quinta-feira, julho 10, 2014

Depois do Mineirazo

 

Depois do terramoto que ontem se abateu sobre o Brasil, em Belo Horizonte, ficaram as palavras de choque, terror, espanto e também admiração pela proeza da Mannschaft germânica. O risco de perder este segundo mundial caseiro era real, como em tempos cheguei a prever, e o fantasma de novo Maracanazo esteve presente. O que ninguém podia certamente adivinhar era uma derrota desta dimensão avassaladora, mostrando uma selecção totalmente desgarrada, com uma atitude mental na lama, desfazendo-se psicologicamente como um castelo de cartas. Scolari não perdeu nova final mas não chegou lá da forma mais escandalosa. Todo o futebol brasileiro sofreu uma humilhação inaudita, que o abalou de alto a baixo, e terá de largar muito lastro e mudar muito se não quiser empenhar o futuro. Afinal de contas, também o futebol alemão se renovou depois de uma pesada humilhação frente a Portugal, em 2000. Mas as consequências podem ser ainda piores, para além do fim da carreira de Scolari e dos dirigentes federativos brasileiros. Os arrastões e as cenas de violência verificadas após o jogo demonstram isso mesmo. O futebol é um dos traços mais vincados da sociedade brasileira, e a selecção um dos factores de união nacional. O desastre pode ter implicações mais sérias, sobretudo em ano de eleições. Ainda por cima, muitos consideram o Mineirazo de 2014 pior que o Maracanazo de 1950,  que era aliás tido como uma das maiores tragédias da história do Brasil. É impossível prever o futuro, mas a humilhação terá com certeza repercussões extra-futebol, a começar em todos os erros e gastos da organização da prova. Convém lembrar que daqui a dois anos haverá jogos olímpicos no Rio.
E para a coisa ser pior, um dia depois do Mineirazo, os brasileiros ainda viram a Argentina chegar à final do "seu" mundial. Talvez a morte, dois dias antes, do mítico Alfredo Di Stéfano os tenha inspirado (embora fosse mais ligado a Espanha do que à Argentina), ou as orações do Papa fossem mais fortes. Os vizinhos não deixarão por certo de aproveitar esta ocasião para troçar ainda mais do velho rival, invadindo o Rio de Janeiro, mesmo que corram a risco de serem igualmente trucidados pela Alemanha (com a qual repetirão uma final). que será pior para o Brasil, afinal? Perder no confronto do 3º e 4º lugar com a Argentina ou vê-lo chegar à final, com o risco (mínimo) de a ver campeão da Mundo em pleno Maracanã?


segunda-feira, julho 07, 2014

David Luiz, uma estrela total


Temos visto neste Mundial jogadas fabulosas, revelações surpreendentes e jogadores que ficam debaixo de olho. Mas há um que em definitivo, é incontornável: David Luiz. O "macarrão" (nome que lhe puseram por causa do distintivo cabelo) revelou-se na Luz, embora durante muito tempo estivesse desaproveitado como defesa esquerdo. Quando o colocaram a central mostrou ser um portento, mesmo com as suas características subidas no terreno, às vezes arriscadas. Pude vê-lo nalguns jogos determinantes, como nos 4-1 em Alvalade para a Taça da Liga, em que abriu o marcador. Depois mudou-se para Londres, à conta de uma maquia interessante e Matic, ganhou uma Liga dos Campeões, uma taça UEFA (à nossa custa), e transfere-se agora para o milionário PSG, estabelecendo um novo recorde como defesa mais caro. Entretanto, nunca esqueceu o Benfica, aparecendo até em vários jogos e lançando mensagens de apoio nas redes sociais. Agora, no Mundial do seu país, é uma das traves principais da selecção, e não só a defender: marcou o golo que permitiu ao Brasil sobreviver e ultrapassar o Chile, e contra a Colômbia enviou um autêntico míssil  que se transformou no segundo golo. Comemorou em apoteose com o público e os companheiros, deu graças aos céus pela dádiva, e no fim ainda se lembrou de consolar o desalentado James Rodriguez e de pedir ao público que aplaudisse o colombiano. Em suma: é impossível não gostar deste tipo.

sexta-feira, julho 04, 2014

Balanço intercalar do Mundial


Agora que estamos na fase a eliminar, entre os oitavos e quartos de final, impõe-se um balanço intercalar do Mundial brasileiro. De uma coisa podemos estar certos: a competitividade e qualidade dos jogos excedeu as expectativas. Não é fácil ver-se neste defensivo e comercial século XXI tamanha saraivada de golos. Se bem que aos jogos a eliminar a quantidade tenha diminuído, como de resto seria de esperar.


Portugal, claro, saiu sem honra nem glória, Salvou-se uma vitória e o golo da praxe em Mundiais de CR7, para conservar alguma dignidade. A forma física e o declínio de muitos jogadores revelaram um plantel nacional que deixou muito a desejar, e os próximos anos não prometem ser melhores, com uma míngua de jovens valores que ensombram o futuro. Para já, como promessas temos William de Carvalho e pouco mais. é claro que aparece sempre uma ou outra surpresa, mas não parece ser suficiente para assegurar uma sucessão digna. E quando olhamos para os jogadores do Euro-2004 é que verificamos quão limitada era esta equipa. E mais vale nem tentar comparar Ronaldo aos seus "rivais" do relvado, como Messi e Neymar, para evitar vergonhas. Ao menos em popularidade de estrela, qual Beatle da bola, ninguém o bate...


Mas houve equipas que muito me agradaram. O México, organizado, com bons executantes em todas as posições e um trinador que é mais espectacular no banco que muitos jogadores no relvado saiu prematuramente. Merecia ir aos quartos, ao pelo menos ir a prolongamento. Mas calhou-lhe uma exaltante Holanda, com um futebol vistoso e de ataque, quase "total", tentando recordar os anos setenta. Anda lá perto e merece discutir este Mundial. E Robben está com uma forma que nunca lhe vimos, mistura de gazela com um carro de combate.

Depois, claro, a Colômbia, uma equipa que dança a jogar (e não só nas comemorações dos golos), não se atemoriza perante ninguém e promete fazer a vida negra ao Brasil. Bem mais livre das ameaças dos cartéis da cocaína que quase destruíram o seu país, está finalmente a cumprir o sonho da magnífica selecção de 1994, de Asprilla, Rincón e Valderrama, que falhou rotundamente, sob o peso das ameaças que se concretizaram com o assassínio de Andrés Escobar. E ainda conseguiu bater um recorde, o do jogador mais velho de sempre a actuar num Mundial, o veterano guarda-redes Mondragon, de 43 anos, que fazia parte dessa equipa de 94. Uma passagem de testemunho? só tenho uma coisa a lamentar nesta prova dos cafeteros: é que pelo caminho tenha ficado o Uruguai, que era a minha equipa favorita depois da eliminação de Portugal. Ao contrário de há quatro anos, em que a Celeste puxou dos seus galões de equipa guerreira e ficou em quarto lugar, desta vez não resistiu ao café colombiano. No preciso estádio em que se sagrou campeão em 1950, deixando o Brasil em depressão. E assi, se exorciza um fantasma (o de 1950), quem sabe se para não surgir outro. É que o Brasil deixou muito a desejar frente ao Chile, e se não fosse Júlio César (a passagem pelo Toronto não lhe retirou qualidade) e os ferros da baliza, o país anfitrião estaria ainda em estado de choque. Contra a Colômbia, se a orquestra não estiver afinada, vai ser um caso sério.

Quanto aos outros jogos, entre a França e a Alemanha, que a muito custo ultrapassou uma surpreendente Argélia (comandada pelo academista e ex-benfiquista Halliche), impedindo por ora a desforra de 1982, allez les bleus. A Alemanha é aquela equipa que a par do Brasil nunca recolhe os meus votos. a França tem anos, mas parece que Deschamps conseguiu impor alguma ordem na balbúrdia que se verificava desde a saída de Zidane. A Argentina tem convencido pouco, mas os seus adeptos merecem toda a nossa consideração. Não é qualquer "torcida" que domina Copacabana. Talvez se vá safando com Messi, mas enquanto Enzo Pérez não jogar a titular vão continuar a não convencer. contra a excelente e promissora equipa belga, não sei não...só não enumero os nomes por além dos apelidos flamengos darem muito trabalho a escrever, os media têm-se encarregado de nos relembrar. Na Costa Rica-Holanda, aposto na laranja de mecânica afinada, mas que não ganhe por muitos, porque os costa-riquenhos merecem estar nesta eliminatória e têm sido uns bons intrusos.

Divirtam-se 

quinta-feira, julho 03, 2014

Sophia no panteão

 
Sophia de Mello Breyner Andresen repousa no Panteão, depois de uma das mais pacíficas e unânimes escolhas da transladação de um vulto nacional para Santa Engrácia - relembre-se as discussões a propósito de Aquilino, ou da possibilidade de Eusébio ir para lá. É mais que justo. A Poeta nascida no Porto, que passou a maior parte da vida na Graça, em Lisboa, e que se inspirava no mar e nas praia, como a Granja e a Meia-Praia, no Algarve castiço pré-massificação, no Egeu e a herança helénica deixou-nos um legado precioso e único em todo o século XX. A ela devo-lhe, mais do que qualquer outra coisa, a descoberta da leitura, nas primeiras letras, naquelas obras infantis mágicas, inspiradas nos locais que tão bem conheceu, como as praias supracitadas e a quinta Andresen, onde nasceu, e que por milagre ou simples bom senso pode ser vista por todos na sua actual missão de Jardim Botânico - ainda há lá algumas árvores de A Floresta, e o Rapaz de Bronze também lá se mantém.
 
