segunda-feira, setembro 30, 2013

Rescaldo autárquico: a vitória anunciada de Rui Moreira

 
Ainda a contas com défice de sono depois da extraordinária noite de ontem, faço finalmente o balanço das Autárquicas. Mas devagar, porque muito há a dizer e a temperança é uma virtude cristã. Por isso, vou-me cingir para já ao que se passou no Porto, e noutro post falarei dos outros resultados.
 
A vitória de Rui Moreira apanhou muitos desprevenidos. Havia quem começasse a acreditar que podia acontecer a partir do momento em que foram divulgadas as sondagens da Universidade Católica que lhe davam um curto triunfo. Mas a maioria caiu de quatro: quase todas as sondagens previam a vitória de Menezes, e os analistas de TV iam atrás desses números. Rui Moreira era um outsider simpático, mas pouco mais.
 
Mas quem seguia, e sobretudo, quem participava na campanha fazia outro tipo de previsões. O exemplo da vitória de Rio sobre Fernando Gomes, em 2001, estava na memória de todos. Os contactos de rua também eram animadores. Além disso, os excessos de campanha, numa altura em que se pede contenção e austeridade, eram contraproducentes. Desde o início, a apresentação no Ferreira Borges, que mais e mais gente se começou a entusiasmar com a candidatura independente. O CDS-PP, horrorizado com a hipótese de Menezes atravessar a ponte, deu o seu apoio a Moreira. Alguns militantes do PSD, como Miguel Veiga, também. Na altura, aí por Abril, em que entrei nas primeiras acções de campanha, lembro-me de nos cálculos que fazia com pessoas amigas, em que apostava que Moreira conseguiria mais de 15% dos votos, O vencedor seria Menezes, com todo o seu CV de autarca e o séquito laranja, ou Manuel Pizarro, confiante na força do PS portuense e na divisão de votos. Mas o tempo passou, e chegado o Verão, já se acreditava que a campanha rua a rua, porta a porta, e a persistência trariam um combate mais interessante. Há poucas semanas, convenci-me finalmente que a vitória era realmente possível. As últimas sondagens não me espantaram nada mesmo (até porque sabia que o JN estava descaradamente com Menezes). Espantou-me, sim, a dimensão da vitória de Rui Moreira, e a derrota clamorosa e humilhante de Luís Filipe Menezes, que muitos consideravam que daria um passeio de uma margem à outra do rio.
 
Digam o que disserem, Moreira é o grande vencedor destas autárquicas. António Costa era um vencedor anunciado e os seus opositores estenderam-lhe uma passadeira vermelha. Pela primeira vez, uma candidatura independente ganha uma grande câmara no país. O rótulo de "candidato de Rio e do CDS" é redutor e ignorante. Moreira, que presidiu até há pouco à Associação Comercial do Porto, é um digno representante da burguesia liberal portuense, e os habitantes da cidade reconheceram-no. Ganhou contra aparelhos partidários, jornais e analistas televisivos, sondagens, bloggers, campanhas bojudas e com meios sem fim, troças e remoques; só não se pode dizer que ganhou "contra tudo e contra todos" porque seria injusto: ganhou COM  uma larga fatia dos portuenses. É uma vitória que prescinde de caciques, ajudas líderes partidários nacionais, aparelhos eleitorais e até, como confirmei hoje, da tradicional visita ao Bolhão (cuja reabilitação, de resto, está contemplada no programa eleitoral de RM). Não precisou de nada disso para obter uma vitória seguríssima, que se estende à conquista da Assembleia Municipal e de 5 das sete (novas) freguesias da cidade. É o novo Presidente da Câmara Municipal do Porto com todo o mérito.

