quarta-feira, dezembro 31, 2014

Curiosidades e ironias que 2014 nos mostrou



Ao cair do ano olhemos rapidamente para outros pontos do globo. Para a Ucrânia, por exemplo, um dos países mais falados em 2014. E para a Rússia dos últimos tempos. Por muito hábil que seja o jogo de Vladimir Putin, a verdade é que os dias do presidente russo não estarão a ser muito calmos (ninguém sabe o que está para vir). E certamente não foram nada agradáveis naquele fim de semana de 22-23 de Fevereiro, em que viu o governo do seu aliado Viktor Yanukovitch a cair na Ucrânia. É certo que lhe permitiu anexar de facto a Crimeia e espalhar a desordem no Leste e Sul dos vizinhos, mas provavelmente preferiria, para já, que o anterior presidente se mantivesse em funções.

A verdade é que o derrube do anterior presidente coincidiu com o encerramento dos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, para os quais a Rússia não se poupou a gastos nem dispensou espectáculos visuais impressionantes nem uma segurança apertadíssima, por causa dos recentes atentados em Volgogrado. Até então, a vida corria bem a Putin: a Rússia marcara pontos e ganhara legitimidade moral internacional no conflito da Síria, as Pussy Riot e Mikhail Khodorkovsky foram indultados, amaciando a dureza do regime russo, e os jogos correram bem, sem nenhum incidente e com comemorações em grande. Só uma pedra no sapato: naquele preciso fim de semana, o amigo Yanukovitch era derrubado e substituído por um governo interino adverso à Rússia. E as coisas começaram a descambar precisamente aí. O período de graça de Putin acabou aí (fora da Rússia, porque lá dentro a sua popularidade só aumentou).


Mas o aspecto simbólico que gostava de mostrar é outro, e permaneceu na festa de Sochi. Nas cerimónias de abertura, destacou-se o conhecidíssimo Coro do Exército Vermelho, a cantar uma divertida versão de Get Lucky, dos Daft Punk, uma das músicas mais tocadas dos últimos anos nas pistas de dança de todo o Mundo. Um espectáculo com piada, e que é um hino à globalização: um grupo de rapazes russos a cantar, numa cerimónia internacional no litoral do Cáucaso, uma música em inglês da autoria de um duo francês, um dos quais com apelido português.

E é precisamente daqui que vem a outra curiosidade: o elemento de origem lusitana é Guy-Manuel de Homem-Christo, francês de terceiro geração, trineto do jornalista e polemista republicano Homem-Cristo (pai), reconhecido na toponímia aveirense, e bisneto de Francisco Homem Cristo (filho), que se destacou por ter sido o primeiro grande intelectual e propagandista do fascismo em Portugal, e cuja biografia política, Do Anarquismo ao Fascismo, e da autoria de Miguel Castelo Branco. De tal maneira ganhou a confiança de Mussolini que se tornou logo um dos principais "embaixadores" do duce para espalhar a nova doutrina pela Europa, e mesmo para organizar um congresso do fascismo em Itália. Morreu em 1928, em Roma, num desastre de automóvel, no decurso dessas actividades políticas, quando já vivia e tinha família em França.

O irónico disto tudo é que provavelmente o Coro do Exército Vermelho, surgido como o próprio nome indica, no tempo da União Soviética, não imaginaria sem dúvida estar a cantar uma música da autoria do bisneto de um notório propagandista do fascismo, inimigo mortal (ou outra cara da moeda?) da URSS. E com toda a certeza Homem Cristo Filho, admirador e defensor do fascismo italiano, jamais pensou que um seu descendente directo comporia músicas em inglês que seriam cantadas pelo coro do Exército Vermelho. Não seria essa, com certeza, a divulgação que pretenderia, mas o certo é que um seu descendente com o seu nome acabou por se tornar mundialmente conhecido pela sua música, e não certamente pela sua ideologia política 8nem pela sua cara, já que o duo há anos que só aparece em público mascarado).

Bom 2015 a todos.

A deserção de CAA




A "confissão" de Carlos Abreu Amorim na já célebre entrevista ao Público na semana passada deixava adivinhar uma discussão acalorada, como o próprio título deixava prever. É verdade que CAA (como assinava) esteve na linha da frente do liberalismo político e económico na blogoesfera e em boa parte da opinião publicada, fosse no Blasfémias ou nos seus escritos aos quais dava o título de "é difícil ser liberal em Portugal", em que se mostrou sempre convicto, assertivo e até truculento. CAA esteve no CDS, saiu com Manuel Monteiro para a Nova Democracia, voltou a sair quando percebeu que não era um projecto liberal como pensava (com direito a manifesto de justificação), mas anos depois, e negando esse mesmo manifesto em que afirmava que "não tinha jeito para homem de partido", aderiu ao convite do PSD de Passos Coelho (supostamente liberal), elegeu-se como deputado por Viana e chegou mesmo a ser o candidato à câmara de Gaia. Daí que esta mudança espante muito, mesmo que houvesse alguns indícios nesse sentido, como cheguei a apontar, sobretudo o apoio eufórico ao ultra-despesista Luís Filipe Menezes, ou seja, tudo a que CAA se opusera antes.


A justificação que CAA dá é sobretudo o da crise financeira despoletada em 2008 e o tombo do BES, que necessitam de um "estado forte". Não tenho nada a objectar, mas fico sem perceber se o entrevistado, que sempre me deu ideia de ser um indivíduo culto longe dos populistas de café, pensava antes que não tinha de haver qualquer regulador para que o mercado funcionasse, ou se achava que a existência de um regulador não era o malfadado "socialismo", e então havia alguém no posto da vigia a regular as fronteiras aceitáveis do mercado. Se se trata da primeira hipótese, é perfeitamente aceitável, já que CAA dava ideia de ser um entusiasta da mão invisível e da cataláxia, essa auto-regulação da sociedade, e portanto trata-se mesmo de uma mudança de ideias. Caso contrário, pode perfeitamente conservar-se liberal tentando mudar as circunstâncias (i.e., pedir o reforço da regulação) e  não as ideias. Será meramente uma fuga para a frente ao aperceber-se da impopularidade do liberalismo. Tendo em conta que o choque ocorreu recentemente, ao fazer parte da comissão de inquérito do BES, e sabendo o apoio dado antes a Menezes, podia inclinar-me para esta hipótese, e aí aconselhá-lo-ia o artigo de Gonçalo Almeida Ribeiro, no Observador, mas prefiro ser benevolente e acreditar que uma houve uma genuína e dolorosa mudança de uma ideologia em que cria ardentemente. Até porque diz a meio duas frases determinantes:  a lógica do liberalismo económico tem uma contradição insanável com a natureza humana. O agente económico deve ter regras fortes e devem existir instituições que forcem a sua aplicação. Caso contrário, a ganância, a prevaricação, o instinto de fuga às regras. Nem mais. Isto é algo em que os devotos do liberalismo quasi sem regras deviam reflectir (e os marxistas também, por razões parecidas).


