quinta-feira, agosto 28, 2014

Há setenta anos, um grande acontecimento pouco recordado


Pouco se falou disso, mas na última segunda-feira, dia 25, passaram setenta anos da libertação de Paris, com a entrada das força Aliadas na capital francesa e a rendição das tropas alemãs comandadas por von Choltitz. Houve comemorações na cidade, claro, sob o patrocínio de François Hollande, decerto mais preocupado com a crise governamental do executivo Valls, mas por cá pouco se noticiou a efeméride. A verdade é que durante a ocupação alemã, não poucos franceses colaboraram ou toleraram os ocupantes, a par dos que resistiram e a sofreram na pele, enquanto a maioria procurava fazer a vida de todos os dias como podia. Mas é bom não esquecer que para além do simbolismo da libertação de uma cidade como Paris, depois de aos de domínio pelas tropas de um estado totalitário (coisa inédita desde os hunos e vergonha imensa para o orgulho francês), evitou-se a destruição à bomba e pelas consequentes inundações de uma das cidades mais magnificentes do globo. As ordens de Berlim eram claras: Paris só cairia nas mãos das tropas anglo-britânicas em ruínas, depois de se rebentar com a quase totalidade da cidade, a começar pelos edifícios e monumentos mais importantes. Ou seja, só por cima do seu cadáver de escombros fumegantes. Von Choltitz esteve à beira da tentação de cumprir as ordens de um acossado e enfurecido Hitler, com ameaças pendentes sobre a própria família, mas acabou por resistir e ordenar a rendição sem levar avante o terrível plano. O filme Diplomacia, de Wolker Schalondorff, baseado na peça do mesmo nome (e com os mesmos actores), e que esteve há bem pouco tempo nas salas de cinema, baseado na conversa durante a noite de 24 para 25 de Agosto de 1944 entre o general alemão e um cônsul sueco, é um bom instrumento para perceber todas as difíceis decisões que pesaram na rendição das tropas ocupantes e as suas (não) consequências. E que devia te sido tão comemorado como outros acontecimentos da guerra. Infelizmente, a falta de memória e o Verão quente (não em sentido metereológico) que vamos atravessando empurraram essa comemoração para uma quase irrelevância e secundarização que definitivamente não merecia.





sábado, agosto 23, 2014

Que não nos falte nada


Festas de Viana, festas de Ponte da Barca, festival de Paredes de Coura, festas das revistas "cor de rosa", festas privadas...o Alto Minho parece estar numa enorme festa colectiva, este fim de semana. E no entanto, entre a nortada e as estradas que atravessam pinhais e campos de milho, é possível escapar-lhes e gozar de luz e o silêncio, dois bens preciosos nesta vida. Para quem quiser, ou mesmo apenas por algum tempo, antes de se voltar á música (de preferência de concertinas), às danças e ao convívio. Há de tudo, nesta terra.

sexta-feira, agosto 15, 2014

Desaparecimentos estivais


Causou comoção em toda a parte o desaparecimento de Robin Wiliams. Não sou de modo algum uma excepção. Durante muitos anos fazia parte da meia dúzia dos meus actores de cinema favoritos. O Clube dos Poetas Mortos marcou-me tal como a quase todas as pessoas da mesma idade (era claramente o meu filme de eleição durante largo tempo). Mas para além do professor heterodoxo, idealista e motivador, ou do radialista pouco convencional de Good Morning, Vietnam, os mais recordados, houve mais uns quantos papéis que o distinguiram tanto como "comediante" como com a sua "faceta séria". O do homem profundamente traumatizado que caiu num misto de indigência e lirismo de O Rei Pescador; o de Peter Pan crescido, esquecido e aburguesado de Hook, a continuação da obra de J. M.Barrie; o iludido psiquiatra de Despertares; a criança em corpo de adulto com crescimento anormal de Jack, um dos primeiros "experimentalismos" de Copolla; o do pai travestido em ama para poder estar perto dos seus filhos no hilariante Mrs Doubtfire; o do assassino chantagista no jogo de Insónia; o fotógrafo solitário e psicótico de One Hour Photo; a materialização de Popeye num dos seus primeiros papeis; e evidentemente o papel que lhe deu o seu único Óscar, o do psicólogo de O Bom Rebelde, uma espécie de versão mais desencantada e envelhecida da sua personagem e O Clube dos Poetas Mortos.
Longe de ser um "actor do método" (dele diziam que mal paravam as filmagens voltava a ser ele próprio no mesmo segundo), e não sendo apenas um comediante, Robin Williams dificilmente conseguia afastar essa imagem, colando sempre algum traço de comicidade mesmo em "filmes sérios". Mas em noutras escassas ocasiões conseguiu-o (em Insónia, por exemplo), mostrando uma faceta mais negra e obscura. Talvez tenha sido essa que o levou à terrível depressão que acabou com ele e que nos privou subitamente de um actor que há muito fazia parte das nossas vidas.


E no dia seguinte, também desaparecia Lauren Bacall, a última diva, uma das mais bonitas actrizes americanas de sempre, a mulher fiel a Humphrey Bogart, com quem se casou aos vinte anos, a adversária da tara mccarthista. Um mito vivo até agora, em todos os sentidos.


E já agora, não se comparando, assinale-se o desaparecimento de Emídio Rangel. Suscitou-me sempre reservas, por causa da sua ideia de mediatismo quase ilimitado, de "vender presidentes da república como um sabonete", conseguindo conquistar as audiências com programas brejeiros ainda que inovadores, como o Big Show Sic, ou dos seus elogios cegos e indisfarçados ao governo de José Sócrates. Mas também foi o autor de interessantes projectos jornalísticos, para além da SIC, como a TSF, impondo um modelo de informação independente das agendas governamentais que deixou a comunicação social estatal confundida e obrigando-a a mudar. Só isso equilibra de forma muito positiva o seu papel na história dos media em Portugal.

quinta-feira, agosto 07, 2014

Óscar "Tacuara" Cardozo

 

De entre as numerosas saídas do Benfica neste período ainda de "mercado" destaca-se a de Cardozo. Não pelos números envolvidos, que não passam dos cinco milhões de euros, nem por especial surpresa, ele que já no ano passado estava "à venda" e que na época que passou, desde a sua lesão que se andava a arrastar em campo. Mas por ser já um jogador "da casa", pela sua passagem longa pelo Benfica, e sobretudo pelos muitos golos que marcou de águia ao peito, que o tornaram num dos maiores artilheiros da história do clube. É verdade que às vezes enervava um pouco, pela sua aparente dormência ou alheamento do jogo, pela falsa lentidão, por ferver em pouca água ou pelos penaltys falhados (vide final da UEFA contra o Sevilha, ou mais ainda, a penalidade falhada contra Espanha no Mundial de 2010 pela sua selecção, que podia ter alterado a própria história do futebol). Mas os golos do Tacuara deram grandes alegrias aos benfiquistas. Em sete épocas, por duas vezes sagrou-se melhor marcador do campeonato, e noutras duas teve lesões durante boa parte das mesmas. Marcou golos de todo o tipo, com maior ou menor dificuldade, mais ou menos técnica, muitos decisivos, outros nem tanto. Foram 193 em todas as competições. Destaco os dois ao Rio Ave no jogo do título de 2010, os vários ao Everton nessa mesma época, os dois que marcou ao Fenerbahçe que levaram o Benfica à final da UEFA de 2013, claro está, os muitos que marcou a Sporting (o hat-trick para a Taça) e Porto, e o que marcou ao Celtic em 2007 - uma excelente execução, que garantiu o triunfo, e também o primeiro que vi ao vivo. Entre muitos, são os que me vêm à cabeça.
 
Mas Cardozo já não era o mesmo, e a sua venda ao Trabonzspor é o caminho lógico para a sua carreira. O Benfica recebe algum dinheiro, o paraguaio consegue um contrato onde ganha bem mais e os turcos talvez aproveitem uma réstia goleadora do Tacuara.
Mas Tacuara vai deixar saudades. E tão cedo não será esquecido. Não merece
 