 
 Do lado dos adversários, Pizarro, que terá algo a dizer na nova vereação camarária, saudou a vitória de Moreira com visível alívio, já que não só impediu a tomada do poder por parte de Menezes como ainda conseguiu um honroso segundo lugar. Já o ex-autarca de Gaia teve até um discurso invulgarmente digno e tranquilo, envolvido num ambiente sepulcral. O mesmo não se pode dizer de alguns dos seus apoiantes, que aparentemente, não perceberam nada. Não perceberam que o "politiquez" que se usa nos aparelhos partidários nada diz às pessoas, que a política das prendas e dos grandes gastos de campanha, das promessas de tudo e mais alguma coisa já nada garantem, e que sobretudo essa mania de falar aos eleitores como se eles fossem pobres patetas é chão que deu uvas. Acabou. Rui moreira demonstrou isso mesmo. Mas os derrotados desta noite devem aproveitar para meditar e perceber os seus erros, e não atirar as culpas para cima dos eleitores, que "preferem ser enganados". Neste rol meto também alguns bloguistas que compensam o seu patético despeito pré-eleitoral com análises tão estapafúrdias na sua evidentíssima azia que nem ao menos disfarçam um bocadinho que seja. Nestes casos, a desonestidade intelectual paga tornando-se puro objecto de gozo, como os respectivos comentários atestam.
 
Moreira ganhou, e ganhou bem, não porque tinha o apoio do CDS, de Rio ou de Veiga e demais "históricos do PSD", mas porque soube conquistar os portuenses, que viram nele um digno representante sem passado de dirigismo partidário. É uma enorme lição e uma oportunidade que o país deve aproveitar. Se não o fizer, o aparelhismo partidário acabará (ou será substituído) de maneira mais dolorosa. Mas no Porto, a hora é de esperança e de orgulho. Terei saudades desta campanha renhida mas alegre, em que se gritava "o meu partido é o Porto". Mas nesta cidade, confiança não falta.
 
 

sexta-feira, setembro 27, 2013

Os veículos das campanhas


Habitualmente sigo muito cada eleição autárquica. É por aí que se conhece o chamado "país real", que se ouve falar de terras até aí desconhecidas (conheci de nome imensos concelhos só por causa destas eleições), que se vêm as mais divertidas e disparatadas campanhas, que se viaja no fundo um pouco por todo o território. E até o peso sociológico dos partidos pode ser avaliado com o passar dos tempos - concelhos que com a mudança do presidente passam a mudar a cor do voto em todas as eleições, por exemplo, o desaparecimento do CDS da Beira interior, onde já dominou, a menor influência do PCP no Alentejo e na "cintura industrial de Lisboa", etc.

Para além dos resultados, sigo as campanhas. E esta, a par dos "tesourinhos das autárquicas", dos comícios-concerto e dos porcos assados, revelou um fenómeno curioso: a Vokswagen Kombi, ou Transporter, vulgarmente conhecida como "pão de forma", tornou-se um dos veículos mais usados na propaganda eleitoral. Esta velha e fiável carrinha, venerada pela geração flower-power, é um dos grandes mitos automóveis, pelos milhares de unidades construídas e por um certo romantismo construído à sua volta. E muitas foram recuperadas para andar pelos concelhos fora, como veículo de campanha (literalmente), com alguns resultados engraçados. Na de Rui Moreira, por exemplo, a "pão de forma" tornou-se num ex-líbris da sua campanha, sempre com a "juventude moreirista" em grande algazarra. Em Bragança, Júlio Meirinhos, o ex-autarca de Miranda e antigo Governador Civil que tenta reconquistar a capital do Nordeste transmontano para o PS, usa uma como sede móvel de campanha. e tenho notícias de outras, que agora não me ocorrem.


 
Simplesmente, soube-se há pouco que a Volkswagen não mais produzirá as "pães de forma", fechando a última linha de montagem, no Brasil, no fim do ano, devido a novas regras de segurança que não são adaptáveis às célebres carrinhas. A notícia não apanhou ninguém de surpresa, já que se previa o fim muito próximo. Assim sendo, o que motivará o seu uso massivo nas eleições, ou noutros contextos (ambulâncias, por exemplo)? Será o revivalismo que surgiu de súbito com o pré-anunciada fim de linha? Ou o espírito "peace and love" invadiu as campanhas eleitorais? Olhando para as habituais guerrilhas, parece menos provável do que a primeira hipótese. Ou talvez quisessem manter um espírito de romantismo, ou uma imagem de irreverência, de "juventude", para cativar os eleitores. De facto, as campanhas autárquicas precisam de algum sangue novo, se bem que por vezes exagerem e acabem em autênticas criancices. Seja como for, as históricas carrinhas dão mais cor e simpatia às campanhas. Por mim, podem continuar, até porque, avaliando o enorme número que saiu das linhas de montagem, não vão desaparecer assim tão cedo.