E talvez tenha sido essa mescla de vários portugais que a tornaram a Poeta e a autora que era. E daí a justa transladação e a correspondente cerimónia, solene e digna.  Pena mesmo o discurso do Presidente, o único que não se dirigiu à família, provavelmente ainda a remoer questões com Miguel Sousa Tavares; e também que a tenham posto junto de Aquilino, que não era pessoa que Sophia apreciasse particularmente. Como sempre, a falta de grandeza e de sensatez continuam a ser características indeléveis da "nossa" república.

segunda-feira, junho 30, 2014

À memória de Franz Ferdinand e de Sofia de Hohenberg


Antes comemorar os centenários de uma língua do que de um assassinato, sobretudo quando este, além de inspirar o nome de estimável banda rock escocesa, levou à eclosão de uma guerra cruel, estúpida e que não mudou nada para melhor. A maior, até então. Até aparecer outra ainda maior.

O velho Hobsbawm tinha alguma razão quando dizia que o século XX tinha começado e acabado em Sarajevo. E para os alucinados que sempre sonharam em matar os membros da aristocracia, eis a prova de como isso tem funestos resultados.

 

sábado, junho 28, 2014

Oitocentos anos de uma língua (seja mito ou não)


Nunca me teria ocorrido comemorar o dia da Língua Portuguesa. E de facto, o pretexto parece ligeiramente forçado, ou no mínimo efabulado, similar às criações de todos os mitos. Mas antes um pretexto longínquo do que o esquecimento. E um texto do século XII, do reinado do rei que ficou conhecido como O Gordo, parece-me tão bom como outro qualquer. Se for importante para defender a língua portuguesa, a quinta mais falada no Mundo, e espalhar o seu ensino pelo globo, tanto melhor. O actual marasmo que se assiste nalgumas paragens, como a antiga Índia portuguesa, é que com certeza não ajuda nada.

segunda-feira, junho 23, 2014

Desconsolo e desperdício

 A quase eliminação de Portugal do Mundial não seria apenas uma desilusão: em termos de reconhecimento mundial seria uma tragédia. Digam o que disserem, Portugal quase só é conhecido no Mundo por causa do futebol. Não comparem o fado, as praias, o galo de Barcelos e o vinho com a popularidade de que goza Cristiano Ronaldo, como antes a tiveram Figo e Eusébio. Mas esta eliminação pré-anunciada é particularmente dolorosa por ser no Brasil (incrível como até aí os portugueses conseguem estar em minoria) e contra Alemanha e EUA. Contra este último, na única coisa em que poderíamos ser melhores do que eles, conseguimos até nisso ser suplantados. No caso da Alemanha, seria um tónico contra o país que efectivamente controla a UE, mas fomos completamente dominados pelos germânicos e motivo de gozo na imprensa brasileira. Em suma, desperdiçámos a única coisa em que somos efectivamente conhecidos contra países que não precisam do futebol para isso. Neste momento, infelizmente, Portugal é uma irrelevância em tudo.
 
Sempre temos o S. João, para aliviar mágoas.

sábado, junho 21, 2014

Sugestões



Se ninguém tiver grandes planos para este fim de sema a de início de Verão e estiver pelo Douro ou Trás-os-Montes, sempre pode dar um giro por Vila Real e reviver as míticas corridas que regressam por estes dias ao circuito da cidade (de que já falei, há anos) , agora infelizmente muito modificado. Mas conservam alguma emoção e nostalgia, e depois sempre se tem a vista do Palácio de Mateus e do Marão. Eu vou estar por lá, mas noutros eventos, tão ou mais importantes. Divirtam-se e bom fim de semana.

quinta-feira, junho 19, 2014

Felipe VI


Hoje virou-se uma página na história de Espanha, para além do fim da triunfal geração da selecção de futebol: Juan Carlos I, o monarca que devolveu a democracia ao país e que a aguentou nos momentos mais complicados, dando espaço aos restantes actores quando se impunha, sai de cena, com a missão cumprida, dando lugar ao seu filho, doravante o Rei Felipe VI. Íntegro, consciente do seu dever, preparado, conhecedor do seu país e dos problemas que o afectam, o novo Rei é o homem em quem quase todos depositam a confiança quando Espanha atravessa uma crise política, social, regional e económica numa tempestade quase perfeita para a qual se precisa de um leme firme. Metáforas marítimas à parte, a tarefa que aguarda Felipe VI é complicada, mas dificilmente haveria alguém melhor do que ele para a enfrentar.

Juan Carlos não abdicou em vão, embora a superficialidade dominante tenha escolhido questões secundárias (como a caça ao elefante e outros faits-divers) como motivo. No ano em que a questão do separatismo se coloca como nunca, com o anunciado referendo na Catalunha, e as instituições vêem a sua popularidade em clara baixa, quando o desemprego e todos os problemas económicos resultantes da dívida e do rebentamento da bolha imobiliária que antes tinha feito a riqueza aparente do país se fazem mostrar com grande intensidade (embora haja alguns indícios de esperança), um monarca com outra disponibilidade, até física, era essencial para assegurar a estabilidade e a união de Espanha, e a imagem de uma personalidade serena mas firme impunha-se. É curioso como a comunicação social, ao falar deste assunto, não cessa de referir que "a instituição monárquica atingiu o seu ponto mais baixo de popularidade". É que todas as instituições de Espanha atingiram pontos mínimos de confiança, o que diz bem da crise das referências e da autoridade no país, e acima da coroa, só as forças armadas conseguem maior aprovação. Se queriam culpar o trono pelas crise do país, erraram o alvo...

Outra questão que boa parte das nossas TVs e jornais levantou foi a da "vontade dos espanhóis em questionar o regime", ou mesmo que "o povo espanhol" se tinha manifestado nas ruas "por um referendo para decidir se queria monarquia ou república". Eis um bom exemplo de como a suposta informação pode ser perniciosa e grosseiramente parcial. Confundir a "rua" com a vontade da maioria de um povo é um erro antigo e constante, muito repetido nestas paragens. Se fosse assim, mais valia entregarmos o governo da nação a Arménio Carlos. O que se viu foram os habituais movimentos radicais - ou independentistas - numa jogada oportunista, pretendendo aproveitar a abdicação do Rei para impor a sua vontade (que estava bem à vista: queriam um referendo para implementar uma hipotética república, não para questionar o regime), em manifestações ruidosas, com a horrível bandeira da 2ª república de má memória, muitas vezes com cartazes ilustrativos de guilhotinas ou frases tão eloquentes como "los bourbones a los tiburones". São os descendentes dos republicanos dos anos trinta, os mesmos que deixaram o país num caos e que permitiram o caldo de raivas e dissensos que levou à tenebrosa guerra civil. À cabeça, o PCE, partido legalizado por vontade expressa do Rei e que mostra agora toda a sua ingratidão, o que aliás não admira, vinda de uma formação que não hesitou em liquidar quem lhe dava na bolchevista gana e que obedecia directamente a Estaline. Ao lado, os "Indignados", muitos deles com uma postura violenta e uma agenda política que desembocou no Podemos, a nova formação partidária de inspiração chavista, que teve uma rotunda votação nas últimas eleições europeias. Em todos coexiste, além da virulência verbal, a falta de memória e a simples falsificação grosseira da história: dizem e repetem que "a monarquia não tem legitimidade" porque se funda "na ditadura franquista. É verdade que Juan Carlos foi proclamado Rei logo após a morte do caudilho; mas que se se saiba, era essa a fonte de poder em Espanha, na altura. Ganhara a guerra a uma república desaparecida, e não havia qualquer outro poder mais ou menos legítimo. Depois, o próprio Rei nomeou um governo que se encarregou de escrever uma nova constituição e de a apresentar a referendo: quase 92% dos eleitores votou a seu favor. E as formações políticas que estiveram contra, com a exlusão extraordinária do PCE dos tempos de Santiago Carrillo, eram quase as mesmas, incluindo a extrema-direita. Cai assim por terra o argumento ignorante de que "a monarquia não tem legitimidade" e que "ninguém votou nela". Houve alguns milhares na rua a brandir a daltónica bandeira republicana? Também em 1977 os anarco-sindicalistas da CNT reuniram mais de cem mil apoiantes em Barcelona, e nem por isso tiveram grande relevância nas urnas. De qualquer modo, todas as sondagens a um eventual referendo ao regime actual dão clara preferência pela monarquia - a mais desfavorável dá-lhe 13% de avanço sobre um hipotética república. Mas nem é preciso. Basta recordar que em questões de legitimidade, a monarquia espanhola, que deu ao país alguns dos seus melhores anos, com democracia, liberdade e autonomias várias, é bem mais legítima do que a maior parte das repúblicas, a começar pela que vigora em Portugal.
Felipe VI teve um discurso prolongado mas em que tocou em todos os aspectos essenciais sobre o que deverá ser o seu reinado, sem esquecer o papel do seu pai e do seu avô. A cerimónia teve sobriedade mas também pompa e dignidade. O novo Rei mostrou-se ao povo de cabeça descoberta, num soberbo Rolls Royce descapotável já com história, e depois na varanda do Palácio Real, com a nova Rainha Letizia, as filhas, agora também na linha de sucessão, e por breves momentos, os seus pais, o casal que deixou de sero Real. Terá sempre o melhor dos conselheiros para o ajudar a reinar, e a alegria de ser Rei sem que seja por morte de seu pai. A propósito, Juan Carlos ainda não tem título definido. Terão pensado em dar-lhe o de Conde de Barcelona? Seria uma bela homenagem ao seu pai, o príncipe que não reinou, e quem sabe se a recuperação do título condal não cairia bem entre muitos catalães. É também com esses aspectos subtis que se mantém um país. Ninguém mais do que Felipe VI está preparado para o fazer.
 

