quinta-feira, fevereiro 16, 2017

Felicidade com atraso


A vitória sobre o Borussia Dortmund é uma das mais felizes que o Benfica já teve. Por muito que pense, não me recordo de um jogo em que tenhamos sido tão dominados e ao mesmo tempo, tenhamos criado tão poucas oportunidades de golo com tanta eficácia. Claro que há triunfos de sorte, como no ano passado no Bessa, mas com o adversário a criar tantas oportunidades é ainda mais raro. Perante os desacertos de Aubemayang, os desperdícios dos companheiros, a macieza do meio-campo do Benfica e a placidez de Eliseu e de Rafa, valeu-nos o sentido de oportunidade de Mitroglou, a experiência encorajadora de Luisão e uma exibição imperial de Edersson (como é que ele conseguiu defender aquela bola lá para os 83`?). Na segunda mão já sabemos com o que contar: um estádio intimidatório com oitenta mil alemães a ulular e a agitar pendões amarelos, uma equipa do Dortmund ainda mais agressiva e a necessidade premente que tem em ultrapassar a eliminatória (além do objectivo em si mesmo), não só porque as coisas na Bundesliga não correm pelo melhor mas porque tem o orgulho ferido.

Mas se o Benfica teve grande felicidade agora, para os que acreditam no Karma e ains talvez tenha havido alguma justiça histórica: é que em 1963, já lá vão mais de 50 anos, na altura em que o Benfica dominava a Europa e contava com Eusébio e mais dez craques na equipa principal, recebeu precisamente o Dortmund na Luz e venceu-o por meros 2-1. Uma magra vitória acompanhada de um record de bolas à barra: nada menos que seis. E na segunda mão, sem Eusébio levou uma surpreendente goleada de 5-0. imagine-se agora se das 6 bolas ao ferro tivessem entrado 5 e o "Pantera Negra" tivesse jogado: mesmo com ma pesada derrota, o Benfica seguia em frente. Por isso, a sorte de agora é a paga do azar de meio século. Ah, e registe-se que os alemães quase limparam a folha clínica ao passo que o Benfica jogou sem Jonas e mais uns quantos. Isto da sorte tem muito que se lhe diga.

Resultado de imagem para benfica dortmund

terça-feira, fevereiro 14, 2017

Diz que sou um terrorista


Fiquei ontem a saber que sou um terrorista (sem aspas), um ultraconservador e um "manipulador de imagens chocantes" para "sujeitar maiores e menores a uma distorção obscena da realidade". Toda essa acusação consta do artigo de Alexandra Lucas Coelho no Público de segunda-feira. Já tinha reparado num certo radicalismo fracturante da colunista do diário (então ela não tinha sido despedida?), mas nunca tinha pensando que para ela, as pessoas que, como eu, defenderam o "não" nos referendos ao aborto - e eu fi-lo tanto em 1998 como em 2007 -  eram terroristas. Sem tirar nem pôr. Já agora, por esse critério, o actual Presidente da República e o SG da ONU também constam do rol. Para além da virulência dos termos, há outros dois aspectos que sobressaem: um é a não aceitação de resultados eleitorais que a desgostem, como prova ao dizer que a vitória do "não" em 1998 fazia crer que Portugal não era um estado democrático nem laico (ou seja, para Lucas Coelho se os resultados não forem os que pretende, então já não são democráticos, e o facto de as pessoas exprimirem valores de origem religiosa é em si mesmo um atentado à laicidade do estado); outro é a maneira como atira grosseiramente aos outros aspectos que mais depressa se colariam ao seu "lado": a tal manipulação de imagens chocantes", que se bem entendo, eram as diferentes formas de realizar abortos. As imagens podiam causar choque, mas não eram falsas nem sujeitas a alterações de fotoshop. Já inúmeros cartazes a favor do "sim" eram recriações grotescas, sobretudo os da autoria do PSR (pouco antes da formação do Bloco), com óbvios intuitos anticlericais (mas então a laicidade...?)

Resultado de imagem para cartazes aborto psr

O que resta é que, dez anos depois do referendo que lhes deu a vitória, e mesmo recusando absolutamente qualquer outra hipótese de tal instrumento de voto directo, alguns vencedores de então continuam a mostrar uma incrível raiva pelos que pensam de outra forma, ainda por cima com argumentos da mais primário desonestidade intelectual acompanhados de insultos infantis. Daqui não pode sair nenhuma discussão válida. E continuam, na sua arenga, sem fazer uma, mas uma que seja, referência ao cerne da questão: áqueles a quem tiram o direito de nascer.

domingo, fevereiro 12, 2017

Uma questão de traçados


Foram revelados esta semana os projectos da expansão do Metro do Porto. Um era expectável e desejável: a continuação da linha amarela, de Gaia, até à imensa Vila d´Este, passando pela Hospital de Gaia, facilitando a deslocação a uns bons milhares de pessoas.
 
