quinta-feira, novembro 13, 2014

Requiem pelos telemóveis da Nokia


A notícia de que a Nokia vai deixar de fazer telemóveis deixou-me com uma imensa saudade do presente. É que os meus aparelhos sempre foram da marca finlandesa e sempre usei cada um por um longo tempo. Não percebo, francamente, qual a necessidade de se mudar de telemóvel todos os anos, mas deve ser por causa desta fantástica era hiper-consumista e efémera em que vivemos. Também nunca precisei de nenhum smartphone com não sei quantas aplicações, a maior parte totalmente inúteis, dentro das que têm a sua piada. Têm uma estética atraente, mas sinceramente, não vale o preço. Para mim, um telemóvel serve para falar, mandar mensagens e vá lá, ouvir música e eventualmente tirar fotografias, embora isso acabe por ser uma permanente violação da vida privada. E para essas funções, os telemóveis Nokia são perfeitos. Pequenos, funcionais, duradouros, por vezes com uma estética elegante, não era preciso mais nada. Mas a avalanche de i-phones, blackberrys, androids e tudo o mais levou a que esses telemóveis começassem a ser menos e menos vendidos, e a Nokia, a grande empresa finlandesa de comunicação, tendo apostado timidamente nesse mercado, acabou tomada, na prática, pelo Microsoft. Agora anunciam-nos que a parceria entre as duas empresas de comunicação vai fazer com que os telemóveis smart (Lumia, parece que se chamam assim) levem apenas a assinatura da Microsoft, o que significa que a Nokia vai deixar de produzir telemóveis em nome próprio. É o fim de uma era das comunicações, quase tão chocante como o caso da Kodak. Espero que não seja o fim dos telemóveis simples. Senão, e quando o meu Nokia actual chegar ao momento de inevitavelmente ir repousar, seremos todos obrigados a usar smartphones, caríssimos e carregadíssimos de inutilidades, ou ainda há escapatória?

segunda-feira, novembro 03, 2014

O regresso do big-bang político?



Vai por aí grande escândalo por causa das declarações do primeiro-ministro francês, Manuel Valls, sobre qual deveria ser o futuro d Partido Socialista francês. Valls apenas se militou a repetir-se a si mesmo coisas que já antes lhe tinham dado alcunhas como "socialista neoliberal". Agora, por dizer que "é preciso acabar com a esquerda antiquada" e que a sua esquerda é "pragmática, reformista e republicana", apanhou com fortes críticas dos sectores mais jacobinos e esquerdistas do partido, que embora no poder, anda pelas ruas da amargura em popularidade e apoio. Mas o que ele disse nem sequer é original nem mesmo recente. Já em 1993 Michel Rocard afirmava que o PSF era uma instituição a prazo e apelava para a formação de um novo movimento de centro esquerda, o célebre "Big-Bang da política francesa", juntando socialistas, ecologistas, defensores dos direitos humanos, centristas, etc. De certa maneira o que fariam mais tarde os italianos, com o Partido Democrático, ou a direita gaullista e liberal, com a UMP. Mas em França, com o regresso do PSF ao poder, fizeram ouvidos de mercador a Rocard e nunca mais se pensou no "big-bang". Agora, com a sangria de eleitores a rumar directamente para a Frente Nacional, continuam com bizantinismos ideológicos, mas cada vez mais exíguos. E no entanto, a vida partidária em França não é assim tão estática. O próprio PSF resultou de uma aglutinação promovida por François Mitterrand da velha SFIO com algumas formações menores de esquerda, nos anos setenta. Se Valls consegue retomar a ideia do "big-bang" e reformar o vetusto partido de Miterrand, Delors e Jospin (e assim travar um pouco a FN) antes que se torne uma formação menor será um dos desafios mais interessantes da vida política francesa, cuja vertente esquerda, que tal como o país, é pouco permeável a reformas.

sexta-feira, outubro 31, 2014

Eleições


Este ano está a ser frutífero em eleições. Curiosamente, não há legislativas em Portugal, Espanha, França, Reino Unido, Alemanha ou Estados Unidos. Mesmo assim, é das matérias de que mais se ouve falar em 2014. Só no Domingo houve quatro.

Da Tunísia sei apenas que os liberais seculares terão vencido os islamitas o confronto eleitoral local, o que confirma aquele pequeno país como um dos mais estáveis no Norte de África (ali mesmo ao lado, na Líbia, ninguém sabe quem manda onde). No Uruguai haverá uma segunda volta com o presidente de há uns anos atrás, Tabaré Vasquez, e o candidato do Partido Nacional, e pelos resultados e pela tendência dos últimos anos, o mais provável é o primeiro regressar ao seu antigo gabinete. Pela república oriental pouco mudará.

No Brasil ganhou Dilma, como temia (mas não espanta). Seria sempre difícil que os votos de Marina fossem em número suficiente para levar Aécio Neves ao Planalto. Previsivelmente, Dilma haveria de obter alguns, além das outras pequenas forças maioritariamente de esquerda que se apresentaram às presidenciais no primeiro turno. Mas ao contrário do que se veiculou, sobretudo na dura, e por vezes irracional ao histerismo, campanha eleitoral, não havia simplesmente um bloco de esquerda contra um de direita: ao lado do Partido dos Trabalhadores estava o PMDB, exemplo acabado do partido de centrão sem ideologia com o objectivo único de participar do poder, e o Partido Progressista, partido mais à direita, legatário da ARENA (o partido do poder durante a ditadura). Com o PSDB, acusado por vezes de ser "neoliberal", estavam o Democratas (esse sim, de direita liberal, aliás antigo Partido da Frente Liberal), e o Partido Trabalhista, herdeiro directo do de Getúlio Vargas e um dos "guardiões" do seu legado, e ainda o Partido Socialista, que apoiou Aécio na segunda volta depois de suportar Marina Silva e o malogrado Eduardo Campos.
Dilma terá pela frente uma economia a abrandar, protestos latentes da população, como se verificaram nos dois últimos anos (espera-se para ver o que vai suceder nos Jogos Olímpicos do Rio) e a sempiterna questão da corrupção, não menos importante do que as outras quando os eleitores se estão visivelmente menos tolerantes e que os dois grandes partidos que a apoiam, PT e PMDB, controlam o aparelho de estado. Quatro anos previsivelmente complicados (ou reformistas?), sendo que Dilma não se pode recandidatar. Conseguirá Aécio aproveitar o embalo destas eleições para se guindar à presidência em 2018, ocupando o lugar que o seu avô Tancredo não conseguiu, por morte antes da tomada de posse?


E por fim na Ucrânia, uma grande volta ao anterior cenário, como não podia deixar de ser, na sequência da revolta de Maidan, da anexação da Crimeia e do isolamento de Donetsk e Lugansk. O Partido das Regiões, formação russófona que estava no poder e em maioria no parlamento, nem se apresentou, e o bloco que o substituiu teve resultados modestos (nas zonas onde há mais russófonos teve melhores votações, como seria de esperar). O Partido comunista, visto como quinta coluna da Rússia, quase desapareceu e nem entrou no parlamento. A extrema-direita banderista, com influência sobretudo na rua, também não. E a outrora líder maternalista (antes de ser presa) da Ucrânia, Yulia Timoshenko, teve um resultado decepcionante, pouco mais de 5%, e por pouco também não entrava na Rada. As formações do presidente Poroshenko, do primeiro-ministro Yatseniuk e do presidente da câmara de Lviv, no extremo-ocidental do país, ficaram com a maior parte do bolo. A bússola política alterou-se drasticamente, para oeste. Embora rivais, os partidos vencedores têm sobretudo semelhanças. A Ucrânia voltou-se para a Europa, de costas para a Rússia, confirmando as tendências do último ano. Graças a isso, conseguiu já um acordo para o pagamento do gás natural ao vizinho gigante, mas as questões dos territórios perdidos ameaçam complicar-se. Pelo menos, a retórica de que em Kiev o governo é ilegítimo e que mandam "nazis" já se pode esbater, embora a propaganda pró-russa deva continuar a explorar esse filão por muito tempo.

sábado, outubro 25, 2014

A última réstia de dignidade dos que até na morte são abandonados


Entre a espuma das dias e a informação que se sucede, deve ter passado mais ou menos despercebida uma das mais tristes páginas que li nos últimos tempos. Segundo nos diz esta notícia do Público, a Irmandade da Misericórdia e de São Roque acompanhou o funeral de 86 pessoas, nos primeiros nove meses de 2014. Acompanhou-os porque ninguém mais quis saber deles, ninguém inquiriu sobre a morte dessas pessoas, ninguém reclamou o corpo. Seis delas eram crianças, abandonadas pelos pais ou encontradas já mortas. Quatro permaneceram com identidade desconhecida. As informações são do Instituto de Medicina Legal, que cede os corpos à Irmandade para que possam realizar um funeral condigno, a custas da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

A notícia entristece e espanta pelos números de abandono a que são votadas tantas pessoas. Seriam idosos sem família, ou a quem a família não ligava, pessoas doentes na mesma situação, alguns emigrantes ou refugiados, provavelmente, sem conhecimentos em Portugal. E crianças abandonadas ao nascer, ou doentes, cujos responsáveis preferiram abandonar. Em qualquer dos casos, uma enorme desumanidade, ou se preferirmos, uma ausência de humanidade que deixou aquelas pessoas morrer sozinhas, no quase completo abandono.

