sábado, maio 24, 2014

A final na Luz

 
Finais europeias entre equipas do mesmo país vão tornado vulgares (até Portugal já teve), mas pela primeira vez vão-se encontrar duas equipas da mesma cidade, e logo na prova rainha. O surpreendente Atlético e o poderoso Real nunca imaginariam isso no início da época. E quis a sorte que a final fosse em Lisboa, na catedral da Luz, o que com certeza aumentou a euforia dos seus adeptos - nem precisam de procurar bilhete de avião. A final em Portugal e com dois clubes madrilenos ficará circunscrita à Península Ibérica.

A invasão a Lisboa, de perto de cem mil espanhóis, vai certamente ajudar a economia, sobretudo a hotelaria e a restauração da capital e arredores largos. Muito gente inflacionou as suas casas e cobra couro e cabelo por um quarto. Não deixa de ser motivo de vergonha a exploração descarada das dormidas. Certamente que não vai ajudar à fama de Portugal, mas se houver que esteja disposto a pagar, pior para ele. Mas o impacto económico da final é brutal, muito mais do que podia imaginar. É sempre bom ver o nosso país (e o nosso estádio) nos olhos do Mundo por bons motivos. E a final está a mexer com a cidade, pelo que pude comprovar há dias.

Tenho preferências, claro. Se o Atlético não tivesse ganho o campeonato, talvez estivesse por eles. Assim, inclino-me para os merengues e para a décima taça do Real. Mas acima de tudo espero um grande jogo (que assistirei do Porto, entre amigos) e que nenhum jogador português se lesione, que temos um Mundial no Brasil para disputar. Por Cristiano Ronaldo, claro, sem ele a selecção nunca estaria no Brasil, mas também Pepe e Coentrão.

Curioso como o Benfica fica ligado às duas finais europeias: disputou uma delas e empresta a casa para a outra. Gostava era de saber quanto ganhará com isto. A visibilidade é importante, mas não mais que o dinheiro.
 
PS: podia-se desde já criar a piadinha fácil: a de que o governo, em especial Portas, tinha mentido descaradamente. Prometeu-nos para Maio um novo 1 de Dezembro, e em lugar disso temos a invasão espanhola.

sexta-feira, maio 23, 2014

A campanha acabou. Deram por ela?


A campanha eleitoral para as europeias acaba hoje. Eu, que até me interesso por estas coisas (sim, estou a falar dos cartazes, arruadas e comícios), quase nem dei por ela. Se não fossem alguns outdoors e as notícias, dificilmente me lembraria que no dia 25 temos eleições. Mas ainda assim pude formar a minha pequena opinião do pouco que vi.

A Aliança Portugal, nome pomposo para a coligação dos partidos no governo, quase que se limitou a zurzir no PS, a perguntar por Sócrates e a fazer de Assis e Seguro os bombos da festa. Substância e questões europeias? Se falaram nelas, ninguém ouviu. Provavelmente para disfarçar as grandes divergências do federalista Rangel e do "eurocalmo" Melo. Uma campanha pobre e com alguns momentos pimba, digna de um partido de oposição, e que provavelmente contribuirá para os levar para lá.

O PS começou bem, com uma boa lista e a falar de questões europeias  prementes. Depois, caiu na crítica pela crítica e acabou com declarações patéticas (Alegre falando no perigo do nazismo, Soares escrevendo que sempre "abominou a direita" para justificar uma birra). Ainda assim, uma campanha melhorzinha que a da aliança.

A CDU usou a cassete do costume, sem demasiado azedume, mas aproveitou bem a onda de descontentamento, mostrou sempre que pôde as suas caras novas e não se entusiasmou demasiado com as sondagens. Uma boa gestão para o eleitorado comunista, e a aposta em mais alguns votos, que provavelmente terá.

O BE não joga a sua sobrevivência, mas quase. Uma campanha modesta, com um slogan quase futebolístico (o "de pé" lembra o "tudo a saltar" dos adeptos benfiquistas) e uma Marisa Matias voluntarista, a fazer os possíveis para que mais alguém do Bloco a acompanhe a Estrasburgo. Tarefa complicada.

Depois, os outros. O Livre teve uma campanha pouco visível, o que é natural, dados os poucos meios de uma formação acabada de nascer. Ainda assim, conseguiu alguma notoriedade com o apoio de figuras públicas, como Ricardo Araújo Pereira ou Conh "le Rouge" Bendit. Rui Tavares terá dificuldades em voltar ao Parlamento Europeu, onde teve um desempenho interessante, mas é possível que marque o seu território e que arranque um projecto de esquerda interessante e menos sectário do que o habitual (ou não, basta ver exemplos de bons resultados em europeias que se revelaram ilusões, como o PPM e o MES).

O Partido da Terra conseguiu um bom trunfo eleitoral com Marinho Pinto, a quem algumas sondagens dão a possibilidade de ser eleito, e ainda lhe juntou o eterno dissidente do PS Eurico Figueiredo. Mas alguém o ouviu falar em ecologia,  ruralismo, agricultura (já nem falo na monarquia) na sua habitual crítica constante e quase gritada? Dão-se alvíssaras a quem descobrir. E caso o improvável aconteça e Marinho troque Coimbra por Estrasburgo, que grupo de deputados integrará?

A Nova Democracia afinal não contou com Nicolau Breyner e lançou o madeirense Eduardo Welsh. Sei que são a favor da saída do euro e pouco mais. Sempre deu para ouvir GNR nos seus tempos de antena.

O velho MRPP revelou-se igual a si próprio, com uma falta de subtileza gritante. "Fora o euro, venha o escudo" era o que se lia nos outdoors que pendurou por aí (as novas subvenções do estado permitem esse luxo burguês). O grafismo não mudou em quarenta anos, e aplica-se melhor aos murais. Também falaram na necessidade de um "governo patriótico e de esquerda". Mas essa não é uma reivindicação, sem tirar nem pôr, dos "sociais-fascistas" do PCP?

O PPM pareceu apresentar algumas ideias interessantes, mas francamente, a imagem de alentejano acabado de acordar da sesta de Gonçalo da Câmara Pereira e a expressividade nula de Nuno Correia da Silva não ajudaram nada. Longe vão os tempos gloriosos de Miguel Esteves Cardoso e das suas campanhas provocatórias e irreverentes, que quase o levaram ao PE.

O PTP volta a mostrar o trunfo algo gasto de José Manuel Coelho. O madeirense não faz a coisa por menos e diz que quer ser "um novo mestre de Aviz". Falta-lhe algum cabelo, uma prole meio britânica e algumas invasões ao norte de África. Nem quero imaginar o quer teria inventado se tivesse ido a novos debates.

O MAS, cisão da ala mais à esquerda do Bloco e reencarnação da antiga FER, com o mesmo líder e tudo, Gil Garcia, também ergueu outdoors, clamou pela saída do euro e pela "prisão dos traidores" Talvez este novo agrupamento trotsquista supere em relevância a FER, mas não muito mais.

O PNR mostrou algum aprumo, para tentar minimizar a imagem de movimento de skinheads. Lançou a cabeça de lista o presidente dos Amigos de Olivença, Humberto Nuno Oliveira, com um discurso um pouco mais suave, mas esta marinelepenização não lhe deverá servir de muito. É improvável que consigam um lugar ao lado das FNs desta Europa.

O Partido dos Animais falou da crise do euro e de soluções económicas mas também de propostas bizarras como a criação de um Tribunal Europeu dos Direitos dos Animais. O animalismo de novo a equiparar pessoas e animais. Se isso pegasse, lá nos obrigavam a ser todos vegetarianos. Não, obrigado.

O Portugal Pró Vida é um partido simpático e que releva questões que mereciam mais importância para além do ostracismo a que o votaram. Mas partido algum pode defender apenas dois ou três tópicos, por mais importantes que sejam. É de todo improvável que o seu cabeça de lista, um senhor com sotaque transmontano, seja eleito.

O PDA, que julgava extinto, saiu dos Açores, e tanto quanto me disseram, tinha um discurso substantivo. Infelizmente não pude comprovar. Apenas sei que o cabeça de lista é um ex-eurodeputado do PS, Paulo Casaca, que nem conhecia.

O POUS...é o POUS. Um partido formado por Carmelinda Pereira e por Aires rodrigues e que se apresenta a todas as eleições, com o seu punho preparando-se para bater em alguém, porque sim. 

Pronto, aqui está um resumo de todos os movimentos concorrentes. Não é preciso agradecer. Alternativas não faltam. Pouca vontade de votar num deles sim. Mas algum terá de ser. Para abstenção já basta que que se adivinha.

quarta-feira, maio 21, 2014

Um fim de semana ideal (e uma lição de vida)



Há muito tempo que não tinha um fim de semana tão compensador como o que passou. Com um tempo de verão, vitória no Quiz de Cascata, uma proeza que há anos não se verificava (e logo a seguir à extensa reportagem da Notícias Magazine que saiu na semana passada, precisamente sobre este evento mensal praticado por umas dezenas de maníacos numa patusca colectividade de bairro, na Ajuda; a propósito da pergunta que surge logo no início, feita pelo autor deste texto, deverei escrever brevemente um post sobre D ´Annunzio e os seus feitos de guerra). Serviu também para conhecer enfim o Corredor Verde de Lisboa, projecto de Gonçalo Ribeiro Telles, que teve de esperar anos e anos até o ver concretizado. Serviu para rever amigos e as noites soalheiras de Lisboa. Serviu, finalmente, para poder ir à final da Taça de Portugal, no Jamor, como se quer, numa tarde de sol. Nos 75 anos da Taça e nos setenta anos do Estádio Nacional, o Benfica voltou a erguer o caneco, pela 25ª vez.


