terça-feira, fevereiro 20, 2018

Uma semana de algum gozo


Dá ideia que a semana que passou serviu para gozar com os adversários do Benfica: de um lado o Porto a sofrer cinco golos sem resposta nas Antas, na sua maior derrota caseira europeia de sempre, da parte do Liverpool, depois de alguns prognósticos optimistas e até desdenhosos ("os ingleses vão sangrar"); do outro, a liderança do Sporting a fazer uma triste figura - como se fosse pouco habitual - e a chegar ao cúmulo de ameaçar jornalistas e de "proibir" os sportinguistas de se informar noutros órgãos de comunicação social que não os oficiais do clube, ou os seus comentadores de irem a programas de debate; o responsável pela propaganda sportinguista, o ex-jornalista Nuno Saraiva, indicou mesmo uma espécie de index verde, para indicar o que é que os adeptos do clube devem ou não ver. Pergunto-me se algum jornal, canal televisivo ou rádio dará no futuro emprego a Saraiva depois de toda esta figura triste e inquisitorial.
Para completar, o Sporting consegue uma vitória em Tondela que muito animou as hostes mas que só surgiu aos 99 minutos, quando o árbitro tinha dado quatro e descontado dois pelo meio (ou seja, o jogo acabaria sempre pelos 96 minutos), e para cúmulo, o marcador do golo, o central Coates, tirou a camisola nos festejos e não levou o correspondente amarelo, que o impediria de jogar na próxima semana. Ainda não percebi porque é que as crises de vitimização sportinguistas são tão levadas a sério.

O Benfica tem tido uma época algo amarga. Venda de jogadores essenciais, má preparação do plantel e aquisições duvidosas, um desastre nas competições internacionais, ataques da aliança Porto-Sporting, casos judiciais sobre Vieira, etc. No entanto, e apesar das lesões de jogadores importantes, a equipa de futebol atravessa o seu melhor período este ano. Tem conseguido bons resultados, alguns até com goleada, boas exibições, e alguns jogadores até apresentam uma consistência que ainda não lhes tínhamos visto este ano, casos de André Almeida e Rafa. O "Penta" é um sonho algo distante, mas não custa experimentar lá chegar. Ao menos esta semana de alguma boa disposição já ninguém nos tira.

domingo, fevereiro 18, 2018

Congressos tensos e congressos ignorados


Fouçando de novo em seara alheia, não posso deixar de considerar simplesmente miserável esta "espera" que algumas figuras do aparelho laranja fizeram a Rui Rio no congresso do PSD, com a palma a ser ganha por Luís Montenegro e o seu discurso transbordante de rancor. Ganhou as eleições há menos de um mês e desde então não cessaram de se atirar a ele. Desde o Observador e os 758 artigos sobre o "caciquismo" de Salvador Malheiro (acho que o jornal online esgotou a palavra; louvável devia ser a actuação de Miguel Relvas), incluindo colunistas, como João Marques de Almeida, que depois de algumas crónicas laudatórias confessou fazer parte da equipa de Santana Lopes, até às conspirações de deputados em funções e às exigências desse grandíssimo vulto que é Miguel Pinto Luz (que na sua página de facebook se intitula de "figura pública"). 
O único caso que conheço com vagas semelhanças é o de Ribeiro e Castro à frente do CDS, e mesmo assim ficou aquém. A atitude mais decente seria deixar Rio trabalhar e depois se veria. Até lá, o PSD não passa de um saco de gatos, em que quem estica mais as garras são os derrotados que se acham com direito natural a mandar mesmo contra a opinião das urnas. 

Não posso deixar de reparar na diferença abissal entre a cobertura dos grandes e dos pequenos partidos e que ficou à vista nestes dias. O PSD teve direito a um fim de semana inteiro de directos, alteração da programação da TV, debates dirigidos para o próprio recinto, etc. Compreende-se. É o normal e todos queriam saber quais as propostas e as caras que o novo líder da oposição tinha para mostrar. Mas na semana passada houve o congresso do MPT (Partido da Terra, para os mais distraídos), que já tem 25 anos, que tem representação no Parlamento Europeu e que mudava de liderança, e não houve uma notícia nos principais jornais, nem uma reportagem da televisão, por minúscula que fosse, como acontecia antigamente, nem nada de nada. Quem soubesse do evento e o googlasse encontraria uma notícia da TSF e outra do DN da Madeira, e de resto, silêncio sepulcral. Não são só os meios e os militantes que distinguem o sucesso dos partidos: a cobertura jornalística tem também imenso peso. E quando há grupos que são não apenas ignorados mas condenados à inexistência, o discurso de "são sempre os mesmos partidos" tem aí muito por onde questionar.