Buscar culpados no "sistema", no "regime", na "época em que vivemos" ou em qualquer outro contexto qual bode expiatório abstracto, pode ser a primeira reacção. Provavelmente é um pouco de tudo. O egoísmo vigente é enorme, mas pode-se dizer que antigamente era melhor? Talvez se olhássemos um pouco à volta, para casos muito próximos, até descobríssemos situações destas. Por vezes, dá-se mais atenção a um gato do que a uma pessoa. A pobreza material, a suburbanização, a diminuição das famílias com a queda da natalidade, tudo isso são razões plausíveis. Mas antes de mais os responsáveis são pessoas, que por acção ou omissão permitiram que dezenas de humanos tivessem um fim que mais ninguém testemunhou.


"Mais ninguém" não é bem assim. O único aspecto positivo da notícia é saber que há pessoas, as da dita Irmandade, que acompanham desconhecidos à sua última morada, dando-lhes assim uma identidade e uma dignidade que não tiveram quando morreram. Recuperam, nem que seja por breves horas, o estatuto de seres humanos e com personalidade jurídica que os seus corpos, teoricamente, já tiveram. Eis um acto verdadeiramente cristão: devolver na morte a dignidade áqueles que em vida foram negados por todos os outros, rezando pela sua salvação e dando-lhes uns momentos de atenção que outros não lhes deram quando mais precisavam. tentarei saber se no Porto a Santa Casa se presta a tão caridosa e louvável missão.

segunda-feira, outubro 20, 2014

Brincadeiras perigosas



Aquelas cenas patéticas do jogo Sérvia-Albânia em Belgrado representam bem mais do que mero holiganismo. Podem vir daí sanções da UEFA, perda de pontos (para Portugal, no mesmo grupo, até era bom), mas o mal maior será o acirrar ódios entre os dois povos. Não é por acaso que os adeptos albaneses foram impedidos de ir ao jogo, tal como já tinha acontecido com os croatas no ano passado.


As marcas da secessão do Kosovo estão bem frescas. A Sérvia não aceita nem aceitará, por muito difícil que seja, que aquele pedaço de terra faça parte da "Grande Albânia". Que era exactamente o que estava no cartaz transportado por um drone sobre o recinto onde se disputava o jogo, enquadrado pela bandeira albanesa. A "Grande Albânia" comporta o território albanês propriamente dito, o Kosovo, e outras partes da Sérvia, da Macedónia e do Montenegro. Até agora é o único caso de irredentismo europeu do Século XXI que tem tido sucesso.


Claro que os sérvios nunca poderiam aceitar a afronta de ânimo leve. Por isso mesmo o ex-benfiquista Mitrovic tentou arrancar a tarja ao aparelho voador, para fúria dos adeptos albaneses, que por sua vez só aumentaram a ira de todos quanto estavam no estádio, polícia incluída, obrigando-os a correr para os balneários. Mas conseguiram escapar inteiros para serem recebidos em Tirana como heróis, de forma apoteótica.

O problema do Kosovo não terá desenvolvimentos durante pelo menos uma geração. Os autores da piada só ajudaram a piorá-lo. E a suspeita de que poderá ter sido o irmão do primeiro-ministro albanês é outra acha para a fogueira balcânica, que andou sempre bem acesa pela História fora. E quando a Sérvia fora jogar a Tirana? Quem pode prever a reacção dos albaneses ou as retaliações dos sérvios?




sexta-feira, outubro 10, 2014

Um prémio inteiramente merecido




Na sua maioria, os prémios Nobel da Paz são controversos, irrelevantes, politicamente tendenciosos (ou politicamente correctos). Mas o que se atribuiu hoje a Malala, ex-aequo com o indiano Kailash Satyarthi, responsável pelo combate à escravatura infantil na Índia, é inteiramente merecido. Malala Yousufzai, a miúda paquistanesa que ia morrendo às balas dos taliban por resistiu às interdições de ir à escola tornou-se um exemplo contra a absoluta barbárie dos que nem contra as crianças hesitam em disparar, um exemplo qu está a ser seguido naquele desgraçado país. Kailash não o conhecia, mas a sua causa é em tudo semelhante à de Malala. No fundo, dois lutadores pelos direitos das crianças no difícil sub-continente indiano. Os mesmos problemas no mesmo espaço geográfico.

Também o Papa e Edward Snowden eram dados como candidatos ao galardão. O meu voto não iria para nenhum dos dois. O Papa porque não é um mero activista nem a Igreja uma simples ONG, e a busca pela paz entre os homens é inerente à sua Missão. Snowden também não porque embora as suas atenções fosse certamente honestas, colocou os sistemas de segurança dos EUA em risco e a o prémio serviria às mil maravilhas a propaganda russa (recorde-se que Snowden reside em Moscovo) nestes tempos de uma nova guerra fria. 

Por isso é de saudar os membros comité do Nobel: hoje não se enganaram nem premiaram escolhas manhosas. Antes resolveram recompensar quem luta por uma das causas mais nobres.


quinta-feira, outubro 09, 2014

Embate marcado para uma segunda volta






Afinal de contas, nem Dilma Roussef está assim tão segura da reeleição nem Marina Silva chegou a ser o fenómeno que muitos previam. O furacão acabou por se revelar uma brisa nas urnas, pouco acima do que as sondagens atribuíam ao candidato Eduardo Campos antes do trágico acidente que o vitimou, em Agosto, de que a comoção que se seguiu levou Marina a trepar nos números. Só que as sondagens falharam rotundamente: Dilma ganha sem estrondo, Marina é afastada por muito e Aécio Neves fica em segundo, muito mais próximo da "presidenta" do que da evangélica ecologista. O ex-governador de Minas Gerais, neto de Tancredo, há muito o candidato dilecto do PSDB para voltar ao poder que perdeu depois de Fernando Henrique Cardoso, volta a ser o adversário directo de Dilma e do PT. Apesar da popularidade junto de largas camadas da população, do apoio de Lula, da imagem presidencial que Dilma granjeou e de ter afastado nomes ligados a casos de corrupção, a frente anti-petista parece ganhar força. O PS que apoiava Marina já deu o apoio formal a Aécio, restando saber se a própria Marina o fará expressamente.


Mas ninguém duvida que a segunda volta será contada até ao último voto. Poderá o PT, apoiado pelo mastodonte do "centrão" PMDB, ser apeado? A possibilidade não é nada remota. Mas ainda assim, mesmo apoiada por nomes que já deviam fazer parte dos caixotes de lixo da política, como Sarney, Collor ou Maluf, a máquina partidária do PT e PMDB, o domínio dos media e a popularidade que ainda têm em largas camadas da população fazem com que apesar de tudo, Dilma seja ligeiramente favorita, sem quaisquer certezas. Dificilmente os votos que Marina recolheu irão todos para Aécio. Mas, ao contrário do que dizia Rui Tavares por estes dias no Público, não estou tão convencido que o candidato dos "tucanos" tenha perdido a vez: mesmo que não ganhe, se perder por muito pouco, será o favorito para daqui a cinco anos. Dilma já não se poderá candidatar, Lula não o fará certamente, por razões de saúde, e Aécio terá, se tudo correr normalmente, o caminho aberto, até porque o desgaste da governação PT jogará a seu favor. Nada de novo: o próprio Lula perdeu três eleições até chegar à presidência. Mas até pode nem precisar de esperar mais quatro anos.

sábado, outubro 04, 2014

Bustos


Esta questão patética dos bustos dos presidentes na A.R. é em tudo semelhante áquela recente dos buxos, na sua (ir)relevância, na temática ("o branqueamento do fascismo") e até nos nomes e na fonética. Os seus autores tinham de ser os srs. deputados do PCP e do Bloco, acompanhados por alguns do PS, como o triste Lacão e a alucinada Isabel Moreira. Registe-se o comentário do bloquista Pedro Filipe Soares, que mostrou repúdio pelos bustos de Carmona, Craveiro e Tomaz por serem de " presidentes que não foram eleitos". Caso o pobre líder parlamentar do BE tivesse mais alguns conhecimentos avulsos saberia que quase nenhum dos PRs, tirando Eanes, Soares, Sampaio, Cavaco, e, no limite, Sidónio, se viu a ser eleito por sufrágio universal. E é esta amostra que quer ser "coordenador" do Bloco, que já de si estava em mau estado. Se querem ver como é que um partido se suicida, olhem bem para os últimos tempos do BE.

