terça-feira, julho 25, 2017

A França depois das legislativas (e uma nota final cinéfila)


Já foram há mais de um mês, mas talvez pela segunda volta ter coincidido com o grande incêndio de Pedrógão passaram algo despercebidas entre nós. As eleições legislativas francesas quebraram o habitual panorama partidário francês, afundaram algumas das forças políticas mais tradicionais e deram uma maioria legislativa ao novo presidente Emanuel Macron e ao seu En Marche, que, recordemos, é um movimento centrista com pouco mais de um ano e de que até há pouco tempo se duvidava que fosse sequer apresentar-se às legislativas, dadas as dificuldades organizativas e em arranjar candidatos. Mas na senda da robusta vitória presidencial de Macron, o agora denominado Republique en Marche posicionou-se ao centro, baralhando os equilíbrios ideológicos, e pescou ao centro-esquerda e ao centro-direita, para além de ter recebido o apoio do MoDem de François Bayou, um experiente nestas lides que transporta consigo parte do legado da antiga UDF. Sem eleger a enormidade de deputados que se chegou a prever (algumas sondagens davam-lhe mais de 400), conseguiu ainda assim uma maioria absoluta de 350 lugares em 577. Depois do Eliseu, Macron ganhou o Palais Bourbon e pode seguir com o seu projecto para a França.

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Quanto aos outros partidos, a direita tradicional dos Republicains, depois da desilusão Fillon, aguentou-se a custo e permanece como segundo partido parlamentar. Mas a temível máquina partidária sofreu algumas pannes, e vários foram os elementos que trocaram o partido gaullista pelo de Macron, a começar pelo novo primeiro-ministro, Édouard Philippe. Terá o papel algo ingrato de  principal oposição a Macron quando há matérias em que provavelmente até estarão de acordo, e de manter o legado do  mais forte ideário político francês do último meio século.

A Frente Nacional confirmou a estagnação. Depois do terço de votos conquistado nas presidenciais,  Le Pen não está muito certa do caminho e só espera que as coisas não corram bem a Macron, numa arriscada estratégia de "quanto pior, melhor". Não pode fazer muito mais. Apesar disso sempre conquistou oito lugares no parlamento, incluindo o da própria Le Pen, o que é um progresso tendo em conta os eternos um ou dois que obtinha normalmente, tendo em conta o sistema uninominal francês.

A France Insoumisse do agora principal representante da esquerda radical, Jean Luc Mélenchon, está numa situação idêntica. Não tendo tido um resultado extraordinário, obteve dezassete lugares numa eleição em que concorreu separado dos comunistas, seus habituais aliados. O velho PCF, que ganhou as primeiras eleições do pós-guerra, ficou-se pelos dez deputados e por uma votação baixinha.

O maior derrotado da contenda é, como já o tinha sido nas presidenciais, e como todas as sondagens indicavam, o PSF. O partido de Mitterrand, de Delors e de Hollande passou de primeira para quinta força política, perdeu mais de 20% dos votos e mais de 280 lugares. Os seus rostos principais não conseguiram sequer ser eleitos. É uma derrota estrondosa de um partido histórico a que muitos já vaticinavam a decadência, e que, tal como o PASOK grego, parece ir a caminho da irrelevância. A atestá-lo está o facto de Benoit Hamon, o candidato socialista das presidenciais de Abril último, ter anunciado a saída do partido para fundar um novo movimento. Se Manuel Valls pretendia o fim do velho PS e o surgimento de algo novo, então parece ter acertado em pleno.  

E só para demonstrar como a velha ordem partidária se desmoronou, assinale-se que nos anos oitenta o PS e o PCF, quando socialistas e comunistas se coligaram, tinham mais de 50% dos votos. Agora, em conjunto, não chegam aos 10%.

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Mas nem tudo são rosas para o novo poder executivo de Macron: logo a seguir à segunda volta das legislativas, e quando o governo tinha apenas um mês, quatro ministros foram exonerados por causa da velha questão de aproveitamento de dinheiros europeus para financiamentos partidários. Entre eles encontrava-se François Bayrou, ministro da justiça, líder do MoDem e aliado preferencial do En Marche.

