segunda-feira, maio 31, 2010

Histórias Etíopes e outros da mesma colecção




Entre a Feira do Livro de Lisboa e a do Porto (que começa a 1 de Junho, e que se realiza nos Aliados, depois de alguma hesitação em enviá-la para a Rotunda), faz-se sempre a lista dos livros que se pretende comprar e que se espera que estejam em saldo.


Este ano tinha uns quantos em mente, mas na de Lisboa optei por dois ou três, consoante as promoções. Havia no entanto um que me tinhas chegado aos ouvidos e que queria absolutamente apanhar: as Histórias Etíopes, de Manuel João Ramos. Faltava apenas uma hora para o início do decisivo Benfica-Rio Ave, e tinha acabado de chegar a Lisboa, mas apesar do nervosismo fui mesmo asssim comprar o livro. Por duas razões: o fascínio que eu tenho pelas terras do Preste João; e porque se insere na colecção de literatura de viagens que a Tinta da China tem lançado de há uns tempos para cá, sob a direcção de Carlos Vaz Marques. O da Etiópia é apenas o último de algumas pérolas dos últimos cem anos, muitas vezes quase esquecidas, que já passaram por Paris, Índia, Pérsia, Veneza, Japão, Afeganistão, Extremo-Oriente e Nova Iorque, e que me deram a conhecer autores como as excêntricas Annemarie Schwarzenbach ou Jan Morris. A ideia da colecção em si é óptima, aliada ao elegante grafismo dos livros, de capa duras. Não tenho todos (o de Veneza, por exemplo), e ainda tenho vários à frente antes de ler Histórias Etíopes, mas alguns já cá cantam. E fico sempre à espera de novas publicações da colecção, que tem pés para andar e tornar-se uma referência neste tipo de literatura, como a Colecção Vampiro ficou para os policiais (não têm de ser tantos), ou a esquecida Escaravelho de Ouro. E se me fosse permitido, e houver matéria de qualidade sobre isso, tinha já uma lista de locais onde poderiam recair os temas dos próximos volumes - e que gostaria de visitar ou revisitar, claro: Buenos Aires, São Petersburgo, Israel, Rodes, Istambul (e costa sul do Mar Negro), Nápoles e Andaluzia. Ia acrescentar Transilvânia, mas para isso já existe Danúbio. Mas há mais, muitos mais à escolha. O Mundo é imenso, felizmente, e a colecção arrisca-se a também o ser.

domingo, maio 30, 2010

As vuvuzelas da desgraça

A extraordinária turma que o Professor Carlos Queiroz resolveu levar à África do Sul teve a sua primeira "prova de fogo" contra Cabo-Verde, formada sobretudo por jogadores das divisões secundárias do campeonato. O resultado saldou-se por um rotundo zero, e a exibição, que eu não vi, segundo rezam as crónicas, esteve pouco acima da nulidade. Na Covilhã, por entre os bocejos, safaram-se Nani e um Coentrão a querer mostrar serviço. Nada que espante muito de jogadores a querer poupar-se para os jogos a sério; mas espanta ainda menos se pensarmos no grupo em questão, e que o seu treinador é Carlos Queiroz. Uma selecção que pretende ultrapassar a Costa do Marfim, enfrentar o Brasil e dominar a Coreia do Norte não colherá certamente bons augúrios ao não conseguir fazer um golo aos bons ilhéus.
A convocatória tem toda ela disparates que não se percebem, como as chamadas de José Castro e Ricardo Costa, que pouco jogaram este ano, a de Beto que também pouco esteve na baliza, e pior ainda, a de Daniel Fernandes, deixando de fora jogadores como Quim, guarda-redes dos campeões nacionais e o menos batido do campeonato, e Makukula, autor de 21 golos esta temporada, na Turquia. E talvez João Moutinho tivesse lugar. Vá lá que não leva Boa-Morte ou Caneira...
Todas as selecções têm escolhas mais bizarras ou duvidosas, e nenhuma está isenta de polémicas. Há sempre quem fique desiludido por não ir, e quem não compreenda certas chamadas. Mas Queiroz exagera. Há coisas simplesmente estapafúrdias aos olhos de qualquer leigo na matéria. Juntando isso ao facto do seleccionador nacional ser um perdedor profissional, com um currículo inversamente proporcional à importância das equipas que treina, que na sua longa carreira apenas obteve os dois títulos de juniores e uma Taça de Portugal, é de esperar o pior. Para mais, o Mundial será fora da Europa, na África do Sul; talvez os portugueses lá emigrados se disponham a deixar as suas lojas trancadas para apoiar a equipa, mas é bom recordar que nunca fora do seu continente Portugal teve uma prestação positiva num _mundial de futebol (um trauma que se estende às restantes equipas europeias, já que nunca nenhuma conseguiu ganhar a Taça fora do Velho Mundo). A coisa não promete grande sucesso. E as irritantíssimas vuvuzelas são como que trombetas de desgraça. Pode ser no entanto que para nós haja milagres e soem antes as trombetas de Jericó, derrubando as muralhas adversárias. Mas seria melhor sem os Black Eyed Peas na bagagem (outra brilhante escolha do Prof. Queiroz).