segunda-feira, junho 16, 2014

Recado à equipa nacional

 

Cara Selecção, não te esqueças que não estás em território desconhecido: essa cidade onde mais logo vais jogar foi fundada e erguida por portugueses, bem como as suas centenas de igrejas e a sua cultura mestiça, e serviu como primeira capital do território brasileiro por ordem do seu primeiro governador-geral (e fundador) Tomé de Sousa, ainda antes do Rio. A arquitectura que vês no centro, as igrejas, o pelourinho, os palácios, são tudo obras de portugueses (o resto deixámos aos bahianos indígenas, embora tenhamos dado alguns empurrões, nem sempre muito exaltantes, como os escravos trazidos de África, antepassados dos muitos negros dessa cidade). Não te esqueças igualmente que a cruz de Cristo que figurava nas naus de Pedro Álvares Cabral é a mesma que trazes incrustada na tua camisola. Por isso, reflecte nisto antes de enfrentares uma mannschaft cujos adeptos têm mais a ver com as regiões lá de baixo, em Porto Alegre, e honra os teus símbolos e a tua memória em terras que os teus ajudaram a construir. Só te peço isso.


Adenda - das três, uma: ou não leram este recado, ou uma mãe-de-santo lançou um mau olhado (o que explica as lesões de Coentrão e Almeida, e outras coisas) ou a recuperação de Schumacker deu uma imparável energia aos teutões. é que ao fabuloso dia desportivo para os alemães corresponde uma desastre incrível para Portugal, que sofre a maior goleada de sempre em Mundiais, perde dois jogadores por lesão e outro por castigo, e fica dependente dos próximos resultados e até da combinação de jogos entre terceiros.




Impressões do Mundial do Brasil


Vamos então ao assunto do momento, o Mundial de futebol. Tentei escapar à revoada de notícias inúteis sobre as ninharias da Selecção, e a ementa da Selecção, e quem passa a roupa, o que fazem os jogadores nos tempos livres, etc, etc. E também não tenho paciência para os constantes anúncios televisivos. Mas agora que a competição começou, é impossível uma pessoa manter-se indiferente. Até porque o que interessa, os jogos, têm sido aliciantes.

Claro que não se pode deixar de parte toda a polémica e protestos que tem havido contra a competição. O Brasil na sua ascensão económica e como membro dos BRICs, tinha de organizar um grande evento mundial que é o que fazem as potências emergentes. Na sua gula de evidência, conseguiu a organização não de um, mas de dois eventos seguidos: o Mundial de futebol deste ano e os Jogos Olímpicos de 2016. Podia ser também uma óptima oportunidade de fazer importantes reformas urbanas e de transportes, mas não é o que acontece. O investimento tem ido quase todo para a construção de estádios, pagos em boa parte com dinheiros públicos, ao contrário do que era assegurado no início, com custos muito para além dos iniciais, e com atrasos inacreditáveis, com o recinto da estreia a levar os últimos retoques a horas do primeiro jogo (são coisas destas que levam às derrapagens orçamentais). Quando algum brasileiro vier, como agora parece ser moda, falar no seu crescimento económico e destratar Portugal como "a favela da Europa", por exemplo, entre outros remoques mais ou menos imbecis, atirem-lhe com os inauditas situações da sua vergonhosa organização e comparem com o que aconteceu no Euro-2004 - construímos estádios a mais e gastamos mais do que deveríamos, mas ao menos correu tudo na perfeição, com os equipamentos prontos a meses do torneio. Além de que há estádios que se tornarão complicadíssimos elefantes brancos. E, como se viu, todas as promessas de novas redes de transportes ficaram no papel, e pelo meio, ainda foram despejadas inúmeras pessoas das suas casas. O mínimo que se poderá dizer é que o Brasil está longe de poder organizar grandes eventos de forma satisfatória, sobretudo agora, em que o seu crescimento económico arrefeceu.

Ainda assim, é incompreensível que haja pessoas a protestar contra o campeonato já depois do seu começo, querendo que não se realize. Que fizessem isso no ano passado, percebe-se. Que aproveitem para relembrar promessas não cumpridas, é normalíssimo. Mas queiram perturbar o evento no seu decurso? Quereriam que o Brasil tivesse feito todo o investimento para nada? E como ficaria a credibilidade do país caso não houvesse mesmo prova? Ou são inconscientes ou traidores. Os adeptos do "quanto pior melhor" estão em toda a parte, ou não se distinguissem lá pelo meio algumas bandeiras anarcas.
Mas políticas e estádios a cheirar a tinta à parte, a verdade é que a competição em si tem valido a pena. É claro que a forma como o Brasil ganhou logo a abrir a uma valorosa Croácia sem Mandzukic levanta todas as desconfianças, mais a mais quando a FIFA está sob qualquer suspeita (a história da escolha do Qatar como sede do Mundial em 2022 aí está para o comprovar). Ainda assim, tenho as minhas dúvidas que mesmo com o factor casa e alguns empurrões amistosos, o Brasil ganhe o certame. Já teve equipas melhores, e que não ganharam (sim, estou a pensar em 1982), e falta-lhe uma dupla avançada como as dos anos noventa - Romário/Bebeto ou Ronaldo/Rivaldo. Neymar não tem maturidade nem carisma para ser a grande figura da equipa, Hulk nem sempre está para isso, Fred é bom mas não é fabuloso, o meio-campo não tem um patrão, um capitão à altura; a defesa, e a baliza, ao contrário do que é tradicional, é de alta qualidade, mas por vezes anula-se. E um Brasil mais sólido cá atrás do que na dianteira nunca conseguiu grandes proezas.

Depois, o já famoso Espanha-Holanda, que acabou com a demolição do tiki-taka pela laranja mecânica, às mãos de uns fabulosos Robben e Van Persie. Esta Holanda bipolar (tanto faz grandes proezas numa competição como cai com estrondo na seguinte) promete, à Espanha já prenunciam o fim de um ciclo, mas convém ir com calma: afinal de contas, os espanhóis já começaram a perder noutras provas que acabaram por ganhar. Se bem que levar cinco não seja assim muito habitual, e aí recordamo-nos que a França e a Itália foram corridas da fase de grupos no Mundial em que entravam como detentoras do título.

De resto, pude ver uma Itália competente e experiente, embora não deslumbrante, uma Inglaterra voluntariosa e honesta, mas ainda verde, um Uruguai aflitivamente apático e algo envelhecido (nem o fantasma de 1950, tão recordado, lhes serve de alguma coisa), uma Colômbia que promete cumprir o que ficou pelo caminho há vinte anos e mais um punhado de selecções que prometem. Há pouco acabou o Argentina-Bósnia, no magnífico cenário do Maracanã, ideal para uma equipa estreante como os balcânicos. Os albicelestes ganharam bem, Messi marcou um bom golo, mas não deslumbraram (pudera, Enzo Pérez não jogou) e não posso considera-los como candidatos à vitória na prova. Já os bósnios mostraram atrevimento e raça, próprios de um país recente, têm a obrigação de mostrar o que valem ao Mundo, a união fortalecida pela provação da guerra e contra Irão e Nigéria têm todas as possibilidades de passar.

Amanhã entra Portugal em cena, na sua antiga capital colonial de Salvador da Bahia, contra os alemães, mas disso prefiro falar depois.

