidade dos três Efes (e em quase todo o país). Mas alguém desobedeceu ou ignorou o cancelamento, porque na manhã do dia de Natal, o Madeiro estava em brasa, apesar do vento diabólico e rodopiante que dominava o terreiro.
 


 
 

segunda-feira, dezembro 23, 2013

Natal no interior


Do frio que assola Beira interior, semi-protegido pelos montes que rodeiam o vale do Mondego, vos desejo a todos um santo e feliz Natal!

domingo, dezembro 22, 2013

Seta para cima para Rajoy


O Público de Sábado passado coloca Mariano Rajoy, o Presidente do Governo espanhol, com uma seta para baixo por causa da alteração à lei do aborto espanhola, considerando que é um "retrocesso", "uma vingança da direita espanhola em relação aos passos dados na era Zapatero", "e uma visão moralista e arcaica". Pois eu acho que desta vez Rajoy, que navega entre a incapacidade de fazer frente aos problemas sociais que afectam Espanha, como o desemprego, e a embaraçosa história do caso Barcenas e dos dinheiros distribuídos pelos dirigentes do PP, merecia uma seta bem para cima. Além de cumprir uma promessa dada nas legislativas de 2011, consegue reverter uma lei aberrante, que entre outras coisas permitia que raparigas com mais de 16 anos pudessem abortar sem autorização parental. É um retrocesso? Com certeza, e quando se caminha para o lado errado há que saber retroceder. Vingança contra Zapatero? Não seria o ex-governante do PSOE , que continuamente levantou tensões na sociedade espanhola, que recorria a provocações? Quanto à visão "moralista e arcaica", prefiro-a mil vezes à visão "amoral e progressista" que supostamente o Público tem. Os jornais não devem ser neutros, mas uma coluna não assinada soltar atoardas deste gênero mostra bem que há por aí quem não perceba que há quem seja contra o aborto, o considere uma prática degradante e banalizada, e a sua liberalização pura e simples um atentado contra a vida humana. digna dos tempos dos referendos, em que esse jornal, sem pudor, se dizia neutro ao mesmo tempo que fazia uma campanha descarada a favor da liberalização. numa altura em que há tantos contraceptivos e instituições que tratam de crianças, a insistência no aborto, para além de profundamente obsceno é que parece ser arcaica. Já agora, dizer que "ninguém é a favor do aborto" é uma perfeita mentira: não faltam pessoas a dizer-se "a favor do aborto", sem hesitações, nem desvairadas, como as Femen, que se manifestam de seios ao léu reclamando "o sagrado direito de abortar". A nova lei, que pelo que li parece-me nalguns casos bastante permissiva, é pelo menos uma lufada de ar fresco no ambiente "pró-aborto" que se vive na Europa e que mostra claramente não um "avanço civilizacional", mas uma degradante decadência de valores. Esperemos que esta atitude seja copiada no futuro, a começar por Portugal (coisa que só poderia acontecer em novo referendo).

quarta-feira, dezembro 18, 2013

As personagens reais que inspiraram Hugo Pratt


Mais de dois anos depois do fim oficial da guerra civil na Líbia, que começou com o levantamento da população de Bengazi, em Fevereiro de 2011, da morte do até aí todo-poderoso Muammar Kadhafi e da desintegração do regime "verde", o país permanece num caos, dividido entre milícias várias e grupos de jihadistas que não hesitam em atacar embaixadas e raptar membros do frágil governo vigente. É difícil adivinhar o futuro para esta imensa extensão de areia com uma costa habitável, dividida em três regiões naturais sobre enormes jazidas de petróleo.
 
Mas em tempos da 2ª grande Guerra, quando aquele território estava sob o domínio da Itália de Mussolini, houve alguém que se atreveu a "profetizar" o futuro daquela região. Escrevo entre aspas porque a "profecia", na realidade, datava do pós-guerra, e o "áugure" era o desenhador Hugo Pratt, criador do célebre Corto Maltese.
 
Numa outra série que assinou, Os Escorpiões do Deserto, Pratt narra as peripécias de um oficial polaco pouco ortodoxo, Koinsky, e a sua luta para minar as forças do Eixo no norte de África. A sua equipa, os tais Escorpiões que davam nome à série, era um grupo heterogéneo que juntava agentes sionistas judias, espiões gregos e beduínos da Cirenaica. 
É exactamente nesta região da actual Líbia que se dá um dos primeiros episódios, Nada a assinalar em Djaraboub. A cidade do título é um afrancesamento da al-Jaghbūb árabe, ou da Giarabub italiana (que inspirou mesmo um filme glorificando a presença dos transalpinos naquelas paragens), que se situa num oásis em pleno deserto líbio, e que era, e o álbum de Pratt refere isso mesmo, a cidade santa dos senússios, uma ordem muçulmana com ligações ao sufismo e que daria origem à dinastia dos Al Senussi, que reinou na Líbia até ao golpe de estado de Kadhafi, em 1969.
 
A propósito, no álbum, o líder espiritual dos senússios, Omar el Muchtar, que se revelará bem diferente do que parecia, tem o nome "emprestado" de Omar al Mukhtar, principal resistente líbio ao domínio italiano, que acabaria executado por estes, e cuja fotografia Kadhafi exibiu, colada ao uniforme, numa visita a Itália, para o recordar aos antigos algozes. Mas se repararmos bem, a personagem do livro lembra antes o verdadeiro líder da Ordem de Senussi à época, que se tornaria no Rei Idris, o primeiro soberano da Líbia unida, e também o último, porque seria destronado por um golpe de estado em 1969. Ou seja, Pratt resolveu fundir o resistente mártir e o líder espiritual e temporal, sem a menor sombra de dúvida, para criar uma personagem com fundamento que se visse.
                                                       Na foto de baixo, o Rei Idris da Líbia.
Mas o mais interessante é a personagem de Hassan el-Muchtar, de quem Pratt nos diz, na apresentação da personagem, o seguinte: "Hassan - sobrinho de Omar el-Muchtar, chefe espiritual da Senússia. Este beduíno representa para o seu povo a continuação da revolução dos senússios (Líbia)....Não se atreve a ser revolucionário, provavelmente por causa da sua formação. Mas Pratt garante-nos que o encontraremos mais arde, desemenhando um papel político mais vincado, no quadro da ideologia do seu país."
 
