quarta-feira, agosto 17, 2016

António Pedro, cinquenta anos depois da sua partida


Há exactamente 50 anos, a 17 de Agosto de 1966, morria aos 56 anos o artista António Pedro da Costa na sua casa de Moledo do Minho, vítima de asma. António Pedro, como era simplesmente conhecido, nasceu em Cabo Verde, veio para a metrópole aos 4 anos, onde estudou no colégio jesuíta de La Guardia, e depois nas universidades de Coimbra e Lisboa. Nunca concluiu os seus cursos. Era um autodidacta tremendo que não podia ficar agarrado somente a uma área. Esteve ligado ao Nacional Sindicalismo, de Rolão Preto, dirigindo o jornal do movimento, o Revolução, mas rapidamente deixou a política e dedicou-se mais às artes. A todas as artes.

Passou por Paris, Brasil e Londres, privando com figuras gradas das artes e ligando-se a movimentos vanguardistas. Em Portugal criou a primeira galeria de arte, a U.P., e mais tarde envolver-se-ia com o grupo surrealista, com o qual é mais conotado, embora não possa ser colocado apenas nas redomas oníricas do surrealismo. Era pintor, caricaturista, ceramista, encenador, dramaturgo, poeta, contista, ensaísta, etc. Um artista total, um pouco como Almada, com quem também se deu. Incrementou o Teatro Experimental do Porto, e as carreiras de actores que ganhariam nome no palco, como Eunice Muñós e José Viana, ou de pintores, como Vieira da Silva. Por toda a parte, mas sobretudo na região Norte, e em particular no Minho, deixou a sua marca, fosse em programas das RTP (muitos dos quais desapareceram, com o reaproveitamento das suas bobines), em guiões para cinema e curtas-metragens, nos seus contos e poemas, nas casas que projectou, nos azulejos que desenhou (como os que podem ser vistos na garrafeira Baco, em Caminha), no símbolo do Ínsua Clube, que fundou, e que se assemelha ao peixe paleocristão, e nos vestígios do teatro que tentou construir em Moledo, que ficou a meio, popularmente conhecido como "as ruínas", e que hoje em dia alberga um conhecido bar e um auditório com o seu nome. Seria em Moledo que morreria, há 50 anos. E é em Moledo, em Caminha e Viana que a sua memória é recordada por estes dias, em inúmeras e diversificadas iniciativas. Para recordar este talentoso multi-artista e re-divulgar a sua figura, que bem o merece.





Neste pequeno trecho podemos ouvir António Pedro e acompanhar um pouco do seu trajecto, incluindo o testemunho de Joaquim Guardão, ainda vivo, e que tive a honra de conhecer. Há mais, no site da Companha de Dança de Lisboa.

terça-feira, agosto 16, 2016

Abolir o IMI


Com os Jogos Olímpicos, os fogos e as viagens de membros do Governo patrocinadas pela Galp, ficou esquecida a primeira polémica de Agosto: os critérios para o valor do IMI de cada casa, como a exposição solar, a vista para cemitérios e ETARs, etc. Não é muito justo que uma casa modesta tenha de pagar mais por apanhar mais luz do sol (pode ser pela escassez de arvoredo, por exemplo), mas para se acabar com essa questão havia uma solução definitiva: abolia-se o IMI. Ainda por cima, baixaria muita da especulação financeira e incrementaria antes a reabilitação. Mas depois de que viveriam as nossas autarquias? Arranjar um sucedâneo sensato nunca seria fácil.

