terça-feira, setembro 30, 2014

O futuro novo primeiro-ministro


O resultado das primárias do PS impressionou pela mobilização e pela robustíssima vitória de António Costa. Negá-las é desviar a realidade dos olhos ou inventar desculpas de mau pagador. Pode-se achar que o PS se dividiu, que se lavou a roupa suja em público, que tem de conquistar o país, etc, mas é inegável que com as primárias (e todos os seus passos em falso) o partido marcou pontos e que António Costa tem uma posição extremamente sólida. Depois de ser deputado, eurodeputado, ministro (três vezes) e presidente da câmara de Lisboa (até quando?), Costa consegue chegar ao topo do partido, com amplas hipóteses de no futuro próximo levar o PS de novo para o governo. Tem, é claro, os seus anticorpos, a imagem à frente da capital não é tão positiva como isso e terá de gerir muito bem as divisões partidárias, em especial a herança socratista, e dar credibilidade ao PS, que bem precisa dela. Mas não se duvide: com este resultado esmagador, ainda mais legitimado com os votos dos simpatizantes, só muito dificilmente é que António Costa não será o próximo Primeiro-Ministro de Portugal.
 
 
Já agora, uma das frases da noite, em que pouca gente reparou, devia ser a declaração de Jerónimo de Sousa: o secretário-geral do PCP acha que "estas primárias foram uma farsa". Ouvir o líder do partido mais fechado de todos, onde o debate é nulo e os dirigentes escolhidos antes de serem eleitos (por unanimidade) criticar umas eleições, que, com todos os seus defeitos se tentou abrir à sociedade portuguesa, é de rir à gargalhada e de perguntar a Jerónimo se acha que tirando o militantes do PC, alguém acredita naquilo. Éo mesmo que comparar o "referendo" na Crimeia com o da Escócia. Jerónimo provavelmente acha que este último também é "uma farsa". E ainda há quem sonhe com a "união das esquerdas". 

domingo, setembro 28, 2014

Antes das primárias


Antes de se saberem os resultados das primárias do PS, há que enaltecer um tal processo, inédito na vida partidária portuguesa. É certo que a "fronda" de António Costa é oportunista (ficou claramente à espera do resultado das europeias) e lembra aquilo que já aconteceu antes no CDS, quando Portas apeou ribeiro e Castro (com resultados visíveis) ou no PSD, quando Menezes substituiu Marques Mendes (com consequências patéticas). Mas teve pelo menos a virtude de levar o seu partido a umas eleições primárias, bem mais abertas do que as "directas" que até agora observávamos nos partidos, e que era um solução pior do que as votações em congressos. Além de esvaziarem boa parte da utilidade (e porque não dizê-lo, da emoção) das "reuniões magnas", continham o velho truque de arrebanhar novos militantes para se conseguir determinado resultado político. Estas primárias poderão não ser uma solução milagrosa e tem alguns riscos e contradições (a possibilidade de simpatizantes políticoa adversários tentarem por esta via um resultado nocivo para o partido em questão), mas sempre permitem que a sociedade para lá da estrita militância aparelhista se possa pronunciar.

Quanto à campanha, admira-me que pouco se tenha distinguido de outro qualquer acto pré-eleitoral, além do dinheiro gasto na coisa. António José Seguro bem pode fazer-se de desgraçadinho, mas a verdade é que a postura calimérica, cinzenta e pouco mobilizadora não ajudou, e muito menos aquele patético filme de campanha envolvendo cravos e cortes. Além de que a sua sofreguidão pelo lugar vago logo na noite de 2011, em que o PS de Sócrates perdeu, também não ajuda. E a proposta de dmiminuir o número de deputados é das mais populistas e feitas em cima do joelho de que há memória.

De resto, é inegável que António Costa é dez vezes melhor que Seguro, tem menos cara de pau e é muito mais convincente. E tem a enorme vantagem mediática de sr simpático e não perder a compostura (comparando com Sócrates, então...)Mas devia tomar cuidado com o que propõe nos debates: neste último, ouvi bem ou ele falou mesmo em diminuir o desemprego com base (entre outras coisas), na reabilitação urbana? Não seria melhor olhar primeiro para o município a que preside? É que se a reabilitação urbana for para a frente como tem sido no centro de Lisboa não é de prever grande descida da taxa de desemprego, por essa via.

sexta-feira, setembro 26, 2014

Os andores da Senhora da Pena


Falando de novo em romarias e festividades religiosas em Portugal, sublinhe-se outra, em Trás-os-Montes: a da Senhora da Pena, no santuário com o mesmo nome, perto de Mouçós, Vila Real. Todos os anos, em Setembro, as várias aldeias da freguesia (são muitas, como no-lo recorda a sempre prestável Wikipedia) organizam a festa e a romaria. Assim, na envolvente do santuário de Nossa Senhora da Pena, podemos encontrar a habitual parafernália destas festividades populares: restaurantes móveis, barracas de comes e bebes, o palco para as bandas de "música popular" disponíveis, sorteios de prémios, etc. O que carateriza e diferencia esta festividade são os seus andores, que vão desde um metro e meio até aos vinte e tal metros. Umas construções móveis enormes e imponentes, só rivalizados pelos da Senhora da Aparecida. Num lento cortejo, entre fileiras de mirones, os andores avançam devagar, até ao último, o maior de todos, com cerca de cem homens a suportá-lo, e mais uns quantos a equilibrá-lo. O equilíbrio é fundamental, não vá o andor cair em cima de centenas de pessoas. No meio, quase insignificante, a figura da Senhora da Pena.






Os andores dão a volta ao recinto, seguidos de bandas a tocar e de clérigos que, debaixo de um pálio, aspergem de água benta o caminho e as pessoas. Ao chegarem à capela da Senhora da Pena, a última prova de esforço: os carregadores desatam a saltar com o andor em cima, provando que a fé move mesmo montanhas. Enfim, as estruturas são encostadas ao santuário, para serem devidamente admiradas antes de as desmontarem, e a festa prossegue em todo o seu formato profano.

A festa é de tal forma conhecida que até António Costa, em campanha partidária pelo distrito de Vila Real, reservou uma hora para lá ir. Todavia, ao contrário do que alguns poderiam imaginar, não o levaram em nenhum andor.


domingo, setembro 21, 2014

We´ll always keep Union Jack


Bem sei que o referendo era "lá com eles", mas sinto um certo alívio pela maioria dos escoceses - ou quem viva na Escócia há mais de um ano - ter votado não à independência. Não que o sim tivesse qualquer ilegitimidade e muito menos de ilegalidade - muito pelo contrário - nem que daí adviesse um grande mal, a fome dos escoceses ou uma tirania do Right Honourable Mr Alex Salmond (embora pudesse criar algum mal-estar entre a grande falange dos que não queriam a independência pura e simples). Mas permitiu que não se criasse um perigoso precedente para outras pulsões independentistas bem mais preocupantes, como a Catalunha, a Flandres, e, pior que tudo, a "Nova Rússia" em plena Ucrânia, sustentada pelas forças russas. não por acaso os separatistas da bacia do Don apoiavam avidamente o "sim" no referendo escocês. Os catalães também, pelo que levaram um balde de água fria. Por aí, talvez esta moda de nacionalismos emergentes tenha arrefecido um pouco (ainda que não tenha, nem pouco mais ou menos, acabado).

Depois, convém lembrar que, a despeito da imagem popular que se criou da Escócia - Wisky, gaitas de foles, kilts e monstros lacustres - a sua união com a Inglaterra para formar o Reino Unido, em 1707, resultou de uma decisão voluntária, apesar da oposição dos jacobitas, também por razões dinásticas e religiosas, e que a partir daí é que o poder britânico se ergueu, com a sua poderosa marinha, a revolução industrial e a expansão do império. A união dos reinos da Escócia e da Inglaterra mudou provavelmente o mundo, a geografia e a civilização. Os escoceses deram grande contributo, com os seus pensadores e inventores, as suas fábricas, os seus soldados. A Escócia é um dos berços do caminho de ferro e da indústria pesada, do pensamento iluminista e económico moderno. Ou seja, dos factores em que assentaram as bases do Império Britânico. Com o resultado do referendo, quaisquer que sejam as reivindicações concedidas apressadamente pelo governo de David Cameron, o Reino Unido manter-se-à uma potência com influência internacional, mesmo sem o império de outrora.

Mas o referendo permitiu redemonstrar que no Reino Unido, a democracia e a livre opinião mantêm-se sólidas. A forma como tudo se desenrolou, a campanha, os argumentos, a inteira liberdade com que cada parte procurou convencer os eleitores, mostrou mais uma vez que aquele velho conjunto de nações é a democracia mais antiga, e provavelmente a mais sólida, do Mundo. Compara-se com os patéticos "referendos" realizados na Crimeia e no leste da Ucrânia para se ver o que é um país livre e outro de cunho autoritário. Mesmo que nas redes sociais tenham aparecido alguns lunáticos a espalhar a ideia de que na Crimeia é que as coisas tinham funcionado e que no caso da Escócia tinha imperado "o medo e a chantagem". Provavelmente far-lhes-ia confusão a liberdade que se goza no Reino Unido, que lhes permitira tecer publicamente tais opiniões. Mas as credenciais britânicas nem precisavam de tanto. Quod erat demonstrandum. O exemplo das ilhas revelou que alguns bons velhos hábitos se mantiveram. Mas é bom saber que a Commonwealth não terá de se alargar para Norte. Antes assim. Até porque a Union Jack, talvez a mais conhecida das bandeiras do globo, e uma das mais bem concebidas, pode continuar a drapejar com a cruz de Santo André no fundo. Só isso seria motivo para votar não no referendo.