 

terça-feira, agosto 05, 2014

Nos cem anos do início da 1ª Grande Guerra



Há exactamente cem anos começava o conflito depois conhecido como Grande Guerra, ou Primeira Guerra Mundial. A pesada efeméride não tem passado despercebida também em Portugal, que embora não tenha sofrido acções bélicas no seu território europeu, travou encarniçados combates em África e na Flandres, onde milhares de portugueses sem experiência de guerra nem material condizente com as circunstâncias (apesar do patético "Milagre de Tancos" com que se quis impingir a ideia de um exército devidamente treinado em poucas semanas) morreram em condições tremendas para defender " o prestígio da república".
Não faltam agora séries, documentários, edições especiais e livros (um agradecimento especial ao Expresso que editou em vários fascículos, e gratuitamente, o pesado tijolo da autoria de Martin Gilbert, que há muito queria ler) sobre o acontecimento, pelo que durante os próximos meses não faltarão ocasiões para o relembrar, às suas batalhas e aos protagonistas.
É curioso notar como alguns mitos hoje em dia são tão apregoados, apesar de terem sido supostamente erradicados pela Grande Guerra (ou pela lógica dela resultante).
Um deles é o da necessidade de um Mundo "multipolar", por oposição ao controlo por uma ou duas superpotências, como se verificou depois da 2ª Guerra, e sobretudo no pós-1989. É que a guerra de 1914-18 deu-se precisamente pela explosão das tensões entre diversas potências europeias, como o Império Britânico, a França, a Rússia, o Império alemão e o Austro-Húngaro, aos quais se juntaram o Otomano, os EUA e o Japão, entre outros. Potências a mais redundaram numa guerra sem quartel. A multipolaridade não impediu a guerra, antes a incitou.
O outro é o dos benefícios infinitos da técnica e da tecnologia. Uma das características da Grande Guerra foi que a revelação de que as velhas tácticas, instrumentos e demais elementos de combate se tinham tornardo obsoletas com a profusão de novos equipamentos, como os tanques de guerra, os aviões (e em parte os zepellins), os submarinos ou os gases venenosos. A tecnologia serviu apenas para ceifar ainda mais vidas e deixar um rasto incalculável de mortos e estropiados nas trincheiras, e um cenário de incrível destruição entre as jovens gerações europeias, que não estavam de todo preparadas para o que iam enfrentar.
Começou há cem anos.


domingo, agosto 03, 2014

Uma questão e uma lembrança

 
As acções de guerra em Gaza sucedem-se, com Israel a carregar nos ataques para desmantelar a facção militarizada do Hamas, os seus rockets e os seus túneis. Pelo caminho, mais umas dezenas de mortos. Posso perceber que as intenções do Hamas sejam vis, que usem escudos humanos, que governem aquele território com mão de ferro, percebo isso tudo. Mas se certos alvos das forças israelitas, nomeadamente escolas e hospitais, albergam arsenais se armas e mísseis, não seria melhor abster-se de os destruir, poupando assim inúmeras vidas, muitas de mulheres e crianças? Sobretudo quando os ditos mísseis poucas ou nenhumas vítimas farão do lado israelita, até pelo sistema de defesa implantado e que já demonstrou a sua eficácia? Aparentemente, para os responsáveis militares, não: é preferível rebentar com todo o arsenal do Hamas mesmo que para isso se sacrifiquem incontáveis civis. Há fanáticos do lado palestiniano, do lado israelita não parece haver menos.
 
Boa lembrança no artigo de Azeredo Lopes. Os cristãos da Mesopotâmia serão em breve uma lembrança, uma curiosidade de historiadores. Curiosamente não vejo uma manifestação, um protesto, uma indignação semelhante ao que acontece com os palestinianos (e pode-se dizer o mesmo dos curdos). Só mesmo para criticar os EUA e aliados pela invasão do Iraque. Aparentemente, as causas só valem a pena se for para criticar o Ocidente, já que os outros parecem escapar sempre. A eterna culpa do Homem Branco, cada vez mais solidamente implantada.

quinta-feira, julho 31, 2014

O decano dos festivais voltou (e as respectivas vaquinhas também)


Vilar de de Mouros, o mítico festival nas margens do Coura, está de volta, depois de alguns anos de interrupção. Um cartaz morno, com grupos por demais conhecidos e até repetentes (por exemplo, os Stranglers, que actuaram no auge da popularidade em 1982, ao lado dos U2, estão de regresso), mas é sempre bom ver regressar eventos míticos como este. Para quem não se lembrar, é o mais antigo festival do género em Portugal, nascido em 1972 como o "Woodstock português", com Elton John e a banda da GNR a tocar lado a lado. Actualmente o país regurgita festivais pop-rock, em todos os distritos e com todos os patrocínios (é a crise, dizem), mas no tempo de Marcelo Caetano era uma autêntica bomba que caía na aldeiazinha do Alto Minho, entre azenhas e campos de milho. Voltou em 1982 e em 1996, para se tornar anual, até definhar e parar há uns anos. Também por lá passei na edição de 1996, que encerrou com os Madredeus, e em 2004, ano em que um prodigioso cartaz trouxe ao Minho Bob Dylan, The Cure, Peter Gabriel e P.J. Harvey. Depois, Paredes de Coura ganhou a dianteira no campeonato de festivais de rock nas margens do rio Coura.

Mas há coisas que nunca acabam, felizmente, e Vilar de Mouros parece ser uma delas. Outra é o símbolo do festival, a famosa vaca malhada. Hoje descobri a razão: um casal da terra, já com certa idade, que há décadas leva as vacas a pastar todos os dias, com ou sem festival, e que para isso tem de atravessar a ponte românica sobre o Coura. A imagem dos ruminantes a cruzar a ponte atraiu a atenção de inúmeros fotógrafos, que desde 1996 fizeram delas o ex-líbris do evento (com anuência do casal, que ainda hoje na TV dizia sentir certo orgulho). Há inúmeras variações das vacas, de várias formas e feitios, e a sua evolução pode ser vista no After Eight, talvez o mais antigo (e seguramente o mais sossegado) bar da Rua Direita de Caminha, decorado com cartazes de todas as edições do festival sobre paredes brancas. Mas nenhum chegou à engraçadíssima rês deste ano: uma vaca rocker, com cabedal, piercings e tudo. Vilar de Mouros forever!


terça-feira, julho 29, 2014

Dinastias que passam



À volta da derrocada do império Espírito Santo e do seu grupo fala-se também no que acontecerá à própria família, numerosa e com importantes ligações ao grupo. É certo que nem todos os elementos precisam dos rendimentos que provinham do grupo económico, e fizeram a sua vida com meios próprios e autónomos. Mas é curioso pensar como o nome da família, que transmitia logo uma aura de poder e propriedade, e, como muitos ousam recordar, abria as portas a qualquer negócio fosse em Portugal ou fora, corre o risco de a perder de um ano para o outro. Nada que espante: já tivemos os Quintela, com o magnânimo conde de Farrobo a marcar o seu apogeu, os Burnay, os Mello, os Champalimaud. Nomes que com o passar do tempo e a mudança da propriedade e do poder de direcção das figuras carismáticas que iniciaram os seus grupos económicos e dinastias correspondentes, foram passando e deixaram de ser sinónimo de domínio da economia nacional. Da mesma forma, a prestigiada família Espírito Santo vai em pouco tempo tornar-se um apelido como qualquer outro (até porque há outras famílias Espírito Santo sem qualquer ligação com a do BES). Até ser substituída por outro clã. Ou talvez não, que a globalização e o mercado livre já não permitem tão facilmente a ascensão de grandes grupos familiares.

sábado, julho 26, 2014

Imagens relativas a posts do passado


Olha o ex-futuro estádio do Chelsea, que infelizmente não vai ser.


O antigo estádio do Arsenal. E o actual. Parece que mudaram do antigo Bessa encurralado a meio de um bairro de casas térreas para uma espécie de Luz envidraçada (do qual aliás os portistas não têm a melhor das recordações).


quarta-feira, julho 23, 2014

Ainda mais tragédias, no já suspeito Médio Oriente



E mais tragédias observamos em Gaza. A trama é a do costume: elementos do Hamas (neste caso há dúvidas, já que os primeiros factos aconteceram na Cisjordânia) assassinam israelitas, Israel retalia com bombardeamentos aéreos, são lançados rockets de Gaza contra território israelita, o Tsahal entra em Gaza para liquidar elementos do Hamas e suas infraestruturas bélicas e acaba a matar centenas de civis...Como se nada mudasse, e fosse um filme repetido vezes sem conta. Culpados há muitos, claro, dos dirigentes do Hamas para quem Israel não tem qualquer direito a existir aos falcões asquenazis, que parecem considerar os palestinianos como sub-humanos (um pouco como os seus avós eram considerados pelo 3º Reich), passando pelo cinismo de colonos que se instalam em cadeiras a observar os bombardeamentos a Gaza, como se cinema ao ar livre se tratasse. Mas vítimas, infelizmente, há muitas mais.

E ainda no Médio Oriente, o novo califado entre a Síria e o Iraque consolida-se, perante a fragilidade e inoperância das forças regulares iraquianas e a teimosia do chefe de governo Maliki, que quer a todo o custo conservar o poder sem o dividir. Restam as milícias xiitas e as forças curdas, que, avisadas, protegem um território independente de facto, que isolado de toda aquela guerra permanente, progride e não pretende ficar de novo sob a alçada de Bagdad. Ao fim de tantos massacres e combates, os curdos vêem finalmente o seu estado a ser erguido com êxito. Já os cristãos que vivem naquele território, pré-muçulmanos, que já foram a maioria, são forçados a abandonar as cidades incluídas no califado, sob pena de serem massacrados se não se converterem. Eis um drama que não comove os furiosos humanistas que tanto bradam pelas vítimas palestinianas e alertam para a terrível islamofobia na Europa (esquecendo-se da autêntica na Índia e na Birmânia).