Os olímpicos no Brasil



Não sei se é pelo facto de se estar debruçado no que é essencial (ou seja, as provas), mas esperava uns Jogos Olímpicos mais acidentados. E os prenúncios não eram nada bons: instalações com deficiências, furtos, poluição extrema das águas, obras atrasadas, falta de recursos, problemas infindos no Rio, tudo sob uma grave crise económica e política que levou à substituição da presidente do Brasil a poucos meses dos jogos por um vice pouco conhecido e ainda menos popular. O certo é que apesar de alguns problemas que provavelmente têm sido camuflados, as atenções viraram-se para a competição. Os enormes desportistas Phelps e Bolt (sobretudo o jamaicano) subiram ainda mais no panteão dos atletas, surgiram novos nomes, como Simone Biles e Van Niekerk, e até dia 21 ainda há muito para ver. Entre os portugueses, Telma Monteiro conseguiu a tão almejada medalha, depois de duas edições de jogos desoladoras, mas o resto tem sido frustrante, apesar dos esforços dos jogadores. Ainda hoje, Nelson Évora e Fernando Pimenta ficaram perto do pódio, sem hipóteses de o pisar. A selecção C de futebol conseguiu a proeza - mais uma de Rui Jorge - de ficar em primeiro lugar no seu grupo, antes de ser derrotada sem apelo nem agravo pela Alemanha. Veremos o que faz o limiano daqui a dias, assim como a cavaleira Luciana Diniz mas as esperanças de medalhas vão-se eclipsando.

Apesar de tudo, as coisas vão correndo satisfatoriamente e a cerimónia de abertura, de que só vi partes e em diferido, agradou, embora duvide que tenha ultrapassado o excelente espectáculo inicial de Londres em 2012. Não houve grandes referências aos portugueses nestes primeiros jogos num país lusófono, mas a correcção política das "causas indígenas" falou mais alto. Enfim, houve Gisele Bundchen.

Sem querer ser chato, há uma questão que surgirá inevitavelmente: acabada a festa, que Brasil teremos no pós-jogos? Dilma deve ser definitivamente exonerada no fim do mês, os problemas com as expropriações por causa dos jogos voltarão, e a herança do evento vai pesar. Aliás não compreendo como é que se pode organizar um Mundial de Futebol e uns Jogos Olímpicos com apenas dois anos de intervalo, o que revela que os brasileiros, na senda de se tornarem uma superpotência, tiveram mais olhos que barriga. Agora, em plena crise e desaceleração económica, caiu-lhes tudo em cima. O futuro próximo não vai ser fácil.

quinta-feira, agosto 11, 2016

A tragédia do Verão e a discussão costumeira



Ao fim da tarde lá consegui ver um esboço de céu azul por entre este manto de fumo pesado e sufocante e as microcinzas que caem. Não sei se a causa vem de Gondomar, de Águeda, de Arouca ou dos Arcos, mas o mais provável é que seja uma conjugação de tudo.
Com todos estes fogos horrorosos, sobressaem duas características bem portuguesas: a solidariedade, evidente entre todos os que vão ajudar os que têm as suas casas em perigo, e a maledicência, que se espalha em milhares de milhares de comentários das redes sociais, sempre com um culpado em mira: o governo (tanto o actual como os anteriores), as autarquias, os bombeiros, os "interesses instalados", os madeireiros, as celuloses, os turistas, etc. E inevitavelmente fala-se sempre na prevenção. Certíssimo, a prevenção, mas seria bom que se falasse disso não apenas em Agosto, à vista das chamas, mas em Janeiro ou Fevereiro (falo da discussão entre a sociedade civil, porque ignoro os planos do MAE e restantes organismos responsáveis). E mesmo uma pessoa como eu, que não percebe grande coisa do assunto, já conseguia prever que com uma vegetação enorme devido a uma Primavera chuvosa, temperaturas anormalmente altos, ventos fortíssimos e a nossa "bela" floresta constituída por esse grande combustível chamado eucalipto, só mesmo por muita sorte é que não haveria fogos. Mas a sorte não aparece sempre.
Todos os anos se repete a mesma discussão sobre fogos. E estes variam devido a um e só um factor: o clima. Há dois anos, choveu nos primeiros dias de Agosto e quase não se falou do assunto. A diferença entre haver ou não incêndios parece resumir-se à maior ou menor pluviosidade de verão. É disso mesmo que estamos a precisar: de uma boa chuvada. 

A meteorologia anuncia chuva para a semana. Oxalá acerte.

quinta-feira, agosto 04, 2016

Agosto


Chegou Agosto. O meu mês, o mês que simboliza o Verão, aquela altura mítica e tão aguardada durante o resto do ano pela esmagadora maioria da população que vive no hemisfério Norte. Cada dia de Agosto, mais do que qualquer outro, seja em férias ou em trabalho, é precioso e tem de ser aproveitado até à última gota.
 
