sexta-feira, abril 11, 2014

Desaparecimentos recentes

Não conheço a fundo a obra de Jacques Le Goff para fazer uma crítica póstuma à sua extensíssima obra de medievalista. Mas para além de uma carreira profícua, longa e honesta, há que relembrar o homem que sempre tratou a Idade Média como uma época extremamente complexa e rica, de alguma transição, mas nunca a "Idade das Trevas" e do "obscurantismo" com que os Iluministas a pintaram (ou melhor, descoloriram). Houvesse mais gente minimamente atenta a isso e que se prestasse mais a debruçar-se sobre a história do que a macaquear lugares-comuns e não veríamos sempre o epíteto "medieval" colado a situações menos positivas ou consideradas "ultrapassadas".

De José Wilker muitos falaram do seu papel na Gabriela (a original, já que tempo apareceu no remake com um papel totalmente diferente). Como não me posso recordar da novela que fazia com que os trabalhos do Parlamento encerrassem diariamente antes do seu começo, recordo o papel do actor em Roque Santeiro, tão ou mais popular (deu o nome ao maior mercado africano, em Luanda)que Gabriela, em que interpretava um  ex-artesão que todos julgavam morto, 17 anos depois da data presumida da sua morte, e que se tinha tornado entretanto um mártir popular e objecto de veneração e de comércio, quando na realidade era apenas um vigarista fugitivo. Morreu agora, com sessenta e tal anos, mas deixou o seu nome bem firmado no cinema, teatro, e claro, na televisão brasileira, exportadora de boa parte da imagem do gigante sul-americano que inventámos. Seria interessante se alguma vez passassem por cá a minissérie JK, sobre a vida de Juscelino Kubitschek, encarnado por Wilker.

sábado, abril 05, 2014

E um pouco mais abaixo, em Israel



Israel é um país sob críticas constantes. Algumas são justas e oportunas, sobretudo quando mais um colonato ocupa irregularmente uma terra pertencente a palestinianos. Outras são claramente abusivas e até aberrantes, como quando dizem que Israel tem "um regime nazi"(ou mais patético ainda, um regime "nazi-sionista"). Não haverá nenhum país nas proximidades de que se possa dizer da mesma forma que é um estado de direito.

Recentemente tivemos mais uma prova disso: o ex-primeiro-ministro Ehud Olmert começou a semana condenado por um caso que remetia ao tempo em que presidia à câmara de Jerusalém, por um suborno que recebeu para dar luz verde a um enorme complexo residencial e que se tornou num dos maiores escândalos de corrupção no país. E o mais provável é que Olmert, que governou o país durante três anos depois do AVC do recentemente desaparecido Ariel Sharon e que enfrentou a crise do Líbano em 2006, dê mesmo entrada na prisão.

Mas já não é a primeira vez que uma alta figura de estado ouve uma sentença condenatória em Israel: em 2011 o ex-presidente Moshe Katsav (que protagonizou alguns segundos históricos ao falar com o então presidente iraniano, Kathami, no funeral do Papa João Paulo II) foi condenado em todas as instâncias a pena de prisão por violação. Registe-se que as primeiras acusações ainda vinham do tempo em que estava na presidência.

Pergunto-me se em países vizinhos poderia acontecer algo de semelhante. Houve o caso de Mubarak, claro, e agora o de Morsi, no Egipto, mas ambos resultaram da alteração da situação política por meio de revoluções ou golpes de estado, e não de um processo judicial apolítico que ninguém imagina que pudesse acontecer sem o seu derrube do poder. A maior parte dos dirigentes políticos do Médio Oriente tem uma condição financeira algo difícil de atingir com simples remunerações. A Arafat nunca se questionou a enorme fortuna que acumulou, na Síria o clã Assad tem um histórico de violação dos direitos humanos que veio até aos nossos dias. E mesmo na Turquia o primeiro-ministro Erdogan tem torpedeado os fortes indícios de nepotismo que se têm acumulado.

Por isso, a conversa de que Israel é "um estado ditatorial" deveria evaporar-se sempre que se apontar a incomparável diferença com que a justiça actua num e noutros países. Mesmo assim, haverá sempre obstinados que se recusam a olhar para isso e que, organicamente politizados, porão sempre em causa as evidências e dirão que se trata de "propaganda sionista".

segunda-feira, março 31, 2014

Já na Turquia as consequências são outras



Na Turquia, também com eleições municipais, decidia-se o futuro do sr. Erdogan. Depois das enormes manifestações antigovernamentais do ano passado em Istambul, dos escândalos de corrupção que afectaram o governo, do envolvimento na guerra da Síria, das ameaças e do autoritarismo do primeiro-ministro, que fizeram com que tentasse bloquear o Twitter e o YouTube, que revelaram indícios de nepotismo que lhe eram prejudiciais, provocando uma chuva de críticas, do Galatasaray ao presidente da república, era grande a expectativa sobre como se aguentaria o partido do poder nas urnas. A resposta não deixou margem para dúvidas: Erdogan e o seu AKP venceram com confortável maioria, suplantando o anterior resultado, e ao que parece venceram nas principais cidades, a capital Ankara e a imperial Istambul. Quase o oposto do que aconteceu a Hollande na França. A partir de agora, e com o seu poder reforçado, Erdogan desafiará ainda mais a oposição interna. Já fora da Turquia, entre as hesitações da UE, a guerra na Síria, o reerguer da Rússia e os desejos independentistas nunca adormecidos dos curdos, terá tendência a querer afirmar ainda mais a influência russa entre o Mediterrâneo e a Ásia e a dar azo ao seu neo-otomanismo, que aliás nunca escondeu. E será interessante saber até que ponto os desejos expansionistas e imperialistas de Erdogan e Putin, dois claros saudosistas do apogeu dos seus países, irão chocar.

As consequências das municipais francesas




Não vale a pena criar monstros e anunciar catástrofes onde não existem. A Frente Nacional conseguiu o seu melhor resultado de sempre nas municipais francesas, mesmo que tenha falhado o objectivo de conquistar Perpignan e Avignon. O PSF confirmou a extrema impopularidade de que vem gozando (sobretudo por causa de Hollande), mesmo que tenha conservado Paris, ganha sem surpresas por Anne Hidalgo, e a UMP reforçou-se com a conquista de numerosas cidades, além de conservar as já tradicionais Bordéus, com o eterno Allain Juppé, e Marselha (onde a FN também teve um resultado de respeito). Resultados? Hollande já substituiu o governo, colocando à sua frente o popular Manuel Valls - tal como Hidalgo, de origem espanhola - , a UMP canta vitória e reforça-se, amaciando o clima de tensão interna em que vivia depois da luta fratricida pela sua liderança, e o partido do clã LePen reforça-se e prepara agora o assalto às europeias, em que ficar atrás do segundo lugar é derrota. A extrema-esquerda, por sua vez, desaparece, e é bom lembrar que o Partido Comunista esteve à frente de importantes cidades. Se tudo isto terá consequências para o futuro da França para além das europeias, é coisa impossível de prever. Quem poderá responder a isso no futuro próximo serão os munícipes franceses. Tudo o resto é futurologia.

sexta-feira, março 28, 2014

O regresso da Serenissima?


A moda dos referendos para secessões parece estar em grande, sob várias formas: temos o da Escócia, com a provação do governo britânico, em Setembro, o da Catalunha, sem essa aprovação de Madrid, na mesma altura, tivemos agora o plebiscito organizado numa semana para que os russos da Crimeia votassem no regresso à Rússia, e tivemos por fim, também esta semana, um referendo online no Veneto, para se decidir se a região se devia ou não cindir do resto de Itália para voltar à sua antiga condição de Sereníssima República de Veneza. E segundo a votação, devia mesmo. Pelo menos é a ideia de 89% dos que participaram (segundo os organizadores do plebiscito, 73% dos eleitores da região votaram).


Há no entanto, alguns problemas práticos que deviam ser abordados. Desde logo, o facto destas votações online poderem ser facilmente manipuláveis e trabalhadas (por exemplo, votando-se muitas vezes no mesmo) por quem as organiza. Ou votar-se por gozo, por coacções ou enganos, etc. Depois, mesmo que fosse real, que as autoridades italianas consentissem num referendo a sério, e, em caso de vitória dos independentistas na secessão daquele território, iam mesmo recriar a Serenissima? O chefe de estado teria de novo o título de Doge? E envergaria aquele simpático gorro? E as infraestruturas principais, funcionariam onde? A cidade de Veneza precisaria de um monte de obras, o que prejudicaria o turismo e afectaria as estruturas onde assenta a cidade, já de si debilitadas. A câmara legislativa teria de funcionar num edifício próprio, já que é pouco provável que o Palácio dos Doges, onde se reunia o Grande Conselho e demais entidades que governavam a república, tenha condições para isso. E de que viveria o renascido estado, para além do turismo? Do comércio e da construção naval? No primeiro é melhor não pensar, porque definhou desde que Vasco da Gama chegou a Calecut; a construção naval precisaria de bem maiores apetrechos do que os que há ou havia no venerável Arsenale, até porque as galeras estão um pouco desactualizadas. Talvez como base da armada veneziana...

Provavelmente as estruturas governativas e administrativas da neo-Sereníssima teriam de ficar em solo mais fiável, como Pádua ou Mestre. Mas a primeira é demasiado longe e descaraterizaria a ideia romântica subjacente, ao passo que Mestre é demasiado prosaica, para não dizer desinteressante e desengraçada. Assim sendo, e depois da euforia do momento e de reflectirem bem, talvez os venetos chegassem à conclusão que não seria muito viável, ao menos por agora, fazer renascer a respeitável república marítima (até porque boa parte do seu território pertence hoje à Grécia e à Croácia). Faltariam as condições mínimas para isso. Mas se insistirem na ideia, ficariam, e isso ninguém lhes tira, ficariam com a que provavelmente seria a mais bela bandeira de todos os estados soberanos.


terça-feira, março 25, 2014

Adolfo Suárez 1932 - 2014



Não têm faltado mortes de figuras públicas, mas esta era tudo menos inesperada. Adolfo Suárez, o homem que, a par do Rei, conduziu a transición espanhola entre os numerosos escolhos que a poderiam fazer afundar para o caminho da democracia, fazendo a ponte entre as duas Espanhas e estabelecendo os consensos possíveis, desapareceu neste Domingo. Já há muito que se tinha retirado da vida pública, sofrendo de alzheimer profundo.