quinta-feira, maio 27, 2010

Pão de pobre

O homem, de densa barba grisalha e um fato com remendos, está sentado, encostado à parede de um prédio, quase ao dobrar a esquina, pedindo dinheiro ou um cigarro a quem passa. De repente, cai-lhe um jacto de água em cima. Não se trata de maldade alheia: a água das chuvas dessa manhã soltou-se de um toldo que cobre uma varanda uns andares acima, precipitando-se exactamente onde se encontrava o pedinte. O seu ar é mais de estupefacção que de desanimação. Recordei-me logo daquele provérbio brasileiro que vi certa vez: pão de pobre quando cai, cai com a manteiga para baixo.

sábado, maio 22, 2010

Taças europeias

Depois do Atlético de Madrid de Quique Flores, Simão, Reyes e (ainda que não inscrito nas provas europeias) Tiago ter surpreendentemente conquistado a "Euroliga", com apenas duas vitórias e um sem número de empates salvadores, em Hamburgo, face ao Fullham do sr. Al-Fayed, do Harrods, Madrid intromete-se igualmente na final da Liga dos Campeões. não em clubes, que o Real dos galácticos parte 2.0 não chegou lá, mas porque o palco é o seu Santiago Bernabéu. José Mourinho conseguiu evitar a suprema humilhação do Barcelona lá se sagrar campeão europeu, e com os rumores de que pode treinar Cristiano ronaldo, Kaká & Ciª para o ano, é o homem do momento na capital espanhola. Ninguém apostaria no seu envelhecido Inter de Milão como finalista da prova, até porque os nerrazurri não ganham o troféu há mais de quarenta anos. O adversário também não seria o primeiro das apostas, mas sempre se votaria mais depressa no Bayern para lá chegar. Van Gaal já treinou com Mourinho às suas ordens, e tanto um como outro já foram campeões europeus. Não faço grandes prognósticos sobre o vencedor, mas pela ausência de Ribery da equipa bávara, inclino-me ligeiramente para o Inter. Se os italianos levarem o caneco, estará cumprido o sonho do seu presidente, Massimo Moratti: o de ganhar o máximo título europeu para o clube, imitando assim o seu pai, Angelo Moratti, presidente do Inter nos anos sessenta, no seu período mais glorioso e fecundo (em que inventou o famigerado cattenacio). Moratti filho, também rival de Berlusconi nos negócios e na fortuna, gastou milhões ao longo dos anos em jogadores de renome mas que pouco deram ao clube, cujas equipas estavam constantemente a mudar. Só depois do Calciocaos é que a situação lhe começou a ser favorável. Agora tem a oportunidade de conseguir o mesmo que o seu pai, fazendo da dinastia Moratti um símbolo do clube do Biscione.

PS: esta ideia peregrina da final ser ao Sábado deve-se a quê? Às imposições dos canais televisivos? A alguma incompatibilidade no estádio madrileno? a razões ligadas ao Mundial? Por uma vez experimenta-se, mas espero que seja um ano sem exemplo. final europeia que se preze é para jogar à quarta-feira, e as televisões que se danem.

