sexta-feira, setembro 30, 2016

Porque é que os "Mirós" não são temporários?


Os célebres "Mirós" que pertenciam ao espólio do BPN e que tanta celeuma levantaram quando os tentaram vender vão mesmo ficar em Portugal e serão expostos amanhã em Serralves. Em príncipio ficarão no Porto, ainda não se sabe onde, mas já chamaram Siza para providenciar uma solução. Há que dar palmas mais uma vez ao empenho da CM do Porto em manter a colecção por cá. Mas nalguma coisa eu estaria em desacordo com Rui Moreira. Percebo perfeitamente que sejam expostos para todos os admirarem, e até que vão em exposição itinerante a outros pontos do país. Mas depois disso, reiniciaria o processo de avaliação do seu valor, sem pressas, para a sua posterior venda. Sim, preferia que fossem vendidos. Afinal de contas pertenciam a um banco no qual o estado depositou um valor incalculável, com repercussão nas contas públicas, de que todos se queixam. O mais lógico seria mesmo vendê-los para ir amortizando as perdas. Deveria ser o destino lógico dos bens dessa escabrosa aventura que deu pelo nome de BPN. Até porque Miró, ao contrário de Domingos Sequeira, nem era português, nem estes quadros, dizem os entendidos, correspondem ao período de maior fulgor artístico. O risco de obras nacionais saírem do país não se coloca. Por isso, podiam expô-los e daqui a uns tempos procediam ao seu leilão, podendo até o dinheiro obtido ser aplicado noutras áreas da cultura, que bem precisam. Mas ao que parece já ninguém se rala muito com o BPN a tentativa de minimizar o seu buraco. Depois não se queixem quando houver cortes ou aumentos de impostos. É o que dá um país pobre e endividado querer passar por rico.

Resultado de imagem para mirós serralves

quinta-feira, setembro 29, 2016

Shimon Peres 1923 - 2016



Resultado de imagem para shimon peres


Morreu Shimon Peres. Era o último grande sobrevivente da geração nascida na Europa que fundou o Estado de Israel, que o construiu e defendeu desde o início (teve logo responsabilidades na guerra de 1948), e que ainda estava ligada à imagem romântica da terra prometida de refugiados e sobreviventes que resistiam a todos os seus invasores. Exerceu os mais altos cargos da nação, e tendo dedicado uma vida inteira ao seu país, sendo um homem de combate, também o soube ser da paz. Negociou arduamente a pacificação com os palestinianos, tendo recebido o Nobel da Paz pelo seu trabalho nos Acordos de Oslo. Só saiu da presidência do país com mais de 90 anos. A última imagem que me recordo dele é a de plantar uma oliveira em Roma com o Papa Francisco, o líder da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, e o Patriarca de Constantinopla. Poderá ficar como um símbolo dos seus esforços para a paz. No seu lugar ficaram os Netanyahu, os fanáticos nacionalistas ou ortodoxos e uma classe política incapaz sequer de lhe chegar aos calcanhares. 

Resultado de imagem para shimon peres pope olive

quarta-feira, setembro 28, 2016

Totti aos 40


Um dia destes, quando me decidir a dar uma arrumação séria na minha infindável tralha, hei de encontrar o autógrafo que Francesco Totti me deu há uns 15 anos, depois de uma inglória recepção do Boavista à AS Roma (uma boa exibição, uma derrota pela margem mínima e a arbitragem menos caseira que me lembro de ver), sobranceiro como um semi-deus romano. Já na altura era o capitão e máxima referência daquele clube da Cidade Eterna, onde dera os primeiros toques como profissional aos 17 anos.


Agora chegou aos 40, sem nunca ter conhecido outra camisola, excepto a da Squadra Azzurra, com a qual aliás se sagrou campeão do Mundo. Continua a ser o capitão e a referência, ainda maior, da Roma e até DE Roma. Aos 40. E uma Cidade Eterna dificilmente arranjaria melhor personificação do que por um jogador que parece eterno.


sábado, setembro 24, 2016

Benfica 2016-20...