De qualquer maneira, não é o primeiro liberal fervoroso a abandonar o "barco": também Pedro Arroja, que por sinal também passou pelos Blasfémias, o deixou. E conheço pessoalmente outros casos. Um fenómeno parecido com o de ex-comunistas, quando a ideologia lhes desaba em cima (aconteceu na europa em 1968, e em Portugal em 1989-1991), de crentes religiosos, quando perdem a Fé, ou de não-crentes, quando a encontram. Um processo sempre doloroso, que creio ser de imenso vazio e alguma orfandade, e que nos casos mais graves levam a que se quebrem relações sociais e de amizade de anos e que se abandonem lugares, trabalhos e hábitos. Por isso espero que CAA recupere rapidamente o seu lugar ideológico, e que sobretudo saiba honrar o lugar para que o elegeram.


PS: e que por favor, não volte e encomendar coisas destas, que são mais dignas de programas de humor.

quarta-feira, dezembro 24, 2014

Natal em 2014




O essencial é isto. Que nada nos estrague a sã convivência entre a família, e para os que não a têm ou não podem, que ganhem renovada esperança.

quinta-feira, dezembro 18, 2014

Cuba libre?



O anúncio do reatamento das relações entre os Estados Unidos e Cuba, entra seguramente para o pódio das notícias mais importantes do ano (a nível internacional, se quiserem), numa semana em que não foram particularmente animadoras, com o horrível atentado que custou a vida a mais de cem crianças nesse repositório de loucos que é o Paquistão. O fim de uma prolongada hostilidade separada por poucas dezenas de quilómetros é plena de significado, e já teve alguns resultados concretos, como a libertação de três cubanos e de um americano, presos por espionagem. Também as relacções bancárias e viagens directas de um país para o outro serão retomadas. O tão falado embargo terá o seu fim se o Congresso o aprovar, o que com uma maioria republicana não muito para aí virada não deve ser propriamente um dado adquirido.

Mas a abertura da ilha e o degelo com os vizinhos são inevitáveis. Os beneficiados são desde logo os desgraçados que se lançam em balsas com a esperança de alcançar a Flórida, que muitas vezes ficam pelo caminho. Depois, a esperada liberalização política chegará provavelmente a Cuba, porque só o embargo e o discurso à volta dele suporta um regime que tem resistido surpreendentemente em mais de vinte anos à queda da URSS. Acaba também um foco de tensão com mais de cinquenta anos, os EUA limpam uma mancha e de certa forma largam algum lastro moral. E mais uma vez se demonstra que a diplomacia do Vaticano, que estabeleceu pontes entre os dois inimigos, continua a ter uma influência preponderante e com resultados notórios, depois das visitas de João Paulo II e Bento XVI à ilha, prosseguida depois por Francisco, em cujo dia de anos se tornou pública a grande notícia (propositadamente?). O Vaticano talvez não tenha divisões militares, como jocosamente ironizava Estaline, mas além de ter assistido aos desmoronar do estalinismo e sucedâneos, mantém pelos séculos dos séculos uma diplomacia mais eficaz que qualquer outra.

Haverá quem desconfie, quem seja prudente ou que ache que há aqui lirismo a mais, mas seja como for, a novidade é boa para todos. Só não será para os cínicos e os fanáticos, desde os comunistas inamovíveis saudosos Cominform e de Che Guevara e que nunca aceitarão a "capitulação ao imperialismo" até aos obtusos republicanos americanos que lamentam o "estabelecimento de relações com um regime totalitário", talvez esquecidos das que os EUA têm com a encantadora Arábia Saudita. Passando, claro, pelos cubanos de Miami, que na sua maioria vêm com apreensão as novas relações entre vizinhos. Será que não têm familiares na ilha que gostariam de rever? Ou que pensam que as relações dos últimos 50 anos deram algum tipo de resultado? Uma coisa é certa: a partir do dia 17 de Dezembro, Cuba ficou com certeza mais livre.


terça-feira, dezembro 16, 2014

O campeão voltou!




E desta vez para ficar, esperemos. Sofreu-se mas ganhou-se bem. Poucas oportunidades? Não muitas menos do que o adversário. Menos ataques e posse de bola? "Peanaers", como diria Jesus. Sorte porque tivemos duas bolas na nossa barra? Sim, depois da lesão do Luisão, capitão da equipa e principal referência da equipa e esteio da defesa. Sorte, só sorte. Liderança reforçada e seis pontos de vantagem. Provou-se quem plantel novo, mesmo com qualidade, nem sempre supera um mais velho mais mais maduro, e que a equipa de "Lotopegui" está longe de ser a maravilha que diziam dela. Cânticos de bom Natal, entrecortados com "tudo a saltar" ribombaram no Dragão. Se tudo correr bem, continuarão lá até ao fim da época.

segunda-feira, dezembro 15, 2014

As razões da queda do Bloco

 
A razão da contínua decadência do Bloco de Esquerda é consequência de uma velha tradição portuguesa. Mas o Bloco, por desconhecimento (com um número tão grande de sociólogos que não lhe servem para nada) ou por colectivismo ideológico, não parece chegar lá.