É verdade que para além de ser um nativo deste mês, também pode contribuir para essa minha mitificação o facto de no último 31 de Julho ter feito "bodas de prata" que parti uma perna, levando a que passasse um Agosto de pré-adolescência imobilizado. Não é experiência que recomende. E assim, enquanto alguns acham que 31 de Julho é o melhor para, por exemplo, casar, eu espero sempre que esse dia aziago passe rapidamente. Para entrar no oásis de Agosto.

domingo, julho 31, 2016

Boris at the Foreign Office


Uma das situações mais bizarras das últimas semanas, que permitiu um mínimo de discussão mas que acabou submergido na torrente de acontecimentos simultâneos, foi a nomeação de Boris Johnson para Secretário de Estado dos Assuntos Estrangeiros. Ele, que quase se guindou à liderança dos conservadores - e do governo da Rainha - com as portas escancaradas, na sequência do referendo do Brexit, tinha fugido da luta, aparentemente destruindo a sua carreira política quando estava tão perto do topo, dando uma imagem de fuga às responsabilidades e desiludindo quem nele tinha apostado. Esta promoção não deixa de ser surpreendente, porque é dos mais inesperados e rápidas regressos à ribalta depois de uma travessia no deserto, também ela das mais rápidas. O ex-editor da Spectator ocupa um cargo que lhe dá ainda mais visibilidade do que o de mayor de Londres. Terá oportunidade de fazer valer as suas reais capacidades executivas, e já agora, a sua bagagem da História e a sua percepção dos acontecimentos. O seu maior problema é a irreverência - paradoxalmente também a causa da sua grande popularidade - que lhe deixou um rasto de declarações muito pouco diplomáticas sobre variados estadistas ou candidatos, como Hillary Clinton, Donald Trump, e sobretudo, Erdogan. Os encontros bilaterais com qualquer desses parceiros serão previsivelmente tensos, e talvez por isso o seu ministério tenha ficado despojado da questão do Brexit, entregue a outro órgão criado de propósito.

Apesar de conhecida a propensão de Johnson para a irreverência (ou para o puro disparate), algumas das reacções à sua nomeação revelaram bem o grau de arrogância e de ressabiamento com que alguns responsáveis da UE lidaram com o referendo britânico, a começar pelos responsáveis da política externa dos dois países que julgam dever ser eles a controlar a UE, a França e a Alemanha. Ayrault disse tratar-se de "um mentiroso", o medíocre Steinmeier afirmou que a nomeação era "escandalosa". Música para os defensores do Brexit, que ganham mais pretextos contra a intromissão em assuntos exclusivamente reservados ao Reino Unido, neste caso a escolha dos membros do governo. E vindo da França e da Alemanha, ainda mais desconfiança provocam no lado de lá da Mancha. Sim, o Brexit também é por culpa de gente desta. Repito: foram reacções à sua nomeação de uma pessoa com quem forçosamente se terão de encontrar, não meras críticas antes de se saber que ia ser nomeado, o que diz bem da qualidade de alguma euroburocracia reinante. E não, não eram do tão criticado PPE, antes dois socialistas, como aliás o é Dijsselbloem. Estou curioso para ver os primeiros encontros de Boris com esta gente.

Entretanto, a Grécia tem voltado ao ataque para que os frisos do Pártenon que Lord Elgin levou para o Museu Britânico há duzentos anos sejam devolvidos à proveniência. É um pedido justo, que teve o apoio recente do Parlamento Europeu. Será mais um pretexto para o Brexit. Boris tem sido um fervoroso defensor da manutenção dos mármores em Londres, e as pressões europeias podem tê-lo ajudado a optar definitivamente pela saída da UE. Certo é que o pedido dos gregos é antigo e que o próprio Boris sabe-o bem, já que na sua juventude em Oxford teve de encarar a máxima defensora do regresso dos frisos, a mítica Melina Mercouri. como se sabe,  não se deixou convencer, mas pela expressão não deixou de se sentir intimidado pelos argumentos da combativa ministra grega da cultura.
 