De Espanha, bons ventos...
O governo espanhol pode até não estar com ideias de o interromper, nem de o deixar em stand-by. Mas adiou-o por um ano, para fazer face à grave crise económica e financeira que o país atravessa, e que não se compadece com torrentes de obras públicas. Por cá, o governo de Sócrates continua a fazer finca-pé e a atirar-se de cabeça, recorrendo como sempre aos contribuintes para fazer face ao défice orçamental. Até poderia ser uma medida razoável caso também se tivesse lembrado de cortar nalgumas obras de vulto, ou ao menos afiá-las para altura mais favorável. Mas não Sócrates é assim mesmo e não muda. Nem com o exemplo do lado, que ele tanto gosta de imitar, perdeu a teimosia e a falta de humildade. Uma atitude que ainda nos trará muitos dissabores.

quarta-feira, maio 19, 2010

Scarlett em palco
No Herdeiro de Aécio recordou-se a magnífica banda sonora de Lost in Translation, talvez uma das melhores trilhas sonoras, ou uma das que melhor se adaptou a um filme. Surgem-nos Girl, dos Death in Vegas, e Just Like Honey, dos Jesus and Mary Chain, esse clássico do "psicadelismo incandescente" dos anos oitenta. É precisamente esta última que encerra o filme, e que, para mim, o recorda de forma mais vincada, dando-lhe o tom melancólico e cinzento que rodeia Scarlett Johansson e Bill Murray, perdidos numa Tóquio de néon. E tanto marcou os cinéfilos que os irmãos Reid, os mentores do grupo, que o reanimaram em 2007, interpretaram o tema nesse ano no festival de Coachella, fazendo dueto com a própria Scarlett Johansson. Eis aqui o testemunho (o video está um pouco tremido e longe do palco, mas não se arranjou melhor).

terça-feira, maio 18, 2010

A redenção do Terreiro do Paço
O espaço que hoje tem o nome oficial de Praça do Comércio, mas que é para todos o Terreiro do Paço, passou ao longo dos séculos por inúmeras convulsões. Invasões, ocupações, defenestrações, sismos, tsunamis, desfiles triunfais, regressos de derrotas, revoluções, regicídios, de tudo assistiu aquela praça, entre a grande mudança cosmética que levou no século XVIII. E também autos-de-fé, ao que consta.
Nunca na sua longa vida tinha tido uma missa rezada pelo Papa. Outros estadistas foram lá recebidos, como Isabel II, com pompa e circunstância, mas nunca o Sumo Pontífice da Igreja Católica. E na semana que passou, a praça teve mais um grande momento na sua história. Sob um céu azul e o ar tépido (parece que São Pedro ajudou mesmo o seu sucessor), com pendões nos edifícios ocres e fragatas e veleiros como cenário de fundo, encheu-se de gente para ver e ouvir o Papa. O altar, simples mas imponente, era o remate ideal para a cerimónia. Viam-se pessoas de todas as idades, estratos e feitios, portugueses e estrangeiros - isto sim, uma autêntica demonstração de pluralidade. Apesar de toda aquela mole humana, não havia a sensação de sardinha em lata; o espaço estava ocupado, mas sem estar compacto. Pode-se descrever o ambiente como de solenidade animada, que percorreu todo aquele imenso espaço quando o Papa rezava a homilia, e que explodiu no fim quando saiu. A destoar naquela manifestação de paz, só mesmo os snipers nos telhados dos ministérios. Mas tanto a emoção da cerimónia como a sua beleza estética e gráfica, enquadrada por uma das mais belas praças da Europa, vestida de gala para receber o ilustre convidado, não saíram beliscadas. Tudo correu na perfeição. Como se depois de tantos infortúnios e tragédias, a praça quisesse agora acolher uma manifestação de harmonia. E redimir-se, purificando-se com uma banho de multidão. Afastar definitivamente as memórias sinistras dos autos-de-fé de outras eras, fazendo as pazes com uma Igreja que lhe devolveu a importância e o seu cargo de sala de visitas dos grandes acontecimentos.