A tendência mui portuguesa para que as pessoas sigam formações com um líder forte, carismático, ou pelo menos, que represente uma identificação mínima com o movimento que lidera, é situação que qualquer pessoa que siga minimamente a política percebe. Nem é preciso ir a Salazar, ao "líder providencial" ou ao sebastianismo: fiquemo-nos pela Terceira República. O agora de novo tão badalado Sócrates, por exemplo. O "animal feroz", homem que agrega ódios (de quem acha que é o maior ladrão de sempre) e paixões (aquela mulher a bradar "mesmo que ele seja ladrão, eu voto nele!") levou o PS à sua maior vitória de sempre, em 2005, e resistiu a um grande desgaste em 2009. Acabou por perder quando tinha tudo contra ele.
Outro caso recente: o CDS estaria hoje no governo se não fosse a persistência de Paulo Portas, cujo acrónimo é comparado ao do próprio partido? Não é ele o principal elemento agregador de uma formação que tem votações razoáveis em eleições nacionais e fracas nas locais?
Veja-se o PSD: Cavaco já teve melhores dias, mas então tornou o seu partido hegemónico e o país a pintar-se de laranja.
E o velho PCP? Chegou aos 20% com Cunhal, decaiu com a estabilidade política e a queda do comunismo em 1989. Com Carvalhas, definhou. Com Jerónimo, resistiu e cresce de novo. Apesar de durante anos o vetusto partido comunista raramente apresentar caras nos seus cartazes, que eram autênticas "sopas de letras", para realçar o elemento "colectivo", todos sabiam que havia homem no leme, ou melhor, à frente do comité central.
Quanto ao cometa dos anos oitenta, o PRD, só surgiu porque estava colado à imagem de Eanes. é verdade que o general não tinha grande queda para a vida partidária, mas quando ele desistiu o partido simplesmente desapareceu.
E podíamos ainda falar do fenómeno Marinho Pinto e do extraordinário resultado que ele sozinho obteve nas últimas europeias. Ou recuando mais de vinte anos, recordar como o PPM teve interessantes resultados quando apareceu com a cara de Miguel Esteves Cardoso. Tudo para demonstrar como os nomes e os líderes são importantes na política partidária portuguesa. Sem isso, não têm o menor sucesso. O bloco cresceu com um aglomerado de gente, mas sempre com a figura tutelar de Francisco Louçã. A solução bicéfala revelou-se um erro. As emendas foram piores que o soneto: tudo encravado numa convenção com número ímpar de delegados e acabaram por criar uma liderança exacéfala, com a antiga "co-coordenadora", por sinal o elo fraco da liderança dual, no papel de porta-voz. Cada vez mais irrelevante e com uma sangria de elementos válidos e mediáticos, o Bloco parece perseguir o seu suicídio assistido intransigentemente. A liderança conjunta entre dirigentes que já não se dão bem entre si, de facções diferentes e adversas, só pode conduzir ao desastre. Apostar no "colectivo" na política não dá bom resultado, nem é como no futebol. E mesmo aí tem de haver um "mister" para liderar o grupo e levá-lo a bom porto. O Bloco encalhou nos recifes.

quarta-feira, dezembro 10, 2014

Pela Serra amarela, em Dezembro



Levantar quase de madrugada, ainda escuro, num domingo de Dezembro, sem quaisquer obrigações de maior, pode parecer bizarro, mas justifica-se se for para uma volta por regiões portuguesas tão longínquas como apelativas. Se for no Gerês, mais ainda. Há muito por onde escolher. A Serra Amarela, ali entre a Serra do Soajo e a da Peneda, a Norte, o vale do Lima, a Oeste, e a barragem de Vilarinho da Furna, a Sul, é uma das muitas alternativas. E não é por ser no Inverno que é menos atractiva, mesmo sem neve.








terça-feira, dezembro 02, 2014

A justa consagração da identidade alentejana


O reconhecimento do cante alentejano como Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO surpreendeu-me pela rapidez da aprovação. Julgava que ia demorar anos, que iriam esperar algum tempo depois de igual reconhecimento do fado, e que por comparação, a música do Alentejo estaria uns degraus abaixo. Mas olhando bem, vêem-se tantas tradições culturais a receber  a mesma "categoria", e algumas delas que até nos parecem muito mais irrelevantes, que este galardão afinal acaba por ser lógico e perfeitamente justo. Será o cante, com a sua melodia arrastada, melancólica e misteriosa, legado das passagens de árabes e judeus pelo território agora de Portugal, inferior, por exemplo, ao Carnaval de Alost? Talvez daqui a alguns anos outras tradições culturais musicais, como o vira, o fandango ou corridinho, tenham a mesma sorte. Para já, há que nos congratular com o facto do cante alentejano, ter sido ouvido em Paris por estes dias (há quem ache que pode ser um novo chamariz turístico, para além do sol e da praia), e por ser ensinado de geração em geração nas escolas, uma vez que na agricultura é coisa quase impossível. Um abraço a todos os alentejanos que o fazem ouvir, nos grandes auditórios de Paris ou nas tabernas de Serpa.



domingo, novembro 30, 2014

Vinte anos de Banco Alimentar no Porto

 
Há vinte anos, por esta altura, chegou ao Porto a primeira campanha do Banco Alimentar. Os espaços e armazéns eram bem mais pequenos, e os sócios, ainda que em boa quantidade para aquela estreia, menos numerosos. Participei logo nela, numa enevoada manhã de Sábado, distribuindo saquinhos e informação à porta do Jumbo da Maia (onde nunca tinha estado antes), perante a indiferença, enfado ou compreensão dos transeuntes. Mas lá se conseguiu fazer uma muito razoável campanha, e a partir daí, sempre em crescendo. Continuei durante vários anos a fazer campanha à porta dos supermercados, passando daí para o trabalho administrativo fora e dentro das campanhas (registar voluntários, por exemplo) e para os trabalhos mais pesados, de carregar e descarregar separar e acondicionar alimentos, no armazém propriamente dito, em especial no domingo à noite, quando chega o grosso dos donativos e há menos gente disponível, sobretudo nesta época pré-natalícia. É bastante cansativo e os músculos ressentem-se no dia seguinte, mas é compensador pela causa e pela alegria e entusiasmo no trabalho que não se vê em mais parte nenhuma. E nestes vinte anos deu para ver a crescente generosidade das pessoas, que aumenta ainda mais em tempos de crise. O Banco Alimentar passou da desconfiança ao reconhecimento total, mesmo com alguns escolhos pelo meio.
Vinte anos depois desses sábados de manhã nos hipermercados, o trabalho é diferente (mas não menos exigente), mas a causa é a mesma e as necessidades maiores. Neste fim de semana podemos ajudar uma quantidade de pessoas cujas necessidades podem não ser visíveis, mas existem e não são poucas. Dar uma ajuda ou um contributo no voluntariado pode não custar muito para quem dá, mas mas pode fazer a diferença para quem recebe.

sábado, novembro 29, 2014

E ensinar a alguns jornalistas algumas noções de geografia política?