Hassan é um rebelde ambicioso mas precipitado, mais interessado no poder do que nos ensinamentos do Corão. Mas a menção de Pratt, a tal "profecia" do papel político mais vincado é curiosa. Em que grau se dará essa relevância política?
 
Olhando bem para a imagem, parece-me que adivinho: sim, isso mesmo, Hassan el-Muchtar não é outro senão...Muammar Kadhafi. O seu papel político será indubitavelmente vincado, mas a ideologia do país mudaria radicalmente para um regime de culto pessoal, misto de pan-arabismo, socialismo e islamismo. E a certeza confirma-se ao saber que os Escorpiões do Deserto tiveram a sua primeira edição em 1969, precisamente o ano da subida ao poder do então jovem coronel. Hugo Pratt daria portanto ao novel ditador honras de personagem numa das suas obras.

Não sei se seria uma demonstração de simpatia por Kadhafi e o novo regime, e de antipatia pelo velho rei Idris, cuja "inspiração" não fica bem na fotografia, ou neste caso, nos quadradinhos do álbum. O autor italiano era um rebelde, à boa maneira das suas personagens, e um iconoclasta, muito embora fosse simpatizante de ordens maçónicas. Certo é que que tanto Al Mukhtar, como Idris e Kadhafi passaram à história, e a eles sucedeu uma posição caótica cujo fim ninguém pode prever. Se fosse vivo, será que o desenhador italiano alteraria alguma coisa nos Escorpiões do Deserto? E a quem  - ou a que grupo, entre liberais, monárquicos, islamitas e "verdes" saudosistas de Kadhafi - atribuiria um futuro "papel político mais vincado"?
 

segunda-feira, dezembro 16, 2013

Peter O´Toole 1932 - 2013

 
 
 
Lawrence da Arábia morreu pela segunda vez (um jornal diário roubou-me a graça). Mas agora, a valer. É que Peter O´Toole conseguiu ser mais Lawrence da Arábia do que o próprio T.E. Lawrence. Mas embora só esse filme, que conseguiu tornar o deserto no outro grande protagonista, fosse suficiente para o elevar à condição de mito vivo do cinema, "El Aurens" teve uma carreira de respeito, na qual recebeu de Hollywood sete nomeações ao Óscar de Melhor Actor, mas não conseguiu ganhar nenhum, excepto um Óscar honorário. E talvez essa eterna negação tenha igualmente contribuído para fazer dele um autêntico mito. Este Dezembro começa a ser um mês de desaparecimento de lendas vivas...

domingo, dezembro 15, 2013

As tristes figuras de uma estrela ressabiada

 
Edite Estrela sempre me pareceu uma pessoa de uma arroganciazinha irritante, num tom de pedagoga que não admite réplica. Agora confirmou isso tudo e ainda conseguiu ir mais além.
 
A votação desta semana no Parlamento Europeu de um relatório sobre "direitos sexuais" das mulheres, em que se recomendava, entre outras coisas, o acesso livre ao aborto em todos os estados e a introdução de educação sexual desde o ensino primário, da autoria da mesma Edite, acabou com o chumbo por parte do Partido Popular Europeu. Qual a reacção da sua mentora? Ao melhor estilo das radicais do Bloco ou do grupo Femen, queixou-se de que "a hipocrisia e o obscurantismo se tenham sobreposto aos legítimos direitos das mulheres”. A velha conversa, embora nunca tenha percebido como é que pessoas que defendem valores que consideram fundamentais possam ser considerados fundamentais possam ser consideradas hipócritas; e obscurantistas porquê, será Estrela a dona da verdade?
 
Como Nuno Melo naturalmente respondesse a isto, acusando-a de "democrata de circunstância " por não poupar ao insulto quem discordou da sua recomendação, Estrela conseguiu uma emenda pior que o soneto: a resposta do eurodeputado do PPE dever-se-ia à necessidade de fazer uma "prova de vida", porque a ele ninguém o conheceria, ao passo que ela é "a deputada mais famosa do Parlamento Europeu", e preveniu ainda os eleitores que "no momento da votação não é indiferente eleger uns ou outros deputados".
 
Pois não. Nisso, e apenas nisso, concordo com Edite. Porque não votar em Estrela traria sem dúvida uma maior higiene democrática ao PE. É que esta triste figura a que se prestou causou-me asco, vergonha e pena. Asco por fazer passar a estafada ideia do aborto sem restrições como um direito fundamental; vergonha por lançar-se em acusações inanes a quem votou de forma contrária; pena por não controlar a sua mitomania e julgar que é, mais do que meramente está escrito no seu apelido, a "estrela" do euro-hemiciclo.

quinta-feira, dezembro 12, 2013

Ideias geniais para fazer história com os estádios


A propósito de arquitectura arrojada de que já se falou aqui há poucos dias, lembrei-me de outro, francamente original, também respeitante a uma relíquia dos tempos do carvão e aço, à qual querem igualmente dar um destino diferente daquele para a qual estava destinada (embora não já a mudá-lo de lugar).