Foto

quarta-feira, setembro 17, 2014

São João d´Arga








Já ouvia falar há muito tempo, tinham-me dito que era das mais genuínas e tradicionais festividades do Minho, sabia de  documentários feitos de propósito e só não consegui ir antes por manifesta impossibilidade.


No meio da serra e das aldeias que lhe dão o nome (e no entanto tão perto do mar), encravado lá em baixo entre os montes, num ermo, fica o Mosteiro de São João de Arga. Todos os anos, a 28 e 29 de Agosto, vindos de inúmeros pontos da região, afluem lá milhares de pessoas numa romaria concorridíssima, a pé, de mota ou de automóvel (que por causa da estreiteza das estradas podem ficar encravados em plena via). Os estradões que descem para o mosteiro, desertos durante o resto do ano, transformam-se numa feira, onde se vende desde roupas até as habituais farturas, cachorros, bifanas, etc. E na noite de 28 para 29, o recinto do mosteiro enche-se de bandas de música, desgarradas, rusgas, tocadores de concertinas e castanholas e rodas de danças minhotas.



Os "quartéis" laterais à capela, que em tempos acolheram peregrinos e permitiram acções tendentes à "fertilidade", transformam-se em tascas onde se vendem, além da inevitável cerveja, especialidades da região, em especial o hidromel, aquela mesma bebida alcoólica tão popular nas terras nórdicas durante a Idade Média. Acompanha com porco no espeto e o afamado cabrito à Serra d ´Arga, que se assam fora do recinto, além dos mais corriqueiros cachorros e bifanas. E lá dentro, as concertinas, as danças e as voltas à capela, para cumprir promessas, o que implica uma esmola ao santo e outra ao diabo. O sagrado mistura-se com o profano, mas só aí até às 4 da manhã, altura em que se deixam os peregrinos descansar - já não nos quarteis, mas em tendas - e se prepara tudo para a procissão do dia seguinte. E às nove da manhã lá parte o cortejo, em que os participantes desfilam com trajes da região. A festa profana prossegue de tarde, com menos animação, já a caminhar para o fim. Antes que acabe tudo e o mosteiro de S. João de Arga volte à habitual tranquilidade, que salvo grupos de excursionistas, só voltará a ser quebrada no próximo ano, nas mesmas datas. 

terça-feira, setembro 16, 2014

À segunda só cai quem quer


Já se sabia que Marinho Pinto era um populista, um demagogo, um justicialista, ocasionalmente oportunista, embora não fosse um radical, e talvez por isso mesmo muitos tenham votado nele nas europeias. O que não se imaginava era que fosse tão descaradamente troca-tintas e que o seu oportunismo - misturado com algum deslumbramento pacóvio - atingisse os píncaros desta forma. Mal chegou ao Parlamento Europeu declarou que se iria candidatar às legislativas no ano seguinte,mostrando a enorme consideração (e conhecimento) pelo cargo para o qual tinha sido eleito. Depois, mostrou-se revoltado com o vencimento do mesmo, sem no entanto renunciar a uma parte que fosse ou propor a sua redução, com o extraordinário argumento de que tinha uma filha a estudar e que "um comunista não divide o seu salário pelos proletários" (os deputados do PCP, honra lhes seja feita, renunciam a parte do que ganham). Um perfeito exemplo de desprendimento e de justiça distributiva, em que não faltou a habitual zanga com o jornalista que o interrogava, tentando inverter as culpas. Agora abandonou o Partido da Terra, reafirmando que era meramente uma "barriga de aluguer", dois dias depois de uma reunião com os órgãos partidários em que tinham afinado estratégias e nunca tinha transparecido a sua decisão em deixar alegremente a formação que lhe permitiu a eleição para o PE. Podia ser apenas a denúncia dos seus dirigentes, mas o próprio ex-bastonário confirmou-o, com a maior calma deste Mundo, faltando mesmo à cerimónia de integração no grupo dos liberais europeus (grupo que o tinha acolhido depois de não ter sido aceite pelos Verdes). Depois destas brincadeiras todas, de contradições, hipocrisias e desculpas esfarrapadas, sempre com aquele ar de moralista coimbrão contra os vícios da capital, resta saber quem se deixará enganar por Marinho Pinto. Lembra o caso de José Manuel Coelho, mas pelo menos transitou para um partido mais próximo da sua ideologia, e tanto quanto me lembre, não deixou o anterior de um dia para o outro. Razão tinha quando acusou o ex-bastonário de ser um "falso profeta". Desde já, perco o meu respeito por quem votar no demagogo-mor de Portugal. À primeira todos caem, à segunda só cai quem quem quer.

sábado, setembro 06, 2014

Uma igreja de ovelhas tresmalhadas


O Padre Gonçalo Portocarrero de Almada tem-se distinguido nos últimos anos nas tribunas dos jornais com a sua pena irónica  inteligente, nem sempre caridosa, algumas vezes injusta, outras mais certeira. Como a que escreveu esta semana. Recomendada aos virtuosos, puros e demais neo-fariseus.

quarta-feira, setembro 03, 2014

Que 1939 não se repita em 2014


Aquelas imagens dos soldados ucranianos prisioneiros em Donetsk, seguindo numa parada organizada propositadamente para respnder às comemorações da independência da Ucrânia e para os humilhar, sob uma escolta de milicianos de baionetas em punho enquanto a populaça os insultava ou fotografava com os telemóveis, é bem demonstrativa dos valores dos separatistas e dos russos que os apoiam. Além de pouco consentâneas com as leis dos prisioneiros de guerra, evocam as paradas que Estaline realizou com prisioneiros alemães, com o expressivo acto de porem um camião a lavar as ruas atrás das suas pegadas, como se fossem sub-humanos. É uma boa expressão da cultura semi-bárbara da Rússia, cuja natureza continua igual ao que era há séculos. Não esquecer igualmente que têm o apoio de brigadas de sérvios e caucasianos, autores de crimes de guerra, e que o seu "ministro da defesa", Strelkov, é ele próprio um russo acusado de actos pouco limpos nesses cenários de guerra.




Em tempos de evocação de guerras, convém também lembrar que não só passaram cem anos do início da 1ª Guerra Mundial, mas também 75 da invasão da Polónia pela Alemanha. Depois do Anchluss da Áustria e da anexação da Checoslováquia com o pretexto dos povos dos Sudentenland estarem em perigo, uma falsa provocação deu o pretexto para que os panzer entrassem pela Polónia dentro. Isto sempre sob a premissa de que ou era por vontade dos povos germânicos anexados, ou que estes estavam ameaçados pelos seus vizinhos. Em 2014 verificámos, no seguimento da mudança do poder em Kiev, a anexação da Crimeia por parte da Rússia com um referendo muito pouco transparente (tal qual como na Áustria em 1938), a tomada de boa parte dos territórios das regiões da bacia do Don por separatistas pró-russos, auxiliados por mercenários estrangeiros e por tropas russas mal disfarçadas, e a ameaça da Rússia de intervir caso os "seus" fiquem em perigo ou as suas fronteiras sejam ameaçadas. Não por acaso a URSS assinou o pacto Molotov-Ribentropp com a Alemanha, permitindo que esta entrasse na Polónia, enquanto os soviéticos faziam o mesmo do outro lado e ainda atacavam a Finlândia. Claro que a Rússia de hoje não tem os níveis de fanatismo e demência do 3º Reich de 1939, nem procura criar um Super-Homem (a não ser que esse seja Putin). Mas prossegue na senda do seu sonho eurasiático, que inclui a "nova Rússia", no Sul, e por isso estende uma teia em que oficialmente não intervém no conflito da bacia do Don, mas de facto propaga-o e manobra os cordelinhos de uma parte. E trazendo, como se viu na estranha parada de Donetsk, recordações margs de tempos idos.

domingo, agosto 31, 2014

Benfica 2014-2015


À 3ª jornada já dá para fazer uma análise assim-assim do Benfica desta época. O "defeso" revelou-se atribulado, com as saídsa de boa parte dos titulares, algumas previsíveis ou conhecidas (Rodrigo, André Gomes, Garay, Siqueira), outras mais repentinas ou traumáticas (Oblak, Markovic), maus negócios no aspecto financeiro (Garay) ou desportivo (de novo Oblak e Markovic), e alguns bons negócios pelo montante envolvido (Oblak, Rodrigo).
Apesar disso, e dos maus resultados na pré-época, culminando com uma goleada em casa do Arsenal (o que não admirou, já que o centro da defesa estava a cargo de Sidnei e do jovenzinho César), a equipa mostrou que não tinha desaprendido de jogar futebol nos jogos oficiais que teve até agora. O problema é a dificuldade em marcar golos, mas sem um artilheiro de raiz não se pode esperar muito mais. No jogo da supertaça, por exemplo, contra um bom Rio Ave, deu para ver isso mesmo. Um bom jogo que podia não ter servido para nada pela míngua de golos, e que só se salvou nos penaltys.
Das contratações, Talisca tem mostrado qualidade, mas precisa ainda de experiência e músculo. Derley pode ser útil, Bébé é um risco calculado (talento não lhe falta, e o grande salto na carreira deu quando se mudou para Manchester, pelo que a adaptação a grandes palcos não será complicada), Eliseu não faz esquecer Siqueira, mas cumpre e tem um remate precioso. Ainda não deu para avaliar Benito, não conheço Samaris, apesar dos elogios e do preço,e quanto a Lisandro Lopez e Pizzi, tenho algumas expectativas, pelo que mostraram quando estiveram emprestados, mas a verdade é que ainda não mostraram o que valiam no Benfica.