Sobre bustos seria melhor perguntar a opinião aos verdadeiros ao invés de se guiarem pelo histerismo de deputados que não estavam minimamente atentos (ou resolveram faltar) na comissão parlamentar em que se decidiu esta exposição.

quarta-feira, outubro 01, 2014

O sucessor favorito

 
A escolha de Fernando Santos não espantou absolutamente nada nem ninguém. Era o preferido de todos, o nome dele já circulava em toda a parte como sendo o favorito à sucessão de Paulo Bento, é experiente e está sem clube. O único entrave são os oito jogos de suspensão, mas aparentemente há ainda hipóteses de reduzir o castigo nas instâncias desportivas competentes.
 
Mas é possível que se fosse há quatro ou cinco anos esta escolha causasse surpresa. Na altura, Santos tinha tido uma passagem pelo Porto, em que depois de se sagrar "engenheiro do penta" conseguiu perder um campeonato para o Sporting com Jardel no plantel; passou depois pelo mesmo Sporting numa época para esquecer, caindo para terceiro lugar mesmo no fim, e mais tarde treinou o Benfica sem resultados visíveis, ficando a escassos dois pontos do 1º lugar mas sem entusiasmar, acabando despedido (provavelmente cedo demais) no início da época seguinte.
 
 O que provavelmente alterou a imagem deste treinador competente mas sem grande chama foi a carreira à frente da selecção grega. Fernando Santos conseguiu levar uma equipa envelhecida e sem grandes jogadores a um Europeu e um Mundial, e mais ainda, a ultrapassar as fases de grupos contra adversários mais cotados e com imensas adversidades (no Europeu de 2012 começou perdendo 4-1 com a Rússia). Mostrou que é treinador para uma selecção, talvez mais até do que de clube. E a imagem cinzenta a que normalmente o associavam desapareceu, tornando-o favorito nesta sucessão com desfecho previsível. Santos tem agora a missão de fazer o mesmo com a Grécia: colar os cacos da derrota com a Albânia, aproveitar ao máximo uma selecção envelhecida e tentar descortinar novos valores (tarefa para o seu adjunto Ilídio Vale). É difícil, mas é homem para isso. E é sempre bom ver alguém afirmar que tem orgulho em servir o seu país sem que soe a falso nem a estratégia para obter votos.

terça-feira, setembro 30, 2014

O futuro novo primeiro-ministro


O resultado das primárias do PS impressionou pela mobilização e pela robustíssima vitória de António Costa. Negá-las é desviar a realidade dos olhos ou inventar desculpas de mau pagador. Pode-se achar que o PS se dividiu, que se lavou a roupa suja em público, que tem de conquistar o país, etc, mas é inegável que com as primárias (e todos os seus passos em falso) o partido marcou pontos e que António Costa tem uma posição extremamente sólida. Depois de ser deputado, eurodeputado, ministro (três vezes) e presidente da câmara de Lisboa (até quando?), Costa consegue chegar ao topo do partido, com amplas hipóteses de no futuro próximo levar o PS de novo para o governo. Tem, é claro, os seus anticorpos, a imagem à frente da capital não é tão positiva como isso e terá de gerir muito bem as divisões partidárias, em especial a herança socratista, e dar credibilidade ao PS, que bem precisa dela. Mas não se duvide: com este resultado esmagador, ainda mais legitimado com os votos dos simpatizantes, só muito dificilmente é que António Costa não será o próximo Primeiro-Ministro de Portugal.
 
 
Já agora, uma das frases da noite, em que pouca gente reparou, devia ser a declaração de Jerónimo de Sousa: o secretário-geral do PCP acha que "estas primárias foram uma farsa". Ouvir o líder do partido mais fechado de todos, onde o debate é nulo e os dirigentes escolhidos antes de serem eleitos (por unanimidade) criticar umas eleições, que, com todos os seus defeitos se tentou abrir à sociedade portuguesa, é de rir à gargalhada e de perguntar a Jerónimo se acha que tirando o militantes do PC, alguém acredita naquilo. Éo mesmo que comparar o "referendo" na Crimeia com o da Escócia. Jerónimo provavelmente acha que este último também é "uma farsa". E ainda há quem sonhe com a "união das esquerdas". 

domingo, setembro 28, 2014

Antes das primárias


Antes de se saberem os resultados das primárias do PS, há que enaltecer um tal processo, inédito na vida partidária portuguesa. É certo que a "fronda" de António Costa é oportunista (ficou claramente à espera do resultado das europeias) e lembra aquilo que já aconteceu antes no CDS, quando Portas apeou ribeiro e Castro (com resultados visíveis) ou no PSD, quando Menezes substituiu Marques Mendes (com consequências patéticas). Mas teve pelo menos a virtude de levar o seu partido a umas eleições primárias, bem mais abertas do que as "directas" que até agora observávamos nos partidos, e que era um solução pior do que as votações em congressos. Além de esvaziarem boa parte da utilidade (e porque não dizê-lo, da emoção) das "reuniões magnas", continham o velho truque de arrebanhar novos militantes para se conseguir determinado resultado político. Estas primárias poderão não ser uma solução milagrosa e tem alguns riscos e contradições (a possibilidade de simpatizantes políticoa adversários tentarem por esta via um resultado nocivo para o partido em questão), mas sempre permitem que a sociedade para lá da estrita militância aparelhista se possa pronunciar.

Quanto à campanha, admira-me que pouco se tenha distinguido de outro qualquer acto pré-eleitoral, além do dinheiro gasto na coisa. António José Seguro bem pode fazer-se de desgraçadinho, mas a verdade é que a postura calimérica, cinzenta e pouco mobilizadora não ajudou, e muito menos aquele patético filme de campanha envolvendo cravos e cortes. Além de que a sua sofreguidão pelo lugar vago logo na noite de 2011, em que o PS de Sócrates perdeu, também não ajuda. E a proposta de dmiminuir o número de deputados é das mais populistas e feitas em cima do joelho de que há memória.

De resto, é inegável que António Costa é dez vezes melhor que Seguro, tem menos cara de pau e é muito mais convincente. E tem a enorme vantagem mediática de sr simpático e não perder a compostura (comparando com Sócrates, então...)Mas devia tomar cuidado com o que propõe nos debates: neste último, ouvi bem ou ele falou mesmo em diminuir o desemprego com base (entre outras coisas), na reabilitação urbana? Não seria melhor olhar primeiro para o município a que preside? É que se a reabilitação urbana for para a frente como tem sido no centro de Lisboa não é de prever grande descida da taxa de desemprego, por essa via.

sexta-feira, setembro 26, 2014

Os andores da Senhora da Pena


Falando de novo em romarias e festividades religiosas em Portugal, sublinhe-se outra, em Trás-os-Montes: a da Senhora da Pena, no santuário com o mesmo nome, perto de Mouçós, Vila Real. Todos os anos, em Setembro, as várias aldeias da freguesia (são muitas, como no-lo recorda a sempre prestável Wikipedia) organizam a festa e a romaria. Assim, na envolvente do santuário de Nossa Senhora da Pena, podemos encontrar a habitual parafernália destas festividades populares: restaurantes móveis, barracas de comes e bebes, o palco para as bandas de "música popular" disponíveis, sorteios de prémios, etc. O que carateriza e diferencia esta festividade são os seus andores, que vão desde um metro e meio até aos vinte e tal metros. Umas construções móveis enormes e imponentes, só rivalizados pelos da Senhora da Aparecida. Num lento cortejo, entre fileiras de mirones, os andores avançam devagar, até ao último, o maior de todos, com cerca de cem homens a suportá-lo, e mais uns quantos a equilibrá-lo. O equilíbrio é fundamental, não vá o andor cair em cima de centenas de pessoas. No meio, quase insignificante, a figura da Senhora da Pena.






Os andores dão a volta ao recinto, seguidos de bandas a tocar e de clérigos que, debaixo de um pálio, aspergem de água benta o caminho e as pessoas. Ao chegarem à capela da Senhora da Pena, a última prova de esforço: os carregadores desatam a saltar com o andor em cima, provando que a fé move mesmo montanhas. Enfim, as estruturas são encostadas ao santuário, para serem devidamente admiradas antes de as desmontarem, e a festa prossegue em todo o seu formato profano.