Não sei ainda muito bem o que pensar do Benfica nesta época. Ao contrário do que aconteceu no ano passado, a pré-temporada decorreu com calma e a supertaça conra o Braga pendeu a nosso favor, o que se agradece, porque é um troféu de que não temos muitos exemplares. Mas ficaram casos mal resolvidos, aquisições discutíveis e o flagelo das lesões começou logo no início.

Renato Sanches e Gaitán saíram, é certo, mas isso era mais que anunciado. O primeiro já tinha assinado com o Bayern ainda decorria o campeonato. O segundo não passava deste ano, e já merecia um contrato mais oneroso. E renderam uma boa maquia. A saída de Carcela, um jogador com talento e velocidade que cumpriu, é talvez mais precipitada, mas responde à quantidade de jogadores para as alas que o Benfica adquiriu.

Se há excesso nas alas, em parte por necessidade de alternativas, e noutras partes para agarrar jogadores promissores enquanto é tempo (caso de Zivkovic) ou para enfraquecer rivais (casos de Carrillo e Rafa), o meio-campo parece descompensado, já que Fejsa não chega para tudo e é vulnerável a lesões, Horta é ainda muito novo e não sabe defender, Samaris está também no estaleiro por umas semanas e parece contar meramente como suplente (aliás quiseram vendê-lo), Danilo e Celis são incógnitas - e o colombiano, quando entrou, contribuiu mas para o adversário. E sim, as lesões são um problema inesperado e demasiado extenso neste início de época. Se parecia haver relativa abundância na frente, as mazelas físicas encarregam-se de o desmentir. Na defesa, os centrais satisfazem mas os laterais são irregulares: Grimaldo agrada e vai certamente melhorar, Semedo tarda a voltar ao espantoso início de época do ano passado, mas se Almeida é um bom suplente, há as maiores dúvidas sobre se o veterano e pesado Eliseu estará à altura quando for chamado. A baliza está bem entregue à veterania de Júlio César e à juventude de Ederson, sob o olhar atento do "velho" Paulo Lopes.
 
A equipa parece ainda não ter encontrado o seu caminho, sobretudo no que ao meio-campo diz respeito. Houve jogos que correram bem, os do início, outros em que o resultado ficou aquém da exibição, como em Arouca, e outros q.b., como a da última vitória frente ao Braga. O Chaves, a jogar em casa (previsivelmente vai encher, ou não fosse o SLB muito popular em Trás-os-Montes), uma equipa complicada e com boa defesa e que tal como o Benfica ainda não perdeu, vai ser um osso duro de roer, em que o ataque terá mais responsabilidades que a defesa. E na próxima semana será a difícil deslocação a Nápoles. O jogo no San Paolo será o teste mais complicado numa equipa que tem sido morna no meio-campo e que terá de corrigir esse aspecto se não quiser ficar com as contas da Liga dos Campeões comprometidas. Depois do infeliz empate caseiro com o Besiktas, qualquer ponto fora vale ouro.

E valerá também a pena observar os novos talentos a ser lançados por Rui vitória. Terá José Gomes mais oportunidades ou mais vale crescer na equipa B?

domingo, setembro 18, 2016

Saraivadas e coelhices

Resultado de imagem para josé antonio saraiva passos coelho
 
Ao longo dos anos fui antipatizando mais e mais com José António Saraiva e o seu narcisismo patético, a achar-se o cronista mais influente da sua era, com as suas pequenas estupidezes (como chamar "portistas" aos portuenses), a sua pretensa superioridade em relação a qualquer crítica ("a coluna mais influente e mais atacada da imprensa portuguesa") e o seu cinismo entediante. Mas nunca pensei que o homem que afirmou estar certo de que um dia ganharia o Nobel da Literatura descesse tão baixo, publicando um livro sobre a vida íntima dos políticos que conheceu, ou seja, revelando conversas privadas e devassando a vida alheia, nalguns casos de pessoas que já morreram.
 