segunda-feira, fevereiro 12, 2018

X Congresso do MPT



Estreia em congressos partidários. Gratificante, tanto pelas pessoas com quem estive como pelas ideias que ouvi. É também grato ouvir os discursos e os planos futuros de quem assume novas responsabilidades à frente de um partido (que neste caso tem a dupla natureza de movimento cívico e partido em simultâneo), e que assume o projecto político e social de uma das maiores personalidades portuguesas das últimas seis décadas: Gonçalo Ribeiro Telles. Luís Vicente sucedeu a José Inácio Faria à frente do Partido da Terra, que regressa à sua denominação original.



Único senão: a ausência de qualquer órgão de comunicação social no congresso. Nem um jornal, nem uma câmara de tv. Mesmo com convidados de peso, como Paulo Morais, Mário Frota ou Maria Luís Albuquerque. Antigamente ainda se faziam pequenas coberturas nestas reuniões magnas de partidos não representados (ainda me lembro das reportagens televisivas dos congressos do PPM, por exemplo). Agora nem isso. Não esquecer que o MPT tem lugar no Parlamento Europeu, com José Inácio Faria. Basta googlarem para perceber o que digo. Se os maiores partidos continuam de pedra e cal nas votações, também a isto se deve.



     



segunda-feira, fevereiro 05, 2018

A Morte de Estaline não passa em Moscovo


Se alguém tinha dúvidas quanto ao carácter da "democracia musculada" da Rússia pode perder qualquer ilusão. É demasiado músculo para tão pouca democracia. Depois do principal candidato da oposição, Alexei Navalny, ser afastado da corrida por ter recebido ordem de prisão (por duvidosos desvios de fundos, uma coisa que por coincidência acontece sempre aos opositores de Vladimir Putin quando se tornam mais mediáticos), as autoridades russas proibiram a distribuição do filme "A Morte de Estaline", uma comédia sobre o desaparecimento do Pai dos Povos" e os dias atribulados que se lhe seguiram. Parece que o filme "promove o ódio" e  é "extremista e ofensivo".

Ainda só tive acesso ao trailer do filme, que ainda não chegou a Portugal. Pelo que se vê e lê, a obra, com realização do escocês de nome improvável Armando Ianucci e elenco onde constam Steve Buscemi, Michel Palin e Olga Kurylenko, é uma sátira descabelada e truculenta ao regime soviético e muito particularmente ao estalinismo e à luta pela sucessão, que não ficou muito a dever ao que se passava  na Rússia dos boiardos. Como é óbvio neste tipo de filmes, há grande ridicularização de personagens e de situações reais e exageros constantes. Por isso é que é uma sátira.

Não o entenderam políticos, cineastas, historiadores e demais autoridades culturais russas, que consideraram que o filme era insultuoso e conseguiram impedir a sua exibição. O único cinema que se atreveu a fazê-lo, em Moscovo, viu-se invadido pela polícia que pôs logo ali termo à sessão.

Sempre me intrigou a ausência de cinematografia sobre o período soviético e o estalinismo, em contraponto aos que existem sobre o nazismo e o Holocausto. De certa forma percebe-se: o material necessário, incluindo fontes de arquivo, e mesmo alguns cenários estão na Rússia. A ideia de Estaline como vencedor da "Grande Guerra Patriótica" ainda está muito presente, e não é de bom tom passar filmes que o critiquem explicitamente, e menos ainda que o ridicularizem. Mas isso também mostra o desapego à liberdade de expressão que parece não afectar a maioria dos russos. Imagine-se que filmes que ridicularizassem Hitler e o nazismo eram censurados na Alemanha, ou mesmo aquela cena do Untergang, satirizada vezes sem conta no Youtube, com legendas diferentes consoante o objectivo. Ou que o Capitão Falcão, comédia recente sobre um super-herói do Estado Novo, em que até vemos um Salazar em habilidades culinárias, era considerado "insultuoso" e por isso proibido de ir às telas. Pergunto-me o que se diria nestes países. Ou o que pensariam os admiradores locais de Putin e das "democracias musculadas" (ou "iliberais") se tais coisas acontecessem.