Uma nota curiosa: felizmente para os cinéfilos que a primeira sangria governamental se ficou por aqui e que não atingiu o ministro do ambiente, o carismático Nicolas Hulot, antigo apresentador do programa de televisão Ushuaia. O apelido pode parecer familiar, e não é por acaso: é que o avô de Nicolas, um arquitecto ao que parece distraído, que provavelmente fumava cachimbo e envergava sobretudo e chapéu, era vizinho do realizador Jacques Tati, que nele se terá inspirado para compôr a famosa personagem Monsieur Hulot, o inesquecível protagonista de Playtime, Mon Oncle e As Férias do sr. Hulot, interpretado pelo próprio. Assim, o governo francês conserva um traço de um dos monstros do cinema do Hexágono, e logo no campo da comédia. Sempre ajuda a aliviar futuras tensões governamentais, embora seja duvidoso que Macron se tenha lembrado desta.

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quarta-feira, julho 12, 2017

O partido auto-anti-comunista


A manifestação de há dias promovida pelo Conselho Português para a Paz e Cooperação a favor do regime da Venezuela, constituído sobretudo por pessoas conotadas com o PCP (com Ilda Figueiredo e João Oliveira à cabeça) levou-me a pensar que o partido de Jerónimo tem uma certa vergonha do seu nome e da sua sigla, senão vejamos: só por duas vezes (nas eleições para a Constituinte e nas seguintes, em 1975 e 1976) é que o PCP se apresentou a votos com nome próprio. Seguiram-se a FEPU e a APU, com a presença servil do MDP-CDE, e quando este último ganhou algum brio e se separou, a CDU, que dura até hoje, com essa célula que nunca concorreu sozinha a umas eleições conhecida como "Os Verdes" e um resquício do MDP chamado Intervenção Democrática e que apenas é conhecida por se ter apoderado do nome da revista Seara Nova (que já nada tem a ver com a antiga).




Depois, as intervenções esporádicas deste Conselho Português para a Paz e Cooperação )CPPC), uma organização "pacifista", que chegou a ser presidida por Costa Gomes, e que curiosamente só se manifesta contra guerras e conflitos na parte a que diz respeito aos Estados Unidos, NATO e Israel. A título de exemplo, veja-se o último naco de prosa publicado, em que acusa os EUA, Israel, etc e se defende o regime de Assad e as respectivas "forças patrióticas" (onde é que já ouvimos isto?). A posição do PCP em assuntos externos, sem tirar nem pôr, e com a mesma linguagem.

E depois, claro, temos a CGTP, a poderosa e intersindical, o braço do PC nos sindicatos, que apesar de teoricamente acolher "outras tendências", a fazer lembrar os partidos políticos autorizados da RDA só para fazer número, representa a Soeiro Pereira Gomes nos sindicatos, embora haja quem garanta que é o inverso. Por alguma razão os seus coordenadores são sempre comunistas (Carvalho da Silva afastou-se entretanto do partido). A linguagem, os slogans e palavras de ordem, os símbolos, e a sua perenidade, vão todos na linha do PCP. É a maior influência do partido na sociedade portuguesa, talvez com alguma "concorrência" das numerosas autarquias que detém 



Apesar disso, o PCP só aparece com nome próprio nos congressos, num ou noutro comício e nas jornadas parlamentares. De resto, concorre sempre a eleições sob o manto da CDU, manifesta-se contra "a guerra" e as "agressões imperialistas" passando por ser o CPPC e organiza greves e "jornadas de luta" com a sigla da CGTP. Dir-se-ia, apesar de todo o passado de oposição ao Estado Novo, dos quase cem anos de existência e do prestígio que ainda mantém em certas zonas do país e sectores profissionais, que tem vergonha da sua sigla e do seu símbolo. Ainda receará a memória do 25 de Novembro e do que esteve para acontecer? Terá fundado medo que a queda do comunismo em quase todo o mundo traga repercussões graves se se apresentar com nome próprio, mesmo que ainda haja pudor em relembrar os crimes dos seus camaradas de outros países? Seja como for, tão grande e longeva camuflagem partidária é estranha. Como se apesar de gabar tanto a sua história, o PCP tivesse algum pudor inconfessável. E que pelo menos no que toca ao nome e aos símbolos, seja também um pouco auto-anti-comunista.