Antes das autárquicas


No próximo Domingo teremos as eleições autárquicas mais importantes de que tenho memória. Por um conjunto de razões: porque prenunciam o fim de um ciclo eleitoral, que normalmente se altera de 3 em 3 eleições (e pudemos ver isso em 1989 e 2001), dando primazia a um dos partidos do poder; porque a lei de limitação de mandatos finalmente estabelecida marca o fim dos dinossauros autárquicos, alguns na cadeira desde os anos setenta, se bem que se possam candidatar a outras autarquias (o que não é bem a mesma coisa), o que irá provocar alguns pequenos sismos e mudar a composição de muitas câmaras onde os partidos dominantes já tinham criado raízes; e porque finalmente assistimos a uma verdadeira disseminação de candidaturas independentes.
Até agora, a maior parte destas listas era de independência duvidosa, já que se tratava, na prática, de uma qualquer secessão num partido de determinado candidato preterido pela escolha de outro, ou pelo seu afastamento ditado pelas cúpulas partidárias. Houve algumas tentativas de se formarem reais listas independentes, como o movimento de Helena Roseta, em Lisboa, que rapidamente acabou absorvido pelo PS, mas na realidade apenas em juntas de freguesia se conseguiram levar a votos – e à vitória – listas sem ligações partidárias.

Agora observam-se outros movimentos que não apenas os recusados que abandonam o partido. Fenómenos que acontecem em cidades de relevo, como Coimbra ou Tomar, e em concelhos menos visíveis, como Oleiros. E, evidentemente, no Porto, onde se verifica a mais interessante experiência deste tipo – e não falo do ex-socialista Nuno Cardoso.

Desde há muito que se sussurrava que Rui Moreira, até há pouco presidente da Associação Comercial do Porto e habitual comentador de jornais e televisões, poderia ser candidato à Câmara do Porto. Em Março, perante uma enorme plateia no simbólico Mercado Ferreira Borges, lançou finalmente a sua candidatura independente. O CDS-PP, que não se revia nos projectos que o candidato do PSD tinha para o Porto, deu-lhe o apoio oficial, prescindindo de avançar em listas próprias. Moreira aceitou o apoio mas não estabeleceu qualquer compromisso, preferindo manter-se liminarmente independente. A princípio, havia regozijos com uma candidatura que poderia baralhar as contas e trazer uma lufada de ar fresco à campanha. A pouco e pouco, percebeu-se que uma maior ambição era justificada. De repente, Moreira surgia nas sondagens em segundo, à frente do candidato socialista, Manuel Pizarro, e logo atrás do “vencedor anunciado”, Luís Filipe Menezes. O entusiasmo encontrado nas ruas, mesmo em locais onde se pensou que se encontraria indiferença ou hostilidade, deu razões para acreditar que se podia conseguir mais do que o segundo lugar. Ontem, as sondagens da Universidade Católica mostraram finalmente a candidatura de Rui Moreira em primeiro lugar, enquanto que hoje o JN deu um empate técnico, depois de Menezes aparecer sucessivamente uns bons pontos à frente.

Como já perceberam, não escrevo com distância nem sequer com imparcialidade. Apoio a candidatura de Rui Moreira, e já há uns tempos tenho a convicção de que a sua vitória é mais do que possível. O contacto com as pessoas na rua dá-nos uma visão mais clara das tendências dominantes, muito embora cada um tenha as suas razões. Mas também sei que o eleitorado portuense pensa por si próprio, indiferente a quem as cúpulas partidárias escolhem para o representar. Já deu essa prova noutras ocasiões, como em 2001, em que Rui Rio bateu o até ali “invicto” Fernando Gomes. E numa altura de carências e apertos, não é com promessas descabeladas de gastos sem fim e campanhas pomposas e exorbitantes que convencem os eleitores do Porto.
 