É curioso ver algumas gaffes ou omissões dos nossos jornalistas televisivos. Na última semana encontrei dois casos que mostram o incrível desconhecimento (de geografia política, sobretudo) da classe do que se passa no Mundo.
Achava que o nosso jornalismo desportivo era melhor, mas aparentemente enganei-me (o televisivo, pelo menos). Ainda sobre o Portugal-Argentina de há dias, um jogo maçador e frustrador das expectativas de quem ia ver um duelo de selecções entre Cristiano Ronaldo e Messi, era bom saber quem teve a ideia de marcar aquele jogo no estádio de Old Trafford, casa do Manchester United, à mesma hora de um Escócia-Inglaterra. Como era de prever, só esteve meia casa, e quase ninguém devia ser britânico, a avaliar pelas bandeiras e pelas feições do público. O que não admira. o confronto entre ingleses e escoceses é o mais antigo entre selecções, e ainda mantém alguma chama de rivalidade, provavelmente atiçada com o recente referendo sobre a autodeterminação na Escócia. Ou seja, os ingleses estavam todos a ver o jogo da sua equipa, que aliás até ganhou. Mas na maçadoria do jogo, e por causa das múltiplas nacionalidades presentes no estádio, sobressaiu a certa altura a entrada de um adepto pelo relvado dentro. Os stewards agarraram-no e a brincadeira acabou ali. Os jornalistas, entre gracejos, repararam que tinham uma camisola argentina, mas provavelmente por ignorâncias, não falaram da bandeira que adepto empunhava, que era simplesmente a do Curdistão. O que se percebe perfeitamente, numa altura em que os curdos, ao mesmo tempo que têm mais autonomia do que nunca, debatem-se com a ameaça do autodenominado "Estado Islâmico", ou califado do Levante. Aparentemente ninguém na imprensa portuguesa referiu isso. Caso fosse, por exemplo, um palestiniano, ou um catalão, com toda a certeza que não se esqueceriam. Mas como a causa curda não tem a mesma popularidade e provavelmente acharam que aquela bandeira tricolor com um sol no meio era apenas o distintivo de um qualquer clube de futebol, a coisa passou incógnita. Para uns será um pormenor de somenos. Para outros, e olhando para o que se passa na região do Curdistão, deveria ser uma falha digna de repórteres apenas e só da bola, como se demonstrou ser.


E ontem, mais uma falha, esta quase burlesca: aquela em que um jornalista, nos Emirados Árabes Unidos, relatava a visita de Cavaco Silva à federação da Arábia, dizendo que o chefe de estado português seria recebido pelo "príncipe herdeiro e presidente da república". Um paradoxo só explicável por se tratar de uma monarquia electiva, mas que nem por isso se trata de uma república, nem tem um "presidente".


sexta-feira, novembro 28, 2014

Uma minoria na presidência da Roménia



Interrompa-se por uns momentos as atenções sobre a prisão (agora efectiva) de José Sócrates e rume-se a outras paragens, para desanuviar. As eleições presidenciais da Roménia, há poucos dias, trouxeram um factor novo (não, não é o falhanço incrível das sondagens que já não é novidade). O favorito a ganhar à segunda volta, que já tinha ganho por larga margem na primeira, o actual  primeiro-ministro socialista Victor Ponta, acabou por ser surpreendentemente derrotado pelo seu adversário, o líder do Partido Nacional Liberal (também do presidente cessante Traian Basescu) e presidente da câmara da encantadora Sibiu Klaus Ihoannis. Para além da surpresa, a novidade é ver um representante duma minoria à frente dos destinos da Roménia. Não é vulgar que isso aconteça em qualquer estado do antigo Pacto de Varsóvia (alguém imagina um judeu ou cigano à frente dos destinos da Hungria?), e ainda menos na Roménia, um país que no passado enviou milhares de judeus para os campos de concentração, desterrou ciganos e turcos para planícies desoladas e expulsou grande parte dos húngaros e germânicos que viviam no seu território havia séculos, pondo termo a uma interessante experiência multiétnica.


Não é o primeiro romeno de etnia saxónica (alemã) a ser objecto de grande reconhecimento nos últimos anos: a escritora Herta  Muller, que entretanto se tinha radicado mesmo na Alemanha, ganhou o prémio Nobel da Literatura em 2009. Se recuarmos muito no tempo, ainda podemos incluir Johnny Weissmuler, o atleta que se imortalizaria no papel de Tarzan. E no entanto, a minoria germânica, que se divide por várias regiões, em especial o Banato e a Transilvânia, que lá habita há vários séculos, está reduzida a umas escassas dezenas de milhares de representantes. Em tempos que já lá vão chegou a ser uma percentagem muito considerável do território da actual Roménia. Foram eles que elevaram cidades como Hermmanstad (Sibiu) ou Kronstad (Brasov), aldeias, igrejas e castelos, e que fizeram a prosperidade daquelas terras, estabelecendo laços comerciais com a Europa central e também com os otomanos. Com a 2ª Guerra, o regime comunista e a confusão que se seguiu à sua querda, a maioria emigrou para suas as origens remotas da Alemanha. ficaram uns poucos, entre os quais Klaus Iohannis, que agora chega ao cargo mais alto da nação. Se os saxões da Roménia perderam muito em número, não parecem ter perdido em relevância nem em influência da vida do país. Ainda vamos ver teóricos da conspiração a ver o longo braço de Merckel estendido até ao Mar Negro...


sábado, novembro 22, 2014

O fantasma


Uma das coisas que me deixa curioso com a detenção de Sócrates (que seria a bomba política do ano, não fosse a derrocada do banco de todos os regimes BES, cuja relevância partilha ex aequo ) é como será o estado de espírito do congresso do PS, que se realiza já no próximo fim de semana. O acto formal de entronização de António Costa, que tinha tudo para ser uma união à volta do novo líder e uma forte alavanca para uma maioria sólida nas legislativas do próximo ano, terá um grande fantasma a esvoaçar, o fantasma de José Sócrates. Será que o vão exorcizar? Ou procurar defendê-lo? Cenas do próximo episódio da vida política portuguesa em 2014.


Adenda: o sentido de oportunidade do Câmara Corporativa, o blogue oficioso do PS socratista, é digno de estudo. Veja-se o post, supostamente irónico, que eles colocaram a propósito da discussão do fim das subvenções vitalícias...poucas horas antes da detenção de Sócrates.

quarta-feira, novembro 19, 2014

Nem tudo o que luz


Para lá da demissão de Miguel Macedo do seu cargo de Ministro da Administração Interna (aliás um dos mais competentes deste Governo), começou-se finalmente a falar a sério da questão dos vistos gold e de tudo o que eles acarretam, de bom e de mau (principalmente). É que se se trata de atribuir nacionalidade a quem dá mais dinheiro, como uma espécie de brinde pela compra de imóveis, e assim dar também alguma dinâmica ao retraído mercado imobiliário, não estaremos muito longe das vendas de indulgências aos mais ricos, que provocaram a Reforma protestante, além de que, como já várias pessoas lembraram, é de uma incrível falta de vergonha se comparados com os refugiados que esperam anos, muitas vezes em vão, para adquirir a nacionalidade de um país europeu (sem falar nos filhos desses refugiados ou emigrantes, que nem o facto de nascerem na europa, muitas vezes, lhes dá um passaporte). É mais um caso em que o utilitarismo puro - a atribuição de um passaporte em troca de dinheiro (para lavagem?) e um imóvel - supera qualquer senso moral. Nem tudo o que luz é gold, e neste caso há muito pouca luz a incidir sobre ele.