Londres, para além de ser uma metrópole global, possui uma infinidade de estádios: o Emirates, do Arsenal (de que se falará mais adiante), o Stamford Bridge, do Chelsea (que aqui nos interessa particularmente), o White Hart Lane, do Tottenham, o Upton Park, do West Ham, o Craven Cottage, do Fulham,o Loftus Road, do Queens Park Rangers, o Selhurst Park, do Crystal Palace, e muitos outros de clubes menores, já para não falar de recintos dedicados a outras modalidades, como o rugby ou o cricket, e, claro, o mítico Wembley e o Estádio Olímpico, construído para os jogos de 2012, e de que se diz ser objecto de interesse por parte do West Ham para uso futuro. Uma overdose de recintos desportivos, como se vê, e um pouco estranha para o habitual pragmatismo britânico (nisso, os italianos são bem mais poupados: nas grandes cidades, um estádio serve para duas equipas).

Com o crescimento desportivo do seu clube, Roman Abramovich cogitou que o Chelsea devia jogar num recinto mais nobre e maior do que o velho Stamford Bridge, já que por razões várias este não se podia expandir mais. Havia o problema de construir um novo estádio em local que não se afastasse muito dos territórios do clube. E no ano passado, surgiu a ideia salvadora: a estação eléctrica de Battersea, no centro da capital londrina, junto ao Tamisa, que em tempos alimentara boa parte da energia da cidade, desactivada há perto de trinta anos, era o sítio ideal. O edifício, já considerado um monumento londrino, é também um ícone da cultura pop, sobretudo desde surgiu como cenário do disco Animals, de 1977, dos Pink Floyd, então no auge da popularidade.
 

A ideia era original, vanguardista, provocadora: fazer de um venerável edifício industrial e símbolo pop um novo e espaçoso estádio de futebol,  para 60 mil espectadores, que provavelmente o tornaria ainda mais icónico. O Chelsea ganharia um novo estádio, dentro da "sua" área, e a Battersea Power Station uma nova vida. Imagine-se David Luiz, Óscar ou Hazard correndo às ordens de Mourinho sob as quatro enorme chaminés industriais que em tempos alimentaram a metrópole britânica. O clube londrino, até agora relevante graças aos dinheiros do multimilionário Roman Abramovic, que o guindou ao mais alto escalão do futebol europeu, tinha aqui uma oportunidade de ouro para marcar a arquitectura de estádios para todo o sempre.
 
 

Só que essa utopia dos relvados terá de ficar no papel e nas imagens virtuais: a oportunidade perdeu-se não por culpa do clube mas porque um grupo de investidores malaios ofereceu umas boas centenas de milhões de libras pelo espaço para construir, na velha fábrica e nas imediações, centros comerciais, escritórios, hotéis, habitação, etc, enfim, o costume. Gorou-se assim a hipótese de se criar um estádio-monumento único, por culpa do habitual investimento asiático, que venceu o russo. Não sei como vai ficar aquela zona, mas o impacto da velha estação não será com certeza o mesmo.

Mas apesar de tudo Londres já marcou pontos na preservação patrimonial respeitante a estádios. O caso do Arsenal, grande rival do Chelsea, é ilustrativo, mas por razões inversas: aqui, o património a preservar era o próprio estádio. Quando os gunners inauguraram o seu moderno e espaçoso Emirates Stadium, em 2006, tiveram obviamente que abandonar o velhinho Highbury, já demasiado acanhado para as ambições do clube, e destinaram o seu espaço para uma área residencial. Mas não de maneira a que se esquecesse a memória do antigo recinto: as bancadas de topo foram demolidas, as laterais convertidas em apartamentos e as fachadas exteriores sofreram alterações mínimas, de modo a conservar o mesmo aspecto que tinham quando ali se jogava futebol (e os símbolos do clube), pelo que alguém pode aparecer à janela ao lado do canhão que simboliza o Arsenal em baixo-relevo. No meio, construíram-se os jardins comuns do complexo residencial a que deram o nome de Highbury Square. Assim, o antigo relvado onde Isaías, Veloso e Paneira se cobriram de glória é um local para a miudagem brincar ou de simples encontro, preservando-se assim totalmente a forma e a memória da histórica casa do Arsenal durante quase cem anos.
 





terça-feira, dezembro 10, 2013

O traumatismo de Lenine


Lenine caiu na Ucrânia, com mais de vinte anos de atraso. O que admira é que só agora se tenham lembrado de expulsar tão ruim defunto e dar outro uso naquele pedestal, 22 anos depois da independência, quando a maior parte das estátuas do revolucionário já tinha sido apeada e se encontrava no ferro-velho. Entretanto, vários bocados da estátua já começaram a ser vendidos na net, o que demonstra que o capitalismo, com todos os seus erros, defeitos e previsões miríficas, acaba por sempre por ultrapassar o comunismo (as recordações relacionadas com Marx também se vendem muito bem em Trier).
 
Mas como disse Ana Vidal, tratou-se do verdadeiro traumatismo (u)craniano. Tardou mas aconteceu.
 

sábado, dezembro 07, 2013

O legado de Nelson

 
O dia fatal tinha de chegar, há muito anunciado por internamentos e notícias da sua saúde extremamente debilitada. Não há muito mais que se possa dizer da vida e obra de Nelson Mandela. As edições especiais dos jornais, os louvores das redes sociais e as inúmeras imagens televisivas encarregaram-se de tudo. Não faltou sequer o habitual oportunismo político, que desenterrou uma velha questão de 1987, e que lançou à pressa a notícia de que Portugal votara contra a libertação de Mandela, só informando mais tarde que nessa resolução estava explícita a invocação de violência e luta armada (num país com centenas de milhares de portugueses e luso-descendentes)e que a representação portuguesa também votou a favor de outra que apelava, tout court, à libertação incondicional do então prisioneiro de Robben Island.
O endeusamento de mortais é uma coisa que me convence muito pouco. E no entanto Mandela é dos que mais merece. Não que não tivesse cometido os seus erros ou actuado erradamente noutros tempos. Mas um homem que depois de 27 anos numa cela exígua, encarcerado por um regime racista e segregacionista, se esquece de quaisquer sentimentos de vingança e se esforça por promover a paz e a concórdia, a reconciliação e a união - mesmo depois de ser eleito presidente e de obter uma maioria esmagadora em eleições parlamentares - numa quase quimérica "nação arco-íris", só se encontra num em cem milhões.
 