O Estádio Nacional, que só conhecia de longe, é tão esteticamente interessante como parece visto na televisão. A mata que o rodeia protege-o da paisagem suburbana que se acumulou ao longo do tempo e do ruído dos nós rodoviários. Conserva-o como um local mítico do desporto português, o recinto onde se jogou a final da Taça dos Campeões europeus, em 1967 (em que o Celtic de Glasgow derrotou o Inter de Milão tornando-se o primeiro clube não latino a conquistar o troféu), onde se jogaram muitos desafios da Selecção Nacional e a maior parte das finais da Taça. É certo que lhe faltam alguns aspectos que se foram pensados ao longo do tempo para outros estádios - não tem cobertura, balneários, a iluminação é deficiente e os acessos limitados - mas tem uma elegância clássica, dadas as influências estéticas da altura da sua construção, os anos quarenta, que seguiam o "modelo totalitário" em voga, que compensa isso tudo.

 
E depois, o resultado: a vitória do Benfica, juntando a Taça ao Campeonato e à Taça da Liga, o falado "triplete", que escapou no ano passado, e que compensou em parte a malapata da final europeia. Desde 1987 que o SLB não juntava os dois mais importantes títulos do futebol português, o que revela que a crise desportiva está definitivamente posta para trás. Um jogo duro, sem grandes momentos de futebol, tirando o golo solitário de Gaitan (por azar na baliza contrária ao lado de onde me encontrava), em que o meu temor de que a equipa do Benfica mostrasse debilidades físicas depois do brutal esforço da final de Turim se concretizou. Os jogadores estavam esgotados, mas resistiram como puderam e foram compensados (com alguma felicidade à mistura, diga-se). Assim acabou uma época extraordinária, nada previsível naquele início de desaires e tensões, que inesperadamente se tornou numa colecção de glórias. Para manter, espero.

Mais uma vez, dou a mão à palmatória, para mais do que uma palmada: dizia há um ano que Jesus tinha de se ir embora, que caso ficasse não pretendia ver mais jogos do Benfica com ele no banco, e que gostaria que ele ganhasse a Taça, mas noutro clube. Pois Jesus ficou, ganhou tudo a nível interno, incluindo a Taça, e eu estive lá para ver. Tudo o que previa saiu (felizmente) furado. O técnico conquistou finalmente o troféu que tanto procurou (por razões pessoais e familiares), e que lhe tinha escapado noutras ocasiões. E o Benfica mostrou como se pode cair com estrondo, erguer-se lentamente,  atirar os desaires para as costas, tentar de novo e ganhar. Só faltou o troféu internacional que há de voltar sem sombra de dúvidas. O Benfica deu uma grande, grande lição de vida e de resistência.

sexta-feira, maio 16, 2014

Emoção, drama , mística



Pronto. Passou a final, e novamente a taça voou para outras paragens. O meu pessimismo nestas coisas justificou-se, infelizmente. Já são muitos anos disto.


A história da maldição de Bella Gutman já cansa, mas no futebol, terreno fértil para superstições, parece ser mesmo verdade. Turim já é a oitava final sem ganhar (não admira, no estádio de outro dos nossos "rivais" nessa matéria). Algumas justamente, outras com menos justiça. Tudo já aconteceu ao Benfica em finais europeias: jogar em casa do adversário, lesões de jogadores importantes, antes e durante o jogo, até já sem poder fazer substituições, decisão nos penaltys, golos nos descontos ...parece não haver uma única final europeia em que não haja uma malapata. Ontem houve uma combinação entre ausências de jogadores nucleares, lesões a meio do jogo (aliás Sulejmani saiu lesionado por um adversário), penaltys e agora até uma modalidade nova, erros do árbitro, em fechar os olhos a pelo menos uma grande penalidade a favor do Benfica, a alguns cartões, e à maneira como Beto saltou da baliza na hora das decisões, quando não o podia fazer.

Eu sei que justificar derrotas em jogos assim parece sinal de fraqueza, que "as finais são para se ganhar", e todo aquelas coisas que os adversários do Benfica normalmente repetem nestas ocasiões (sem falar na conversa da "arrogância benfiquista", porque "já estavam preparados para festejar", como se o SLB fosse o único clube do Mundo cujos adeptos não pudessem preparar festejos em caso de vitória). mas gostava que pelo menos numa final tivéssemos alguma sorte. Só um bocadinho. Tivemos na primeira, e nas seguintes, mas ao longo de meio século, abandonou-nos descaradamente. Já era tempo de nos voltar a sorrir, ao menos uma vez. com ou sem maldição do mago húngaro, há coisas que não podem durar para sempre.

Mas ser benfiquista é isto. Sofrer, aguentar, ganhar, voltar a sofrer. Como diz a Reuters num artigo muito aconselhável, o Benfica é emoção, drama e mística. muito para além da simples prosa da bola ou de "o que interessa é ganhar". Na próxima final europeia veremos quem é o adversário que nos calha - e que presumivelmente será o vencedor do troféu. Até que voltemos a ser nós, afastando qualquer réstia de maldições.

quarta-feira, maio 14, 2014

O dia da final (a décima europeia)



Há um ano, parecia que todas as desgraças se tinham abatido sobre o Benfica, no fim de uma época impecável. Campeonato, UEFA, até a Taça de Portugal, tudo voou. A depressão instalou-se e a época seguinte prometia ser uma agonia sem grandes razões para festejar.

Como se sabe, as coisas não se passaram assim. Razões para festejar tem havido muitas. O campeonato ficou garantido a semanas do fim. Seguiu-se a Taça da Liga, autêntico brinde alcançado quase sem nem pedir. No próximo domingo, a Taça de Portugal será nova tentativa para recuperar um troféu que foge há dez anos. E hoje, temos uma final europeia. A décima.

No ano passado perdemos contra o Chelsea, de forma inglória, num jogo em que fomos superiores a maior parte do tempo. Hoje, defrontamos o Sevilha, precisamente o primeiro adversário nas competições europeias, nos longínquos anos cinquenta, com quem perdemos na altura. Para lá chegar, tivemos que deixar pelo caminho a Juventus, o clube do estádio da final, uma autêntica proeza digna de semideuses mitológicos. duas semanas depois desse combate encarniçado, o Benfica regressa a Turim.

À partida, deveríamos ser favoritos, pela qualidade e capacidade de luta da equipa, sempre com a vitória em mira. Mas as ausências de vulto de Enzo Pérez, Salvio, Markovic e até de Fejsa, que deixam a equipa sem a asa direita e o meio-campo titular, são razões para temermos uma final durinha. E o meu habitual pessimismo - ou prudência, se preferirem - obriga-me a estar de pé atrás.
Mas há alguns bons indícios, também. O primeiro é que o Benfica perdeu sete finais, mas todas com equipas que não as espanholas. Sempre que encontrou adversários do país vizinho em finais europeias, o Benfica ganhou.
O outro é que hoje é 14 de Maio de 2014, e passam exactamente vinte anos sobre a soberba e esmagadora vitória do Benfica em Alvalade, por 6-3, com o Sporting, num jogo electrizante que decidiu o título, numa época em que também aí se começou com as expectativas em baixo, depois de uma sangria de jogadores precisamente para o clube verde. Sim, aquele mesmo, em que João Pinto realizou o jogo de uma vida e teve direito a uma inaudita nota dez do jornal A Bola, que ficou para a história do futebol português.

Que o espírito vencedor desse dia memorável renasça hoje nos jogadores do Benfica. Esse e o de Eusébio e Coluna, antigos campeões europeus, desaparecidos este ano, mas que com certeza não deixarão de inspirar a equipa. É neles e no seu exemplo que os jogadores benfiquistas têm de pensar se quiserem sair do campo com a vitória e com a Taça

Quando os czares estavam virados a Oriente



Apesar de tudo o que atrás disse dos métodos da Rússia, não é por isso que vou deixar de aconselhar uma visita à Gulbenkian, a quem esteja ou passe por Lisboa até ao próximo dia 18 de Maio, para ver a exposição Os Czares e o Oriente. na sua primeira mostra na Europa fora do Kremlin. Entre os testemunhos das antigas relações da Moscóvia com o Império Otomano e a Pérsia, para estreitar as relações comerciais e permitir novas vias de comunicação entre a Europa mais a Leste e a Ásia, encontram-se objectos de beleza exótica, nunca antes vistos por aqui. Sabres, armaduras, escudos e outros utensílios de guerra, tecidos, paramentos, arreios, selas, caixas várias, e mesmo ícones antiquíssimos e valiosíssimos, muitas foram as ofertas das cortes otomana e persa aos senhores do Kremlin, entre os séculos XIV e XVII, testemunhando as boas relações que tiveram até Pedro, o Grande se virar para Ocidente. Um conjunto belíssimo de obras de arte e de ostentação de quem os possuía, revestidos de pedraria preciosa, obra de grandes artesãos tártaros, russos, turcos e persas. Quem não viu deve fazê-lo se puder, rapidamente. E aproveitar o fim de semana dos museus, em que muitos deles estarão abertos ao público.






terça-feira, maio 13, 2014

Mais um plebiscito na Ucrânia




Mais um plebiscito, desta vez ainda mais feito em cima do joelho e sob ameaça das armas que o da Crimeia. Donetsk e Lugansk "votaram" pela independência da respectiva "república popular", ou seja, por um enclave do leste da Ucrânia que pretende unir-se à Rússia no menor tempo possível.