quinta-feira, novembro 13, 2014

Requiem pelos telemóveis da Nokia


A notícia de que a Nokia vai deixar de fazer telemóveis deixou-me com uma imensa saudade do presente. É que os meus aparelhos sempre foram da marca finlandesa e sempre usei cada um por um longo tempo. Não percebo, francamente, qual a necessidade de se mudar de telemóvel todos os anos, mas deve ser por causa desta fantástica era hiper-consumista e efémera em que vivemos. Também nunca precisei de nenhum smartphone com não sei quantas aplicações, a maior parte totalmente inúteis, dentro das que têm a sua piada. Têm uma estética atraente, mas sinceramente, não vale o preço. Para mim, um telemóvel serve para falar, mandar mensagens e vá lá, ouvir música e eventualmente tirar fotografias, embora isso acabe por ser uma permanente violação da vida privada. E para essas funções, os telemóveis Nokia são perfeitos. Pequenos, funcionais, duradouros, por vezes com uma estética elegante, não era preciso mais nada. Mas a avalanche de i-phones, blackberrys, androids e tudo o mais levou a que esses telemóveis começassem a ser menos e menos vendidos, e a Nokia, a grande empresa finlandesa de comunicação, tendo apostado timidamente nesse mercado, acabou tomada, na prática, pelo Microsoft. Agora anunciam-nos que a parceria entre as duas empresas de comunicação vai fazer com que os telemóveis smart (Lumia, parece que se chamam assim) levem apenas a assinatura da Microsoft, o que significa que a Nokia vai deixar de produzir telemóveis em nome próprio. É o fim de uma era das comunicações, quase tão chocante como o caso da Kodak. Espero que não seja o fim dos telemóveis simples. Senão, e quando o meu Nokia actual chegar ao momento de inevitavelmente ir repousar, seremos todos obrigados a usar smartphones, caríssimos e carregadíssimos de inutilidades, ou ainda há escapatória?

segunda-feira, novembro 03, 2014

O regresso do big-bang político?



Vai por aí grande escândalo por causa das declarações do primeiro-ministro francês, Manuel Valls, sobre qual deveria ser o futuro d Partido Socialista francês. Valls apenas se militou a repetir-se a si mesmo coisas que já antes lhe tinham dado alcunhas como "socialista neoliberal". Agora, por dizer que "é preciso acabar com a esquerda antiquada" e que a sua esquerda é "pragmática, reformista e republicana", apanhou com fortes críticas dos sectores mais jacobinos e esquerdistas do partido, que embora no poder, anda pelas ruas da amargura em popularidade e apoio. Mas o que ele disse nem sequer é original nem mesmo recente. Já em 1993 Michel Rocard afirmava que o PSF era uma instituição a prazo e apelava para a formação de um novo movimento de centro esquerda, o célebre "Big-Bang da política francesa", juntando socialistas, ecologistas, defensores dos direitos humanos, centristas, etc. De certa maneira o que fariam mais tarde os italianos, com o Partido Democrático, ou a direita gaullista e liberal, com a UMP. Mas em França, com o regresso do PSF ao poder, fizeram ouvidos de mercador a Rocard e nunca mais se pensou no "big-bang". Agora, com a sangria de eleitores a rumar directamente para a Frente Nacional, continuam com bizantinismos ideológicos, mas cada vez mais exíguos. E no entanto, a vida partidária em França não é assim tão estática. O próprio PSF resultou de uma aglutinação promovida por François Mitterrand da velha SFIO com algumas formações menores de esquerda, nos anos setenta. Se Valls consegue retomar a ideia do "big-bang" e reformar o vetusto partido de Miterrand, Delors e Jospin (e assim travar um pouco a FN) antes que se torne uma formação menor será um dos desafios mais interessantes da vida política francesa, cuja vertente esquerda, que tal como o país, é pouco permeável a reformas.

sexta-feira, outubro 31, 2014

Eleições


Este ano está a ser frutífero em eleições. Curiosamente, não há legislativas em Portugal, Espanha, França, Reino Unido, Alemanha ou Estados Unidos. Mesmo assim, é das matérias de que mais se ouve falar em 2014. Só no Domingo houve quatro.

Da Tunísia sei apenas que os liberais seculares terão vencido os islamitas o confronto eleitoral local, o que confirma aquele pequeno país como um dos mais estáveis no Norte de África (ali mesmo ao lado, na Líbia, ninguém sabe quem manda onde). No Uruguai haverá uma segunda volta com o presidente de há uns anos atrás, Tabaré Vasquez, e o candidato do Partido Nacional, e pelos resultados e pela tendência dos últimos anos, o mais provável é o primeiro regressar ao seu antigo gabinete. Pela república oriental pouco mudará.

No Brasil ganhou Dilma, como temia (mas não espanta). Seria sempre difícil que os votos de Marina fossem em número suficiente para levar Aécio Neves ao Planalto. Previsivelmente, Dilma haveria de obter alguns, além das outras pequenas forças maioritariamente de esquerda que se apresentaram às presidenciais no primeiro turno. Mas ao contrário do que se veiculou, sobretudo na dura, e por vezes irracional ao histerismo, campanha eleitoral, não havia simplesmente um bloco de esquerda contra um de direita: ao lado do Partido dos Trabalhadores estava o PMDB, exemplo acabado do partido de centrão sem ideologia com o objectivo único de participar do poder, e o Partido Progressista, partido mais à direita, legatário da ARENA (o partido do poder durante a ditadura). Com o PSDB, acusado por vezes de ser "neoliberal", estavam o Democratas (esse sim, de direita liberal, aliás antigo Partido da Frente Liberal), e o Partido Trabalhista, herdeiro directo do de Getúlio Vargas e um dos "guardiões" do seu legado, e ainda o Partido Socialista, que apoiou Aécio na segunda volta depois de suportar Marina Silva e o malogrado Eduardo Campos.
Dilma terá pela frente uma economia a abrandar, protestos latentes da população, como se verificaram nos dois últimos anos (espera-se para ver o que vai suceder nos Jogos Olímpicos do Rio) e a sempiterna questão da corrupção, não menos importante do que as outras quando os eleitores se estão visivelmente menos tolerantes e que os dois grandes partidos que a apoiam, PT e PMDB, controlam o aparelho de estado. Quatro anos previsivelmente complicados (ou reformistas?), sendo que Dilma não se pode recandidatar. Conseguirá Aécio aproveitar o embalo destas eleições para se guindar à presidência em 2018, ocupando o lugar que o seu avô Tancredo não conseguiu, por morte antes da tomada de posse?


