segunda-feira, novembro 30, 2015

Análise parcial e fragmentada ao XXI governo



O tão anunciado governo da esquerda já aqui está. Em primeiro lugar, e também como primeira crítica, há que dizer que está longe de ser o governo da "maioria de esquerda", de que tanto se falou como o "sonho" próximo e o "cumprimento de Abril". O seu processo de formação, demorado, sinuoso e dependente de acordos ambíguos e alianças duvidosas, enfraquece ainda mais a sua legitimidade política: trata-se de um governo exclusivamente do PS, do partido que ficou em segundo lugar nas eleições, com a anuência (para já) dos partidos mais à esquerda. O objectivo era tão só o de impedir que PSD e CDS voltassem a governar. O "governo de esquerda" é, como se podia imaginar, uma ficção: mais uma vez, o PCP (e o seu apêndice PEV) e o Bloco ficam fora de um governo, por sua vontade, desresponsabilizando-se dos problemas que o novo executivo venha a encontrar ou com os erros que possa vir a cometer. Preferirão sempre o protesto e assumir uma condição moral que manifestamente não têm. Definitivamente não conseguem assumir responsabilidades reais, mas agora já não podem arguir que não tiveram a sua oportunidade.


Mas apesar de tudo, e já que a maioria dos deputados assim o quis, é  o governo que temos e com que teremos de viver. Não se sabe por quanto tempo, mas imaginar que um futuro presidente vá a correr dissolver o Parlamento se não houver razões plausíveis para isso só cabe na cabeça dos mais atarantados. Mas com os frágeis suportes que o sustentam, não é improvável que a legislatura não dure quatro anos.


Analisemos a sua composição. Passando António Costa, que finalmente chega ao cargo para o qual se preparou nos últimos anos (com alguns truques à mistura), temos alguns nomes esperados e algumas surpresas (nem todas agradáveis). A primeira delas desagradou-me francamente: Augusto Santos Silva. Estava curioso para saber quem seria o novo inquilino das Necessidades, sabendo de antemão que não seria Seixas da Costa. Desfeita a dúvida, sobram muitas mais. Santos Silva é um político arguto e culto, e não se lhe conhece qualquer historial de casos menos lícitos. Mas o seu perfil conflituoso e quase persecutório e o seu historial pouco amistoso e de progressiva agressividade verbal (sobretudo nos governos Sócrates) fazem dele a pessoa menos indicada para estar à frente da diplomacia portuguesa. Veremos, mas para já não é um bom sinal.
Mário Centeno é o menos inesperado dos nomes. O rosto do programa económico-financeiro do PS era já o ministro-sombra de costa, assim como Caldeira Cabral. Nada de novo, a não ser o magno pormenor do seu programa ter sido desvirtuado com os acordos à esquerda.


Azeredo Lopes é, de todo o elenco governamental, o que melhor conheço, mesmo que seja dos menos mediáticos (embora tenha tido a responsabilidade de regular os media). Conheço-o de há muito das aulas de Direito Internacional Público na UCP do Porto e de vários seminários que organizou. Especialista em DIP, comentador televisivo de assuntos internacionais, colunista do JN, antigo presidente da ERC, era ultimamente, além das funções académicas que exercia, chefe de gabinete de Rui Moreira na câmara do Porto, depois de ter sido porta-voz da sua candidatura, chega agora ao governo, e logo numa pasta com alguma visibilidade. Nem sempre sendo de trato fácil, terá de se socorrer dos seus conhecimentos de política internacional em tempos de choques entre potências, contestação da NATO, terrorismo e secessões (o tema da sua tese de doutoramento). E terá também de gerir os cacos e os conflitos deixados pelo seu antecessor.