segunda-feira, maio 17, 2010

Uma semana de acontecimentos raros

 
Chega ao fim uma semana estafante mas memorável. Dificilmente verei outra em que possa comemorar um título do Benfica e ver o Papa em Portugal, no espaço de dois dias.
Há uma semana, consegui ver o epicentro dos festejos do título (como de certa forma já vira há cinco anos, no Bessa, no jogo que devolveu o título 11 anos depois) no Marquês de Pombal. Era verdadeiramente alucinante o ambiente que lá se vivia à chegada dos campeões nacionais. O autocarro que levava os jogadores do Benfica no topo parecia uma barca a vogar no meio do oceano, tal era o mar de gente que o rodeava. Pude vê-los de perto quando entraram na Avenida da Liberdade e constatei que os mais eufóricos eram os mais velhos: bastava olhar para a cara extasiada de Rui Costa, ou Jorge Jesus empunhando uma bandeira às riscas vermelhas e brancas, que mais parecia o logótipo da Olá.
Na Terça, vi o Papa duas vezes, de manhã, sem contar, com a ocasião. De tarde avistei-o já mais longe, rezando missa. Não tanta gente como na festa do Benfica, mas ainda assim uma multidão considerável. Se no Domingo havia euforia e vermelho por toda a parte, aqui o ambiente era suave, harmonioso, com o azul e o amarelo a predominarem. A diferença de tons das duas celebrações fazia parecer que se tinha passado do inferno (mas sem monstros) ao céu.
Melhor só mesmo se tivesse podido ir aos Aliados, na celebração que houve no Porto. Mas seria pedir demais. A onda benfiquista e a oportunidade de assistir a uma missa rezada pelo Sumo Pontífice ao ar livre já foram dádivas preciosas em tão curto espaço de tempo.

sexta-feira, maio 14, 2010

Progressos
Como se vê pelos comentários de alguns amigos, a moda agora é dizer que "o Benfica lá ganha um campeonato de cinco em cinco anos". Em 2005, diziam que ganhava um de onze em onze. Já é um progresso. Daqui a nada, dirão que só ganha de dois em dois. Todo o mundo é composto de mudança - ou de ciclos.

terça-feira, maio 11, 2010

É já a partir de hoje


32

Houve algum sofrimento, é certo, porventura desnecessário, mas o Benfica chegou ao seu 32º título de campeão nacional. Um número arrasador em qualquer campeonato. Como arrasador foi o ataque, com 78 golos marcados e 20 sofridos, melhor ataque e melhor defesa em conjunto com o Braga. E como cereja em cima do bolo, o "Tacuara" Cardozo sagrou-se o melhor marcador, com vinte e seis golos, outro galardão que o Benfica não tinha há 19 anos.


Paradoxal parece ser a apreciação do campeão para alguns: dificilmente uma equipa que jogue tão bem, que encha os estádios e que tenha mostrado tanto futebol ao longo de uma época é alvo de tanta contestação como a que aconteceu este ano. Ao que parece, os castigos a alguns jogadores que se entretiveram a praticar pugilismo e a nobre arte da cepa pelas costas seguida de fuga foram considerados uma coisa vergonhosa, dando a entender que bater em adversários é um método lícito para ganhar jogos. Como entendo que não é, e que o Benfica não precisou de bater nos outros jogadores nem de crivá-los com objectos de rua, a começar por pedras, julgo que a justiça deste título não se pode pôr em causa.


A Jorge Jesus se deve o triunfo e o carrossel de ataque da equipa, mas algumas peças já lá estavam, e melhoraram, como David Luís, Di Maria, Carlos Martins e Cardozo, e outras chegaram, para completar a máquina, casos de Saviola, Ramires e Javi Garcia. foram todos inexcedíveis, e mostraram o seu grande valor. Claro que Vieira merece uma palavra, mas é bom não esquecer o jovem director desportivo que permitiu que o título fosse possível: Rui Costa, a mostrar que percebe enormemente do assunto.