E por fim na Ucrânia, uma grande volta ao anterior cenário, como não podia deixar de ser, na sequência da revolta de Maidan, da anexação da Crimeia e do isolamento de Donetsk e Lugansk. O Partido das Regiões, formação russófona que estava no poder e em maioria no parlamento, nem se apresentou, e o bloco que o substituiu teve resultados modestos (nas zonas onde há mais russófonos teve melhores votações, como seria de esperar). O Partido comunista, visto como quinta coluna da Rússia, quase desapareceu e nem entrou no parlamento. A extrema-direita banderista, com influência sobretudo na rua, também não. E a outrora líder maternalista (antes de ser presa) da Ucrânia, Yulia Timoshenko, teve um resultado decepcionante, pouco mais de 5%, e por pouco também não entrava na Rada. As formações do presidente Poroshenko, do primeiro-ministro Yatseniuk e do presidente da câmara de Lviv, no extremo-ocidental do país, ficaram com a maior parte do bolo. A bússola política alterou-se drasticamente, para oeste. Embora rivais, os partidos vencedores têm sobretudo semelhanças. A Ucrânia voltou-se para a Europa, de costas para a Rússia, confirmando as tendências do último ano. Graças a isso, conseguiu já um acordo para o pagamento do gás natural ao vizinho gigante, mas as questões dos territórios perdidos ameaçam complicar-se. Pelo menos, a retórica de que em Kiev o governo é ilegítimo e que mandam "nazis" já se pode esbater, embora a propaganda pró-russa deva continuar a explorar esse filão por muito tempo.

sábado, outubro 25, 2014

A última réstia de dignidade dos que até na morte são abandonados


Entre a espuma das dias e a informação que se sucede, deve ter passado mais ou menos despercebida uma das mais tristes páginas que li nos últimos tempos. Segundo nos diz esta notícia do Público, a Irmandade da Misericórdia e de São Roque acompanhou o funeral de 86 pessoas, nos primeiros nove meses de 2014. Acompanhou-os porque ninguém mais quis saber deles, ninguém inquiriu sobre a morte dessas pessoas, ninguém reclamou o corpo. Seis delas eram crianças, abandonadas pelos pais ou encontradas já mortas. Quatro permaneceram com identidade desconhecida. As informações são do Instituto de Medicina Legal, que cede os corpos à Irmandade para que possam realizar um funeral condigno, a custas da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

A notícia entristece e espanta pelos números de abandono a que são votadas tantas pessoas. Seriam idosos sem família, ou a quem a família não ligava, pessoas doentes na mesma situação, alguns emigrantes ou refugiados, provavelmente, sem conhecimentos em Portugal. E crianças abandonadas ao nascer, ou doentes, cujos responsáveis preferiram abandonar. Em qualquer dos casos, uma enorme desumanidade, ou se preferirmos, uma ausência de humanidade que deixou aquelas pessoas morrer sozinhas, no quase completo abandono.

Buscar culpados no "sistema", no "regime", na "época em que vivemos" ou em qualquer outro contexto qual bode expiatório abstracto, pode ser a primeira reacção. Provavelmente é um pouco de tudo. O egoísmo vigente é enorme, mas pode-se dizer que antigamente era melhor? Talvez se olhássemos um pouco à volta, para casos muito próximos, até descobríssemos situações destas. Por vezes, dá-se mais atenção a um gato do que a uma pessoa. A pobreza material, a suburbanização, a diminuição das famílias com a queda da natalidade, tudo isso são razões plausíveis. Mas antes de mais os responsáveis são pessoas, que por acção ou omissão permitiram que dezenas de humanos tivessem um fim que mais ninguém testemunhou.


"Mais ninguém" não é bem assim. O único aspecto positivo da notícia é saber que há pessoas, as da dita Irmandade, que acompanham desconhecidos à sua última morada, dando-lhes assim uma identidade e uma dignidade que não tiveram quando morreram. Recuperam, nem que seja por breves horas, o estatuto de seres humanos e com personalidade jurídica que os seus corpos, teoricamente, já tiveram. Eis um acto verdadeiramente cristão: devolver na morte a dignidade áqueles que em vida foram negados por todos os outros, rezando pela sua salvação e dando-lhes uns momentos de atenção que outros não lhes deram quando mais precisavam. tentarei saber se no Porto a Santa Casa se presta a tão caridosa e louvável missão.

segunda-feira, outubro 20, 2014

Brincadeiras perigosas



Aquelas cenas patéticas do jogo Sérvia-Albânia em Belgrado representam bem mais do que mero holiganismo. Podem vir daí sanções da UEFA, perda de pontos (para Portugal, no mesmo grupo, até era bom), mas o mal maior será o acirrar ódios entre os dois povos. Não é por acaso que os adeptos albaneses foram impedidos de ir ao jogo, tal como já tinha acontecido com os croatas no ano passado.


As marcas da secessão do Kosovo estão bem frescas. A Sérvia não aceita nem aceitará, por muito difícil que seja, que aquele pedaço de terra faça parte da "Grande Albânia". Que era exactamente o que estava no cartaz transportado por um drone sobre o recinto onde se disputava o jogo, enquadrado pela bandeira albanesa. A "Grande Albânia" comporta o território albanês propriamente dito, o Kosovo, e outras partes da Sérvia, da Macedónia e do Montenegro. Até agora é o único caso de irredentismo europeu do Século XXI que tem tido sucesso.


Claro que os sérvios nunca poderiam aceitar a afronta de ânimo leve. Por isso mesmo o ex-benfiquista Mitrovic tentou arrancar a tarja ao aparelho voador, para fúria dos adeptos albaneses, que por sua vez só aumentaram a ira de todos quanto estavam no estádio, polícia incluída, obrigando-os a correr para os balneários. Mas conseguiram escapar inteiros para serem recebidos em Tirana como heróis, de forma apoteótica.

O problema do Kosovo não terá desenvolvimentos durante pelo menos uma geração. Os autores da piada só ajudaram a piorá-lo. E a suspeita de que poderá ter sido o irmão do primeiro-ministro albanês é outra acha para a fogueira balcânica, que andou sempre bem acesa pela História fora. E quando a Sérvia fora jogar a Tirana? Quem pode prever a reacção dos albaneses ou as retaliações dos sérvios?




sexta-feira, outubro 10, 2014

Um prémio inteiramente merecido




Na sua maioria, os prémios Nobel da Paz são controversos, irrelevantes, politicamente tendenciosos (ou politicamente correctos). Mas o que se atribuiu hoje a Malala, ex-aequo com o indiano Kailash Satyarthi, responsável pelo combate à escravatura infantil na Índia, é inteiramente merecido. Malala Yousufzai, a miúda paquistanesa que ia morrendo às balas dos taliban por resistiu às interdições de ir à escola tornou-se um exemplo contra a absoluta barbárie dos que nem contra as crianças hesitam em disparar, um exemplo qu está a ser seguido naquele desgraçado país. Kailash não o conhecia, mas a sua causa é em tudo semelhante à de Malala. No fundo, dois lutadores pelos direitos das crianças no difícil sub-continente indiano. Os mesmos problemas no mesmo espaço geográfico.