O outro é uma enorme surpresa, mas a avaliar pelas reacções, a começar pela minha, nem por isso das mais agradáveis. Uma linha a ligar a Casa da Música ao...Hospital de Santo António, via praça da Galiza? Para quê?
 
Ao que parece, e não se adiantou muito mais, servirá para retirar tráfego automóvel áquele eixo (que se resume à rotunda, Júlio Dinis e D. Manuel II) e para que o Hospital fique mais bem servido. Não era preciso explicações para se perceber o objectivo, claro como a água. Mas porquê esse traçado, porquê essa opção de trajecto?

imagem

Já se discutiram duas opções de traçado: a linha da Boavista, que ligando a Matosinhos subiria a avenida até à Casa da Música, percorrendo à superfície o antigo trajecto do eléctrico (a linha 19). Tinha a vantagem de ser mais económico, mas a verdade é que no troço inicial da avenida, sobretudo na parte que confina com o Parque da Cidade, serviria muito pouca população. Creio que com as obras posteriores, que inviabilizam qualquer opção de linha electrificada, esse projecto ficou definitivamente posto de parte.
A outra opção era mais dispendiosa e demorada, mas muito mais abrangente. A linha do Campo Alegre viria também de Matosinhos, mas atravessaria à superfície o Parque da Cidade, "enterrando-se" antes de chegar à avenida, regressando à superfície apenas na zona do Fluvial e de D. Pedro V, até para evitar cursos de água subterrâneos. Faria assim a ligação de toda a zona ocidental do Porto, de parte da Boavista e do pólo universitário do Campo Alegre com a Baixa, incluindo, sim, o Hospital de Santo António. Ou seja, ligaria quase meia cidade ao centro. Tendo em conta a complexidade e onerabilidade de tal projecto, é de temer que tenha ficado indefinidamente na gaveta, em lugar deste outro para o qual não se vê grande valia. Para mais, Rui Moreira era adepto deste traçado.
 
Resultado de imagem para metro porto linha campo alegre álvares
 
Não é um exclusivo do Porto: também em Lisboa, e com tanta gente há anos à espera da ligação do metro às zonas ocidentais, resolveram inflectir a linha do Rato para o Cais do Sodré, apanhando apenas a zona de Santos e deixando o resto como estava. Vá-se lá saber...
Com este, já são dois os grandes anúncios tipo balão de ar esvaziado que a câmara lançou. O outro é aquela votação do Porto como melhor destino turístico europeu para 2017, uma votação online à qual, francamente deram demasiado crédito.
 
O anúncio verdadeiramente positivo, e provavelmente menos divulgado, acabou por ser o do terminal intermodal de Campanhã, que facilitará o sistema de transportes na zona oriental e à volta da estação, que era até agora um baldio suburbano vergonhoso. Dir-se-à que estamos em ano de eleições, mas a verdade é que este era mesmo um dos projectos-chave do programa de Moreira em 2013.

quinta-feira, fevereiro 09, 2017

Os videos dos Rockin 1000


Tem gerado algum entusiasmo a interpretação do célebre hino dos Nirvana, Smells Like Teen Spirit, pelo grupo eventual conhecido como Rockin 1000. O nome é fácil de perceber: consiste em cerca de mil músicos, ou mais, que interpretam em simultâneo canções rock conhecidas, com efeitos sonoros surpreendentes (e potentes, que é provavelmente o maior objectivo de um tal projecto).



O grupo, que parece ser particularmente fã dos Nirvana e sucessores, apareceu em Itália, em 2015, quando alguém teve a ideia de tocar Learn to Fly, dos Foo Fighters ( o grupo liderado por Dave Grohl, precisamente o baterista dos Nirvana), como forma de chamar a atenção à banda americana e conseguir levá-la a Cesena, o que, segundo a Wikipedia, aconteceu mesmo.