PS: indispensável deixar aqui a fabuloso e eloquente (em todos os termos) video This Land is Mine, que nos últimos dias tem rodado na net com particular (e justificada) existência.

sexta-feira, julho 18, 2014

O essencial depois de uma tragédia



Desconfio que depois da tragédia do avião da Malasyan Airlines, ontem, nos céus do complicado território entre a Ucrânia e a Rússia, apenas quatro meses depois do misteriosíssimo desaparecimento de um avião daquela companhia, poucos se atreverão a subir para um avião da mesma, embora as culpas não lhe devam ser imputadas. E o ambiente naquelas paragens promete ficar ainda mais quente. Tudo indica tratar-se de mísseis anti-aéreos disparados pelos rebeldes pró-russos, confundindo-o com um avião militar ucraniano, o que só tende a agravar a coisa. De qualquer forma, e sabendo-se que as responsabilidades terão de ser apuradas (e mandar a caixa negra do aparelho para Moscovo não abona muito a favor de quem o faz), urge antes de mais prestar auxílio às vítimas colaterais - as famílias - e interditar aquele espaço aéreo. Ou como dizia o outro, enterrar os mortos e cuidar dos vivos. No meio disto tudo, histórias trágicas, como a daquele australiano, que depois de perder o irmão no voo desaparecido em Março, perdeu agora uma enteada. Há vidas que não são nada invejáveis.

quinta-feira, julho 17, 2014

Little Joy

Little Joy é o projecto musical que resultou do encontro entre Rodrigo Amarante, guitarrista dos brasileiros Los Hermanos, e Fabrizio Moretti, baterista brasileiro dos americanos The Strokes, ao que consta em Lisboa, no festival Soundz (que se perdeu, com outros, na imensidão da oferta), em 2006. Reencontraram-se nos Estados Unidos, quando os Hermanos decidiram hibernar, e lançaram o projecto, juntando-se-lhes a namorada de Moretti, a multi-instrumentista Binky Shapiro. Desta colaboração em trio resultou o álbum Little Joy, editado pela mítica Rough Trade, de uma pop alternativa suave com laivos de tropicalismo. Um bom encontro entre o Rio de Janeiro dos Hermanos e a Nova York dos Strokes, com uma música que emana sentimentos de "pequena felicidade" que faze jus ao nome do trio. Uma pequena homenagem ao Brasil, agora que a festa acabou.

terça-feira, julho 15, 2014

Acabou o Mundial


Acabou o Mundial e já estou com saudades das noites de bola, das surpresas, dos hinos nacionais e até da música do genérico antes de cada jogo. Não torci pela Alemanha, mas o título acaba por ficar bem entregue à equipa mais consistente, que mais trabalhou e se preparou para esta competição, e que há já uns anos, entre finais e meias, ameaçava mais competição menos competição erguer novo troféu. Aconteceu este ano, às custas de um Brasil menor e impreparado. A Alemanha já pode dizer que ganha mundiais sem ser a RFA, e os anos acabados em 4 revelam-se afortunados para a Mannschaft: conquistaram o título mundial em 1954 (contra a enorme Hungria), em 1974 (frente à Laranja Mecânica de Cruyft) e só falharam 1994, graças a uma extraordinária Bulgária, mas entretanto já tinham ganho em 1990. E pensar que tudo isto começou com uma bisonha derrota de uma velha equipa perante suplentes portugueses...Os 4-0 do primeiro jogo foram uma boa desforra, mas pelo menos Portugal pode dizer que só perdeu com a equipa campeã.

Nunca pensei que a Argentina chegasse à final. Teve alguma felicidade na maneira como o conseguiu, com pouco brilho e muita retranca. Conseguiu-o à custa de uma Holanda com medo de arriscar, ganhou nos penaltys e reeditou as finais de 1986 e 1990, quando as equipas das Pampas e dos tedescos dominaram os Mundiais de futebol. A verdade é que jogaram de igual para igual, com um rigor defensivo (mas porque é que o Benfica não esperou mais tempo para vender Garay?) e uma pressão notáveis, tiveram (escassas) ocasiões para marcar e só sucumbiram ao esgotamento físico, frente a uma Alemanha menos desgastada e a um fantástico golo do descansado Gotze. Tive pena por Enzo Perez e Garay - seria fantástico ter dois jogadores do Benfica, ou quase, campeões mundiais e titulares - e até pelo inconsolável Rojo. Mas a Argentina recuperou algum do estatuto de grande selecção que andava em baixo nos últimos anos. Prémio de consolação, e estranho mesmo, seria a nomeação de Messi para melhor jogador do torneio. Não haja dúvida que o argentino goza de excelente imprensa no mundo do futebol, ainda melhor que a de António Costa na política portuguesa...De resto, James ficou com o justo título de melhor artilheiro, e a Holanda em terceiro, também merecido.

O Brasil conseguiu encaixar dez golos em dois jogos, em sua própria casa. É obra. Depois do Mineirazo, novo banho. Scolari, claro, nunca poderia ficar, mas a futebol brasileiro terá que ser muito repensado e as suas estruturas alteradas. Tal como o português, aliás.

De resto, tivemos um excelente Mundial, que excedeu todas as expectativas (embora haje quem, inexplicavelmente, o considere um dos piores). Jogos emocionantes com muitos e belíssimos golos (o Espanha-Holanda, Alemanha-Argélia ou Brasil-Colômbia, por exemplo), selecções que surpreenderam (Argélia, Costa Rica, Estados unidos, e claro, a Argentina, como finalista), outras que confirmaram as suas boas indicações e que no futuro irão dar ainda mais cartas (Colômbia, Bélgica, Suíça) e as decepções (Portugal, claro, Brasil, Espanha, os mais clamorosos, Itália, uma vez mais, e de certa forma a Inglaterra, com atenuantes). Entre os golos, mais do que o de James ao Uruguai e o de Cahill à holanda, destaco o "salto de peixe "de Van Persie à Espanha e a fabulosa cavalgada de Robben no mesmo jogo, em que ultrapassou dois defesas, sentou Casillas e mudando de direcção atirou para o fundo. Simplesmente inesquecível.

De resto, o mundial teve episódios que não poderiam ser vistos noutras paragens: claques da Bósnia no Pantanal, O God Save the Queen entoado na Amazónia, protestos argentinos antes do jogo do Irão relembrando um terrível atentado com vinte anos, os jogadores alemães a confraternizar com índios da Bahia, fãs enlouquecidas a entrar nos treinos de Portugal para tocar em Ronaldo...O que fica para a história, são os vencedores, da Alemanha, e os vencidos mais evidentes:  Argentina, por chegar à final, e o Brasil pela forma estrondosa como o afastaram. Teve uma consolação: fugiu à completa humilhação de não ver os eternos rivais das pampas sagrar-se campeões em pleno Maracanã, apoiados pelas dezenas de milhares de adeptos argentinos que invadiram o Rio.


quinta-feira, julho 10, 2014

Depois do Mineirazo

 

Depois do terramoto que ontem se abateu sobre o Brasil, em Belo Horizonte, ficaram as palavras de choque, terror, espanto e também admiração pela proeza da Mannschaft germânica. O risco de perder este segundo mundial caseiro era real, como em tempos cheguei a prever, e o fantasma de novo Maracanazo esteve presente. O que ninguém podia certamente adivinhar era uma derrota desta dimensão avassaladora, mostrando uma selecção totalmente desgarrada, com uma atitude mental na lama, desfazendo-se psicologicamente como um castelo de cartas. Scolari não perdeu nova final mas não chegou lá da forma mais escandalosa. Todo o futebol brasileiro sofreu uma humilhação inaudita, que o abalou de alto a baixo, e terá de largar muito lastro e mudar muito se não quiser empenhar o futuro. Afinal de contas, também o futebol alemão se renovou depois de uma pesada humilhação frente a Portugal, em 2000. Mas as consequências podem ser ainda piores, para além do fim da carreira de Scolari e dos dirigentes federativos brasileiros. Os arrastões e as cenas de violência verificadas após o jogo demonstram isso mesmo. O futebol é um dos traços mais vincados da sociedade brasileira, e a selecção um dos factores de união nacional. O desastre pode ter implicações mais sérias, sobretudo em ano de eleições. Ainda por cima, muitos consideram o Mineirazo de 2014 pior que o Maracanazo de 1950,  que era aliás tido como uma das maiores tragédias da história do Brasil. É impossível prever o futuro, mas a humilhação terá com certeza repercussões extra-futebol, a começar em todos os erros e gastos da organização da prova. Convém lembrar que daqui a dois anos haverá jogos olímpicos no Rio.
E para a coisa ser pior, um dia depois do Mineirazo, os brasileiros ainda viram a Argentina chegar à final do "seu" mundial. Talvez a morte, dois dias antes, do mítico Alfredo Di Stéfano os tenha inspirado (embora fosse mais ligado a Espanha do que à Argentina), ou as orações do Papa fossem mais fortes. Os vizinhos não deixarão por certo de aproveitar esta ocasião para troçar ainda mais do velho rival, invadindo o Rio de Janeiro, mesmo que corram a risco de serem igualmente trucidados pela Alemanha (com a qual repetirão uma final). que será pior para o Brasil, afinal? Perder no confronto do 3º e 4º lugar com a Argentina ou vê-lo chegar à final, com o risco (mínimo) de a ver campeão da Mundo em pleno Maracanã?