Pior só mesmo um líder da oposição, ex-Primeiro Ministro e candidato a voltar ao cargo, que se dispõe a apresentar uma pasquinada semelhante. Passos Coelho terá ficado louco? Os seus assessores são mentecaptos ou prepararam um golpe partidário interno? Ou já viu que não vai lá e arranjou um pretexto para sair da liderança do PSD? É que se apresentar mesmo tal "obra", a credibilidade de Passos cai por terra. Contabilizados os estragos, mais vale desistir a tempo.

PS: e desistiu, tarde mas ainda a tempo. a imagem não ficou lá muito bem cuidada, o seu discernimento menos ainda, mas antes isso do que a imagem constrangedora do que seria se se dispusesse a apadrinhar o livro.

segunda-feira, setembro 12, 2016

Dois meses depois do Euro


Já lá vão dois meses desde que Portugal ganhou o Euro 2016. Quem hibernasse em Junho e Julho e nada soubesse jamais o adivinharia. Afinal de contas, as proezas desportivas dos portugueses depois disso foram escassas: os Jogos Olímpicos saldaram-se por uma magra medalha de bronze (vá lá que não repetimos o vergonhoso feito de zero medalhas de Barcelona e, 1992), um pecúlio muito pobre, digam o que disserem os defensores dos atletas, com mais ou menos razão. E a Seleccção voltou aos campos com uma derrota bisonha por 2-0 na Suíça, depois de uma falsa partida contra Gibraltar. Ou seja, a onda de euforia não se estendeu aos campos desportivos.
 
Mas não, não é motivo para perder o entusiasmo. A vitória nos campos de França é bem real, a taça é nossa e deve servir de exemplo, não de memória desgarrada. Por isso, e embora só acreditar não chegue, é bem possível que com mais algumas condições, num futuro próximo os jogos Olímpicos corram melhor. Quanto à classificação para o Mundial, este era em teoria o jogo mais difícil. além de que a caminhada que só acabou em Saint-Denis começou, como muitos se recordam, com uma inimaginável derrota caseira com a Albânia.
 
E não hão de ser esses percalços a fazer-nos esquecer uma prova que começou sem despertar grande entusiasmo, mas que cativou pelos seus participantes menos usuais, pela performance dos galeses, pela coreografia guerreira dos islandeses (e pela histeria dos seus locutores), pela quebra de tabus e de habituais bêtes noires (França vs Alemanha, Alemanha vs Itália, Portugal vs França), pelos golos de Griezmann, Modric e Shakiri, e claro, pelo ímpeto de Renato Sanches, pelos voos e pela lesão de Cristiano Ronaldo e pelo improbabilíssimo golo de Éder e pela maneira como os portugueses, nessa noite inesquecível de Julho e nos dias que se seguiram, saíram à rua, em verdadeira alegria, comemorando o fim definitivo das "vitórias morais" e do eterno triste fado.
 
Está tudo condensado neste magnífico resumo da BBC, com uma versão francesa de Heroes, de Davd Bowie, como banda sonora, e que só por si quase podia ser um pretexto para este post. "Quase" porque momentos assim merecem ser lembrados enquanto estão frescos.
 
Vive le Portugal, como anuncia orgulhosamente a coluna na imagem final.
 

sábado, setembro 10, 2016

Madre Teresa e os seus detractores


Madre Teresa é oficialmente santa. Popularmente já o era. a canonização limitou-se a dar o devido reconhecimento, confirmadas as condições, a alguém cujo halo de santidade já há muito era reconhecido, até em vida. No fundo, juntar as palavras "Madre Teresa" e "santa" acabam por ser uma redundância.