 


Mas já que se fala em Learn to Fly, é justo que se deixe aqui o videoclip original, talvez um dos mais divertidos e imaginativos da história do rock. Para além do enredo burlesco, os membros da banda fazem várias personagens ao mesmo tempo - Grohl, por exemplo, consegue interpretar o piloto do avião, um comissário de bordo efeminado, uma passageira obesa, outra teenager e fã da banda, e ainda um agente do FBI, além de fazer de si próprio, tal como os companheiros. Ah, e Jack Black também faz uma perninha no vídeo.


sábado, fevereiro 04, 2017

Estaline como nova moda

 
Nos últimos dias, e por toda a parte, podemos encontrar a cara laroca de Estaline. Biografias distribuídas pelo Expresso, livros sobre os seus últimos dias, documentários na televisão, séries, ensaios, filmes (com o Depardieu a protagonizar e realização de Fanny Ardant tendo como cenário de fundo...o Buçaco)...Mas se não há nenhuma efeméride a comemorar - excepto os cem anos das revoluções russas - porque é que se desatou de repente a recordar tanto o "pai dos povos"? Para contrapô-lo a Hitler? Já passou demasiado tempo e é uma figura meramente histórica? Ou por causa desta vaga de autoritarismo? Estaline pode estar de certa forma na moda, mas nada explica o porquê deste interesse súbito pelo paranóico georgiano que dominou o Kremlin e o maior país do Mundo durante 30 anos.
 
 

terça-feira, janeiro 31, 2017

Defender as fronteiras da good old América

 

Brigada norte-americana de bons costumes, leal ao Presidente Trump, impede a entrada nos Estados Unidos de forasteiros irlandeses de países muçulmanos (da Arábia Saudita não, também não é preciso exagerar), antes que eles conspurquem a nação com os seus hábitos e costumes religiosos odiosos, com as suas intenções malévolas e ameacem a liberdade reinante.

terça-feira, janeiro 24, 2017

O discurso de Trump


A tomada de posse de Donald Trump, mergulhada na polémica do início ao fim, e portanto fiel ao empossado, continua a fazer correr tinta, como seria de esperar. O número de populares, a forma como cumprimentou ou não cumprimentou, a ausência de artistas de primeira linha, a pobreza de vocabulário, o estilo eleitoralista e sectário, a maneira como se dirigiu aos que o rodeavam, o próprio baile que se seguiu, tudo contribuiu para intermináveis discussões que ainda se prolongam. Dois aspectos particularmente maus: o conteúdo do discurso em si e as manifestações contra. Proferiu uma miserável arenga de campanha, absolutamente divisionista, que em nada servirá para unir o país. Desfiou uma data de chavões, de frases feitas básicas e de slogans populistas, prometendo tudo e mais alguma coisa como se fosse mágico ou omnipotente. A frase que melhor resume é esta (referindo-se ao crime de rua): "this american carnage stops right here and stops right now". Até agora, não parece que o crime tenha desaparecido. E mais prometeu que se acabaria a desobediência com a polícia. Se as coisas já andavam tensas nessa matéria, é de esperar o pior (irá ordenar à polícia que massacre quem lhe desobedeça?). E o mesmo se aplica ao radicalismo islâmico, que prometeu "erradicar". E, como muito repararam, não se referiu uma única vez ao valores americanos nem aos founding fathers ou a qualquer outra figura histórica.

Eis a face de Trump, e os seus aspectos mais negativos: mais do que o ar de boss e a inspiração em alguns dos piores aspectos dos Estados Unidos, mais do que a incapacidade discursiva e o ar de gorila alaranjado, é esta convicção de que tudo pode e de que não tem de ouvir ninguém, ou pelo menos ninguém fora do seu círculo, que o torna mais perigoso. Já é o Presidente americano e já demonstra todo a sua incapacidade e falta de estaleca para o cargo. Pormenor lateral mas ilustrativo: o tipo nem sabe apertar devidamente o casaco e apresentou-se ao mundo com a gravata a esvoaçar.