A festa é de tal forma conhecida que até António Costa, em campanha partidária pelo distrito de Vila Real, reservou uma hora para lá ir. Todavia, ao contrário do que alguns poderiam imaginar, não o levaram em nenhum andor.


domingo, setembro 21, 2014

We´ll always keep Union Jack


Bem sei que o referendo era "lá com eles", mas sinto um certo alívio pela maioria dos escoceses - ou quem viva na Escócia há mais de um ano - ter votado não à independência. Não que o sim tivesse qualquer ilegitimidade e muito menos de ilegalidade - muito pelo contrário - nem que daí adviesse um grande mal, a fome dos escoceses ou uma tirania do Right Honourable Mr Alex Salmond (embora pudesse criar algum mal-estar entre a grande falange dos que não queriam a independência pura e simples). Mas permitiu que não se criasse um perigoso precedente para outras pulsões independentistas bem mais preocupantes, como a Catalunha, a Flandres, e, pior que tudo, a "Nova Rússia" em plena Ucrânia, sustentada pelas forças russas. não por acaso os separatistas da bacia do Don apoiavam avidamente o "sim" no referendo escocês. Os catalães também, pelo que levaram um balde de água fria. Por aí, talvez esta moda de nacionalismos emergentes tenha arrefecido um pouco (ainda que não tenha, nem pouco mais ou menos, acabado).

Depois, convém lembrar que, a despeito da imagem popular que se criou da Escócia - Wisky, gaitas de foles, kilts e monstros lacustres - a sua união com a Inglaterra para formar o Reino Unido, em 1707, resultou de uma decisão voluntária, apesar da oposição dos jacobitas, também por razões dinásticas e religiosas, e que a partir daí é que o poder britânico se ergueu, com a sua poderosa marinha, a revolução industrial e a expansão do império. A união dos reinos da Escócia e da Inglaterra mudou provavelmente o mundo, a geografia e a civilização. Os escoceses deram grande contributo, com os seus pensadores e inventores, as suas fábricas, os seus soldados. A Escócia é um dos berços do caminho de ferro e da indústria pesada, do pensamento iluminista e económico moderno. Ou seja, dos factores em que assentaram as bases do Império Britânico. Com o resultado do referendo, quaisquer que sejam as reivindicações concedidas apressadamente pelo governo de David Cameron, o Reino Unido manter-se-à uma potência com influência internacional, mesmo sem o império de outrora.

Mas o referendo permitiu redemonstrar que no Reino Unido, a democracia e a livre opinião mantêm-se sólidas. A forma como tudo se desenrolou, a campanha, os argumentos, a inteira liberdade com que cada parte procurou convencer os eleitores, mostrou mais uma vez que aquele velho conjunto de nações é a democracia mais antiga, e provavelmente a mais sólida, do Mundo. Compara-se com os patéticos "referendos" realizados na Crimeia e no leste da Ucrânia para se ver o que é um país livre e outro de cunho autoritário. Mesmo que nas redes sociais tenham aparecido alguns lunáticos a espalhar a ideia de que na Crimeia é que as coisas tinham funcionado e que no caso da Escócia tinha imperado "o medo e a chantagem". Provavelmente far-lhes-ia confusão a liberdade que se goza no Reino Unido, que lhes permitira tecer publicamente tais opiniões. Mas as credenciais britânicas nem precisavam de tanto. Quod erat demonstrandum. O exemplo das ilhas revelou que alguns bons velhos hábitos se mantiveram. Mas é bom saber que a Commonwealth não terá de se alargar para Norte. Antes assim. Até porque a Union Jack, talvez a mais conhecida das bandeiras do globo, e uma das mais bem concebidas, pode continuar a drapejar com a cruz de Santo André no fundo. Só isso seria motivo para votar não no referendo.

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quarta-feira, setembro 17, 2014

São João d´Arga








Já ouvia falar há muito tempo, tinham-me dito que era das mais genuínas e tradicionais festividades do Minho, sabia de  documentários feitos de propósito e só não consegui ir antes por manifesta impossibilidade.


No meio da serra e das aldeias que lhe dão o nome (e no entanto tão perto do mar), encravado lá em baixo entre os montes, num ermo, fica o Mosteiro de São João de Arga. Todos os anos, a 28 e 29 de Agosto, vindos de inúmeros pontos da região, afluem lá milhares de pessoas numa romaria concorridíssima, a pé, de mota ou de automóvel (que por causa da estreiteza das estradas podem ficar encravados em plena via). Os estradões que descem para o mosteiro, desertos durante o resto do ano, transformam-se numa feira, onde se vende desde roupas até as habituais farturas, cachorros, bifanas, etc. E na noite de 28 para 29, o recinto do mosteiro enche-se de bandas de música, desgarradas, rusgas, tocadores de concertinas e castanholas e rodas de danças minhotas.



Os "quartéis" laterais à capela, que em tempos acolheram peregrinos e permitiram acções tendentes à "fertilidade", transformam-se em tascas onde se vendem, além da inevitável cerveja, especialidades da região, em especial o hidromel, aquela mesma bebida alcoólica tão popular nas terras nórdicas durante a Idade Média. Acompanha com porco no espeto e o afamado cabrito à Serra d ´Arga, que se assam fora do recinto, além dos mais corriqueiros cachorros e bifanas. E lá dentro, as concertinas, as danças e as voltas à capela, para cumprir promessas, o que implica uma esmola ao santo e outra ao diabo. O sagrado mistura-se com o profano, mas só aí até às 4 da manhã, altura em que se deixam os peregrinos descansar - já não nos quarteis, mas em tendas - e se prepara tudo para a procissão do dia seguinte. E às nove da manhã lá parte o cortejo, em que os participantes desfilam com trajes da região. A festa profana prossegue de tarde, com menos animação, já a caminhar para o fim. Antes que acabe tudo e o mosteiro de S. João de Arga volte à habitual tranquilidade, que salvo grupos de excursionistas, só voltará a ser quebrada no próximo ano, nas mesmas datas. 

terça-feira, setembro 16, 2014

À segunda só cai quem quer


Já se sabia que Marinho Pinto era um populista, um demagogo, um justicialista, ocasionalmente oportunista, embora não fosse um radical, e talvez por isso mesmo muitos tenham votado nele nas europeias. O que não se imaginava era que fosse tão descaradamente troca-tintas e que o seu oportunismo - misturado com algum deslumbramento pacóvio - atingisse os píncaros desta forma. Mal chegou ao Parlamento Europeu declarou que se iria candidatar às legislativas no ano seguinte,mostrando a enorme consideração (e conhecimento) pelo cargo para o qual tinha sido eleito. Depois, mostrou-se revoltado com o vencimento do mesmo, sem no entanto renunciar a uma parte que fosse ou propor a sua redução, com o extraordinário argumento de que tinha uma filha a estudar e que "um comunista não divide o seu salário pelos proletários" (os deputados do PCP, honra lhes seja feita, renunciam a parte do que ganham). Um perfeito exemplo de desprendimento e de justiça distributiva, em que não faltou a habitual zanga com o jornalista que o interrogava, tentando inverter as culpas. Agora abandonou o Partido da Terra, reafirmando que era meramente uma "barriga de aluguer", dois dias depois de uma reunião com os órgãos partidários em que tinham afinado estratégias e nunca tinha transparecido a sua decisão em deixar alegremente a formação que lhe permitiu a eleição para o PE. Podia ser apenas a denúncia dos seus dirigentes, mas o próprio ex-bastonário confirmou-o, com a maior calma deste Mundo, faltando mesmo à cerimónia de integração no grupo dos liberais europeus (grupo que o tinha acolhido depois de não ter sido aceite pelos Verdes). Depois destas brincadeiras todas, de contradições, hipocrisias e desculpas esfarrapadas, sempre com aquele ar de moralista coimbrão contra os vícios da capital, resta saber quem se deixará enganar por Marinho Pinto. Lembra o caso de José Manuel Coelho, mas pelo menos transitou para um partido mais próximo da sua ideologia, e tanto quanto me lembre, não deixou o anterior de um dia para o outro. Razão tinha quando acusou o ex-bastonário de ser um "falso profeta". Desde já, perco o meu respeito por quem votar no demagogo-mor de Portugal. À primeira todos caem, à segunda só cai quem quem quer.

sábado, setembro 06, 2014

Uma igreja de ovelhas tresmalhadas


O Padre Gonçalo Portocarrero de Almada tem-se distinguido nos últimos anos nas tribunas dos jornais com a sua pena irónica  inteligente, nem sempre caridosa, algumas vezes injusta, outras mais certeira. Como a que escreveu esta semana. Recomendada aos virtuosos, puros e demais neo-fariseus.

quarta-feira, setembro 03, 2014

Que 1939 não se repita em 2014


Aquelas imagens dos soldados ucranianos prisioneiros em Donetsk, seguindo numa parada organizada propositadamente para respnder às comemorações da independência da Ucrânia e para os humilhar, sob uma escolta de milicianos de baionetas em punho enquanto a populaça os insultava ou fotografava com os telemóveis, é bem demonstrativa dos valores dos separatistas e dos russos que os apoiam. Além de pouco consentâneas com as leis dos prisioneiros de guerra, evocam as paradas que Estaline realizou com prisioneiros alemães, com o expressivo acto de porem um camião a lavar as ruas atrás das suas pegadas, como se fossem sub-humanos. É uma boa expressão da cultura semi-bárbara da Rússia, cuja natureza continua igual ao que era há séculos. Não esquecer igualmente que têm o apoio de brigadas de sérvios e caucasianos, autores de crimes de guerra, e que o seu "ministro da defesa", Strelkov, é ele próprio um russo acusado de actos pouco limpos nesses cenários de guerra.