Entre barricadas, armas pesadas e uniformes de toda a sorte, os votantes deram uma maioria esmagadora aos partidários dessas estranha independência. Que tenham chegado boletins preenchidos, ou que tenha havido pessoas a votar várias vezes, sem qualquer tipo de observadores internacionais, é coisa que não preocupou os seus organizadores, que tão pouco pensaram em fazê-lo depois das eleições marcadas para 25 de Maio. Ou talvez por isso mesmo. Dessa forma, e sob o pretexto do "governo ilegítimo" de Kiev, procedeu-se a um rearmamento da população russófona, com o apoio de milícias vindas directamente do grande vizinho, veteranos das guerras do Cáucaso, cossacos e até de Chetniks da Sérvia, proclamou-se a autonomia e tenta-se assim torpedear o calendário eleitoral, que só muito dificilmente terá lugar no dia aprazado. Que fazer? Se as eleições forem para a frente, é de esperar o caos. Se não forem, dar-se-à um pretexto a que se considere que o actual governo interino de Kiev é ilegítimo. De qualquer das formas, os separatistas já vieram com a tese absurda de que "as eleições são ilegítimas porque foram marcadas por um governo ilegítimo". Seguindo esse paradoxo, que impediria que qualquer governo futuro ganhasse legitimidade, também poderíamos considerar que as eleições para a Assembleia Constituinte de 1975 (e todas as que se lhe seguiram) também carecem dela. A verdade é que os separatistas não querem eleição nenhuma, excepto as que elas próprios organizam à sua maneira, de forma a serem anexados pela Rússia. Os dirigentes russo, nos últimos dias, tinham optado por uma posição de maior moderação, afastando tropas das fonteiras com a Ucrânia e aconselhando a que o "referendo" não se realizasse no domingo, mas entretanto já vieram aproveitar os "resultados". Normal. fizeram o mesmo na Crimeia. Mas desta vez, com as tropas ucranianas na fronteira e a cercar os separatistas, as colunas pró-russas terão outra dificuldade em anexar aquele território. Não se ocupa a bacia do Don como se ocupa a Crimeia ou a Ossétia do Sul.

Mas a situação é muitíssimo tensa. Para além das milícias atrás referidas, que já declararam que as forças ucranianas têm de sair, o que leva a crer que os combates vão recrudescer, tivemos os terríveis acontecimentos em Odessa, há dias, em que no seguimento de uma refrega campal deu-se o incêndio na sede dos sindicatos da cidade, devido a coktails atirados por manifestantes pró-união depois de um ataque de pró-russos (onde se incluíam, ao que tudo parece, elementos da Transnístria).
É pouco provável que por aqui os separatistas consigam realizar plebiscitos semelhantes aos da Crimeia e do Donbass, até porque os reforços do Transnístria não serão suficientes e a população não é maioritariamente russófona. Mas é de esperar novos tumultos, ali, não muito longe das fronteiras da Roménia, e portanto da NATO. E sobretudo, o espectro da antiga Jugoslávia, que teima em assombrar aquela região, cindida entre ucranianos e russófonos saudosistas. Deus não permita uma tal catástrofe.


segunda-feira, maio 12, 2014

A questão dos Papas ou uma canonização demasiado rápida


Bem sei que já lá vão uns dias, mas este é um assunto em que ainda gostava de pegar, mais a mais agora, vésperas de Fátima.
A canonização dos Papas, em fins de Abril, em Roma, teve um enorme banho de multidão, grande cobertura mediática e muita emoção pelo meio, como seria de esperar. Centenas de milhares de pessoas foram pessoalmente testemunhar a santificação de João Paulo II e de João XXIII, de tal forma que amigos meus que também lá foram não conseguiram ver absolutamente nada, nem sequer a efígie dos dois novos santos, quanto mais os dois Papas vivos que lá estavam.


O interesse do acontecimento, aliás, estava sobretudo aí, numa ocasião que o mundo guardará para a posteridade: dois Papas em público, lado a lado, o Papa efectivo, Francisco, e o Papa Emérito, Bento XVI. A suprema autoridade da Igreja Católica dividida em dois? Não, a responsabilidade cabe ao Papa Francisco. Bento XVI representa um pouco a face humana do papado, dada a sua renúncia, para permitir que um novo pontífice tomasse em mãos as duras e necessárias tarefas que ele já não podia desempenhar. Tornando-se Papa emérito, era obrigatório que estivesse na cerimónia. Mais ainda quando conheceu os dois Beatos que aí iam ser canonizados: João XXIII e João Paulo II.


Apesar disso, apesar de toda a emoção que rodeou a canonização, houve um aspecto a que não pude deixar de reparar, até porque era notório: a maioria das pessoas dava claramente mais importância a João Paulo II do que a João XXIII. Cheguei a ouvir pessoas a referir-se à "canonização do Papa", e notei a sua admiração posterior quando souberam que afinal não se tratava apenas de Karol Wojtyla. De certa forma compreende-se: João Paulo II surpreendeu logo à partida por não ser italiano e vir de Leste, assistiu à derrocada do comunismo (para a qual contribuiu largamente), teve um dos pontificados mais longos da história, viajou por todo o mundo e era constantemente destaque na imprensa e na televisão, e marcou imensamente uma época e uma geração, a minha. é natural que uma figura tão influente e tão fresca ainda na memória seja objecto de tamanha devoção e respeito.

Mas é também injusto para com o Papa João XXIII, que marcou da mesma forma a geração anterior, e mais ainda, iniciou um autêntico terramoto na Igreja, talvez a sua maior transformação desde a Contra-Reforma. Teve uma popularidade comparável à de João Paulo II, sem viajar e sem os mesmos meios mediáticos, para além de que o seu pontificado durou apenas cinco anos.

Para além de tudo, a canonização no mesmo dia parece igualmente despropositada: afinal de contas João XXIII desapareceu há cinquenta anos, e João Paulo II há apenas nove. Seria de esperar que o Papa italiano fosse canonizado antes do Papa polaco. Não conheço o processo de santificação, mesmo sabendo que tem vários passos, mas pelo que segui, parece-me que ao apressaram de propósito, cortando ou despachando várias etapas, sobretudo logo que surgiu o necessário milagre. Isso aconteceu, aliás, no processo de beatificação. Tudo pela pressão popular, que se ouviu logo quando João Paulo II morreu, em Abril de 2005, com o clamor de "Santo Subito". Bem sei que nem sempre é fácil resistir aos pedidos do povo cristão, e que houve outras canonizações muito mais rápidas (a de Santo António, por exemplo). Mas a Igreja Católica, sempre tão ponderada, tão cuidadosa, tão lenta a mudar (o que tem a vantagem de distinguir modas efémeras de mudanças reais e de saber quais os caminhos a que conduzem, e em última análise, de distinguir o certo do errado), deixou-se levar demasiado pela pressão de fora. Um santo não é uma estrela pop, mas alguém que pelo seu modo de vida alcançou um estado incomum, e a quem se pede para interceder a Deus. João Paulo II foi sem dúvida um Papa marcante e carismático, com uma incrível relevância política, mas nove anos é pouco tempo para se fazer a necessário avaliação do seu Pontificado, que teve as suas controvérsias (e a ténue reacção aos casos de pedofilia não é certamente a menor). Seria melhor esperar mais tempo, até porque se sabe que uma figura tão carismática terá sempre outra capacidade de influência nestes casos. Deixar passar uns anos, e fazer um processo paulatino, para que depois se pudesse avaliar com cuidado se mereceria ser ou não santo, sem que o clamor popular, sempre tão lesto a exigir a elevação nos altares com a pedir que rolem cabeças ou que se faça justiça popular. João XXIII não era menos importante e precisou de cinquenta anos. Não teria sido melhor fazer o mesmo com João Paulo II?

Marx no Porto-Benfica


Embora certo em boa parte das análises feitas na sua época, Marx falhou rotundamente nas previsões. Contudo, há algumas que acabam por se revelar certeiras, dando origem a máximas conhecidas. Uma das mais famosas será que "a história repete-se, primeiro como tragédia, depois como farsa". Não encontraria frase melhor para caracterizar os dois últimos Porto-Benfica para o campeonato, em que o resultado se repetiu: 2-1. As consequências e importâncias é que foram inteiramente diversos.

quarta-feira, maio 07, 2014

A lição dos estudantes do Minho


Tendo em conta que estamos em plena semana académica (falo do Porto, não posso falar por todas as festanças estudantis por esse país fora), é interessante ver o contraste entre as atitudes de duas associações académicas diferentes em casos com traços semelhantes. Ou o oito e o oitenta em atitude. No ano passado, se bem se lembram, um assalto à bilheteira do queimódromo acabou com a morte a tiro de um estudante, Marlon Correia, morto ao proteger o cofre (que acabou por não ser levado). Na altura, os responsáveis pela Federação Académica do Porto quiseram que a festa da queima das fitas (que dura uma semana) prosseguisse, sem ao menos cancelar uma única noite, porque seria "um enorme prejuízo" (que podia ser bem maior caso o estudante em questão tivesse fugido a proteger a receita da bilheteira). Este ano, por causa dos três estudantes que morreram em Braga com a queda de um muro, a associação académica da Universidade do Minho cancelou todos os eventos do Enterro da Gata (as festas dos estudantes universitários minhotos), mantendo apenas algumas cerimónias simbólicas. O cancelamento de todas as festas pode ser um pouco exagerado, mas revela dignidade e uma preocupação que transcende os habituais interesses contabilísticos próprios dos dirigentes académicos. Devia ser escarrapachada na sede da Federação Académica do Porto para ensinar aos seus energúmenos dirigentes que uma academia é bem mais que a soma dos prejuízos e proveitos das festas, e que antes de mais se devem transmitir valores e princípios, coisas que aparentemente escapam às criaturas. E que nesses princípios devem constar a camaradagem, a solidariedade e a protecção dos estudantes. Mais que uma bofetada de luva branca é um autêntico murro na consciência da corja federativa aqui da zona - se é que eles ainda a têm.