 
É este o grande exemplo de Nelson Mandela: se erros cometeu (como a luta armada contra o Apartheid, de certa forma compreensível), pagou-os no cativeiro. Entretanto, redimiu-se e conseguiu evitar o pior. Não aproveitou para revanches sobre os seus carcereiros, não: aproximou-se deles, apertou-lhes a mão e disse-lhes que aquele país, doravante, seria de todos: impediu muito provavelmente banhos de sangue e a deriva para um regime racista de sinal contrário. Mesmo que a África do Sul esteja corroída por corrupção, desigualdades, pobreza, SIDA, criminalidade, etc, e que haja imbecis, como Julius Malema, que preferem o modelo do lunático vizinho Mugabe. Mas isso já são tarefas dos sucessores.
 
É essa a grande lição de Mandela: o perdão, a reconciliação, o reconhecimento do Outro, afinal virtudes tão cristãs. O único receio é que enquanto viveu, esses valores ainda eram evocados. E agora que desapareceu, conseguirão os sucessores manter a ordem e uma união mínima naquele país tão complexo? O desafio que têm pela frente será a melhor homenagem que farão a Mandela, para além de todos os louvores ou memoriais que lhe dediquem.
 
 

sexta-feira, dezembro 06, 2013

Apanhar com um helicóptero em cima


Mas o que se passa com os helicópteros na Grã-Bretanha? Em Janeiro, um destes aparelhos chocou contra uma grua usada para a construção de um arranha-céus em Vauxhall (do outro lado do rio fica a sede do MI-5, pelo que se pensou na hipótese de atentado), em plena Londres a dirigir-se para o trabalho, matou o ocupante e um transeunte e feriu mais umas quantas pessoas cá em baixo.

No fim de semana passado, um helicóptero da polícia desabou sobre um bar em Glasgow, junto ao rio Clyde, onde decorria um concerto de ska, e o telhado por sua vezes desabou sobre o público, matando os três ocupantes do aparelho, mais cinco pessoas no bar, e provocando dezenas de feridos (e no mesmo dia caiu um avião das linhas aéreas moçambicanas, vitimando todos os ocupantes, incluindo alguns portugueses).


Claro que os helicópteros não são imunes a acidentes, que acontecem facilmente quando se perde o seu controlo. Mas o que assusta mais aqui é ver a vida quotidiana, seja na ida para o trabalho, nas manhãs em que já apetece tão pouco, ou no lazer do fim de semana, interrompida brutalmente por acidentes imprevisíveis com máquinas infernais vindas do ar. Para além das vítimas, quem estava nos locais não ganhou para o susto e para o trauma.

segunda-feira, dezembro 02, 2013

Não sei se Soares está senil, mas até era preferível que estivesse.


O artigo que Mário Soares escreveu ontem para o Público é uma coisa pavorosa, deplorável, das mais indigentes que me foram dadas a ler nos últimos tempos. Soares já anda a dizer disparates há um tempo, mas isto ultrapassa todas as marcas.

Resumidamente, o ex-PR desfaz-se em elogios ao Papa, dizendo que "fala a toda a gente" e que "detesta a austeridade, imposta pela senhora Merkel", para logo se atirar à Igreja portuguesa, que "que foi colonialista, durante os tempos das guerras coloniais e sempre próxima da ditadura, foi salva pelos socialistas, na maior parte deles não religiosos, porque depois do 25 de Abril impediram que os esquerdistas invadissem o Patriarcado como tentaram fazer", que tem mantido "um silêncio inaceitável sobre o actual Papa", e que o Patriarca, D. Manuel Clemente, "fazia-se passar por um homem desempoeirado e progressista" e que "nunca fala do Papa", apelando a que leia a última Exortação Apostólica  para que a Igreja "não volte a ser o que era..."

Neste arrazoado de linhas, Soares consegue não só criar uma realidade paralela e inexistente, como nega palavras que proferiu há não muito tempo. Aproveitando-se da mensagem da Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, que reafirma a doutrina social da Igreja contra a idolatria do dinheiro, Soares escreve uma verborreia com claros intentos políticos, mesmo que para isso tenha de confundir ou negar os factos.
O Papa, condenando políticas económicas provocadoras de desigualdade e pobreza, condena também o consumo excessivo, causa da actual situação no mundo ocidental. Assim, defende também alguma austeridade no dia-a-dia (não para aqueles que têm de menos, evidentemente) e a não resignação perante a tentação dos bens materiais. Concordará Soares com isso?
O "colonialismo da Igreja" durante as guerras parece esquecer as importantes acções do bispo de Nampula, D. Manuel Vieira Pinto, de imensos clérigo e mesmo da Igreja de Roma, quando o Papa recebeu vários líderes africanos, como Amílcar Cabral, mas recusou-se, na sua visita a Fátima, em 1967, a ir a Lisboa. Muito colonialista eram os antecessores de Soares na 1ª república...
 
A parte de "ser salva pelo PS" e da "invasão do Patriarcado" é de um desaforo inacreditável. Há anos, Soares tinha dito que fora graças à Igreja que o PS travara as forças extremistas em 1975. Na altura, a resistência ao domínio esquerdista começou a norte, em grandes manifestações em Aveiro e Braga apoiadas pela Igreja, e o desenrolar dos acontecimentos a partir daí travou os revolucionários mais radicais e contribuiu para a posterior normalização do país. Pelo meio, Soares teve mesmo de se refugiar no Patriarcado de Lisboa, facto que agora pretende inverter descaradamente.