Resultado de imagem para president trump  washington

E depois o outro aspecto negativo, esse nos antípodas: as manifestações violentas de grupelhos como o Black Bloc, que para onde vão, divertem-se a partir montras e carros e a atirar objectos à polícia. Tendo em conta que em Washington quase ninguém votou em Trump, é caso para perguntar qual é a culpa das montras. Claro que não é nenhuma, mas é o pretexto mínimo para que grupos de marginais e cultores de violência urbana possam dar azo aos seus passatempos. Depois não admira que parte da população vote nos Trumps desta vida, que prometem a erradicação do crime e da violência das ruas. São alimento recíproco e pasto para disparates dos dois lados. No fundo estão todos bem uns para os outros.

segunda-feira, janeiro 16, 2017

Treze


Treze é um número aziago. O número do azar, da má fortuna, de dias temerosos que impõem receios, de crenças mais ou menos infundadas, de tradições obscuras e bruxarias imaginadas. E também é o número de anos em que eu ando nisto. Este blogue faz esta noite treze anos (não sei ao certo a que horas nasceu, mas por esta altura em que escrevo, e precisamente no quarto onde me encontro), e como tal entra na adolescência. Como se sabe, é a pior das idades. Não fiquem espantados se houver manifestações próprias da "idade do armário".
Resultado de imagem para 13

Interrogações com resposta vaga


Há os desaparecimentos públicos e depois há os que, não sendo de notoriedades, nos são mais próximos. A grande diferença para os primeiros é que não temos um resumo da sua vida, as suas memórias ou as suas imagens ali à mão de semear. E aí temos de ser nós a ir buscá-las, a recordá-las com os outro, a comparar recordações e a trocá-las, como cromos de uma caderneta que no fundo é a biografia do que nos deixou.
As memórias privadas são mais íntimas e mais valiosas, e não apenas por causa do evidente valor de proximidade. São-no porque exigem um trabalho de busca e de rememoração que trabalho jornalístico algum, por mais bem feito e intencionado que seja, nos pode dar.

E que fazer quando o desaparecimento atinge uma pessoa na força da idade, de que se diz que tanto poderia dar ainda e que para mais marca aqueles que a rodeiam? Como é que se reage? Como é que aqueles que estão próximos podem preencher o vazio? Quando morre alguém de idade avançada fica a tristeza do momento, a enumeração das suas virtudes, a saudade. Mas nunca é exactamente visto como uma tragédia. Quando desaparece alguém mais novo, há a sensação natural de que uma missão no Mundo ficou por cumprir, e um enorme e doloroso sentimento de perda. Mesmo para quem crê e que sabe que a morte física é apenas uma passagem para algo de diferente.

O tempo apaga a dores, dizem. E se não apaga atenua-as. As recordações mais preciosas ajudam também. A seguir em frente, na vida de todos os dias. Nunca gostei muito dessa frase tecnocrática e prosaica -  "a vida continua" - mas em parte é verdade, para os que vão ficando. A vida continua amparada na passagem do tempo, nas recordações e na convivência com o(s que nos são) próximo(s). E na crença de algo superior e na sua sagrada promessa de uma existência diferente e melhor, em que mesmo os mais cépticos no fundo crêem. O resto são as interrogações naturais que esta frágil espécie se coloca desde sempre e para sempre, sem chegar a qualquer conclusão material em vida terrena, por muito que a ciência, em vão, o tente. 

quarta-feira, janeiro 11, 2017

Outros desaparecimentos


E enquanto se carpia Mário Soares, partiam também Guilherme Pinto e Daniel Serrão. A notícia maior eclipsou um pouco as suas mortes, talvez por não serem muito inesperadas. Pinto tinha justamente renunciado ao cargo de presidente da câmara de Matosinhos, que só teria efeitos a parir de Fevereiro, e não resistiu a ma doença cancerígena que já o afectava há anos. Anda conseguiu refiliar-se no PS, ele, que em 2013 tinha reconquistado a câmara com maioria absoluta e estatuto de independente, depois de uma lamentável jogada do aparelho socialista local. Conheço pessoas que lhe devem a sua (boa) situação habitacional e que certamente não o esquecerão. Um bom autarca que parte cedo demais.
Também a morte de Daniel Serrão não constituiu propriamente surpresa. Estava bastante fragilizado desde o estúpido atropelamento de que fora vítima, há dois anos. Serrão, que era de Vila Real com a minha família e vivia no Porto tal como eu, será sobretudo recordado como o grande pioneiro e divulgador da bioética em Portugal e até a nível internacional, e um exemplo de como se pode reunir harmoniosamente a ciência e a fé religiosa.