Depois, velhos conhecidos de anteriores governos socialistas que voltam aos lugares onde foram mais ou menos felizes, como Vieira da Silva, Capoulas Santos, e, de certa forma, Manuel Heitor e Maria Manuel Leitão Marques. Destaques para a nomeação de uma magistrada, a discreta Francisca Van Dunen (embora o facto de ser a primeira negra num governo português e das suas funções em tempos da prisão de Sócrates lhe dar algum destaque), e de João Soares, que chega finalmente ao cargo de ministro, no caso da cultura, depois de ser falado para a pasta da defesa. Não é de estranhar: ocupa uma vaga governamental para o soarismo e a área não lhe é exactamente estranha - recordar, por exemplo, que era vereador da cultura em tempos da Lisboa Capital da Cultura 94, antes de se tornar presidente do município - além de que se afastam os sempre salivantes "agentes culturais" que se atiravam ao cargo, não dando azo a tantas invejas.

De Matos Fernandes (ambiente) e de Constança Urbano de Sousa (administração interna) apenas posso dizer que ouvi excelentes referências. E para além de Santos Silva, o nome que mais se assemelha a equívoco é o de Tiago Brandão Rodrigues: chamar um académico, um investigador científico de 38 anos, que há 15 estava no Reino Unido para a sempre difícil pasta da Educação não lembra ao diabo. Compreendia-se se fosse para a ciência e ensino superior. Para a educação, ficamos a pensar que os restantes candidatos ao cargo seriam péssimos.

Os dados estão lançados.

terça-feira, novembro 24, 2015

Azelhice, infelicidade e prejuízos alheios no Benfica



A derrota (mais uma) com o Sporting no último fim de semana, que teve o efeito de afastar o Benfica da Taça, reduzindo a sua luta a pouco mais que a Liga dos Campeões (e a uma classificação digna no campeonato), terá colocado Rui Vitória mais perto do risco? Talvez, e as contendas que se avizinham - o relvado sintético na longínqua e gelada Astana e o confronto em Braga - são tudo menos fáceis. As ausências de Luisão, Salvio e Semedo, e amanhã, de Gaitan, são baixas profundas num plantel que já de si é curto. Mas a verdade é que já lá vão três jogos com o Sporting em que são perdoados penaltys aos "lagartos", acrescendo as agressões do argelino de serviço, sempre impune. Neste campeonato, os sportinguistas já beneficiaram de vários penaltys e julgo que terão sofrido um. Entretanto, Jaime Soares, ex autarca de Vila Nova de Poiares durante 39 anos, em que se entretinha a insultar os adversários políticos e os antecessores, e presidente da Assembleia Geral do Sporting, i.e., alguém que entrou com a direcção de Bruno de Carvalho, especialista em enviar "comunicados" e em cortar relações quando as arbitragens não lhe agradam (mesmo quando lhe são favoráveis), e que ultimamente se empenhou  numa campanha negra contra o Benfica, acusa os benfiquistas de estarem a ser "primários" nas suas queixas e de terem "mau perder". Vindo de um capacho do mais primário dos presidentes de clubes de futebol, Soares sabe certamente do que fala. Espero voltar a ver mais do enorme fair-play que costumam demonstrar quando o Sporting for prejudicado numa qualquer competição, que pelo andar da carruagem, não há de ser no campeonato. As queixas e as pressões constantes fazem mesmo milagres nos homens do apito. Vem nos livros.
Quanto a Vitória, tem mesmo de mostrar o que vale. E isso não se pode limitar a revelar juníores com algum talento. Contrataram-no para isso, é certo, mas também para algo mais. Exigem-se resultados, se possível, algum fio de jogo, e saber porque raio Cristante e Djuricic não têm mais oportunidades.
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sábado, novembro 21, 2015

A fúria dos fracturantes (e onde param os democratas-cristão no PS)?