quarta-feira, julho 27, 2016

Um mártir




...porque o é, realmente. Porque morreu a cumprir as obrigações para com Deus e a comunidade e honrar os seus votos. Coincidência pouco alegre: o seu martírio ocorreu ao lado da mesma cidade, Rouen, onde morreu outra mártir e a padroeira de França, Joana D ´Arc. E como já notaram, na Igreja de Saint Etienne (Estêvão), o primeiro mártir cristão.
Aquilo que ouvíamos acontecer na Síria e no Iraque acontece agora na Europa. Temíamos que pudesse suceder, mas no fundo com esperança que não, que ficasse lá longe, aquém Mediterrâneo. O Padre Jacques Hamel é afinal um mártir da Igreja tal como são muitos outros que morreram nos últimos anos às mãos de uma horda que não respeita religiões, idades ou qualquer outra condição.
 
Falava no último post de alguns apressados, de autores de frases banais. Nas redes sociais de hoje, voltam a aparecer. Mas até por respeito para com Jacques Hamel, podia-se evitar lançar tiros para todo o lado, sobretudo para os refugiados, como já vi muitos fazer, como se já soubessem de quem se tratou e precisassem de um culpado à mão, como acontecia no velho Oeste.
 
Mas entretanto aparecem mais grupos particularmente irritantes. Os que vêm com pacifismos patéticos ou oportunistas, afirmando que "a culpa é do racismo e da austeridade", como o fazem alguns idiotas úteis. Ou pior, os que por ser um padre, lançam piadinhas ou até encolhem os ombros porque, segundo eles, "também houve as cruzadas e a Inquisição". Pois, e também houve a cultura ocidental de mil e quinhentos anos, também houve o espírito de acolhimento e de caridade, também houve o fim dos jogos de circo e a escravatura (que infelizmente voltou), também houve a capela Sistina, a regra de S. Bento e as missões a acolher os pobres deste mundo. A esses, perdoemos, e se voltarem a insistir, talvez um balde de água fria pela cabeça abaixo seguido de uma sabatina de estudos sobre a matéria lhes faça bem. O Mal paga-se com o Bem, sabemo-lo desde aquela última Ceia.

segunda-feira, julho 25, 2016

Frases ocas, perigos imprevisíveis e a ferida de Nice

Fico sempre de pé atrás quando, mal surge a notícia de mais um atentado terrorista, aparecem logo as vozes a dizer que "é preciso tomar medidas drásticas", que "o Ocidente está de novo sob ataque" ou que "a Europa não percebeu que está em guerra" conjugado com um "o Daesh continua a crescer no Iraque a na Síria". Ouvi estas quatro frases depois dos atentados de Nice, e retive-as porque são uma súmula das declarações-tipo de rede social feita à pressa, com uma qualquer pretensão a que os outros as ouçam comko expressões de altíssima sabedoria.
 

Não sei de que medidas drásticas se fala; geralmente, os autores da frase nunca dão exemplos, mas calculo que seja a expulsão de toda a população com origem étnica de uma maioria muçulmana, ou a proibição da prática do Islão, nas opiniões mais radicais, ou a expulsão de clérigos. Mas em casos em que não se percebe bem a motivação, de que serviria (além de que a expulsão de populações inteiras nunca traz grande resultados)?
 
O ocidente está de novo sob ataque". Sim, é verdade. O terrorismo não poupa a Europa e um pouco os Estados Unidos e a Austrália. Mas que dirão os iraquianos, sírios, afegãos, turcos, indianos, bengalis, inúmeros países africanos, etc, que apanham com o grosso dos ataques e que são as primeiras vítimas do propalado Daesh? O eurocentrismo de muitos continua a não perceber que a Europa já não é o centro do Mundo.
 
