sexta-feira, julho 06, 2018

Maradona e o síndrome de impunidade dos artistas


Não há Campeonato do Mundo de Futebol que não traga estrelas das competições passadas. No que está a decorrer agora já pude ver o dinamarquês Schmeichel, o alemão Lotthar Matthaus, o brasileiro Ronaldo (o "Fenómeno") e os colombianos Higuita e Valderrama. E Maradona, claro. A fumar charuto em locais proibidos, a insultar adversários, a criticar opções dos treinadores ou a entrar em transe quando a Argentina marca um golo (ou a sofrer uma vertigem quando sofre outro), a estrela dos anos oitenta e campeão do México 86 está lá sempre.

Confesso que tenho pouca paciência para Maradona, para a impunidade dos seus actos e para a ideia que transmite de que pode fazer tudo e ainda assim é um injustiçado. Era o maior jogador do seu tempo, sim, e um dos maiores de sempre. Mas nunca vi Zidane ou Beckenbauer, tal como não via Eusébio e Cruyff, a fazer semelhantes figuras (Pélé é outro caso, diferente mas não necessariamente exemplar). Maradona critica tudo e todos, não raras vezes insultando, faz o que lhe dá na real gana, arma-se em entendido na matéria, quando como treinador se revelou um desastre, e para piorar as coisas ainda passa por moralista, quando as suas aventuras com a droga  - não esquecendo que no seu último Mundial acabou afastado por doping - não o aconselhariam. Para mais, não se exime a exprimir as suas ideias políticas, que passam por usar tatuagens de Che Guevara, tendo sido visita frequente de Fidel Castro, ou por oferecer os préstimos a Nicolás Maduro, participando em comícios do protoditador venezuelano ou oferecendo-se como "soldado da revolução bolivariana" para "libertar a Venezuela e combater o imperialismo", isso numa altura de fortíssima repressão do regime vigente, com visível desrespeito por pelo princípio da separação de poderes, e de uma crise económica generalizada. E como não podia deixar de ser há ainda as suas "opiniões" sobre a Guerra das Faklandsl/Malvinas, considerando que a Rainha Isabel II e o príncipe Carlos têm as mãos "tintas de sangue"; curiosamente, do tempo em que jogava, não se lhe conhecem grandes críticas à brutal junta militar que comandava a argentina e que deu origem ao conflito que seria o início do seu fim, e que só por isso haveria que dar elogios aos ingleses. Parece que finalmente Maradona culpou os militares pelo desastre dessa aventura. Foram precisos mais de trinta anos...

Tudo isso adorado por uma patética "igreja maradoniana", com ritos em tudo semelhantes aos da igreja católica mas colocando o nome do antigo craque no lugar dos santos, assim como em Nápoles o seu culto concorre com o de S. Gennaro. As declarações, imagens e situações descritas podem ser vistas no filme Maradona por Kusturica, em que o realizador sérvio faz uma hagiografia ligeiramente envenenada ao argentino, aproveitando para fazer uma crítica ao ocidente.

Toda esta bajulação não é muito diferente da que é feita a boa parte das gentes das artes e das letras, que por mais barbaridades que digam e façam têm sempre uma desculpa, ou no mínimo vêm os seus actos ou declarações sempre atenuados. Se compararmos com os políticos, verificamos que a tolerância para com os primeiros é sempre muito maior, ou, no mínimo, gera sempre menos indignação, esse sentimento tão comum hoje em dia. Nunca percebi bem porquê. Quanto maior é a notoriedade do artista, do escritor ou do desportista maior é a sua responsabilidade. E a ideia estapafúrdia de que um escritor tem de ser um exemplo moral, e que a sua vida reflecte as ideias contidas na sua obra é uma infantilidade que tarda em passar. É a velha discussão do valor da obra Vs a vida pessoal dos seus autores. Artistas há que criaram obras intemporais e magníficas mas que tiveram vidas a todo o título miseráveis. O mesmo se aplica aos vultos literários, e claro está, aos desportistas. Não percebo nada de psicologia, mas a falta de distinção entre obra e autor parece-me dos comportamentos mais irracionais que imaginar se possa. E no entanto é algo tão comum que quase parece natural. Talvez não valha a pena admirarmo-nos com os panos quentes que são passados nestes casos. Maradona poderá sempre proferir barbaridades enquanto fuma em locais interditos e se oferece como "soldado da revolução" que terá sempre um culto qualquer a louvá-lo. Desde que não nos proíbam de os criticar já não é mau.