Por mim, tenciono ir ver A Morte de Estaline quando chegar às salas portuguesas. Pela curiosidade que graças às autoridades russas me despertou. E porque tem Michael Palin no elenco (como Molotov), que é razão mais que válida para comprar o bilhete.

quarta-feira, janeiro 31, 2018

Lula e o drama brasileiro


Não sei se Lula da Silva é culpado daquilo que o acusam. Não acompanhei devidamente o processo judicial, não sei se as provas são suficientes e fidedignas, ou se Lula obteve vantagens pessoais. A verdade é que já vamos na segunda instância e o tribunal de recurso até endureceu a condenação. Mas se Lula não cometeu mesmo os actos de que é acusado e não obteve vantagens pecuniárias para si mesmo, cometeu pelo menos o crime - ou o pecado - de omissão pela rede clientelar e de corrupção que o PT semeou no aparelho de estado e organismos a ele ligados.

Seja como for, a candidatura presidencial parece estar por um fio. As sondagens mantêm-no à frente da corrida. Os seus apoiantes clamam que é o único candidato "capaz de unir a esquerda". Daí minha estupefacção: não haverá mais nenhum candidato de esquerda com hipóteses ganhadoras? É só mesmo um político que está há quarenta anos no activo? Isto também diz muito da esquerda brasileira. Seria como se a direita portuguesa recorresse a Cavaco Silva para se "unir".

Entretanto, olha-se para o friso de candidatos que já se perfilam às presidenciais deste ano - além de Lula temos Geraldo Alckmin, Marina Silva, Ciro Gomes, Jair Bolsonaro e Manuela d´Ávila - e lembramo-nos da velha piada académica: há candidatos bons e originais; mas os que são bons (com grandes dúvidas), não são originais; e os originais, como a comunista Manuela d´Avila e o sinistro e inenarrável Bolsonaro, não são bons. Espero mesmo que Deus seja brasileiro, para acudir àquele imenso país.
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quarta-feira, janeiro 24, 2018

Bancadas e eleições


Tal como a Grande Enciclopédia do Ludopédio (o único programa de debate futebolístico que realmente interessa), também eu me lembrei do caso da pala de Alvalade a propósito da interrupção do Estoril-FCP, por causa de defeitos na estrutura da bancada. Já em tempos falei de mais este episódio pitoresco do futebol português, que reedito aqui: 

A cobertura datava da construção do estádios, nos anos 50, e um parecer técnico do LNEC (a mesma entidade que o Sporting queria que fizesse uma vistoria à cobertura da Luz), tendo detectado falhas estruturais, determinou a interdição daquela bancada e a remoção da pala. A secretaria de estado da Cultura, com Santana Lopes à frente, decidiu que o espaço teria de ficar suspenso até nova decisão. O sporting protestou e chamou o veterano Edgar Cardoso, um dos autores da obra, que passeando e saltando por cima da pala, afirmou que aquilo era seguríssimo e que não havia qualquer problema. Imediatamente se levantou a suspensão (em vésperas de um importante concerto rock programado para quele estádio), fizeram-se umas pequenas obras de melhoramento e não se pensou mais no caso, até à efectiva demolição do estádio, mais de dez anos depois. Só uma pessoa protestou contra o desfecho do caso: Maria José nogueira Pinto, que era Subsecretária de Estado da Cultura, e que, sentindo-se desautorizada e achando que tudo aquilo era uma insensatez, pediu a demissão.

A memória deste episódio é pertinente: é que se o jogo entre o Estoril e o Porto tivesse ocorrido uma semana antes, em plena campanha para a liderança do PSD entre Rio e o mesmo Santana Lopes, o episódio seria provavelmente recordado pelos apoiantes do primeiro e desvalorizado pelo segundo (que seria aliás presidente do Sporting três anos depois). Mas os dias não se cruzaram, impedindo a coincidência, e o episódio acabou por ser escassamente recordado. É pena, porque seria mais um pitoresco micro-caso a juntar futebol e política.

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segunda-feira, janeiro 22, 2018

Promessas ultrapassadas pelas confirmações


Estas recordações sobre os Cranberries levaram-me de novo aos anos noventa e à ascensão de novos grupos pop-rock. Sempre achei curiosos os casos das next big thing que surgem prontas a conquistar o Mundo e que subitamente são ultrapassadas e atropeladas por grupos por quem pouco se dava à partida. É o caso dos James, de quem já aqui escrevi, sobre quem paira uma engraçada "maldição", a de terem tido amiúde bandas a fazer as primeiras partes dos seus concertos e que depois se tornam maiores do que eles próprios (como os Radiohead, os Nirvana ou os Coldplay). Mas não são, longe disso, casos únicos.