Natural de Ávila, na Castela profunda, Chefe de governo no período conhecido com transición, escolhido pessoalmente pelo Rei Juan Carlos, Suárez tinha sido secretário geral do Movimiento Nacional, o partido único do regime franquista, que amalgamava falangistas, carlistas e conservadores autoritários, e era bastante mais novo do que os antecessores. Conseguiu com que as Cortes votassem nas suas leis reformistas que permitiram a constituição de partidos políticos, eleições livres e o fim da maior parte das normas restritivas (daí os franquistas considerarem que se tratava de uma ruptura e não de uma reforma), incluindo o regresso de velhos inimigos de Franco. Reconciliou velhos inimigos e permitiu a elaboração de uma nova constituição, que consagrava o regime monárquico parlamentar. Ele próprio obteve legitimidade nas urnas ao ganhar as primeiras eleições, em 1977, à frente da sua UCD, um muito heterogéneo partido centrista, algo aparentado ao "nosso" PSD. Voltou a ganhar em 1979, mas entretanto diversos desaires, tanto com a oposição (o governo era minoritário) com com o partido e com os militares levaram-no  apresentar a demissão. No dia da tomada de posse do novo governo, presidido por Leopoldo Calvo Sotello, deu-se a invasão das Cortes pelo bando do picaresco Tejero Molina, no célebre 23-F, e até ao desfecho da situação, por intermédio e determinação do Rei, Suárez não virou a cara aos golpistas, justificando com a sua posição que ainda era a de Presidente do Governo espanhol.



Retirou-se da acção governativa e da UCD, que rapidamente se desintegrou, e fundou o CDS, esperando recolher o eleitorado centrista. Mas depois de bons prenúncios nos anos oitenta, apenas umas franjas se lhe mantiveram fiéis, particularmente na sua Castela. O grosso do antigo eleitorado da UCD transitou para o PSOE e principalmente para a Aliança Popular de Fraga, tornada Partido Popular e por consequência o grande partido do centro direita. Sentindo-se abandonado pelos seus, farto da política partidária e com graves problemas de saúde na sua família, Suárez deixou então a política activa. Só voltaria para um discurso na campanha do filho, Adolfo Suárez Illana, nas eleições para o governo de Castela-La Mancha pelo PP. Antes tinha ganho o prémio Príncipe das Astúrias pela Concórdia e passado pela tragédia da morte da mulher e de uma filha. Depois disso, o silêncio.


Suárez Illana, que entretanto também deixou a política activa para se dedicar à advocacia e à tauromaquia, revelou mais tarde que o pai sofria de alzheimer profundo. É dele a fotografia, aliás premiada, em que Juan Carlos se passeia com o amigo que já não o reconhecia, na ocasião em que lhe quis entregar a altíssima condecoração Ordem do Tosão de Ouro, e encontrou um homem já completamente fora do mundo. Seria a última fotografia pública de um dos homens que mais lutou pela liberdade em Espanha, em todos os sentido da palavra. Depois disso, as homenagens de quem lhe sucedeu à frente dos destinos de Espanha. Entretanto, mais confrontos em Madrid provocados por franjas radicais. Seria bom que tanto políticos como manifestantes tomassem como exemplo Adolfo Suárez e a sua capacidade de compromisso, de coragem e de desprendimento. Depois da democracia, seria o maior legado de um homem que merecia mais em vida.


PS: algumas revelações sobre as deslealdades políticas feitas a Suárez podem ser vistas nesta entrevista, já com algum tempo, concedida por Suárez Illana.

PS2: em tempos escrevi que restavam poucos líderes políticos de primeira linha dos tempos da Transição. De há dois anos para cá, desapareceram quase todos. Fraga Iribarne e Santiago Carrillo, em 2012, há pouco tempo Blas Piñar, chefe histórico da direita franquista dura, e agora o protagonista, Adolfo Suárez. Restam o Rei e Felipe González.

sexta-feira, março 21, 2014

Agradáveis déjàs vus


E em poucas semanas o Benfica guindou-se ao comando isolado do campeonato e chegou aos quartos de final da UEFA (prefiro esse nome a euroliga, ou Liga Europa). No primeiro caso deve-se à solidez da sua defesa e aos disparates dos seus imediatos seguidores. No segundo, a uma autoritária exibição em Londres, frente ao clássico Tottenham (precisamente o clube treinado até há semanas pelo treinador referido no fim do anterior post) e a um empate caseiro depois de um breve susto. É curioso como as vitórias em Londres são sempre pelos mesmos números (3-1). Afinal de contas, o Benfica saiu com esse resultado  de uma famosa incursão ao Highbury, casa do Arsenal, em que Isaías brilhou (até porque o centro da defesa estava por conta de Rui Bento e Paulo Madeira!). E também empatou, na outra mão. Os ingleses ficaram algo eufóricos com esse empate, mas depois caíram na dura realidade, como relata Nick Hornby no seu livro de memórias futebolísticas Fever Pitch. Siga a competição.

Depois do plebiscito



E pronto, está concretizada a separação da Crimeia depois do plebiscito (e não referendo, como insistem em chamar-lhe) instituído pela Rússia e pelos seus acólitos em Simferopol. As milícias sem emblema e os deputados do parlamento local cumpriram bem o seu papel. Impedindo, na prática, a campanha a favor da Ucrânia, intimidando todos os que a apoiassem, cortando o sinal aos canais televisivos ucranianos, enchendo aldeias e cidades de cartazes pró-russos, impedindo a fiscalização a observadores estrangeiros, levaram ao boicote do plebiscito por parte dos ucranianos e tártaros através da ameaça e de agit-prop maciço.  Agora, depois do resultado esmagador a seu favor, a Crimeia pede para se tornar uma república autónoma russa e a Grande Mãe, generosamente, acolhe-os no seu seio. Tanto a assembleia regional como a Duma não perderam tempo em "cumprir" as respectivas formalidades para que isso acontecesse, e Putin realizou um par de discursos irredentistas, um na Duma e outro na Praça Vermelha, para gáudio da multidão, falando no "regresso da Crimeia". Já na península, os apoiantes da nova situação festejavam nas praças, como se um festival se tratasse. Os opositores recolheram-se, temendo represálias.


Entretanto, já duas bases ucranianas na Crimeia foram tomadas, o Comandante da marinha ucraniana detido (mas liberto pouco depois) e Kiev iniciou manobras na região leste do país, onde milícias pró-russas foram avistadas. Fala-se em desordens provocadas nessa zona, de forma a dar novos "pretextos" para intervenções. Putin é ambíguo, dizendo que não precisa que a Ucrânia se divida e que "Kiev é uma cidade sagrada para os russos".

O momento não é para graças. A NATO não que de forma alguma abrir hostilidades, mas não vai deixar que haja novas intervenções russas naquele território. Prometem-se sanções, mas no imediato as mais contendentes podem vir da própria Ucrânia, com a interrupção da energia à Crimeia. Tempos complicados, naquelas paragens.



Apesar de tudo há mais gente a querer ir para a Rússia, e nem todos têm lá raízes: André Villas Boas confirmou oficialmente que será treinador do Zenit de S. Petersburgo. Depois das passagens falhadas por Londres, era de esperar que fosse para um clube mais pequeno. Afinal, escolheu um clube com um balneário difícil e muito dividido, com várias estrelas de feitio complicado e com um patrocínio da maior companhia de fornecimento de gás do mundo, que por certo quer que os seus enormes investimentos financeiros se transformem em ganhos desportivos. Ou quebra a malapata dos últimos anos ou, o que é mais provável, acumula mais um fiasco e vê a carreira seriamente comprometida.

quarta-feira, março 19, 2014

Medeiros Ferreira - 1942 - 2014


Medeiros Ferreira tem um percurso pouco comum na política portuguesa e não só pela relevância que alcançou a nível internacional. Pode-se dizer que teve uma carreira circular: começou na oposição radical ao Estado Novo, passou pelo PS, tornando-se um muito jovem Ministro dos Negócios Estrangeiros, com a responsabilidade de iniciar as conversações para a adesão de Portugal à CEE, rompeu depois com os socialistas, compôs o grupo dos Reformadores, que apoiou a AD, integrou o meteoro PRD, seguindo Eanes, e voltou mais tarde ao PS. Mas tal como antes, nunca se submeteu a tiranias partidárias nem às vontades dos dirigentes o momento, conservando sempre o seu espírito crítico, e talvez por isso não voltou a ocupar cargos políticos de relevo. Mas manteve-se publicamente visível em programas de debate televisivo (julgo que a última vez que o vi terá sido no Eixo do Mal, como convidado especial), nos jornais e na blogoesfera, onde durante anos escreveu assiduamente, primeiro no Bicho-Carpinteiro e depois no Cortéx Frontal, onde teve a generosidade de incluir este blogue na sua lista de ligações. Publicou há pouco tempo a sua última obra, Não Há Mapa Cor-de-Rosa, um pequeno livro, em parte um testemunho, com uma lúcida e esclarecedora história da comunidade europeia. E era um assumido e fervoroso benfiquista. Deixou-nos precisamente agora que o título está cada fim de semana mais próximo de voltar à Luz. Como testemunho involuntário, o seu último post, com a sua proverbial ironia, reporta-se precisamente ao Benfica. Bem merecia ter visto o regresso aos títulos do nosso clube.


domingo, março 16, 2014

Uma favela no Grande Porto?