quinta-feira, junho 29, 2017

Ribeiro Telles e a floresta


Na sequência dos terríveis incêndios de triste memória no Pinhal Interior, e no meio de todas as críticas e recriminações, surgiram nas redes sociais uns textos a recordar as casas dos guardas florestais construídas no Estado Novo, a passar a ideia de que no Estado Novo quase não havia incêndios por causa das políticas seguidas,  e no fundo a louvar Salazar e a recriminar o regime actual.
É verdade que havia mais vigilância florestal. Mas também havia mais população no interior, que começou a abandoná-lo precisamente nas décadas do Estado Novo, levando ao abandono dos campos e de parte importante do território e à desertificação. E sobretudo iniciou-se nesse período uma política florestal que levou ao abandono de campos e de baldios (como descreve Aquilino Ribeiro no romance Quando os Lobos Uivam), à diminuição drástica da pastorícia e ao avanço de espécies arbóreas que muito contribuiriam para os futuros incêndios, em especial o pinheiro bravo e o eucalipto, por razões industriais e económicas. A herança florestal do Estado Novo acabou por ser uma bomba ao retardador.

Em boa hora a Visão recordou uma entrevista de 2003 a Gonçalo Ribeiro Telles. As respostas que dá são como sempre actualíssimas e muito à frente do tempo. Já que algumas das suas ideias foram postas em prática nas cidades, convinha que também o fizessem no campo, e em especial nas florestas.
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sexta-feira, junho 23, 2017

S. João mutilado


Alguém se lembra de algum acidente provocado por balões de S. João? É que não tenho ideia de alguma vezter tido conhecimento de algum. Não será a tal lei aprovada recentemente algo restritiva demais? É que não sendo uma medida temporária, o que aqui temos é a morte dos balões.
Mesmo nas alturas em que não pude ir ao S. João estando no Porto (porque tinha exames, por exemplo), havia uma coisa que não faltava e que estava lá sempre: os pontinhos iluminados no céu, lançados de todos os pontos da cidade. Sempre gostei imenso de os ver, e avistar o primeiro dava-me logo entusiasmo para a noite (quando podia ir, claro).

Este ano, o S. João vai estar mutilado. Se alguém olhar para os céus, e a não ser que haja infractores, vai parecer-lhe outra noite qualquer.


quarta-feira, junho 21, 2017

Helmut Kohl


A tragédia que varreu o interior centro do país acabou por fazer esquecer o desaparecimento de um dos maiores estadistas alemães e europeus dos últimos cem anos, Helmut Kohl. O antigo chanceler esteve 16 à frente dos destinos da RFA (e 8 de toda a Alemanha unificada), substituindo Helmut Schmidt e pondo cobro a mais de uma década de governos do SPD, com apoio dos liberais do FDP, que passaram a apoiar a sua CDU. Numa década em que coincidiram nos respectivos cargos Reagan, Gorbachov, João Paulo II e Mitterand, constituiu com este último a continuidade do eixo Paris-Bona na liderança da CEE, que permitiu a adesão a países como Portugal e Espanha. Permitiu a entrada de mísseis em território alemão, mas estendeu a mão a Gorbachov, que retirou as tropas soviéticas dos países do Pacto de Varsóvia, e com isto assistiu à queda do Muro de Berlim, e contra todas as crenças e boa parte das opiniões, conseguiu juntar as duas Alemanhas. A reunificação teria um custo social e económico elevado, mas acabou com uma cicatriz profunda e com uma divisão meramente ideológica. Para além do seu papel nos assuntos europeus, no fim da Guerra Fria e na criação da moeda única, o grande legado de Kohl é de facto a reunificação da Alemanha, o que lhe deu um estatuto semelhante ao de Bismarck. O fim do seu mandato de 16 anos acabou manchado pelas acusações de desvios de dinheiro para fins partidários, mas é uma mácula que não o impedirá de ficar na História como um enorme estadista (literalmente, e o seu tamanho gargantuesco de gros gourmand será outra das coisas por que será recordado), um pacificador e indubitavelmente um vencedor.