Também o Papa e Edward Snowden eram dados como candidatos ao galardão. O meu voto não iria para nenhum dos dois. O Papa porque não é um mero activista nem a Igreja uma simples ONG, e a busca pela paz entre os homens é inerente à sua Missão. Snowden também não porque embora as suas atenções fosse certamente honestas, colocou os sistemas de segurança dos EUA em risco e a o prémio serviria às mil maravilhas a propaganda russa (recorde-se que Snowden reside em Moscovo) nestes tempos de uma nova guerra fria. 

Por isso é de saudar os membros comité do Nobel: hoje não se enganaram nem premiaram escolhas manhosas. Antes resolveram recompensar quem luta por uma das causas mais nobres.


quinta-feira, outubro 09, 2014

Embate marcado para uma segunda volta






Afinal de contas, nem Dilma Roussef está assim tão segura da reeleição nem Marina Silva chegou a ser o fenómeno que muitos previam. O furacão acabou por se revelar uma brisa nas urnas, pouco acima do que as sondagens atribuíam ao candidato Eduardo Campos antes do trágico acidente que o vitimou, em Agosto, de que a comoção que se seguiu levou Marina a trepar nos números. Só que as sondagens falharam rotundamente: Dilma ganha sem estrondo, Marina é afastada por muito e Aécio Neves fica em segundo, muito mais próximo da "presidenta" do que da evangélica ecologista. O ex-governador de Minas Gerais, neto de Tancredo, há muito o candidato dilecto do PSDB para voltar ao poder que perdeu depois de Fernando Henrique Cardoso, volta a ser o adversário directo de Dilma e do PT. Apesar da popularidade junto de largas camadas da população, do apoio de Lula, da imagem presidencial que Dilma granjeou e de ter afastado nomes ligados a casos de corrupção, a frente anti-petista parece ganhar força. O PS que apoiava Marina já deu o apoio formal a Aécio, restando saber se a própria Marina o fará expressamente.


Mas ninguém duvida que a segunda volta será contada até ao último voto. Poderá o PT, apoiado pelo mastodonte do "centrão" PMDB, ser apeado? A possibilidade não é nada remota. Mas ainda assim, mesmo apoiada por nomes que já deviam fazer parte dos caixotes de lixo da política, como Sarney, Collor ou Maluf, a máquina partidária do PT e PMDB, o domínio dos media e a popularidade que ainda têm em largas camadas da população fazem com que apesar de tudo, Dilma seja ligeiramente favorita, sem quaisquer certezas. Dificilmente os votos que Marina recolheu irão todos para Aécio. Mas, ao contrário do que dizia Rui Tavares por estes dias no Público, não estou tão convencido que o candidato dos "tucanos" tenha perdido a vez: mesmo que não ganhe, se perder por muito pouco, será o favorito para daqui a cinco anos. Dilma já não se poderá candidatar, Lula não o fará certamente, por razões de saúde, e Aécio terá, se tudo correr normalmente, o caminho aberto, até porque o desgaste da governação PT jogará a seu favor. Nada de novo: o próprio Lula perdeu três eleições até chegar à presidência. Mas até pode nem precisar de esperar mais quatro anos.

sábado, outubro 04, 2014

Bustos


Esta questão patética dos bustos dos presidentes na A.R. é em tudo semelhante áquela recente dos buxos, na sua (ir)relevância, na temática ("o branqueamento do fascismo") e até nos nomes e na fonética. Os seus autores tinham de ser os srs. deputados do PCP e do Bloco, acompanhados por alguns do PS, como o triste Lacão e a alucinada Isabel Moreira. Registe-se o comentário do bloquista Pedro Filipe Soares, que mostrou repúdio pelos bustos de Carmona, Craveiro e Tomaz por serem de " presidentes que não foram eleitos". Caso o pobre líder parlamentar do BE tivesse mais alguns conhecimentos avulsos saberia que quase nenhum dos PRs, tirando Eanes, Soares, Sampaio, Cavaco, e, no limite, Sidónio, se viu a ser eleito por sufrágio universal. E é esta amostra que quer ser "coordenador" do Bloco, que já de si estava em mau estado. Se querem ver como é que um partido se suicida, olhem bem para os últimos tempos do BE.

Sobre bustos seria melhor perguntar a opinião aos verdadeiros ao invés de se guiarem pelo histerismo de deputados que não estavam minimamente atentos (ou resolveram faltar) na comissão parlamentar em que se decidiu esta exposição.

quarta-feira, outubro 01, 2014

O sucessor favorito

 
A escolha de Fernando Santos não espantou absolutamente nada nem ninguém. Era o preferido de todos, o nome dele já circulava em toda a parte como sendo o favorito à sucessão de Paulo Bento, é experiente e está sem clube. O único entrave são os oito jogos de suspensão, mas aparentemente há ainda hipóteses de reduzir o castigo nas instâncias desportivas competentes.
 
Mas é possível que se fosse há quatro ou cinco anos esta escolha causasse surpresa. Na altura, Santos tinha tido uma passagem pelo Porto, em que depois de se sagrar "engenheiro do penta" conseguiu perder um campeonato para o Sporting com Jardel no plantel; passou depois pelo mesmo Sporting numa época para esquecer, caindo para terceiro lugar mesmo no fim, e mais tarde treinou o Benfica sem resultados visíveis, ficando a escassos dois pontos do 1º lugar mas sem entusiasmar, acabando despedido (provavelmente cedo demais) no início da época seguinte.
 