Jesus disse que precisava de um guarda-redes e de um avançado. Guarda-redes já temos, e nesta altura e com os meios disponíveis dificilmente encontraríamos melhor que Júlio César, ex-guardião das redes do Brasil, do Inter milanês e do Flamengo, de qualidade, experientíssimo, e sobretudo de grande força psicológica, pelo que a derrocada do Brasil no mundial não o deverá afectar. Os brilharetes de Artur a defender penaltys mantiveram-no no posto, mas depois de mais um par de disparates que custaram dois pontos contra o Sporting (Chutar a bola na direcção em que Carrillo vinha? Quase apetece perguntar se era de propósito), já não há condições e Júlio César pode então ocupar o seu novo lugar de trabalho, para que afinal de contas o contrataram. Quanto à necessidade de um avançado, ficou cabalmente provada esta tarde: não sei quantas oportunidades construídas por Gaitan e Salvio desperdiçadas pela ausência de um homem golo. Enquanto não chega um, e esperemos que esteja para breve, resta-nos amaldiçoar a suposta birra de Jesus para com Nelson Oliveira, que podia ajudar. Entretanto, se Enzo sair, ficamos com mais problemas. As lesões prolongadas de amorim e Fejsa fragilizam o meio-campos, e os que estão são poucos. Por isso, comprar um artilheiro, manter Enzo (a não ser que paguem a cláusula de rescisão, até porque o dinheiro é bem necessário) e apostar em jogadores como Lisandro e Oliveira é imperioso. Ainda assim, adivinha-se um ano complicado. E o sorteio da Liga dos Campeões não ajudou...

quinta-feira, agosto 28, 2014

Há setenta anos, um grande acontecimento pouco recordado


Pouco se falou disso, mas na última segunda-feira, dia 25, passaram setenta anos da libertação de Paris, com a entrada das força Aliadas na capital francesa e a rendição das tropas alemãs comandadas por von Choltitz. Houve comemorações na cidade, claro, sob o patrocínio de François Hollande, decerto mais preocupado com a crise governamental do executivo Valls, mas por cá pouco se noticiou a efeméride. A verdade é que durante a ocupação alemã, não poucos franceses colaboraram ou toleraram os ocupantes, a par dos que resistiram e a sofreram na pele, enquanto a maioria procurava fazer a vida de todos os dias como podia. Mas é bom não esquecer que para além do simbolismo da libertação de uma cidade como Paris, depois de aos de domínio pelas tropas de um estado totalitário (coisa inédita desde os hunos e vergonha imensa para o orgulho francês), evitou-se a destruição à bomba e pelas consequentes inundações de uma das cidades mais magnificentes do globo. As ordens de Berlim eram claras: Paris só cairia nas mãos das tropas anglo-britânicas em ruínas, depois de se rebentar com a quase totalidade da cidade, a começar pelos edifícios e monumentos mais importantes. Ou seja, só por cima do seu cadáver de escombros fumegantes. Von Choltitz esteve à beira da tentação de cumprir as ordens de um acossado e enfurecido Hitler, com ameaças pendentes sobre a própria família, mas acabou por resistir e ordenar a rendição sem levar avante o terrível plano. O filme Diplomacia, de Wolker Schalondorff, baseado na peça do mesmo nome (e com os mesmos actores), e que esteve há bem pouco tempo nas salas de cinema, baseado na conversa durante a noite de 24 para 25 de Agosto de 1944 entre o general alemão e um cônsul sueco, é um bom instrumento para perceber todas as difíceis decisões que pesaram na rendição das tropas ocupantes e as suas (não) consequências. E que devia te sido tão comemorado como outros acontecimentos da guerra. Infelizmente, a falta de memória e o Verão quente (não em sentido metereológico) que vamos atravessando empurraram essa comemoração para uma quase irrelevância e secundarização que definitivamente não merecia.





sábado, agosto 23, 2014

Que não nos falte nada


Festas de Viana, festas de Ponte da Barca, festival de Paredes de Coura, festas das revistas "cor de rosa", festas privadas...o Alto Minho parece estar numa enorme festa colectiva, este fim de semana. E no entanto, entre a nortada e as estradas que atravessam pinhais e campos de milho, é possível escapar-lhes e gozar de luz e o silêncio, dois bens preciosos nesta vida. Para quem quiser, ou mesmo apenas por algum tempo, antes de se voltar á música (de preferência de concertinas), às danças e ao convívio. Há de tudo, nesta terra.

sexta-feira, agosto 15, 2014

Desaparecimentos estivais


Causou comoção em toda a parte o desaparecimento de Robin Wiliams. Não sou de modo algum uma excepção. Durante muitos anos fazia parte da meia dúzia dos meus actores de cinema favoritos. O Clube dos Poetas Mortos marcou-me tal como a quase todas as pessoas da mesma idade (era claramente o meu filme de eleição durante largo tempo). Mas para além do professor heterodoxo, idealista e motivador, ou do radialista pouco convencional de Good Morning, Vietnam, os mais recordados, houve mais uns quantos papéis que o distinguiram tanto como "comediante" como com a sua "faceta séria". O do homem profundamente traumatizado que caiu num misto de indigência e lirismo de O Rei Pescador; o de Peter Pan crescido, esquecido e aburguesado de Hook, a continuação da obra de J. M.Barrie; o iludido psiquiatra de Despertares; a criança em corpo de adulto com crescimento anormal de Jack, um dos primeiros "experimentalismos" de Copolla; o do pai travestido em ama para poder estar perto dos seus filhos no hilariante Mrs Doubtfire; o do assassino chantagista no jogo de Insónia; o fotógrafo solitário e psicótico de One Hour Photo; a materialização de Popeye num dos seus primeiros papeis; e evidentemente o papel que lhe deu o seu único Óscar, o do psicólogo de O Bom Rebelde, uma espécie de versão mais desencantada e envelhecida da sua personagem e O Clube dos Poetas Mortos.
Longe de ser um "actor do método" (dele diziam que mal paravam as filmagens voltava a ser ele próprio no mesmo segundo), e não sendo apenas um comediante, Robin Williams dificilmente conseguia afastar essa imagem, colando sempre algum traço de comicidade mesmo em "filmes sérios". Mas em noutras escassas ocasiões conseguiu-o (em Insónia, por exemplo), mostrando uma faceta mais negra e obscura. Talvez tenha sido essa que o levou à terrível depressão que acabou com ele e que nos privou subitamente de um actor que há muito fazia parte das nossas vidas.


E no dia seguinte, também desaparecia Lauren Bacall, a última diva, uma das mais bonitas actrizes americanas de sempre, a mulher fiel a Humphrey Bogart, com quem se casou aos vinte anos, a adversária da tara mccarthista. Um mito vivo até agora, em todos os sentidos.


E já agora, não se comparando, assinale-se o desaparecimento de Emídio Rangel. Suscitou-me sempre reservas, por causa da sua ideia de mediatismo quase ilimitado, de "vender presidentes da república como um sabonete", conseguindo conquistar as audiências com programas brejeiros ainda que inovadores, como o Big Show Sic, ou dos seus elogios cegos e indisfarçados ao governo de José Sócrates. Mas também foi o autor de interessantes projectos jornalísticos, para além da SIC, como a TSF, impondo um modelo de informação independente das agendas governamentais que deixou a comunicação social estatal confundida e obrigando-a a mudar. Só isso equilibra de forma muito positiva o seu papel na história dos media em Portugal.

quinta-feira, agosto 07, 2014

Óscar "Tacuara" Cardozo

 

De entre as numerosas saídas do Benfica neste período ainda de "mercado" destaca-se a de Cardozo. Não pelos números envolvidos, que não passam dos cinco milhões de euros, nem por especial surpresa, ele que já no ano passado estava "à venda" e que na época que passou, desde a sua lesão que se andava a arrastar em campo. Mas por ser já um jogador "da casa", pela sua passagem longa pelo Benfica, e sobretudo pelos muitos golos que marcou de águia ao peito, que o tornaram num dos maiores artilheiros da história do clube. É verdade que às vezes enervava um pouco, pela sua aparente dormência ou alheamento do jogo, pela falsa lentidão, por ferver em pouca água ou pelos penaltys falhados (vide final da UEFA contra o Sevilha, ou mais ainda, a penalidade falhada contra Espanha no Mundial de 2010 pela sua selecção, que podia ter alterado a própria história do futebol). Mas os golos do Tacuara deram grandes alegrias aos benfiquistas. Em sete épocas, por duas vezes sagrou-se melhor marcador do campeonato, e noutras duas teve lesões durante boa parte das mesmas. Marcou golos de todo o tipo, com maior ou menor dificuldade, mais ou menos técnica, muitos decisivos, outros nem tanto. Foram 193 em todas as competições. Destaco os dois ao Rio Ave no jogo do título de 2010, os vários ao Everton nessa mesma época, os dois que marcou ao Fenerbahçe que levaram o Benfica à final da UEFA de 2013, claro está, os muitos que marcou a Sporting (o hat-trick para a Taça) e Porto, e o que marcou ao Celtic em 2007 - uma excelente execução, que garantiu o triunfo, e também o primeiro que vi ao vivo. Entre muitos, são os que me vêm à cabeça.
 