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segunda-feira, junho 19, 2017

Os culpados e as razões


Eu sei que a tragédia que tem arrasado o Pinhal Interior gera revolta e vontade de culpar algo ou alguém. Mas nada justifica os milhares de moralistas de ocasião que aproveitam a oportunidade para vir com as teorias da conspiração, a sabedoria saloia, apontando os dedos aos "culpados" e aos "perito que nunca fazem nada" - embora me pareça que os peritos são os que mais fazem, ou seja, estudam as situações, divulgam os seus relatórios e esperam que quem de direito actue devidamente.

Mais do que apontar o dedo para toda a parte, cumpre antes de mais actuar no presente e pensar no futuro, que no caso dos incêndios é já amanhã. Diz-se sempre que "isto só muda quando houver uma tragédia". Pois já está a haver uma, ainda pior e mais mortífera do que a que vimos há menos de um ano. Não há mais margem para adiamentos. Os diagnósticos estão feitos, cumpre agir. E todo este pesadelo leva-nos a dois assuntos muito discutidos ultimamente: a prevenção e combate aos incêndios, pois claro, mas também o ordenamento do território. Sim, a coesão territorial não é só levar organismos de Lisboa para o Porto, como muitos julgam. Há que prestar atenção a territórios como Pedrógão Grande, Vimioso, Figueira  de Castelo Rodrigo, Pampilhosa da Serra, Monforte ou Alcoutim, que perderam população, recursos e capacidade de se renovar ao longo das últimas décadas. Que me lembre, já não ouvia notícias da região do Pinhal Interior desde que fizeram a praia artificial de Castanheira de Pêra. Não são só os eucaliptos e o pinheiro bravo os responsáveis por este inferno. A falta de população, que abandonou estas terras em direcção às capitais de distrito e aos subúrbios do litoral, é dos casos mais graves do nosso país nas últimas décadas. Retiram-se das aldeias, dos lugares e dos campos e deixam-nos ao abandono, sob a anarquia do mato e de espécies arbóreas que crescem mais rapidamente. Perdem-se os corta-fogos e os vigilantes da terra. Qualquer relação entre isto e o aumento proporcional dos fogos ao longo dos anos não é mera coincidência.

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sábado, junho 17, 2017

Seis Dias que abalaram o Médio Oriente

 
Passou agora meio século desde a Guerra dos Seis Dias, uma das operações mais retumbantes do século XX. Israel estava nas vésperas do seu vigésimo aniversário, uma curta existência caracterizada por duas guerras e a resistência a um cerco por parte dos (muito maiores) vizinhos árabes. Em fundo, a Guerra Fria, de que a região era um dos principais cenários, sobretudo desde 1956 e a Crise do Suez, após a qual a URSS se tinha voltado definitivamente para o Egipto, ao passo que os EUA continuavam a apoiar o estado judaico. O país liderado por Nasser consolidara o seu estatuto de potência regional, apesar do falhanço na constituição da República Árabe Unida com a Síria. E em 1967, precisamente por receio de um ataque israelita à Síria, o Egipto exigiu a retirada das tropas da ONU presentes no Sinai desde 1956, iniciando um bloqueio ao estreito de Tiran, que dá acesso ao golfo de Aqaba e é a única saída de Israel para o Mar Vermelho, e consequentemente o Índico. Um tal bloqueio, impedindo a livre circulação marítima de um estado, era uma declaração de guerra implícita.