Em tempos de evocação de guerras, convém também lembrar que não só passaram cem anos do início da 1ª Guerra Mundial, mas também 75 da invasão da Polónia pela Alemanha. Depois do Anchluss da Áustria e da anexação da Checoslováquia com o pretexto dos povos dos Sudentenland estarem em perigo, uma falsa provocação deu o pretexto para que os panzer entrassem pela Polónia dentro. Isto sempre sob a premissa de que ou era por vontade dos povos germânicos anexados, ou que estes estavam ameaçados pelos seus vizinhos. Em 2014 verificámos, no seguimento da mudança do poder em Kiev, a anexação da Crimeia por parte da Rússia com um referendo muito pouco transparente (tal qual como na Áustria em 1938), a tomada de boa parte dos territórios das regiões da bacia do Don por separatistas pró-russos, auxiliados por mercenários estrangeiros e por tropas russas mal disfarçadas, e a ameaça da Rússia de intervir caso os "seus" fiquem em perigo ou as suas fronteiras sejam ameaçadas. Não por acaso a URSS assinou o pacto Molotov-Ribentropp com a Alemanha, permitindo que esta entrasse na Polónia, enquanto os soviéticos faziam o mesmo do outro lado e ainda atacavam a Finlândia. Claro que a Rússia de hoje não tem os níveis de fanatismo e demência do 3º Reich de 1939, nem procura criar um Super-Homem (a não ser que esse seja Putin). Mas prossegue na senda do seu sonho eurasiático, que inclui a "nova Rússia", no Sul, e por isso estende uma teia em que oficialmente não intervém no conflito da bacia do Don, mas de facto propaga-o e manobra os cordelinhos de uma parte. E trazendo, como se viu na estranha parada de Donetsk, recordações margs de tempos idos.

domingo, agosto 31, 2014

Benfica 2014-2015


À 3ª jornada já dá para fazer uma análise assim-assim do Benfica desta época. O "defeso" revelou-se atribulado, com as saídsa de boa parte dos titulares, algumas previsíveis ou conhecidas (Rodrigo, André Gomes, Garay, Siqueira), outras mais repentinas ou traumáticas (Oblak, Markovic), maus negócios no aspecto financeiro (Garay) ou desportivo (de novo Oblak e Markovic), e alguns bons negócios pelo montante envolvido (Oblak, Rodrigo).
Apesar disso, e dos maus resultados na pré-época, culminando com uma goleada em casa do Arsenal (o que não admirou, já que o centro da defesa estava a cargo de Sidnei e do jovenzinho César), a equipa mostrou que não tinha desaprendido de jogar futebol nos jogos oficiais que teve até agora. O problema é a dificuldade em marcar golos, mas sem um artilheiro de raiz não se pode esperar muito mais. No jogo da supertaça, por exemplo, contra um bom Rio Ave, deu para ver isso mesmo. Um bom jogo que podia não ter servido para nada pela míngua de golos, e que só se salvou nos penaltys.
Das contratações, Talisca tem mostrado qualidade, mas precisa ainda de experiência e músculo. Derley pode ser útil, Bébé é um risco calculado (talento não lhe falta, e o grande salto na carreira deu quando se mudou para Manchester, pelo que a adaptação a grandes palcos não será complicada), Eliseu não faz esquecer Siqueira, mas cumpre e tem um remate precioso. Ainda não deu para avaliar Benito, não conheço Samaris, apesar dos elogios e do preço,e quanto a Lisandro Lopez e Pizzi, tenho algumas expectativas, pelo que mostraram quando estiveram emprestados, mas a verdade é que ainda não mostraram o que valiam no Benfica.

Jesus disse que precisava de um guarda-redes e de um avançado. Guarda-redes já temos, e nesta altura e com os meios disponíveis dificilmente encontraríamos melhor que Júlio César, ex-guardião das redes do Brasil, do Inter milanês e do Flamengo, de qualidade, experientíssimo, e sobretudo de grande força psicológica, pelo que a derrocada do Brasil no mundial não o deverá afectar. Os brilharetes de Artur a defender penaltys mantiveram-no no posto, mas depois de mais um par de disparates que custaram dois pontos contra o Sporting (Chutar a bola na direcção em que Carrillo vinha? Quase apetece perguntar se era de propósito), já não há condições e Júlio César pode então ocupar o seu novo lugar de trabalho, para que afinal de contas o contrataram. Quanto à necessidade de um avançado, ficou cabalmente provada esta tarde: não sei quantas oportunidades construídas por Gaitan e Salvio desperdiçadas pela ausência de um homem golo. Enquanto não chega um, e esperemos que esteja para breve, resta-nos amaldiçoar a suposta birra de Jesus para com Nelson Oliveira, que podia ajudar. Entretanto, se Enzo sair, ficamos com mais problemas. As lesões prolongadas de amorim e Fejsa fragilizam o meio-campos, e os que estão são poucos. Por isso, comprar um artilheiro, manter Enzo (a não ser que paguem a cláusula de rescisão, até porque o dinheiro é bem necessário) e apostar em jogadores como Lisandro e Oliveira é imperioso. Ainda assim, adivinha-se um ano complicado. E o sorteio da Liga dos Campeões não ajudou...

quinta-feira, agosto 28, 2014

Há setenta anos, um grande acontecimento pouco recordado


Pouco se falou disso, mas na última segunda-feira, dia 25, passaram setenta anos da libertação de Paris, com a entrada das força Aliadas na capital francesa e a rendição das tropas alemãs comandadas por von Choltitz. Houve comemorações na cidade, claro, sob o patrocínio de François Hollande, decerto mais preocupado com a crise governamental do executivo Valls, mas por cá pouco se noticiou a efeméride. A verdade é que durante a ocupação alemã, não poucos franceses colaboraram ou toleraram os ocupantes, a par dos que resistiram e a sofreram na pele, enquanto a maioria procurava fazer a vida de todos os dias como podia. Mas é bom não esquecer que para além do simbolismo da libertação de uma cidade como Paris, depois de aos de domínio pelas tropas de um estado totalitário (coisa inédita desde os hunos e vergonha imensa para o orgulho francês), evitou-se a destruição à bomba e pelas consequentes inundações de uma das cidades mais magnificentes do globo. As ordens de Berlim eram claras: Paris só cairia nas mãos das tropas anglo-britânicas em ruínas, depois de se rebentar com a quase totalidade da cidade, a começar pelos edifícios e monumentos mais importantes. Ou seja, só por cima do seu cadáver de escombros fumegantes. Von Choltitz esteve à beira da tentação de cumprir as ordens de um acossado e enfurecido Hitler, com ameaças pendentes sobre a própria família, mas acabou por resistir e ordenar a rendição sem levar avante o terrível plano. O filme Diplomacia, de Wolker Schalondorff, baseado na peça do mesmo nome (e com os mesmos actores), e que esteve há bem pouco tempo nas salas de cinema, baseado na conversa durante a noite de 24 para 25 de Agosto de 1944 entre o general alemão e um cônsul sueco, é um bom instrumento para perceber todas as difíceis decisões que pesaram na rendição das tropas ocupantes e as suas (não) consequências. E que devia te sido tão comemorado como outros acontecimentos da guerra. Infelizmente, a falta de memória e o Verão quente (não em sentido metereológico) que vamos atravessando empurraram essa comemoração para uma quase irrelevância e secundarização que definitivamente não merecia.





sábado, agosto 23, 2014

Que não nos falte nada


Festas de Viana, festas de Ponte da Barca, festival de Paredes de Coura, festas das revistas "cor de rosa", festas privadas...o Alto Minho parece estar numa enorme festa colectiva, este fim de semana. E no entanto, entre a nortada e as estradas que atravessam pinhais e campos de milho, é possível escapar-lhes e gozar de luz e o silêncio, dois bens preciosos nesta vida. Para quem quiser, ou mesmo apenas por algum tempo, antes de se voltar á música (de preferência de concertinas), às danças e ao convívio. Há de tudo, nesta terra.