 
Rui Moreira representa uma certa burguesia liberal do Porto, aquela mesma que o tornou numa cidade comercial e industrial dinâmica, e, acima de tudo, livre e com amor pela liberdade. É esse mesmo amor pela liberdade que leva a que tanta gente queira votar nele, não só pelo que propõe mas para dar uma valente bofetada aos caciquismos, ao aparelhismo mais boçal, à arrogância dos partidos que julgam que os votos lhes pertencem e que os municípios são a sua coutada pessoal, para alimentar clientelas, as famosas “bases”, e demais pedinchices locais. O voto em Rui Moreira no Domingo é não só útil para o Porto mas para o país inteiro, porque será um seriíssimo aviso aos aparelhos partidários. Sim, nestas autárquicas vamos ver fenómenos interessantes, mas não apenas um “cartão amarelo” ao governo: o fim dos presidentes jurássicos e a emergência dos independentes como alternativa aos bolorentos aparelhos clientelares. Por isso, mesmo com a chuva, saiam de casa e votem. É não só um dever e um direito, mas uma oportunidade única que não devem desperdiçar.

terça-feira, setembro 24, 2013

Uma vitória ligeiramente pírrica

 
Sim, Angie e a CDU/CSU ganharam com uma "super-maioria", a mais robusta desde os tempos áureos da Reunificação, em que Helmut Kohl não dava hipótese à oposição. Mas secou o terreno em volta, e além de deixar o SPD a milhas, conseguiu eclipsar o seu aliado de coligação, os liberais do FDP, que depois de em 2009 terem conseguido o seu melhor resultado eleitoral de sempre, passaram agora, como temiam, pela humilhação de se quedarem com menos de 5%, e ficarem por isso fora da representação do Bundestag. Com quase a mesma percentagem ficou o movimento anti-euro, E o tão propalado Partido Pirata, dos libertários da net (lembram-se do entusiasmo, aqui há pouco tempo?), desinchou para umas décimas que o deixam a uma distância abissal da representação diplomática. Quanto à esquerda, tirando os sociais-democratas, recuou claramente.
 
Agora, com uma imensa maioria que expulsou os liberais para fora do ringue parlamentar, mas aquém da maioria absoluta, a CDU terá de negociar para formar um novo governo. O Linke, de esquerda mais radical, estará absolutamente fora de causa, com os Verdes também parece pouco provável, pelo que provavelmente se reeditará a Grande coligação de centro com o SPD. Quem diria que os sociais-democratas, com um resultado fraco, ainda poderiam entrar no governo, mercê dos votos que transitaram em massa dos liberais para a CDU e os anti-euro? e que as comemorações de vitória da CDU afinal tiveram a visita de Pirro? Veremos se um novo governo mantém a obstinação na política de dar as tranches aos países aflitos pela dívida, como Portugal, em troca de uma férrea política de apertar o cinto, mesmo que isto tenha custos sociais. E se Frau Angie não terá mais dores de cabeça no futuro do que certamente pensaria.
 
 
 

segunda-feira, setembro 23, 2013

Nos cinemas, a última viagem marítima de descoberta

 
 
 
Já tinha deixado expresso o meu desejo de que este filme passasse em Portugal, e as distribuidoras fizeram-me a vontade. As salas de cinema (poucas, e só em Porto e Lisboa) exibem agora Kon-Tiki, o filme norueguês que chegou a ser nomeado para o Óscar de "melhor filme estrangeiro", e que como o nome indica, relata a viagem imprevisível que o aventureiro Thor Heyerdahl empreendeu em 1947, desde as costas do Peru até à Polinésia. Um percurso de quase 7000 kilómetros e mais de cem dias, em que seis homens singraram numa jangada construída segundo métodos de outrora, para desvendar que os habitantes da Polinésia descendiam não de povos vindos da Ásia mas sim das Américas, e que por meio de jangadas tinham percorrido boa parte do Pacífico, à mercê dos elementos. Heyerdahl queria a todo o custo provar a sua teoria, e com mais cinco companheiros singrou pelos mares fora, anotando tudo o que lhe parecia relevante, filmando e realizando uma película que ganharia o Óscar de Melhor Documentário. Agora, a sua aventura é contada em filme, mostrando as teorias, as hesitações, a determinação para levar a cabo uma empresa na qual ninguém acreditava, o sacrifício da vida familiar, os momentos de angústia (a imensa calmaria no meio do Pacífico, a fauna oceânica a rondar, as tempestades), o companheirismo, a Fé...não sendo uma obra-prima, é um filme de aventuras à antiga, e ainda por cima baseado numa aventura autêntica, das últimas viagens de descoberta feitas no nosso planeta antes do Google Maps desvendar todos os recantos. Deixem os filmes da moda para depois, porque ainda ficam mais uns tempos, apanhem este antes que saia das salas e apreciem uma aventura marítima dos tempos modernos feita numa jangada vetusta, que seguiu a direcção do Sol.
 