As esquerdas inauguraram com estrondo as questões fracturantes da nova legislatura, aprovando a adopção para casais do mesmo sexo, novas regras para a procriação medicamente assistida (que poderá incluir no futuro as célebres "barrigas de aluguer"), e claro, a revogação das alterações à lei do aborto (ou IVG, em linguagem assepticamente correcta). Se a primeira me deixa dúvidas, pelo conceito de família que introduz e à rapidez da discussão, e a segunda me deixa muitíssimas dúvidas (por me parecer mais uma forma de fabricar seres humanos, muito para além do normal tratamento à infertilidade), a última não me deixa nenhumas: trata-se de uma reviravolta ressabiada, para vincar a "união da esquerda", com um espantoso ódio à mistura, e que nem ao menos se lembra que surgiu por iniciativa cidadã. A conversa da "dignidade da mulher", do "só as mulheres decidem sobre o seu corpo", é sempre a mesma, sem nunca, mas mesmo nunca, referir que o que está em jogo está muito para além da disposição do próprio corpo. Fosse apenas isso e ninguém discutiria. Ainda por cima, a palavra que mais bradam é a da "hipocrisia", quando a hipocrisia suprema é a de virem falar minutos depois no "superior interesse das crianças". Ou seja, nos referendos do aborto diziam-nos que tudo seria feito com racionalidade, que ninguém era a favor do aborto, que era só para não punir as mulheres que o faziam ou para evitar o aborto clandestino, blá, blá, blá, e defendem agora regras que claramente promovem o aborto. Falarem ao mesmo tempo no "supremo interesse da criança" é um insulto à inteligência das pessoas. Fica a pergunta: que é que dizem a isto os democratas-cristãos Freitas do Amaral e Basílio Horta, que ainda bem recentemente afirmavam que a democracia-cristã se sentia muito bem no PS?

O facto de ainda não haver governo efectivo e de estas propostas já terem sido lançadas e votadas revela que a pressa em fazer valer o factor ideológico e fracturante era muito, e o desejo de ajustar contas também. Mas agora que estão esgotadas as questões fracturantes (ou segue-se algo pior?), onde é que as esquerdas vão arranjar agora factores de união?

terça-feira, novembro 17, 2015

Saint-Denis, dez anos depois



Em 2004 encontrei-me por breves dias em Paris. Passei no Champ de Mars, base do monumento mais famoso de França, e ao olhar para as medidas de segurança à volta, imaginei que um atentado em larga escala na cidade teria fortes probabilidades de acontecer no futuro. Esses pensamentos não eram fortuitos ou obra de qualquer imaginação mórbida: uma semana antes tinham ocorrido os terríveis atentados na estação de Atocha, em Madrid, com mais de cem vítimas mortais, e ainda andava tudo horrorizado e desconfiado. Escusado será dizer que as medidas de segurança eram mais que muitas, nos aeroportos, nas estações de metro ou junto aos pontos mais notórios da cidade.


Paris não era propriamente virgem em atentados e tem uma longa e sinuosa história de violência. Basta pensar na Revolução Francesa, nas comunas ou na 2ª Guerra. Na repressão aos manifestantes argelinos em 1961 e nas tentativas de atentados nos últimos vinte anos, alguns com êxito, como os ataques ao metro em 1995, da autoria dos salafistas argelinos, e em Janeiro deste ano a matança do Charlie Hebdo e num supermercado judeu.




Por estes dias falou-se muito no Bataclan e nos cafés e restaurantes em Paris, como seria de esperar. Os momentos mais violentos viveram-se lá, e a maioria das vítimas também estava nesses locais. Já dos atentados e demais tentativas falhadas junto ao Stade de France (que vitimaram um desditoso português) falou-se um pouco menos. No entanto, que me recorde, é a primeira vez que se tenta uma acção de grande escala contra um grande recinto, num jogo importante. Estavam oitenta mil pessoas lá dentro, a começar pelo Presidente, e jogavam as equipas da França e da Alemanha. Isto a meio ano do campeonato europeu de futebol que se vai desenrolar precisamente em França. O mais provável é que este caso servisse precisamente para torpedear o evento. Mas há outro aspecto que merece atenção. O Stade de France fica no subúrbio de Saint-Denis, a Norte de Paris, perto da basílica com o mesmo nome onde está também o panteão dos Reis de França. Há exactamente dez anos, esta zona, entre outras dos subúrbios norte e leste de Paris, era amplamente noticiada na comunicação social pelos motins que aí rebentaram, onde bandos de desenraizados sub-20 - a quem Sarkozy, à época ministro do Interior, apelidou de racaille - queimaram centenas de carros, afrontaram a polícia com coktails molotov e fizeram trinta por uma linha. A morte de dois eles por mero acidente, numa fuga à polícia, deixou a zona em chamas (e os carros literalmente). É bem possível que muitos deles tenham passado do vandalismo de rua à prática armada da Jihad com passagem nos campos da Síria, da Líbia (não esquecer) e do Iraque.