Entretanto, o cenário mais bizarro da prova fica até ver entregue ao jogo entre a Itália e a Inglaterra: em Manaus, no coração da Amazónia, ouviu-se o God Save the Queen a poucos quilómetros de piranhas e caimões, e tipos vestidos com cotas de malha e a cruz de S. Jorge a tirar fotos com índias. Desta nem Fitzcarraldo não se lembrou.

quinta-feira, junho 12, 2014

Passos para a paz


A oração conjunta entre Shimon Perez, Mamouhd Abbas e o Papa, que promoveu o encontro no Vaticano, não irá certamente trazer por si só a paz entre israelitas e palestinianos, nem acabar com todos os fanatismos da região. Mas é um exemplo de que líderes de povos desavindos se podem sentar lado a lado, orar em conjunto e até plantar as mesmas  árvores - no caso, uma oliveira, símbolo da paz e da cultura mediterrânica que é comum nos participantes. A paz não se constrói de uma assentada, com decretos de aplicação imediata ou sob um punho de ferro, mas através de passos firmes, de gestos e de cedências, contrariando a irredutibilidade dos fanáticos. Era isso que Sua Santidade queria demonstrar com este encontro em Roma. É isso que doravante terão de continuar a fazer, para promover dois estados, lado a lado, com bases sólidas para que não sejam minados por todos aqueles que jamais querem perceber o outro lado.


domingo, junho 08, 2014

Efemérides em sentido oposto


Estamos numa semana de importantes efemérides. Os 70 anos do desembarque da Normandia, no "Dia D",  e os 25 anos do massacre de Tiannamen foram amplamente recordados. Mas a diferença entre os dois é evidente: o primeiro acontecimento reporta ao princípio da libertação da Europa e o prenúncio da pior guerra que a humanidade já vira, com o sacrifício de milhares de soldados; o segundo recorda o esmagamento da manifestação dos estudantes que exigiam mais liberdade do regime comunista chinês. A comemoração da liberdade teve comemorações solenes reunindo os chefes de estado dos países vencedores; a da confirmação da tirania maoísta/dengxiaopinguista, pelo contrário, teve vigilância reforçada para impedir qualquer recordação ou protesto, fazendo passar a ideia de que nada aconteceu. Apesar de tudo, antes isso do que o inverso: é sempre melhor recordar a derrota da tirania (menos no que tocou à URSS) do que o seu triunfo.


quarta-feira, junho 04, 2014

El Rey abdicó, viva el Rey!


Não se pode dizer que tenha sido uma total surpresa. E tão pouco que se esperava nesta altura. Mas a decisão estava tomada há meses. Don Juan Carlos I, Rei de Espanha, restaurador da monarquia e da democracia no seu país, abdicou ao fim de 38 anos de reinado. Tempo mais que suficiente para descartar o cognome que Santiago Carrillo lhe deu em 1975: "Juan, o Breve".

A explicação que Juan Carlos dá é a necessidade de que uma nova geração reine em Espanha, para suportar novos tempos e enfrentar novos desafios. Faz recordar as razões do Papa Bento XVI e de alguns monarca europeus na justificação das respectivas renúncias, por razões similares. Para além disso, é público o estado de saúde debilitado do Rei, a sua menor popularidade devido à crise que assola o país e a sua vontade, há muito conhecida, de que Felipe o substituísse para dar novo sangue à coroa, tão necessitada nesta altura em que a crise económica, a degradação do sistema partidário e a ameaça de desagregação territorial ameaçam mais do que nunca o país.

No fundo, pode-se considerar que Juan Carlos sente que cumpriu a sua missão e que se retira agora para um descanso merecido, passando o testemunho ao seu sucessor, de resto mais que preparado para assumir a sua missão. O Rei que abriu Espanha à democracia e ao mundo, que afastou a tralha franquista nomeando Adolfo Suarez presidente de um governo sob uma prova de fogo  (que se encarregou da Transicion e de dar ao país uma nova constituição) e que ainda abortou o golpe militar de 1981, encabeçada pelo patético Tejero Molina, dá como terminado o seu reinado, cumprido exemplarmente para lá de todas as expectativas iniciais. O seu amigo Suárez morreu há pouco mais de dois meses. Com a abdicação do Rei que a tornou possível, 2014 parece mesmo indicar o fim da pós-Transicion.

Juan Carlos foi um monarca excepcional, um dos maiores chefes de estado do último meio século e um exemplo de tenacidade, paciência e até de bonomia. Os elogios feitos pelas principais figuras de estado espanholas, a começar pelos ex-chefes de governo, são prova disso mesmo. Um dos mais acertados, e também uma das melhores definições do regime monárquico constitucional espanhol, coube a Rodriguez Zapatero, que afirmou que "a união entre a coroa e a democracia faz parte do património colectivo de Espanha". Lógico. A monarquia parlamentar tal como existe em Espanha e noutra nações europeias é a melhor coabitação entre a traição e a modernidade. E faz ainda mais sentido numa sociedade tão dividida em duas como a Espanha, ou as "duas Espanhas". Uma não pode prescindir da outra, como o tentaram fazer Franco, por um lado, e os republicanos, por outro. Terão sempre ideias antagónicas, mas estão condenadas a conviver. A constituição de 1977 serviu exactamente para estabelecer, além da reconciliação, essa convivência, com cedências de parte a parte. Juan Carlos cumpriu essa dificílima missão da melhor maneira. Felipe VI cumprirá decerto a sua com igual sucesso.

El Rey abdicó, viva el Rey!


PS: mais tarde falarei dos que pedem um referendo "para decidir a forma de estado" (usando a rua, claro está).

segunda-feira, junho 02, 2014

360 graus

Eleições também as houve no Egipto. Com uma abstenção gigantesca, e a Irmandade Muçulmana e os liberais afastados da contenda, o General Sissi "legitimou-se" no cargo e ganhou com uma votação quase total. O novo homem forte do país entre margens do Nilo tem agora carta branca para governar segundo o velho método militar. "Primaveras Árabes", afastamento das forças armadas, julgamento de Mubarak, vitória eleitoral  - legislativa e presidencial -  da Irmandade Muçulmana, tudo isso passou em três anos: os militares regem o país, os islamitas estão presos e até ameaçados de morte, os liberais estão silenciados. A célebre gaffe de que a situação deu uma volta de "360 graus" torna-se real no Egipto: o país deu mesmo uma volta de 360 graus, de volta a 2010. Desta vez, com um Sissi no topo. Os fãs de Romy Schneider e os descendentes dos Habsburgo devem estar felicíssimos.

domingo, junho 01, 2014

Não bastam eleiçõs para normalizar a Ucrânia


Com os combates a leste como fundo, a Ucrânia lá conseguiu realizar as suas eleições presidenciais. Como todas as sondagens previam, Petro Poroshenko, conhecido como o "rei do chocolate", já com importante experiência política, e apoiado pelo UDAR de Vitali Klitschko (por sua vez eleito presidente da câmara de Kiev) venceu por larga margem, tornando-se presidente da Ucrânia logo na primeira volta. A sua prioridade é acabar com as revoltas separatistas no leste do país e, se possível, recuperar a Crimeia. Se a segunda parece uma tarefa quase impossível, pelo empenho da Rússia na sua anexação, e pela maioria local que a suporta, a primeira é menos complicada. O plebiscito que tornou Donetsk e Luhansk em "repúblicas populares", organizado pelas milícias locais, não tem o apoio explícito da Rússia, que toma posições ambíguas. Na última semana houve confrontos violentos na região, que vive em autêntico estado de guerra: ocupação do aeroporto de Donetsk por parte dos separatistas (que sofreram inúmeras baixas na recuperação por parte das tropas ucranianas), abate de helicópteros da força área ucraniana, combates vários nas cidades, destruição de barricadas, etc. Poroshenko ainda não tomou posse, mas a luta pela expulsão dos separatistas já começou. Estes, por sua vez, com material de guerra pesado, reforços de voluntários vindos da Rússia, da Crimeia, e mesmo por inúmeros veteranos paramilitares tchetchenos (que outrora combateram a Rússia e que agora se lhes submeteram) e ossetas, mais chetnicks da Sérvia, gratos pelo apoio dado pelos russos nas guerras da ex-Jugoslávia, não se deixarão vencer com facilidade, até porque sentem as costas amparadas pela Rússia e para além da força bélica têm alguns trunfos na manga, como escudos humanos.

Entretanto, surgem dados curiosos que desmontam a pouco e pouco a propaganda massiva de que o poder de Kiev estaria tomado por neonazis e fascistas: os candidatos dos formações mais extremistas, como o Svoboda e o Pravy Sektor, tiveram em conjunto menos de 2%. E aparentemente, é a extrema-direita da Europa ocidental quem está com Vladimir Putin. Além da Frente Nationale de Mme LePen, os neofascistas e antissemitas Jobbik, da Hungria, e Aurora Dourada, da Grécia, também estão com o líder russo. Juntando-se assim aos nostálgicos comunistas, como o "nosso" PCP, ou o MRPP, que num dos seus sites firmava perentoriamente que "todos os operários europeus estavam com as autoproclamadas "repúblicas populares". Será temerário falar em nome de todos os operários, mas talvez os militantes do MRPP tenham alguma razão: afinal de contas, o operariado francês vota maioritariamente na Frente Nacional.
Toda esta crise ucraniana está para durar (e se não arrastar a Europa é um sorte), mas é comovente ver que, mais uma vez, les beaux esprits se reoncontrent...

quinta-feira, maio 29, 2014

Sobre a final


Sobre a final da Liga dos Campeões na Luz, não se pode dizer que tenha sido bem jogado, mas não faltou emoção, golos e disputa acérrima, como é próprio de um derby. Não consegui ver o primeiro e o último golo, ocupado com um jantar para amigos, entre vinhos e gins, a que o jogo veio dar atracção suplementar, mas vi  três do Real que lhe valeram la decima. Acredito que tenha sido uma desilusão para os adeptos do Atlético, sofrer um golo tão perto do céu (nós, benfiquistas, sabemos o que isso é), mas a verdade é que o Real mereceu. E os colchoneros sempre foram campeões de Espanha (curiosamente, também la decima para eles, mas decima liga nacional).