Reparei no entanto que não houve reportagem sobre esta canonização que não trouxesse o "outro lado" de Madre Teresa, ou seja, os aspectos supostamente mais negativos da fundadora da congregação das Missionárias da Caridade. Alguns fariam sentido, outros eram puro preconceito, ou pior, pura birra ideológica. A principal fonte destas críticas é um livro, já com uns vinte anos, da autoria do célebre Christopher Hitchens, intitulado brilhante e provocatoriamente The Missionary Position, citado e exemplificado de forma acrítica e veladamente laudatória. O cronista anglo-americano aparece como um analista imparcial, fidedigno, obrigatório.

Sintomático como a crítica a Madre Teresa contrasta tão flagrantemente com a ausência de críticas a Hitchens, desaparecido em 2011. Mas a resposta não é muito complicada. Hitchens era um jornalista e colunista provocador, que escrevia bem e com verve. As críticas a Madre Teresa a que me refiro acima surgem em órgãos de comunicação social, que, como é óbvio, tenderão a valorizar um "deles", um elemento da classe jornalística, para mais mediático e apreciado pela forma como escrevia. Mesmo muitos daqueles que estão longe das suas ideias o apreciam, como é o caso de Pedro Lomba, que até o guiou num périplo aquando da última vinda do polemista a Portugal. Convém lembrar que Hitchens era um ateísta fanático até à medula (no que era reprovado até pelo seu grande amigo Martin Amis), que considerava que a religião "envenenava tudo" e que o ateísmo e o secularismo "eram urgentes". Por isso mesmo apoiou a invasão ao Iraque em 2003, reiterou essa ideia anos mais tarde mesmo quando o desastre era visível e afirmou mesmo que por ele poderiam fazer o mesmo ao Irão. A razão? Para "espalhar o secularismo" (mas não refere a Coreia do Norte, por exemplo). Aqueles que invocam as cruzadas como exemplo dos males das religiões ficariam certamente confundidos. Daí este ataque cerrado a Madre Teresa e à generalidade das religiões.
 
Apesar disso, ou até devido a isso, Hitchens continuou a ser muito apreciado pelas redacções do mundo fora. A sua verve, mesmo que por vezes fosse inspirada no esvaziamento de uma garrafa de Whisky, como o próprio confessou, a sua condição de enfant terrible, tornavam-no popular, e era considerado "corajoso" (sabe-se lá porquê, já que se fosse despedido de uma qualquer coluna de opinião, o máximo que lhe poderia acontecer, viria logo outra contratá-lo). E para os media, o que é que é mais atractivo? Um tipo talentoso e provocador que escreve para a Vanity Fair e para a The Atlantic, ou uma freira idosa que vive nos bairros miseráveis de Calcutá entre moribundos, doentes e velhos, rodeados de miséria e imundície? Não é preciso ir muito longe para ser perceber qual é o principal objecto de estima.
 
Mas como li num qualquer artigo há não muito tempo, o bem raramente tem uma boa imagem, um cheiro agradável e mais raro ainda é que a sua prática seja algo susceptível de dar um qualquer prazer imediato. Ou seja, contraria grandemente as modas contemporâneas e não é passível de ser atractivo. Não que o ser humano tenha de ser intrinsecamente abjecto, mas praticar o bem é realmente difícil. Por isso, Madre Teresa, mesmo com as suas falhas, dúvidas e pensamentos, merece a canonização: é a imagem da prática do bem de forma gratuita, nas situações e locais mais desaconselháveis. Sim, é tão mais fácil ser-se fashion, lido e estimado na opinião mediática. Mas o caminho do bem é certamente mais pedregoso. Por isso, e por mais fora de moda que o seu exemplo possa estar, Madre Teresa merece infinitamente mais respeito e consideração do que qualquer dos seus detractores.
 