segunda-feira, julho 07, 2014

David Luiz, uma estrela total


Temos visto neste Mundial jogadas fabulosas, revelações surpreendentes e jogadores que ficam debaixo de olho. Mas há um que em definitivo, é incontornável: David Luiz. O "macarrão" (nome que lhe puseram por causa do distintivo cabelo) revelou-se na Luz, embora durante muito tempo estivesse desaproveitado como defesa esquerdo. Quando o colocaram a central mostrou ser um portento, mesmo com as suas características subidas no terreno, às vezes arriscadas. Pude vê-lo nalguns jogos determinantes, como nos 4-1 em Alvalade para a Taça da Liga, em que abriu o marcador. Depois mudou-se para Londres, à conta de uma maquia interessante e Matic, ganhou uma Liga dos Campeões, uma taça UEFA (à nossa custa), e transfere-se agora para o milionário PSG, estabelecendo um novo recorde como defesa mais caro. Entretanto, nunca esqueceu o Benfica, aparecendo até em vários jogos e lançando mensagens de apoio nas redes sociais. Agora, no Mundial do seu país, é uma das traves principais da selecção, e não só a defender: marcou o golo que permitiu ao Brasil sobreviver e ultrapassar o Chile, e contra a Colômbia enviou um autêntico míssil  que se transformou no segundo golo. Comemorou em apoteose com o público e os companheiros, deu graças aos céus pela dádiva, e no fim ainda se lembrou de consolar o desalentado James Rodriguez e de pedir ao público que aplaudisse o colombiano. Em suma: é impossível não gostar deste tipo.

sexta-feira, julho 04, 2014

Balanço intercalar do Mundial


Agora que estamos na fase a eliminar, entre os oitavos e quartos de final, impõe-se um balanço intercalar do Mundial brasileiro. De uma coisa podemos estar certos: a competitividade e qualidade dos jogos excedeu as expectativas. Não é fácil ver-se neste defensivo e comercial século XXI tamanha saraivada de golos. Se bem que aos jogos a eliminar a quantidade tenha diminuído, como de resto seria de esperar.


Portugal, claro, saiu sem honra nem glória, Salvou-se uma vitória e o golo da praxe em Mundiais de CR7, para conservar alguma dignidade. A forma física e o declínio de muitos jogadores revelaram um plantel nacional que deixou muito a desejar, e os próximos anos não prometem ser melhores, com uma míngua de jovens valores que ensombram o futuro. Para já, como promessas temos William de Carvalho e pouco mais. é claro que aparece sempre uma ou outra surpresa, mas não parece ser suficiente para assegurar uma sucessão digna. E quando olhamos para os jogadores do Euro-2004 é que verificamos quão limitada era esta equipa. E mais vale nem tentar comparar Ronaldo aos seus "rivais" do relvado, como Messi e Neymar, para evitar vergonhas. Ao menos em popularidade de estrela, qual Beatle da bola, ninguém o bate...


Mas houve equipas que muito me agradaram. O México, organizado, com bons executantes em todas as posições e um trinador que é mais espectacular no banco que muitos jogadores no relvado saiu prematuramente. Merecia ir aos quartos, ao pelo menos ir a prolongamento. Mas calhou-lhe uma exaltante Holanda, com um futebol vistoso e de ataque, quase "total", tentando recordar os anos setenta. Anda lá perto e merece discutir este Mundial. E Robben está com uma forma que nunca lhe vimos, mistura de gazela com um carro de combate.

Depois, claro, a Colômbia, uma equipa que dança a jogar (e não só nas comemorações dos golos), não se atemoriza perante ninguém e promete fazer a vida negra ao Brasil. Bem mais livre das ameaças dos cartéis da cocaína que quase destruíram o seu país, está finalmente a cumprir o sonho da magnífica selecção de 1994, de Asprilla, Rincón e Valderrama, que falhou rotundamente, sob o peso das ameaças que se concretizaram com o assassínio de Andrés Escobar. E ainda conseguiu bater um recorde, o do jogador mais velho de sempre a actuar num Mundial, o veterano guarda-redes Mondragon, de 43 anos, que fazia parte dessa equipa de 94. Uma passagem de testemunho? só tenho uma coisa a lamentar nesta prova dos cafeteros: é que pelo caminho tenha ficado o Uruguai, que era a minha equipa favorita depois da eliminação de Portugal. Ao contrário de há quatro anos, em que a Celeste puxou dos seus galões de equipa guerreira e ficou em quarto lugar, desta vez não resistiu ao café colombiano. No preciso estádio em que se sagrou campeão em 1950, deixando o Brasil em depressão. E assi, se exorciza um fantasma (o de 1950), quem sabe se para não surgir outro. É que o Brasil deixou muito a desejar frente ao Chile, e se não fosse Júlio César (a passagem pelo Toronto não lhe retirou qualidade) e os ferros da baliza, o país anfitrião estaria ainda em estado de choque. Contra a Colômbia, se a orquestra não estiver afinada, vai ser um caso sério.

Quanto aos outros jogos, entre a França e a Alemanha, que a muito custo ultrapassou uma surpreendente Argélia (comandada pelo academista e ex-benfiquista Halliche), impedindo por ora a desforra de 1982, allez les bleus. A Alemanha é aquela equipa que a par do Brasil nunca recolhe os meus votos. a França tem anos, mas parece que Deschamps conseguiu impor alguma ordem na balbúrdia que se verificava desde a saída de Zidane. A Argentina tem convencido pouco, mas os seus adeptos merecem toda a nossa consideração. Não é qualquer "torcida" que domina Copacabana. Talvez se vá safando com Messi, mas enquanto Enzo Pérez não jogar a titular vão continuar a não convencer. contra a excelente e promissora equipa belga, não sei não...só não enumero os nomes por além dos apelidos flamengos darem muito trabalho a escrever, os media têm-se encarregado de nos relembrar. Na Costa Rica-Holanda, aposto na laranja de mecânica afinada, mas que não ganhe por muitos, porque os costa-riquenhos merecem estar nesta eliminatória e têm sido uns bons intrusos.

Divirtam-se 

quinta-feira, julho 03, 2014

Sophia no panteão

 
Sophia de Mello Breyner Andresen repousa no Panteão, depois de uma das mais pacíficas e unânimes escolhas da transladação de um vulto nacional para Santa Engrácia - relembre-se as discussões a propósito de Aquilino, ou da possibilidade de Eusébio ir para lá. É mais que justo. A Poeta nascida no Porto, que passou a maior parte da vida na Graça, em Lisboa, e que se inspirava no mar e nas praia, como a Granja e a Meia-Praia, no Algarve castiço pré-massificação, no Egeu e a herança helénica deixou-nos um legado precioso e único em todo o século XX. A ela devo-lhe, mais do que qualquer outra coisa, a descoberta da leitura, nas primeiras letras, naquelas obras infantis mágicas, inspiradas nos locais que tão bem conheceu, como as praias supracitadas e a quinta Andresen, onde nasceu, e que por milagre ou simples bom senso pode ser vista por todos na sua actual missão de Jardim Botânico - ainda há lá algumas árvores de A Floresta, e o Rapaz de Bronze também lá se mantém.
 
E talvez tenha sido essa mescla de vários portugais que a tornaram a Poeta e a autora que era. E daí a justa transladação e a correspondente cerimónia, solene e digna.  Pena mesmo o discurso do Presidente, o único que não se dirigiu à família, provavelmente ainda a remoer questões com Miguel Sousa Tavares; e também que a tenham posto junto de Aquilino, que não era pessoa que Sophia apreciasse particularmente. Como sempre, a falta de grandeza e de sensatez continuam a ser características indeléveis da "nossa" república.

segunda-feira, junho 30, 2014

À memória de Franz Ferdinand e de Sofia de Hohenberg


Antes comemorar os centenários de uma língua do que de um assassinato, sobretudo quando este, além de inspirar o nome de estimável banda rock escocesa, levou à eclosão de uma guerra cruel, estúpida e que não mudou nada para melhor. A maior, até então. Até aparecer outra ainda maior.

O velho Hobsbawm tinha alguma razão quando dizia que o século XX tinha começado e acabado em Sarajevo. E para os alucinados que sempre sonharam em matar os membros da aristocracia, eis a prova de como isso tem funestos resultados.

 

sábado, junho 28, 2014

Oitocentos anos de uma língua (seja mito ou não)


Nunca me teria ocorrido comemorar o dia da Língua Portuguesa. E de facto, o pretexto parece ligeiramente forçado, ou no mínimo efabulado, similar às criações de todos os mitos. Mas antes um pretexto longínquo do que o esquecimento. E um texto do século XII, do reinado do rei que ficou conhecido como O Gordo, parece-me tão bom como outro qualquer. Se for importante para defender a língua portuguesa, a quinta mais falada no Mundo, e espalhar o seu ensino pelo globo, tanto melhor. O actual marasmo que se assiste nalgumas paragens, como a antiga Índia portuguesa, é que com certeza não ajuda nada.

segunda-feira, junho 23, 2014

Desconsolo e desperdício

 A quase eliminação de Portugal do Mundial não seria apenas uma desilusão: em termos de reconhecimento mundial seria uma tragédia. Digam o que disserem, Portugal quase só é conhecido no Mundo por causa do futebol. Não comparem o fado, as praias, o galo de Barcelos e o vinho com a popularidade de que goza Cristiano Ronaldo, como antes a tiveram Figo e Eusébio. Mas esta eliminação pré-anunciada é particularmente dolorosa por ser no Brasil (incrível como até aí os portugueses conseguem estar em minoria) e contra Alemanha e EUA. Contra este último, na única coisa em que poderíamos ser melhores do que eles, conseguimos até nisso ser suplantados. No caso da Alemanha, seria um tónico contra o país que efectivamente controla a UE, mas fomos completamente dominados pelos germânicos e motivo de gozo na imprensa brasileira. Em suma, desperdiçámos a única coisa em que somos efectivamente conhecidos contra países que não precisam do futebol para isso. Neste momento, infelizmente, Portugal é uma irrelevância em tudo.
 