O Santana de sempre


Este tipo de assuntos desaparece dos radares em poucos dias, mas ainda estou a pensar nas últimas declarações de Santana Lopes e nas suas intenções, pela 145ª vez, de deixar o seu "PPD/PSD" e formar um novo partido. Para quem achava que "o Pedro" tinha mudado e ganho responsabilidade e maturidade, aí está a prova do contrário: é o Santana de sempre. O mesmo homem que ganhou a presidência do Sporting, garantindo que era para ficar, e que dez meses depois já tinha saído para concorrer à liderança do PSD. Ainda por cima a desmentir cabalmente aquilo que tinha negado há poucos meses - a intenção antiga de criar um novo partido. Afinal, aqueles que relembraram esta velha intenção tinham razão. E teve ele 40 e tal por cento dos votos dos militantes para liderar o partido de que diz estar farto. Há coisas que nunca mudam...

quarta-feira, junho 27, 2018

Podia ser pior


Claro que com a surpreendente eliminação da Alemanha na Rússia sobreveio a esperada vaga de piadas com referências à 2ª Guerra. Mas não é catastrófico: apesar de tudo caiu em Kazan, muito a leste de Moscovo. Já é um progresso.
E podia ser ainda pior: olhem se tivesse perdido em Volgogrado/Estalinegrado ou em Kaliningrado/Koenisgberg, berço da Prússia. As piadas tinham logo o dobro do sentido. Citando uma dessas piadas correntes, já é não é a primeira vez que a Alemanha vai à Rússia mal preparada.

terça-feira, junho 26, 2018

Sobre o São João que passou


Para recuperar um pouco do embate de segunda frente ao sr Carlos Queirós & Companhia Persa, antes do embate com o bravo Uruguai, fiquemos com esta imagem da noite de São João, invulgarmente quente, no passado Sábado para Domingo, logo a seguir ao lançamento do fogo, com o céu do Porto polvilhado de pontos luminosos. Felizmente desta vez a chuva que caiu nos dias anteriores permitiu que não houvesse mais proibições de lançamento de balões. E o resultado voltou a ser feérico.
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sexta-feira, junho 22, 2018

A beleza dos Mundiais fora dos relvados


Os Mundiais de Futebol são uma coisa admirável. Podemos nem ligar muito até ao seu início, mas uma vez começados ficamos ligados a eles durante um mês inteiro. Os melhores jogadores do Mundo (salvo as habituais ausências por falharem a classificação ou por lesão), jogos memoráveis, golos inesquecíveis, surpresas e desilusões, o confronto entre nações, as apostas nos vencedores, etc.

Mas para além do jogo em si há outro espectáculo que não se fica pelos estádios: a acorrência do adeptos aos países organizadores. E alguns contrastes são dignos de nota.