sexta-feira, agosto 15, 2014

Desaparecimentos estivais


Causou comoção em toda a parte o desaparecimento de Robin Wiliams. Não sou de modo algum uma excepção. Durante muitos anos fazia parte da meia dúzia dos meus actores de cinema favoritos. O Clube dos Poetas Mortos marcou-me tal como a quase todas as pessoas da mesma idade (era claramente o meu filme de eleição durante largo tempo). Mas para além do professor heterodoxo, idealista e motivador, ou do radialista pouco convencional de Good Morning, Vietnam, os mais recordados, houve mais uns quantos papéis que o distinguiram tanto como "comediante" como com a sua "faceta séria". O do homem profundamente traumatizado que caiu num misto de indigência e lirismo de O Rei Pescador; o de Peter Pan crescido, esquecido e aburguesado de Hook, a continuação da obra de J. M.Barrie; o iludido psiquiatra de Despertares; a criança em corpo de adulto com crescimento anormal de Jack, um dos primeiros "experimentalismos" de Copolla; o do pai travestido em ama para poder estar perto dos seus filhos no hilariante Mrs Doubtfire; o do assassino chantagista no jogo de Insónia; o fotógrafo solitário e psicótico de One Hour Photo; a materialização de Popeye num dos seus primeiros papeis; e evidentemente o papel que lhe deu o seu único Óscar, o do psicólogo de O Bom Rebelde, uma espécie de versão mais desencantada e envelhecida da sua personagem e O Clube dos Poetas Mortos.
Longe de ser um "actor do método" (dele diziam que mal paravam as filmagens voltava a ser ele próprio no mesmo segundo), e não sendo apenas um comediante, Robin Williams dificilmente conseguia afastar essa imagem, colando sempre algum traço de comicidade mesmo em "filmes sérios". Mas em noutras escassas ocasiões conseguiu-o (em Insónia, por exemplo), mostrando uma faceta mais negra e obscura. Talvez tenha sido essa que o levou à terrível depressão que acabou com ele e que nos privou subitamente de um actor que há muito fazia parte das nossas vidas.


E no dia seguinte, também desaparecia Lauren Bacall, a última diva, uma das mais bonitas actrizes americanas de sempre, a mulher fiel a Humphrey Bogart, com quem se casou aos vinte anos, a adversária da tara mccarthista. Um mito vivo até agora, em todos os sentidos.


E já agora, não se comparando, assinale-se o desaparecimento de Emídio Rangel. Suscitou-me sempre reservas, por causa da sua ideia de mediatismo quase ilimitado, de "vender presidentes da república como um sabonete", conseguindo conquistar as audiências com programas brejeiros ainda que inovadores, como o Big Show Sic, ou dos seus elogios cegos e indisfarçados ao governo de José Sócrates. Mas também foi o autor de interessantes projectos jornalísticos, para além da SIC, como a TSF, impondo um modelo de informação independente das agendas governamentais que deixou a comunicação social estatal confundida e obrigando-a a mudar. Só isso equilibra de forma muito positiva o seu papel na história dos media em Portugal.

quinta-feira, agosto 07, 2014

Óscar "Tacuara" Cardozo

 

De entre as numerosas saídas do Benfica neste período ainda de "mercado" destaca-se a de Cardozo. Não pelos números envolvidos, que não passam dos cinco milhões de euros, nem por especial surpresa, ele que já no ano passado estava "à venda" e que na época que passou, desde a sua lesão que se andava a arrastar em campo. Mas por ser já um jogador "da casa", pela sua passagem longa pelo Benfica, e sobretudo pelos muitos golos que marcou de águia ao peito, que o tornaram num dos maiores artilheiros da história do clube. É verdade que às vezes enervava um pouco, pela sua aparente dormência ou alheamento do jogo, pela falsa lentidão, por ferver em pouca água ou pelos penaltys falhados (vide final da UEFA contra o Sevilha, ou mais ainda, a penalidade falhada contra Espanha no Mundial de 2010 pela sua selecção, que podia ter alterado a própria história do futebol). Mas os golos do Tacuara deram grandes alegrias aos benfiquistas. Em sete épocas, por duas vezes sagrou-se melhor marcador do campeonato, e noutras duas teve lesões durante boa parte das mesmas. Marcou golos de todo o tipo, com maior ou menor dificuldade, mais ou menos técnica, muitos decisivos, outros nem tanto. Foram 193 em todas as competições. Destaco os dois ao Rio Ave no jogo do título de 2010, os vários ao Everton nessa mesma época, os dois que marcou ao Fenerbahçe que levaram o Benfica à final da UEFA de 2013, claro está, os muitos que marcou a Sporting (o hat-trick para a Taça) e Porto, e o que marcou ao Celtic em 2007 - uma excelente execução, que garantiu o triunfo, e também o primeiro que vi ao vivo. Entre muitos, são os que me vêm à cabeça.
 
Mas Cardozo já não era o mesmo, e a sua venda ao Trabonzspor é o caminho lógico para a sua carreira. O Benfica recebe algum dinheiro, o paraguaio consegue um contrato onde ganha bem mais e os turcos talvez aproveitem uma réstia goleadora do Tacuara.
Mas Tacuara vai deixar saudades. E tão cedo não será esquecido. Não merece
 
 

terça-feira, agosto 05, 2014

Nos cem anos do início da 1ª Grande Guerra



Há exactamente cem anos começava o conflito depois conhecido como Grande Guerra, ou Primeira Guerra Mundial. A pesada efeméride não tem passado despercebida também em Portugal, que embora não tenha sofrido acções bélicas no seu território europeu, travou encarniçados combates em África e na Flandres, onde milhares de portugueses sem experiência de guerra nem material condizente com as circunstâncias (apesar do patético "Milagre de Tancos" com que se quis impingir a ideia de um exército devidamente treinado em poucas semanas) morreram em condições tremendas para defender " o prestígio da república".
Não faltam agora séries, documentários, edições especiais e livros (um agradecimento especial ao Expresso que editou em vários fascículos, e gratuitamente, o pesado tijolo da autoria de Martin Gilbert, que há muito queria ler) sobre o acontecimento, pelo que durante os próximos meses não faltarão ocasiões para o relembrar, às suas batalhas e aos protagonistas.
É curioso notar como alguns mitos hoje em dia são tão apregoados, apesar de terem sido supostamente erradicados pela Grande Guerra (ou pela lógica dela resultante).
Um deles é o da necessidade de um Mundo "multipolar", por oposição ao controlo por uma ou duas superpotências, como se verificou depois da 2ª Guerra, e sobretudo no pós-1989. É que a guerra de 1914-18 deu-se precisamente pela explosão das tensões entre diversas potências europeias, como o Império Britânico, a França, a Rússia, o Império alemão e o Austro-Húngaro, aos quais se juntaram o Otomano, os EUA e o Japão, entre outros. Potências a mais redundaram numa guerra sem quartel. A multipolaridade não impediu a guerra, antes a incitou.
O outro é o dos benefícios infinitos da técnica e da tecnologia. Uma das características da Grande Guerra foi que a revelação de que as velhas tácticas, instrumentos e demais elementos de combate se tinham tornardo obsoletas com a profusão de novos equipamentos, como os tanques de guerra, os aviões (e em parte os zepellins), os submarinos ou os gases venenosos. A tecnologia serviu apenas para ceifar ainda mais vidas e deixar um rasto incalculável de mortos e estropiados nas trincheiras, e um cenário de incrível destruição entre as jovens gerações europeias, que não estavam de todo preparadas para o que iam enfrentar.
Começou há cem anos.


domingo, agosto 03, 2014

Uma questão e uma lembrança

 
As acções de guerra em Gaza sucedem-se, com Israel a carregar nos ataques para desmantelar a facção militarizada do Hamas, os seus rockets e os seus túneis. Pelo caminho, mais umas dezenas de mortos. Posso perceber que as intenções do Hamas sejam vis, que usem escudos humanos, que governem aquele território com mão de ferro, percebo isso tudo. Mas se certos alvos das forças israelitas, nomeadamente escolas e hospitais, albergam arsenais se armas e mísseis, não seria melhor abster-se de os destruir, poupando assim inúmeras vidas, muitas de mulheres e crianças? Sobretudo quando os ditos mísseis poucas ou nenhumas vítimas farão do lado israelita, até pelo sistema de defesa implantado e que já demonstrou a sua eficácia? Aparentemente, para os responsáveis militares, não: é preferível rebentar com todo o arsenal do Hamas mesmo que para isso se sacrifiquem incontáveis civis. Há fanáticos do lado palestiniano, do lado israelita não parece haver menos.
 