Sempre temos o S. João, para aliviar mágoas.

sábado, junho 21, 2014

Sugestões



Se ninguém tiver grandes planos para este fim de sema a de início de Verão e estiver pelo Douro ou Trás-os-Montes, sempre pode dar um giro por Vila Real e reviver as míticas corridas que regressam por estes dias ao circuito da cidade (de que já falei, há anos) , agora infelizmente muito modificado. Mas conservam alguma emoção e nostalgia, e depois sempre se tem a vista do Palácio de Mateus e do Marão. Eu vou estar por lá, mas noutros eventos, tão ou mais importantes. Divirtam-se e bom fim de semana.

quinta-feira, junho 19, 2014

Felipe VI


Hoje virou-se uma página na história de Espanha, para além do fim da triunfal geração da selecção de futebol: Juan Carlos I, o monarca que devolveu a democracia ao país e que a aguentou nos momentos mais complicados, dando espaço aos restantes actores quando se impunha, sai de cena, com a missão cumprida, dando lugar ao seu filho, doravante o Rei Felipe VI. Íntegro, consciente do seu dever, preparado, conhecedor do seu país e dos problemas que o afectam, o novo Rei é o homem em quem quase todos depositam a confiança quando Espanha atravessa uma crise política, social, regional e económica numa tempestade quase perfeita para a qual se precisa de um leme firme. Metáforas marítimas à parte, a tarefa que aguarda Felipe VI é complicada, mas dificilmente haveria alguém melhor do que ele para a enfrentar.

Juan Carlos não abdicou em vão, embora a superficialidade dominante tenha escolhido questões secundárias (como a caça ao elefante e outros faits-divers) como motivo. No ano em que a questão do separatismo se coloca como nunca, com o anunciado referendo na Catalunha, e as instituições vêem a sua popularidade em clara baixa, quando o desemprego e todos os problemas económicos resultantes da dívida e do rebentamento da bolha imobiliária que antes tinha feito a riqueza aparente do país se fazem mostrar com grande intensidade (embora haja alguns indícios de esperança), um monarca com outra disponibilidade, até física, era essencial para assegurar a estabilidade e a união de Espanha, e a imagem de uma personalidade serena mas firme impunha-se. É curioso como a comunicação social, ao falar deste assunto, não cessa de referir que "a instituição monárquica atingiu o seu ponto mais baixo de popularidade". É que todas as instituições de Espanha atingiram pontos mínimos de confiança, o que diz bem da crise das referências e da autoridade no país, e acima da coroa, só as forças armadas conseguem maior aprovação. Se queriam culpar o trono pelas crise do país, erraram o alvo...

Outra questão que boa parte das nossas TVs e jornais levantou foi a da "vontade dos espanhóis em questionar o regime", ou mesmo que "o povo espanhol" se tinha manifestado nas ruas "por um referendo para decidir se queria monarquia ou república". Eis um bom exemplo de como a suposta informação pode ser perniciosa e grosseiramente parcial. Confundir a "rua" com a vontade da maioria de um povo é um erro antigo e constante, muito repetido nestas paragens. Se fosse assim, mais valia entregarmos o governo da nação a Arménio Carlos. O que se viu foram os habituais movimentos radicais - ou independentistas - numa jogada oportunista, pretendendo aproveitar a abdicação do Rei para impor a sua vontade (que estava bem à vista: queriam um referendo para implementar uma hipotética república, não para questionar o regime), em manifestações ruidosas, com a horrível bandeira da 2ª república de má memória, muitas vezes com cartazes ilustrativos de guilhotinas ou frases tão eloquentes como "los bourbones a los tiburones". São os descendentes dos republicanos dos anos trinta, os mesmos que deixaram o país num caos e que permitiram o caldo de raivas e dissensos que levou à tenebrosa guerra civil. À cabeça, o PCE, partido legalizado por vontade expressa do Rei e que mostra agora toda a sua ingratidão, o que aliás não admira, vinda de uma formação que não hesitou em liquidar quem lhe dava na bolchevista gana e que obedecia directamente a Estaline. Ao lado, os "Indignados", muitos deles com uma postura violenta e uma agenda política que desembocou no Podemos, a nova formação partidária de inspiração chavista, que teve uma rotunda votação nas últimas eleições europeias. Em todos coexiste, além da virulência verbal, a falta de memória e a simples falsificação grosseira da história: dizem e repetem que "a monarquia não tem legitimidade" porque se funda "na ditadura franquista. É verdade que Juan Carlos foi proclamado Rei logo após a morte do caudilho; mas que se se saiba, era essa a fonte de poder em Espanha, na altura. Ganhara a guerra a uma república desaparecida, e não havia qualquer outro poder mais ou menos legítimo. Depois, o próprio Rei nomeou um governo que se encarregou de escrever uma nova constituição e de a apresentar a referendo: quase 92% dos eleitores votou a seu favor. E as formações políticas que estiveram contra, com a exlusão extraordinária do PCE dos tempos de Santiago Carrillo, eram quase as mesmas, incluindo a extrema-direita. Cai assim por terra o argumento ignorante de que "a monarquia não tem legitimidade" e que "ninguém votou nela". Houve alguns milhares na rua a brandir a daltónica bandeira republicana? Também em 1977 os anarco-sindicalistas da CNT reuniram mais de cem mil apoiantes em Barcelona, e nem por isso tiveram grande relevância nas urnas. De qualquer modo, todas as sondagens a um eventual referendo ao regime actual dão clara preferência pela monarquia - a mais desfavorável dá-lhe 13% de avanço sobre um hipotética república. Mas nem é preciso. Basta recordar que em questões de legitimidade, a monarquia espanhola, que deu ao país alguns dos seus melhores anos, com democracia, liberdade e autonomias várias, é bem mais legítima do que a maior parte das repúblicas, a começar pela que vigora em Portugal.
Felipe VI teve um discurso prolongado mas em que tocou em todos os aspectos essenciais sobre o que deverá ser o seu reinado, sem esquecer o papel do seu pai e do seu avô. A cerimónia teve sobriedade mas também pompa e dignidade. O novo Rei mostrou-se ao povo de cabeça descoberta, num soberbo Rolls Royce descapotável já com história, e depois na varanda do Palácio Real, com a nova Rainha Letizia, as filhas, agora também na linha de sucessão, e por breves momentos, os seus pais, o casal que deixou de sero Real. Terá sempre o melhor dos conselheiros para o ajudar a reinar, e a alegria de ser Rei sem que seja por morte de seu pai. A propósito, Juan Carlos ainda não tem título definido. Terão pensado em dar-lhe o de Conde de Barcelona? Seria uma bela homenagem ao seu pai, o príncipe que não reinou, e quem sabe se a recuperação do título condal não cairia bem entre muitos catalães. É também com esses aspectos subtis que se mantém um país. Ninguém mais do que Felipe VI está preparado para o fazer.
 

segunda-feira, junho 16, 2014

Recado à equipa nacional

 

Cara Selecção, não te esqueças que não estás em território desconhecido: essa cidade onde mais logo vais jogar foi fundada e erguida por portugueses, bem como as suas centenas de igrejas e a sua cultura mestiça, e serviu como primeira capital do território brasileiro por ordem do seu primeiro governador-geral (e fundador) Tomé de Sousa, ainda antes do Rio. A arquitectura que vês no centro, as igrejas, o pelourinho, os palácios, são tudo obras de portugueses (o resto deixámos aos bahianos indígenas, embora tenhamos dado alguns empurrões, nem sempre muito exaltantes, como os escravos trazidos de África, antepassados dos muitos negros dessa cidade). Não te esqueças igualmente que a cruz de Cristo que figurava nas naus de Pedro Álvares Cabral é a mesma que trazes incrustada na tua camisola. Por isso, reflecte nisto antes de enfrentares uma mannschaft cujos adeptos têm mais a ver com as regiões lá de baixo, em Porto Alegre, e honra os teus símbolos e a tua memória em terras que os teus ajudaram a construir. Só te peço isso.


Adenda - das três, uma: ou não leram este recado, ou uma mãe-de-santo lançou um mau olhado (o que explica as lesões de Coentrão e Almeida, e outras coisas) ou a recuperação de Schumacker deu uma imparável energia aos teutões. é que ao fabuloso dia desportivo para os alemães corresponde uma desastre incrível para Portugal, que sofre a maior goleada de sempre em Mundiais, perde dois jogadores por lesão e outro por castigo, e fica dependente dos próximos resultados e até da combinação de jogos entre terceiros.