E para além disso, desapareceu também Zygmunt Bauman, um pensador que bem merece ser lido na época efémera e precária em que vivemos. E para além de Mário soares, também morreram outros dois ex-chefes de estado dos anos 80-90: Roman Herzog, antigo presidente da Alemanha, e Rafsanjani, o antigo presidente iraniano que ajudou a desanuviar a regime dos ayattolahs. Fará provavelmente falta aos sectores mais contestatários da teocracia iraniana. Para já, 2017 não deve nada a 2016.

terça-feira, janeiro 10, 2017

Mário Soares 1924 - 2017


Nunca é fácil resumir o epitáfio do político que representa o regime em que vivemos e o mais representativo do nosso país no último meio século. Mas para começar, Mário Soares é daquelas personalidades que faz parte do meu imaginário desde sempre e que não me lembro de não conhecer. Era ainda pequeno mas soletrava os políticos que conhecia e que eram na altura os mais relevantes do país: Soares (o "bochechas"), Eanes (o "rameanes"),  Balsemão (o "balsas"), o Freitas e o Cunhal. Destes cinco, três ainda estão vivos. Recordo-me ainda de outros, como Mota Pinto, mas os principais eram mesmo aqueles.

Resultado de imagem para mario soares fonte luminosa

 
Mário Soares era uma personagem de paixões, e que provoca ele mesmo paixões e ódios. E é, ao mesmo tempo, uma personagem atípica: foge à austeridade que caracteriza boa parte dos políticos portugueses (desde os da 1ª república e da "ética republicana", passando por Salazar, até Cunhal, Cavaco, Eanes e mesmo Passos Coelho), era um bon-vivant, um optimista, não era um mouro de trabalho nem nunca se preocupou em dar essa imagem, nunca se destacou como um aluno brilhante nem por trabalhos académicos e intelectuais, apesar de ter uma enorme bagagem literária, e teve sempre grande empatia com as massas.

Resultado de imagem para mario soares tartaruga

 
Todas essas características fazem dele uma personagem à parte na política portuguesa. A isso será sempre obrigatório juntar-lhe Maria Barroso, que esteve quase setenta anos ao seu lado, que se tornaria na Primeira Dama mais popular entre os portugueses, e cuja perda, há ano e meio, contribuiu visivelmente para o seu declínio.

Resumamos o seu percurso: filho de um ministro republicano católico, fundador do Colégio Moderno, ainda hoje pertencente à família, chegou a pertencer ao PCP, participou nas campanhas do MUD, conheceu Norton de Matos, Humberto Delgado e Jaime Cortesão, esteve preso várias vezes (casou-sena prisão, por procuração), chegou a ser deportado para S. Tomé e acabou por se estabelecer em Paris, onde conheceu inúmeras figuras internacionais ligados à Internacional socialista, como Mitterand, Willy Brandt, Felipe González e Olof Palme. Pelo meio fundou a Acção Socialista Portuguesa, que daria origem, em 1973, ao Partido Socialista. Voltou a Portugal na sequência do 25 de Abril, conseguiu tornar o PS num dos principais actores políticos do momento, e depois de algum tempo de manifestações comuns, dá-se o afastamento em relacção ao PCP, agravado com a radicalização da situação, o 11 de Março e o caso do jornal República, ligado ao PS. Realizam-se as eleições para a Assembleia Constituinte, que o PS ganha claramente, deixando o PCP e restantes satélites com resultados muito abaixo do esperado, mas nem por isso abrandando o PREC. Soares encarna a resistência na rua ao governo de Vasco Gonçalves e ao crescente domínio do PCP e dos militares esquerdistas, com grandes comícios como o da Alameda, em Lisboa, e das Antas, no Porto, que mostraram que nem todo o país pretendia uma "democracia popular", como aliás as urnas o demonstraram. Ainda em Novembro, com garantias de protecção dos Estados Unidos (onde Kissinger achava que Portugal seria a "Cuba da Europa"), Soares realiza novos comícios antes da tentativa de golpe da extrema-esquerda, sufocada pela reacção dos comandos e dos militares moderados a 25 de Novembro. com a situação normalizada, Soares assumiu o cargo de Primeiro-Ministro depois de ganhar as eleições de 1976. Com a economia de rastos e sem maioria parlamentar, teve chamar o FMI e de ensaiar várias soluções governativas, antes das iniciativas presidenciais o tirarem do governo. Seguiram-se os conflitos internos por causa da sua recusa em apoiar Eanes para novo mandato, a derrota perante a AD de Sá Carneiro, até ao regresso às vitórias em 1983, e a necessidade do acordo do bloco Central, de nova vinda do FMI e de dois anos de pesada austeridade, culminando na adesão à CEE, um dos grandes objectivos de Soares. A esse triunfo seguiu-se a derrota mais pesada, com o PS a obter apenas 20%, pouco mais que o novo PRD inspirado por Eanes, e que permitiram a Cavaco Silva e ao PSD formar o seu primeiro governo. Depois, o combate mais condenado à partida que já houve em Portugal nas últimas décadas: Soares lançou-se às presidenciais de 1986 com apenas 8% de intenções de voto, contra Freitas do Amaral, apoiado pelo CDS e PSD, que congregava toda a direita, o seu velho ex-amigo Salgado Zenha, apoiado por PCP e PRD, e Maria de Lurdes Pintassilgo, apoiada por parte da esquerda. Acabou por suplantar os dois últimos, obrigou Freitas a ir à segunda volta, obrigou Cunhal a engolir um "sapo" e a votar nele, e venceria com ligeiro avanço, transformando uma derrota certa numa vitória quase impossível. Vieram depois os dez anos presidenciais, a coabitação nem sempre fácil com Cavaco (a quem de certo modo deu a sua primeira maioria absoluta), o estilo régio combinando com à vontade nos meios populares, e uma imensa popularidade que levou a que o próprio PSD o apoiasse na reeleição onde ganhou com incríveis 70%. Acabada a presidência, Soares tornou-se um senador sempre interventivo, voltando ao combate político como cabeça de lista pelo PS ao Parlamento Europeu nas europeias de 1999, que venceria, e já mais tarde, depois de aos oitenta anos pronunciar um sonoro "basta de política", resolveu lançar-se numa inglória corrida de novo à presidência da república, aos 81 anos e contra o apoio da família e amigos, contra Cavaco Silva e o anteriormente amigo Manuel Alegre, culminando num modesto terceiro lugar. Seguiram-se anos de intervenção política, os últimos já penosos, em que verificou uma guinada à esquerda e severas contradições com o que tinha defendido em tempos. Mas a importância política de Soares tinha ficado lá atrás.