A minha única experiência num Mundial de Futebol aconteceu no Alemanha 2006, onde assisti ao jogo que se vai repetir agora, o Portugal-Irão, em Frankfurt, que acabou 2-0 para a selecção das Quinas (e bom seria que o resultado na próxima segunda-feira fosse o mesmo, porque estes persas de 2018 comandados por Carlos Queirós parecem bem mais sólidos do que os de 2006). Os iranianos eram então mais numerosos que os portugueses - um dado que se vai tornando comum, já que parece que os lusos estão sempre em minoria nestes jogos - e apoiavam a sua equipa com imensa animação, onde não faltavam mulheres, nenhuma, creio eu, coberta com véu, desobedecendo a duas regras internas do seu país. Mas no Commerzbank Arena viam-se também adeptos de outros países. Japoneses, por exemplo, identificados pelas camisolas azuis da sua selecção e por fotografarem incessantemente, ou um mexicano (certamente um espião, porque o México era do mesmo grupo de Portugal e ainda se iam defrontar) com algo vagamente parecido com um chapéu azteca na sua cabeça que tinha pelo menos o dobro da sua altura.

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E nos outros jogos era a mesma coisa. As "fanzones" de Frankfurt estavam situadas nas margens do rio Meno, no meio do qual instalaram os ecrãs gigantes que passavam os jogos, assentes em barcaças imóveis, que eram visionáveis de um lado e do outro, nos parques que bordejam o rio. Lembro-me de um Gana-República Checa, que decorria em Colónia, mas que tinha vários adeptos dos seus países ali ao nosso lado, com maioria para os checos, evidentemente, que por sinal perderam, para alegria dos ganeses, vestidos com berrantes plumagens africanas. Ou dos poucos angolanos em Frankfurt, a festejar um empate com o México, o seu primeiro ponto em mundiais, aos quais se juntaram os portugueses. E logo à chegada, no aeroporto, estava tudo colado aos ecrãs distribuídos por todo aquele enorme recinto, a ver a Argentina a esmagar a Sérvia (bons tempos, devem pensar hoje os argentinos), e que provocou ruidosos festejos por parte dos croatas, em frenéticas buzinadelas pelas ruas alemãs fora.



A globalização, a tão vilipendiada globalização, é também isto, e não apenas negócios financeiros obscuros ou o "capital sem pátria". É ver uma caravana de bósnios em cidades do Mato Grosso, nigerianos em Brasília, as imensas falanges inglesas em Manaus, no coração da Amazónia (desta não se lembrou Fitzcarraldo) ou os espanhóis a ser copiosamente derrotados pelos holandeses em Salvador, lembrando confrontos mais antigos do século XVII - tudo isto no Mundial do Brasil.



Ou agora, na Rússia, onde podemos ver os senegaleses a comemorar o triunfo tocando djambé nas ruas de Moscovo, os argentinos e seus cânticos em Ninjni Novgorod, dezenas de milhares de marroquinos também na capital russa desgostosos com o golo de Ronaldo, outros tantos peruanos apoiando em vão a sua equipa na renomeada Ecaterimburgo, destino final dos czares ali no meio dos Urais, portugueses e espanhóis a apanhar sol nas margens do Mar Negro, em duelo ibérico mesmo ao lado da antiga região conhecida como Iberia, australianos divertindo-se em Kazan, a capital dos tártaros, os aguerridos adeptos do histórico Uruguai, duas vezes campeão mundial, que apoiarão a sua equipa contra o anfitrião Rússia, nas margens do Volga, em Samara, as "Águias de Cartago", como é apelidada a equipa tunisina, derrotada pelos ingleses não em Zama mas em Volgogrado, a antiga Estalinegrado, onde também se defrontarão os semi-aliados egípcios e sauditas, e lá jogarão também o Japão e a Polónia, o maior aliado da Alemanha nazi e a sua principal vítima, que saíram tão arrasados da II Guerra como a cidade onde se vão defrontar, por incrível coincidência. 

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Sim, os jogos atraem, mas não me digam que os adeptos à sua volta são um espectáculo menor. São eles que dão vida, cor e música a estes eventos. Que proporcionam momentos de festa e de convívio, desde que não haja hooligans, de que não há ecos neste certame. E talvez até tragam algum cosmopolitismo e tolerância a algumas populações russas, pouco habituadas a lidar com quem vem de fora. Também isto é globalização, na sua face mais positiva. E por tudo isso o Mundial vale ainda mais a pena.

segunda-feira, maio 28, 2018

Direitos inalienáveis?