Parece uma favela carioca a descer de um morro, visto daqui. Na realidade, não são barracos, mas vivendas construídas desordenadamente, num declive cruzado por ruas em ladeira e escadarias. Aqui muito perto, em S. Pedro da Cova, Gondomar, antiga terra de mineiros e agricultores, no fundo de um vale que justifica o seu nome, ao lado da Serra de Valongo. Em primeiro plano, o "bairro dos mineiros".

sexta-feira, março 14, 2014

D. José da Cruz Policarpo 1936- 2014



D. José Policarpo era o Reitor da Universidade Católica quando lá entrei. Por isso sempre o vi como uma figura de alguma autoridade "reitoral", mas também com certa bonomia, sem grande ar clerical, como se fosse o tio mais velho, que de vez em quando aparece, ocupado nos seus afazeres institucionais. Num encontro da universidade ainda o vi com essas funções, junto do então Patriarca D. António Ribeiro, já bastante doente, que aliás morreria poucos meses depois.

O Arcebispo de Lisboa, depois cardeal, tinha uma autoridade e um desassombro naturais, até pela constante tomada de posições frontais e politicamente incorrectas (mas nunca de forma truculenta ou provocadora), sem nunca ligar às críticas mais do que o estritamente necessário, como quando apelou às jovens portuguesas que pensassem bem antes de casar com um muçulmano de outro país, porque se podiam envolver num monte de sarilhos "que nem alá sabe onde acabam". Muitos chamaram-lhe "xenófobo", até "racista" (como se muçulmano fosse raça), "fundamentalista", etc. Eu limitei-me a rir, até porque os avisos não eram propriamente infundados. Ao longo da sua missão não deixou de dialogar e debater com pessoas de meios completamente diferentes, como Eduardo Prado Coelho, o que acabaria por levar à publicação do livro Diálogos sobre a Fé. E tomou a iniciativa de recordar e reconhecer o massacre de 1506, que vitimou perto de 2000 cristãos-novos, inaugurando, com a Comunidade Judaica e a câmara de Lisboa, o monumento que recorda esse episódio, no Largo de S. Domingos.

O seu hábito de fumar, que não escondia, inspirou algumas sátiras engraçadas, como o episódio da Contra Informação, em que no Conclave se ouve o povo lá fora clamando Habemus Papam, vendo fumo branco saír da Capela Sistina, quando se descobre que na realidade era D. José Policarpo que, farto das indecisões dos cardeais, se tinha retirado até uma janela para fumar um cigarrinho...provocando o falso fumo branco.


Há poucos anos visitei S. Vicente de Fora. Passando pelo panteão dos Patriarcas, cuja existência até então desconhecia, pensei logo que D. José não gostaria muito de passar por ali, sabendo que um dia seria a última morada do seu corpo. Se bem que não fosse assim tão importante, porque afinal de contas, como homem da igreja, interessar-lhe-ia mais o destino da sua Alma, e não tanto do corpo. Esse dia chegou. Numa cerimónia solene, com uma majestade e até uma encenação como só as Igrejas sabem fazer sem cair no ridículo, o Patriarca Emérito teve direito às últimas homenagens, dignas do seu papel de primeiro plano na Igreja e na sociedade portuguesa. 

Que descanse em paz e que Deus o receba.

terça-feira, março 11, 2014

Uma boa solução



A solução encontrada pela Câmara Municipal do Porto para recuperar a Feira do Livro é um excelente exemplo de como entidades públicas podem fazer incentivos à cultura sem ceder às habituais chantagens dos "agentes culturais" e dos oportunistas da subsidiodependência do ramo. No ano passado, Rui Rio não quis ceder às exigências da APEL (que pretendia um acordo por vários anos com 75 mil euros anuais de subsídio) e quebrou a corda, deixando a cidade sem a Feira pela primeira vez em 80 anos. Agora, os senhores da APEL voltaram a exigir as mesmíssimas condições (i.e. subsídios e contrato prolongado, para além de todas as facilidades logísticas) depois de acordarem verbalmente que não as receberiam. Resultado: a Feira do Livro do Porto não se realiza em Junho, na rotunda da Boavista (para onde estava planeado regressar), mas sim nos jardins do Palácio de Cristal, em inícios de Setembro, organizada pela própria CMP. Não se perde nada, apenas se espera um pouco mais, o local é muito mais agradável e com melhores condições do que entre o trânsito da rotunda, há o apoio precioso da biblioteca Almeida Garrett e nessa altura ainda é Verão. A APEL que pense duas vezes, para a próxima.

sexta-feira, março 07, 2014

Óscares 2014


Não vi a maior parte dos filmes a concorrentes à estatueta dourada, e menos ainda aos que tinham mais nomeações, por isso as minas preferências eram localizadas. Não posso portanto dizer se compensa ficar Doze anos Escravo, se uma Golpada Americana não compensa, isso e ser um Lobo de Wall Street, ou se a Gravidade é assim tão reconhecida. É engraçado ver o já experiente Matthew Mcconaughey ganhar o prémio de Melhor Actor, mas Leonardo de Caprio, com tanta nomeação falhado ao prémio, arrisca-se a ser o novo Peter O´Toole (mas talvez possa ser um novo Paul Newman, que aliás ganhou essa estatueta num filme dirigido por Scorcese, de quem Di Caprio é o actual actor fetiche). Sobre a menina autenticamente afro-americana (vão ver a ascendência dela) não me pronuncio, porque não a conheço nem à sua interpretação. Também não vi o filme da estrela rock que ficou como Melhor Actor Secundário e que ainda há coisa de uns meses resolveu dar um concerto surpresa em pleno Chiado, agarrado à estátua do dito.

Mas o grande momento do espectáculo seria, como não podia deixar de ser, a conquista do Óscar de Melhor Actriz por parte de Cate Blanchett, pelo seu papel arrasador de uma neurótica em queda em Blue Jasmine, de Woody Allen, ao fim de várias nomeações. Uma prova de que ainda há justiça neste mundo (com desculpas a Dame Judi Dench).


terça-feira, março 04, 2014

A 2ª guerra da Crimeia?



À crise na Ucrânia sucedeu a crise na Crimeia, que alguns já consideram como sendo estado de guerra. Com a alteração do estado de coisas em Kiev, boa parte da população da península, afecta aos russos, iniciou um contra-movimento, erguendo a bandeira russa onde podia, fazendo valer a sua maior ligação a Moscovo do que a Kiev. Na confusão que se seguiu, conseguimos ver manifestações e combates de rua entre tártaros da Crimeia, herdeiros do Kanato que ali reinou até ao século XVIII e que Estaline tentou exterminar, contra cossacos locais, que nos leva a perguntar se fomos transportados para a época de Catarina, a Grande ou o romance Miguel Strogoff.


As últimas notícias são confusas, mas muito pouco animadoras: grupos paramilitares a ocupar edifícios administrativos em Simferopol, com o governador local a declarar fidelidade ao "povo da Crimeia". A Duma de Moscovo a autorizar por unanimidade o emprego de tropas na região para "proteger os russos que aí habitam". Forças russas (não só da Marinha, da base naval de Sebastopol) a tomar posição, sendo já 22 mil - a Rússia pode ter efectivos até 25 mil homens na península, segundo os tratados que firmaram a concessão da base naval da frota do Mar Negro. Cerco dessas tropas a bases ucranianas, e mesmo um ultimato para se renderem (fontes russas já desmentiram). O comando naval ucraniano também a declarar a sua fidelidade ao "povo da Crimeia " (isto é, à Rússia). Manifestações pró-russas em várias cidades do Leste da Ucrânia, como Donetsk e Karkhov. Manifestações contra o envio das tropas em Moscovo, tendo resultado em trezentas prisões. Ou seja, a Rússia invocou o direito à protecção das suas populações para, de facto, ocupar militarmente a Crimeia. Não é muito diferente do que aconteceu em 2008, quando não hesitou em enviar os seus tanques e aviação para reprimir a Geórgia, sob o pretexto de proteger a Abkházia e a Ossétia do Sul. E se a Ucrânia se lembra de proteger os tártaros, esse povo das estepes asiáticas, tradicionalmente inimigo da Rússia, que já ali vivia há séculos e que em grande parte deportaram para a Sibéria depois da 2ª Guerra? 


Entretanto, os países da NATO ameaçam com sanções, a expulsão da Rússia do G-8, etc. Pouco poderão fazer mais, até porque além da França e Inglaterra, únicas nações europeias com real poder militar, e que decerto não quererão intervir, quem rechaçaria a Rússia? A Polónia? Roménia? Repúblicas bálticas? Claramente insuficiente. Obama e os ministérios dos negócios estrangeiros europeus devem estar a passar dias de angústia, só de pensar na hipótese de guerra. e não é para menos. 

Não é impunemente que se recorda a Guerra da Crimeia, em meados do século XIX, da invasão alemã da Checoslováquia para "proteger os Sudetas", do genocídio soviético ou da crise dos mísseis de Cuba. A Rússia assinou um tratado com a Ucrânia, em que se comprometia a respeitar a integridade territorial deste país em troca do arsenal nuclear que lá restava. Agora, prepara-se para rasgar esse acordo, para impedir a deriva dos ucranianos para o ocidente, depois de derrubarem o cleptómano Yanukovitch (que, coincidência, se refugiou em Rostov). Confiam no seu poderio militar e nos muito apoiantes que têm no leste e sul da Ucrânia, sobretudo na Crimeia. Mas também podem pôr o pé em falso. Aliás, ainda hoje a bolsa de Moscovo registou uma descida vertiginosa. O urso russo tem garras afiadas, mas algum barro nos pés.

Talvez o mais óbvio fosse a Crimeia  fazer parte da Rússia (assim como a Bielorússia, ou Kalininegrado/Konigsberg na Alemanha) mas a "dádiva" de Krushev nos anos cinquenta, quando a URSS parecia eterna, a confusão da desagregação em 1991 e a incompetência dos russos em conseguir mantê-la determinaram no mapa que pertenceria à Ucrânia. Esperemos que nos próximos dias não rebente um real conflito armado nessa zona balnear, habitual estância de Verão do Mar Negro, que teria consequências funestas. E ninguém sairia a ganhar, mesmo que vencesse militarmente.

Para acompanharmos a situação, podemos ler o blogue Da Rússia, de José Milhazes, e as reportagens de Paulo Moura na Crimeia, entrevistando russos e tártaros.