Mas Cardozo já não era o mesmo, e a sua venda ao Trabonzspor é o caminho lógico para a sua carreira. O Benfica recebe algum dinheiro, o paraguaio consegue um contrato onde ganha bem mais e os turcos talvez aproveitem uma réstia goleadora do Tacuara.
Mas Tacuara vai deixar saudades. E tão cedo não será esquecido. Não merece
 
 

terça-feira, agosto 05, 2014

Nos cem anos do início da 1ª Grande Guerra



Há exactamente cem anos começava o conflito depois conhecido como Grande Guerra, ou Primeira Guerra Mundial. A pesada efeméride não tem passado despercebida também em Portugal, que embora não tenha sofrido acções bélicas no seu território europeu, travou encarniçados combates em África e na Flandres, onde milhares de portugueses sem experiência de guerra nem material condizente com as circunstâncias (apesar do patético "Milagre de Tancos" com que se quis impingir a ideia de um exército devidamente treinado em poucas semanas) morreram em condições tremendas para defender " o prestígio da república".
Não faltam agora séries, documentários, edições especiais e livros (um agradecimento especial ao Expresso que editou em vários fascículos, e gratuitamente, o pesado tijolo da autoria de Martin Gilbert, que há muito queria ler) sobre o acontecimento, pelo que durante os próximos meses não faltarão ocasiões para o relembrar, às suas batalhas e aos protagonistas.
É curioso notar como alguns mitos hoje em dia são tão apregoados, apesar de terem sido supostamente erradicados pela Grande Guerra (ou pela lógica dela resultante).
Um deles é o da necessidade de um Mundo "multipolar", por oposição ao controlo por uma ou duas superpotências, como se verificou depois da 2ª Guerra, e sobretudo no pós-1989. É que a guerra de 1914-18 deu-se precisamente pela explosão das tensões entre diversas potências europeias, como o Império Britânico, a França, a Rússia, o Império alemão e o Austro-Húngaro, aos quais se juntaram o Otomano, os EUA e o Japão, entre outros. Potências a mais redundaram numa guerra sem quartel. A multipolaridade não impediu a guerra, antes a incitou.
O outro é o dos benefícios infinitos da técnica e da tecnologia. Uma das características da Grande Guerra foi que a revelação de que as velhas tácticas, instrumentos e demais elementos de combate se tinham tornardo obsoletas com a profusão de novos equipamentos, como os tanques de guerra, os aviões (e em parte os zepellins), os submarinos ou os gases venenosos. A tecnologia serviu apenas para ceifar ainda mais vidas e deixar um rasto incalculável de mortos e estropiados nas trincheiras, e um cenário de incrível destruição entre as jovens gerações europeias, que não estavam de todo preparadas para o que iam enfrentar.
Começou há cem anos.


domingo, agosto 03, 2014

Uma questão e uma lembrança

 
As acções de guerra em Gaza sucedem-se, com Israel a carregar nos ataques para desmantelar a facção militarizada do Hamas, os seus rockets e os seus túneis. Pelo caminho, mais umas dezenas de mortos. Posso perceber que as intenções do Hamas sejam vis, que usem escudos humanos, que governem aquele território com mão de ferro, percebo isso tudo. Mas se certos alvos das forças israelitas, nomeadamente escolas e hospitais, albergam arsenais se armas e mísseis, não seria melhor abster-se de os destruir, poupando assim inúmeras vidas, muitas de mulheres e crianças? Sobretudo quando os ditos mísseis poucas ou nenhumas vítimas farão do lado israelita, até pelo sistema de defesa implantado e que já demonstrou a sua eficácia? Aparentemente, para os responsáveis militares, não: é preferível rebentar com todo o arsenal do Hamas mesmo que para isso se sacrifiquem incontáveis civis. Há fanáticos do lado palestiniano, do lado israelita não parece haver menos.
 
Boa lembrança no artigo de Azeredo Lopes. Os cristãos da Mesopotâmia serão em breve uma lembrança, uma curiosidade de historiadores. Curiosamente não vejo uma manifestação, um protesto, uma indignação semelhante ao que acontece com os palestinianos (e pode-se dizer o mesmo dos curdos). Só mesmo para criticar os EUA e aliados pela invasão do Iraque. Aparentemente, as causas só valem a pena se for para criticar o Ocidente, já que os outros parecem escapar sempre. A eterna culpa do Homem Branco, cada vez mais solidamente implantada.

quinta-feira, julho 31, 2014

O decano dos festivais voltou (e as respectivas vaquinhas também)


Vilar de de Mouros, o mítico festival nas margens do Coura, está de volta, depois de alguns anos de interrupção. Um cartaz morno, com grupos por demais conhecidos e até repetentes (por exemplo, os Stranglers, que actuaram no auge da popularidade em 1982, ao lado dos U2, estão de regresso), mas é sempre bom ver regressar eventos míticos como este. Para quem não se lembrar, é o mais antigo festival do género em Portugal, nascido em 1972 como o "Woodstock português", com Elton John e a banda da GNR a tocar lado a lado. Actualmente o país regurgita festivais pop-rock, em todos os distritos e com todos os patrocínios (é a crise, dizem), mas no tempo de Marcelo Caetano era uma autêntica bomba que caía na aldeiazinha do Alto Minho, entre azenhas e campos de milho. Voltou em 1982 e em 1996, para se tornar anual, até definhar e parar há uns anos. Também por lá passei na edição de 1996, que encerrou com os Madredeus, e em 2004, ano em que um prodigioso cartaz trouxe ao Minho Bob Dylan, The Cure, Peter Gabriel e P.J. Harvey. Depois, Paredes de Coura ganhou a dianteira no campeonato de festivais de rock nas margens do rio Coura.

Mas há coisas que nunca acabam, felizmente, e Vilar de Mouros parece ser uma delas. Outra é o símbolo do festival, a famosa vaca malhada. Hoje descobri a razão: um casal da terra, já com certa idade, que há décadas leva as vacas a pastar todos os dias, com ou sem festival, e que para isso tem de atravessar a ponte românica sobre o Coura. A imagem dos ruminantes a cruzar a ponte atraiu a atenção de inúmeros fotógrafos, que desde 1996 fizeram delas o ex-líbris do evento (com anuência do casal, que ainda hoje na TV dizia sentir certo orgulho). Há inúmeras variações das vacas, de várias formas e feitios, e a sua evolução pode ser vista no After Eight, talvez o mais antigo (e seguramente o mais sossegado) bar da Rua Direita de Caminha, decorado com cartazes de todas as edições do festival sobre paredes brancas. Mas nenhum chegou à engraçadíssima rês deste ano: uma vaca rocker, com cabedal, piercings e tudo. Vilar de Mouros forever!


terça-feira, julho 29, 2014

Dinastias que passam



À volta da derrocada do império Espírito Santo e do seu grupo fala-se também no que acontecerá à própria família, numerosa e com importantes ligações ao grupo. É certo que nem todos os elementos precisam dos rendimentos que provinham do grupo económico, e fizeram a sua vida com meios próprios e autónomos. Mas é curioso pensar como o nome da família, que transmitia logo uma aura de poder e propriedade, e, como muitos ousam recordar, abria as portas a qualquer negócio fosse em Portugal ou fora, corre o risco de a perder de um ano para o outro. Nada que espante: já tivemos os Quintela, com o magnânimo conde de Farrobo a marcar o seu apogeu, os Burnay, os Mello, os Champalimaud. Nomes que com o passar do tempo e a mudança da propriedade e do poder de direcção das figuras carismáticas que iniciaram os seus grupos económicos e dinastias correspondentes, foram passando e deixaram de ser sinónimo de domínio da economia nacional. Da mesma forma, a prestigiada família Espírito Santo vai em pouco tempo tornar-se um apelido como qualquer outro (até porque há outras famílias Espírito Santo sem qualquer ligação com a do BES). Até ser substituída por outro clã. Ou talvez não, que a globalização e o mercado livre já não permitem tão facilmente a ascensão de grandes grupos familiares.

sábado, julho 26, 2014

Imagens relativas a posts do passado


Olha o ex-futuro estádio do Chelsea, que infelizmente não vai ser.