Boa lembrança no artigo de Azeredo Lopes. Os cristãos da Mesopotâmia serão em breve uma lembrança, uma curiosidade de historiadores. Curiosamente não vejo uma manifestação, um protesto, uma indignação semelhante ao que acontece com os palestinianos (e pode-se dizer o mesmo dos curdos). Só mesmo para criticar os EUA e aliados pela invasão do Iraque. Aparentemente, as causas só valem a pena se for para criticar o Ocidente, já que os outros parecem escapar sempre. A eterna culpa do Homem Branco, cada vez mais solidamente implantada.

quinta-feira, julho 31, 2014

O decano dos festivais voltou (e as respectivas vaquinhas também)


Vilar de de Mouros, o mítico festival nas margens do Coura, está de volta, depois de alguns anos de interrupção. Um cartaz morno, com grupos por demais conhecidos e até repetentes (por exemplo, os Stranglers, que actuaram no auge da popularidade em 1982, ao lado dos U2, estão de regresso), mas é sempre bom ver regressar eventos míticos como este. Para quem não se lembrar, é o mais antigo festival do género em Portugal, nascido em 1972 como o "Woodstock português", com Elton John e a banda da GNR a tocar lado a lado. Actualmente o país regurgita festivais pop-rock, em todos os distritos e com todos os patrocínios (é a crise, dizem), mas no tempo de Marcelo Caetano era uma autêntica bomba que caía na aldeiazinha do Alto Minho, entre azenhas e campos de milho. Voltou em 1982 e em 1996, para se tornar anual, até definhar e parar há uns anos. Também por lá passei na edição de 1996, que encerrou com os Madredeus, e em 2004, ano em que um prodigioso cartaz trouxe ao Minho Bob Dylan, The Cure, Peter Gabriel e P.J. Harvey. Depois, Paredes de Coura ganhou a dianteira no campeonato de festivais de rock nas margens do rio Coura.

Mas há coisas que nunca acabam, felizmente, e Vilar de Mouros parece ser uma delas. Outra é o símbolo do festival, a famosa vaca malhada. Hoje descobri a razão: um casal da terra, já com certa idade, que há décadas leva as vacas a pastar todos os dias, com ou sem festival, e que para isso tem de atravessar a ponte românica sobre o Coura. A imagem dos ruminantes a cruzar a ponte atraiu a atenção de inúmeros fotógrafos, que desde 1996 fizeram delas o ex-líbris do evento (com anuência do casal, que ainda hoje na TV dizia sentir certo orgulho). Há inúmeras variações das vacas, de várias formas e feitios, e a sua evolução pode ser vista no After Eight, talvez o mais antigo (e seguramente o mais sossegado) bar da Rua Direita de Caminha, decorado com cartazes de todas as edições do festival sobre paredes brancas. Mas nenhum chegou à engraçadíssima rês deste ano: uma vaca rocker, com cabedal, piercings e tudo. Vilar de Mouros forever!


terça-feira, julho 29, 2014

Dinastias que passam



À volta da derrocada do império Espírito Santo e do seu grupo fala-se também no que acontecerá à própria família, numerosa e com importantes ligações ao grupo. É certo que nem todos os elementos precisam dos rendimentos que provinham do grupo económico, e fizeram a sua vida com meios próprios e autónomos. Mas é curioso pensar como o nome da família, que transmitia logo uma aura de poder e propriedade, e, como muitos ousam recordar, abria as portas a qualquer negócio fosse em Portugal ou fora, corre o risco de a perder de um ano para o outro. Nada que espante: já tivemos os Quintela, com o magnânimo conde de Farrobo a marcar o seu apogeu, os Burnay, os Mello, os Champalimaud. Nomes que com o passar do tempo e a mudança da propriedade e do poder de direcção das figuras carismáticas que iniciaram os seus grupos económicos e dinastias correspondentes, foram passando e deixaram de ser sinónimo de domínio da economia nacional. Da mesma forma, a prestigiada família Espírito Santo vai em pouco tempo tornar-se um apelido como qualquer outro (até porque há outras famílias Espírito Santo sem qualquer ligação com a do BES). Até ser substituída por outro clã. Ou talvez não, que a globalização e o mercado livre já não permitem tão facilmente a ascensão de grandes grupos familiares.

sábado, julho 26, 2014

Imagens relativas a posts do passado


Olha o ex-futuro estádio do Chelsea, que infelizmente não vai ser.


O antigo estádio do Arsenal. E o actual. Parece que mudaram do antigo Bessa encurralado a meio de um bairro de casas térreas para uma espécie de Luz envidraçada (do qual aliás os portistas não têm a melhor das recordações).


quarta-feira, julho 23, 2014

Ainda mais tragédias, no já suspeito Médio Oriente



E mais tragédias observamos em Gaza. A trama é a do costume: elementos do Hamas (neste caso há dúvidas, já que os primeiros factos aconteceram na Cisjordânia) assassinam israelitas, Israel retalia com bombardeamentos aéreos, são lançados rockets de Gaza contra território israelita, o Tsahal entra em Gaza para liquidar elementos do Hamas e suas infraestruturas bélicas e acaba a matar centenas de civis...Como se nada mudasse, e fosse um filme repetido vezes sem conta. Culpados há muitos, claro, dos dirigentes do Hamas para quem Israel não tem qualquer direito a existir aos falcões asquenazis, que parecem considerar os palestinianos como sub-humanos (um pouco como os seus avós eram considerados pelo 3º Reich), passando pelo cinismo de colonos que se instalam em cadeiras a observar os bombardeamentos a Gaza, como se cinema ao ar livre se tratasse. Mas vítimas, infelizmente, há muitas mais.

E ainda no Médio Oriente, o novo califado entre a Síria e o Iraque consolida-se, perante a fragilidade e inoperância das forças regulares iraquianas e a teimosia do chefe de governo Maliki, que quer a todo o custo conservar o poder sem o dividir. Restam as milícias xiitas e as forças curdas, que, avisadas, protegem um território independente de facto, que isolado de toda aquela guerra permanente, progride e não pretende ficar de novo sob a alçada de Bagdad. Ao fim de tantos massacres e combates, os curdos vêem finalmente o seu estado a ser erguido com êxito. Já os cristãos que vivem naquele território, pré-muçulmanos, que já foram a maioria, são forçados a abandonar as cidades incluídas no califado, sob pena de serem massacrados se não se converterem. Eis um drama que não comove os furiosos humanistas que tanto bradam pelas vítimas palestinianas e alertam para a terrível islamofobia na Europa (esquecendo-se da autêntica na Índia e na Birmânia).



PS: indispensável deixar aqui a fabuloso e eloquente (em todos os termos) video This Land is Mine, que nos últimos dias tem rodado na net com particular (e justificada) existência.

sexta-feira, julho 18, 2014

O essencial depois de uma tragédia



Desconfio que depois da tragédia do avião da Malasyan Airlines, ontem, nos céus do complicado território entre a Ucrânia e a Rússia, apenas quatro meses depois do misteriosíssimo desaparecimento de um avião daquela companhia, poucos se atreverão a subir para um avião da mesma, embora as culpas não lhe devam ser imputadas. E o ambiente naquelas paragens promete ficar ainda mais quente. Tudo indica tratar-se de mísseis anti-aéreos disparados pelos rebeldes pró-russos, confundindo-o com um avião militar ucraniano, o que só tende a agravar a coisa. De qualquer forma, e sabendo-se que as responsabilidades terão de ser apuradas (e mandar a caixa negra do aparelho para Moscovo não abona muito a favor de quem o faz), urge antes de mais prestar auxílio às vítimas colaterais - as famílias - e interditar aquele espaço aéreo. Ou como dizia o outro, enterrar os mortos e cuidar dos vivos. No meio disto tudo, histórias trágicas, como a daquele australiano, que depois de perder o irmão no voo desaparecido em Março, perdeu agora uma enteada. Há vidas que não são nada invejáveis.

quinta-feira, julho 17, 2014

Little Joy

Little Joy é o projecto musical que resultou do encontro entre Rodrigo Amarante, guitarrista dos brasileiros Los Hermanos, e Fabrizio Moretti, baterista brasileiro dos americanos The Strokes, ao que consta em Lisboa, no festival Soundz (que se perdeu, com outros, na imensidão da oferta), em 2006. Reencontraram-se nos Estados Unidos, quando os Hermanos decidiram hibernar, e lançaram o projecto, juntando-se-lhes a namorada de Moretti, a multi-instrumentista Binky Shapiro. Desta colaboração em trio resultou o álbum Little Joy, editado pela mítica Rough Trade, de uma pop alternativa suave com laivos de tropicalismo. Um bom encontro entre o Rio de Janeiro dos Hermanos e a Nova York dos Strokes, com uma música que emana sentimentos de "pequena felicidade" que faze jus ao nome do trio. Uma pequena homenagem ao Brasil, agora que a festa acabou.

terça-feira, julho 15, 2014

Acabou o Mundial


Acabou o Mundial e já estou com saudades das noites de bola, das surpresas, dos hinos nacionais e até da música do genérico antes de cada jogo. Não torci pela Alemanha, mas o título acaba por ficar bem entregue à equipa mais consistente, que mais trabalhou e se preparou para esta competição, e que há já uns anos, entre finais e meias, ameaçava mais competição menos competição erguer novo troféu. Aconteceu este ano, às custas de um Brasil menor e impreparado. A Alemanha já pode dizer que ganha mundiais sem ser a RFA, e os anos acabados em 4 revelam-se afortunados para a Mannschaft: conquistaram o título mundial em 1954 (contra a enorme Hungria), em 1974 (frente à Laranja Mecânica de Cruyft) e só falharam 1994, graças a uma extraordinária Bulgária, mas entretanto já tinham ganho em 1990. E pensar que tudo isto começou com uma bisonha derrota de uma velha equipa perante suplentes portugueses...Os 4-0 do primeiro jogo foram uma boa desforra, mas pelo menos Portugal pode dizer que só perdeu com a equipa campeã.