Entre 5 e 10 de Junho de 1967, e em reacção ao cerco do Egipto e a crescentes hostilidades de outros estados árabes, Israel viu-se forçada a actuar mesmo sem a protecção de qualquer outro aliado. As forças armadas israelitas desencadearam um ataque aéreo fulminante e em massa sobre todas as bases áreas egípcias, que arrasando por completo a aviação inimiga em apenas doze horas. O ataque era arriscada, porque deixou Israel sem qualquer protecção aérea, mas constituiu um rude golpe na moral (e no material) do Egipto e espantou o mundo pela audácia, rapidez e eficácia. De imediato, os blindados israelitas penetraram no Sinai, com auxílio da aviação (e sem o perigo de ataques da aniquilada aviação egípcia), cortaram o acesso a Gaza (onde tinham a oposição das forças palestinianas) e confinaram os carros de combate egípcios a terrenos de escassa mobilidade. Em dois dias, as forças árabes estavam dispersas, destruídas ou em fuga, ao passo que as israelitas atingiam o Canal de Suez e a extremidade do Sinai, tomando Sharm-el-Sheik e controlando o estreito de Tiran.

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 A Norte, e depois de sangrentos combates, a infantaria de Israel tomou os montes Golan a uma Síria equipada com armamento soviético mas com deficiente treino e fragilizada pelas purgas entre os oficiais, como consequência dos vários golpes de estado.

A Jordânia, que se tinha colocado do lado dos aliados árabes confiando na força do Egipto, ensaiou alguns ataques de artilharia, o que levou à entrada das forças de Israel na Cisjordânia no dia 6, e à ocupação daquele território, incluindo a Cidade Velha de Jerusalém, o que implicou sangrentos combates rua a rua com os encarniçados resistentes, ainda que os lugares santos da cidade não tivessem sofrido danos. A ocupação do território de aquém-Jordão e sobretudo dos lugares santos de Jerusalém teve um simbolismo religioso e político extraordinários. Israel conseguia o velho sonho de se apoderar de toda a Jerusalém, além de permitir aos judeus o acesso ao Muro das Lamentações, impedido pelas forças jordanas desde 1948.

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A breve guerra, que em seis dias aniquilara forças árabes superiores em número e dera a Israel o controlo de um território maior que o originário, surpreendeu pela eficácia extrema, superior à da Blietzkrieg alemã. Moshe Dayan, ministro dos negócios estrangeiros, e Yitzhak Rabin, o chefe das forças armadas, ganharam um estatuto de líderes militares de excepção e são hoje considerados como dos melhores estrategas do século XX. Nasser, o popular presidente do Egipto, tinha sido tremendamente humilhado, ao contrário do que acontecera em 1956, e resignou ao cargo, mas daria meia volta depois de manifestações a seu favor. Quanto aos territórios ocupados, e apesar da condenação da ONU (sobretudo dos estados árabes), continuariam na posse de Israel, que argumentou com as necessidades da sua própria protecção. Haveria ainda mais uma guerra, em 1973, até que a paz com o Egipto de Sadat, anos mais tarde, em Camp David, permitiria a devolução do Sinai. Quanto a Gaza, permaneceria ocupada até à retirada unilateral em 2005. Os Montes Golan e a Cisjordânia permanecem na posse irredutível de Israel há 50 anos, sem alterações à vista. E os judeus, salvo alguns contratempos provocados pelos vizinhos palestinianos, continuam a poder rezar no Muro das Lamentações.

segunda-feira, junho 12, 2017

Desconclusões das eleições no Reino Unido


Incrível como no espaço de um ano os líderes conservadores ingleses (e primeiros-ministros no cargo) conseguem convocar actos eleitorais quem à partida fortaleceriam a sua posição e saem deles muito mais fracos. O caso de David Cameron é evidentemente muito mais grave, porque para consolidar a sua posição face aos contestatários internos e marginalizar o UKIP abriu caminho ao terramoto do Brexit, que pela primeira vez retirou à União Europeia um dos seus membros e isolou um Reino Unido já sem império. Depois da sua retirada, e da rocambolesca sucessão de candidatos à liderança do partido e do governo, acabou por sobrar Theresa May, então ministra da administração interna, e até ali favorável à permanência na União europeia.
 