Impressões do Mundial do Brasil


Vamos então ao assunto do momento, o Mundial de futebol. Tentei escapar à revoada de notícias inúteis sobre as ninharias da Selecção, e a ementa da Selecção, e quem passa a roupa, o que fazem os jogadores nos tempos livres, etc, etc. E também não tenho paciência para os constantes anúncios televisivos. Mas agora que a competição começou, é impossível uma pessoa manter-se indiferente. Até porque o que interessa, os jogos, têm sido aliciantes.

Claro que não se pode deixar de parte toda a polémica e protestos que tem havido contra a competição. O Brasil na sua ascensão económica e como membro dos BRICs, tinha de organizar um grande evento mundial que é o que fazem as potências emergentes. Na sua gula de evidência, conseguiu a organização não de um, mas de dois eventos seguidos: o Mundial de futebol deste ano e os Jogos Olímpicos de 2016. Podia ser também uma óptima oportunidade de fazer importantes reformas urbanas e de transportes, mas não é o que acontece. O investimento tem ido quase todo para a construção de estádios, pagos em boa parte com dinheiros públicos, ao contrário do que era assegurado no início, com custos muito para além dos iniciais, e com atrasos inacreditáveis, com o recinto da estreia a levar os últimos retoques a horas do primeiro jogo (são coisas destas que levam às derrapagens orçamentais). Quando algum brasileiro vier, como agora parece ser moda, falar no seu crescimento económico e destratar Portugal como "a favela da Europa", por exemplo, entre outros remoques mais ou menos imbecis, atirem-lhe com os inauditas situações da sua vergonhosa organização e comparem com o que aconteceu no Euro-2004 - construímos estádios a mais e gastamos mais do que deveríamos, mas ao menos correu tudo na perfeição, com os equipamentos prontos a meses do torneio. Além de que há estádios que se tornarão complicadíssimos elefantes brancos. E, como se viu, todas as promessas de novas redes de transportes ficaram no papel, e pelo meio, ainda foram despejadas inúmeras pessoas das suas casas. O mínimo que se poderá dizer é que o Brasil está longe de poder organizar grandes eventos de forma satisfatória, sobretudo agora, em que o seu crescimento económico arrefeceu.

Ainda assim, é incompreensível que haja pessoas a protestar contra o campeonato já depois do seu começo, querendo que não se realize. Que fizessem isso no ano passado, percebe-se. Que aproveitem para relembrar promessas não cumpridas, é normalíssimo. Mas queiram perturbar o evento no seu decurso? Quereriam que o Brasil tivesse feito todo o investimento para nada? E como ficaria a credibilidade do país caso não houvesse mesmo prova? Ou são inconscientes ou traidores. Os adeptos do "quanto pior melhor" estão em toda a parte, ou não se distinguissem lá pelo meio algumas bandeiras anarcas.
Mas políticas e estádios a cheirar a tinta à parte, a verdade é que a competição em si tem valido a pena. É claro que a forma como o Brasil ganhou logo a abrir a uma valorosa Croácia sem Mandzukic levanta todas as desconfianças, mais a mais quando a FIFA está sob qualquer suspeita (a história da escolha do Qatar como sede do Mundial em 2022 aí está para o comprovar). Ainda assim, tenho as minhas dúvidas que mesmo com o factor casa e alguns empurrões amistosos, o Brasil ganhe o certame. Já teve equipas melhores, e que não ganharam (sim, estou a pensar em 1982), e falta-lhe uma dupla avançada como as dos anos noventa - Romário/Bebeto ou Ronaldo/Rivaldo. Neymar não tem maturidade nem carisma para ser a grande figura da equipa, Hulk nem sempre está para isso, Fred é bom mas não é fabuloso, o meio-campo não tem um patrão, um capitão à altura; a defesa, e a baliza, ao contrário do que é tradicional, é de alta qualidade, mas por vezes anula-se. E um Brasil mais sólido cá atrás do que na dianteira nunca conseguiu grandes proezas.

Depois, o já famoso Espanha-Holanda, que acabou com a demolição do tiki-taka pela laranja mecânica, às mãos de uns fabulosos Robben e Van Persie. Esta Holanda bipolar (tanto faz grandes proezas numa competição como cai com estrondo na seguinte) promete, à Espanha já prenunciam o fim de um ciclo, mas convém ir com calma: afinal de contas, os espanhóis já começaram a perder noutras provas que acabaram por ganhar. Se bem que levar cinco não seja assim muito habitual, e aí recordamo-nos que a França e a Itália foram corridas da fase de grupos no Mundial em que entravam como detentoras do título.

De resto, pude ver uma Itália competente e experiente, embora não deslumbrante, uma Inglaterra voluntariosa e honesta, mas ainda verde, um Uruguai aflitivamente apático e algo envelhecido (nem o fantasma de 1950, tão recordado, lhes serve de alguma coisa), uma Colômbia que promete cumprir o que ficou pelo caminho há vinte anos e mais um punhado de selecções que prometem. Há pouco acabou o Argentina-Bósnia, no magnífico cenário do Maracanã, ideal para uma equipa estreante como os balcânicos. Os albicelestes ganharam bem, Messi marcou um bom golo, mas não deslumbraram (pudera, Enzo Pérez não jogou) e não posso considera-los como candidatos à vitória na prova. Já os bósnios mostraram atrevimento e raça, próprios de um país recente, têm a obrigação de mostrar o que valem ao Mundo, a união fortalecida pela provação da guerra e contra Irão e Nigéria têm todas as possibilidades de passar.

Amanhã entra Portugal em cena, na sua antiga capital colonial de Salvador da Bahia, contra os alemães, mas disso prefiro falar depois.

Entretanto, o cenário mais bizarro da prova fica até ver entregue ao jogo entre a Itália e a Inglaterra: em Manaus, no coração da Amazónia, ouviu-se o God Save the Queen a poucos quilómetros de piranhas e caimões, e tipos vestidos com cotas de malha e a cruz de S. Jorge a tirar fotos com índias. Desta nem Fitzcarraldo não se lembrou.

quinta-feira, junho 12, 2014

Passos para a paz


A oração conjunta entre Shimon Perez, Mamouhd Abbas e o Papa, que promoveu o encontro no Vaticano, não irá certamente trazer por si só a paz entre israelitas e palestinianos, nem acabar com todos os fanatismos da região. Mas é um exemplo de que líderes de povos desavindos se podem sentar lado a lado, orar em conjunto e até plantar as mesmas  árvores - no caso, uma oliveira, símbolo da paz e da cultura mediterrânica que é comum nos participantes. A paz não se constrói de uma assentada, com decretos de aplicação imediata ou sob um punho de ferro, mas através de passos firmes, de gestos e de cedências, contrariando a irredutibilidade dos fanáticos. Era isso que Sua Santidade queria demonstrar com este encontro em Roma. É isso que doravante terão de continuar a fazer, para promover dois estados, lado a lado, com bases sólidas para que não sejam minados por todos aqueles que jamais querem perceber o outro lado.


domingo, junho 08, 2014

Efemérides em sentido oposto


Estamos numa semana de importantes efemérides. Os 70 anos do desembarque da Normandia, no "Dia D",  e os 25 anos do massacre de Tiannamen foram amplamente recordados. Mas a diferença entre os dois é evidente: o primeiro acontecimento reporta ao princípio da libertação da Europa e o prenúncio da pior guerra que a humanidade já vira, com o sacrifício de milhares de soldados; o segundo recorda o esmagamento da manifestação dos estudantes que exigiam mais liberdade do regime comunista chinês. A comemoração da liberdade teve comemorações solenes reunindo os chefes de estado dos países vencedores; a da confirmação da tirania maoísta/dengxiaopinguista, pelo contrário, teve vigilância reforçada para impedir qualquer recordação ou protesto, fazendo passar a ideia de que nada aconteceu. Apesar de tudo, antes isso do que o inverso: é sempre melhor recordar a derrota da tirania (menos no que tocou à URSS) do que o seu triunfo.


quarta-feira, junho 04, 2014

El Rey abdicó, viva el Rey!


Não se pode dizer que tenha sido uma total surpresa. E tão pouco que se esperava nesta altura. Mas a decisão estava tomada há meses. Don Juan Carlos I, Rei de Espanha, restaurador da monarquia e da democracia no seu país, abdicou ao fim de 38 anos de reinado. Tempo mais que suficiente para descartar o cognome que Santiago Carrillo lhe deu em 1975: "Juan, o Breve".

A explicação que Juan Carlos dá é a necessidade de que uma nova geração reine em Espanha, para suportar novos tempos e enfrentar novos desafios. Faz recordar as razões do Papa Bento XVI e de alguns monarca europeus na justificação das respectivas renúncias, por razões similares. Para além disso, é público o estado de saúde debilitado do Rei, a sua menor popularidade devido à crise que assola o país e a sua vontade, há muito conhecida, de que Felipe o substituísse para dar novo sangue à coroa, tão necessitada nesta altura em que a crise económica, a degradação do sistema partidário e a ameaça de desagregação territorial ameaçam mais do que nunca o país.