E tudo isto para quê? Para se atirar a D. Manuel Clemente, acusando-o de não "falar do Papa" e de não ser progressista". A primeira "acusação" é outra dos invenções do ex-PR: o Patriarca falou e fala do Papa, e a última aconteceu na última sexta-feira. Mau timming, Soares. Quanto às acusações de "falta de progressismo", lembram aquelas que o PC fazia a militantes "tresmalhados" de "desvios esquerdistas" ou "direitistas". Para Soares, a Igreja tem de ser "progressista" ou então resvala para o fascismo. não lhe ocorre que se trata de uma instituição milenar com uma sólida doutrina que não vai atrás da primeira ideia de progresso que lhe metem à frente. Daí vem, aliás, a solidez do seu edifício moral, jurídico e social. Mas percebe-se: Mário Soares, que em tempos atribuiu o Prémio Pessoa a D. Manuel Clemente, ficou furioso com as Palmas a Passos Coelho e Cavaco na primeira missa daquele como Patriarca e acusou-o de não as ter impedido, quando o próprio estava, segundo confessou, na sacristia a paramentar-se Por isso, e com nítido rancor, atira-se-lhe agora como um touro a um pano vermelho.

Tudo junto, verificamos que o "republicano, laico e socialista" não tem o menor pudor em aproveitar-se da Igreja Católica para fazer campanha política, não hesitando mesmo em alterar factos históricos, fazer acusações absurdas e infundadas e dar indicações à Igreja do que é ou deve ser. Deve ser dos exemplos de menor laicidade que por aí se tem visto.

Há quem chame "senil" a Soares. Espero bem que seja o caso, porque se não estiver, uma avaliação do seu carácter sairia daqui inevitavelmente arrasada.

domingo, dezembro 01, 2013

Restauração

 
Seja ou não fim de semana de Banco Alimentar, esteja frio, sol ou aprazível, lembremo-nos sempre que apesar de ser Domingo, de certa forma também é feriado, mesmo que a nível oficial o Governo não o reconheça. O dia da Restauração da Independência é feriado tácito e intocável, as pessoas é que por acaso poderão ir trabalhar caso calhe a um dia da semana.
 
PS: ainda um dia desvendarei a curiosidade de saber se é coincidência ou não o facto de o Consulado de Itália no Porto ficar situado na rua da Restauração (recordemos que a vice-rainha de Portugal, ao tempo da Restauração, era a italiana Duquesa de Mântua), e sobretudo, o consulado de Espanha se situar, há largas décadas...na rua D. João IV.

sábado, novembro 30, 2013

O projecto impossível da ponte sobre a cidade


O concurso de ideias para a reabilitação do quarteirão da Companhia Aurifícia, ali entre Cedofeita/Álvares Cabral/Praça da República, de que se conheceram os resultados há pouco tempo, saltou para os holofotes mediáticos graças ao inusitado projecto de Pedro Bandeira e Pedro Nuno Ramalho, ambos da Faculdade de Arquitectura do Porto: desmontar a Ponte D. Maria e recolocá-la no quarteirão da Aurifícia, criando no centro da cidade aquilo a que chamaram "o efeito Eiffel" (a expressão é dupla e literalmente feliz, já que o autor da ponte foi precisamente Gustave Eiffel). De vetusta e utilitária travessia de comboios - embora elegante e centrada numa paisagem admirável, mesmo com a suburbanização circundante - a impressivo monumento à idade do aço, dominando a urbe. O projecto é radical, sonhador, provocador, quase utópico, e como não podia deixar de ser arrebanhou entusiastas e criou opositores. Tanto fará, porque não ganhou o concurso. Mas a ideia prevaleceu. Por um lado, houve quem achasse que os vinte milhões de euros previstos para a empreitada nem são assim tanto, e que o impacto estético e icónico seria tão grande ou maior que o da torre do mesmo autor da ponte, na margem esquerda do Sena. Por outro, há quem argumente que os custos não se justificam em época de crise, que a própria ideia de imóvel fica desvirtuada (porque "existem no lugar próprio"). É crível que haja também por aqui rivalidades e egos inchados de outros arquitectos.
 
 
Devo dizer que o projecto é sem dúvida assombroso. Imaginativo, arrojado, esteticamente muito bem conseguido e interessante. Eu próprio fiz as medições, com o auxílio de um mapa, e concluí que a ponte cabia por inteiro no quarteirão, como aliás o próprio projecto o comprova. E não haja dúvida que daria ainda maior visibilidade ao Porto. Quais são então as dificuldades práticas? Para além dos custos envolvidos, que de facto não caem bem nos actuais tempos de penúria, mas que seriam comportáveis em épocas de vacas mais gordas (se isso acontecer), há ainda o facto do quarteirão, segundo o projecto vencedor do concurso, ser no futuro próximo objecto de reconversão em habitação, comércio, jardins e outros espaços comuns, etc. Alguém gostaria de viver, literalmente, sob a ponte? Imaginem o que seria em noites de vento e tempestade, sentir aquela enorme estrutura a vacilar, já sem os pilares que a sustentam.
 
 
É por isso que considero o projecto, pese toda a imaginação que comporta, inaplicável em concreto. Mas a ideia deve prevalecer, ser recordada, e deve servir de exemplo para novas propostas arrojadas, que permitam sustentar o nosso património e dar-lhes mesmo uma perspectiva renovada e quem sabe, um novo uso.
 
PS: tristemente pertinente, na semana em que morreu Alcino Soutinho, um dos mais notáveis nomes da FAUP e da "Escola do Porto". Paz à sua Alma.

sexta-feira, novembro 29, 2013

A campanha do Banco Alimentar de regresso

 
Neste fim de semana, não esquecer: o Banco Alimentar volta às ruas e aos estabelecimentos comerciais para a habitual campanha contra a fome. É sempre preciso contribuir. E esta época gelada não é de todo a excepção.
 