PS: uma dúvida importante era qual seria o papel da Turquia, membro da NATO e ocupante da margem Sul do Mar Negro, em todo este caso. Rui Tavares esclarece-nos, num artigo desta semana: os turcos estão solidários com os tártaros da Crimeia. muita atenção a esta potência que provavelmente, e na senda do "neo-otomanismo" de anos recentes, quererá dar uma palavrinha em todo este caso.

quarta-feira, fevereiro 26, 2014

Mário Coluna


Eusébio partiu em Janeiro. Fiel à promessa que fizera à sua mãe, dona Elisa, de que cuidaria do "miúdo", Mário Coluna, o mítico capitão do Benfica e dos "Magriços" seguiu-o pouco tempo depois.


Os Monstros também morrem, mesmo os Sagrados.



terça-feira, fevereiro 25, 2014

Efeitos directos e colaterais do congresso do PSD


Dizer se o congresso do PSD gerou alguma mudança visível no partido ou no governo é tarefa difícil. Permitiu que ex-líderes aparecessem de novo na ribalta, ou melhor, no palanque, que Santana mostrasse que não se esqueceu da vida política, que Menezes não engoliu ainda a derrota nas Autárquicas e que Marcelo, num estilo coloquial e descontraído semelhante ao das suas entrevistas dominicais, se afirmasse ainda mais, embora tacitamente (e sempre negando, como mandam as regras) a sua futura candidatura presidencial. Deu até para ver Miguel Relvas regressar destacado, no que terá sido o único tiro no pé de Passos Coelho.

Decisão a sério, só uma: a designação de Paulo Rangel como cabeça de lista da "AD" às próximas europeias, e, por via do seu eficaz e incisivo discurso, desafiando António José Seguro a revelar o seu candidato, a resposta pronta, embora antes de tempo, do PS, que apresentou Francisco Assis às eleições.
Teremos dois candidatos válidos, com experiência no Parlamento Europeu, cultos, longe dos lugares-comuns político partidários, e, por coincidência, cronistas no mesmo jornal, antigos candidatos à liderança dos seus partidos contra os actuais líderes, e originários do distrito do Porto - Rangel de Gaia e Assis de Amarante. Ao menos aqui as qualidades dos políticos não podem ser postas em causa.


segunda-feira, fevereiro 24, 2014

O que se segue na Ucrânia


Afinal a Ucrânia não entrou em guerra. O descontrolo da situação e a ameaça de mais violência levaram a que as forças de segurança parassem por ali. E com a ocupação do parlamento, Ianukovitch resolveu fugir enquanto era tempo. Depois, a libertação de Yulia Timoshenko, as comemorações de vitória na praça Maidan (a Tahrir dos ucranianos), as homenagens aos mortos e a declaração de exoneração do presidente pelo parlamento. Não é uma Bósnia, mas tal como já tinha dito, assemelhou-se bastante à Roménia em 1989, com protestos em massa, inúmeros mortos provocados por atiradores do regime, a fuga do presidente de helicóptero (o meio de transporte de ditadores/estadistas de saída) e a descoberta do luxo asiático em que vivia, com casas de campo monstruosas, torneiras em ouro, frotas de carros de alta cilindrada, provas irrefutáveis de nepotismo em favor dos filhos, etc. A única coisa que difere da revolução romena é que desta vez não houve aquela parte mais sangrenta dos fuzilamentos.

Mas embora estejam eleições gerais previstas para Maio, a situação está muito, muito longe do fim. Outras partes do país não estão muito pelos ajustes. Na Crimeia, outrora dos russos, têm-se multiplicado manifestações contra a nova situação e a favor do grande vizinho. E embora o boato de que a Rússia já teria enviado tropas especiais para aquela península do Mar Negro seja pouco crível, há que não esquecer que a sua frota tem a principal base em Sebastopol, concessionada pela Ucrânia por mais trinta anos, e que certamente não vai deixar que a situação fique assim. Aliás, as últimas informações dizem-nos que Ianukovitch, depois de tentar apanhar um avião em Donetsk, teria embarcado num navio (ou seu iate ou um navio russo, não se percebe bem) nesta cidade-base naval.


Como se vê, o futuro da Ucrânia, apertada num colete de forças geopolítico, é mais incerto do que nunca. a única coisa mais ou menos pacífico é que Ianukovitch, expulso pela população que entretanto descobriu a sua "caverna de Ali babá", desprezado pelo próprio partido pela sua deserção e criticado pelos russos pela sua incompetência, não voltará certamente à cadeira presidencial

quinta-feira, fevereiro 20, 2014

Depois dos protestos, a guerra declarada


Há uns dias dedilhei um post sobre o discreto apagamento da crise ucraniana dos noticiários e jornais. Escrevi cedo demais. O conflito ressurgiu com violência inaudita, e a estas horas, o número de mortos, só os de hoje, chega aos 75, entre civis e polícias. Aquilo que eram protestos inflamados transformou-se numa pré-guerra civil, com barricadas, mortos e feridos e ocupações de edifícios governamentais por todo o país (ou melhor dizendo, pelo ocidente do país). A população de Kiev e do lado ocidental, pró-europeia e tradicionalmente desconfiada do grande vizinho russo, com activistas radicais à mistura a incendiar a situação, quer o derrube do governo e o afastamento da Rússia. Claro que o país de Putin, que pensa em restaurar a sua zona de influência no antigo espaço da URSS através de uma nova comunidade por si chefiada, nunca poderia permitir uma Ucrânia com relações especiais com a UE e a NATO. Bem lhe bastou perder as repúblicas bálticas e os antigos satélites do Pacto de Varsóvia (que exibem orgulhosamente a sua pertença àquelas duas organizações) para agora perderem também a Ucrânia, afinal o berço da Rússia, presidida por um notório pró-russo.

Entre os manifestantes há inúmeras milícias semi-armadas, militantes do partido radical Svoboda ou neonazis declarados, que queimaram edifícios governamentais e pilharam a sede do Partido das Regiões, no poder. Do lado governamental fala-se em snipers instalados nos telhados do centro de Kiev e de milícias formadas por arruaceiros e recrutadas na Crimeia, região pró-russa, onde o partido comunista local, nostálgico da URSS, defende a união com a Rússia e a Bielorrússia. Com todo esse caldo, não é difícil de imaginar que a situação só muito dificilmente se acalmará. Já houve previsões de que a Ucrânia seria "a nova Bósnia". Não é descabido. A Rússia seria neste caso a Sérvia (ainda para mais um país com quem tem fortes laços culturais), Kiev a nova Sarajevo, a parte russófona a República Sprska e a parte ocidental faria o papel de Bósnia muçulmana-croata. Com a diferença de que as dimensões seriam neste caso muitíssimo maiores e as baixas incontáveis. Além disso, estes protestos em massa e a reacção das forças policiais recordam também a violenta revolução da Roménia, em 1989.


Esperemos que nem Bósnia nem Roménia se repitam. No último século, a Europa já produziu mais horrores do que os que é capaz de assimilar. Uma guerra civil, nas fronteiras da União Europeia, teria resultados tremendos e incertos, para além das perdas de vidas. Sendo optimista, prefiro acreditar que é uma crise efémera, como a que aconteceu há uns vinte anos na Rússia, e que não durará muito mais. Podiam era aproveitar para dividir o país, como fizeram com a Alemanha, ou melhor ainda, com a Checoslováquia, e teríamos uma Ucrânia ocidental e outra oriental. Só que desta vez, e ao contrário do que aconteceu com os alemães, os respectivos habitantes até deviam aplaudir.

segunda-feira, fevereiro 17, 2014

A eutanásia, agora para crianças




Os órgãos legislativos da Bélgica aprovaram há dias a eutanásia a pessoas de qualquer idade, o que implica que uma criança pode pedir para morrer. É um pouco incompreensível como é que uma pessoa não pode casar até aos 16 anos, não pode conduzir, não pode votar, não pode fazer uma infinidade de coisas, mas já tem a possibilidade de pedir para morrer "em casos extremos". Aparentemente, os "humanistas" belgas entendem que sim, que a criança tem essa consciência e maturidade sem ser influenciado por terceiros, mesmo contra a opinião de centenas de psicólogos e pediatras do mesmo país. Agora espera-se que Philippe, Rei dos Belgas, não assine a aberrante medida, ou se o tiver de fazer, que imite o seu tio, o saudoso Rei Balduíno, e abdique temporariamente em protesto contra semelhante coisa. Seria uma barreira poderosa a esta cultura de morte que inquietantemente se vem instalando na Europa, e que não sabemos onde vai parar, sobretudo quando se sabe que há idosos ali ao lado, nos Países Baixos, que têm sido "eutanasiados" contra a sua real vontade.. Isto não é tornar uma sociedade mais "civilizada", mas sim a decadência de uma civilização.

quinta-feira, fevereiro 13, 2014

As regras são para todos, até para Capucho



As ameaças de Aguiar-Branco não foram levadas avante, mas os processos no PSD contra os militantes que se candidataram contra o partido nas últimas autárquicas, embora menos abrangentes do que se chegou a pensar, levaram à expulsão de Marco Almeida, que se candidatou como independente por Sintra, e António Capucho, que era candidato à assembleia municipal dessa autarquia. Já sei que a maioria deplora a expulsão deste último, considerando até que o processo que levou à sua saída é "estalinista". Compreende-se: para além de estar com o PSD desde os primeiros dias, Capucho é um representante da história do partido e ocupou um sem número de cargos (no governo, na AR, no Parlamento Europeu, de que chegou a ser cabeça de lista numas eleições, na câmara de Cascais). Pode dizer-se que é um dos famosos "barões" laranjas, já a resvalar para um título nobiliárquico mais elevado. Para mais, tinha razão, como se comprovou, quando se opôs à patética candidatura de Pedro Pinto a Sintra, esse autêntico pau-para-toda-a-colher do PSD, que obviamente, e como qualquer pessoa de inteligência abaixo da média podia prever, teve um resultado vergonhoso.

