quarta-feira, maio 24, 2017

Tetra


O Benfica conquistou o seu primeiro tetracampeonato, enfim, depois de vários "tris". O 36º título não chegou com a maior das facilidades. Apesar de grandes reforços do plantel, sobretudo nas alas, deu a sensação de que havia sempre posições que não estavam devidamente preenchidas. A equipa nunca teve momentos de grande rasgo, limitou-se a fazer o necessário, e sofreu uma autêntica razia de lesões. Jogadores como Rafa, Jonas e Grimaldo estiveram meses a fio sem poder jogar, para não falar nos casos como o de Jardel que quase nem pisou os relvados. Ainda assim, esteve sempre um pouco à frente da concorrência, e nos momentos fundamentais, nunca escorregou. E quando chegou a primeira oportunidade de agarrar o título, não a desperdiçou, e despachou o Vitória de Guimarães com uma exibição portentosa e uma goleada categórica. Missão cumprida, quarto campeonato seguido, festa no Marquês e em todos os "marqueses" por esse país fora (isto é mesmo verdade: não faltavam cartazes noutros pontos de comemoração, como a rotunda da Boavista, com a inscrição "praça do Marquês de Pombal").
 
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O Benfica acabou a temporada com um empate a dois no Bessa, com uma equipa de suplentes, já a pensar na Taça. Fica com seis pontos a mais que o segundo classificado, melhor ataque e melhor defesa. E maior paciência, também. Durante toda a época, e até ao fim, choveram acusações, remoques, ataques, mistificações da parte dos adversários do Benfica. O Sporting do patético Bruno de Carvalho voltou a usar o falso argumento dos "vouchers" (coisa já avaliada e despachada pelas instâncias desportivas europeias), a meter-se em jogos que não lhe diziam respeito, e nem quando as evidências mostravam que a equipa de Jorge Jesus não tinha capacidade de discutir o título o seu nível melhorou (fica como exemplo maior a sua reeleição e o discurso de "vitória"). Do lado do FC Porto, um desvario total. Queixas em barda de supostos penaltys não marcados a seu favor (mesmo quando era claro que eram os jogadores portistas a atirar-se para o chão), acusações ao Benfica em especificar porquê, e uma ligeira acalmia numa altura em que a equipa de Nuno Espírito Santo começou a jogar alguma coisa e os árbitros a ser complacentes, antes de voltar o delírio e os seus órgãos de comunicação oficiais assumirem uma postura de trolls de redes sociais. Neste particular, o director de comunicação do FCP assumiu-se com um moço de fretes particularmente cáustico, no seu canal de TV aberto ao público, criando termos como "cartilha" (demonstrando que segue a sua própria) e "Liga Salazar". Este último argumento é particularmente estúpido, já que assume que se o Benfica ganha é graças a Salazar, mesmo que o homem já tenha morrido há quase 50 anos. O que desmente a lenda negra de o Benfica ter sido "o clube do Estado Novo". Chega a ser embaraçoso como é que um clube que durante anos a fio se serviu de esquemas ilegais à vista desarmada tenta sem qualquer base de sustentação acusar outro de esquemas semelhantes. Isso com o precioso auxílio dos comentadores na tv, além de outros como Miguel Sousa Tavares, Pedro Marques Lopes ou Paulo Baldia (que me surpreendeu pelo fanatismo), e uma propaganda maciça que tentava passar a ideia de que o Benfica era constantemente beneficiado. Dois exemplos: os jogos entre Benfica e Sporting, em que se acusou o SLB de ter ganho o primeiro jogo com penaltys contra perdoados, mas se esqueceu os penaltys que ficaram por marcar contra o clube verde no jogo da segunda volta. E a antepenúltima jornada, em que uma arbitragem inenarrável impediu a vitória do Marítimo sobre o FCP e ainda tivemos de ouvir os lamentos dos portistas. Fosse o contrário e o que não se diria do Benfica...
 
Enfim, dos fracos e dos perdedores não rezará a história do campeonato (e se o Benfica ganhou justamente o título sem jogar grande coisa, que dizer dos outros?). Mas isto ainda não acabou: no domingo o Benfica pode conquistar mais um título se levar de vencida o Vitória no Jamor. E o jogo não vai ser com certeza tão fácil como na jornada do campeonato. Mais uma taça na vitrina, é que se pede. Antes de merecidas férias para atacar para o ano o penta.
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quinta-feira, maio 18, 2017

13 de Maio de 2017


O dia 13 de Maio último, dia do centenário das Aparições de Fátima, vai ficar gravado na memória dos portugueses por muitos e bons anos. Afinal de contas, conjugaram-se os famosos "3 Fs", na sua melhor verão, e não na caricatura depreciativa com que normalmente são chamado à baila.