Mas o jogo serviu também para contrariar aquela célebre frase que estipula que "não devemos voltar aos lugares onde fomos felizes". Di Maria, talvez o melhor em campo, com as suas arrancadas e as suas assistências, e Fábio Coentrão formaram a ala esquerda dos merengues, anos depois de terem feito o mesmo naquele estádio, ao serviço do Benfica, na época 2009-2010. Quando alguns esquecidos voltarem com a estapafúrdia desculpa de que o Benfica ganhou o título desse ano por causa dos "túneis" e do castigo do Hulk (mais curto até do que devia), lembrem-se disto. O argentino e o português ergueram a máxima taça europeia de clubes, naquela magnífica catedral do futebol onde tinham sido felizes anos antes, contrariando definitivamente essa máxima, como é dever de todos os que se superam e reinventam as palavras.
 
 

No PS afiam-se espada e contam-se espingardas



Os dois partidos socialistas da península Ibérica passam por convulsões internas de monta. A diferença é que enquanto o PSOE já andava a arrastar-se há algum tempo e teve um resultado muito fraco nestas europeias, abaixo do do descredibilizado governo do PP, o que levou à demissão do secretário-geral Rubalcaba, que enquanto ministro do interior desmantelou a ETA, o PS português ganhou as eleições, meses depois de ganhar as autárquicas. À partida, deveria significar um reforço do partido face ao desgaste e à impopularidade do governo. Afinal, voltam-se a contar espingardas. Seguro, depois do delirante discurso da "grande vitória", vê-se de novo confrontado com a ameaça de António Costa.
Não é novo na política portuguesa que um líder partidário seja objecto de uma tentativa de derrube sem antes passar pela prova de umas legislativas (casos de Marques Mendes e Ribeiro e Castro), mas no PS tal nunca sucedeu. Houve demissões a meio do mandato por vontade dos próprios (Constâncio e Ferro Rodrigues), mas nunca por golpes palacianos.
Pode parecer uma facada da parte de Costa, mas punhamo-nos no seu lugar: Seguro é tão atractivo como um cacto e tem o carisma de um arbusto. Ao contrário do ex-homólogo espanhol, não tem obra que se visse. O resultado das europeias é pouco satisfatório. Provavelmente é a única hipótese que o edil de Lisboa tem de alcançar a liderança do PS e levá-lo a um resultado razoável nas próximas legislativas. Imaginar Seguro como primeiro-ministro, para mais em minoria, é aterrador. António Costa pode ser muitas vezes sobrevalorizado e com boa imprensa, mas tem bem mais sentido de estado, instinto e capacidade política que o secretário-geral que escolheram para o PS. E depois, falando em "traições partidárias", é bom recordar que na própria noite da derrota de 2011, mal Sócrates disse que se afastaria da vida política, de imediato Seguro disse, com um tom pomposo e um sorrisinho irritante, "a título oficial", que estava disponível para o que o partido precisasse. Como se fosse difícil adivinhar...O trabalho de sapa junto do aparelho estava feito, e não precisou de muito para vencer internamente Francisco Assis.

Resta saber se Seguro convocará o congresso extraordinário e irá à luta. Mas em qualquer situação o PS ganhará algumas feridas. Se não houver o tal congresso, a situação interna aprodecerá e poderá ser fatal para os objectivos do partido. Se for e derrotar Costa, reforçará em definitivo a sua posição, mas o combate causará sempre mossa. Se Costa lhe arrebatar a liderança, os apoiantes de Seguro não lhe perdoarão e causarão um ambiente de difícil respiração. Em qualquer dos casos, o PS vai passar por dias turbulentos. E Passos Coelho e Portas só esperam que esses dias sejam demorados.

terça-feira, maio 27, 2014

Balanço das europeias



Balanço. Se não fosse o formalismo de se esperar pelo fecho das urnas em Itália e os boicotes em murça (não isentos de razão, pelo que vi), já teríamos os resultados completos e a distribuição final dos eurodeputados portugueses. Assim, temos de esperar mais um pouco. Mais pelos eleitos do que pelos números.

A abstenção, como de costume nestas eleições, atingiu níveis estratosféricos. Desta vez passou os dois terços do eleitorado. Nada que espante. Mas é curioso que quanto mais periféricos são os estados-membros, maior é o número de eleitores que não se dão ao trabalho de ir às urnas. Vejam-se os 87% de abstenção na Eslováquia e os 90% de participação na Bélgica. Portugal é definitivamente um país periférico.


O PS ganhou, ponto. Só que ganhou com menos de 4% de avanço. tudo o que fosse menos de 5% seria pouco satisfatório. E sejamos francos, menos de 31% é um número fraquinho. O número de Seguro, proclamando a "grande vitória", é patético, sobretudo olhando para a assistência socialista, tepidamente sorridente, e às próprias declarações de António Costa e de outros, que reconheceram que não era um grande resultado. Na primeira fila via-se Eduardo Lourenço, candidato simbólico pelo PS. Ver um dos principais pensadores portugueses cabecear de sono durante o discurso de Seguro devia levar as pessoas "a tirar as suas próprias ilacções".

A coligação PSD/CDS deve o seu paupérrimo resultado não apenas ao desgaste e à impopularidade do governo mas também à fraca campanha de constante disparo sobre o PS e sobre Sócrates. Uma campanha em busca de fantasmas, no fundo, e que surpreendeu pela negativa. Paulo Rangel é capaz de muito melhor. Provavelmente não se lembrou que em 2009 Vital Moreira recorreu ao mesmo cacete argumentativo e teve o resultado que se viu. A pomposa "Aliança Portugal" só não teve um resultado desastroso por comparação com o do PS.

Depois do reforço das autárquicas, a CDU teve mais um bom resultado. Não é estrondoso e ainda lhe falta confirmar o terceiro eurodeputado, mas conseguiu passar os dois dígitos numa eleição nacional. Depois de anos e anos a reclamar vitória com resultados fraquinhos, os vermelho/verdes conseguiram enfim acertar o discurso com a performance. Conseguiram cavalgar a onda de protesto com muito mais competência que o Bloco e estão aparentemente a ganhar com a renovação progressiva de quadros. Até onde é matéria que se deverá seguir.

O Bloco continua em queda livre. Por pouco Marisa Matias não conseguia ser eleita. A sangria de elementos conhecidos (Joana Amaral Dias é o último exemplo), o vazio das causas fracturantes, a falta de carisma na estranha liderança bicéfala (ou "paritária"), a intolerância a oposições internas e a pura e simples incompetência ditaram mais este fraco resultado. Desconfia-se que não fique por aqui.

O Partido da Terra, ou melhor dizendo, Marinho Pinto, surpreenderam ainda mais do que as sondagens mais favoráveis previam. Havia a hipótese de elegerem um deputado. Agora há a hipótese de elegerem dois. Perguntava há tempos qual seria o peso eleitoral do ex-Bastonário da OA. Está visto que o tem, e não é assim tão pouco. Agora vamos ver o que vale a sua acção no Parlamento Europeu, se mantém o seu populismo verbal e manual (que não de substância do discurso, bem mais moderado do que o estilo faz aparentar), como irá defender as suas ideias. E já agora, se o MPT ganha alguma coisa com isso. De qualquer maneira, está de parabéns: conseguiu ser a primeira figura pública candidata por um pequeno partido a ser eleita para Estrasburgo (Esteves Cardoso, Laurinda Alves e Victorino de Almeida já o tinham tentado, sem sucesso).

Os "pequenos" conseguiram um resultado global mais alto do que o costume. De entre as habituais décimas, ressalva-se de novo o MRPP e o Partido dos Animais, e sobretudo o novíssimo Livre. Um jornal qualquer, creio que o Público, classificava o seu resultado como uma derrota, com seta para baixo e tudo. Parece-me um erro prematuro. Afinal de contas, o Livre teve 2,2%, longe de servir para reeleger Rui Tavares, claro. Mas ainda assim, permitiria uns dois ou três deputados em legislativas. E convém recordar que o Bloco teve ainda menos nas primeiras eleições a que concorreu, precisamente umas europeias, em 1999, com outra máquina partidária, outro mediatismo e com apoiantes já com larga experiência política. Sem figuras públicas (apesar do apoio de algumas, como Ricardo Araújo Pereira) e sem grandes meios de campanha, pode-se dizer que os primeiros números do Livre são promissores. Afirmar que são uma desaire e uma desilusão é uma leviandade própria de quem não quis perder muito tempo com o assunto.

As consequências imediatas parecem estar a atingir, antes de mais, o PS. Quando é que um partido vencedor registou tal convulsão interna?