Resultado de imagem para madre Teresa

domingo, setembro 04, 2016

Memórias de um Agosto que passou

 
Moledo - faina do sargaço, 2016

Agosto acabou. A muito custo, há que passar à nova época e deixar os lugares sinónimos. Desde que me conheço que a imagem de Agosto é coada pelo Alto Minho. E no meu dia de anos é ali que devo estar, que me sinto em paz e onde o mundo inteiro se concentra. É verdade que já por muitas vezes pensei em viajar nesse dia, e que certamente o farei no futuro, mas por norma é ali que estou em casa, entre os meus. Não nasci aqui, mas quase. Salvo qualquer excepção, os meus anos serão em princípio sempre ali.

Como já não tenho 18 anos, fica sempre a sensação de que algo ficou por fazer. não é de espantar, porque as férias servem para preguiçar e para o dolce fare niente. Este ano, ao contrário do que reza o mito, o tempo foi condescendente, tanto que o Alto Minho se viu assolado por incêndios (eu próprio vi alguns entre os Arcos e Cerveira). A praia esteve convidativa, mas para além disso o tempo dividia-se entre as comemorações dos 50 anos da morte de António Pedro, as festas de Caminha, Viana e Ponte da Barca, que nunca perdem o encanto, e outras festas mais mundanas, os bares de Caminha e a redescoberta da velha Alfândega, os jantares com amigos em novas descobertas gastronómicas - o que não falta são restaurantes, inclusive do outro lado do rio Minho - passeios mais para o interior (finalmente conheci Sistelo e a Brejoeira), os cafés em Caminha, etc. Não houve oportunidade de voltar à Ínsua nem de arranjar uma bicicleta, nem quase de ir a Espanha, mas há sempre coisas que faltam, e por isso não há razão para queixas.

Entre as poucas coisas que tive pena de perder (em parte por uma alternativa, em parte por decisões de última hora) conta-se o festival de Vilar de Mouros. Não que fosse uma estreia - passei por lá duas vezes, com gratas memórias, além de que o local, à beira-Coura, vale bem um passeio - mas tinha alguma curiosidade em ver preciosas relíquias dos anos 80, em especial Peter Murphy, os OMD, os Happy Mondays ou Peter Hook (o que resta dos Joy Division, e tendo em conta que estes dois últimos actuaram na mesma noite, bem se podia dizer que os objectos do filme 24 Hours Party People se reuniram numa pequena freguesia do Minho), com a energia dos inclassificáveis Blasted Mechanism e a melancolia dos Tindersticks e o rock tuaregue de Bombino pelo meio. Outros planos, igualmente agradáveis se interpuseram pelo meio. Mas já depois do festival, soube que Peter Murphy, um dos pais do rock gótico, a cara dos Bauhaus (a banda, não a escola de arquitectura) e senhor de uma imagem e de uma voz poderosas e icónicas, andava a ensaiar no teatro Valadares, a renovada sala de espectáculos de Caminha, ali entre a matriz, a Alfândega e a movida da Rua Direita, em cujos bares me lembro aliás de ouvir algumas das suas músicas. E segundo conta, a apreciar a gastronomia local. Pena que não tenha visto o semi-mito a andar pela Rua Direita ou pela praça do chafariz, a experimentar um sidónio ou um cabrito à Serra d´Arga (apesar de saber que é muçulmano sufi, influência da sua estadia na Turquia). Provavelmente um criador do estilo gótico gostaria de saber que ao lado do local de ensaios existe uma ruela chamada Rua do Lobisomem. Noutros tempos, quem sabe, poderia servir de inspiração para uma canção. Paciência. Mas vou pensar que tenha acabado por saber de uma outra forma.
 
Sem a magia de Agosto, Setembro também é um mês que merece ser bem aproveitado.
 

quinta-feira, setembro 01, 2016

Burkinis e comparações impossíveis


A polémica internacional da silly season é inevitavelmente a do "burkini". A dada altura, a polícia francesa começou a multar e a repreender as mulheres que andam de fato de banho integral adaptado à moral islâmica. A proibição acabou por ser revertida por decisão administrativa do Conselho de Estado, mas não impediu que a polémica continue, sobretudo nas inevitáveis "redes sociais". Ainda agora um qualquer autarca dizia que as mulheres que se queriam vestir assim podiam ir "para a Arábia Saudita".
 