Mas os partidos não podem ficar sempre reféns de cálculos eleitorais convenientes: têm também de seguir as regras que estabeleceram previamente. Qualquer agremiação, clube, partido - até um país, vejam lá - que estabeleça um conjunto de normas para se reger deve cumpri-las minimamente, sem ceder a discricionariedades convenientes. Chama-se a isso domínio da Lei e do Direito, e é exactamente por tanta gente se furtar a ele e procurar subterfúgios que o chico-espertismo tem tanto sucesso em Portugal.

Além disso, Capucho é também um dos autores dos estatutos que que previam expressamente a expulsão (e não a simples suspensão) de militantes que se candidatassem em listas opostas às do partido. Ficar-lhe-ia bem seguir o que ele próprio estipulou e devolver o cartão do partido. Outros o fizeram, em situações idênticas. Guilherme Pinto, por exemplo, deixou o PS. E a propósito, não me lembro de ver tanta indignação e acusações de "estalinismo" quando o PS expulsou Narciso Miranda. As regras não são gerais e abstractas? Ou são particulares e concretas e aplicam-se consoante a "importância" do prevaricador? Nesse caso, a igualdade será uma grandessíssima treta e as regras só servem para decorar códigos e empregar juristas. Capucho podia ser um dos mais válidos militantes laranjas, Passos Coelho pode ser um medíocre Primeiro-Ministro e quem dirige o PSD actual um péssimo exemplo da política nacional. Mas que eu saiba as regras continuam iguais para todos, e devem ser cumpridas em primeiro lugar por quem as institui. A não ser que nesta república das bananas as normas sejam vãs. Quem acha que as regras só são para se cumprir quando é mais conveniente e se levantou contra a expulsão de Capucho pelas razões que ele próprio criou que não venha depois invocar, por tudo e mais alguma coisa, esse ambíguo princípio da igualdade.

terça-feira, fevereiro 11, 2014

Os problemas dos estádios já não são de agora


O bizarro adiamento do Benfica-Sporting talvez tenha permitido evitar males maiores, mas a verdade é que a queda maciça de lã de rocha, ou como se chamava aquele material que muitos pensaram inicialmente ser detritos trazidos pelo vento (e de que toda a gente fala como se fosse da vida corrente) transtornou a vida a muita gente, incluindo muitos que se deslocaram centenas de quilómetros e sobretudo o autor destas linhas, que saiu de casa de propósito em tarde de temporal para ver o dérbi.


Embaraça-me ver o grandioso estádio da Luz, que devia ser um modelo de excelência, sofrer problemas deste calibre, mesmo com o desconto da ventania que se fazia sentir em todo o país, e em particular em Lisboa, onde áquela hora atingiu os cem kms por hora. Ver pedaços de lã a voar e placas de metal a cair nas bancadas não é aceitável. De qualquer forma, parece que o jogo se realizará mesmo sem mais problemas, e quanto aos delegados da UEFA que vieram fazer inspecções para a final da Liga dos Campeõs, não me parece que escrevam um relatório muito tenebroso: afinal, a evacuação de mais de sessenta mil espectadores decorreu em poucos minutos e sem problemas, além de que em Maio, altura da final, não costuma haver ventos ciclónicos e situações climatéricas difíceis como no Domingo.


Mas críticas e remoques que se ouviram, sobretudo da parte de alguns sportinguistas ufanos da temporada que a equipa em vindo a fazer (embora só esteja presente numa competição) recordaram-me episódios de irresponsabilidade bem piores quanto a medidas de segurança. Um deles já data de há mais de vinte anos, mas muitos ainda se devem lembrar: o caso da pala de Alvalade. A cobertura datava da construção do estádios, nos anos 50, e um parecer técnico do LNEC (a mesma entidade que o Sporting queria que fizesse uma vistoria à cobertura da Luz), tendo detectado falhas estruturais, determinou a interdição daquela bancada e a remoção da pala. A secretaria de estado da Cultura, com Santana Lopes à frente, decidiu que o espaço teria de ficar suspenso até nova decisão. O sporting protestou e chamou o veterano Edgar Cardoso, um dos autores da obra, que passeando e saltando por cima da pala, afirmou que aquilo era seguríssimo e que não havia qualquer problema. Imediatamente se levantou a suspensão (em vésperas de um importante concerto rock programado para quele estádio), fizeram-se umas pequenas obras de melhoramento e não se pensou mais no caso, até à efectiva demolição do estádio, mais de dez anos depois. Só uma pessoa protestou contra o desfecho do caso: Maria José nogueira Pinto, que era Subsecretária de Estado da Cultura, e que, sentindo-se desautorizada e achando que tudo aquilo era uma insensatez, pediu a demissão.

Como se vê, a irresponsabilidade dos clubes de futebol tem antecedentes que felizmente não tiveram piores consequências. E atingem mesmo as melhores famílias, perdão, clubes.

Esperemos que o jogo não tenha problemas, e que se possível, o Benfica ganhe.


PS: ganhou e convenceu. Aquele golo do Enzo levanta qualquer estádio. Duvida-se que algum dos imberbes e amedrontados jogadores do Sporting conseguisse marcar um assim.

segunda-feira, fevereiro 10, 2014

Já se esqueceram da Ucrânia?


Por falar na Europa e na UE, dir-se-ia que depois de dias de intensa cobertura jornalística a paz voltou a reinar na Ucrânia. Então e o braço de ferro entre Ianukovitch e os amotinados comandados por Klitschko e o seu partido, apropriadamente chamado Udar ("murro")? E as barricadas, desapareceram? Já se limparam as praças de Kiev? E os edifícios públicos tomados pelos revoltosos, já foram desocupados? A Rússia e o ocidente já chegaram a acordo sobre quem vai "influenciar" mais a Ucrânia? Ou será Rússia e EUA, já que para a diplomacia americana, e a julgar por um telefonema "informal" e privado da subsecretária de estado, a UE não conta?

É mais um dos assuntos que durante dias abre os telejornais e depois volta a cair no esquecimento ou a passar para as colunas mais escondidas das secções internacionais da imprensa. E no entanto devia preocupar toda a gente. O país está na linha de fractura da zona de influência União Europeia-Rússia, que a disputam como abutres sobre a carne morta. É vítima de chantagens, aliciamentos, experiências. Os russos não vão querer largar esta presa, antiga fatia de grande importância do seu território, que perderam com o estilhaçamento da URSS por culpa do seu plano chico-esperto em criar uma república autónoma que tivesse assento na ONU, ganhando assim mais um lugar. Os Estados unidos e a UE, com a Alemanha à cabeça, pensam cercar a Rússia e ganhar ali novo posto avançado em direcção à Ásia.


É difícil tomar partido por qualquer dos blocos, mesmo que de um lado pareça estar o bloco democrático e do outro um velho império autoritário, sustentado em gás natural. A parte oeste da Ucrânia, que em tempos constava do Império Austro-Húngaro, e Kiev estão vigorosamente do lado ocidental. Mas a parte leste, a bacia do Don e a Crimeia, lideradas pelos grupos de Donetsk, preferem o apelo da Rússia. São as duas Ucrânias que se enfrentam, a ocidental e a russa agora nas ruas, completamente divididas politicamente. A ironia trágica é que as duas principais potências que a disputam, a Alemanha e a Rússia, foram precisamente as que lhe trouxeram as maiores atrocidades no último século: os soviéticos nos anos vinte e trinta, nos quais milhões morreram de fome ou massacrados, os nazis nos anos quarenta, quando impuseram a sua brutalidade no avanço da Operação Barbarossa. Os ucranianos deviam fugir deles a sete pés, mas entalados que estão, só lhes resta ver qual a facção que vencerá, se é que tudo não passa de ciclos sucessivos e rotativos, em que ora ganha uma, ora ganha outra.

sábado, fevereiro 08, 2014

Esperança em que as europeias sejam mais interessantes do que o costume


Se as autárquicas já foram interessantes e animadas, com o fim dos dinossauros, o sismo na Madeira e o protagonismo dos independentes, as próximas europeias prometem não defraudar as expectativas, o que não é difícil, dado o nível de interesse que o eleitorado tem por este tipo de eleições, convencidos que "é para votar nos tipos que vão lá para a Europa".

É verdade que os assuntos da UE interessam muito pouco ao comum dos portugueses - provavelmente também aos outros membros, excepto talvez aos do Benelux - e quem sabe, à maioria dos candidatos. Talvez por isso as eleições europeias sejam usadas mais como barómetro à popularidade do governo vigente. Geralmente, com raras excepções (1987, 2004), são-lhes desfavoráveis, embora não signifiquem necessariamente a sua total recusa (vide 2009). O Parlamento Europeu é visto como o representante mais visível da euroburocracia comunitária, ou exílio dourado como recompensa de sacrifícios partidários. Ainda para mais, os dias das eleições costumam ser feitas no início do Verão. Não admira que a abstenção seja sempre o vencedor absoluto.

É raro vermos outsiders nas Europeias. Em 2009 tivemos como novidade o Movimento Esperança Portugal, que entretanto já se extinguiu como partido, encabeçado por Laurinda Alves. Em 1987 e 1989 tinha sido Miguel Esteves Cardoso, pelo PPM, a quase conseguir ser eleito graças a uma campanha bem disposta e politicamente incorrecta (com aquele slogan Patriotas sim, pataratas não). Em 1994, Ivan Nunes infiltrou-se nas eleições com o Política XXI, que nem sequer era um partido. E de resto, nada mais, tirando a bizarra candidatura do Maestro Vitorino de Almeida pelo MDP-CDE em 1989.


É pena, porque no meio das banalidades e da competição para ver quem tira mais pontos ao partido no poder (ou, tratando-se deste, saber o quanto aguenta), não se ouvem ideias praticamente nenhumas. E nos casos supracitados houve sempre algo de inovador, de novo, ou pelo menos de mais animado entre o torpor das noites soalheiras que são por norma as campanhas das europeias.