O antigo estádio do Arsenal. E o actual. Parece que mudaram do antigo Bessa encurralado a meio de um bairro de casas térreas para uma espécie de Luz envidraçada (do qual aliás os portistas não têm a melhor das recordações).


quarta-feira, julho 23, 2014

Ainda mais tragédias, no já suspeito Médio Oriente



E mais tragédias observamos em Gaza. A trama é a do costume: elementos do Hamas (neste caso há dúvidas, já que os primeiros factos aconteceram na Cisjordânia) assassinam israelitas, Israel retalia com bombardeamentos aéreos, são lançados rockets de Gaza contra território israelita, o Tsahal entra em Gaza para liquidar elementos do Hamas e suas infraestruturas bélicas e acaba a matar centenas de civis...Como se nada mudasse, e fosse um filme repetido vezes sem conta. Culpados há muitos, claro, dos dirigentes do Hamas para quem Israel não tem qualquer direito a existir aos falcões asquenazis, que parecem considerar os palestinianos como sub-humanos (um pouco como os seus avós eram considerados pelo 3º Reich), passando pelo cinismo de colonos que se instalam em cadeiras a observar os bombardeamentos a Gaza, como se cinema ao ar livre se tratasse. Mas vítimas, infelizmente, há muitas mais.

E ainda no Médio Oriente, o novo califado entre a Síria e o Iraque consolida-se, perante a fragilidade e inoperância das forças regulares iraquianas e a teimosia do chefe de governo Maliki, que quer a todo o custo conservar o poder sem o dividir. Restam as milícias xiitas e as forças curdas, que, avisadas, protegem um território independente de facto, que isolado de toda aquela guerra permanente, progride e não pretende ficar de novo sob a alçada de Bagdad. Ao fim de tantos massacres e combates, os curdos vêem finalmente o seu estado a ser erguido com êxito. Já os cristãos que vivem naquele território, pré-muçulmanos, que já foram a maioria, são forçados a abandonar as cidades incluídas no califado, sob pena de serem massacrados se não se converterem. Eis um drama que não comove os furiosos humanistas que tanto bradam pelas vítimas palestinianas e alertam para a terrível islamofobia na Europa (esquecendo-se da autêntica na Índia e na Birmânia).



PS: indispensável deixar aqui a fabuloso e eloquente (em todos os termos) video This Land is Mine, que nos últimos dias tem rodado na net com particular (e justificada) existência.

sexta-feira, julho 18, 2014

O essencial depois de uma tragédia



Desconfio que depois da tragédia do avião da Malasyan Airlines, ontem, nos céus do complicado território entre a Ucrânia e a Rússia, apenas quatro meses depois do misteriosíssimo desaparecimento de um avião daquela companhia, poucos se atreverão a subir para um avião da mesma, embora as culpas não lhe devam ser imputadas. E o ambiente naquelas paragens promete ficar ainda mais quente. Tudo indica tratar-se de mísseis anti-aéreos disparados pelos rebeldes pró-russos, confundindo-o com um avião militar ucraniano, o que só tende a agravar a coisa. De qualquer forma, e sabendo-se que as responsabilidades terão de ser apuradas (e mandar a caixa negra do aparelho para Moscovo não abona muito a favor de quem o faz), urge antes de mais prestar auxílio às vítimas colaterais - as famílias - e interditar aquele espaço aéreo. Ou como dizia o outro, enterrar os mortos e cuidar dos vivos. No meio disto tudo, histórias trágicas, como a daquele australiano, que depois de perder o irmão no voo desaparecido em Março, perdeu agora uma enteada. Há vidas que não são nada invejáveis.

quinta-feira, julho 17, 2014

Little Joy

Little Joy é o projecto musical que resultou do encontro entre Rodrigo Amarante, guitarrista dos brasileiros Los Hermanos, e Fabrizio Moretti, baterista brasileiro dos americanos The Strokes, ao que consta em Lisboa, no festival Soundz (que se perdeu, com outros, na imensidão da oferta), em 2006. Reencontraram-se nos Estados Unidos, quando os Hermanos decidiram hibernar, e lançaram o projecto, juntando-se-lhes a namorada de Moretti, a multi-instrumentista Binky Shapiro. Desta colaboração em trio resultou o álbum Little Joy, editado pela mítica Rough Trade, de uma pop alternativa suave com laivos de tropicalismo. Um bom encontro entre o Rio de Janeiro dos Hermanos e a Nova York dos Strokes, com uma música que emana sentimentos de "pequena felicidade" que faze jus ao nome do trio. Uma pequena homenagem ao Brasil, agora que a festa acabou.

terça-feira, julho 15, 2014

Acabou o Mundial


Acabou o Mundial e já estou com saudades das noites de bola, das surpresas, dos hinos nacionais e até da música do genérico antes de cada jogo. Não torci pela Alemanha, mas o título acaba por ficar bem entregue à equipa mais consistente, que mais trabalhou e se preparou para esta competição, e que há já uns anos, entre finais e meias, ameaçava mais competição menos competição erguer novo troféu. Aconteceu este ano, às custas de um Brasil menor e impreparado. A Alemanha já pode dizer que ganha mundiais sem ser a RFA, e os anos acabados em 4 revelam-se afortunados para a Mannschaft: conquistaram o título mundial em 1954 (contra a enorme Hungria), em 1974 (frente à Laranja Mecânica de Cruyft) e só falharam 1994, graças a uma extraordinária Bulgária, mas entretanto já tinham ganho em 1990. E pensar que tudo isto começou com uma bisonha derrota de uma velha equipa perante suplentes portugueses...Os 4-0 do primeiro jogo foram uma boa desforra, mas pelo menos Portugal pode dizer que só perdeu com a equipa campeã.

Nunca pensei que a Argentina chegasse à final. Teve alguma felicidade na maneira como o conseguiu, com pouco brilho e muita retranca. Conseguiu-o à custa de uma Holanda com medo de arriscar, ganhou nos penaltys e reeditou as finais de 1986 e 1990, quando as equipas das Pampas e dos tedescos dominaram os Mundiais de futebol. A verdade é que jogaram de igual para igual, com um rigor defensivo (mas porque é que o Benfica não esperou mais tempo para vender Garay?) e uma pressão notáveis, tiveram (escassas) ocasiões para marcar e só sucumbiram ao esgotamento físico, frente a uma Alemanha menos desgastada e a um fantástico golo do descansado Gotze. Tive pena por Enzo Perez e Garay - seria fantástico ter dois jogadores do Benfica, ou quase, campeões mundiais e titulares - e até pelo inconsolável Rojo. Mas a Argentina recuperou algum do estatuto de grande selecção que andava em baixo nos últimos anos. Prémio de consolação, e estranho mesmo, seria a nomeação de Messi para melhor jogador do torneio. Não haja dúvida que o argentino goza de excelente imprensa no mundo do futebol, ainda melhor que a de António Costa na política portuguesa...De resto, James ficou com o justo título de melhor artilheiro, e a Holanda em terceiro, também merecido.

O Brasil conseguiu encaixar dez golos em dois jogos, em sua própria casa. É obra. Depois do Mineirazo, novo banho. Scolari, claro, nunca poderia ficar, mas a futebol brasileiro terá que ser muito repensado e as suas estruturas alteradas. Tal como o português, aliás.

De resto, tivemos um excelente Mundial, que excedeu todas as expectativas (embora haje quem, inexplicavelmente, o considere um dos piores). Jogos emocionantes com muitos e belíssimos golos (o Espanha-Holanda, Alemanha-Argélia ou Brasil-Colômbia, por exemplo), selecções que surpreenderam (Argélia, Costa Rica, Estados unidos, e claro, a Argentina, como finalista), outras que confirmaram as suas boas indicações e que no futuro irão dar ainda mais cartas (Colômbia, Bélgica, Suíça) e as decepções (Portugal, claro, Brasil, Espanha, os mais clamorosos, Itália, uma vez mais, e de certa forma a Inglaterra, com atenuantes). Entre os golos, mais do que o de James ao Uruguai e o de Cahill à holanda, destaco o "salto de peixe "de Van Persie à Espanha e a fabulosa cavalgada de Robben no mesmo jogo, em que ultrapassou dois defesas, sentou Casillas e mudando de direcção atirou para o fundo. Simplesmente inesquecível.