 

segunda-feira, novembro 25, 2013

A justíssima homenagem a Eanes


Não haveria data melhor do que a de hoje para homenagear Ramalho Eanes. Quando ouvimos pessoas como Mário Soares, a exigir que o Presidente em exercício de funções se demita "antes que venha a violência", ou ex-chefes de Governo, como Sócrates, tentando lançar a sua vendetta, ou durão Barros, um autêntico cata-vento virado para o sopro do mais forte, o exemplo de Eanes é um autêntico bálsamo moral. O homem que teve grande responsabilidade no 25 de Novembro, que recusou o bastão de Marechal (a que teria direito por ter ocupado a chefia do estado), que tentou mudar o equilíbrio partidário com a inglória aventura renovadora, que já depois dos setenta anos se doutorou em Navarra com base em estudos da história contemporânea portuguesa e na sua rica experiência política há muito que merecia que o recordassem condignamente. Não, não é o novo PRD: são apenas pessoas com memória que lembram alguém que se transformou num exemplo de rectidão e integridade numa época que está bem necessitado deles. E para quem ainda tem dúvidas, deixo aqui a ligação para um texto da autoria de um dos homenageantes, Fernando Dacosta, que já há muito circula pena net. Nunca é demais recordá-lo.
 
 

sábado, novembro 23, 2013

Vamos a ver o que resulta do "Livre"


À margem de assembleias "alternativas", manifestações com mais ou menos violência ou outras que tais, o pré-anúncio, de resto já com algum tempo, da criação de um novo movimento à esquerda, que tem como denominação (não sei se provisória) "Livre", é uma das notícias mais interessantes da vida política partidária dos últimos tempos. Tavares já "ameaçara", mas agora parece mesmo querer dar corpo a uma ideia que já há muito vinha expondo nos seus artigos jornalísticos.
 
O velho problema da constituição de maiorias estáveis em Portugal em caso de vitória do PS sempre se pôs. Ou o PS ganha com maioria absoluta, coisa que só aconteceu por uma vez, ou sujeita-se a governar em minoria, com acordos pontuais aqui e ali. A outra hipótese, mais improvável, é coligar-se com outros partidos. Até agora, fê-lo com o CDS, em 1978, e com o PSD, o célebre bloco Central dos anos oitenta. Nenhuma dessas experiências durou muito. Talvez por isso muitos colunistas se perguntem porque é que os entendimentos à esquerda nunca se fazem, ao contrário do que acontece À direita. A resposta é óbvia, mas parece que lhes escapa: a natureza política dos partidos à esquerda é absolutamente distinta. O PS é um partido da área social-democrata, que defende um regime parlamentar pluralista e a economia de mercado, com alguns limites. O PCP (o apêndice Verdes não conta para os números) é um velho partido marxista-leninista, que envia condolências pela morte do tirano da Coreia do Norte. Já o Bloco de Esquerda é um conjunto de capelinhas mais ou menos radicais, onde cabem trotsquistas, neo-maoístas, comunistas "renovadores", etc, que entre outras coisas pugna pela saída de Portugal da NATO. Só por oportunismo ou por pura ignorância é que alguém defende que o PS se pode aliar a nível nacional com qualquer destes partidos. Sim, é verdade, houve já coligações entre eles que nem correram mal, como em Lisboa, nos anos 80/90, sob a presidência de Sampaio. Mas uma coisa é fazer coligações locais (até o PSD e o PCP já as fizeram, depois das eleições), outra absolutamente diferente é dar ao país um governo PS/PCP/BE. Alguém imagina? O caso mais próximo é o da França aquando da primeira vitória de Mitterand: o PS francês estava mais à esquerda, o PCF era mais aberto que o "nosso" PCP, e mesmo assim nunca mais repetiram a graça.
 
Por isso, a nova formação pode ser uma espécie de CDS de esquerda. Um partido mais europeísta e pluralista, sem o sectarismo e o radicalismo irresponsável do Bloco, e evidentemente sem a férrea disciplina e a ideologia imutável do PCP. No fundo, pode ser para Portugal o que Os Verdes foram na Alemanha, e que permitiram ao SPD fazer coligações à esquerda. Com o tempo, o partido de Joschka Fischer passou de movimento de protesto a partido responsável. O "Livre", agrupando pessoas fartas do BE, nada receptivas ao PC, ecologistas que repudiem Os Verdes (e não se enquadrem no Partido da Terra ou no PPM) mas que não tenham grande vontade de entrar num partido tão "governamental" e pleno de interesses e jogos de poder como o PS, poderá vir a constituir uma alternativa interessante nesse campo. Adivinha-se que para além de Rui Tavares lá possam caber pessoas como Daniel Oliveira (os dois eram a espinha dorsal do blogue Barnabé), Joana Amaral Dias ou até elementos próximos do PS, como Inês Medeiros ou Ana Paula Victorino. Talvez já nas próximas europeias possamos ver o novo movimento apresentando-se às urnas, numa primeira prova de fogo (embora isso já tenha atraído as esperadas críticas a Rui Tavares, acusando-o de "estar atrás de um tacho", talvez esquecendo que o mesmo dispôs de parte do seu vencimento de eurodeputado para patrocinar algumas bolsas). Se poderá atrair algum eleitorado de esquerda desiludido com o que há, ou se não passará de uma formação efémera de algumas figuras semi-mediáticas, como infelizmente aconteceu ao MEP, é coisa que terá de provar. A escolha da papoila para símbolo é que já não parece muito feliz...
 
 

terça-feira, novembro 19, 2013

Ousar jogar, ousar vencer!