Não tenho, por princípio, uma opinião muito favorável à eutanásia (não se confunda com outras figuras, como a ortotanásia, ou seja, permitir o curso da vida sem suportes desnecessários). Menos ainda quando um grupo de partidos decide legalizá-la sem que tal estivesse inscrito nos respectivos programas eleitorais, sem um debate realmente aprofundado, por mera vontade de fazer acelerar uma legislação "progressista", que ainda por cima existe em pouquíssimos países, e não será por acaso. Ou seja, uma questão da maior gravidade pode passar por uma questão de afirmação política, quando nem sequer se deu oportunidade aos eleitores de exprimir uma opinião que fosse - e recordo que o PS recusou num primeiro momento a votação do casamento de pessoas do mesmo sexo por não ter inscrito a questão no seu anterior programa eleitoral.



Mas tenho acima de tudo uma dúvida: caso a eutanásia seja mesmo despenalizada, deixaremos de poder falar em "direitos inalienáveis"? É que francamente, não conheço direito menos inalienável do que a Vida. Caso deixe de o ser, façam o favor de, doravante, apagar a expressão de todas as normas, códigos e manuais onde ela exista.

O Padre Marto passou a Cardeal Marto


Com enorme atraso, aproveito para saudar e felicitar D. António Marto, bispo de Leiria-Fátima, pela sua nomeação para Cardeal. Mas não deixa de ser um tudo de nada estranho ver o nosso antigo e afável professor de Mundividência Cristã, o único que nos tratava por tu, que chegou a ser operário para conhecer a vida dos trabalhadores fabris, usar a púrpura cardinalícia, e sobretudo, participar num conclave (que espero que venha tarde) de onde pode sair Papa. Não é nada fácil imaginá-lo a saudar milhões de pessoas do alto da varanda de S. Pedro, vestido de branco.

quarta-feira, maio 23, 2018

Sobre uma Taça de Portugal atípica


Os meus parabéns ao Desportivo das Aves pela conquista da Taça de Portugal: pela primeira vez um clube do concelho de Santo Tirso, de onde o meu Pai é natural, ganhou uma prova nacional de futebol. Já não se devia ver uma coisa semelhante desde que o Tirsense, então na terceira divisão da época, eliminou o Sporting dos Cinco Violinos - embora sem o Jesus Correia (desta o meu Pai ainda se lembra).
O Aves merece todo o reconhecimento pela forma inteligente como jogou, pela enorme massa humana que levou ao Jamor (tanta ou mais que a população da Vila das Aves!) e pela forma como o ignoraram durante toda a semana (e, pelo que vi num medley de notícias, em que só falam das reacções à derrota do Sporting, e às "lágrimas dos jogadores", etc, continuam a ignorar).

Uma palavra para Quim, que muitos não se lembram mas que chegou a ser o titular da Selecção: com quase 43 anos, numa exibição magnífica e provavelmente no último jogo da carreira, o bom e velho Quim ganhou finalmente a Taça que não tinha. Já tinha perdido finais, já tinha sido goleado numa meia final há dez anos precisamente pelo Sporting (já com Rui Patrício do outro lado), mas na última oportunidade possível, já quase fora de prazo, agarrou no troféu, e logo como capitão. Talvez Buffon tenha saído da Juventus cedo demais.

Nos últimos anos, o vermelho tem levado sempre a melhor no Jamor. Fica-lhe bem.

Para acabar, Rui Patrício, William e Gelson: limpem as lágrimas e sobretudo a cabeça. Há uma taça do Mundo para ganhar e precisamos de vocês.