 

quinta-feira, setembro 19, 2013

As dificuldades de Abreu Amorim


Também num debate, igualmente da Porto Canal, mas em Gaia, reuniram-se os candidatos à edilidade local (ou seja, os que vão aguentar com a conta deixada por Menezes). Só vi uns segundos, mas chegaram para apanhar uma declaração surpreendente: Carlos Abreu Amorim, candidato do PSD/CDS, e antigo blogger, afirmou alto e bom som que Luís Filipe Menezes era provavelmente "o melhor autarca da democracia". Surpreendente, porque vindo de um liberal assumido como CAA, seria pouco previsível ouvir um elogio destes a um autarca que se destacou precisamente pela enorme despesa e por gastos de dinheiros públicos. E também porque não hesitou em falar do púlpito de uma igreja numa campanha encapotada, coisa que deveria escandalizar o anticlerical Abreu Amorim. Ou talvez não. Pode ser que o anticlericalismo seja coisa do passado, uma vez que o candidato agora até vai a Fátima. Realmente, como o próprio CAA dizia, "é difícil ser liberal em Portugal". Tão difícil que mal se encabeça uma candidatura autárquica, esse liberalismo é logo atirado para a valeta.
 
 

domingo, setembro 15, 2013

Um debate com todos - notas


Finalmente pudemos assistir a um debate entre todos os candidatos à Câmara Municipal do Porto, emitido pela Porto Canal. O modelo adivinhava-se complicado, mas Júlio Magalhães soube geri-lo bem, com o  brinde não haver palmas de apesar da presença de público e de apoiantes dos candidatos, sobretudo integrantes das suas listas. Ouviram-se algumas ideias com interesse, houve muita palha pelo meio, e as habituais picardias e momentos caricatos da praxe.
 
- Rui Moreira: sóbrio no geral, sintetizou o seu programa de maneira eficaz e simples, mas podia ter sido mais concreto nalgumas áreas e de se afirmar mais relembrando a sua luta contra a centralização da ANA e de Leixões, além de que devia ter defendido mais eficazmente o seu mandato na SRU. Ganhou nos apartes com outros candidatos, embora pudesse ter sido mais contundente contra Menezes.
 
- Luís Filipe Menezes: mais contido do que se pensaria, excepto quando se envolveu numa troca de palavras com Moreira e Pizarro. Conseguiu camuflar as propostas megalómanas e puxar dos galões das suas vitórias em Gaia. Aguentou-se bem, mesmo sem conseguir passar totalmente a imagem de liderança que desejaria.
 
- Manuel Pizarro: conhecedor do Porto, menos talvez da situação da Câmara, desaproveitou uma oportunidade de se afirmar como real alternativa, apesar dos despiques com Menezes e Cardoso. Mostrou ideias sóbrias e a merecer estudo. A falta de notoriedade e carisma são os seus maiores adversários. Como disseram alguns comentadores, seria melhor presidente do que candidato.
 
- Pedro Carvalho: à semelhança do seu antecessor da CDU, Rui Sá, mostra que mantém intenso contacto com a população e um bom conhecimento das condições sociais mais preocupantes e dos vários dossiers. Perdeu ao tentar colar Rui Moreira ao governo, mas marcou pontos quando obteve dos outros candidatos a promessa explícita de revogação do novo regulamento dos bairros municipais.
 