Mas essa conjugação só se tornou possível uns três dia antes. Se todos os momentos das comemorações de Fátima estavam previstos, e se não houvesse surpresas, tudo correria bem, já a possibilidade do Benfica conquistar o inédito tetra já neste Sábado, precisamente no 13 de Maio, só se colocou quando acabou o jogo em Vila do Conde, no Domingo anterior. E na quarta-feira, a meio da semana, Salvador Sobral qualificou-se para a final do Eurofestival da canção, com as apostas a darem-lhe boas hipóteses. Começou-se a prever que poderia ser um 13 de Maio especial, mesmo para além de Fátima.

Das celebrações pouco há a dizer, já que as palavras não descrevem suficientemente as emoções. As diversas manifestações de Fé, a chegada do Papa a Portugal, celebrada nos ecrãs espalhados no santuário como se fosse um golo marcado num estádio, a chegada ao recinto, o silêncio que se instalou por momentos quando Francisco se encontrava frente a frente com a imagem de Nossa Senhora de Fátima, e que se repetiria à noite na feérica e lindíssima Procissão das Velas. E no dia 13, volvidos exactamente cem anos sobre os primeiros acontecimentos naquele local, a canonização de Jacinta e Francisco (com a feliz coincidência, mas só mesmo isso, de terem apelidos iguais aos do actual Bispo de Leiria-Fátima, o anfitrião e meu antigo professor de Mundividência Cristã), a a Procissão do Adeus, com o Papa visivelmente comovido, antes do regresso a Roma. a chuva, que tinha parado na véspera, voltou a cair mal sua Santidade deixou solo português.

À tarde, o nervosismo com a recepção ao Vitória de Guimarães. Sem razões para isso. Exibição imperial do Benfica e o inédito tetracampeonato. Mas disso falarei à parte.

À noite, ainda com as comemorações do título, a notícia do triunfo de Salvador Sobral, a primeira vez que uma música de Portugal ganhou a Eurovisão. Cinquenta anos de fiascos e ténues esperanças vingados com a maior pontuação de sempre. Confesso que há já largos anos que não ligava ao evento. Mais: a primeira vez que vi Sobral a cantar Amar pelos Dois não gostei nem da música nem da interpretação, e achei o intérprete estranhíssimo, com aquele visual homeless-chic e aqueles gestos que davam ideia de graves problemas motores. Ou seja, estive longe de "sempre ter acreditado que ele ia ganhar". Com o tempo, vieram as revelações sobre os seus problemas de saúde, as suas preferências musicais, e a sua ainda incipiente carreira, e aos poucos conciliei-me. Na noite da Eurovisão vi a sua entrada, mas já não assisti em directo à notícia da sua vitória, mais embrenhado nas comemorações do Tetra (consegui ver a tempo o seu dueto, aliás muito justo, com a irmã Luísa, autora da música). Obviamente não pude deixar de aplaudir e agora até ouço a música com gosto, vejam lá.
Mas houve um momento incrível que juntou as vitórias do Tetra e dos Sobrais: quando no Marquês de Pombal o speaker de serviço interrompeu a algazarra para anunciar que "o grande benfiquista Salvador Sobral" tinha grande a Eurovisão. e depois dos aplausos, puseram Amar pelos Dois como música de fundo. E o Marquês, mais habituado a manifestações ruidosas, e que ainda há dois anos testemunhou (tal como eu, aliás) cenas de pancadaria e violência, calou-se para ouvir aquela suave melodia. Minutos inolvidáveis, esses de ouvir uma música tão delicada a pôr em silêncio milhares e milhares de adeptos eufóricos.
 
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PS: outra coincidência: é que a estátua do Marquês de Pombal foi inaugurada precisamente a um 13 de Maio, de 1934. Algum adepto não benfiquista que passasse pela imensa praça naquela noite poderia repetir o velho queixume dos republicanos sobre o regresso dos jesuítas: " Desce daí, ó Marquês, que eles já cá estão outra vez".

sábado, maio 13, 2017

Pelos Caminhos de Fátima


Estive a ver a chegada do Papa a Fátima e a procissão das velas. Mesmo o mais empedernidos dos descrentes deve ter sentido uma pontinha de comoção ao ver toda aquela alegria e devoção. Não estou em Fátima, com pena minha, mas não estou especialmente treinado para fazer longos percursos em bicicleta em pouco tempo, como me propuseram, e combinações de última hora acabaram por não surtir efeito. Por isso, assisto às cerimónias pela televisão.
 