Por isso, a campanha de Maio promete. Já se sabe que não há união da esquerda radical (que surpresa!), uma vez que o Bloco não quer nada com o Livre, provavelmente ainda agastado com Rui Tavares, o "3 D" queria juntar-se-lhes porque, não sendo um partido, não pode concorrer; e o Livre entretanto já enviou as assinaturas necessárias para o TC, mas está numa corrida contra o tempo, porque a legalização pode chegar apenas depois do fim do prazo para os partidos apresentarem as suas candidaturas. Espero sinceramente que o consigam, mesmo que o "3 D" não o apoie: Rui Tavares, partindo do princípio que será cabeça de lista, revelou-se competente em Estraburgo (até recebeu sarcasmos num comício do primeiro-ministro húngaro), e ao menos sabe-se que irão discutir assuntos relacionados com a UE.

Depois temos o Partido da Terra com Marinho Pinto a cabeça de lista. Não faço a menor ideia quais serão os temas que o ex-bastonário da Ordem dos Advogados vai abordar, até porque nunca o vi falar de problemas ambientais das questões do mundo rural.. Provavelmente converterá os seus habituais alvos em Portugal em alvos europeus. Certo é que se for a debate esperam-nos afirmações exclamativas e interrupções frequentes. Será uma boa oportunidade para testar finalmente o que vale nas urnas.

E agora até Nicolau Breyner resolveu ir a jogo. Não é a primeira incursão do actor na política, se nos recordarmos que em 1993 se candidatou a Serpa pelo CDS-PP e conseguiu a proeza de eleger dois vereadores, mesmo que nem tenha aquecido o lugar. Desta vez é o cabeça de lista de uma coligação eurocéptica, de que se sabe fazer parte o Partido da Nova Democracia (os outros serão provavelmente o PPV e o PPM, que com o PND formaram uma candidatura conjunta a Lisboa) e que fará sobretudo campanha pela saída de Portugal do Euro. Haja ao menos alguém que vem completar o nicho de eurocépticos, e sobretudo, lançar a discussão sobre a permanência no Euro. Até porque não se limitam a fazer de barómetro partidário. a questão é saber se o "Nico" estuda devidamente os dossiers sobre a matéria.
Em todo o caso, seria interessante ver num mesmo debate Nicolau Breyner, Rui Tavares e Marinho Pinto, fora outras eventuais surpresas (estou a excluir os grandes, evidentemente). Ao menos não se ficam por meias palavras e sempre podem travar alguma abstenção.

terça-feira, fevereiro 04, 2014

Philip Seymour Hoffman


Uma pessoa está uns dias afastada do Mundo, a orare e laborare, afastado das notícias, da azáfama citadina, da vida mundana e das suas mesquinhices, e quando regressa e abre o computador, depara-se com isto. Simplesmente o desaparecimento de um actor de que bem se podia dizer que era "o melhor da sua geração" (no cinema americano, em todo o caso).

 Das pequenas participações em filmes dos irmãos Cohen e Minghella ao retrato afectado de Truman Capote, que lhe valeu um Óscar de Melhor Actor, dos filmes de Paul Thomas Andersson (e não consegui ver The Master...), de quem era uma espécie de actor-fetiche, a retratos hilariantemente realistas, como o agente da CIA de Charlie Wilson´s War, e de tantos outros, mais obscuros, é difícil escolher a sua melhor interpretação. Já há muito que tinha ultrapassado (e confirmado) o estatuto de simples "promessa", mas certamente esperávamos que ainda tivesse muito para dar à Sétima Arte. Certo é que nunca se negou a interpretar os papéis mais difíceis e arriscados, que qualquer filme em que entrasse era sinónimo de dinheiro bem gasto no bilhete, e que será daqueles actores que continuarão a ser recordados daqui a cinquenta anos - desde que ainda haja cinema.


sexta-feira, janeiro 31, 2014

Praxes, causas e consequências


De repente, toda a gente fala em praxes, práticas académicas, toda a gente discute se são "tradições" ou "barbárie", se devem ser preservadas, proibidas ou modificadas. A discussão já tem décadas (séculos, até), mas anda sempre em círculo, sem se chegar a acordo possível. Desta vez surgiu a propósito dos estudantes arrastados por uma onda na praia do Meco. A tragédia aconteceu dias antes do Natal, gerou o choque normal durante uns dias, e depois pouco se falou. Quando li a notícia pensei que fosse uma embriaguez estudantil académica nocturna, não necessariamente uma praxe, que os tinha levado à praia numa noite de Inverno em que havia avisos pelo estado do mar, e que por causa de uma terrível irresponsabilidade, tinham pago com a vida. Parece agora que houve mais qualquer coisa.


Nem eu nem ninguém, excepto o sobrevivente, sabe o que realmente se passou, e se a causa da tragédia se deve a um qualquer ritual obscuro praxístico. Mas a violência do acontecimento, autêntica história trágico-marítima, e as reacções exacerbadas que daí resultaram, leva a que as pessoas procurem uma causa e um culpado. Lá voltou a praxe às conversas dos dias que passam, e os diferentes pontos de vista, quantas vezes exacerbados.

As opiniões sobre esta matéria dependem, naturalmente, da experiência de cada uma, e, de quem não a tendo, do que vê e ouve. No meu caso não tenho muito a dizer. A praxe que "sofria" na UCP do Porto, nos anos noventa, intimidava no primeiro dia porque não se sabia ao que se ia. A partir daí, era mais uma brincadeira que outra coisa. Sim, também tivemos praxes na praia, que aliás era muito perto, mas nada de rituais nocturnos junto à rebentação: eram sobretudo construções na areia, no tempo soalheiro de Outubro. Mesmo o "tribunal" era uma audiência de cenário tétrico, de janelas fechadas e decorado com capas negras, iluminado com velas, onde os caloiros faziam o possível para não rir. Pelo meio, uns jantares, uns copos, o "baptismo" no chafariz do Passeio Alegre, e depois parava tudo, até à Queima. Numa situação, foram mesmo os "veteranos" a sanar um problema em que um professor se tinha recusado a dar uma aula por mau comportamento dos alunos (todos acabados de entrar na faculdade).Claro que havia quem não gostasse, e um caso ou outro de uma caloira que desatava a chorar. Imediatamente os responsáveis tinham uma conversa com ela, tratando-a como uma amiga, até que as coisas se compunham. E pelo meio havia também um ou outro trajado que, inseguro da sua autoridade natural, falava mais aos berros, ou revelava uma notável tendência para a parvoíce ou boçalidade.


Também por isso espanto-me a ver, todo o santo ano, grupos de caloiros com as respectivas "cores" e
roupagens de praxe, guiados pelos respectivos "doutores", a desfilar pelas ruas com os seus cânticos de guerra. Que eu me lembre, estas coisas aconteciam em outubro. Mas em Janeiro e Fevereiro, em épocas de exames? Ou antes do Verão, quando supostamente já nem há caloiros? Quem é que se lembra de tamanha excentricidade? Ou as alturas de estudo mudaram, ou as praxes tornaram-se uma forma de vida do quotidiano.

Talvez seja por esta explosão praxística, esta overdose de "tradição", originada obviamente pelo boom de universidades privadas, como a Lusófona, que só é notícia pelas piores razões, como agora, que se discute com mais virulência as praxes e as formas de a controlarem. Talvez fosse melhor olhar antes de mais para essa causa, a da multiplicação de cursos e cursilhos nem sempre muito exigentes, para ser bondoso. É que a sofreguidão em se possuir um "canudo", ser-se tratado por "doutor" e poder-se dizer que se andou na faculdade, que afecta boa parte da classe política, e que tanta mediatização tem atraído, também se reflecte nos morcegos de traje, os tais "doutores" académicos. Se o universo de politécnicos, institutos e universidades de vão de escada é tão pouco regulado em Portugal, porque não haveria de o ser igualmente as suas extracções, cópias de verdadeiras tradições que havia em academias e universidades mais antigas? Se acham que as praxes estão fora de controlo, mexa-se antes nas instituições que estão na sua origem. e talvez se faça alguma coisa. Proibir pura e simplesmente, como quer fazer o Bloco (só podia), com o argumento do "fascismo", é pura retórica supostamente anti-populista. As praxes devem continuar, porque têm realmente um efeito integrador, para quem o deseje. Se houver abusos, os seus responsáveis devem prestar contas entre eles ou perante os corpos da faculdade respectiva, ou na pior das hipóteses, nas instâncias criminais. Mas antes, vejam onde é que elas se produzem, e se o ambiente académico e pedagógico respectivo não é de mera compra e venda de cursos, sem muito mais exigências.


sábado, janeiro 25, 2014

Liaisons dangereuses ou nem tanto?



As escapadelas de Monsieur Hollande, esse "presidente normal", deixaram a França meio a rir, meio admirada de ver um tipo com o carisma de um cágado e aparência do perfeito manga de alpaca com um currículo feminino de respeito. Dadas as tradições de casos amorosos dos chefes de estado do hexágono, dos luíses aos presidentes da V República, passando por Bonaparte, os franceses não terão certamente estranhado, bem pelo contrário, e Hollande não terá perdido qualquer voto com as suas aventuras. Aliás, dado esse historial só reforçam o seu estatuto de "presidente normal".

Muito embora o adultério seja um traço deplorável em relação à pessoa com quem supostamente se quer partilhar a vida, a verdade é que, casos extremos à parte, não mancham qualquer actuação do incumbente de um político. Sórdidas novelas como a que vimos à volta de Bill Clinton, e que tivemos a desonra de assistir em finais dos anos noventa naquela terra puritana a que chamamos vulgarmente Estados Unidos, não têm grande audiência deste lado do Atlântico, felizmente. E para ser franco e descer um pouco à conversa de comadre, não sinto pena algum pela actual "primeira dama" do Eliseu, a frondeuse Valérie Trierweiler. Além de possuir um ar muito pouco simpático, é bom recordar que também ela se tinha envolvido com Hollande quando ele ainda se encontrava com Segoléne Royal (aliás muito mais interessante), e que aliás já este ano influenciou a sua derrota no círculo eleitoral para a qual era candidata ao parlamento.