May fartou-se de meter os pés  pelas mãos e de dar uma série de tiros nos primeiros, desde prometer uma "saída dura" (ela que até fora semi-europeísta) até jurar que não convocaria eleições antecipadas, passando pelos seus cortes nos efectivos policiais numa altura em que o país é fustigado pelo terrorismo. Semanas depois, anunciava mesmo eleições gerais, para aproveitar o momento, em que as sondagens davam uma maioria ainda mais forte aos tories e previam uma derrota bisonha ao Labour de Jeremy Corbyn, comparando o momento do partido ao do tempo de Michael Foot, o mais esquerdista líder de que havia memória. Pensou, tal como Cameron, que se legitimaria através de eleições e ganharia assim força para prosseguir com o Brexit. Saiu-lhe o tiro pela culatra. Perdeu incrivelmente a maioria absoluta e viu os trabalhistas registarem um grande avanço, coisa impensável semanas antes. E ainda os liberais-democratas a recusarem-se a fazer parte do governo, ao contrário do que sucederam em 2010. Não lhe restou alternativa senão ir a Belfast procurar o apoio dos unionistas norte-irlandeses da DUP para conseguir um frágil governo.
 
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Não há conclusões claras a tirar deste processos. A principal será a de que os políticos britânicos demasiado calculistas e gananciosos acabam por ser castigados nas urnas. Os trabalhistas sobem, os conservadores e os independentistas escoceses descem, os liberais-democratas registam um ligeiro avanço e o UKIP é arrasado, o que não espanta depois da lamentável luta - em sentido literal - pela liderança do partido e o descrédito do bufão Nigel Farage. Mas não se confirma o tal arrependimento dos eleitores em relação ao Brexit, já que os trabalhistas tinham tido uma atitude dúbia e os maiores defensores do Remain tinham sido os lib-dem e os escoceses. e já agora, com o desaire destes últimos, a possibilidade de novo referendo à indpendência da Escócia deve ficar por ora afastada.
 
Theresa May perdeu quase toda a credibilidade que lhe restava, formará um governo frágil que poderá não durar muito tempo, e a possibilidade de Jeremy Corbyn, o velho esquerdista que propõe nacionalizações, chegar ao governo, é bem real. E o processo do Brexit prossegue. Tal como a confusão no momento político.

terça-feira, junho 06, 2017

O estado da situação no Porto, um mês depois do cisma Moreira-PS

 
Já se passou mais de um mês desde que Rui Moreira declinou o apoio do PS à sua candidatura. A minha percepção da coisa não mudou muito desde então, mas preferi esperar que o pó dos acontecimentos políticos assentasse. E não faltaram outra novidades autárquicas, até o regresso de Valentim Loureiro às batalhas eleitorais. Ou do caso Selminho, que voltou como arremesso de lama eleitoral e que promete continuar a dar que falar.
 
Como alguns leitores se lembrarão, votei em Rui Moreira em 2013 e tenciono voltar a fazê-lo. Aliás, andei a fazer campanha nas ruas, por vezes sob a intempérie, onde a alguns dias da eleição já se notava uma notória tendência de voto no candidato que venceu (não há como a campanha porta a porta para se perceber isso, mais do que os comícios que hoje em dia são sobretudo encontros gastronómicos com presença maciça de militantes arregimentados). Pese a parcialidade, tudo isto resulta do que observei nestes 4 anos e no que retiro do momento político actual.
 