De resto, o mundial teve episódios que não poderiam ser vistos noutras paragens: claques da Bósnia no Pantanal, O God Save the Queen entoado na Amazónia, protestos argentinos antes do jogo do Irão relembrando um terrível atentado com vinte anos, os jogadores alemães a confraternizar com índios da Bahia, fãs enlouquecidas a entrar nos treinos de Portugal para tocar em Ronaldo...O que fica para a história, são os vencedores, da Alemanha, e os vencidos mais evidentes:  Argentina, por chegar à final, e o Brasil pela forma estrondosa como o afastaram. Teve uma consolação: fugiu à completa humilhação de não ver os eternos rivais das pampas sagrar-se campeões em pleno Maracanã, apoiados pelas dezenas de milhares de adeptos argentinos que invadiram o Rio.


quinta-feira, julho 10, 2014

Depois do Mineirazo

 

Depois do terramoto que ontem se abateu sobre o Brasil, em Belo Horizonte, ficaram as palavras de choque, terror, espanto e também admiração pela proeza da Mannschaft germânica. O risco de perder este segundo mundial caseiro era real, como em tempos cheguei a prever, e o fantasma de novo Maracanazo esteve presente. O que ninguém podia certamente adivinhar era uma derrota desta dimensão avassaladora, mostrando uma selecção totalmente desgarrada, com uma atitude mental na lama, desfazendo-se psicologicamente como um castelo de cartas. Scolari não perdeu nova final mas não chegou lá da forma mais escandalosa. Todo o futebol brasileiro sofreu uma humilhação inaudita, que o abalou de alto a baixo, e terá de largar muito lastro e mudar muito se não quiser empenhar o futuro. Afinal de contas, também o futebol alemão se renovou depois de uma pesada humilhação frente a Portugal, em 2000. Mas as consequências podem ser ainda piores, para além do fim da carreira de Scolari e dos dirigentes federativos brasileiros. Os arrastões e as cenas de violência verificadas após o jogo demonstram isso mesmo. O futebol é um dos traços mais vincados da sociedade brasileira, e a selecção um dos factores de união nacional. O desastre pode ter implicações mais sérias, sobretudo em ano de eleições. Ainda por cima, muitos consideram o Mineirazo de 2014 pior que o Maracanazo de 1950,  que era aliás tido como uma das maiores tragédias da história do Brasil. É impossível prever o futuro, mas a humilhação terá com certeza repercussões extra-futebol, a começar em todos os erros e gastos da organização da prova. Convém lembrar que daqui a dois anos haverá jogos olímpicos no Rio.
E para a coisa ser pior, um dia depois do Mineirazo, os brasileiros ainda viram a Argentina chegar à final do "seu" mundial. Talvez a morte, dois dias antes, do mítico Alfredo Di Stéfano os tenha inspirado (embora fosse mais ligado a Espanha do que à Argentina), ou as orações do Papa fossem mais fortes. Os vizinhos não deixarão por certo de aproveitar esta ocasião para troçar ainda mais do velho rival, invadindo o Rio de Janeiro, mesmo que corram a risco de serem igualmente trucidados pela Alemanha (com a qual repetirão uma final). que será pior para o Brasil, afinal? Perder no confronto do 3º e 4º lugar com a Argentina ou vê-lo chegar à final, com o risco (mínimo) de a ver campeão da Mundo em pleno Maracanã?


segunda-feira, julho 07, 2014

David Luiz, uma estrela total


Temos visto neste Mundial jogadas fabulosas, revelações surpreendentes e jogadores que ficam debaixo de olho. Mas há um que em definitivo, é incontornável: David Luiz. O "macarrão" (nome que lhe puseram por causa do distintivo cabelo) revelou-se na Luz, embora durante muito tempo estivesse desaproveitado como defesa esquerdo. Quando o colocaram a central mostrou ser um portento, mesmo com as suas características subidas no terreno, às vezes arriscadas. Pude vê-lo nalguns jogos determinantes, como nos 4-1 em Alvalade para a Taça da Liga, em que abriu o marcador. Depois mudou-se para Londres, à conta de uma maquia interessante e Matic, ganhou uma Liga dos Campeões, uma taça UEFA (à nossa custa), e transfere-se agora para o milionário PSG, estabelecendo um novo recorde como defesa mais caro. Entretanto, nunca esqueceu o Benfica, aparecendo até em vários jogos e lançando mensagens de apoio nas redes sociais. Agora, no Mundial do seu país, é uma das traves principais da selecção, e não só a defender: marcou o golo que permitiu ao Brasil sobreviver e ultrapassar o Chile, e contra a Colômbia enviou um autêntico míssil  que se transformou no segundo golo. Comemorou em apoteose com o público e os companheiros, deu graças aos céus pela dádiva, e no fim ainda se lembrou de consolar o desalentado James Rodriguez e de pedir ao público que aplaudisse o colombiano. Em suma: é impossível não gostar deste tipo.

sexta-feira, julho 04, 2014

Balanço intercalar do Mundial


Agora que estamos na fase a eliminar, entre os oitavos e quartos de final, impõe-se um balanço intercalar do Mundial brasileiro. De uma coisa podemos estar certos: a competitividade e qualidade dos jogos excedeu as expectativas. Não é fácil ver-se neste defensivo e comercial século XXI tamanha saraivada de golos. Se bem que aos jogos a eliminar a quantidade tenha diminuído, como de resto seria de esperar.


Portugal, claro, saiu sem honra nem glória, Salvou-se uma vitória e o golo da praxe em Mundiais de CR7, para conservar alguma dignidade. A forma física e o declínio de muitos jogadores revelaram um plantel nacional que deixou muito a desejar, e os próximos anos não prometem ser melhores, com uma míngua de jovens valores que ensombram o futuro. Para já, como promessas temos William de Carvalho e pouco mais. é claro que aparece sempre uma ou outra surpresa, mas não parece ser suficiente para assegurar uma sucessão digna. E quando olhamos para os jogadores do Euro-2004 é que verificamos quão limitada era esta equipa. E mais vale nem tentar comparar Ronaldo aos seus "rivais" do relvado, como Messi e Neymar, para evitar vergonhas. Ao menos em popularidade de estrela, qual Beatle da bola, ninguém o bate...


Mas houve equipas que muito me agradaram. O México, organizado, com bons executantes em todas as posições e um trinador que é mais espectacular no banco que muitos jogadores no relvado saiu prematuramente. Merecia ir aos quartos, ao pelo menos ir a prolongamento. Mas calhou-lhe uma exaltante Holanda, com um futebol vistoso e de ataque, quase "total", tentando recordar os anos setenta. Anda lá perto e merece discutir este Mundial. E Robben está com uma forma que nunca lhe vimos, mistura de gazela com um carro de combate.

Depois, claro, a Colômbia, uma equipa que dança a jogar (e não só nas comemorações dos golos), não se atemoriza perante ninguém e promete fazer a vida negra ao Brasil. Bem mais livre das ameaças dos cartéis da cocaína que quase destruíram o seu país, está finalmente a cumprir o sonho da magnífica selecção de 1994, de Asprilla, Rincón e Valderrama, que falhou rotundamente, sob o peso das ameaças que se concretizaram com o assassínio de Andrés Escobar. E ainda conseguiu bater um recorde, o do jogador mais velho de sempre a actuar num Mundial, o veterano guarda-redes Mondragon, de 43 anos, que fazia parte dessa equipa de 94. Uma passagem de testemunho? só tenho uma coisa a lamentar nesta prova dos cafeteros: é que pelo caminho tenha ficado o Uruguai, que era a minha equipa favorita depois da eliminação de Portugal. Ao contrário de há quatro anos, em que a Celeste puxou dos seus galões de equipa guerreira e ficou em quarto lugar, desta vez não resistiu ao café colombiano. No preciso estádio em que se sagrou campeão em 1950, deixando o Brasil em depressão. E assi, se exorciza um fantasma (o de 1950), quem sabe se para não surgir outro. É que o Brasil deixou muito a desejar frente ao Chile, e se não fosse Júlio César (a passagem pelo Toronto não lhe retirou qualidade) e os ferros da baliza, o país anfitrião estaria ainda em estado de choque. Contra a Colômbia, se a orquestra não estiver afinada, vai ser um caso sério.

Quanto aos outros jogos, entre a França e a Alemanha, que a muito custo ultrapassou uma surpreendente Argélia (comandada pelo academista e ex-benfiquista Halliche), impedindo por ora a desforra de 1982, allez les bleus. A Alemanha é aquela equipa que a par do Brasil nunca recolhe os meus votos. a França tem anos, mas parece que Deschamps conseguiu impor alguma ordem na balbúrdia que se verificava desde a saída de Zidane. A Argentina tem convencido pouco, mas os seus adeptos merecem toda a nossa consideração. Não é qualquer "torcida" que domina Copacabana. Talvez se vá safando com Messi, mas enquanto Enzo Pérez não jogar a titular vão continuar a não convencer. contra a excelente e promissora equipa belga, não sei não...só não enumero os nomes por além dos apelidos flamengos darem muito trabalho a escrever, os media têm-se encarregado de nos relembrar. Na Costa Rica-Holanda, aposto na laranja de mecânica afinada, mas que não ganhe por muitos, porque os costa-riquenhos merecem estar nesta eliminatória e têm sido uns bons intrusos.