 
"A Europa não percebeu que está em guerra". Percebeu sim. Aliás, aquando dos atentados de Novembro em Paris, François Hollande usou imediatamente essa frase desde então, e com ele, muitos outros. Sim, a Europa e não só está numa guerra atípica e fora das habituais normas do direito internacional contra uma organização terrorista e maléfica que tem base territorial e serve de inspiração a uma quantidade não desprezível de assassinos escondidos. Mas que é que isso implica? Que as pessoas se fechem em casa, andem mais ou menos armadas, cavem bunkers? Ou tentem fazer a sua vida da forma mais natural possível? E se os autores dessa frase dessem o exemplo e se dessem como voluntários para combater o Daesh no Médio Oriente? Por outro lado, dizer que o Daesh continua em grande na Síria e no Iraque prova que não têm estudado os mapas de guerra nos últimos tempos. Fallujah, Palmira, Sinjar, tudo nomes que não lhes dizem nada.
 
Frases ocas à parte, a verdade é que nos últimos tempos nos temos confrontado com uma data de actos trágicos que só variam no grau (que pode ir até às centenas de mortes de uma penada, como há dias em Bagdad), quase todos com a marca do Daesh. Pior: das células terroristas conectadas com a organização-mãe passou-se os lobos solitários muitíssimo difíceis de detectar, que se declaram soldados do Daesh", ou que se não o fazem, imediatamente vem a organização declará-lo como tal (caso de Nice). E agora temos todos os alienados e sociopatas que, inspirados pelos atentados do dia anterior, tentam fazer algo de semelhante, como tem acontecido na Alemanha nos últimos dias. E mesmo não sendo adeptos do Daesh, como o atirador de Munique, a psicose instalada leva a que se fale logo em terrorismo islâmico. Pergunto-me até que ponto as notícias em barda e os directos intermináveis não potenciam ainda mais ataques, de forma similar à que as imagens de incêndios provocam aos pirómanos.
 
Os tempos que se avizinham vão ser muito complicados. Não sei se se instalará a paranoia ou a banalização. Qualquer uma delas é perigosa.
 
Uma coisa é certa: não voltaremos a ver a bela Promenade des Anglais, observada do châteaux de Nice, bordejada pela Baie des Anges, pelo Negresco e pelos casinos e palácios de verão, com a mesma disposição. Nice, emblema maior da Côte d´Azur e do savoir-vivre daquela região, é a ferida mais pungente em todo este Verão perigoso. E vai demorar a passar.

Nice 2005, numa foto de fraca qualidade mas muito pessoal

sexta-feira, julho 22, 2016

Uma tirania com forma democrática?


Apesar de todos os boatos, custa-me a crer que o putsch na Turquia tenha partido do próprio Erdogan. Se assim fosse, não haveria tantos soldados mortos (só na improvável hipótese de serem todos mártires), além de que golpes protagonizados pelas forças armadas naquele país são relativamente vulgares. A diferença é que desde há muito que as purgas nas cúpulas das forças armadas tinham permitido "limpá-las" dos que se consideravam "guardiões do estado laico", pelo que os postos superiores eram de homens fieis a Erdogan. Assim, foram entidades intermédias ou menos graduadas as responsáveis pelo golpe abortado.
 
Não vale a pena estar a reportar e a debater todos os acontecimentos da tentativa de golpe. Como já disse, com os poucos elementos disponíveis, não acredito na teoria de auto-golpe como pretexto de reforço de poderes. Mas é razoável pensar que Erdogan estivesse a par de planos para uma tentativa e o utilizasse para aumentar posteriormente o controlo do país, como efectivamente acontece. O apelo à população surtiu efeito: perante milhares de civis que apoiavam o presidente, e tendo em conta a sua legitimidade democrática, todos os partidos da oposição e grande parte das potências internacionais apressaram-se a condenar o golpe, o que reforçou a sua posição. Para mais, os revoltosos cometeram erros incomensuráveis, disparando sobre populares, o parlamento e o palácio presidencial, desencadeando ondas de violência e a sua própria derrota. E as memórias de outros golpes (particularmente o de 1960, que acabou com o derrube e morte de um primeiro-ministro eleito) não ajudaram.
 