O rompimento entre o movimento de Rui Moreira e o PS deu-se após alguns sinais de nervosismo por parte do primeiro, com a discussão de lugares e depois de Ana Catarina Mendes considerar que a eventual vitória de Moreira seria contabilizada como sendo do PS. Pelo meio, já tinha havido o desacordo de inúmeros elementos do PS, do Porto e não só (Francisco Assis, por exemplo), a contestação à liderança distrital de Manuel Pizarro e as acusações sibilinas de Manuel dos Santos, lá da sua prateleira dourada no Parlamento Europeu, para além de algumas divergências de Manuel Correia Fernandes, que detinha o importante pelouro do urbanismo. Mas o acordo firmado em 2013 corria bem, e Pizarro tinha a confiança de Moreira. Não era por ele que as coisas dariam para o torto. Como muitas vezes acontece, os movimentos subterrâneos e as intrigas partidárias acabaram por resultar, com a preciosa ajuda da cúpula política. Não sei se era intencional, mas a verdade é que Ana Catarina Mendes conseguiu implodir o acordo e deixou Pizarro numa situação complicadíssima. Alguns socialistas agradeceram. Outros sentiram-se traídos.
 
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Quem ganhou e quem perdeu? À primeira vista, Moreira ficou sem algumas cruzes no boletim e a quase certeza da maioria absoluta. Mas provavelmente ganhou mais do que perdeu. Ficará com menos votos do que os que teria se o PS o apoiasse, mas conseguiu manter a independência formal do seu movimento e afastar a ideia do "domínio da câmara" por parte do PS (cujos vereadores, de resto, renunciaram aos respectivos pelouros). Mantém o apoio do CDS, que conseguiu sempre manter-se no grupo vencedor de forma sabiamente discreta, e agora do MPT e do Nós, Cidadãos, além do grupo que já o apoiava e que tem várias origens políticas. O grande problema, que afectou o executivo nestes quatro anos, é que o núcleo duro se enfraqueceu com os desaparecimentos de Paulo Cunha e Silva e Manuel Sampaio Pimentel (e outros, infelizmente), ou a partida de Azeredo Lopes. Será esse o principal desafio de Moreira, que até agora só prometeu conservar o pelouro da cultura nas suas mãos. De resto, o plano para a cidade tem-se cumprido, com ênfase nos pilares a que deu maior importância (a cultura, na economia e a coesão social), e a saúde financeira não se afasta muito do rigor dos tempos de Rui Rio. E nalguns casos, como a resolução do problema da Feira do Livro, provou-se que pode haver apostas públicas na cultura sem necessidade de enormes gastos. Mas há mais problemas a resolver, como o do trânsito.
 
Quanto ao PS, fica numa situação muito complicada: não pode criticar o executivo de que fazia parte, não pode apresentar um programa demasiado parecido com o da lista de Moreira, com o risco de se secundarizar, nem afastar-se totalmente, sob pena de ser acusado de oportunismo. Pizarro e os seus camaradas têm aqui um quebra-cabeças difícil de resolver. Até porque se Moreira voltar a ganhar sem maioria, poderá muito bem voltar a precisar da confiança do cabeça de lista do PS (não necessariamente dos outros).
 
O PSD perde também o argumento de que a câmara era "controlada pelo PS (ou, numa deriva incompreensível, pela "extrema-esquerda")". Tem como candidato alguém que parece ser a antítese de Luís Filipe Menezes: o independente, discreto e pouco conhecido Álvaro de Almeida. Mas talvez por falta de experiência e de tacto político, ou por total ausência de ideias, Almeida tem levado a cabo uma campanha absurda, em que acusa Moreira de "não ter cumprido nenhuma promessa" (lembrou-se provavelmente das escadas rolantes para o Palácio de Cristal) e de ser um "traidor", "déspota", "populista", etc. Só falta mesmo chamar-lhe terrorista ou jiadista, mas já não deve faltar muito.
 
À esquerda, o regresso do PS a uma candidatura própria pode ser impeditivo de uma maior capitalização de votos nesse espectro. Nesse sentido, a aposta em nomes conhecidos pode não ser a melhor jogada. A CDU volta a lançar Ilda Figueiredo como candidata à câmara, vinte anos depois da sua última candidatura, e para a assembleia municipal o seu sucessor na vereação, Rui Sá, gabado pelo seu trabalho enquanto vereador com pelouro no primeiro mandato de Rui Rio, numa daquelas improváveis coligações "vodca-laranja". O Bloco de Esquerda jogava forte, com a candidatura de João Semedo, ex-"coordenador" do movimento, com larga experiência política e há muito a viver na cidade (e um dos raros bloquistas do Porto que não é nem actor nem sociólogo). Mas hoje mesmo, por razões de saúde, Semedo desistiu da candidatura à câmara e trocou de lugar com João Teixeira Lopes, passando assim a candidato a deputado municipal. A infeliz circunstância pode diminuir as hipóteses do Bloco conseguir pela primeira vez um lugar na vereação do município, até porque Teixeira Lopes por mais do que uma vez experimentou a mesma candidatura e teve sempre resultados bisonhos.
 