A Selecção Nacional em versão mural-MRPP, com Cristiano Ronaldo em pose Arnaldo Matos, ou uma capa de A Bola que se deverá recordar (pela estética, certamente, mas esperemos igualmente que pela premonição). Contra a reacção ibrahimovista nórdica! Ousar jogar sem ser a defender o 1-0, ousar vencer!
 

segunda-feira, novembro 18, 2013

Eis os resultados do Viaduto do Corgo

 
Enquanto o túnel do Marão não está pronto (antes era preciso que se reiniciassem as obras, paradas há dois anos), já se pode cortar caminho indo do IP-4 do Marão à A4 em direcção a Bragança sem necessidade de passar por Vila Real. O viaduto do Corgo abriu em Setembro passado, ligando Parada de Cunhos à autoestrada, transpõe a profunda garganta rochosa do rio Corgo e é uma obra de engenharia e de arquitectura prodigiosa, pese o impacto visual na região que vai demorar alguns anos a passar. Ficam aqui umas imagens, algumas em 3D, da sua construção, do seu desenho e das suas características. A primeira e a última parte, sobretudo, valem bem a pena.
 
 

quinta-feira, novembro 14, 2013

Alvorada dominical catalã


Numa passagem por Barcelona, cidade que não conhecia ainda, pela alvorada, eis o que presenciei entre o Barri Gotic e a Rambla:

- Um grupo de "perroflautas" italianos, provavelmente atraídos por alguma fama anarquista da   cidade, de aspecto imundo, a dormir na rua ou a beber

- Outros noctívagos a recolher dos bares espalhados pelas ruelas medievais

- Varredores começando a recolher os vestígios da noite que acabava

- Orientais passando com malas em direcção ao porto

- Corredores a fazer o primeiro running do dia

- Feirantes, ou coisa parecida, a erguer as suas bancas para uma anunciada feira de filatelia e selos, na Plaza Reial

- A Igreja de San Jaume de portas abertas, com frades e freiras a orar para o primeiro ofício de Domingo. Aqui, um homem que parecia uma mistura de peregrino com um mendigo, francês que fazia questão de falar catalão, parecia estar de guarda ao portal para impedir que alguém entrasse, e explicou-me que estavam a rezar dominicanos e franciscanos em conjunto, uma reunião não muito óbvia.

O amanhecer numa grande cidade europeia permite-nos esta mistura surpreendente, que não veríamos a outras horas nem talvez num dia de semana.

quinta-feira, novembro 07, 2013

Um desperdício e um estúpido gasto público


Ainda se vislumbram por aí algumas réstias da campanha eleitoral para as autárquicas. Pouca coisa, um outdoor esquecido e esfarrapar-se, alguns cartazes de plástico agarrados aos postes, autocolantes nas paredes...
 
Ao ver algumas imagens da campanha que passou, particularmente dos comícios e das arruadas, reparei que tanto os candidatos independentes como as coligações e até mesmo partidos a concorrer sozinhos tinha sempre um logótipo personalizado estampado em bandeiras, t-shirts ou pendões. Pode-se perceber isso em candidaturas apartidárias ou em coligações que não existiam antes, mas fora disso parece um pouco ridículo. Como se os partidos tivessem vergonha de apresentar a sua simbologia, quando sabemos que em eleições municipais, a ideia é reforçar as "bases" e o poder territorial.
 
Li há tempos, a propósito da reciclagem de material de campanha (no caso, as lonas de outdoors para serem reutilizadas como tendas em África), que segundo a lei de financiamento dos partidos, os objectos usados em campanha não podem ser usados em campanhas posteriores. Confesso que dei uma vista de olhos à tal Lei, e ou por distração minha ou por erro de quem escreveu isso, não encontrei qualquer proibição de repetição de campanhas. Mas se isto é verdade, significa tão somente que os símbolos e imagens gráficas usadas numa campanha não podem voltar a ser reutilizados. O que significa uma enorme desperdício (já nem digo em gastar imensos "cartuchos" de criatividade) de dinheiro em agências de marketing e assessores de imagem, plásticos e materiais vários, etc. Ainda há dias, num programa dedicado exactamente aos gastos de campanha e respectivas subvenções pelo estado, José Guilherme Aguiar, que concorreu como independente a Gaia, estimava as despesas em mais de duzentos mil euros. Perto de metade seriam suportados pelo Estado, que ao todo, nas últimas eleições, terá despendido perto de 48 milhões de euros Às candidaturas que elegeram representantes e tiveram mais de 2% dos votos.
 
Imagine-se agora que quatro anos depois, a simbologia e imagem gráfica podiam ser reutilizadas em nova campanha. A poupança seria certamente considerável (também dependeria da prodigalidade das candidaturas). E numa altura em que mais do que nunca há que cortar no que há de mais acessório para enfrentar os sucessivos défices que ficam sempre além do previsto e engordam uma dívida assustadora, seria de bom senso e eticamente aconselhável alterar a lei do financiamento partidário, para que números como aqueles 48 milhões sejam efectivamente mais baixos. As campanhas eleitorais precisarão de tanto financiamento estatal? De tanto outdoor, tanto material para oferecer, tanto conselheiro de imagem? Alterem-se e baixem-se os financiamentos estatais, quanto antes, a começar pela suposta proibição de reutilização de campanhas anteriores, e usem a imaginação para atrair o voto dos eleitores com menos despesas. Depois queixem-se que cortam nas pensões...
 
 

domingo, novembro 03, 2013

No desaparecimento de Zé da Guiné, um bom testemunho


Morreu Zé da Guiné, um dos pioneiros da movida lisboeta dos anos oitenta. Morte pouco surpreendente, já que sofria de uma doença degenerativa neurológica, semelhante à que vitimou Zeca Afonso. Antes de vir para Portugal, chegou a ser guerrilheiro na Guiné-Bissau, na guerra colonial. Já em Lisboa, trabalhou como modelo - surpreendia os transeuntes do Chiado ao aparecer vestido à escocês com dois dobermans pela trela - dedicou-se à prática de Karaté a ao atletismo, e "atirou-se" à noite da capital, tendo contribuído para a abertura de vários bares inovadores no Bairro Alto, até ali pouso reservado de prostitutas, jornalistas e taberneiros e no Cais do Sodré, frequentado por fauna idêntica, só trocando os jornalistas pelos marinheiros. Mais tarde, transformou o palácio Almeida Carvalhais, que dividia com a sede do Casa Pia, na zona do Conde-Barão, entre o Cais do Sodré e Santos, num espaço de diversão conhecido como "noites longas", e que o eram, literalmente, antes deste se transformar no famoso B.leza. A vida boémia nocturna e cultural lisboeta mudou bastante depois disso, mas deve-lhe muito. Também por isso, um documentário sobre a sua vida, com inúmeros testemunhos, intitulado Zé da Guiné, Crónica de um africano em Lisboa, foi exibido há uns três anos, exclusivamente em salas de Lisboa. Fiquei bastante curioso, mas como na altura tinha regressado ao Porto, não o consegui apanhar. Até agora: passa amanhã, Segunda, dia 4, na RTP2, às 20:44. Quem quiser testemunhar esse período da história cultural lisboeta tem agora uma boa oportunidade.
 