- José Soeiro: estudou bem determinadas situações, como a do futuro do Aleixo, em que era em dúvida o mais informado. Perdeu-se muito no discurso ideológico, como as arremetidas contra "os privados", ou no apelo à "revolução cidadã" e a "viragem nacional à esquerda". Deverá ficar-se pelo nicho do BE e dificilmente será eleito vereador. Apesar das suas qualidades, no futuro terá de se focar mais em problemas concretos e menos ideologizados.
 
- José Manuel Santos: o menos interventor, levantou o problema de falta de escala e de dimensão do Porto, apontou alguns projectos internacionais a ser aproveitados, mas também caiu na excessiva ideologização, e mostrou que era o mero candidato do MRPP de ocasião ao afirmar que o que importava era a ideologia e não o candidato.
 
- Costa Pereira: se a ideia era mostrar-se ao público, conseguiu. Protagonizou alguns momentos rocambolescos, embora sem atingir o nível de burlesco dos candidatos do seu movimento, o PTP (que parece ser um autêntico alfobre de "cromos" destas autárquicas). Ficou bem expresso o seu "romantismo" ao propor um minuto de silêncio em memória dos bombeiros (o que conseguiu, com ajuda de Cardoso) e quando dizia, qual D. quixote desta eleição, que todos os outros candidatos "tinham partidos por trás", e que ele tinha um pequeno grupo de cidadãos, como se não concorresse sob a sigla do PTP.
 
- Nuno Cardoso: deixei para o fim propositadamente, não apenas por ser o último a apresentar-se, mas porque me merece mais algumas notas. A princípio, julguei que fosse um candidato fantoche de Menezes (que em Gaia concedeu ajustes directos à empresa a que presidia) para tirar votos ao PS. Vejo agora que talvez me tenha enganado. Ou talvez isso também possa ser considerado, mas acima de tudo o que notei é que Nuno Cardoso tem-se numa conta absurdamente alta e cultiva uma mitomania patética. Segundo o candidato independente, o traçado e a concretização do metro do Porto deveram-se a ele, bem como a conclusão da VCI, o alargamento do Parque da Cidade, e até o manifesto que desencadeou o movimento popular que impediu a venda do Coliseu à IURD. O facto do presidente à altura ser Fernando Gomes e dele nem sequer ser em boa parte do tempo vereador, mas um assessor, pouco lhe importa. Entre os sms que apareciam no ecrã, invariavelmente a babujar os candidatos, apareceu um, certeiro, que exclamava que "daqui a pouco Cardoso diz que mandou construir a Torres dos Clérigos!" Para cúmulo, a certa altura falava de si na terceira pessoa. Resta acrescentar que no logótipo da sua candidatura aparece um "N" com a inscrição "sou ÉNE", e que como o slogan "Porto de Futuro" não tem a palavra "Norte" incluída, o que indicia que nuno Cardoso tem um sentimento napoleónico pouco discreto. De positivo ficou a abertura e limpeza do Cinema Batalha para sede de candidatura e do convento de Francos e algum conhecimento da rede viária e urbana da cidade (embora tenha lançado a ideia patética de que a desertificação do centro da cidade se devia às deficientes vias de comunicação, como se estas não permitissem tanto a entrada de gente como a saída). Claro que não se referiu às obras inacabadas e das dívidas quando saiu da presidência da câmara, ou dos processos judiciais em que se viu envolvido. Um mitómano nunca tem uma má face. Nuno Cardoso acha-se "éne" fantástico, que se há de fazer?

quinta-feira, setembro 12, 2013

Sérvios vs croatas (e quem se trama é o jogador do Benfica)


Dobrado o século e o milénio, o ódio entre sérvios e croatas permanece intacto. Não espanta. Passaram poucos anos desde que se andaram a matar uns aos outros com particular crueldade, digna de gente tão amável como Átila, o Huno. Para além dos julgamentos na Haia, dos terrenos minados na Bósnia, dos problemas com o Kosovo e de outras questões pendentes, a faísca entre os dois povos "eslavos do Sul" vê-se no futebol (onde mais?). Pela primeira vez, Sérvia e Croácia enfrentaram-se em jogos oficiais. Em Março, os croatas tinham ganho em Zagreb. Agora, no "Marakana" de Belgrado, as duas selecções empataram a um golo, e os sérvios disseram praticamente adeus ao Mundial do Brasil.