Academia do Minho 1 - Academia do Porto 0

segunda-feira, maio 05, 2014

Mal nos despedimos de um, desaparece outro


Este ano tem sido uma razia de gente a morrer. Até dá medo de abrir o jornal ou as notícias na net. Nos últimos dias desapareceram, além de Vasco Graça Moura, de quem já aqui falei, Veiga Simão, o reformador da educação dos anos setenta (e que conseguiu ser ministro do Estado Novo e da democracia, aqui duas vezes), Rui Mário Gonçalves, um crítico de arte excelente e despretensioso, e João Porto, antigo Ministro da AD, administrador do Metro do Porto e professor da FEUP, a cuja simpatia devo não ter passado uma noite na estação das Devesas (e à sua boleia, quando eu lhe era um perfeito desconhecido, antes de descobrir que conhecia perfeitamente a minha família). Para além de pessoas de notoriedade, que não de "fama", eram todos muito estimáveis. E se formos "lá fora" ainda podia acrescentar o multifacetado Bob Hoskins. Desaparecem assim, de repente, numa semana. A ceifeira tem andado com demasiado trabalho no que toca a personalidades conhecidas. Impõe-se uma pausa.

sexta-feira, maio 02, 2014

A fénix benfiquista

 
E o Benfica soube mesmo honrar a sua memória e a sua reputação da melhor maneira, aguentando até ao fim, já reduzido a nove, as investidas de Pirlo, Tevez e Cª. Eliminou a melhor equipa italiana, pejada de estrelas, no seu próprio estádio, onde os transalpinos eram dados como certos na final final, com lesões, expulsões e uma fortíssima pressão contra. Sofreu mas soube sofrer, controlou quase sempre os acontecimentos e saiu vencedor de ume duríssima refrega que deixou marcas. Se a Juventus era o verdadeiro teste para vermos do que é que este Benfica era capaz, então a resposta ficou dada: o Benfica deste ano talvez não tenha a tal "vertigem de jogo" com que goleava os adversários, mas é muito mais sólido, tem uma capacidade de sacrifício e de entreajuda que não lhe conhecíamos e uma enormíssima vontade de ganhar. Provavelmente será essa a grande diferença em relação à época passada. Como se da depressão se erguesse e quisesse recuperar tudo o que escorregou dos dedos no ano anterior. E se no regresso a Turim ganhar o caneco, e talvez mais alguma taça, devia mudar temporariamente o símbolo da águia para o de uma fénix, que é o mais apropriado para esta extraordinária época.

quinta-feira, maio 01, 2014

Ultrapassar a Juventus é uma questão de memória


Conquistado o campeonato, adquirido o bilhete para duas finais internas, o Benfica tem agora o maior desafio da época, contra a Juventus. 2-1 é sempre um resultado perigoso, mas não se pode dizer que seja mau, tendo em conta que a equipa dos Agnelli ainda não tinha perdido na UEFA e segue destacadíssimo no calcio. Mas expõe a equipa a vários perigos. A Juve joga em casa, que será o palco da final, e isso é um suplemente motivacional. Tem uma senhora equipa, pontilhada de craques como Buffon, Pirlo e Tevez, auxiliados por vários bons jogadores - Chiellini, Llorente, Vidal - e ainda tem a sua influência extra-relvado, como já se verificou noutras alturas e ainda agora tivemos a ocasião de testemunhar - a reunião inédita da UEFA por causa de uma queixa do clube italiano para castigar Enzo Pérez é bem reveladora disso, sobretudo se nos recordarmos que Platini é um antigo craque dos turineses e que já noutras alturas revelou preferências em competições da organização a que preside.

É portanto tudo isso que o Benfica enfrenta. E também o passado do último encontro com a Juventus, em 1993, em que se enfrentaram duas grandes equipas (Rui Costa, João Pinto, Mozer, Paulo Sousa, que depois vestiria a camisola bianconera, contra Roberto Baggio, Vialli, Kholer, o próprio Conte) em que depois de um também 2-1, perdeu 3-0 no antigo Stadio delle Alpi, em que lesionaram o guarda-redes Silvino sem que o árbitro fizesse caso, como muito bem é aqui recordado (leiam bem isto porque nos recorda porque devemos ganhar à Juve). O que é preciso é recuperar o passado anterior e honrá-lo: o grande golo de Eusébio em plena arena da Juventus, em 1968, reduzindo todo o público da FIAT ao silencio, antes de confirmar na Luz com um tranquilo 2-0. No ano da sua morte, seria uma grande homenagem ao Pantera. E recordar também o grande rival local da Juventus, o Torino, cuja grande squadra, na altura a melhor de Itália, pereceu no desastre da Superga, no regresso de um jogo na Luz, em 1949. É também por causa deles e para homenagear a sua memória que o Benfica deve fazer tudo para voltar a Turim, no dia 17 de Maio, para jogar a final. E se isso acontecer, não faltarão apoios entre os habitantes da grande capital do Piemonte, que torcem pelo Grande Torino. É não só a busca da vitória, mas também a da justiça e a da memória que estão em jogo.

 

terça-feira, abril 29, 2014

Vasco Graça Moura 1942 - 2014


Na torrente de mortes de figuras públicas dos últimos tempos, a de Vasco Graça Moura não surpreendeu, infelizmente. Sabia-se que estava doente há já bastante tempo, minado pelo cancro já metastizado. Na cerimónia de entrega da Grã-Cruz de Santiago e Espada, em Janeiro, na Gulbenkian, isso já era bastante visível.

Mas de entre todas as mortes recentes, esta é talvez a que sinto de mais perto. Embora só tenha falado uma vez com Vasco Graça Moura, o seu nome era uma referência muito presente na minha família e na geração dos meus pais, a que viveu intensamente os anos setenta e que se encontrava alegremente no bar do Hotel Boavista. Dizem-me que eu, que tão pacato era em tempos de que já não me lembro, me portei pessimamente na única vez que me levaram a sua casa. Mas ele não se importou minimamente. Provavelmente, politicamente incorrecto como era, não se importaria que as regras fossem quebradas por uma criança quase de colo. Mesmo em sua casa. Apesar de ao mesmo tempo dar uma enorme importância à ordem e à autoridade.


Esta faceta provocadora e frontal era das mais notórias, o que lhe granjeou imensos ódios. Isso e o empenho político. Era o puro intelectual engajado, só que ao contrário da grande maioria, não escolheu o lado dos "amanhãs que cantam" nem do "antifascismo" (o que lhe criou ódios suplementares). Aderiu ao PPD em 1975, e anos mais tarde tornar-se-ia o intelectual do cavaquismo (dizia-se "cavaquistíssimo"), embora sempre se tenha considerado de centro-esquerda. Também ocupou cargos políticos, como o de eurodeputado, e, brevemente, como Secretário de Estado nos governos provisórios. É verdade que era por vezes bastante sectário, e demonstrou alguns dos piores tiques do intelectual partidarizado. Mas seria sempre reconhecido muito para além disso. Era um tradutor notável, essa função tão desgastante e tão pouco reconhecida, que traduziu Shakespeare, Dante, Petrarca, autores franceses e alemães (e aprendia as línguas como uma autodidacta). Notabilizou-se como poeta, ensaísta e ficcionista (talvez a sua obra menor). Presidiu à Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, à Fundação da Casa de Mateus,  comissariou o pavilhão português na Expo 92, de Sevilha, e ainda teve funções directivas na Gulbenkian, para além de outros cargos, sempre com assinalável competência. Era presidente do CCB e cumpriu funções até limiar das suas forças e ao último dia. Ganhou ainda um conjunto de prémios e distinções literárias de relevo, como o Prémio Pessoa. Ironicamente, sendo um portuense, foi um dos autores da ideia, juntamente com Mega Ferreira, de se organizar uma exposição mundial em Lisboa, que como sabe deu frutos e se tornou na majestosa e saudosa Expo-98. Para além das páginas, talvez seja esse o seu legado mais conhecido. A memória de um grande, de um autêntico Intelectual perdurará ainda durante bastantes anos, espero eu. E as cinzas regressaram ao seu Porto que em sua honra declarou dois dias de luto municipal, e que devia, imperativamente, imortalizá-lo na sua toponímia.

segunda-feira, abril 28, 2014

O que nos resta dos "Capitães de Abril"


 A propósito dos quarenta anos do vinte e cinco de Abril e das suas comemorações (sem nada de novo, excepto alguns murais), lembrei-me daquela expressão duvidosa "os melhores...são os que estão no cemitério". No caso dos Capitães de Abril isso é mesmo verdade. Foram-se Melo Antunes, Jaime Neves, Vítor Alves, Marques Júnior (estes há bem pouco tempo), e sobretudo Salgueiro Maia, o homem do terreno, que deu o peito às balas, que permitiu que a revolução não fosse sangrenta (houve sangue, mas não por sua culpa) e que se transformasse quase numa celebração, que protegeu Caetano e os ministros, que depois se remeteu ao seu quartel e à sua carreira, discretamente, sem exigir louvores ou promoções, nem constituír a sua própria "força revolucionária", traído por uma doença que o levou demasiado cedo e que, sabe-se agora na altura em que propuseram a transladação do seu corpo para o Panteão Nacional, quis imperiosamente ficar em campa rasa. Em vez disso ficámos com a eterna cara de pau de Otelo, o amnistiado, e as proclamações do inaturável Vasco Lourenço, sempre a ameaçar com nova intentona contra os governos de que ele não gosta e que por acaso têm um suporte eleitoral maioritário. Grandes democratas, como se sabe. Valha-nos que ainda há um ou outro como Sousa e Castro para conservar um mínimo de bom senso.