Os subúrbios guetizados e descaracterizados das grandes capitais europeias criaram os vândalos, os clérigos fanáticos e o submundo da net radicalizaram-nos doutrinalmente e os campos de treino armaram-nos. Muitos ficaram por lá, outros voltam e não hesitam em obedecer quando o Daesh apela à guerra "contra os infiéis" em toda a parte. Mas por muito mal que esses europeus de segunda geração se tenham sentido tratados, foram eles que decidiram o seu destino, que infelizmente o será também intermitente para algumas cidades europeias: a guerra.



PS: nem de propósito, a operação especial que durou sete horas de tiroteio, envolveu mais de cem homens e teve como resultado dois mortos, várias prisões e a apreensão de inúmeras armas aconteceu em Saint-Denis.



sábado, novembro 14, 2015

Paris sous l ´attaque



A noite de horror que se tem feito sentir nas últimas horas em Paris tem, como seria fácil de imaginar, origem em gente que grita "Allah Akbar". O autoproclamado Estado Islâmico já terá reivindicado a série de atentados cometidos hoje na capital francesa. Não se sabe se assim é, mas a probabilidade é mais que muita.
Stade de France, restaurantes cambojanos no centro, um teatro com nome boémio, Les Halles...o centro nevrálgico da rive droite e o maior recinto desportivo francês (quando decorria um jogo entre as selecções alemã e francesa, com a presença do próprio François Hollande, imediatamente evacuado) foram alvos escolhidos a dedo. Note-se que a França organiza o campeonato Europeu de futebol no próximo Verão. E repare-se também que um dos alvos era a Avenue Voltaire. Não será certamente coincidência o nome da artéria e o facto de ter sido por ela que desfilou a manifestação de repúdio aos tentados de Janeiro deste ano.

A França, pela sua centralidade e pelas intervenções contra os jiadistas, é um alvo previsível. Paris é talvez o mais parecido com o que há de "capital da Europa", mais do que a cosmopolita mas insular Londres, a eterna mas estagnada Roma, a libertária Berlim, a administrativa Berlim, a burocrática Bruxelas ou a autoritária e euroasiática Moscovo. E essa centralidade acaba de ser atingida de forma brutal, pelo maior cancro do mundo actual: o jiadismo militante e o seu habitual rasto de terror e sangue. É um ataque à França, à europa e à Liberdade, com dezenas de vítimas como alvo concreto. Pode ser um sinal de desespero da besta acossada, mas será algo de muito perigosos com que teremos de viver nos próximos tempos. Os atentados em Beirute, também com dezenas de mortos, e o possível atentado ao avião russo no Sinai poderão também ser mostras disso.

A esta hora contam-se cerca de 140 mortos, mais os feridos em estado muito grave, o que indicia que número de baixas vai aumentar. A França está em estádio de sítio, as tropas estão nas rua e as pessoas em casa, receosas de sair. Terá de haver uma reacção firme contra os terroristas e quem os apoiar (por exemplo, clérigos que pregam a Jihad nas mesquitas, manifestações de rua com a bandeira do Daesh, além da caça aos criminosos), e ao mesmo tempo evitar bodes expiatórios ou aproveitamentos políticos de grupos xenófobos, que não hesitarão em mais uma vez apontar o dedo aos refugiados da Síria.

Mas até lá, há que enterrar os mortos, cuidar dos vivos, evitar "réplicas" e reflectir. E acima de tudo, mostrar de novo que o medo não vai ser o legado de vermes travestidos de religiosos.


PS: a iniciativa Porte Ouverte é um dos melhores sinais de solidariedade perante o horror: pessoas que dão abrigo a quem andar desorientado nas ruas, sem saber onde se abrigar.

quinta-feira, novembro 12, 2015

Paulo Cunha e Silva 1962 - 2015


Se ontem fiz um curto epitáfio de uma pessoa que morreu com quase cem anos, hoje faço de outra que desapareceu com pouco mais de cinquenta. Paulo Cunha e Silva deixou-nos de repente, sem se despedir, tão subitamente que ainda estão no ar, sem tempo para cair ao chão, todos os seus projectos pendentes, todas as ideias que lançou recentemente, todos os eventos a cujo lançamento presidiu e que estão aí, a ser realizados.