E a festa correu lindamente. Nunca tinha comemorado um campeonato do Benfica no Marquês de Pombal. O próprio Papa Bento XVI, no edifício do BES, parecia abençoar aquele título. A multidão em delírio é um espectáculo único, assim como ver Jorge Jesus eufórico, com o cabelo vermelho e com uma bandeira às riscas que mais parecia o antigo símbolo da Olá! Eram aliás os mais velhos aqueles que festejavam efusivamente. Deu para ver quando o bus que transportava os campeões nacionais atravessava com dificuldade a rotunda (que já estava reservada para o efeito) e começava a longa marcha pela Avenida da Liberdade abaixo. A cara de alegria pueril de Rui Costa é absolutamente inesquecível. Mas não irrepetível.

domingo, maio 09, 2010

O regresso dos liberais


Afinal as coisas no Reino Unido complicaram-se mais do que o previsto: houve inúmeras atribulações nas secções de voto, eleitores cujos nomes não constavam dos cadernos eleitorais, o Labour sofreu uma pesada derrota, os conservadores não têm maioria absoluta, e os liberais-democratas ficaram com menos representantes nos comuns do que os que tinham anteriormente.
Acaba por ser um pouco frustrante para os últimos, depois de toda a mediatização em volta de Nick Clegg. Ainda assim deverão ser o fiel da balança e talvez um esteio para David Cameron, apesar de algumas diferenças profundas, o que lhes daria uma importância que não têm desde os anos vinte.

Os liberais-democratas descendem directamente do Partido Liberal (muito mais do que o Partido Social Democrata, uma dissidência trabalhista dos tempos da liderança esquerdista de Michael Foot), que por sua vez tem como antepassados os Whigs, os opositores históricos ao absolutismo real, que ganharam enorme importância com a Glorious Revolution de 1688, apoiando a nova dinastia dos Hanôver, que continua a ser a reinante, apenas com a alteração patriótica e oportuna do nome para Windsor, ao tempo da 1ª Grande Guerra. Os Whigs apoiavam-se na burguesia comercial e industrial, e em meados do século XIX converteram-se no Partido Liberal, devedor de pensadores como David Ricardo, Bentham e John Stuart Mill. Daí advém a tradicional divisão nominal e ideológica nos países anglo-saxónicos entre liberais e conservadores. A rotatividade entre estas duas forças seguiu-se por várias décadas, durante as quais os liberais chegaram ao governo do país, e figuras como Gladstone, Asquith e Llloyd George governaram o império Britânico, com os dois últimos a comandar o país durante a 1ª Guerra. Lloyd George tornou-se um dos vencedores do conflito, mas as suas ideias mais brandas para com a Alemanha foram recusadas por Clemenceau e Wilson, com os resultados conhecidos. Assinou também o tratado que criou o Estado Livre Irlandês.

A partir de 1922, os liberais saem do governo para não voltar, excepto em efémeras coligações. O crescimento do Partido Trabalhista, que arrastava as classes operárias e os sindicatos, e começava também a atrair a classe média, minou a sua base eleitoral, e a partir dos anos trinta o partido sofreu uma enorme erosão na sua representação parlamentar. Com a ascensão definitiva dos trabalhistas a um dos dois partido da rotatividade, com os conservadores, sobretudo depois da estrondosa vitória de Attlee em 1945, o Partido Liberal viu-se remetido a um apagado terceiro lugar, sem real peso na vida política.


Nos anos oitenta, já com o Reino Unido na CEE (de que foram ardentes defensores), fizeram uma aliança com o novo Partido Social Democrata, com o qual se fundiriam em 1988, originando o moderno Partido Liberal Democrata (os Lib Dems). Alguns dos seus membros tornaram-se notórios, como Paddy Ashdown, que deppos de dez anos a liderar o partido alcançou o cargo de Alto Comissário para a Bósnia. Seguiu-se os escoceses Charles Kennedy e Sir Menzies Campbell, até à actual revelação política britânica, Nick Clegg.
Com a indefinição governativa, David Cameron poderá muito bem ser obrigado a aceitar o apoio de Clegg, apesar de algumas incompatibilidades, como a Europa e a reforma do sistema eleitoral. No entanto, os Trabalhistas podem aproveitar qualquer suspensão nas negociações e intrometer-se, mas já sem Gordon Brown, condição prévia para qualquer acordo com os Lib Dems. E talvez entre em cena outra das jovens estrelas políticas do outro lado da Mancha, e rival à altura de Clegg: o ministro dos Negócios Estrangeiros David Miliband. De uma ou de outra forma, parece certo que os liberais recuperem a sua histórica importância, depois de noventa anos de espera e de hibernação.