sábado, abril 26, 2014

Grand Budapest Hotel

 
Antes de o ver, já imaginava que Grand Budapest Hotel seria um dos filmes do ano, mesmo que estejamos ainda em Abril. Não me enganei. Os filmes de Wes Andersson nunca me desiludiram nem me levaram ao engano.
Está lá tudo: a riqueza combinada com rigor estético, o retro-fashion nostálgico impecável, os laços de paternidade subsidiária, o elenco impressionante, com rostos de sempre (Bill Murray e Owen Wilson, claro) e algumas estreias (a começar pelo protagonista, Ralph Fiennes). Desta vez, o cenário passa-se na Europa Central, em épocas diversas, fazendo flashes de flashes do passado, mas sempre com o Hotel do título como cenário. Mas a acção principal dá-se em 1932, na fictícia república de Zubrowka, típico estado da Mitteleuropa arrancado ao Império dos Habsburgos, em que o Grand Hotel, sob a guarda do seu zeloso concierge, atrai aristocratas de todo o continente. Em fundo, a ameaça de invasão militar, a fazer lembrar o Anschluss. Não faltam exércitos "prussianos", com oficiais disciplinados mas respeitáveis (lá está, entre o espírito prussiano e o austro-húngaro), agentes psicopatas directamente vindos das SS (ou no caso, das ZZ), estâncias de inverno, mosteiros beneditinos nas montanhas, aristocratas decrépitos, cidades barrocas, pastelarias quase de fantasia e um conjunto de personagens bizarras e multi-étnicas, como é comum nos filmes de Andersson, a começar no paquete Zero Mustafá, que anos mais tarde se tornará no proprietário do hotel e narrará toda a história, já num ambiente soviético decadente. Mas o filme reveste-se de todo um típico ambiente de entre-guerras, já nostálgico do passado e a pressentir a vinda de um novo mundo, não necessariamente melhor. Não é por acaso que o cenário real do hotel baseia-se em Karlovy Vary, uma deliciosa cidade termal, hoje checa, a fazer lembrar Sintra, mas com mais floresta, e também em Dresden (curiosamente passei pelas duas no espaço de horas) e em Gorlitz. E aquela dedicatória a Stefan Zweig, um autor outrora muito na moda e cuja obra está felizmente a ser reeditada, depois de longos anos de relativo esquecimento. Zweig era um dos grandes representantes desse mundo legado pelo império dos Habsburgos, e acabou com a vida, fugido da 2ª Guerra, porque acreditava que tinha acabado definitivamente. A dedicatória é não só compreensível como inteiramente merecida.
 

terça-feira, abril 22, 2014

Trinta e três


Deixemos as habituais piadas de "Jorge Jesus ressuscitou na Páscoa" e as referências ao número trinta e três como idade de Jesus aquando da sua morte (sim, esses também usei no último post). A Páscoa é também época de arrependimento e redenção. Por isso, há que fazer mea culpa: precipitei-me quando escrevi isto e isto. Achei que a época seria um fiasco total, que Jesus  era prejudicial e que ficaríamos atrás do Porto, que faria uma época q.b., embora com mais dificuldades, e do Sporting, em recuperação. Nada disso sucedeu, felizmente. E embora eu ache que talvez outro técnico conseguisse os mesmos resultados, e que o Benfica tinha sérias dificuldades no início da época, tenho de reconhecer que Jorge Jesus corrigiu vários erros, teve força para unir e acalmar a equipa quando necessário e levar a nau a bom porto. Também Luís Filipe Vieira arriscou todas as fichas e ganhou. Seria sempre injusto recusar o mérito a quem o teve.


E por muito que se diga agora que o Benfica teve o caminho facilitado pelos erros clamorosos do Porto e pela "verdura" do Sporting, é bom recordar que os escolhos não foram poucos: a depressão do terrível final da época passada ainda estava nas cabeças de todos, o péssimo início de campeonato, o clima tenso no balneário, ainda sem sanar o caso de Cardozo, as inúmeras lesões, que ainda não terminaram (vejam-se Salvio e Sílvio, que começaram lesionados e  lesionados terminam), e até o desaparecimento de símbolos vivos como Eusébio e Coluna, que podem ter servido também de incentivo à equipa. A verdade é que o Benfica começou a mostrar melhor futebol precisamente quando morreu o "Pantera", no jogo contra o Porto, verdadeiro click deste campeonato. A partir daí só não ganhou um jogo (em Barcelos), dando pelo meio um baile de futebol ao Sporting, chegou às meias finais da UEFA, com cinco triunfos e um empate, e classificou-se para a final da Taça de Portugal, afastando um derrotado FCP. Melhor seria quase impossível. E neste domingo de Páscoa, alcançou o 33º título, pondo como sempre meio país em festa. As imagens dos festejos no Marquês de Pombal foram particularmente impressionantes, com aquelas tochas a fazer lembrar a recente revolta na praça Maidan, em Kiev. Nem Sebastião de Carvalho e Melo escapou à camisola sagrada. Há quatro anos também ali estive, num cenário idêntico, mas desta vez limitei-me a festejar o triunfo em Vila Real, onde, como no resto do país, houve festa rija, inundando a Carvalho Araújo.


Passado o primeiro objectivo há que pensar nos outros. O próximo já aí está, contra uma fortíssima Juventus que dará tudo para ganhar a competição no seu estádio e que não deixou boas recordações na última vez em que defrontou o Benfica (que o diga Silvino, a quem partiram o nariz sob a complacência do árbitro). Exige-se a desforra contra a equipa dos Agnelli. A equipa do Benfica certamente que terá isso em mente. Isso depois de pôr um país a dizer TRINTA E TRÊS.

quinta-feira, abril 17, 2014

Uma vitória decisiva



Uma confissão que se impõe: tenho sido um homem de pouca fé em numerosas ocasiões dos últimos tempos. Não em Deus nem na Santíssima Trindade, mesmo que haja dias em que essa Fé esteja mais ou menos clara (Santa Teresa de Ávila explicaria melhor), mas no meu clube, o Benfica. Fruto das desilusões dos últimos anos, sem dúvida, e de acontecimentos que minaram a minha confiança. Nas coisas da bola sou supersticioso, e normalmente quando estou optimista as coisas saem ao contrário. Por exemplo, no ano passado estava convencido de que íamos sair das Antas com uma derrota. E quando entrámos nos empatados descontos, comecei enfim a crer que podíamos sair com um resultado satisfatório. Eis senão que o improvável Kelvin marca um golo saído do nada e de uma abada as coisas se alteram completamente. Nas semanas seguintes, tudo o que laboriosamente tinha sido construído pelo Benfica ruiu de forma trágica. E no início deste ano, parecia que a época se arrastaria tristonhamente, e que seríamos espectadores do confronto entre o Porto e o revitalizado Sporting.

Como se sabe, os acontecimentos seguiram outro rumo, particularmente neste segundo turno do campeonato, em que o Porto segue de desastre em desastre, o Sporting perdeu algum fulgor inicial, e o Benfica segue na frente quase imaculado, com oportunidade de ganhar mais taças e perto de um confronto com a Juventus. Ontem era um dia decisivo: perto de se tornar campeão, o Benfica recebia o FCP para a Taça de Portugal com a tarefa de dar a volta a uma derrota de 1-0 na primeira mão. As numerosas ausências já tornavam a missão bastante complicada. E a expulsão exagerada de Siqueira mais ainda, deixando o Benfica a ganhar por 1-0 mas a jogar uma hora com menos um. Mas os jogadores mostraram, para além da sua qualidade técnica, uma união, uma raça e uma vontade que ainda não lhes tinha visto. Mesmo em inferioridade numérica foram capazes de dar a volta ao jogo, e num ambiente absolutamente louco, André Gomes marcou um fabuloso golo que pôs o Benfica no Jamor. Mas a importância desta vitória passa além da própria Taça: revelou que o Benfica perdeu o temor ao Porto, que afastou os fantasmas dos últimos anos e que marcou uma posição que poderá ser importantíssima para o futuro. Tem a hipótese de ganhar mais troféus e retirou ao Porto a possibilidade de atenuar a desastrosa época que vem fazendo, incluindo a supertaça do próximo ano, onde por norma estão representados. Se isso significa que se mudou um ciclo no futebol português só se verá daqui a uns tempos. Mas se alguém ainda negava, ficou provado que o Benfica é sem sombra de dúvidas a melhor e mais confiante equipa portuguesa da actualidade. O duplo confronto com a Juventus será o grande teste internacional desta época.


quarta-feira, abril 16, 2014

Domingo de Páscoa não é Domingo de bola

 
É certo que o Benfica está à beira de ganhar o 33º título de campeão nacional. E que ainda está envolvido em mais três provas, quase umas em cima das outras, uma contra a Juventus e outras duas contra o Porto (a próxima é hoje e o Benfica não só parte em desvantagem como tem cinco titulares lesionados), qualquer delas muito difícil de conquistar. Mas apesar disso, disputar um jogo, para mais aquele que pode dar o título de campeão, no Domingo de Páscoa, não é uma escolha acertada. Por alguma razão não há jogos na Páscoa: mesmo que nem todos comemorem a Ressureição, é sempre um dia para reunir a família, à mesa e onde for. Em Portugal, o futebol não é exactamente como no Reino Unido, nem sequer como em Espanha, não é um factor de aglutinação familiar. Arriscamo-nos ainda mais a esboroar os momentos familiares sacrificando-os à idolatria desportiva. Por isso mesmo, devia-se deixar o dia que marca a quadra livre de competições oficiais. Até porque os jogadores também merecem gozá-lo. O Benfica podia perfeitamente jogar no Sábado ou na Segunda à noite, que era quase igual, e não inaugurar um mau precedente, que ameaça banalizar a Páscoa e transformá-la num simples Domingo em que há bola e em que algumas famílias se decidem reunir ao almoço. Já que os compassos se tornaram raros, ao menos mantenham o cabrito pascal.
 