No resto da europa, o previsto: reforço dos eurocépticos e da direita radical no Reino Unido, Itália, França e Dinamarca, reforço da esquerda radical na Grécia (onde saiu vencedora) e em Espanha (além da Esquerda Unida, o novo movimento dos "Indignados", de inspiração chavista, teve quase 8%). Em Itália, as reformas de Mateo Renzi parecem estar a agradar aos italianos: o seu Partido Democrático obteve mais de 40%, o que num país tão politicamente instável e fragmentado é notável. Beppe Grillo voltou a conseguir números elevados, mas roubados directamente a Berlusconi e à refundada Forza Itália. É provavelmente a maior esperança para os partidos europeus mainstream.


sábado, maio 24, 2014

A final na Luz

 
Finais europeias entre equipas do mesmo país vão tornado vulgares (até Portugal já teve), mas pela primeira vez vão-se encontrar duas equipas da mesma cidade, e logo na prova rainha. O surpreendente Atlético e o poderoso Real nunca imaginariam isso no início da época. E quis a sorte que a final fosse em Lisboa, na catedral da Luz, o que com certeza aumentou a euforia dos seus adeptos - nem precisam de procurar bilhete de avião. A final em Portugal e com dois clubes madrilenos ficará circunscrita à Península Ibérica.

A invasão a Lisboa, de perto de cem mil espanhóis, vai certamente ajudar a economia, sobretudo a hotelaria e a restauração da capital e arredores largos. Muito gente inflacionou as suas casas e cobra couro e cabelo por um quarto. Não deixa de ser motivo de vergonha a exploração descarada das dormidas. Certamente que não vai ajudar à fama de Portugal, mas se houver que esteja disposto a pagar, pior para ele. Mas o impacto económico da final é brutal, muito mais do que podia imaginar. É sempre bom ver o nosso país (e o nosso estádio) nos olhos do Mundo por bons motivos. E a final está a mexer com a cidade, pelo que pude comprovar há dias.

Tenho preferências, claro. Se o Atlético não tivesse ganho o campeonato, talvez estivesse por eles. Assim, inclino-me para os merengues e para a décima taça do Real. Mas acima de tudo espero um grande jogo (que assistirei do Porto, entre amigos) e que nenhum jogador português se lesione, que temos um Mundial no Brasil para disputar. Por Cristiano Ronaldo, claro, sem ele a selecção nunca estaria no Brasil, mas também Pepe e Coentrão.

Curioso como o Benfica fica ligado às duas finais europeias: disputou uma delas e empresta a casa para a outra. Gostava era de saber quanto ganhará com isto. A visibilidade é importante, mas não mais que o dinheiro.
 
PS: podia-se desde já criar a piadinha fácil: a de que o governo, em especial Portas, tinha mentido descaradamente. Prometeu-nos para Maio um novo 1 de Dezembro, e em lugar disso temos a invasão espanhola.

sexta-feira, maio 23, 2014

A campanha acabou. Deram por ela?


A campanha eleitoral para as europeias acaba hoje. Eu, que até me interesso por estas coisas (sim, estou a falar dos cartazes, arruadas e comícios), quase nem dei por ela. Se não fossem alguns outdoors e as notícias, dificilmente me lembraria que no dia 25 temos eleições. Mas ainda assim pude formar a minha pequena opinião do pouco que vi.

A Aliança Portugal, nome pomposo para a coligação dos partidos no governo, quase que se limitou a zurzir no PS, a perguntar por Sócrates e a fazer de Assis e Seguro os bombos da festa. Substância e questões europeias? Se falaram nelas, ninguém ouviu. Provavelmente para disfarçar as grandes divergências do federalista Rangel e do "eurocalmo" Melo. Uma campanha pobre e com alguns momentos pimba, digna de um partido de oposição, e que provavelmente contribuirá para os levar para lá.

O PS começou bem, com uma boa lista e a falar de questões europeias  prementes. Depois, caiu na crítica pela crítica e acabou com declarações patéticas (Alegre falando no perigo do nazismo, Soares escrevendo que sempre "abominou a direita" para justificar uma birra). Ainda assim, uma campanha melhorzinha que a da aliança.

A CDU usou a cassete do costume, sem demasiado azedume, mas aproveitou bem a onda de descontentamento, mostrou sempre que pôde as suas caras novas e não se entusiasmou demasiado com as sondagens. Uma boa gestão para o eleitorado comunista, e a aposta em mais alguns votos, que provavelmente terá.

O BE não joga a sua sobrevivência, mas quase. Uma campanha modesta, com um slogan quase futebolístico (o "de pé" lembra o "tudo a saltar" dos adeptos benfiquistas) e uma Marisa Matias voluntarista, a fazer os possíveis para que mais alguém do Bloco a acompanhe a Estrasburgo. Tarefa complicada.

Depois, os outros. O Livre teve uma campanha pouco visível, o que é natural, dados os poucos meios de uma formação acabada de nascer. Ainda assim, conseguiu alguma notoriedade com o apoio de figuras públicas, como Ricardo Araújo Pereira ou Conh "le Rouge" Bendit. Rui Tavares terá dificuldades em voltar ao Parlamento Europeu, onde teve um desempenho interessante, mas é possível que marque o seu território e que arranque um projecto de esquerda interessante e menos sectário do que o habitual (ou não, basta ver exemplos de bons resultados em europeias que se revelaram ilusões, como o PPM e o MES).

O Partido da Terra conseguiu um bom trunfo eleitoral com Marinho Pinto, a quem algumas sondagens dão a possibilidade de ser eleito, e ainda lhe juntou o eterno dissidente do PS Eurico Figueiredo. Mas alguém o ouviu falar em ecologia,  ruralismo, agricultura (já nem falo na monarquia) na sua habitual crítica constante e quase gritada? Dão-se alvíssaras a quem descobrir. E caso o improvável aconteça e Marinho troque Coimbra por Estrasburgo, que grupo de deputados integrará?

A Nova Democracia afinal não contou com Nicolau Breyner e lançou o madeirense Eduardo Welsh. Sei que são a favor da saída do euro e pouco mais. Sempre deu para ouvir GNR nos seus tempos de antena.

O velho MRPP revelou-se igual a si próprio, com uma falta de subtileza gritante. "Fora o euro, venha o escudo" era o que se lia nos outdoors que pendurou por aí (as novas subvenções do estado permitem esse luxo burguês). O grafismo não mudou em quarenta anos, e aplica-se melhor aos murais. Também falaram na necessidade de um "governo patriótico e de esquerda". Mas essa não é uma reivindicação, sem tirar nem pôr, dos "sociais-fascistas" do PCP?

O PPM pareceu apresentar algumas ideias interessantes, mas francamente, a imagem de alentejano acabado de acordar da sesta de Gonçalo da Câmara Pereira e a expressividade nula de Nuno Correia da Silva não ajudaram nada. Longe vão os tempos gloriosos de Miguel Esteves Cardoso e das suas campanhas provocatórias e irreverentes, que quase o levaram ao PE.

O PTP volta a mostrar o trunfo algo gasto de José Manuel Coelho. O madeirense não faz a coisa por menos e diz que quer ser "um novo mestre de Aviz". Falta-lhe algum cabelo, uma prole meio britânica e algumas invasões ao norte de África. Nem quero imaginar o quer teria inventado se tivesse ido a novos debates.

O MAS, cisão da ala mais à esquerda do Bloco e reencarnação da antiga FER, com o mesmo líder e tudo, Gil Garcia, também ergueu outdoors, clamou pela saída do euro e pela "prisão dos traidores" Talvez este novo agrupamento trotsquista supere em relevância a FER, mas não muito mais.

O PNR mostrou algum aprumo, para tentar minimizar a imagem de movimento de skinheads. Lançou a cabeça de lista o presidente dos Amigos de Olivença, Humberto Nuno Oliveira, com um discurso um pouco mais suave, mas esta marinelepenização não lhe deverá servir de muito. É improvável que consigam um lugar ao lado das FNs desta Europa.

O Partido dos Animais falou da crise do euro e de soluções económicas mas também de propostas bizarras como a criação de um Tribunal Europeu dos Direitos dos Animais. O animalismo de novo a equiparar pessoas e animais. Se isso pegasse, lá nos obrigavam a ser todos vegetarianos. Não, obrigado.

O Portugal Pró Vida é um partido simpático e que releva questões que mereciam mais importância para além do ostracismo a que o votaram. Mas partido algum pode defender apenas dois ou três tópicos, por mais importantes que sejam. É de todo improvável que o seu cabeça de lista, um senhor com sotaque transmontano, seja eleito.

O PDA, que julgava extinto, saiu dos Açores, e tanto quanto me disseram, tinha um discurso substantivo. Infelizmente não pude comprovar. Apenas sei que o cabeça de lista é um ex-eurodeputado do PS, Paulo Casaca, que nem conhecia.

O POUS...é o POUS. Um partido formado por Carmelinda Pereira e por Aires rodrigues e que se apresenta a todas as eleições, com o seu punho preparando-se para bater em alguém, porque sim. 