 

sexta-feira, novembro 01, 2013

O dia Todos os Santos já não é feriado

 
Discutiu-se exaustiva e apaixonadamente, nas redes sociais, o  facto do Halloween se ter cravado em Portugal, como exemplo de influência cultural americana que nada tem a ver com as tradições portuguesas. não gosto muito da comemoração, e menos ainda das novas gerações vestidas de monstrinhos e criaturas do mal. Mas gosto ainda menos de chegar a um Dia de Todos-os-Santos e lembrar-me que já não é feriado, sobretudo quando vejo a confusão à porta dos cemitérios. Sim, porque sendo este o feriado, aproveitava-se para fazer a habitual romagem para relembrar os finados mais próximos, e não no dia 2 - que era o autêntico dia de Fiéis Defuntos (e que em tempos chegou também a ser feriado, se não falham as crónicas). E agora, voltarão as pessoas ao cemitérios nos Fiéis, ou a tendência será para deixar de ir? Cada vez me convenço mais que este, a par do Feriado daqui a um mês, era daqueles que nunca podia ser extinto (até porque me causa urticária ver feriados acabar por razões pretensamente economicistas, e não porque as circunstâncias que os justificavam tenham desaparecido). Há de voltar como tal, se Deus quiser.

quinta-feira, outubro 31, 2013

Duas proezas numa manhã


Os feitos de Carlos Burle na manhã de Segunda-Feira são qualquer coisa de assombroso. Todos assistiram ao salvamento da sua colega Maya Gabeira, da qual aliás é o mentor, uma acção em que pôs a sua própria vida em risco, ao enfrentar vagalhões descomunais com uma mota de água, não hesitando em desmontar para agarrar a surfista e impedi-la de ser submergida pelas ondas. Não contente com isso, já depois de Gabeira estar a salvo, Burle decidiu aproveitar o mar agitado e fazer o que sabe melhor: enfrentar as ondas. E tão bem sucedido se mostrou que apanhou uma onda colossal, ultrapassando provavelmente o anterior recorde de Garrett McNamara, obtido naquele mesmo mar da Nazaré, sobre a falha ou "canhão" com o mesmo nome, no passado Inverno. Não é sequer a percepção a olho nu, já há mesmo registos científicos que o atestam. A confirmar-se, seria a justíssima recompensa depois do seu acto heróico, em que arriscou a vida para salvar outra, como se uma qualquer justiça divina lhe tivesse oferecido aquelas vagas. E uma manhã extraordinária para Burle: depois de salvar a vida de Maya Gabeira, cavalgou a maior onda surfada de sempre. Por mais espantoso que seja a marca do segundo acontecimento, fica ainda assim muito aquém do valor do primeiro.
 



terça-feira, outubro 29, 2013

Lou Reed e Portugal

 
A morte de Lou Reed trouxe comoção e encómios de meio mundo, como se esperaria. Reed podia não ser o artista que mais discos vendeu nas últimas décadas, mas era sem dúvida um dos mais míticos e influentes. Desde os Velvet Undergound, grupo apadrinhado por Andy Warhol, ainda ele não tinha trinta anos. O primeiro álbum, mais conhecido pelo "álbum da banana", por causa do desenho de capa, teve escasso sucesso comercial, mas segundo Brian Eno, todos os que o compraram formaram a sua própria banda (Iggy Pop, David Bowie, etc). Passados os Underground, Reed encetaria uma carreira a solo colaborando com toda essa gente, durante décadas. O último trabalho, Lulu, em parceria com os Mettalica, espantou dada a diferença de estilos e não colheu grandes elogios da crítica. Ficará imortalizado por essa influência que teve em meio mundo do pop-rock, mas também por canções intemporais como Perfect Day ou Walk on the Wild Side.
 
Mas Lou Reed também veio algumas vezes a Portugal, à Praça Sony, no tempo da Expo 98, por exemplo, e ao Porto, dando aliás um concerto que inaugurou a Casa da Música. Na altura, Rui Veloso criticou a escolha do música, atitude surpreendente da parte de quem o mencionou no seu primeiro êxito, Chico Fininho (que ia pela Cantareira "gingando ao som do Lou Reed"). Só que as suas letras eram da autoria de Carlos Tê, que escreveu há uns anos uma reportagem (ou conto?), intitulado "um manjerico para Lou Reed" sobre uma vinda do músico ao Porto, nesses inícios dos anos oitenta, em que, desafiado ainda no comboio para conhecer a noite mais longa da cidade, que calhava precisamente naquela sua passagem, Lou Reed embrenhou-se no S. João portuense. Não se sabe se terá sido exactamente assim ou se Carlos Tê ficcionou, mas o que é certo é que no dia seguinte (presumo que a 24), o músico não compareceu ao concerto no velho pavilhão Infante de Sagres, a Serralves, cujos bilhetes estavam esgotados. Alguma razão haveria, e a noite sanjoanina é mais que suficiente.
Lou Reed, R.I.P., e que no teu túmulo, entre outras flores, se depositem manjericos.