Cunha e Silva andava a mil à hora. Estava em toda a parte, em todos os eventos, falava de tudo e a tudo acorria, sempre com ideias novas. Talvez por isso o coração o tenha traído depois de mais uma ronda em que tinha acabado de inaugurar o ciclo de toda a filmografia de Manoel de Oliveira, logo ele, que era médico de formação e professor de anatomia, tendo sido o aluno mais brilhante do seu curso (Eurico de Figueiredo conta que foi o único 20 que atribuiu a um seu aluno, embora não tenha sido o único que Cunha e Silva recebeu). Enveredou pelas artes, tornou-se colaborador de Serralves e acabaria por ser o programador cultural do Porto 2001. Com a aversão de Rui Rio à cultura (não entrou na CM do Porto entre 2011 e 2013), presidiu ao Instituto das Artes do Ministério da Cultura, foi conselheiro cultural da embaixada de Portugal em Roma, antes de regressar a Portugal e de ser eleito vereador na lista de Rui Moreira. Lembro-me de na campanha eu ter levado um oleado para a chuva que caía abundante por esses dias com a marca do Porto 2001, e dele me dizer que tinha perdido o seu e que aquele devia ser o único exemplar existente, e de na noite da vitória, há dois anos, quando estávamos cá fora, em plenos Aliados,  de o ouvir já a traçar planos para quando tomasse posse, começando pelo Rivoli. O tempo comprovou que não esta simplesmente a divagar, como se pôde ver pelo sucesso que teve na maneira como reorganizou a Feira do Livro.

Na última campanha, o MPT tinha algumas ideias arrojadas para uma acção com visibilidade que chamasse a atenção para o esquecimento e a inutilidade a que está votada a Ponte Dona Maria Pia, mas infelizmente ficou-se por uma faixa na base (e acreditem que colocar uma coisa em lona de 15 metros demora as suas horas, sobretudo quando só está duas pessoas a fazê-lo).



 A ideia seria aproveitar a visibilidade para depois discutir com a CM do Porto diferentes formas de a reabilitar. Nos próximos dias iríamos contactar Paulo Cunha e Silva, que aliás já estava a par da ideia. Há coisa de duas semanas vi-o a abrir a conferência sobre o centenário da morte de Alfredo d´Andrade, no consulado de Itália, organizado por uma querida amiga minha. No fim do seu discursos, em que falou da sua paixão por Itália e da sua alma dividida entre Itália e Portugal (considerando-se ali como que um "agente duplo"), despediu-se, já que tinha de estar naquela mesma hora noutro evento. Na altura queria falar-lhe da acção da ponte, mas pensei que ficaria para breve. Não imaginava que não teria outra oportunidade nem que o não veria mais.

Ironicamente, a última fotografia na página oficial do facebook de Rui Moreira antes da morte do seu vereador é exactamente da ponte Dona Maria, em contraluz. A que colocou a seguir mostra Paulo Cunha e Silva com a condecoração de Chevalier des Arts que lhe tinha sido atribuída em Outubro pelo governo francês. A última e justa homenagem a um homem que ainda tinha imenso para dar e que deixa o Porto e a cultura nacional tremendamente mais pobres.





quarta-feira, novembro 11, 2015

Helmut Schmidt 1918 - 2015



Morreu Helmut Schmidt. Não andava longe dos cem anos - 96, para ser mais preciso - e até há bem pouco tempo ainda dava entrevistas. Exerceu o cargo de Chanceler da RFA entre 1974 e 1982, com o apoio dos liberais, sucedendo a Willy Brandt, depois da demissão deste por causa do caso do seu assessor, que era afinal um espião da RDA. Exerceu o cargo durante dois mandatos bastante agitados. Teve de enfrentar o período de maior virulência dos atentados terroristas da Fracção do Exército Vermelho, mais conhecido como Baader-Meinhof. Defendeu a CEE e os alargamentos ao Sul, defendeu a NATO e permitiu a instalação dos "euromísseis" na RFA, perante a ameaça dos mísseis da URSS e contra a opinião dos pacifistas "antes vermelhos que mortos". Além de todos esses trabalhos ainda reforçou os benefícios sociais. Seria substituído em 1983 por outro Helmut, Kohl, que ficaria 16 entre as chancelarias federais de Bona e Berlim.