PS: para mais, se o Benfica ganhar, haverá inundação de piadas que já circula, como "Jorge Jesus ressuscitou na Páscoa", ou "na Páscoa o Benfica tem tantos títulos como a idade de Jesus".

terça-feira, abril 15, 2014

O grande fogo de Valparaíso


A magnífica Valparaíso, a maior  pérola da América do Sul no Pacífico, segunda cidade chilena e sede da respectiva assembleia nacional, uma espécie de S. Francisco do hemisfério Sul, com uma extensa baía e bairros de casas coloridas a despenhar-se das colinas, unidas por eléctricos e funiculares, está por estes dias sob chamas e sob fumo. Quinze pessoas morreram, várias ficaram gravemente feridas, quase três mil casas foram destruídas, e milhares de pessoas foram desalojadas. Não se conhecem ainda as causas do fogo, que trepou e desceu pelas colinas, sem dar grande oportunidade de o apagar. A zona da baía e o centro terão ficado incólumes, bem como o parlamento, mas muitos bairros mais modestos foram completamente destruídos, deixando milhares sem nada. Ainda há dias "viajei" por Valparaíso, no âmbito de um trabalho de pesquisas baseada na net, e descobri que não só é uma cidade encantadora como tem uma vida cultural intensa e vibrante. Apeteceu-me na altura fazer as malas e voar, ou mais ainda, navegar até lá. Se o tivesse feito estaria provavelmente a apagar fogos e a ajudar no rescaldo. Valparaíso bem merecia.



 
 

As chamas à noite, com a Assembleia Nacional chilena em primeiro plano.




segunda-feira, abril 14, 2014

Enfim um Bispo para o Porto



O Porto e a sua milenar diocese têm finalmente Bispo. Já não era sem tempo. Desde Julho, altura em que D. Manuel Clemente ocupou o Patriarcado de Lisboa, que a Sé do Porto não tinha titular. Durante o hiato, especularam-se nomes, como D. António Marto, bispo de Leiria e Fátima (e saudoso professor de mundividência cristã na Católica do Porto) e D. António Couto, bispo de Lamego (e, segundo me dizem, também ele um excelente pedagogo), ou mesmo D. Pio Alves, o administrador apostólico que geriu o lugar enquanto não era nomeado sucessor de D. Manuel Clemente. Depois de tão longa espera, a escolha: D. António Francisco dos Santos, até agora bispo de Aveiro, será o novo titular da Diocese portuense. O facto de os aveirenses terem ficado pouco contentes com esta mudança é bom sinal para o Porto.

Na semana passada D. António tomou posse como Bispo do Porto, com a Sé e o terreiro fronteiro a abarrotar de gente, tanto leigos como clérigos das mais diversas ordens religiosas, e seminaristas diocesanos. No portal da sé, o bispo cumprimentou as pessoas que o apludiam, com ar risonho mas algo envergonhado e humilde. É um bom sinal. O Porto tem novamente bispo. De novo um António, o mesmo nome de alguns bispos notáveis que passaram recentemente por esta diocese, como eram D. António Barroso e D. António Ferreira Gomes.

sexta-feira, abril 11, 2014

Desaparecimentos recentes

Não conheço a fundo a obra de Jacques Le Goff para fazer uma crítica póstuma à sua extensíssima obra de medievalista. Mas para além de uma carreira profícua, longa e honesta, há que relembrar o homem que sempre tratou a Idade Média como uma época extremamente complexa e rica, de alguma transição, mas nunca a "Idade das Trevas" e do "obscurantismo" com que os Iluministas a pintaram (ou melhor, descoloriram). Houvesse mais gente minimamente atenta a isso e que se prestasse mais a debruçar-se sobre a história do que a macaquear lugares-comuns e não veríamos sempre o epíteto "medieval" colado a situações menos positivas ou consideradas "ultrapassadas".

De José Wilker muitos falaram do seu papel na Gabriela (a original, já que tempo apareceu no remake com um papel totalmente diferente). Como não me posso recordar da novela que fazia com que os trabalhos do Parlamento encerrassem diariamente antes do seu começo, recordo o papel do actor em Roque Santeiro, tão ou mais popular (deu o nome ao maior mercado africano, em Luanda)que Gabriela, em que interpretava um  ex-artesão que todos julgavam morto, 17 anos depois da data presumida da sua morte, e que se tinha tornado entretanto um mártir popular e objecto de veneração e de comércio, quando na realidade era apenas um vigarista fugitivo. Morreu agora, com sessenta e tal anos, mas deixou o seu nome bem firmado no cinema, teatro, e claro, na televisão brasileira, exportadora de boa parte da imagem do gigante sul-americano que inventámos. Seria interessante se alguma vez passassem por cá a minissérie JK, sobre a vida de Juscelino Kubitschek, encarnado por Wilker.

sábado, abril 05, 2014

E um pouco mais abaixo, em Israel



Israel é um país sob críticas constantes. Algumas são justas e oportunas, sobretudo quando mais um colonato ocupa irregularmente uma terra pertencente a palestinianos. Outras são claramente abusivas e até aberrantes, como quando dizem que Israel tem "um regime nazi"(ou mais patético ainda, um regime "nazi-sionista"). Não haverá nenhum país nas proximidades de que se possa dizer da mesma forma que é um estado de direito.

Recentemente tivemos mais uma prova disso: o ex-primeiro-ministro Ehud Olmert começou a semana condenado por um caso que remetia ao tempo em que presidia à câmara de Jerusalém, por um suborno que recebeu para dar luz verde a um enorme complexo residencial e que se tornou num dos maiores escândalos de corrupção no país. E o mais provável é que Olmert, que governou o país durante três anos depois do AVC do recentemente desaparecido Ariel Sharon e que enfrentou a crise do Líbano em 2006, dê mesmo entrada na prisão.

Mas já não é a primeira vez que uma alta figura de estado ouve uma sentença condenatória em Israel: em 2011 o ex-presidente Moshe Katsav (que protagonizou alguns segundos históricos ao falar com o então presidente iraniano, Kathami, no funeral do Papa João Paulo II) foi condenado em todas as instâncias a pena de prisão por violação. Registe-se que as primeiras acusações ainda vinham do tempo em que estava na presidência.

Pergunto-me se em países vizinhos poderia acontecer algo de semelhante. Houve o caso de Mubarak, claro, e agora o de Morsi, no Egipto, mas ambos resultaram da alteração da situação política por meio de revoluções ou golpes de estado, e não de um processo judicial apolítico que ninguém imagina que pudesse acontecer sem o seu derrube do poder. A maior parte dos dirigentes políticos do Médio Oriente tem uma condição financeira algo difícil de atingir com simples remunerações. A Arafat nunca se questionou a enorme fortuna que acumulou, na Síria o clã Assad tem um histórico de violação dos direitos humanos que veio até aos nossos dias. E mesmo na Turquia o primeiro-ministro Erdogan tem torpedeado os fortes indícios de nepotismo que se têm acumulado.

Por isso, a conversa de que Israel é "um estado ditatorial" deveria evaporar-se sempre que se apontar a incomparável diferença com que a justiça actua num e noutros países. Mesmo assim, haverá sempre obstinados que se recusam a olhar para isso e que, organicamente politizados, porão sempre em causa as evidências e dirão que se trata de "propaganda sionista".

segunda-feira, março 31, 2014

Já na Turquia as consequências são outras



Na Turquia, também com eleições municipais, decidia-se o futuro do sr. Erdogan. Depois das enormes manifestações antigovernamentais do ano passado em Istambul, dos escândalos de corrupção que afectaram o governo, do envolvimento na guerra da Síria, das ameaças e do autoritarismo do primeiro-ministro, que fizeram com que tentasse bloquear o Twitter e o YouTube, que revelaram indícios de nepotismo que lhe eram prejudiciais, provocando uma chuva de críticas, do Galatasaray ao presidente da república, era grande a expectativa sobre como se aguentaria o partido do poder nas urnas. A resposta não deixou margem para dúvidas: Erdogan e o seu AKP venceram com confortável maioria, suplantando o anterior resultado, e ao que parece venceram nas principais cidades, a capital Ankara e a imperial Istambul. Quase o oposto do que aconteceu a Hollande na França. A partir de agora, e com o seu poder reforçado, Erdogan desafiará ainda mais a oposição interna. Já fora da Turquia, entre as hesitações da UE, a guerra na Síria, o reerguer da Rússia e os desejos independentistas nunca adormecidos dos curdos, terá tendência a querer afirmar ainda mais a influência russa entre o Mediterrâneo e a Ásia e a dar azo ao seu neo-otomanismo, que aliás nunca escondeu. E será interessante saber até que ponto os desejos expansionistas e imperialistas de Erdogan e Putin, dois claros saudosistas do apogeu dos seus países, irão chocar.