Com a purga de militares, funcionários públicos, académicos e magistrados em curso (fala-se de mais de 50 mil pessoas afastadas), reforçado pela tentativa violenta de o afastar, Erdogan está a conseguir o que queria: moldar uma Turquia sob o seu jugo. Apesar da constante exaltação da memória do Império Otomano, não parece que estejamos perante perante uma islamização do país ou o fim absoluto do kemalismo. Recorde-se, aliás, que o presidente falou para as câmaras de TV ainda no aeroporto de Istambul, com uma enorme imagem de Kemal Ataturk atrás de si, para lhe conferir toda a legitimidade como líder turco. O mais provável é que seja um projecto de autoritarismo pessoal, aproveitando a dupla herança dos otomanos e do regime criado por Ataturk (que governou sempre com punho de ferro) para reforçar a Turquia como potência regional comandada por ele, um pouco à imagem do que se passa na Rússia de Putin, com aquele híbrido de URSS czarista abençoada pelo metropolita ortodoxo de Moscovo. E a aproximação a esta última, bem como a Israel, enterrando questões recentes, parece apontar nesse sentido (e provocar calafrios à NATO).
 
 
 
Mais inquietante ainda é a vontade de mudar algumas situações que se pensava estarem definitivamente para trás, como a intenção de reintroduzir a pena de morte, e pior, aplica-la retroactivamente. Erdogan clama que se for essa a vontade do povo, então deve ser respeitada. Mas caso aconteça, para além de afastar definitivamente a Turquia da UE, apenas revela que poderá considera-se uma democracia, no sentido bruto do termo, mas nunca um regime liberal. Além de apontar uma vontade popular como fonte única de direito (desde que convirja com os seus propósitos), a aplicação de leis penais de forma retroactiva (particularmente a pena capital), coisa absolutamente interdita em democracias liberais, tornaria a Turquia numa tirania com forma democrática, baseada na vontade popular, que entregaria o poder o chefe supremo, de poderes ilimitados, acima de qualquer norma ou princípio, com os outros órgãos de soberania a cumprir um papel meramente decorativo. Mais do que os perigo imediatos que por ali grassam (tensões militares, terrorismo, etc), essa é que devia ser a principal causa de temor.

quarta-feira, julho 20, 2016

A guerra que começou há 80 anos


Há 80 anos, a 17 de Julho de 1936, começava o levantamento de Franco e de outros generais para derrubar a república, no seguimento de vários incidentes que culminaram com o assassínio de Calvo Sotelo, líder da direita parlamentar. Como se sabe, o levantamento teve eco nalguns pontos do país, mas falhou noutros, desde logo em Madrid e Barcelona, dando origem à terrível guerra civil que durante três anos devastou o país vizinho. Enfrentaram-se dois blocos políticos antagónicos divergentes mesmo entre si, os republicanos ou lealistas (que incluíam republicanos maçons, liberais, socialistas, comunistas, trosquistas, anarquistas, autonomistas bascos e catalães, entre outros). apoiados pela URSS e pelo México, e os nacionalistas (sobretudo monárquicos, conservadores, falangistas-fascistas, carlistas), apoiados pela Alemanha, Itália e oficiosamente, por Portugal. Com superior máquina de guerra e forças mais preparadas, e aproveitando-se das encarniçadas lutas internas no campo adversário, foram estes últimos os vencedores, ganhando terreno ao campo republicano até à queda de Barcelona, Valência e Madrid, em 1939. Nesses três anos terríveis houve atrocidades das duas partes, com quase mais mortos que prisioneiros. Meses depois do fim, começava a 2ª guerra Mundial.
       Manuel Azaña e Francisco Franco, os dois grandes representantes de cada lado, ainda em tempos da república
 