sexta-feira, maio 07, 2010

Tories are back



À hora a que escrevo, há apenas uma certeza, que de resto era tão previsível como os impostos: Gordon Brown está já a arrumar os tarecos de Downing Street para dar lugar a David Cameron. Não conseguiu segurar o desgaste do Labour nem a herança de Blair. Treze anos depois deste ter iniciado a fecundo período de governação do New Labour, os conservadores regressam ao poder, ainda que reciclados do thatcherismo. Para isso precisaram de queimar três líderes distintos mas sem carisma, até ao novato, etonian e apreciador dos Smiths Cameron, um compassive conservative, segundo o próprio. Resta agora saber com que maioria vão os tories ficar (ao que tudo indica, não é absoluta), e qual o peso político dos liberais-Democratas, da nova estrela política na Grã-Bretanha, Nick Clegg, mas do partido laranja falarei mais tarde.

E, claro, saber o que vai fazer agora Gordon Brown.
Aconselhável também este artigo de Francisco Mendes da Silva, no 31 da Armada, que contextualiza o blairismo. Não estou necessariamente de acordo com todas as suas premissas e conclusões, mas é interessante, porque ajuda a perceber a época em que o New Labour vingou, entre a Britpop e um novo cosmopolitismo londrino.

quinta-feira, maio 06, 2010

A Expo de Xangai
Abriu oficialmente há dias a Expo 2010 em Xangai, a exposição mundial que sucede à de Saragoça, em 2008. Estive na cerimónia de apresentação a Portugal, no Casino de Lisboa, Parque das Nações, cenário apropriado e propositado por ter sido também uma outra exposição mundial. Esta Expo 2010 tem como tema "Melhor cidade, Melhor Vida", o que mais do que um exemplo, deverá constituir um desafio para a china, tendo em conta a forma repentina e caótica como crescem as suas urbes, cujos mapas mudam em poucos meses. E Xangai é precisamente a maior das cidades chineses, uma megalópolis a caminho de se tornar a maior do Mundo, e também a mais cosmopolita do país, por razões históricas.

O espectáculo de apresentação teve uns números musicais mornos. Bem mais megalómano é o espaço da exposição, a maior de sempre, dez vezes a área da Expo 98. O tema poderá ser algo em que os chineses não serão um grande exemplo, mas a extensão tem tudo a ver com o gigantismo tão próprio da China e das suas ambições. Como compete a qualquer grande potência emergente, a organização deste tipo de eventos é mais uma forma de afirmação mundial, como o fora os Jogos olímpicos, como o Brasil também o demonstra. Já Portugal também tem uma representação bem à sua medida, numa pavilhão de cortiça. Se servir de incremento ao consumo de vinho português e à cortiça sempre servirá para alguma coisa.

domingo, maio 02, 2010

Portugal: o sentimento de fracasso dos catalães


Analisando o assunto do post anterior - o triunfo do Inter sobre o Barcelona - e as reacções culés, e olhando para o ódio a Mourinho, fico a pensar que os catalães não olham para os portugueses com bons olhos. Repare-se-se de novo no futebol: Mourinho é o que se vê (e a imprensa local trata-o por "tradutor"), Figo teve a pior recepção que um profissional da bola jamais teve no Nou Camp (até cabeças de porco lhe atiraram), a Baía, Quaresma e Simão as coisas nunca correram particularmente bem, e Fernando Couto teve uma passagem discreta.


Não tenho grande conhecimento de passagens de notáveis de portugueses por outras áreas na Catalunha, mas o futebol, tão mediatizado, poderá ser um bom exemplo da maneira como se olha para nós nessas paragens. Olhando com alguma atenção, a História, parece explicar porquê.