Este tipo de declarações mais ou menos parvas não ajuda muito a qualquer debate. A verdade é que, ao contrário do que o ilustre autarca defende, uma qualquer comparação entre a França e a Arábia Saudita seria sempre perversa, porque poria o país da "Liberdade, Igualdade e Fraternidade" no mesmo plano que a terra dos wahabitas integristas. E um país de real liberdade não condiciona, à partida, o traje que as pessoas envergam. Claro que haverá excepções, no que toca à segurança (e em muitos casos a proibição de niqab integral é perfeitamente recomendável) ou ao pudor - embora haja quem exija o "direito" de andar pela rua como Deus a pôs ao mundo, como se fosse assim tão simples. Mas pôr polícia a condicionar o traje que se usa na praia lembra precisamente as brigadas contra o vício que existem em certos países islâmicos, obrigando as mulheres a "vestirem-se decentemente". Neste caso, será mais aconselhável a andarem "indecentemente", como defendia o atarantado Manuel Valls, ao fazer referência aos seios da Marianne como "símbolo da liberdade".
 
Como já se tinha visto anteriormente, para alguns a liberdade é a imposta por eles, e não a determinação individual de cada um. Poder-se-á perguntar legitimamente se as mulheres usam o "burkini" porque foram a isso obrigadas ou porque o querem. Se se tratar do segundo caso, uma situação de assunção de um dever ou de uma consciência, há que respeitá-lo. Os tão apressados defensores da liberdade que multam e repreendem as mulheres tornam-se homólogos das brigadas islâmicas da virtude.
 
Resultado de imagem para burkini frança conselho suspende
 
 
Na realidade, é mais um exemplo do jacobinismo francês, em que a tão afamada "laicidade" é na realidade uma atitude anti-religiosa disfarçada. A França é um país soberbo, a que devo boa parte da minha educação e uma língua admirável, mas tem destas grandiloquências incoerentes, em que se proclama campeã da liberdade sendo na realidade profundamente restritiva e impositiva. A imposição da um jacobinismo mal disfarçado de laicidade é um desses exemplos. De há muito que os poderes públicos convivem mal com a religião e as suas demonstrações, substituindo-as por um culto laico com o seu quê de religioso. As restrições aos "burkini" e as explicações moralistas são disso o melhor exemplo.
Preocupações estéticas? Todos as temos, mas a mim incomoda-me tanto o "burkini" como uma mulher disforme em bikini, ou a malta de tanga pele de leopardo. Claro que todos nós puxamos à memória o ditador que há em nós, e se pudéssemos apagávamos certas figuras. Mas tanto quanto sei, em países pluralistas, não é o estado que determina a estética. A solução é simples: desviar os olhos.
 
E depois, pergunto-me quantas destas mulheres serão realmente árabes de nascimento. O mais provável, respondendo ao boçal e populista "se queres usar isso vai para a tua terra", como se não houvesse mais do que uma geração de emigrantes,será "eu estou na minha terra". Valha-nos o Conselho de Estado e a sua sensatez, que anulou esta estúpida proibição. Até à próxima polémica.
 
 

quarta-feira, agosto 31, 2016

Ainda António Pedro


Voltando a António Pedro e ao cinquentenário da sua morte, aqui está a reposição de um programa de 1992, que passou o então Canal 2, apresentado por Castro Guedes, e onde se revisita a vida e a obra de António Pedro, centrada em Moledo, e aqueles que com ele conviveram, com diversos testemunhos (como Ruy de Carvalho e Júlio Cardoso, de resto também presente na exibição desta peça). Note-se, aos 19:09, nas imagens do seu enterro, em 1966, Eunice Muñoz, em primeiro plano, cuja carreira António Pedro ajudara a incrementar.
 
A imagem e o som não são famosos, mas tratou-se de uma gravação directa da exibição pela Companhia de Dança de Lisboa.