As eleições para a câmara do Porto prometiam ser uma maçadoria, mas afinal aqueceram com estes pequenos terramotos políticos. Será mais uma querela autárquica a seguir, a merecer atenção em algumas matérias importantes para a cidade, embora preveja que a ordem dos resultados vá ser a mesma de 2013. Aliás, não faltam motivos de entretenimento no distrito do Porto: temos os regressos de Valentim Loureiro, de Narciso Miranda (que anuncia a candidatura, mesmo a calhar, no dia do Senhor de Matosinhos), de Avelino Ferreira Torres, e até o filho de Vieira de Carvalho está concorre à Maia. Vá lá que Fátima Felgueiras e Luís Filipe Menezes resistiram à tentação de ver as suas fotos novamente nos cartazes.

quarta-feira, maio 31, 2017

Factos relevantes da bola neste fim de época.

 
Ainda na bola, alguns acontecimentos recentes que ficaram da última semana:

- A despedida de Totti. Um dia isto tinha de acontecer. O soberano da Roma, o eterno ragazzo há muito capitão dos gialorossi, despediu-se dos relvados e do seu clube de sempre, aos 40 anos, depois de 23 a jogar com a camisola áurea e vermelha. É difícil hoje em dia ver um jogador tão identificado com um clube como Totti (embora em Itália isso seja relativamente comum, quer pela fidelidade de alguns jogadores, quer pela sua longevidade). Jogou sempre no clube da Cidade Eterna, recusando convites do Real Madrid, por exemplo, e com a sua camisola ganhou a Bota de Ouro de melhor marcador da Europa, embora nem fosse ponta de lança. Obteve poucos títulos (apenas um scudetto italiano), e curiosamente o maior deles todos até o conseguiu com a camisola azul da selecção: o Mundial de 2006. Será difícil vê-lo de fato e gravata com o cargo de dirigente. Tenho mesmo de encontrar o autógrafo que ele me deu aqui há uns anos.
 
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- A vitória do Manchester United na Taça UEFA (ou Liga Europa, como lhe chamam agora). Mourinho não deslumbrou neste seu primeiro ano em Old Trafford, longe disso. Teve tantos empates que já corre a piada que a alcunha Special One é pelo número de pontos obtidos em média por jogo. Além disso, viu uma "epidemia" de lesões varrer o plantel no fim de época, em especial Ibrahimovic, que por pouco não encerrava a carreira. Mas na final para conquistar o único troféu que faltava à vitrina dos Reds não falhou. Venceu sem grandes dificuldades um Ajax muito talentoso mas demasiado verde, que certamente dará que falar nos próximos anos. No confronto entre dois gigantes europeus, ganhou claramente a experiência. Ainda por cima, num dia depois do chocante atentado em Manchester, contra crianças e adolescentes, a vitória dos mancunians acabou por ser uma homenagem à cidade.
 
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- As conquistas dos respectivos campeonatos por parte do Honvéd e do Slavia, velhos representantes do futebol húngaro e checo, respectivamente. O primeiro era mesmo o clube de Ferenk Puskas e ainda se cruzou com o Benfica, para sua desgraça (o SLB pespegou-lhes 9-0 no total), e do segundo há já uns tempos que não se ouvia falar. Acrescentemos o regresso de alguns históricos, como o Mónaco de Jardim, Bernardo Silva e Moutinho, que encantou a França e a Europa, o Feyenoord de Roterdão e o Spartak de Moscovo.