O Condado de Barcelona uniu-se ao Reino de Aragão no Século XII, que por sua vez, com o casamento entre os Reis Católicos, se uniu a Castela, dando início à moderna Espanha. Com a chegada de Castela às Américas e a afluência dos metais preciosos, Sevilha tornou-se o grande entreposto comercial, relegando Barcelona para plano inferior. Até aí, a cidade catalã era um dos grandes portos do Mediterrâneo e dominava grande parte do seu comércio, até porque Aragão possuía ainda Valência, as Baleares, a Sardenha, Nápoles e a Sicília, e alguns territórios na Grécia. Mas as descobertas de novas paragens levaram o grosso do comércio do Mediterrâneo para o Atlântico, e para novos centros, como Sevilha, Antuérpia e Lisboa. Assim, o início da época de ouro portuguesa coincidiu com o declínio catalão.


Muito mais tarde, na Guerra da Sucessão de Espanha, a Catalunha apoiou o Arquiduque da Áustria, candidato dos Habsburgos ao trono espanhol, contra as pretensões da França de Luís XIV. Também Portugal estava do lado dos Habsburgos, e o Marquês das Minas chegou mesmo a entrar em Madrid, mas isolado, acabou por sofrer sérios revezes e a França lograria atingir os seus objectivos, ainda que à custa de inúmeros territórios, colocando no trono um Bourbon, que aliás ainda hoje reinam. Quase toda a Espanha apoiava o candidato de França, o Duque de Anjou, neto de Luís XIV, excepto a Catalunha. Pagou caro o apoio aos Habsburgos, com a perda dos seus direitos e a abolição das suas Constituições, bem como o apagamento da sua língua, menorizada e posta de lado. O que resultou do Tratado de Utreque constitui uma enorme machadada na autonomia catalã, e a sua dissolução em Castela, de que demoraria dois séculos a recuperar.


Depois, há que não esquecer que na Guerra civil de Espanha a Catalunha esteve do lado Republicano, que lhe garantia autonomia, ao passo que Portugal dava apoio não-oficial ao campo nacionalista. Com a vitória destes e o advento do franquismo, o estatuto e a língua voltaram a ser suprimidos. Franco evocava os Reis Católicos, mas ao contrário destes, jamais recuperou o aceitou as Constituições catalãs.

Mais o maior motivo de inveja, ou de desagrado dos catalães em relação aos portugueses, é anterior, e terão sido as revoltas quase simultâneas, em 1640. A que ficou conhecida como Guerra dos Segadores (imagem acima) ergueu-se contra Castela e as medidas do Conde-Duque de Olivarez, primeiro-ministro de Filipe IV/III, proclamou a república e depois ofereceu a coroa condal a Luís XIII de França. Castela reagiu, venceu os catalães e os franceses e apoderou-se de novo da região, apenas cedendo à França algumas partes a norte. Os conjurados portugueses aproveitaram-se desta revolta e da "distracção" espanhola, defenestraram Miguel de Vasconcelos a 1 de Dezembro e coroaram Rei o Duque de Bragança. A guerra subsequente durou 28 anos, mas depois de pesadas derrotas os castelhanos reconheceram a sua perda. Já a Catalunha ficou subjugada e jamais recuperou qualquer traço de independência, embora goze hoje de uma larga autonomia.


Mas fico com a impressão de que os catalães, mesmos que saibam pouca história, têm no seu subconsciente uma certa inveja e uma acrimónia contra Portugal, pelo facto da nossa existência enquanto país ser uma das razões do seu estatuto regional, e porque nos olham como uma nação que recuperou a sua independência, ao passo que a Catalunha regrediu na sua autonomia. No fundo, Portugal é a outra face da moeda catalã, o país que eles gostariam de ser e não são, desde que a sua revolta falhou e a nossa teve tanto sucesso que quase quatrocentos anos depois continuamos independentes e com as mesmas fronteiras.
Figo e Mourinho sentiram no ar esse sentimento de oportunidade perdida para outros.