Nunca pensei que a Argentina chegasse à final. Teve alguma felicidade na maneira como o conseguiu, com pouco brilho e muita retranca. Conseguiu-o à custa de uma Holanda com medo de arriscar, ganhou nos penaltys e reeditou as finais de 1986 e 1990, quando as equipas das Pampas e dos tedescos dominaram os Mundiais de futebol. A verdade é que jogaram de igual para igual, com um rigor defensivo (mas porque é que o Benfica não esperou mais tempo para vender Garay?) e uma pressão notáveis, tiveram (escassas) ocasiões para marcar e só sucumbiram ao esgotamento físico, frente a uma Alemanha menos desgastada e a um fantástico golo do descansado Gotze. Tive pena por Enzo Perez e Garay - seria fantástico ter dois jogadores do Benfica, ou quase, campeões mundiais e titulares - e até pelo inconsolável Rojo. Mas a Argentina recuperou algum do estatuto de grande selecção que andava em baixo nos últimos anos. Prémio de consolação, e estranho mesmo, seria a nomeação de Messi para melhor jogador do torneio. Não haja dúvida que o argentino goza de excelente imprensa no mundo do futebol, ainda melhor que a de António Costa na política portuguesa...De resto, James ficou com o justo título de melhor artilheiro, e a Holanda em terceiro, também merecido.

O Brasil conseguiu encaixar dez golos em dois jogos, em sua própria casa. É obra. Depois do Mineirazo, novo banho. Scolari, claro, nunca poderia ficar, mas a futebol brasileiro terá que ser muito repensado e as suas estruturas alteradas. Tal como o português, aliás.

De resto, tivemos um excelente Mundial, que excedeu todas as expectativas (embora haje quem, inexplicavelmente, o considere um dos piores). Jogos emocionantes com muitos e belíssimos golos (o Espanha-Holanda, Alemanha-Argélia ou Brasil-Colômbia, por exemplo), selecções que surpreenderam (Argélia, Costa Rica, Estados unidos, e claro, a Argentina, como finalista), outras que confirmaram as suas boas indicações e que no futuro irão dar ainda mais cartas (Colômbia, Bélgica, Suíça) e as decepções (Portugal, claro, Brasil, Espanha, os mais clamorosos, Itália, uma vez mais, e de certa forma a Inglaterra, com atenuantes). Entre os golos, mais do que o de James ao Uruguai e o de Cahill à holanda, destaco o "salto de peixe "de Van Persie à Espanha e a fabulosa cavalgada de Robben no mesmo jogo, em que ultrapassou dois defesas, sentou Casillas e mudando de direcção atirou para o fundo. Simplesmente inesquecível.

De resto, o mundial teve episódios que não poderiam ser vistos noutras paragens: claques da Bósnia no Pantanal, O God Save the Queen entoado na Amazónia, protestos argentinos antes do jogo do Irão relembrando um terrível atentado com vinte anos, os jogadores alemães a confraternizar com índios da Bahia, fãs enlouquecidas a entrar nos treinos de Portugal para tocar em Ronaldo...O que fica para a história, são os vencedores, da Alemanha, e os vencidos mais evidentes:  Argentina, por chegar à final, e o Brasil pela forma estrondosa como o afastaram. Teve uma consolação: fugiu à completa humilhação de não ver os eternos rivais das pampas sagrar-se campeões em pleno Maracanã, apoiados pelas dezenas de milhares de adeptos argentinos que invadiram o Rio.


quinta-feira, julho 10, 2014

Depois do Mineirazo

 

Depois do terramoto que ontem se abateu sobre o Brasil, em Belo Horizonte, ficaram as palavras de choque, terror, espanto e também admiração pela proeza da Mannschaft germânica. O risco de perder este segundo mundial caseiro era real, como em tempos cheguei a prever, e o fantasma de novo Maracanazo esteve presente. O que ninguém podia certamente adivinhar era uma derrota desta dimensão avassaladora, mostrando uma selecção totalmente desgarrada, com uma atitude mental na lama, desfazendo-se psicologicamente como um castelo de cartas. Scolari não perdeu nova final mas não chegou lá da forma mais escandalosa. Todo o futebol brasileiro sofreu uma humilhação inaudita, que o abalou de alto a baixo, e terá de largar muito lastro e mudar muito se não quiser empenhar o futuro. Afinal de contas, também o futebol alemão se renovou depois de uma pesada humilhação frente a Portugal, em 2000. Mas as consequências podem ser ainda piores, para além do fim da carreira de Scolari e dos dirigentes federativos brasileiros. Os arrastões e as cenas de violência verificadas após o jogo demonstram isso mesmo. O futebol é um dos traços mais vincados da sociedade brasileira, e a selecção um dos factores de união nacional. O desastre pode ter implicações mais sérias, sobretudo em ano de eleições. Ainda por cima, muitos consideram o Mineirazo de 2014 pior que o Maracanazo de 1950,  que era aliás tido como uma das maiores tragédias da história do Brasil. É impossível prever o futuro, mas a humilhação terá com certeza repercussões extra-futebol, a começar em todos os erros e gastos da organização da prova. Convém lembrar que daqui a dois anos haverá jogos olímpicos no Rio.
E para a coisa ser pior, um dia depois do Mineirazo, os brasileiros ainda viram a Argentina chegar à final do "seu" mundial. Talvez a morte, dois dias antes, do mítico Alfredo Di Stéfano os tenha inspirado (embora fosse mais ligado a Espanha do que à Argentina), ou as orações do Papa fossem mais fortes. Os vizinhos não deixarão por certo de aproveitar esta ocasião para troçar ainda mais do velho rival, invadindo o Rio de Janeiro, mesmo que corram a risco de serem igualmente trucidados pela Alemanha (com a qual repetirão uma final). que será pior para o Brasil, afinal? Perder no confronto do 3º e 4º lugar com a Argentina ou vê-lo chegar à final, com o risco (mínimo) de a ver campeão da Mundo em pleno Maracanã?


segunda-feira, julho 07, 2014

David Luiz, uma estrela total


Temos visto neste Mundial jogadas fabulosas, revelações surpreendentes e jogadores que ficam debaixo de olho. Mas há um que em definitivo, é incontornável: David Luiz. O "macarrão" (nome que lhe puseram por causa do distintivo cabelo) revelou-se na Luz, embora durante muito tempo estivesse desaproveitado como defesa esquerdo. Quando o colocaram a central mostrou ser um portento, mesmo com as suas características subidas no terreno, às vezes arriscadas. Pude vê-lo nalguns jogos determinantes, como nos 4-1 em Alvalade para a Taça da Liga, em que abriu o marcador. Depois mudou-se para Londres, à conta de uma maquia interessante e Matic, ganhou uma Liga dos Campeões, uma taça UEFA (à nossa custa), e transfere-se agora para o milionário PSG, estabelecendo um novo recorde como defesa mais caro. Entretanto, nunca esqueceu o Benfica, aparecendo até em vários jogos e lançando mensagens de apoio nas redes sociais. Agora, no Mundial do seu país, é uma das traves principais da selecção, e não só a defender: marcou o golo que permitiu ao Brasil sobreviver e ultrapassar o Chile, e contra a Colômbia enviou um autêntico míssil  que se transformou no segundo golo. Comemorou em apoteose com o público e os companheiros, deu graças aos céus pela dádiva, e no fim ainda se lembrou de consolar o desalentado James Rodriguez e de pedir ao público que aplaudisse o colombiano. Em suma: é impossível não gostar deste tipo.