No fundo, pode-se considerar que Juan Carlos sente que cumpriu a sua missão e que se retira agora para um descanso merecido, passando o testemunho ao seu sucessor, de resto mais que preparado para assumir a sua missão. O Rei que abriu Espanha à democracia e ao mundo, que afastou a tralha franquista nomeando Adolfo Suarez presidente de um governo sob uma prova de fogo  (que se encarregou da Transicion e de dar ao país uma nova constituição) e que ainda abortou o golpe militar de 1981, encabeçada pelo patético Tejero Molina, dá como terminado o seu reinado, cumprido exemplarmente para lá de todas as expectativas iniciais. O seu amigo Suárez morreu há pouco mais de dois meses. Com a abdicação do Rei que a tornou possível, 2014 parece mesmo indicar o fim da pós-Transicion.

Juan Carlos foi um monarca excepcional, um dos maiores chefes de estado do último meio século e um exemplo de tenacidade, paciência e até de bonomia. Os elogios feitos pelas principais figuras de estado espanholas, a começar pelos ex-chefes de governo, são prova disso mesmo. Um dos mais acertados, e também uma das melhores definições do regime monárquico constitucional espanhol, coube a Rodriguez Zapatero, que afirmou que "a união entre a coroa e a democracia faz parte do património colectivo de Espanha". Lógico. A monarquia parlamentar tal como existe em Espanha e noutra nações europeias é a melhor coabitação entre a traição e a modernidade. E faz ainda mais sentido numa sociedade tão dividida em duas como a Espanha, ou as "duas Espanhas". Uma não pode prescindir da outra, como o tentaram fazer Franco, por um lado, e os republicanos, por outro. Terão sempre ideias antagónicas, mas estão condenadas a conviver. A constituição de 1977 serviu exactamente para estabelecer, além da reconciliação, essa convivência, com cedências de parte a parte. Juan Carlos cumpriu essa dificílima missão da melhor maneira. Felipe VI cumprirá decerto a sua com igual sucesso.

El Rey abdicó, viva el Rey!


PS: mais tarde falarei dos que pedem um referendo "para decidir a forma de estado" (usando a rua, claro está).

segunda-feira, junho 02, 2014

360 graus

Eleições também as houve no Egipto. Com uma abstenção gigantesca, e a Irmandade Muçulmana e os liberais afastados da contenda, o General Sissi "legitimou-se" no cargo e ganhou com uma votação quase total. O novo homem forte do país entre margens do Nilo tem agora carta branca para governar segundo o velho método militar. "Primaveras Árabes", afastamento das forças armadas, julgamento de Mubarak, vitória eleitoral  - legislativa e presidencial -  da Irmandade Muçulmana, tudo isso passou em três anos: os militares regem o país, os islamitas estão presos e até ameaçados de morte, os liberais estão silenciados. A célebre gaffe de que a situação deu uma volta de "360 graus" torna-se real no Egipto: o país deu mesmo uma volta de 360 graus, de volta a 2010. Desta vez, com um Sissi no topo. Os fãs de Romy Schneider e os descendentes dos Habsburgo devem estar felicíssimos.

domingo, junho 01, 2014

Não bastam eleiçõs para normalizar a Ucrânia


Com os combates a leste como fundo, a Ucrânia lá conseguiu realizar as suas eleições presidenciais. Como todas as sondagens previam, Petro Poroshenko, conhecido como o "rei do chocolate", já com importante experiência política, e apoiado pelo UDAR de Vitali Klitschko (por sua vez eleito presidente da câmara de Kiev) venceu por larga margem, tornando-se presidente da Ucrânia logo na primeira volta. A sua prioridade é acabar com as revoltas separatistas no leste do país e, se possível, recuperar a Crimeia. Se a segunda parece uma tarefa quase impossível, pelo empenho da Rússia na sua anexação, e pela maioria local que a suporta, a primeira é menos complicada. O plebiscito que tornou Donetsk e Luhansk em "repúblicas populares", organizado pelas milícias locais, não tem o apoio explícito da Rússia, que toma posições ambíguas. Na última semana houve confrontos violentos na região, que vive em autêntico estado de guerra: ocupação do aeroporto de Donetsk por parte dos separatistas (que sofreram inúmeras baixas na recuperação por parte das tropas ucranianas), abate de helicópteros da força área ucraniana, combates vários nas cidades, destruição de barricadas, etc. Poroshenko ainda não tomou posse, mas a luta pela expulsão dos separatistas já começou. Estes, por sua vez, com material de guerra pesado, reforços de voluntários vindos da Rússia, da Crimeia, e mesmo por inúmeros veteranos paramilitares tchetchenos (que outrora combateram a Rússia e que agora se lhes submeteram) e ossetas, mais chetnicks da Sérvia, gratos pelo apoio dado pelos russos nas guerras da ex-Jugoslávia, não se deixarão vencer com facilidade, até porque sentem as costas amparadas pela Rússia e para além da força bélica têm alguns trunfos na manga, como escudos humanos.

Entretanto, surgem dados curiosos que desmontam a pouco e pouco a propaganda massiva de que o poder de Kiev estaria tomado por neonazis e fascistas: os candidatos dos formações mais extremistas, como o Svoboda e o Pravy Sektor, tiveram em conjunto menos de 2%. E aparentemente, é a extrema-direita da Europa ocidental quem está com Vladimir Putin. Além da Frente Nationale de Mme LePen, os neofascistas e antissemitas Jobbik, da Hungria, e Aurora Dourada, da Grécia, também estão com o líder russo. Juntando-se assim aos nostálgicos comunistas, como o "nosso" PCP, ou o MRPP, que num dos seus sites firmava perentoriamente que "todos os operários europeus estavam com as autoproclamadas "repúblicas populares". Será temerário falar em nome de todos os operários, mas talvez os militantes do MRPP tenham alguma razão: afinal de contas, o operariado francês vota maioritariamente na Frente Nacional.
Toda esta crise ucraniana está para durar (e se não arrastar a Europa é um sorte), mas é comovente ver que, mais uma vez, les beaux esprits se reoncontrent...

quinta-feira, maio 29, 2014

Sobre a final


Sobre a final da Liga dos Campeões na Luz, não se pode dizer que tenha sido bem jogado, mas não faltou emoção, golos e disputa acérrima, como é próprio de um derby. Não consegui ver o primeiro e o último golo, ocupado com um jantar para amigos, entre vinhos e gins, a que o jogo veio dar atracção suplementar, mas vi  três do Real que lhe valeram la decima. Acredito que tenha sido uma desilusão para os adeptos do Atlético, sofrer um golo tão perto do céu (nós, benfiquistas, sabemos o que isso é), mas a verdade é que o Real mereceu. E os colchoneros sempre foram campeões de Espanha (curiosamente, também la decima para eles, mas decima liga nacional).


Mas o jogo serviu também para contrariar aquela célebre frase que estipula que "não devemos voltar aos lugares onde fomos felizes". Di Maria, talvez o melhor em campo, com as suas arrancadas e as suas assistências, e Fábio Coentrão formaram a ala esquerda dos merengues, anos depois de terem feito o mesmo naquele estádio, ao serviço do Benfica, na época 2009-2010. Quando alguns esquecidos voltarem com a estapafúrdia desculpa de que o Benfica ganhou o título desse ano por causa dos "túneis" e do castigo do Hulk (mais curto até do que devia), lembrem-se disto. O argentino e o português ergueram a máxima taça europeia de clubes, naquela magnífica catedral do futebol onde tinham sido felizes anos antes, contrariando definitivamente essa máxima, como é dever de todos os que se superam e reinventam as palavras.
 
 

No PS afiam-se espada e contam-se espingardas



Os dois partidos socialistas da península Ibérica passam por convulsões internas de monta. A diferença é que enquanto o PSOE já andava a arrastar-se há algum tempo e teve um resultado muito fraco nestas europeias, abaixo do do descredibilizado governo do PP, o que levou à demissão do secretário-geral Rubalcaba, que enquanto ministro do interior desmantelou a ETA, o PS português ganhou as eleições, meses depois de ganhar as autárquicas. À partida, deveria significar um reforço do partido face ao desgaste e à impopularidade do governo. Afinal, voltam-se a contar espingardas. Seguro, depois do delirante discurso da "grande vitória", vê-se de novo confrontado com a ameaça de António Costa.
Não é novo na política portuguesa que um líder partidário seja objecto de uma tentativa de derrube sem antes passar pela prova de umas legislativas (casos de Marques Mendes e Ribeiro e Castro), mas no PS tal nunca sucedeu. Houve demissões a meio do mandato por vontade dos próprios (Constâncio e Ferro Rodrigues), mas nunca por golpes palacianos.
Pode parecer uma facada da parte de Costa, mas punhamo-nos no seu lugar: Seguro é tão atractivo como um cacto e tem o carisma de um arbusto. Ao contrário do ex-homólogo espanhol, não tem obra que se visse. O resultado das europeias é pouco satisfatório. Provavelmente é a única hipótese que o edil de Lisboa tem de alcançar a liderança do PS e levá-lo a um resultado razoável nas próximas legislativas. Imaginar Seguro como primeiro-ministro, para mais em minoria, é aterrador. António Costa pode ser muitas vezes sobrevalorizado e com boa imprensa, mas tem bem mais sentido de estado, instinto e capacidade política que o secretário-geral que escolheram para o PS. E depois, falando em "traições partidárias", é bom recordar que na própria noite da derrota de 2011, mal Sócrates disse que se afastaria da vida política, de imediato Seguro disse, com um tom pomposo e um sorrisinho irritante, "a título oficial", que estava disponível para o que o partido precisasse. Como se fosse difícil adivinhar...O trabalho de sapa junto do aparelho estava feito, e não precisou de muito para vencer internamente Francisco Assis.