Pronto, aqui está um resumo de todos os movimentos concorrentes. Não é preciso agradecer. Alternativas não faltam. Pouca vontade de votar num deles sim. Mas algum terá de ser. Para abstenção já basta que que se adivinha.

quarta-feira, maio 21, 2014

Um fim de semana ideal (e uma lição de vida)



Há muito tempo que não tinha um fim de semana tão compensador como o que passou. Com um tempo de verão, vitória no Quiz de Cascata, uma proeza que há anos não se verificava (e logo a seguir à extensa reportagem da Notícias Magazine que saiu na semana passada, precisamente sobre este evento mensal praticado por umas dezenas de maníacos numa patusca colectividade de bairro, na Ajuda; a propósito da pergunta que surge logo no início, feita pelo autor deste texto, deverei escrever brevemente um post sobre D ´Annunzio e os seus feitos de guerra). Serviu também para conhecer enfim o Corredor Verde de Lisboa, projecto de Gonçalo Ribeiro Telles, que teve de esperar anos e anos até o ver concretizado. Serviu para rever amigos e as noites soalheiras de Lisboa. Serviu, finalmente, para poder ir à final da Taça de Portugal, no Jamor, como se quer, numa tarde de sol. Nos 75 anos da Taça e nos setenta anos do Estádio Nacional, o Benfica voltou a erguer o caneco, pela 25ª vez.


O Estádio Nacional, que só conhecia de longe, é tão esteticamente interessante como parece visto na televisão. A mata que o rodeia protege-o da paisagem suburbana que se acumulou ao longo do tempo e do ruído dos nós rodoviários. Conserva-o como um local mítico do desporto português, o recinto onde se jogou a final da Taça dos Campeões europeus, em 1967 (em que o Celtic de Glasgow derrotou o Inter de Milão tornando-se o primeiro clube não latino a conquistar o troféu), onde se jogaram muitos desafios da Selecção Nacional e a maior parte das finais da Taça. É certo que lhe faltam alguns aspectos que se foram pensados ao longo do tempo para outros estádios - não tem cobertura, balneários, a iluminação é deficiente e os acessos limitados - mas tem uma elegância clássica, dadas as influências estéticas da altura da sua construção, os anos quarenta, que seguiam o "modelo totalitário" em voga, que compensa isso tudo.

 
E depois, o resultado: a vitória do Benfica, juntando a Taça ao Campeonato e à Taça da Liga, o falado "triplete", que escapou no ano passado, e que compensou em parte a malapata da final europeia. Desde 1987 que o SLB não juntava os dois mais importantes títulos do futebol português, o que revela que a crise desportiva está definitivamente posta para trás. Um jogo duro, sem grandes momentos de futebol, tirando o golo solitário de Gaitan (por azar na baliza contrária ao lado de onde me encontrava), em que o meu temor de que a equipa do Benfica mostrasse debilidades físicas depois do brutal esforço da final de Turim se concretizou. Os jogadores estavam esgotados, mas resistiram como puderam e foram compensados (com alguma felicidade à mistura, diga-se). Assim acabou uma época extraordinária, nada previsível naquele início de desaires e tensões, que inesperadamente se tornou numa colecção de glórias. Para manter, espero.

Mais uma vez, dou a mão à palmatória, para mais do que uma palmada: dizia há um ano que Jesus tinha de se ir embora, que caso ficasse não pretendia ver mais jogos do Benfica com ele no banco, e que gostaria que ele ganhasse a Taça, mas noutro clube. Pois Jesus ficou, ganhou tudo a nível interno, incluindo a Taça, e eu estive lá para ver. Tudo o que previa saiu (felizmente) furado. O técnico conquistou finalmente o troféu que tanto procurou (por razões pessoais e familiares), e que lhe tinha escapado noutras ocasiões. E o Benfica mostrou como se pode cair com estrondo, erguer-se lentamente,  atirar os desaires para as costas, tentar de novo e ganhar. Só faltou o troféu internacional que há de voltar sem sombra de dúvidas. O Benfica deu uma grande, grande lição de vida e de resistência.

sexta-feira, maio 16, 2014

Emoção, drama , mística



Pronto. Passou a final, e novamente a taça voou para outras paragens. O meu pessimismo nestas coisas justificou-se, infelizmente. Já são muitos anos disto.


A história da maldição de Bella Gutman já cansa, mas no futebol, terreno fértil para superstições, parece ser mesmo verdade. Turim já é a oitava final sem ganhar (não admira, no estádio de outro dos nossos "rivais" nessa matéria). Algumas justamente, outras com menos justiça. Tudo já aconteceu ao Benfica em finais europeias: jogar em casa do adversário, lesões de jogadores importantes, antes e durante o jogo, até já sem poder fazer substituições, decisão nos penaltys, golos nos descontos ...parece não haver uma única final europeia em que não haja uma malapata. Ontem houve uma combinação entre ausências de jogadores nucleares, lesões a meio do jogo (aliás Sulejmani saiu lesionado por um adversário), penaltys e agora até uma modalidade nova, erros do árbitro, em fechar os olhos a pelo menos uma grande penalidade a favor do Benfica, a alguns cartões, e à maneira como Beto saltou da baliza na hora das decisões, quando não o podia fazer.

Eu sei que justificar derrotas em jogos assim parece sinal de fraqueza, que "as finais são para se ganhar", e todo aquelas coisas que os adversários do Benfica normalmente repetem nestas ocasiões (sem falar na conversa da "arrogância benfiquista", porque "já estavam preparados para festejar", como se o SLB fosse o único clube do Mundo cujos adeptos não pudessem preparar festejos em caso de vitória). mas gostava que pelo menos numa final tivéssemos alguma sorte. Só um bocadinho. Tivemos na primeira, e nas seguintes, mas ao longo de meio século, abandonou-nos descaradamente. Já era tempo de nos voltar a sorrir, ao menos uma vez. com ou sem maldição do mago húngaro, há coisas que não podem durar para sempre.

Mas ser benfiquista é isto. Sofrer, aguentar, ganhar, voltar a sofrer. Como diz a Reuters num artigo muito aconselhável, o Benfica é emoção, drama e mística. muito para além da simples prosa da bola ou de "o que interessa é ganhar". Na próxima final europeia veremos quem é o adversário que nos calha - e que presumivelmente será o vencedor do troféu. Até que voltemos a ser nós, afastando qualquer réstia de maldições.

quarta-feira, maio 14, 2014

O dia da final (a décima europeia)



Há um ano, parecia que todas as desgraças se tinham abatido sobre o Benfica, no fim de uma época impecável. Campeonato, UEFA, até a Taça de Portugal, tudo voou. A depressão instalou-se e a época seguinte prometia ser uma agonia sem grandes razões para festejar.

Como se sabe, as coisas não se passaram assim. Razões para festejar tem havido muitas. O campeonato ficou garantido a semanas do fim. Seguiu-se a Taça da Liga, autêntico brinde alcançado quase sem nem pedir. No próximo domingo, a Taça de Portugal será nova tentativa para recuperar um troféu que foge há dez anos. E hoje, temos uma final europeia. A décima.

No ano passado perdemos contra o Chelsea, de forma inglória, num jogo em que fomos superiores a maior parte do tempo. Hoje, defrontamos o Sevilha, precisamente o primeiro adversário nas competições europeias, nos longínquos anos cinquenta, com quem perdemos na altura. Para lá chegar, tivemos que deixar pelo caminho a Juventus, o clube do estádio da final, uma autêntica proeza digna de semideuses mitológicos. duas semanas depois desse combate encarniçado, o Benfica regressa a Turim.

À partida, deveríamos ser favoritos, pela qualidade e capacidade de luta da equipa, sempre com a vitória em mira. Mas as ausências de vulto de Enzo Pérez, Salvio, Markovic e até de Fejsa, que deixam a equipa sem a asa direita e o meio-campo titular, são razões para temermos uma final durinha. E o meu habitual pessimismo - ou prudência, se preferirem - obriga-me a estar de pé atrás.
Mas há alguns bons indícios, também. O primeiro é que o Benfica perdeu sete finais, mas todas com equipas que não as espanholas. Sempre que encontrou adversários do país vizinho em finais europeias, o Benfica ganhou.
O outro é que hoje é 14 de Maio de 2014, e passam exactamente vinte anos sobre a soberba e esmagadora vitória do Benfica em Alvalade, por 6-3, com o Sporting, num jogo electrizante que decidiu o título, numa época em que também aí se começou com as expectativas em baixo, depois de uma sangria de jogadores precisamente para o clube verde. Sim, aquele mesmo, em que João Pinto realizou o jogo de uma vida e teve direito a uma inaudita nota dez do jornal A Bola, que ficou para a história do futebol português.

Que o espírito vencedor desse dia memorável renasça hoje nos jogadores do Benfica. Esse e o de Eusébio e Coluna, antigos campeões europeus, desaparecidos este ano, mas que com certeza não deixarão de inspirar a equipa. É neles e no seu exemplo que os jogadores benfiquistas têm de pensar se quiserem sair do campo com a vitória e com a Taça

Quando os czares estavam virados a Oriente



Apesar de tudo o que atrás disse dos métodos da Rússia, não é por isso que vou deixar de aconselhar uma visita à Gulbenkian, a quem esteja ou passe por Lisboa até ao próximo dia 18 de Maio, para ver a exposição Os Czares e o Oriente. na sua primeira mostra na Europa fora do Kremlin. Entre os testemunhos das antigas relações da Moscóvia com o Império Otomano e a Pérsia, para estreitar as relações comerciais e permitir novas vias de comunicação entre a Europa mais a Leste e a Ásia, encontram-se objectos de beleza exótica, nunca antes vistos por aqui. Sabres, armaduras, escudos e outros utensílios de guerra, tecidos, paramentos, arreios, selas, caixas várias, e mesmo ícones antiquíssimos e valiosíssimos, muitas foram as ofertas das cortes otomana e persa aos senhores do Kremlin, entre os séculos XIV e XVII, testemunhando as boas relações que tiveram até Pedro, o Grande se virar para Ocidente. Um conjunto belíssimo de obras de arte e de ostentação de quem os possuía, revestidos de pedraria preciosa, obra de grandes artesãos tártaros, russos, turcos e persas. Quem não viu deve fazê-lo se puder, rapidamente. E aproveitar o fim de semana dos museus, em que muitos deles estarão abertos ao público.






terça-feira, maio 13, 2014

Mais um plebiscito na Ucrânia




Mais um plebiscito, desta vez ainda mais feito em cima do joelho e sob ameaça das armas que o da Crimeia. Donetsk e Lugansk "votaram" pela independência da respectiva "república popular", ou seja, por um enclave do leste da Ucrânia que pretende unir-se à Rússia no menor tempo possível.