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quinta-feira, maio 17, 2018

O "karma" recaiu sobre o Marselha


Voltando ao tema "bola a sério", que parecendo que não é coisa de que não se tem falado, há pouco o Atlético de Madrid venceu tranquilamente o Olympique de Marseille por 3-0 na final da Taça UEFA. Preferia que tivessem sido os franceses (quem eu gostava mesmo que tivesse ganho era o Arsenal, que nem conseguiu chegar à final, porque Wenger já merecia uma taça internacional na despedida), mas pronto. Só que o Marselha caiu quando se lesionou o seu melhor jogador, Payet. Sim, esse mesmo, o que magoou Cristiano Ronaldo na final do Euro 2016, que felizmente acabámos por ganhar. Lá se fazem, cá se pagam.

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quarta-feira, maio 16, 2018

O (fundo do) poço do Bruno



A pensar nesta história toda do Sporting, há uma coisa que me espanta mais que tudo (sim, haver hooligans que batem nos próprios jogadores é menos surpreendente, palavra de honra): se Bruno de Carvalho não está por trás dos ataques ao plantel, como é que se explica que um tipo que reage de forma incendiária e truculenta à mínima provocação de que é alvo possa dar tão pouca importância a isto, ao ponto de dizer disparates como "o crime faz parte do dia-a-dia"? Não lhe ouvimos dizer sobre os agressores o mesmo que disse de dirigentes desportivos rivais. Um líder deve acima de tudo defender os seus. Só que Bruno está-se borrifando para isso, e anda como sempre mais preocupado com o seu ego e com o seu poder entre as massas ululantes do que com a instituição que lidera e os que a servem. Já se conhecia a miséria moral da criatura, mas isto só mostra que o poço ainda é mais fundo do que se julgava.


E pensar que há quem o compare a Vale e Azevedo. Não repitam isso, por favor. É um insulto gratuito a Vale, que não o merece.


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terça-feira, maio 15, 2018

Isto era mas é tudo para "branquear"


Sem querer passar por áugure, a fraca votação da canção portuguesa do Eurofestival da Canção não era propriamente imprevisível. Quem achou que tinha alguma hipótese de ganhar que se acuse. Porque para isso, em primeiro lugar, seria bom saber cantar. A música nem era má de todo - não era pior do que muitas das que se apresentaram a concurso, incluindo a vencedora, a que Salvador Sobral se referiu sabiamente como sendo "horrível" - mas a interpretação, com miados e sem conseguir chegar ao fim das notas, era sofrível.
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Mas escapam-me os critérios para apurar os vencedores: em primeiro lugar ficou uma canção pop cantada em inglês, de uma israelita gordinha vestida de gueixa (deve ser por isso que estavam sempre a falar de "diversidade"), que parece que versava sobre a igualdade das mulheres, e os direitos sociais, e em segundo uma cantiga fogosa (tanto que o título era Fuego), de uma cipriota com silhueta agradável e uma coreografia a tentar passar por uma Shakira do Levante, talvez por ser proveniente da "Ilha de Afrodite". Fosse eu a decidir e ficavam mais cá para o fim, ao contrário das músicas candidatas de Itália, Áustria ou Letónia, mas como sou um leigo na matéria tenho de me render às evidências. Não há como uma vitória portuguesa para nos dar algum interesse pelo evento.


Entretanto, e como o Luís já recordou, alguns "activistas", entre os quais o sempre pronto Bloco de Esquerda, encetaram uma campanha de boicote à música de Israel, porque esta, apesar de apelar a valores que à partida seriam caros aos bloquistas, era "uma forma de branquear a opressão do povo palestiniano  e a acção terrorista de Israel a nível internacional". Para além disso, consta que a autora esteve na marinha israelita (previsivelmente no tempo obrigatório de serviço das forças armadas israelitas), cuja missão parece que é "manter a Faixa de Gaza sob um bloqueio cerrado, manter o porto de Gaza bem fechado, manter a economia de Gaza totalmente paralisada e a população à beira do desastre humanitário total". Pior: a cantora entretinha os marinheiros com as suas músicas (o que já de si é um indício à notória cultura patriarcal e machista), em especial de um barco que anos mais tarde dispararia sobre palestinianos em Gaza, o que a torna cúmplice, por conhecimento prévio, desses crimes futuros.