Os 80 anos do início da Guerra caem precisamente numa altura em que Espanha está sem governo efectivo depois das inconclusivas eleições de 26 de Junho, em que o risco de secessão da Catalunha é real, em que a classe política está desprestigiada e surgem novos actores partidários, quiçá mais radicais, e em que Espanha está ameaçada pela Comissão Europeia de novas sanções. Aparentemente, o único problema afastado é a questão de regime. E nalguns casos, certos fantasmas dos anos trinta parecem reaparecer, sobretudo quando há radicais ou irresponsáveis que os trazem à luz do dia.
 Claro que hoje em dia a sociedade espanhola não está tão dividida como em 1936, salvo nos nacionalismos catalão e basco (o galego é mais uma teimosia de sectores minoritários), já que pode haver combinações possíveis, impensáveis há oitenta anos (por exemplo, monárquico e autonomista). À esquerda, o PCE e sobretudo o PSOE são muito diferentes do que eram na altura, as formações republicanas azañistas são irrelevantes, os anarquistas também definharam (a sede da CNT/FAI em Barcelona é quase imperceptível, como tive ocasião de verificar), o POUM é uma memória; à direita, a Falange não é mais que meia dúzia de saudosistas (e todos os partidos neofranquistas foram um fracasso), os carlistas, ainda mais minoritários, dividiram-se numa pequena facção de esquerda e noutra de direita, e monárquicos há-os em toda a parte; curiosamente, talvez seja o PP o mais parecido com um dos grandes partidos da época, a CEDA, de Gil Robles (cujo filho, o espanhol que melhor português vi falar, pertence ao PP e chegou a presidente do Parlamento Europeu), embora num contexto muito menos tenso. Aparentemente, o Podemos é a formação com mais saudades da república, como se provou com alguns militantes destacados fazendo manifestações anticlericais, mesmo sabendo ao que isso levou. E a sua implantação crescente não é um bom sinal.
Mas a lição da história parece ter caído bem nos espanhóis. Aparentemente, e a julgar pelos resultados eleitorais, os povos vizinhos não têm grande vontade de reviver os anos trinta, nem sequer nos cenários de secessão.

É irónico que nos últimos dias vários periódicos do nosso país tenham publicado uma qualquer sondagem em que mais de 70% dos portugueses veriam com bons olhos uma união ibérica. Tenho dúvidas nos métodos do inquérito e se as pessoas perceberam bem o que lhe perguntaram. Mas aos  iberistas que ficariam muito agradados numa fusão por questões fiscais e outras razões menores, devia-se-lhes perguntar se também gostavam de ser "ibéricos" ao tempo da Guerra de Espanha, como tudo o que isso implicou. Tenho ideia que o seu fervor se dissiparia num instante.

segunda-feira, julho 18, 2016

O fim do triste Fado


Não exagero se disser que a vitória da Selecção no Stade de France, a 10 de Julho de 2016, e a conquista da Taça da Europa representam, se não o fim, pelo menos um enorme rombo no triste fado lusitano, no desgraçadinho, no "nunca conseguimos", na saudade do futuro que nunca chega. E há mais quem corrobore, como Eduardo Lourenço ou André Lamas Leite. Tal vitória, perante a nossa bête noire futebolística no seu próprio covil, com o Mundo inteiro a assistir, daquela forma heróica, em que o capitão e máxima referência é excluído maldosamente do jogo sob a complacência do juíz, e é o jogador mais subvalorizado de todos que aplica o pontapé de glória, é digna de uma epopeia de Camões ou de um épico à Cecil B. DeMille.

O futebol, como mobilizador de multidões, tanto nos recintos como nos ecrãs, é hoje talvez o maior expoente da globalização. Veja-se a título de exemplo os milhões que são pagos pela sua radiofusão, os custos da publicidade, a venda de camisolas por toda a parte, etc. Mesmo em países tradicionalmente pouco ligados à bola, o interesse é crescente - o investimento em jogadores nos Estados Unidos e na China, além do enorme aumento do número de espectadores e telespectadores dos jogos, é brutal. Por isso, e por muitas outras razões, não se pode reduzi-lo a um mero "jogo entre 22 pessoas para enfiar uma bola numa rede". Talvez não siga a máxima de Bill Shankly, mas a verdade é que nunca o futebol esteve tão mediatizado e globalizado como agora. Que eu me recorde, o único português que pôs espanhóis e ingleses em silêncio, antes de ser aplaudido, chamava-se Eusébio da Silva Ferreira.
 