Divirtam-se 

quinta-feira, julho 03, 2014

Sophia no panteão

 
Sophia de Mello Breyner Andresen repousa no Panteão, depois de uma das mais pacíficas e unânimes escolhas da transladação de um vulto nacional para Santa Engrácia - relembre-se as discussões a propósito de Aquilino, ou da possibilidade de Eusébio ir para lá. É mais que justo. A Poeta nascida no Porto, que passou a maior parte da vida na Graça, em Lisboa, e que se inspirava no mar e nas praia, como a Granja e a Meia-Praia, no Algarve castiço pré-massificação, no Egeu e a herança helénica deixou-nos um legado precioso e único em todo o século XX. A ela devo-lhe, mais do que qualquer outra coisa, a descoberta da leitura, nas primeiras letras, naquelas obras infantis mágicas, inspiradas nos locais que tão bem conheceu, como as praias supracitadas e a quinta Andresen, onde nasceu, e que por milagre ou simples bom senso pode ser vista por todos na sua actual missão de Jardim Botânico - ainda há lá algumas árvores de A Floresta, e o Rapaz de Bronze também lá se mantém.
 
E talvez tenha sido essa mescla de vários portugais que a tornaram a Poeta e a autora que era. E daí a justa transladação e a correspondente cerimónia, solene e digna.  Pena mesmo o discurso do Presidente, o único que não se dirigiu à família, provavelmente ainda a remoer questões com Miguel Sousa Tavares; e também que a tenham posto junto de Aquilino, que não era pessoa que Sophia apreciasse particularmente. Como sempre, a falta de grandeza e de sensatez continuam a ser características indeléveis da "nossa" república.

segunda-feira, junho 30, 2014

À memória de Franz Ferdinand e de Sofia de Hohenberg


Antes comemorar os centenários de uma língua do que de um assassinato, sobretudo quando este, além de inspirar o nome de estimável banda rock escocesa, levou à eclosão de uma guerra cruel, estúpida e que não mudou nada para melhor. A maior, até então. Até aparecer outra ainda maior.

O velho Hobsbawm tinha alguma razão quando dizia que o século XX tinha começado e acabado em Sarajevo. E para os alucinados que sempre sonharam em matar os membros da aristocracia, eis a prova de como isso tem funestos resultados.

 

sábado, junho 28, 2014

Oitocentos anos de uma língua (seja mito ou não)


Nunca me teria ocorrido comemorar o dia da Língua Portuguesa. E de facto, o pretexto parece ligeiramente forçado, ou no mínimo efabulado, similar às criações de todos os mitos. Mas antes um pretexto longínquo do que o esquecimento. E um texto do século XII, do reinado do rei que ficou conhecido como O Gordo, parece-me tão bom como outro qualquer. Se for importante para defender a língua portuguesa, a quinta mais falada no Mundo, e espalhar o seu ensino pelo globo, tanto melhor. O actual marasmo que se assiste nalgumas paragens, como a antiga Índia portuguesa, é que com certeza não ajuda nada.

segunda-feira, junho 23, 2014

Desconsolo e desperdício

 A quase eliminação de Portugal do Mundial não seria apenas uma desilusão: em termos de reconhecimento mundial seria uma tragédia. Digam o que disserem, Portugal quase só é conhecido no Mundo por causa do futebol. Não comparem o fado, as praias, o galo de Barcelos e o vinho com a popularidade de que goza Cristiano Ronaldo, como antes a tiveram Figo e Eusébio. Mas esta eliminação pré-anunciada é particularmente dolorosa por ser no Brasil (incrível como até aí os portugueses conseguem estar em minoria) e contra Alemanha e EUA. Contra este último, na única coisa em que poderíamos ser melhores do que eles, conseguimos até nisso ser suplantados. No caso da Alemanha, seria um tónico contra o país que efectivamente controla a UE, mas fomos completamente dominados pelos germânicos e motivo de gozo na imprensa brasileira. Em suma, desperdiçámos a única coisa em que somos efectivamente conhecidos contra países que não precisam do futebol para isso. Neste momento, infelizmente, Portugal é uma irrelevância em tudo.
 
Sempre temos o S. João, para aliviar mágoas.

sábado, junho 21, 2014

Sugestões



Se ninguém tiver grandes planos para este fim de sema a de início de Verão e estiver pelo Douro ou Trás-os-Montes, sempre pode dar um giro por Vila Real e reviver as míticas corridas que regressam por estes dias ao circuito da cidade (de que já falei, há anos) , agora infelizmente muito modificado. Mas conservam alguma emoção e nostalgia, e depois sempre se tem a vista do Palácio de Mateus e do Marão. Eu vou estar por lá, mas noutros eventos, tão ou mais importantes. Divirtam-se e bom fim de semana.

quinta-feira, junho 19, 2014

Felipe VI


Hoje virou-se uma página na história de Espanha, para além do fim da triunfal geração da selecção de futebol: Juan Carlos I, o monarca que devolveu a democracia ao país e que a aguentou nos momentos mais complicados, dando espaço aos restantes actores quando se impunha, sai de cena, com a missão cumprida, dando lugar ao seu filho, doravante o Rei Felipe VI. Íntegro, consciente do seu dever, preparado, conhecedor do seu país e dos problemas que o afectam, o novo Rei é o homem em quem quase todos depositam a confiança quando Espanha atravessa uma crise política, social, regional e económica numa tempestade quase perfeita para a qual se precisa de um leme firme. Metáforas marítimas à parte, a tarefa que aguarda Felipe VI é complicada, mas dificilmente haveria alguém melhor do que ele para a enfrentar.

Juan Carlos não abdicou em vão, embora a superficialidade dominante tenha escolhido questões secundárias (como a caça ao elefante e outros faits-divers) como motivo. No ano em que a questão do separatismo se coloca como nunca, com o anunciado referendo na Catalunha, e as instituições vêem a sua popularidade em clara baixa, quando o desemprego e todos os problemas económicos resultantes da dívida e do rebentamento da bolha imobiliária que antes tinha feito a riqueza aparente do país se fazem mostrar com grande intensidade (embora haja alguns indícios de esperança), um monarca com outra disponibilidade, até física, era essencial para assegurar a estabilidade e a união de Espanha, e a imagem de uma personalidade serena mas firme impunha-se. É curioso como a comunicação social, ao falar deste assunto, não cessa de referir que "a instituição monárquica atingiu o seu ponto mais baixo de popularidade". É que todas as instituições de Espanha atingiram pontos mínimos de confiança, o que diz bem da crise das referências e da autoridade no país, e acima da coroa, só as forças armadas conseguem maior aprovação. Se queriam culpar o trono pelas crise do país, erraram o alvo...

Outra questão que boa parte das nossas TVs e jornais levantou foi a da "vontade dos espanhóis em questionar o regime", ou mesmo que "o povo espanhol" se tinha manifestado nas ruas "por um referendo para decidir se queria monarquia ou república". Eis um bom exemplo de como a suposta informação pode ser perniciosa e grosseiramente parcial. Confundir a "rua" com a vontade da maioria de um povo é um erro antigo e constante, muito repetido nestas paragens. Se fosse assim, mais valia entregarmos o governo da nação a Arménio Carlos. O que se viu foram os habituais movimentos radicais - ou independentistas - numa jogada oportunista, pretendendo aproveitar a abdicação do Rei para impor a sua vontade (que estava bem à vista: queriam um referendo para implementar uma hipotética república, não para questionar o regime), em manifestações ruidosas, com a horrível bandeira da 2ª república de má memória, muitas vezes com cartazes ilustrativos de guilhotinas ou frases tão eloquentes como "los bourbones a los tiburones". São os descendentes dos republicanos dos anos trinta, os mesmos que deixaram o país num caos e que permitiram o caldo de raivas e dissensos que levou à tenebrosa guerra civil. À cabeça, o PCE, partido legalizado por vontade expressa do Rei e que mostra agora toda a sua ingratidão, o que aliás não admira, vinda de uma formação que não hesitou em liquidar quem lhe dava na bolchevista gana e que obedecia directamente a Estaline. Ao lado, os "Indignados", muitos deles com uma postura violenta e uma agenda política que desembocou no Podemos, a nova formação partidária de inspiração chavista, que teve uma rotunda votação nas últimas eleições europeias. Em todos coexiste, além da virulência verbal, a falta de memória e a simples falsificação grosseira da história: dizem e repetem que "a monarquia não tem legitimidade" porque se funda "na ditadura franquista. É verdade que Juan Carlos foi proclamado Rei logo após a morte do caudilho; mas que se se saiba, era essa a fonte de poder em Espanha, na altura. Ganhara a guerra a uma república desaparecida, e não havia qualquer outro poder mais ou menos legítimo. Depois, o próprio Rei nomeou um governo que se encarregou de escrever uma nova constituição e de a apresentar a referendo: quase 92% dos eleitores votou a seu favor. E as formações políticas que estiveram contra, com a exlusão extraordinária do PCE dos tempos de Santiago Carrillo, eram quase as mesmas, incluindo a extrema-direita. Cai assim por terra o argumento ignorante de que "a monarquia não tem legitimidade" e que "ninguém votou nela". Houve alguns milhares na rua a brandir a daltónica bandeira republicana? Também em 1977 os anarco-sindicalistas da CNT reuniram mais de cem mil apoiantes em Barcelona, e nem por isso tiveram grande relevância nas urnas. De qualquer modo, todas as sondagens a um eventual referendo ao regime actual dão clara preferência pela monarquia - a mais desfavorável dá-lhe 13% de avanço sobre um hipotética república. Mas nem é preciso. Basta recordar que em questões de legitimidade, a monarquia espanhola, que deu ao país alguns dos seus melhores anos, com democracia, liberdade e autonomias várias, é bem mais legítima do que a maior parte das repúblicas, a começar pela que vigora em Portugal.
Felipe VI teve um discurso prolongado mas em que tocou em todos os aspectos essenciais sobre o que deverá ser o seu reinado, sem esquecer o papel do seu pai e do seu avô. A cerimónia teve sobriedade mas também pompa e dignidade. O novo Rei mostrou-se ao povo de cabeça descoberta, num soberbo Rolls Royce descapotável já com história, e depois na varanda do Palácio Real, com a nova Rainha Letizia, as filhas, agora também na linha de sucessão, e por breves momentos, os seus pais, o casal que deixou de sero Real. Terá sempre o melhor dos conselheiros para o ajudar a reinar, e a alegria de ser Rei sem que seja por morte de seu pai. A propósito, Juan Carlos ainda não tem título definido. Terão pensado em dar-lhe o de Conde de Barcelona? Seria uma bela homenagem ao seu pai, o príncipe que não reinou, e quem sabe se a recuperação do título condal não cairia bem entre muitos catalães. É também com esses aspectos subtis que se mantém um país. Ninguém mais do que Felipe VI está preparado para o fazer.
 