Este homem teve inúmeras qualidades, como a coragem, o optimismo, a determinação inquebrantável, o à vontade e a absoluta recusa em agradar a gregos e troianos, o apego à liberdade e a lealdade aos amigos. E também muitos defeitos, como a arrogância política e imenso sentido de superioridade (para não ir mais atrás recordo os debates com Cavaco em 2006), inabilidade executiva, desconhecimento de dossiers, desprezo pela coisa pública, com se viu com os montantes gastos na pós-presidência e na sua fundação, e...excessiva lealdade aos amigos, alguns deles de duvidosa credibilidade (Craxi, Sócrates, Andrez Perez, mesmo Mitterand). Este homem não deixou ninguém indiferente, e é talvez o político mais amado e odiado dos últimos cinquenta anos. Se por um lado teve inúmeros amigos, por outro arranjou outros tantos inimigos - Marcelo Caetano, Cunhal, Eanes (com quem faria as pazes), Cavaco, e, a mais dolorosa, Salgado Zenha, outrora um amigo inseparável e com quem nunca conseguiu reconciliar-se. O que significa que deixou uma forte marca e que era realmente um político total, em todo o sentido da palavra. Pôde-se ver agora, por um lado nas imensas cerimónias de estado, nas declarações de líderes estrangeiros e na imprensa internacional, na emoção das pessoas à passagem dos restos mortais; mas também nas redes sociais, com o seu habitual lavar de roupa suja, declarações de ódio e acusações de toda a sorte, algumas completamente absurdas - culpas totais na descolonização (coisa aliás desmentida por pessoas como D. Duarte de Bragança, que afirmou que Soares merecia ir para o Panteão Nacional, ou Ribeiro e Castro, no caso particular de Moçambique), morte de Sá Carneiro, e até uma verdadeira e feliz - o fim da revolução - e outras que provavelmente só com o tempo poderão ser validadas ou descredibilizadas.

Este homem com imensos defeitos é provavelmente o principal responsável por Portugal ser um país livre e pertencente por direito próprio à União Europeia. Mesmo por todas as questões em que discordei dele, e nos últimos anos foram quase todas, não deixarei de lhe agradecer. Se discordo dele publicamente, a ele sobretudo se deve.

Resultado de imagem para mario soares funeral

 
Soares entrou justamente na História de Portugal com um relevantíssimo papel. Está para a 3ª República como Afonso Costa para a 1ª e Salazar para o Estado Novo. Com uma diferença essencial, para além de outras também importantes: ganhou esse papel com o voto dos portugueses e não impondo-se a eles. Eis o que diferencia o "Bochechas" dos outros. E isso é realmente fixe.
 
Que descanse em paz.