Em nenhum dos dois jogos estiveram presentes adeptos da equipa visitante. Não haveria certamente lugar seguro onde os colocar, nem a sua protecção estaria garantida. Isso ficou bem visível quando tocaram os hinos no jogo de Belgrado: o da casa entoado com vivacidade; o da Croácia nem se conseguiu ouvir, tais eram os ruídos e pateadas da parte do público.
 

 
Mas o momento do jogo, já de si quezilento, que serve de demonstração a essa rivalidade foi o da falta assassina de um defesa croata a Sulejmani, que ia embalado com a bola: o agressor nem a viu, antes atropelou o sérvio com toda a intenção e brutalidade. Escusado será dizer que viu vermelho directo e que quase via um par de tabefes. Mas com isto, demonstrou com toda a clareza a inimizade que permanece entre aqueles dois povos, agora materializada no relvado. E ainda nos conseguiu lesionar o jogador do Benfica, o carniceiro. Como se não bastassem os que já estão na enfermaria.


segunda-feira, setembro 09, 2013

Um debate com quase todos

 
Algumas associações portuenses conseguiram juntar os candidatos à Câmara Municipal do Porto em debate na sede da AICCOPN, na última quinta à noite. Infelizmente, à última da hora não consegui ir, para ver um momento raro: a troca de ideias entre pretendentes à segunda autarquia mais importante do país (Sintra que me perdoe, mas não é pelo facto de terem ultrapassado em população que ganharam importância ao Porto), sem que seja uma televisão a fazer a convocatória. Estão por isso de parabéns  a Campo Aberto, a AMO e a APRUPP, pela organização do evento que se debruçava sobre temas como o ambiente, a reabilitação urbana e o património. E também todos os candidatos, que se dispuseram a debater projectos e ideias sem chicana nem acusações demagógicas de parte a parte.
 
Todos os candidatos? Não. Houve dois que por razões de atrasos na resposta não compareceram, e ainda outro, precisamente o que proclama o "Porto forte", que se recusou a ir, aparentemente sem razão válida, porque  "sobre esses assuntos não dá resposta". Estranho que alguém que pretende fazer frente ao centralismo tenha assim tanto receio de debater ideias, talvez porque ali não possa fazer os seus habituais discursos grandiloquentes, rodeado dos subalternos do costume. Aliás, a sua carreira política não revela momentos de grande coragem bem pelo contrário.
Esperemos que no debate promovido pela Porto Canal estejam realmente todos. Senão, poderemos desde já tirar algumas consequências definitivas.

quinta-feira, setembro 05, 2013

A desunião do pan-arabismo

 
É extraordinário as voltas que a História dá em poucas décadas. Durante três breves anos, o Egipto e a Síria constituíram uma efémera República Árabe Unida, sob a liderança do carismático Nasser, em que o que se pretendia era criar uma grande estado árabe, englobando também o Iémen e o Iraque (que por sua vez tentara, com a Jordânia, formar um grande reino Hachemita). Mas o domínio total do Egipto desagradou aos sírios, quem em 1961, através de um golpe de estado, estabeleceram a secessão e voltaram a constituir um estado sírio autónomo. Nunca mais, desde então, houve tentativas sérias para unificar o mundo árabe, sobretudo sob a forma laico-nacionalista.
 
O que é irónico é que os antigos componentes da República Árabe Unida são talvez, actualmente, os estados árabes mais desunidos entre si, divididos entre grupos étnicos, religiosos, políticos, e até por grau dentro desses grupos. Um está numa guerra civil destrutiva, o outro receia-se que fique perto. O que prova que seria sempre uma utopia quase impossível (embora tenha chegado a existir) criar um estado com tais divisões dificilmente sanáveis.