Resta saber se Seguro convocará o congresso extraordinário e irá à luta. Mas em qualquer situação o PS ganhará algumas feridas. Se não houver o tal congresso, a situação interna aprodecerá e poderá ser fatal para os objectivos do partido. Se for e derrotar Costa, reforçará em definitivo a sua posição, mas o combate causará sempre mossa. Se Costa lhe arrebatar a liderança, os apoiantes de Seguro não lhe perdoarão e causarão um ambiente de difícil respiração. Em qualquer dos casos, o PS vai passar por dias turbulentos. E Passos Coelho e Portas só esperam que esses dias sejam demorados.

terça-feira, maio 27, 2014

Balanço das europeias



Balanço. Se não fosse o formalismo de se esperar pelo fecho das urnas em Itália e os boicotes em murça (não isentos de razão, pelo que vi), já teríamos os resultados completos e a distribuição final dos eurodeputados portugueses. Assim, temos de esperar mais um pouco. Mais pelos eleitos do que pelos números.

A abstenção, como de costume nestas eleições, atingiu níveis estratosféricos. Desta vez passou os dois terços do eleitorado. Nada que espante. Mas é curioso que quanto mais periféricos são os estados-membros, maior é o número de eleitores que não se dão ao trabalho de ir às urnas. Vejam-se os 87% de abstenção na Eslováquia e os 90% de participação na Bélgica. Portugal é definitivamente um país periférico.


O PS ganhou, ponto. Só que ganhou com menos de 4% de avanço. tudo o que fosse menos de 5% seria pouco satisfatório. E sejamos francos, menos de 31% é um número fraquinho. O número de Seguro, proclamando a "grande vitória", é patético, sobretudo olhando para a assistência socialista, tepidamente sorridente, e às próprias declarações de António Costa e de outros, que reconheceram que não era um grande resultado. Na primeira fila via-se Eduardo Lourenço, candidato simbólico pelo PS. Ver um dos principais pensadores portugueses cabecear de sono durante o discurso de Seguro devia levar as pessoas "a tirar as suas próprias ilacções".

A coligação PSD/CDS deve o seu paupérrimo resultado não apenas ao desgaste e à impopularidade do governo mas também à fraca campanha de constante disparo sobre o PS e sobre Sócrates. Uma campanha em busca de fantasmas, no fundo, e que surpreendeu pela negativa. Paulo Rangel é capaz de muito melhor. Provavelmente não se lembrou que em 2009 Vital Moreira recorreu ao mesmo cacete argumentativo e teve o resultado que se viu. A pomposa "Aliança Portugal" só não teve um resultado desastroso por comparação com o do PS.

Depois do reforço das autárquicas, a CDU teve mais um bom resultado. Não é estrondoso e ainda lhe falta confirmar o terceiro eurodeputado, mas conseguiu passar os dois dígitos numa eleição nacional. Depois de anos e anos a reclamar vitória com resultados fraquinhos, os vermelho/verdes conseguiram enfim acertar o discurso com a performance. Conseguiram cavalgar a onda de protesto com muito mais competência que o Bloco e estão aparentemente a ganhar com a renovação progressiva de quadros. Até onde é matéria que se deverá seguir.

O Bloco continua em queda livre. Por pouco Marisa Matias não conseguia ser eleita. A sangria de elementos conhecidos (Joana Amaral Dias é o último exemplo), o vazio das causas fracturantes, a falta de carisma na estranha liderança bicéfala (ou "paritária"), a intolerância a oposições internas e a pura e simples incompetência ditaram mais este fraco resultado. Desconfia-se que não fique por aqui.

O Partido da Terra, ou melhor dizendo, Marinho Pinto, surpreenderam ainda mais do que as sondagens mais favoráveis previam. Havia a hipótese de elegerem um deputado. Agora há a hipótese de elegerem dois. Perguntava há tempos qual seria o peso eleitoral do ex-Bastonário da OA. Está visto que o tem, e não é assim tão pouco. Agora vamos ver o que vale a sua acção no Parlamento Europeu, se mantém o seu populismo verbal e manual (que não de substância do discurso, bem mais moderado do que o estilo faz aparentar), como irá defender as suas ideias. E já agora, se o MPT ganha alguma coisa com isso. De qualquer maneira, está de parabéns: conseguiu ser a primeira figura pública candidata por um pequeno partido a ser eleita para Estrasburgo (Esteves Cardoso, Laurinda Alves e Victorino de Almeida já o tinham tentado, sem sucesso).

Os "pequenos" conseguiram um resultado global mais alto do que o costume. De entre as habituais décimas, ressalva-se de novo o MRPP e o Partido dos Animais, e sobretudo o novíssimo Livre. Um jornal qualquer, creio que o Público, classificava o seu resultado como uma derrota, com seta para baixo e tudo. Parece-me um erro prematuro. Afinal de contas, o Livre teve 2,2%, longe de servir para reeleger Rui Tavares, claro. Mas ainda assim, permitiria uns dois ou três deputados em legislativas. E convém recordar que o Bloco teve ainda menos nas primeiras eleições a que concorreu, precisamente umas europeias, em 1999, com outra máquina partidária, outro mediatismo e com apoiantes já com larga experiência política. Sem figuras públicas (apesar do apoio de algumas, como Ricardo Araújo Pereira) e sem grandes meios de campanha, pode-se dizer que os primeiros números do Livre são promissores. Afirmar que são uma desaire e uma desilusão é uma leviandade própria de quem não quis perder muito tempo com o assunto.

As consequências imediatas parecem estar a atingir, antes de mais, o PS. Quando é que um partido vencedor registou tal convulsão interna?


No resto da europa, o previsto: reforço dos eurocépticos e da direita radical no Reino Unido, Itália, França e Dinamarca, reforço da esquerda radical na Grécia (onde saiu vencedora) e em Espanha (além da Esquerda Unida, o novo movimento dos "Indignados", de inspiração chavista, teve quase 8%). Em Itália, as reformas de Mateo Renzi parecem estar a agradar aos italianos: o seu Partido Democrático obteve mais de 40%, o que num país tão politicamente instável e fragmentado é notável. Beppe Grillo voltou a conseguir números elevados, mas roubados directamente a Berlusconi e à refundada Forza Itália. É provavelmente a maior esperança para os partidos europeus mainstream.


sábado, maio 24, 2014

A final na Luz

 
Finais europeias entre equipas do mesmo país vão tornado vulgares (até Portugal já teve), mas pela primeira vez vão-se encontrar duas equipas da mesma cidade, e logo na prova rainha. O surpreendente Atlético e o poderoso Real nunca imaginariam isso no início da época. E quis a sorte que a final fosse em Lisboa, na catedral da Luz, o que com certeza aumentou a euforia dos seus adeptos - nem precisam de procurar bilhete de avião. A final em Portugal e com dois clubes madrilenos ficará circunscrita à Península Ibérica.

A invasão a Lisboa, de perto de cem mil espanhóis, vai certamente ajudar a economia, sobretudo a hotelaria e a restauração da capital e arredores largos. Muito gente inflacionou as suas casas e cobra couro e cabelo por um quarto. Não deixa de ser motivo de vergonha a exploração descarada das dormidas. Certamente que não vai ajudar à fama de Portugal, mas se houver que esteja disposto a pagar, pior para ele. Mas o impacto económico da final é brutal, muito mais do que podia imaginar. É sempre bom ver o nosso país (e o nosso estádio) nos olhos do Mundo por bons motivos. E a final está a mexer com a cidade, pelo que pude comprovar há dias.

Tenho preferências, claro. Se o Atlético não tivesse ganho o campeonato, talvez estivesse por eles. Assim, inclino-me para os merengues e para a décima taça do Real. Mas acima de tudo espero um grande jogo (que assistirei do Porto, entre amigos) e que nenhum jogador português se lesione, que temos um Mundial no Brasil para disputar. Por Cristiano Ronaldo, claro, sem ele a selecção nunca estaria no Brasil, mas também Pepe e Coentrão.

Curioso como o Benfica fica ligado às duas finais europeias: disputou uma delas e empresta a casa para a outra. Gostava era de saber quanto ganhará com isto. A visibilidade é importante, mas não mais que o dinheiro.
 
PS: podia-se desde já criar a piadinha fácil: a de que o governo, em especial Portas, tinha mentido descaradamente. Prometeu-nos para Maio um novo 1 de Dezembro, e em lugar disso temos a invasão espanhola.