As consequências das municipais francesas




Não vale a pena criar monstros e anunciar catástrofes onde não existem. A Frente Nacional conseguiu o seu melhor resultado de sempre nas municipais francesas, mesmo que tenha falhado o objectivo de conquistar Perpignan e Avignon. O PSF confirmou a extrema impopularidade de que vem gozando (sobretudo por causa de Hollande), mesmo que tenha conservado Paris, ganha sem surpresas por Anne Hidalgo, e a UMP reforçou-se com a conquista de numerosas cidades, além de conservar as já tradicionais Bordéus, com o eterno Allain Juppé, e Marselha (onde a FN também teve um resultado de respeito). Resultados? Hollande já substituiu o governo, colocando à sua frente o popular Manuel Valls - tal como Hidalgo, de origem espanhola - , a UMP canta vitória e reforça-se, amaciando o clima de tensão interna em que vivia depois da luta fratricida pela sua liderança, e o partido do clã LePen reforça-se e prepara agora o assalto às europeias, em que ficar atrás do segundo lugar é derrota. A extrema-esquerda, por sua vez, desaparece, e é bom lembrar que o Partido Comunista esteve à frente de importantes cidades. Se tudo isto terá consequências para o futuro da França para além das europeias, é coisa impossível de prever. Quem poderá responder a isso no futuro próximo serão os munícipes franceses. Tudo o resto é futurologia.

sexta-feira, março 28, 2014

O regresso da Serenissima?


A moda dos referendos para secessões parece estar em grande, sob várias formas: temos o da Escócia, com a provação do governo britânico, em Setembro, o da Catalunha, sem essa aprovação de Madrid, na mesma altura, tivemos agora o plebiscito organizado numa semana para que os russos da Crimeia votassem no regresso à Rússia, e tivemos por fim, também esta semana, um referendo online no Veneto, para se decidir se a região se devia ou não cindir do resto de Itália para voltar à sua antiga condição de Sereníssima República de Veneza. E segundo a votação, devia mesmo. Pelo menos é a ideia de 89% dos que participaram (segundo os organizadores do plebiscito, 73% dos eleitores da região votaram).


Há no entanto, alguns problemas práticos que deviam ser abordados. Desde logo, o facto destas votações online poderem ser facilmente manipuláveis e trabalhadas (por exemplo, votando-se muitas vezes no mesmo) por quem as organiza. Ou votar-se por gozo, por coacções ou enganos, etc. Depois, mesmo que fosse real, que as autoridades italianas consentissem num referendo a sério, e, em caso de vitória dos independentistas na secessão daquele território, iam mesmo recriar a Serenissima? O chefe de estado teria de novo o título de Doge? E envergaria aquele simpático gorro? E as infraestruturas principais, funcionariam onde? A cidade de Veneza precisaria de um monte de obras, o que prejudicaria o turismo e afectaria as estruturas onde assenta a cidade, já de si debilitadas. A câmara legislativa teria de funcionar num edifício próprio, já que é pouco provável que o Palácio dos Doges, onde se reunia o Grande Conselho e demais entidades que governavam a república, tenha condições para isso. E de que viveria o renascido estado, para além do turismo? Do comércio e da construção naval? No primeiro é melhor não pensar, porque definhou desde que Vasco da Gama chegou a Calecut; a construção naval precisaria de bem maiores apetrechos do que os que há ou havia no venerável Arsenale, até porque as galeras estão um pouco desactualizadas. Talvez como base da armada veneziana...

Provavelmente as estruturas governativas e administrativas da neo-Sereníssima teriam de ficar em solo mais fiável, como Pádua ou Mestre. Mas a primeira é demasiado longe e descaraterizaria a ideia romântica subjacente, ao passo que Mestre é demasiado prosaica, para não dizer desinteressante e desengraçada. Assim sendo, e depois da euforia do momento e de reflectirem bem, talvez os venetos chegassem à conclusão que não seria muito viável, ao menos por agora, fazer renascer a respeitável república marítima (até porque boa parte do seu território pertence hoje à Grécia e à Croácia). Faltariam as condições mínimas para isso. Mas se insistirem na ideia, ficariam, e isso ninguém lhes tira, ficariam com a que provavelmente seria a mais bela bandeira de todos os estados soberanos.


terça-feira, março 25, 2014

Adolfo Suárez 1932 - 2014



Não têm faltado mortes de figuras públicas, mas esta era tudo menos inesperada. Adolfo Suárez, o homem que, a par do Rei, conduziu a transición espanhola entre os numerosos escolhos que a poderiam fazer afundar para o caminho da democracia, fazendo a ponte entre as duas Espanhas e estabelecendo os consensos possíveis, desapareceu neste Domingo. Já há muito que se tinha retirado da vida pública, sofrendo de alzheimer profundo.

Natural de Ávila, na Castela profunda, Chefe de governo no período conhecido com transición, escolhido pessoalmente pelo Rei Juan Carlos, Suárez tinha sido secretário geral do Movimiento Nacional, o partido único do regime franquista, que amalgamava falangistas, carlistas e conservadores autoritários, e era bastante mais novo do que os antecessores. Conseguiu com que as Cortes votassem nas suas leis reformistas que permitiram a constituição de partidos políticos, eleições livres e o fim da maior parte das normas restritivas (daí os franquistas considerarem que se tratava de uma ruptura e não de uma reforma), incluindo o regresso de velhos inimigos de Franco. Reconciliou velhos inimigos e permitiu a elaboração de uma nova constituição, que consagrava o regime monárquico parlamentar. Ele próprio obteve legitimidade nas urnas ao ganhar as primeiras eleições, em 1977, à frente da sua UCD, um muito heterogéneo partido centrista, algo aparentado ao "nosso" PSD. Voltou a ganhar em 1979, mas entretanto diversos desaires, tanto com a oposição (o governo era minoritário) com com o partido e com os militares levaram-no  apresentar a demissão. No dia da tomada de posse do novo governo, presidido por Leopoldo Calvo Sotello, deu-se a invasão das Cortes pelo bando do picaresco Tejero Molina, no célebre 23-F, e até ao desfecho da situação, por intermédio e determinação do Rei, Suárez não virou a cara aos golpistas, justificando com a sua posição que ainda era a de Presidente do Governo espanhol.



Retirou-se da acção governativa e da UCD, que rapidamente se desintegrou, e fundou o CDS, esperando recolher o eleitorado centrista. Mas depois de bons prenúncios nos anos oitenta, apenas umas franjas se lhe mantiveram fiéis, particularmente na sua Castela. O grosso do antigo eleitorado da UCD transitou para o PSOE e principalmente para a Aliança Popular de Fraga, tornada Partido Popular e por consequência o grande partido do centro direita. Sentindo-se abandonado pelos seus, farto da política partidária e com graves problemas de saúde na sua família, Suárez deixou então a política activa. Só voltaria para um discurso na campanha do filho, Adolfo Suárez Illana, nas eleições para o governo de Castela-La Mancha pelo PP. Antes tinha ganho o prémio Príncipe das Astúrias pela Concórdia e passado pela tragédia da morte da mulher e de uma filha. Depois disso, o silêncio.


Suárez Illana, que entretanto também deixou a política activa para se dedicar à advocacia e à tauromaquia, revelou mais tarde que o pai sofria de alzheimer profundo. É dele a fotografia, aliás premiada, em que Juan Carlos se passeia com o amigo que já não o reconhecia, na ocasião em que lhe quis entregar a altíssima condecoração Ordem do Tosão de Ouro, e encontrou um homem já completamente fora do mundo. Seria a última fotografia pública de um dos homens que mais lutou pela liberdade em Espanha, em todos os sentido da palavra. Depois disso, as homenagens de quem lhe sucedeu à frente dos destinos de Espanha. Entretanto, mais confrontos em Madrid provocados por franjas radicais. Seria bom que tanto políticos como manifestantes tomassem como exemplo Adolfo Suárez e a sua capacidade de compromisso, de coragem e de desprendimento. Depois da democracia, seria o maior legado de um homem que merecia mais em vida.


PS: algumas revelações sobre as deslealdades políticas feitas a Suárez podem ser vistas nesta entrevista, já com algum tempo, concedida por Suárez Illana.

PS2: em tempos escrevi que restavam poucos líderes políticos de primeira linha dos tempos da Transição. De há dois anos para cá, desapareceram quase todos. Fraga Iribarne e Santiago Carrillo, em 2012, há pouco tempo Blas Piñar, chefe histórico da direita franquista dura, e agora o protagonista, Adolfo Suárez. Restam o Rei e Felipe González.

sexta-feira, março 21, 2014

Agradáveis déjàs vus


E em poucas semanas o Benfica guindou-se ao comando isolado do campeonato e chegou aos quartos de final da UEFA (prefiro esse nome a euroliga, ou Liga Europa). No primeiro caso deve-se à solidez da sua defesa e aos disparates dos seus imediatos seguidores. No segundo, a uma autoritária exibição em Londres, frente ao clássico Tottenham (precisamente o clube treinado até há semanas pelo treinador referido no fim do anterior post) e a um empate caseiro depois de um breve susto. É curioso como as vitórias em Londres são sempre pelos mesmos números (3-1). Afinal de contas, o Benfica saiu com esse resultado  de uma famosa incursão ao Highbury, casa do Arsenal, em que Isaías brilhou (até porque o centro da defesa estava por conta de Rui Bento e Paulo Madeira!). E também empatou, na outra mão. Os ingleses ficaram algo eufóricos com esse empate, mas depois caíram na dura realidade, como relata Nick Hornby no seu livro de memórias futebolísticas Fever Pitch. Siga a competição.

Depois do plebiscito



E pronto, está concretizada a separação da Crimeia depois do plebiscito (e não referendo, como insistem em chamar-lhe) instituído pela Rússia e pelos seus acólitos em Simferopol. As milícias sem emblema e os deputados do parlamento local cumpriram bem o seu papel. Impedindo, na prática, a campanha a favor da Ucrânia, intimidando todos os que a apoiassem, cortando o sinal aos canais televisivos ucranianos, enchendo aldeias e cidades de cartazes pró-russos, impedindo a fiscalização a observadores estrangeiros, levaram ao boicote do plebiscito por parte dos ucranianos e tártaros através da ameaça e de agit-prop maciço.  Agora, depois do resultado esmagador a seu favor, a Crimeia pede para se tornar uma república autónoma russa e a Grande Mãe, generosamente, acolhe-os no seu seio. Tanto a assembleia regional como a Duma não perderam tempo em "cumprir" as respectivas formalidades para que isso acontecesse, e Putin realizou um par de discursos irredentistas, um na Duma e outro na Praça Vermelha, para gáudio da multidão, falando no "regresso da Crimeia". Já na península, os apoiantes da nova situação festejavam nas praças, como se um festival se tratasse. Os opositores recolheram-se, temendo represálias.