Dito isto, há alguns pormenores que não são exactamente da "estrita vida privada" dos estadistas: por exemplo, os achaques de Madame Trierweiler, que gasta uns bons milhares de euros por mês aos fundos estatais, o mau ambiente que isso possa trazer ao Eliseu. mas sobretudo, as questões de segurança do próprio Hollande. Claro que é cómico vermos a personagem fugindo à socapa do apartamento de Gayet (que a propósito, já não é exactamente uma "jovem", e sim uma quarentona) naquela moa-triciclo, com o capacete a mostra-lhe os olhos assustados. Mas e se alguém menos recomendável - um jihadista, por exemplo, aborrecido com a intervenção no Mali -  soubesse quem ia ali? E depois, há ainda a questão do apartamento, ao que parece propriedade de uma amiga da actriz, com relações obscuras com mafiosos corsos. É bom lembrar que a profissão de espião é das mais antigas da humanidade. E que a alcova é das mais clássicas (e eficazes) maneiras de se sacar segredos de relevo, influenciar-se augustas figuras, e assim se moldar o curso da História.


PS: claro que se o normal monsieur Hollande escapar disso, das críticas de todos os socialistas da Europa já não escapa, depois da incrível inversão do programa económico para os próximos anos, ultrapassando Sarkozy pela direita. e pensar que era a "esperança" da esquerda há menos de dois anos. Mas Miterrand teve uma actuação muito semelhante.

quarta-feira, janeiro 22, 2014

O tacticismo de Marcelo



Duvido muito que Marcelo Rebelo de Sousa, ao contrário do que disse na sua crónica semanal televisiva, tenha desistido da candidatura presidencial. Já há anos que alimenta esse objectivo e sabe que tem popularidade e notoriedade para o conseguir. Mas bom tacticista como é, preferiu revelar a ideia aos telespectadores para obter reacções de desagravo do PSD (Passos coelho já veio apressadamente desmentir) e o apoio por parte do público, que de outra forma nem ligaria à moção do actual PM. E é verdade que esta impressiona pela sua tonteria e credulidade de que irá fatalmente ganhar as eleições de 2015 e impor o seu candidato presidencial, para além da arrogância em fazer crer que bom, bom, é um presidente imóvel e meramente institucional. Se é para isso, mais vale fazer como na Alemanha ou em Itália e pôr o parlamente a votar num "venerando senador". Poupava-se dinheiro e seria menos um argumento a favor da república. Mas Marcelo sabe que as divisões no PSD, a impopularidade do governo e as duvidosas hipóteses de Durão e Santana jogam a seu favor. Até porque se o aparelho laranja o afastar explicitamente em favor de outro, pode sempre recorrer a um exemplo vitorioso e fresco na memória: Rui Moreira.

quinta-feira, janeiro 16, 2014

Dez anos





E assim chegámos aos dez anos de A Ágora. Sim, este espaço que estão a ler completa hoje dez anos de idade. Uma década, desde aquela madrugada em Janeiro de 2004, em que decidi que nome haveria de dar ao blogue e em que escrevi as primeiras linhas, antes da surpresa de me ver publicado online.

Não é preciso lembrar que raríssimos blogues chegam a esta idade. Da primeira leva, de 2003, quase não deve haver nenhum activo. Da segunda, de 2004, ao qual este pertence por longevidade própria, tão pouco. Claro que na altura jamais pensaria em manter-me tanto tempo no mesmo formato. Cheguei a pensar em convidar mais pessoas para o blogue, em mudar o formato da página, o subtítulo que mostra aos leitores incautos ao que vêm, coisas que acabaram por nunca acontecer. Hoje escrevo estas linhas no mesmíssimo quarto e que o iniciei. O blogue continua a reflectir o mundo do seu escriba, faça ou não parte da actualidade mediática, diga muito ou pouco a quem se depara, nas inúmeras ligações que quotidianamente faz por acaso, pela primeira vez com esta página. Algumas ideias mudaram, o estilo terá sofrido mudanças imperceptíveis, a técnica e os instrumentos à disposição deram nova arrumação aos escritos, e hoje olho para alguns textos que me parecem mais pueris de forma benevolente. Julgo que isso deve acontecer em qualquer pessoa que encontre coisas por si escritas com uma década, sobretudo se se tratar de um projecto no início.

Este caminho solitário, em que é obrigatório alimentar o "bicho" amiúde, ou perdemos imediatamente auditório, nem sempre é fácil. E é bem provável que um dia destes tire umas férias - só e apenas isso. Mas por enquanto, e porque ainda me sobra paciência e tenho algumas coisas que me saltam à vista para escrever, este blogue manter-se-à activo. Quando achar que nada mais tenho para dizer, que não faz sentido ou que se tornou numa obrigação pesada, então encerrarei a sua publicação. Mas não por agora. O que não significa que não possa haver algumas mudanças, ao layout e à apresentação, por exemplo. O nome, esse, garanto, é que nunca irá mudar. 

O caso que faltava para animar o congresso



O curto faits divers dos delegados do CDS do Algarve num restaurante de leitões era a pincelada que faltava para colorir um congresso bocejante, em que quase nada mudou no partido, e que só serviu para a oposição a Portas ganhar mais uns elementos nos órgãos nacionais e Nobre Guedes (caramba, envelheceu como tudo!) fazer o papel de António Costa dos conservadores. Ou seja, uma ou duas coisas mudaram para que tudo ficasse na mesma. Ao menos reuniram-se numa zona fora dos grandes centros urbanos e levaram alguma animação à Bairrada. Mas como quase não há congresso do CDS em que não se assista a casos rocambolescos (do café de Manuel Monteiro ao "eu sei que você sabe que eu sei" de Nogueira Pinto, passando pelas sessões de pugilato protagonizadas por Ferreira Torres e outras facécias), o micro-caso dos leitões apareceu na altura certa. E com evidentes vantagens: deu para saber mais nomes de restaurantes da especialidade, quais os melhores, testemunhos de apreciadores, etc.

O líder, esse, permanece inamovível, ainda que não incontestável, mesmo que os seus mais directos seguidores demonstrem apoio até ao fim.


                                                   (tirado do Corta-Fitas)

quarta-feira, janeiro 15, 2014

Uma semana desportiva proveitosa


Depois da morte física de Eusébio, a semana futebolística tem sido fabulosa. Como se o espírito do Pantera Negra se tivesse apoderado dos seus directos sucessores (o Benfica e o seu legítimo representante como melhor jogador da actualidade) e os tivesse guiado aos respectivos triunfos.

Apesar de saber que os jogadores teriam motivação extra, temia que não fosse suficiente o que acusassem a pressão. Ou algum golpe de menos fortuna, como no ano passado. Mais do que um jogo importante para o campeonato, a tentativa de chegar à liderança, um confronto com o grande adversário dos últimos anos ou mesmo a superação de fantasmas recentes, era a própria honra, mais, era a sobrevivência moral do Benfica que estava em jogo. A homenagem a Eusébio, nos dias a seguir à sua morte, exigia o maior esforço possível.

E os jogadores cumpriram, justiça lhes seja feita. Não com um jogo de uma qualidade extrema ou com a famosa "nota artística", mas com raça, entrega, vontade. Rodrigo, ao marcar aquele primeiro golo de raiva, era a perfeita imagem disso. E com isso desconcertou o Poro, que baixou os braços e pouco ameaçou. O golo de Garay só confirmou a justíssima vitória (que podia ser maior se Rodrigo tivesse sido um pouco mais certeiro), depois do que o Benfica descansou um pouco e o Porto mostrou uns fogachos insuficientes por Quaresma. o árbitro resolveu fazer-se notar, negando um penalty para cada parte e expulsando o jogador errado (expulsou Danilo, deveria ser Jackson) O Benfica não ameaçou mais, mas havia que gerir emoções, e sem Cardozo e Salvio o poder de fogo também era menor. Ficou a vitória natural, o melhor tributo ao Pantera.

Mas ainda antes tínhamos assistido a uma das mais belas coreografias de estádio que provavelmente já se viram em Portugal (podem ver aqui mais em pormenor), a um minuto de silêncio escrupulosamente respeitado, excepto pela meia-dúzia de anti-sociais que aparece sempre, e a uma homenagem singular dos jogadores do Benfica, envergando todos uma camisola com o nome Eusébio. Não era inocente: o peso da camisola e a responsabilidade de a honrar fariam, como fizeram, o seu papel no jogo.

O Benfica guindou-se assim para a liderança isolada do campeonato, recebendo o galardão simbólico de "campeão de Inverno". Insisto no simbólico. Porque com a saída de Nemanja Matic, o esteio do meio-campo e da equipa, o jogador cuja ausência mais se nota, e sem substitutos à altura, será muito complicado manter o nível. Se fosse no Verão, entre épocas, a situação seria ultrapassável. Não agora, a meio. 
Mas de qualquer forma, mesmo que o Benfica nada ganhe (e longe vá o Agouro, que o ano passado já bastou), pelo menos ganhou este simbolicíssimo jogo e defendeu a honra da casa. Isso já ninguém lhe tira.

E logo no dia seguinte, claro, a semi-esperada vitória de Cristiano Ronaldo na Bola de Ouro da FIFA, consagrando-o como melhor jogador de 2013. Até ao anúncio oficial, pela voz de Pélé, ainda estava algo apreensivo com a hipótese de ganhar Messi. Felizmente, ganhou aquele que mais lutou pelo galardão (e que teve alguma sorte, convenhamos, com os disparates de Joseph Blatter). O argentino já parecia um vencedor administrativo, "porque sim", mudando todos os anos os critérios e os pretextos para que ele vencesse. Já Ribery estava lá como representante do Bayern de Munique, vencedor em todas as frentes, uma raciocínio um pouco absurdo dado que se tratava de um prémio individual e não de uma equipa (e para isso talvez Lham ou Robben). E como disse Pélé, quando o português não aguentou a emoção e se desmanchou em lágrimas, "Deus ajuda a quem merece". Mereceu.