segunda-feira, junho 16, 2014

Recado à equipa nacional

 

Cara Selecção, não te esqueças que não estás em território desconhecido: essa cidade onde mais logo vais jogar foi fundada e erguida por portugueses, bem como as suas centenas de igrejas e a sua cultura mestiça, e serviu como primeira capital do território brasileiro por ordem do seu primeiro governador-geral (e fundador) Tomé de Sousa, ainda antes do Rio. A arquitectura que vês no centro, as igrejas, o pelourinho, os palácios, são tudo obras de portugueses (o resto deixámos aos bahianos indígenas, embora tenhamos dado alguns empurrões, nem sempre muito exaltantes, como os escravos trazidos de África, antepassados dos muitos negros dessa cidade). Não te esqueças igualmente que a cruz de Cristo que figurava nas naus de Pedro Álvares Cabral é a mesma que trazes incrustada na tua camisola. Por isso, reflecte nisto antes de enfrentares uma mannschaft cujos adeptos têm mais a ver com as regiões lá de baixo, em Porto Alegre, e honra os teus símbolos e a tua memória em terras que os teus ajudaram a construir. Só te peço isso.


Adenda - das três, uma: ou não leram este recado, ou uma mãe-de-santo lançou um mau olhado (o que explica as lesões de Coentrão e Almeida, e outras coisas) ou a recuperação de Schumacker deu uma imparável energia aos teutões. é que ao fabuloso dia desportivo para os alemães corresponde uma desastre incrível para Portugal, que sofre a maior goleada de sempre em Mundiais, perde dois jogadores por lesão e outro por castigo, e fica dependente dos próximos resultados e até da combinação de jogos entre terceiros.




Impressões do Mundial do Brasil


Vamos então ao assunto do momento, o Mundial de futebol. Tentei escapar à revoada de notícias inúteis sobre as ninharias da Selecção, e a ementa da Selecção, e quem passa a roupa, o que fazem os jogadores nos tempos livres, etc, etc. E também não tenho paciência para os constantes anúncios televisivos. Mas agora que a competição começou, é impossível uma pessoa manter-se indiferente. Até porque o que interessa, os jogos, têm sido aliciantes.

Claro que não se pode deixar de parte toda a polémica e protestos que tem havido contra a competição. O Brasil na sua ascensão económica e como membro dos BRICs, tinha de organizar um grande evento mundial que é o que fazem as potências emergentes. Na sua gula de evidência, conseguiu a organização não de um, mas de dois eventos seguidos: o Mundial de futebol deste ano e os Jogos Olímpicos de 2016. Podia ser também uma óptima oportunidade de fazer importantes reformas urbanas e de transportes, mas não é o que acontece. O investimento tem ido quase todo para a construção de estádios, pagos em boa parte com dinheiros públicos, ao contrário do que era assegurado no início, com custos muito para além dos iniciais, e com atrasos inacreditáveis, com o recinto da estreia a levar os últimos retoques a horas do primeiro jogo (são coisas destas que levam às derrapagens orçamentais). Quando algum brasileiro vier, como agora parece ser moda, falar no seu crescimento económico e destratar Portugal como "a favela da Europa", por exemplo, entre outros remoques mais ou menos imbecis, atirem-lhe com os inauditas situações da sua vergonhosa organização e comparem com o que aconteceu no Euro-2004 - construímos estádios a mais e gastamos mais do que deveríamos, mas ao menos correu tudo na perfeição, com os equipamentos prontos a meses do torneio. Além de que há estádios que se tornarão complicadíssimos elefantes brancos. E, como se viu, todas as promessas de novas redes de transportes ficaram no papel, e pelo meio, ainda foram despejadas inúmeras pessoas das suas casas. O mínimo que se poderá dizer é que o Brasil está longe de poder organizar grandes eventos de forma satisfatória, sobretudo agora, em que o seu crescimento económico arrefeceu.

Ainda assim, é incompreensível que haja pessoas a protestar contra o campeonato já depois do seu começo, querendo que não se realize. Que fizessem isso no ano passado, percebe-se. Que aproveitem para relembrar promessas não cumpridas, é normalíssimo. Mas queiram perturbar o evento no seu decurso? Quereriam que o Brasil tivesse feito todo o investimento para nada? E como ficaria a credibilidade do país caso não houvesse mesmo prova? Ou são inconscientes ou traidores. Os adeptos do "quanto pior melhor" estão em toda a parte, ou não se distinguissem lá pelo meio algumas bandeiras anarcas.
Mas políticas e estádios a cheirar a tinta à parte, a verdade é que a competição em si tem valido a pena. É claro que a forma como o Brasil ganhou logo a abrir a uma valorosa Croácia sem Mandzukic levanta todas as desconfianças, mais a mais quando a FIFA está sob qualquer suspeita (a história da escolha do Qatar como sede do Mundial em 2022 aí está para o comprovar). Ainda assim, tenho as minhas dúvidas que mesmo com o factor casa e alguns empurrões amistosos, o Brasil ganhe o certame. Já teve equipas melhores, e que não ganharam (sim, estou a pensar em 1982), e falta-lhe uma dupla avançada como as dos anos noventa - Romário/Bebeto ou Ronaldo/Rivaldo. Neymar não tem maturidade nem carisma para ser a grande figura da equipa, Hulk nem sempre está para isso, Fred é bom mas não é fabuloso, o meio-campo não tem um patrão, um capitão à altura; a defesa, e a baliza, ao contrário do que é tradicional, é de alta qualidade, mas por vezes anula-se. E um Brasil mais sólido cá atrás do que na dianteira nunca conseguiu grandes proezas.

Depois, o já famoso Espanha-Holanda, que acabou com a demolição do tiki-taka pela laranja mecânica, às mãos de uns fabulosos Robben e Van Persie. Esta Holanda bipolar (tanto faz grandes proezas numa competição como cai com estrondo na seguinte) promete, à Espanha já prenunciam o fim de um ciclo, mas convém ir com calma: afinal de contas, os espanhóis já começaram a perder noutras provas que acabaram por ganhar. Se bem que levar cinco não seja assim muito habitual, e aí recordamo-nos que a França e a Itália foram corridas da fase de grupos no Mundial em que entravam como detentoras do título.

De resto, pude ver uma Itália competente e experiente, embora não deslumbrante, uma Inglaterra voluntariosa e honesta, mas ainda verde, um Uruguai aflitivamente apático e algo envelhecido (nem o fantasma de 1950, tão recordado, lhes serve de alguma coisa), uma Colômbia que promete cumprir o que ficou pelo caminho há vinte anos e mais um punhado de selecções que prometem. Há pouco acabou o Argentina-Bósnia, no magnífico cenário do Maracanã, ideal para uma equipa estreante como os balcânicos. Os albicelestes ganharam bem, Messi marcou um bom golo, mas não deslumbraram (pudera, Enzo Pérez não jogou) e não posso considera-los como candidatos à vitória na prova. Já os bósnios mostraram atrevimento e raça, próprios de um país recente, têm a obrigação de mostrar o que valem ao Mundo, a união fortalecida pela provação da guerra e contra Irão e Nigéria têm todas as possibilidades de passar.

Amanhã entra Portugal em cena, na sua antiga capital colonial de Salvador da Bahia, contra os alemães, mas disso prefiro falar depois.

Entretanto, o cenário mais bizarro da prova fica até ver entregue ao jogo entre a Itália e a Inglaterra: em Manaus, no coração da Amazónia, ouviu-se o God Save the Queen a poucos quilómetros de piranhas e caimões, e tipos vestidos com cotas de malha e a cruz de S. Jorge a tirar fotos com índias. Desta nem Fitzcarraldo não se lembrou.