A música, como se sabe, ganhou com os votos do público, indiferente à vileza da cantora, ao branqueamento dos crimes de Israel e aos sábios avisos dos pupilos de Catarina Martins (perdão, pupilxs, que como se sabe ali não há diferenças de género). Felizmente que se tratava do Bloco, feroz adversário de todos os preconceitos e fobias, senão poder-se-ia pensar que se tratava de puro anti-semitismo. Nunca a amálgama dos movimentos que em tempos aclamavam Mao, a Albânia e Trostky, esse judeu, poderia ser anti-semita.


O problema é que a vitória de Israel no eurofestival dá-se numa altura em que o país atacou posições iranianas em plena Síria e nas vésperas de completar setenta anos. Teme-se que o entusiasmo e os festejos provoquem mais fogo de artifício que transborde de novo para lá da fronteira com a Síria. E Benjamin Netanyahu, como já se percebeu, é um grande apreciador deste tipo de fogo de artifício.

domingo, abril 29, 2018

Fim de época


Pronto: não bastava termos perdido com o Porto em casa mesmo no fim, praticamente hipotecando as hipóteses de revalidar o título, e de fazer exibições sofríveis contra Setúbal e Estoril, e ainda damos um tiro de canhão no pé perdendo em plena Luz contra o Tondela (!), dando de bandeja o título ao Porto e colocando em sério risco a ida à Liga dos Campeões na próxima época. O próximo jogo é em Alvalade contra o Sporting, que se ganhar ao Benfica assegura o segundo lugar. É um risco perfeitamente possível dadas as ausências de jogadores fulcrais como Jonas e as péssimas exibições recentes, e seria o corolário lógico para uma época medíocre preparada com amadorismo, incompetência e total negligência. Sim, os resultados financeiros são bons, mas a parte desportiva ficou totalmente descurada. 

Entretanto, novas "acusações" contra o Benfica, anunciadas pelo Expresso: ao que parece, a PJ andará a estudar TODOS os jogos do Benfica dos últimos cinco anos. Sim, todos. Não fazem a coisa por menos: todos os jogos, e apenas do Benfica, e das épocas em que ganhou o campeonato mais esta. Isso dias depois do próprio Benfica acusar importantes elementos da mesma polícia de estarem envolvidos numa conspiração contra o clube, enviando informações confidenciais aos responsáveis da propaganda de Porto e Sporting. Estranha coincidência, ainda por cima sabendo-se que foram elementos da PJ que fizeram implodir o caso Apito Dourado, com as suas "toupeiras" (porque é que não usaram este termo na altura?) no lugar certo. Mas esta investigação a TODOS os jogos, e apenas o Benfica, denota, mais que desespero, uma preocupante obsessão contra um clube. Jogos houve nestes últimos anos - como o vergonhoso FCP-SCP de há exactamente dois anos, ou os lances de Tonel nessa época - que mereceriam real investigação, mas não, é só de um clube, e curiosamente quase só nos anos em que ganhou campeonatos. Para mais, vem arguir que denúncias anónimas contra jogadores adversários do Porto partiram de dirigentes benfiquistas, mas em relação ao mesmo tipo de denúncias em sentido inverso não diz absolutamente nada. Nem à pirataria informática em curso. Não gosto muito de acusar instituições inteiras, mas fica a ideia de que a PJ tem um objectivo definido que pouco tem a ver com crimes reais mas sim com a obediência a outras entidades. E isso sim, é profundamente preocupante. Se calhar as acusações feitas pelo Benfica tinham mesmo razão de ser.

De resto, espero que planeiem devidamente a próxima época e que haja uma réstia de profissionalismo.