Schmidt não tinha grandes problemas em dizer tudo o que pensava. Acima de tudo, conservava uma enorme incorrecção política para os tempos que correm: apesar de usar um peacemaker há mais de 30 anos, fumava que nem uma chaminé, em toda a parte, mesmo onde era proibido, e não abandonou o fumo até à morte (com 96 anos, recorde-se), na cidade onde tinha nascido, Hamburgo. Um sério embaraço nos locais onde fumar é estritamente proibido e uma autêntico desafio à lógica dos malefícios do tabaco.


sexta-feira, novembro 06, 2015

Os dilemas do PCP



O PCP deve estar a passar por um dilema tortuoso. O velho partido marxista-leninista já teve muitas crises, mas não foram com certeza de identidade. Os dias que passam podem ser completamente diferentes. Na possibilidade de haver um governo apoiado pelas esquerdas, ou o PCP assina mesmo um acordo e dá pelo menos apoio parlamentar, correndo assim o risco de não satisfazer o seu eleitorado, geralmente contra qualquer governo e que constitui o grosso dos sindicalistas da CGTP, podendo desta forma descaracterizar-se irremediavelmente, perder a sua identidade e a sua aura de combate "às políticas de direita" e definhar sem retorno (além de deixar a CGTP na dúvida se organiza ou não greves); ou recusa tal acordo, denunciando as políticas do PS e mesmo do Bloco, cabendo-lhe então o ferrete do partido que impediu o primeiro governo constitucional das esquerdas, o eterno partido irredutível do protesto que viabilizou o segundo governo de Passos Coelho. Também aqui há o risco de perder alguns apoiantes, acantonando-se apenas com os mais fieis, com o risco de ir deixar o Bloco ocupar por muitos anos um lugar fulcral à esquerda e de ir fazer concorrência ao MRPP.
Qualquer que seja a opção, será sempre muito complicada e nunca isenta de dúvidas. Pouco se deve dormir por estas noites entre Pirescoxe e a sede da Soeiro Pereira Gomes.

domingo, novembro 01, 2015

Dias de Finados e o de Todos os Santos.


Noutros tempos, o Dia de Finados, 2 de Dezembro, servia para que cada um fizesse a sua romaria pessoal aos cemitérios, mas com a extinção do feriado desse dia, reservou-se esse dever para o anterior, de Todos os Santos, que entretanto também perdeu a dignidade feriadal. Ainda assim, e mesmo com o recuo do gesto de revisitar a memória dos que já morreram, para mais ensombrado pelo mais descontraído e mais carnavalesco Halloween, uma coisa vinda do imaginário celta/new age das Américas que pouco atingiu a minha geração, grande número de pessoas continua a fazê lo. Outros não o fazem, por mudança de hábitos, desconhecimento, a pouca importância que dão ao assunto, ou porque o medo da morte simplesmente os incomoda, uma coisa muito frequente nestes dias de intenso materialismo e de fuga ao que natural fim da vida (embora paradoxalmente haja um certo gosto pelo macabro e pelo mórbido). Mas outros continuarão sempre a fazê-lo. É bom que este hábito se mantenha, pela memória, pelo respeito e saudade dos que nos deixaram, e porque afinal nenhum de nós vai ficar cá para sempre. E os cemitérios não têm de ser necessariamente locais de morbidez, como os ultra-românticos tanto gostavam; podem muito bem representar cenários de reflexão, de silêncio e de paz, coisas tão necessárias e terapêuticas à mente humana. Pela minha parte, e porque tanto um como o outro dia me tocam por fortíssimas razões pessoais e familiares (uma delas intrinsecamente relacionada com a própria data), não deixarei nunca de os recordar e celebrar.


Vila Real,  a 31 de Outubro, véspera do dia de Todos os Santos.