Entretanto, já duas bases ucranianas na Crimeia foram tomadas, o Comandante da marinha ucraniana detido (mas liberto pouco depois) e Kiev iniciou manobras na região leste do país, onde milícias pró-russas foram avistadas. Fala-se em desordens provocadas nessa zona, de forma a dar novos "pretextos" para intervenções. Putin é ambíguo, dizendo que não precisa que a Ucrânia se divida e que "Kiev é uma cidade sagrada para os russos".

O momento não é para graças. A NATO não que de forma alguma abrir hostilidades, mas não vai deixar que haja novas intervenções russas naquele território. Prometem-se sanções, mas no imediato as mais contendentes podem vir da própria Ucrânia, com a interrupção da energia à Crimeia. Tempos complicados, naquelas paragens.



Apesar de tudo há mais gente a querer ir para a Rússia, e nem todos têm lá raízes: André Villas Boas confirmou oficialmente que será treinador do Zenit de S. Petersburgo. Depois das passagens falhadas por Londres, era de esperar que fosse para um clube mais pequeno. Afinal, escolheu um clube com um balneário difícil e muito dividido, com várias estrelas de feitio complicado e com um patrocínio da maior companhia de fornecimento de gás do mundo, que por certo quer que os seus enormes investimentos financeiros se transformem em ganhos desportivos. Ou quebra a malapata dos últimos anos ou, o que é mais provável, acumula mais um fiasco e vê a carreira seriamente comprometida.

quarta-feira, março 19, 2014

Medeiros Ferreira - 1942 - 2014


Medeiros Ferreira tem um percurso pouco comum na política portuguesa e não só pela relevância que alcançou a nível internacional. Pode-se dizer que teve uma carreira circular: começou na oposição radical ao Estado Novo, passou pelo PS, tornando-se um muito jovem Ministro dos Negócios Estrangeiros, com a responsabilidade de iniciar as conversações para a adesão de Portugal à CEE, rompeu depois com os socialistas, compôs o grupo dos Reformadores, que apoiou a AD, integrou o meteoro PRD, seguindo Eanes, e voltou mais tarde ao PS. Mas tal como antes, nunca se submeteu a tiranias partidárias nem às vontades dos dirigentes o momento, conservando sempre o seu espírito crítico, e talvez por isso não voltou a ocupar cargos políticos de relevo. Mas manteve-se publicamente visível em programas de debate televisivo (julgo que a última vez que o vi terá sido no Eixo do Mal, como convidado especial), nos jornais e na blogoesfera, onde durante anos escreveu assiduamente, primeiro no Bicho-Carpinteiro e depois no Cortéx Frontal, onde teve a generosidade de incluir este blogue na sua lista de ligações. Publicou há pouco tempo a sua última obra, Não Há Mapa Cor-de-Rosa, um pequeno livro, em parte um testemunho, com uma lúcida e esclarecedora história da comunidade europeia. E era um assumido e fervoroso benfiquista. Deixou-nos precisamente agora que o título está cada fim de semana mais próximo de voltar à Luz. Como testemunho involuntário, o seu último post, com a sua proverbial ironia, reporta-se precisamente ao Benfica. Bem merecia ter visto o regresso aos títulos do nosso clube.


domingo, março 16, 2014

Uma favela no Grande Porto?



Parece uma favela carioca a descer de um morro, visto daqui. Na realidade, não são barracos, mas vivendas construídas desordenadamente, num declive cruzado por ruas em ladeira e escadarias. Aqui muito perto, em S. Pedro da Cova, Gondomar, antiga terra de mineiros e agricultores, no fundo de um vale que justifica o seu nome, ao lado da Serra de Valongo. Em primeiro plano, o "bairro dos mineiros".

sexta-feira, março 14, 2014

D. José da Cruz Policarpo 1936- 2014



D. José Policarpo era o Reitor da Universidade Católica quando lá entrei. Por isso sempre o vi como uma figura de alguma autoridade "reitoral", mas também com certa bonomia, sem grande ar clerical, como se fosse o tio mais velho, que de vez em quando aparece, ocupado nos seus afazeres institucionais. Num encontro da universidade ainda o vi com essas funções, junto do então Patriarca D. António Ribeiro, já bastante doente, que aliás morreria poucos meses depois.

O Arcebispo de Lisboa, depois cardeal, tinha uma autoridade e um desassombro naturais, até pela constante tomada de posições frontais e politicamente incorrectas (mas nunca de forma truculenta ou provocadora), sem nunca ligar às críticas mais do que o estritamente necessário, como quando apelou às jovens portuguesas que pensassem bem antes de casar com um muçulmano de outro país, porque se podiam envolver num monte de sarilhos "que nem alá sabe onde acabam". Muitos chamaram-lhe "xenófobo", até "racista" (como se muçulmano fosse raça), "fundamentalista", etc. Eu limitei-me a rir, até porque os avisos não eram propriamente infundados. Ao longo da sua missão não deixou de dialogar e debater com pessoas de meios completamente diferentes, como Eduardo Prado Coelho, o que acabaria por levar à publicação do livro Diálogos sobre a Fé. E tomou a iniciativa de recordar e reconhecer o massacre de 1506, que vitimou perto de 2000 cristãos-novos, inaugurando, com a Comunidade Judaica e a câmara de Lisboa, o monumento que recorda esse episódio, no Largo de S. Domingos.

O seu hábito de fumar, que não escondia, inspirou algumas sátiras engraçadas, como o episódio da Contra Informação, em que no Conclave se ouve o povo lá fora clamando Habemus Papam, vendo fumo branco saír da Capela Sistina, quando se descobre que na realidade era D. José Policarpo que, farto das indecisões dos cardeais, se tinha retirado até uma janela para fumar um cigarrinho...provocando o falso fumo branco.


Há poucos anos visitei S. Vicente de Fora. Passando pelo panteão dos Patriarcas, cuja existência até então desconhecia, pensei logo que D. José não gostaria muito de passar por ali, sabendo que um dia seria a última morada do seu corpo. Se bem que não fosse assim tão importante, porque afinal de contas, como homem da igreja, interessar-lhe-ia mais o destino da sua Alma, e não tanto do corpo. Esse dia chegou. Numa cerimónia solene, com uma majestade e até uma encenação como só as Igrejas sabem fazer sem cair no ridículo, o Patriarca Emérito teve direito às últimas homenagens, dignas do seu papel de primeiro plano na Igreja e na sociedade portuguesa. 

Que descanse em paz e que Deus o receba.

terça-feira, março 11, 2014

Uma boa solução



A solução encontrada pela Câmara Municipal do Porto para recuperar a Feira do Livro é um excelente exemplo de como entidades públicas podem fazer incentivos à cultura sem ceder às habituais chantagens dos "agentes culturais" e dos oportunistas da subsidiodependência do ramo. No ano passado, Rui Rio não quis ceder às exigências da APEL (que pretendia um acordo por vários anos com 75 mil euros anuais de subsídio) e quebrou a corda, deixando a cidade sem a Feira pela primeira vez em 80 anos. Agora, os senhores da APEL voltaram a exigir as mesmíssimas condições (i.e. subsídios e contrato prolongado, para além de todas as facilidades logísticas) depois de acordarem verbalmente que não as receberiam. Resultado: a Feira do Livro do Porto não se realiza em Junho, na rotunda da Boavista (para onde estava planeado regressar), mas sim nos jardins do Palácio de Cristal, em inícios de Setembro, organizada pela própria CMP. Não se perde nada, apenas se espera um pouco mais, o local é muito mais agradável e com melhores condições do que entre o trânsito da rotunda, há o apoio precioso da biblioteca Almeida Garrett e nessa altura ainda é Verão. A APEL que pense duas vezes, para a próxima.

sexta-feira, março 07, 2014

Óscares 2014


Não vi a maior parte dos filmes a concorrentes à estatueta dourada, e menos ainda aos que tinham mais nomeações, por isso as minas preferências eram localizadas. Não posso portanto dizer se compensa ficar Doze anos Escravo, se uma Golpada Americana não compensa, isso e ser um Lobo de Wall Street, ou se a Gravidade é assim tão reconhecida. É engraçado ver o já experiente Matthew Mcconaughey ganhar o prémio de Melhor Actor, mas Leonardo de Caprio, com tanta nomeação falhado ao prémio, arrisca-se a ser o novo Peter O´Toole (mas talvez possa ser um novo Paul Newman, que aliás ganhou essa estatueta num filme dirigido por Scorcese, de quem Di Caprio é o actual actor fetiche). Sobre a menina autenticamente afro-americana (vão ver a ascendência dela) não me pronuncio, porque não a conheço nem à sua interpretação. Também não vi o filme da estrela rock que ficou como Melhor Actor Secundário e que ainda há coisa de uns meses resolveu dar um concerto surpresa em pleno Chiado, agarrado à estátua do dito.

Mas o grande momento do espectáculo seria, como não podia deixar de ser, a conquista do Óscar de Melhor Actriz por parte de Cate Blanchett, pelo seu papel arrasador de uma neurótica em queda em Blue Jasmine, de Woody Allen, ao fim de várias nomeações. Uma prova de que ainda há justiça neste mundo (com desculpas a Dame Judi Dench).