 O que provavelmente alterou a imagem deste treinador competente mas sem grande chama foi a carreira à frente da selecção grega. Fernando Santos conseguiu levar uma equipa envelhecida e sem grandes jogadores a um Europeu e um Mundial, e mais ainda, a ultrapassar as fases de grupos contra adversários mais cotados e com imensas adversidades (no Europeu de 2012 começou perdendo 4-1 com a Rússia). Mostrou que é treinador para uma selecção, talvez mais até do que de clube. E a imagem cinzenta a que normalmente o associavam desapareceu, tornando-o favorito nesta sucessão com desfecho previsível. Santos tem agora a missão de fazer o mesmo com a Grécia: colar os cacos da derrota com a Albânia, aproveitar ao máximo uma selecção envelhecida e tentar descortinar novos valores (tarefa para o seu adjunto Ilídio Vale). É difícil, mas é homem para isso. E é sempre bom ver alguém afirmar que tem orgulho em servir o seu país sem que soe a falso nem a estratégia para obter votos.

terça-feira, setembro 30, 2014

O futuro novo primeiro-ministro


O resultado das primárias do PS impressionou pela mobilização e pela robustíssima vitória de António Costa. Negá-las é desviar a realidade dos olhos ou inventar desculpas de mau pagador. Pode-se achar que o PS se dividiu, que se lavou a roupa suja em público, que tem de conquistar o país, etc, mas é inegável que com as primárias (e todos os seus passos em falso) o partido marcou pontos e que António Costa tem uma posição extremamente sólida. Depois de ser deputado, eurodeputado, ministro (três vezes) e presidente da câmara de Lisboa (até quando?), Costa consegue chegar ao topo do partido, com amplas hipóteses de no futuro próximo levar o PS de novo para o governo. Tem, é claro, os seus anticorpos, a imagem à frente da capital não é tão positiva como isso e terá de gerir muito bem as divisões partidárias, em especial a herança socratista, e dar credibilidade ao PS, que bem precisa dela. Mas não se duvide: com este resultado esmagador, ainda mais legitimado com os votos dos simpatizantes, só muito dificilmente é que António Costa não será o próximo Primeiro-Ministro de Portugal.
 
 
Já agora, uma das frases da noite, em que pouca gente reparou, devia ser a declaração de Jerónimo de Sousa: o secretário-geral do PCP acha que "estas primárias foram uma farsa". Ouvir o líder do partido mais fechado de todos, onde o debate é nulo e os dirigentes escolhidos antes de serem eleitos (por unanimidade) criticar umas eleições, que, com todos os seus defeitos se tentou abrir à sociedade portuguesa, é de rir à gargalhada e de perguntar a Jerónimo se acha que tirando o militantes do PC, alguém acredita naquilo. Éo mesmo que comparar o "referendo" na Crimeia com o da Escócia. Jerónimo provavelmente acha que este último também é "uma farsa". E ainda há quem sonhe com a "união das esquerdas". 

domingo, setembro 28, 2014

Antes das primárias


Antes de se saberem os resultados das primárias do PS, há que enaltecer um tal processo, inédito na vida partidária portuguesa. É certo que a "fronda" de António Costa é oportunista (ficou claramente à espera do resultado das europeias) e lembra aquilo que já aconteceu antes no CDS, quando Portas apeou ribeiro e Castro (com resultados visíveis) ou no PSD, quando Menezes substituiu Marques Mendes (com consequências patéticas). Mas teve pelo menos a virtude de levar o seu partido a umas eleições primárias, bem mais abertas do que as "directas" que até agora observávamos nos partidos, e que era um solução pior do que as votações em congressos. Além de esvaziarem boa parte da utilidade (e porque não dizê-lo, da emoção) das "reuniões magnas", continham o velho truque de arrebanhar novos militantes para se conseguir determinado resultado político. Estas primárias poderão não ser uma solução milagrosa e tem alguns riscos e contradições (a possibilidade de simpatizantes políticoa adversários tentarem por esta via um resultado nocivo para o partido em questão), mas sempre permitem que a sociedade para lá da estrita militância aparelhista se possa pronunciar.

Quanto à campanha, admira-me que pouco se tenha distinguido de outro qualquer acto pré-eleitoral, além do dinheiro gasto na coisa. António José Seguro bem pode fazer-se de desgraçadinho, mas a verdade é que a postura calimérica, cinzenta e pouco mobilizadora não ajudou, e muito menos aquele patético filme de campanha envolvendo cravos e cortes. Além de que a sua sofreguidão pelo lugar vago logo na noite de 2011, em que o PS de Sócrates perdeu, também não ajuda. E a proposta de dmiminuir o número de deputados é das mais populistas e feitas em cima do joelho de que há memória.

De resto, é inegável que António Costa é dez vezes melhor que Seguro, tem menos cara de pau e é muito mais convincente. E tem a enorme vantagem mediática de sr simpático e não perder a compostura (comparando com Sócrates, então...)Mas devia tomar cuidado com o que propõe nos debates: neste último, ouvi bem ou ele falou mesmo em diminuir o desemprego com base (entre outras coisas), na reabilitação urbana? Não seria melhor olhar primeiro para o município a que preside? É que se a reabilitação urbana for para a frente como tem sido no centro de Lisboa não é de prever grande descida da taxa de desemprego, por essa via.

sexta-feira, setembro 26, 2014

Os andores da Senhora da Pena


Falando de novo em romarias e festividades religiosas em Portugal, sublinhe-se outra, em Trás-os-Montes: a da Senhora da Pena, no santuário com o mesmo nome, perto de Mouçós, Vila Real. Todos os anos, em Setembro, as várias aldeias da freguesia (são muitas, como no-lo recorda a sempre prestável Wikipedia) organizam a festa e a romaria. Assim, na envolvente do santuário de Nossa Senhora da Pena, podemos encontrar a habitual parafernália destas festividades populares: restaurantes móveis, barracas de comes e bebes, o palco para as bandas de "música popular" disponíveis, sorteios de prémios, etc. O que carateriza e diferencia esta festividade são os seus andores, que vão desde um metro e meio até aos vinte e tal metros. Umas construções móveis enormes e imponentes, só rivalizados pelos da Senhora da Aparecida. Num lento cortejo, entre fileiras de mirones, os andores avançam devagar, até ao último, o maior de todos, com cerca de cem homens a suportá-lo, e mais uns quantos a equilibrá-lo. O equilíbrio é fundamental, não vá o andor cair em cima de centenas de pessoas. No meio, quase insignificante, a figura da Senhora da Pena.






Os andores dão a volta ao recinto, seguidos de bandas a tocar e de clérigos que, debaixo de um pálio, aspergem de água benta o caminho e as pessoas. Ao chegarem à capela da Senhora da Pena, a última prova de esforço: os carregadores desatam a saltar com o andor em cima, provando que a fé move mesmo montanhas. Enfim, as estruturas são encostadas ao santuário, para serem devidamente admiradas antes de as desmontarem, e a festa prossegue em todo o seu formato profano.

A festa é de tal forma conhecida que até António Costa, em campanha partidária pelo distrito de Vila Real, reservou uma hora para lá ir. Todavia, ao contrário do que alguns poderiam imaginar, não o levaram em nenhum andor.