Aí por 1992 ou 1993, em tempos de pré-Britpop, em que o Grunge era rei e senhor da cena pop-rock mundial, os britânicos andavam cabisbaixos, à procura de algum destaque num meio em que, terminado o shoegazing, e vulgarizado o madchester, pareciam condenados à decadência. Apareciam inúmeros grupos a tentar marcar a sua própria diferença. Uns eram aproveitáveis, outros nem tanto, e outros levavam os áugures do meio a rotundos enganos.

Aconteceu isso mesmo com os Kingmaker, um grupo prometedor, que supostamente iria conquistar os tops de vendas e marcar o som da pop britânica. Mas as coisas não correram pelo melhor, a popularidade que esperavam não chegou (como se pode ver pelo reduzido número de visualizações no videoclip mais abaixo) e o grupo acabou por se separar poucos anos depois.

Porque é que isto me veio à memória à boleia dos Cranberries? Porque, por alguns testemunhos que vi, os Kingmaker realizaram alguns concertos onde tinham, como banda suporte, um grupo londrino chamado Suede, que deram bem mais nas vistas que os próprios cabeças de cartaz. Como se sabe, os Suede, que começaram com um som glam-rock muito devedor de Bowie e dos anos setenta, tornaram-se num dos grupos fundadores e essenciais da Britpop e um dos mais amados no Reino Unido. Ou seja, eram eles próprios a next big thing do momento, com melhoresresultados.


Mas provaram um pouco do mesmo "remédio" atrás descrito: partiram para uma digressão nos Estados Unidos, levando uma pouco conhecida banda irlandesa para fazer as primeiras partes, uns certos Cranberries. Ao contrário do que esperavam, os ingleses passaram quase despercebidos no Novo Mundo, enquanto que os irlandeses e a voz de Dolores O´Riordan atraíram as atenções dos americanos, que começaram a fazer passar as suas músicas, como Linger, na MTV, e obtiveram logo um sucesso considerável que os catapultou para a fama. Os Suede foram olimpicamente ignorados e tiveram de se conformar em ser populares deste lado do Atlântico, sobretudo na terra de origem, onde durante bastante tempo continuaram a atrair as atenções sempre que lançavam um novo trabalho.

Quanto aos Kingmaker, desapareceram por completo. Provavelmente dedicaram-se a outras actividades que não a música. Deixaram apenas um rasto da sua existência na net, sobretudo no Youtube, para que possam ser recordados.



PS: nem sempre os Suede conseguiram ultrapassar os grupos cujos concertos abriam. partes. Na estreia dos REM em Portugal, em Lisboa, que tive a felicidade de ver, fizeram a primeira parte mas nem de perto chegaram ao seu nível. Mas sendo uma bela junção, reconheça-se que eram demasiado bons para serem um simples brinde.

sexta-feira, janeiro 19, 2018

Calou-se a voz dos Cranberries


O súbito desaparecimento de Dolores O´Riordan causou comoção por esse mundo fora. Não é para menos: era a voz e a alma dos Cranberries, um dos grupos rock mais populares das últimas décadas. Não era propriamente fã da banda irlandesa, mas quem passou a adolescência em meados dos anos noventa não pôde ficar indiferente a músicas como Zombie ou Ode to my Family, que se ouviam por toda a parte e que os tornaram estrelas globais. Para além de ser das canções mais populares dos anos noventa, Zombie teve ainda um importante papel social, como relembra o Diogo Noivo. No Need to Argue, o álbum dessas duas canções, tinha o icónico sofá na capa e vendeu cerca de 17 milhões de cópias. Curiosamente, quando o sofá deixou de aparecer na face dos álbuns, o sucesso começou a resvalar, levando mesmo à separação dos membros da banda durante alguns anos, até se reunirem novamente.