Entre barricadas, armas pesadas e uniformes de toda a sorte, os votantes deram uma maioria esmagadora aos partidários dessas estranha independência. Que tenham chegado boletins preenchidos, ou que tenha havido pessoas a votar várias vezes, sem qualquer tipo de observadores internacionais, é coisa que não preocupou os seus organizadores, que tão pouco pensaram em fazê-lo depois das eleições marcadas para 25 de Maio. Ou talvez por isso mesmo. Dessa forma, e sob o pretexto do "governo ilegítimo" de Kiev, procedeu-se a um rearmamento da população russófona, com o apoio de milícias vindas directamente do grande vizinho, veteranos das guerras do Cáucaso, cossacos e até de Chetniks da Sérvia, proclamou-se a autonomia e tenta-se assim torpedear o calendário eleitoral, que só muito dificilmente terá lugar no dia aprazado. Que fazer? Se as eleições forem para a frente, é de esperar o caos. Se não forem, dar-se-à um pretexto a que se considere que o actual governo interino de Kiev é ilegítimo. De qualquer das formas, os separatistas já vieram com a tese absurda de que "as eleições são ilegítimas porque foram marcadas por um governo ilegítimo". Seguindo esse paradoxo, que impediria que qualquer governo futuro ganhasse legitimidade, também poderíamos considerar que as eleições para a Assembleia Constituinte de 1975 (e todas as que se lhe seguiram) também carecem dela. A verdade é que os separatistas não querem eleição nenhuma, excepto as que elas próprios organizam à sua maneira, de forma a serem anexados pela Rússia. Os dirigentes russo, nos últimos dias, tinham optado por uma posição de maior moderação, afastando tropas das fonteiras com a Ucrânia e aconselhando a que o "referendo" não se realizasse no domingo, mas entretanto já vieram aproveitar os "resultados". Normal. fizeram o mesmo na Crimeia. Mas desta vez, com as tropas ucranianas na fronteira e a cercar os separatistas, as colunas pró-russas terão outra dificuldade em anexar aquele território. Não se ocupa a bacia do Don como se ocupa a Crimeia ou a Ossétia do Sul.

Mas a situação é muitíssimo tensa. Para além das milícias atrás referidas, que já declararam que as forças ucranianas têm de sair, o que leva a crer que os combates vão recrudescer, tivemos os terríveis acontecimentos em Odessa, há dias, em que no seguimento de uma refrega campal deu-se o incêndio na sede dos sindicatos da cidade, devido a coktails atirados por manifestantes pró-união depois de um ataque de pró-russos (onde se incluíam, ao que tudo parece, elementos da Transnístria).
É pouco provável que por aqui os separatistas consigam realizar plebiscitos semelhantes aos da Crimeia e do Donbass, até porque os reforços do Transnístria não serão suficientes e a população não é maioritariamente russófona. Mas é de esperar novos tumultos, ali, não muito longe das fronteiras da Roménia, e portanto da NATO. E sobretudo, o espectro da antiga Jugoslávia, que teima em assombrar aquela região, cindida entre ucranianos e russófonos saudosistas. Deus não permita uma tal catástrofe.


segunda-feira, maio 12, 2014

A questão dos Papas ou uma canonização demasiado rápida


Bem sei que já lá vão uns dias, mas este é um assunto em que ainda gostava de pegar, mais a mais agora, vésperas de Fátima.
A canonização dos Papas, em fins de Abril, em Roma, teve um enorme banho de multidão, grande cobertura mediática e muita emoção pelo meio, como seria de esperar. Centenas de milhares de pessoas foram pessoalmente testemunhar a santificação de João Paulo II e de João XXIII, de tal forma que amigos meus que também lá foram não conseguiram ver absolutamente nada, nem sequer a efígie dos dois novos santos, quanto mais os dois Papas vivos que lá estavam.


O interesse do acontecimento, aliás, estava sobretudo aí, numa ocasião que o mundo guardará para a posteridade: dois Papas em público, lado a lado, o Papa efectivo, Francisco, e o Papa Emérito, Bento XVI. A suprema autoridade da Igreja Católica dividida em dois? Não, a responsabilidade cabe ao Papa Francisco. Bento XVI representa um pouco a face humana do papado, dada a sua renúncia, para permitir que um novo pontífice tomasse em mãos as duras e necessárias tarefas que ele já não podia desempenhar. Tornando-se Papa emérito, era obrigatório que estivesse na cerimónia. Mais ainda quando conheceu os dois Beatos que aí iam ser canonizados: João XXIII e João Paulo II.


Apesar disso, apesar de toda a emoção que rodeou a canonização, houve um aspecto a que não pude deixar de reparar, até porque era notório: a maioria das pessoas dava claramente mais importância a João Paulo II do que a João XXIII. Cheguei a ouvir pessoas a referir-se à "canonização do Papa", e notei a sua admiração posterior quando souberam que afinal não se tratava apenas de Karol Wojtyla. De certa forma compreende-se: João Paulo II surpreendeu logo à partida por não ser italiano e vir de Leste, assistiu à derrocada do comunismo (para a qual contribuiu largamente), teve um dos pontificados mais longos da história, viajou por todo o mundo e era constantemente destaque na imprensa e na televisão, e marcou imensamente uma época e uma geração, a minha. é natural que uma figura tão influente e tão fresca ainda na memória seja objecto de tamanha devoção e respeito.

Mas é também injusto para com o Papa João XXIII, que marcou da mesma forma a geração anterior, e mais ainda, iniciou um autêntico terramoto na Igreja, talvez a sua maior transformação desde a Contra-Reforma. Teve uma popularidade comparável à de João Paulo II, sem viajar e sem os mesmos meios mediáticos, para além de que o seu pontificado durou apenas cinco anos.

Para além de tudo, a canonização no mesmo dia parece igualmente despropositada: afinal de contas João XXIII desapareceu há cinquenta anos, e João Paulo II há apenas nove. Seria de esperar que o Papa italiano fosse canonizado antes do Papa polaco. Não conheço o processo de santificação, mesmo sabendo que tem vários passos, mas pelo que segui, parece-me que ao apressaram de propósito, cortando ou despachando várias etapas, sobretudo logo que surgiu o necessário milagre. Isso aconteceu, aliás, no processo de beatificação. Tudo pela pressão popular, que se ouviu logo quando João Paulo II morreu, em Abril de 2005, com o clamor de "Santo Subito". Bem sei que nem sempre é fácil resistir aos pedidos do povo cristão, e que houve outras canonizações muito mais rápidas (a de Santo António, por exemplo). Mas a Igreja Católica, sempre tão ponderada, tão cuidadosa, tão lenta a mudar (o que tem a vantagem de distinguir modas efémeras de mudanças reais e de saber quais os caminhos a que conduzem, e em última análise, de distinguir o certo do errado), deixou-se levar demasiado pela pressão de fora. Um santo não é uma estrela pop, mas alguém que pelo seu modo de vida alcançou um estado incomum, e a quem se pede para interceder a Deus. João Paulo II foi sem dúvida um Papa marcante e carismático, com uma incrível relevância política, mas nove anos é pouco tempo para se fazer a necessário avaliação do seu Pontificado, que teve as suas controvérsias (e a ténue reacção aos casos de pedofilia não é certamente a menor). Seria melhor esperar mais tempo, até porque se sabe que uma figura tão carismática terá sempre outra capacidade de influência nestes casos. Deixar passar uns anos, e fazer um processo paulatino, para que depois se pudesse avaliar com cuidado se mereceria ser ou não santo, sem que o clamor popular, sempre tão lesto a exigir a elevação nos altares com a pedir que rolem cabeças ou que se faça justiça popular. João XXIII não era menos importante e precisou de cinquenta anos. Não teria sido melhor fazer o mesmo com João Paulo II?

Marx no Porto-Benfica


Embora certo em boa parte das análises feitas na sua época, Marx falhou rotundamente nas previsões. Contudo, há algumas que acabam por se revelar certeiras, dando origem a máximas conhecidas. Uma das mais famosas será que "a história repete-se, primeiro como tragédia, depois como farsa". Não encontraria frase melhor para caracterizar os dois últimos Porto-Benfica para o campeonato, em que o resultado se repetiu: 2-1. As consequências e importâncias é que foram inteiramente diversos.