Uma nota: o Benfica estava particularmente bem representado na Gala da FIFA. Para além da homenagm a Eusébio ainda tivemos lá Matic, ainda nosso jogador, candidato ao melhor golo de 2013, precisamente um ano atrás (ficou em segundo, mas o golo vencedor, de Ibrahimovic, era mesmo imbatível, mesmo que na realidade datasse de 2012). E o troféu de melhor treinador coube, sem surpresas, a Jupp Heinckes, antigo técnico do Benfica, que depois da humilhação de Vigo e de despedir João Vieira Pinto saiu sem glória para dar lugar a José Mourinho, curiosamente numa das piores épocas de sempre do Benfica.


segunda-feira, janeiro 13, 2014

Ah, o Mar, sempre tão encantador



Até aos 3 anos, andei no centro social infantil neste mesmo local (fica à direita da foto). Pergunto-me que imagem de infância guardaria se tivesse visto ondas deste calibre, como as que assolaram a Foz na semana passada, com um cenário de que ninguém se lembrava. Os actuais "utentes" tiveram de ser levados dali para fora, tal como os velhinhos do centro de dia ao lado. Já agora: tantos mirones apesar do perigo óbvio e previsto? Felizmente tudo não passou de uma molha, alguns riscos nos carros e um grande susto, porque se tivesse acontecido alguma tragédia falava-se logo em "azar" ou em "ondas que apareceram não se sabe de onde" (como ainda há uns tempos ouvi, a propósito de um naufrágio junto à costa). E apesar do reboliço, alguns imprudentes ou fotógrafos temerários não deixaram de fazer a sua incursãozinha para lá das fitas de protecção. As vagas dessa segunda feira de Reis, de Norte a Sul do país, não deixarão certamente de ser recordadas durante anos. Espera-se é que tenham ensinado alguma coisa.



quinta-feira, janeiro 09, 2014

A importância de Eusébio



A despedida do Pantera Negra foi comovente, grandiosa e superlativa, como era justo que fosse. Portugal despediu-se de um dos seus representantes mais notáveis, e certamente o mais conhecido no último século. Em Dia de Reis, como convinha ao "King". Sob a chuva, para reforçar ainda mais as lágrimas. E no meio de toda a emoção, não faltaram os exageros, como propor que o seu nome fosse dado ao Estádio da Luz (coisa que o próprio nunca quis), ou sugestões óbvias, como a sua futura transladação para o Panteão Nacional, coisa absolutamente previsível, já que todos os partidos políticos suportam a ideia sem objecções.

Igualmente previsíveis foram algumas críticas à futura transladação. Desde argumentos clubistas mal disfarçados, até à habitual pedantice a armar ao intelectual despeitado porque seria "um escândalo" que "um futebolista" fosse colocado na mesma situação que essas eminentes figuras que tanto deram à Pátria, como Teófilo Braga, Óscar Carmona ou João de Deus. A deposição dos restos mortais do Pantera Negra é para mim um acto da mais elementar justiça e gratidão. Um homem que é simplesmente o português mais conhecido fora de Portugal dos últimos cem anos, sem internet, Youtubes e smart phones, que numa altura em que o país era notícia por razões obscuras, como a guerra, ou pura e simplesmente ignorado, milhões de pessoas por esse Mundo fora souberam o que era Portugal graças a ele, por boas razões. O primeiro grande futebolista africano (talvez o maior até agora) causou alguma estranheza no mundial de 1966, em Inglaterra, pelo exotismo de um negro jogar numa equipa europeia (além dele ainda havia outros, como o próprio capitão da equipa, Coluna). Para mais, sagrou-se como o melhor goleador e impressionou as assistências. Por causa dele, havia mini-tréguas na guerra colonial. E por ele, agora, inúmeras capas de jornais internacionais colocaram a notícia da sua morte na primeira página, imensos noticiários por todo o Mundo deram a triste notícia, incontáveis figuras do desporto, e não só, sentiram-se na obrigação de dar uma palavra em honra do rapaz da Mafalala. E sobretudo impressionou a reverência feita pelo Manchester United e pelo Real Madrid, que fizeram um minuto de silêncio antes dos respectivos jogos e puseram a bandeira portuguesa a meia-haste. Reparem que estamos a falar dos dois clubes mais titulados de Espanha e Inglaterra, o país vizinho que durante séculos nos tentou anexar e o velho "aliado" que sempre se aproveitou das nossas debilidades quando lhe convinha. Ou seja, dois países que sempre não raras vezes desprezaram (e muitas vezes ainda desprezam) Portugal, que tanto ameaçaram o nosso povo, inclinaram-se e aplaudiram respeitosamente um português africano. Se este homem não merece as honras do Panteão, então que desapareça o Panteão, porque não tem qualquer serventia e não passará de um mono ridículo.

domingo, janeiro 05, 2014

Eusébio da Silva Ferreira 1942 - 2014

 
O Pantera deixou-nos. Definitivamente. Confesso que era uma notícia que temia quando se anunciava novo internamento do King. E fatalmente, teria de chegar. Agora, a pouco tempo de completar 72 anos, (curiosamente seria no dia em que passariam dez anos sobre a morte em campo de Miklos Feher).Causa muita estranheza e impressão ver o símbolo maior do nosso futebol deixar-nos, um homem que, apesar de nunca ter visto jogar, fazia parte do meu imaginário e de que sempre tinha ouvido falar. A lenda tornou-se um pouco mais terrena nos únicos segundos em que o vi, no corrupio daquele aeroporto alemão em dias de grande competição da bola, e em que fui cumprimentar o Pantera, que de repente ali estava à minha frente.
 
A notícia que acordou os portugueses neste triste Domingo deixou a maior parte chocada. Se ainda há alguém que não percebeu a importância de Eusébio, passo a explicar. Não era um mero jogador muito talentoso e um pouco ingénuo que ganhava títulos: era o português mais conhecido em todo um mundo, num tempo sem internet nem telemóveis, o homem que pôs o futebol português no mapa, o primeiro grande ídolo africano, quando moçambique era um colónia e a maioria dos novos estados de África um conjunto de propriedades de sobas que tinham estudado na Europa. Era um português africano que encantou o Mundo e pôs a Inglaterra de 1966, em plena ascensão dos Beatles, boquiaberta de espanto. Era o homem de quem, quando se falava em qualquer ponto do globo, criava um imediato sentimento de simpatia respeitosa para com Portugal. Era, enfim, alguém capaz de calar as armas da guerra colonial nas picadas de África com os seus golos, e que nunca, mas nunca, se queixou dos seu países, o de nascimento e o de sempre. Por tudo isso, o Benfica, e já nem falo dos países mencionados, devia colocar a bandeira a meia-haste durante todo o ano e os seus jogadores pensare nele antes de entrar em cada relvado.
 
Eusébio, o Pantera Negra, o português mais conhecido e admirado do século XX (que me perdoe Amália), era um mito e agora tornou-se definitivamente numa Lenda que nunca será esquecida. Que Deus o guarde pelo muito que nos deu.

 

sábado, janeiro 04, 2014

Recomeço

 
E ao quarto dia do novo ano, décimo primeiro deste espaço, A Ágora reentra em actividade. Com pouco para dizer, note-se. recomeça vagarosamente, ao contrário do clima. Tal como os britânicos, poderíamos começar por falar no tempo, que, depois de uma trégua na noite de ano novo, piorou ainda mais em relação ao Natal, com cataratas a caírem dos céus, ventos arrasadores, granizo com amostras do tamanho de ovos de pomba, raios e coriscos nos céus, vagalhões a assolarem a costa, rios a visitar terreno por norma (mas nem sempre por costume) enxuto e neves abaixo do alto das serras. Para início, estamos bem servidos. E ainda o Inverno está longe do termo. Ah, e temos também um imposto acrescido e com outro nome sobre os reformados. o aumento das receitas fiscais acima das expectativas não devia servir para alguma coisa?

terça-feira, dezembro 31, 2013

O costume do dia de hoje

 
Ah, 2013. Tinha ainda tantos posts para escrever, mas infelizmente a voragem inexorável do tempo vai-me obrigar a deixá-los para o ano que vem (i.e. os próximos dias). E já que a pressão social nos obriga aos desejos, às resoluções para o novo ano, às retrospectivas com "os acontecimentos" e as "figuras" do que passou, à festa na noite de hoje, etc, desejo apenas o trivial: saúde paz, amor e convívio. Para mim, apesar de ter tido alguns momentos curiosos, 2013 desiludiu em vários capítulos. Por isso, e perdoem-me o egoísmo, espero que 2014 me surpreenda pela positiva, que já vai sendo tempo. Ah, e não esquecer que em 2014 A Ágora completará 10 anos de existência. Não é para todos os blogues, perdoem-me a imodéstia.

Um feliz 2014 para todos os leitores.

segunda-feira, dezembro 30, 2013

Albino Aroso 1923-2013


De Albino Aroso, justamente apelidado de "pai do planeamento familiar", só tenho uma discordância mais profunda quanto à questão da liberalização do aborto a pedido. De resto, o médico e professor portuense agora desaparecido aos noventa anos não o terá feito sem grandes lutas de consciência, e de qualquer maneira, poucos ou nenhuns, como ele, terão evitado tanto a mortalidade infantil reduzindo-a em Portugal a níveis que fazem inveja a todos os demais (e quanto algum estrangeiro lhes disser que Portugal é um país de "terceiro-mundo", lancem-lhe essa à cara). O seu modelo de planeamento familiar, construído com base em discussões e acordos, e nunca por imposição, permitiu isso e muito mais, melhorando consideravelmente as condições de maternidade e a saúde infantil, mesmo que para isso tivesse por vezes adoptado atitudes polémicas, a que o tempo daria razão, ou batido com a porta quando entendeu ser necessário. E é da mais elementar justiça que ao novo Centro Materno Infantil do Norte, quase a abrir, seja atribuído o seu nome.
 
 

quinta-feira, dezembro 26, 2013

O Madeiro entre os ventos


O tradicional Madeiro da véspera de Natal, em frente à Sé da Guarda, ficou cancelado por causa do temporal de vento e chuva que se fazia sentir na cidade dos três Efes (e em quase todo o país). Mas alguém desobedeceu ou ignorou o cancelamento, porque na manhã do dia de Natal, o Madeiro estava em brasa, apesar do vento diabólico e rodopiante que dominava o terreiro.