Os Cranberries vieram várias vezes a Portugal, entre festivais e concertos em nome próprio. Curiosamente, a primeira vez que actuaram em solo português seria, à partida, para fazer a primeira parte - juntamente com os Oasis - dos REM, num espectáculo que teria lugar em Alvalade. Mas o grupo de Athens, por problemas de saúde vários, teve de cancelar o concerto (só se estreariam anos mais tarde no Pavilhão Atlântico, numa actuação a que tive a sorte de assistir), pelo que o grupo irlandês entrou em cena no Coliseu dos Recreios, dando ao público um concerto memorável e vibrante, segundo os testemunhos. Seria o primeiro de vários, concluído com uma actuação no festival Marés Vivas, no cabedelo de Gaia, em 2011.
No ano passado chegou a estar anunciada nova vinda dos Cranberries a Portugal, à feira industrial anual de Cantanhede, o que me levou a pensar que o grupo estaria algo decadente (quando bandas consagradas começam a ir a Queimas das Fitas e festivais industriais é sinal disso mesmo). Acabariam por cancelar, dados os problemas de saúde de Dolores. sem imaginar que não teríamos nova oportunidade de os e de a ver.


terça-feira, janeiro 16, 2018

Como se não bastassem os fogos dos últimos meses


Recordando a tragédia de (Vila Nova da Rainha, concelho de) Tondela do último fim de semana, é estupidamente irónico como aquela terra é vítima de incêndios fora da época dos fogos (Outubro e Janeiro), sendo que o último se deu numa noite gélida e chuvosa. Já não bastava o braseiro de há três meses, que arrasou parte do economia do concelho e causou dois mortos, e agora isto. O que mostra como a negligência pode originar desastres nas alturas em que menos contamos com eles. Fossem quem fossem os culpados pelo estado do edifício, é terrível pensar que várias pessoas perderam a vida por estarem a conviver numa noite de inverno num torneio de sueca, na colectividade da terra, que deveria ser um lugar seguro e acolhedor.
Já agora, como vão os planos de protecção contra incêndios a ser postos em prática daqui a uns meses?

segunda-feira, janeiro 15, 2018

O PSD de Rio


Rui Rio ganhou a liderança do PSD, como se começou cedo a perceber, à medida que os números da votação iam saindo cá para fora. Facilmente se adivinhava que ganhando praticamente todos os distritos do norte e centro do país (faltou Coimbra e Lisboa, insuficiente para dar a volta), onde está a maioria da população e o grosso dos votantes do PSD, que a vitória já não escaparia a Rio.

Como disse no outro post, o antigo presidente da CM Porto está longe de ser um génio político, uma figura redentora ou um estadista de alta craveira. É rigoroso, firme, possivelmente bem intencionado, mas não será, salvo grande surpresa, o salvador por que os militantes do PSD tanto esperam. Dificilmente ganhará a António Costa nas próximas eleições, a não ser que algo de surpreendente se passe (e a verdade é que em 1984 ninguém imaginava Cavaco no poder pouco tempo depois, tal como ninguém imaginaria em 2004 ver brevemente Sócrates à frente do governo). Pode acontecer que o PS ganhe com maioria relativa e precise do PSD para viabilizar um governo, permitindo assim a perda da influência da extrema-esquerda, um dos objectivos de Rio. De qualquer forma, estranho a tentativa de colagem de Rio à esquerda: é verdade que em matéria de costumes é mais libertário, mas quando esteve à frente da câmara do Porto, distinguiu-se pelo rigor nas contas e pelo baixo despesismo e investimento público, por uma postura autoritária e por desdenhar da cultura, o que o tornou num dos alvos preferidos da esquerda (e se pensarmos que o BE portuense é em grande medida constituído por actores e sociólogos...).

Mas entre Rio e Santana a escolha era óbvia. Parece incrível como é que em 2018 ainda haja gente a seguir o "menino-guerreiro", mas a verdade é que ainda conseguiu uns incríveis 46% dos votos. Mesmo depois do seu curto e desastroso governo, da sua errância, de quase nunca cumprir um projecto até ao fim e de os deixar sempre um legado endividado, e de já ter perdido uma eleição com António Costa em 2009 (que devia ser uma mancha no currículo mais que suficiente para nem se apresentar), ainda há muito quem acredite nele. Será por amizade, por ingenuidade, por ódio a Rio? Todas essas razões são válidas, mas 46% é muito.

Seja como for, o PSD pode gozar agora de um período de maior sanidade, mas não terá certamente a vida fácil nem gozará de um estado de graça.
Quanto a Passos Coelho, resolveu, e bem, sair do parlamento. Deve fazer a correspondente travessia política no deserto. Veremos o que o futuro lhe reserva. 

Já agora, a razão para se prever que Rio seria o novo líder do PSD é que até já havia um hino que lhe era dedicado. Caramba, os autores destas causas tinham certamente dons premonitórios: é que já me lembro de ouvir isto desde as "ondas laranjas" de Cavaco Silva.