Dada a importância do futebol na visibilidade de uma comunidade, os triunfos transcendem a simples vitória desportiva. E Portugal mostrou-se muito ao mundo nos últimos vinte anos, depois do surgimento na década de sessenta, de alguns brilharetes nos 80 e da "geração de ouro". Em todo o mundo se vê gente com a camisola da Selecção, particularmente desde que Cristiano Ronaldo se tornou um supercraque e um ídolo à escala mundial. Lembremo-nos por exemplo daquele miúdo indonésio encontrado à deriva depois do tsunami de 2004, o Martunis, mais notícia pela camisola que envergava do que pelo salvamento em si. Daí a importância extraordinária desta conquista: uma equipa diminuída, privada do líder natural, desfeiteou outra dada como vencedora e arrebatou o troféu mais cobiçado que estava entalado na garganta desde 2004.
 
Há também o aspecto simbólico da coisa, remetendo para o futebol puro e simples, a começar pela primeira vitória oficial de sempre sobre a França, uma desforra particularmente saborosa por ser no seu "circo máximo", numa final, e com representantes das anteriores derrotas em cima do palco - Humberto Coelho pela selecção de 1984, João Vieira Pinto pela de 2000, e os próprios Ronaldo e Ricardo Carvalho (também únicos sobreviventes da equipa de 2004) pela de 2006. Sempre nas meias finais. Mas na final, o vencedor seria outro. E logo no país onde reside a maior comunidade portuguesa fora de Portugal, e que se mostrou avidamente. No dia a seguir ao triunfo, teriam um motivo a mais para andar de cabeça levantada. Repegando numa piada que já deixara no outro dia, este ano, o verdadeiro dia de Portugal e das comunidades foi não a 10 de Junho mas a 10 de Julho.
 
Como também se disse, no dia seguinte ao sonho tornado realidade, e apesar da festa imensa e da recepção triunfal à Selecção, a dívida pública não baixou, os serviços públicos não melhoraram, o desemprego não desapareceu, a classe política não se regenerou e até se soube que a Comissão Europeia prosseguido com processo de sanções a Portugal por falta de medidas contra o défice. Mas o que fica mesmo é o exemplo de organização, trabalho, fé, união e espírito de sacrifício que os jogadores e técnicos demonstraram, com um pouco de sorte pelo meio - mas a sorte aparece nestas ocasiões. Aquilo que nunca tinham conseguido, e que se dizia, particularmente após o Euro-2004, que nunca iriam conseguir, concretizou-se numa extraordinária vitória quando todas as circunstâncias indicavam o contrário. O impossível era afinal possível, e o triste fado não gemeria para sempre. Socorrendo-me da mitologia lusitana, pode-se dizer que o mito (da suplantação) do Adamastor sobrepôs-se ao do sebastianismo falsamente esperançoso e para sempre à espera de nada.
 
Para acabar, uma palavra sobre Fernando Santos. Em 2004, quando Portugal perdeu em casa, dizia-se que só com Mourinho a equipa nacional conseguiria alguma coisa; Fernando Santos fora despedido do Sporting, tivera um fim de época para esquecer e era dado como um loser, embora competente. A passagem pela Grécia deu-lhe como que uma nova raça. Apanhou a Selecção em cacos, depois de uma derrota caseira com a Albânia (sim, a aventura de Portugal neste Europeu começou da pior forma possível), e levou-a tranquilamente à qualificação. Geriu tudo com objectividade, humildade (apesar da declaração, no fim verdadeira, de que só voltaria no dia 11) e Fé, que aliás demonstrou publicamente e sem quaisquer pruridos nas declarações após a vitória. Deixou quase todos os louros para os jogadores. Provou que não é preciso ser muito mediático nem exuberante para se atingir o topo quando este mais parece inalcançável. Curiosamente, este parece ser o anos dos treinadores dados como losers: Rui Vitória, Claudio Ranieri, Fernando Santos, todos eles triunfaram quando nada o fazia prever. Mostraram trabalho, fé e resistência à descrença que os rodeava. Ganharam. E deram um valiosíssimo exemplo a todos.
 
Já lhes disse que o triste fado de Portugal acabou no dia 10 de Julho de 2016?




O mais comovente vídeo da final; golo de Éder, música "Acção" de Carlos Paredes, montagem de Cristiano Saturnino.