Todos os anos sucedem-se as peregrinações a pé até Fátima. A esmagadora maioria dos peregrinos segue pela estrada, com todos os perigos que isso acarreta. Mas não têm necessariamente de o fazer.
Têm caminhos alternativos, por troços secundários e mais seguros, tal como acontece como os que vão para Santiago.
Os Caminhos de Fátima são um projecto do Centro Nacional de Cultura e uma ideia original de Helena Vaz da Silva. Pretendem levar os peregrinos em segurança desde o ponto de partida, seja ele qual for, até ao santuário de Fátima. Para já não há muitos albergues e pontos de descansos. Mas há indicações, muitas, que mostram a quem por eles segue a direcção do seu destino. As setas azuis, em fundo branco ou não, indicam o rumo até à Cova da Iria.

 
Nas últimas semanas, e com a aproximação do Centenário de Fátima, várias equipas de voluntários, entre os quais o escritor destas linhas, entretiveram-se a desenhar ou redesenhar as setas do caminho. Boa parte do traçado é dividido com o Caminho de Santiago, aproveitado para fins idênticos, indo cada uma na direcção inversa do outro. Assim, as setas azuis "esbarram" nas amarelas.

 
Os Caminhos de Fátima dificilmente alcançarão a importância cultural dos de Santiago. Há que recordar que os trajectos até à cidade do Apóstolo vêm desde tempos imemoriais, têm mais de mil anos, e durante séculos foram as únicas vias terrestres a servir esse importantíssimo ponto de peregrinação. Os Caminhos de Fátima nasceram na época do GPS, da net, das autoestradas e do transporte individual, e portanto nunca alcançarão a mesma notoriedade, nem são para já um "clássico" das peregrinações a pé. Mas cumprem o seu propósito, dando aos peregrinos uma segurança que não têm na estrada. Além disso, permitem-lhes conhecer melhor o país, observar mais atentamente a paisagem e descobrir pormenores singulares. No troço que coube à minha equipa, por exemplo, e que começava em Conímbriga, (a mais importante estação arqueológica romana de Portugal), passei por uma aldeia chamada Fonte Coberta que nem consta dos mapas, mas que em tempos acolheu o grão-duque da Toscana Cosme III de Médicis na sua ida para Santiago e o Marechal Soult na sua debandada da 3ª Invasão, por caminhos de floresta onde se praticava motocross, por vales de rios secos e perto de castelos no alto de penhascos aparentemente inacessíveis.
 
Fátima é um ponto de chegada, de fé e de devoção, mas pode ser também um caminho de esforço e de resiliência sem ser um tormento, e sobretudo sem ser um perigo latente que obrigue a caminhar na margem da estrada. Talvez os Caminhos não sejam ainda muito usados nem sejam ainda vistos como a alternativa aos mais conhecidos. Por isso mesmo, este Centenário pode significar não uma oportunidade menos aproveitada mas sim a alavanca para percursos mais seguros e interessantes e que dê  a quem os use uma nova perspectiva do país, até aí escondida pelas "ruas da estrada"e pelo trânsito incessante.

quinta-feira, maio 11, 2017

Diferenças e comparações entre os antigos e modernos movimentos políticos franceses


Outro dos factos curiosos nas presidenciais francesas é a percentagem de pessoas mais novas que votaram em Marine Le Pen, o que reduz a pó a ideia de que os "jovens" não votam na direita, ou não têm grande atracção pelos fascismo, etc. Não deixa de espantar que a geração que mais beneficiou do programa Erasmus pretenda agora em boa parte votar nas forças que o querem restringir ou suprimir. E que aqueles que passam o tempo a atacar a globalização o façam através do meio que é o símbolo maior dessa mesma globalização e a sua grande impulsionadora- a internet.

A linguagem que observamos nestes apaniguados de LePen e da maioria das forças populistas de direita que vão fazendo caminho por essa Europa fora é a de uma aparente raiva tudo quanto os rodeia, ou pelo menos áquilo que acham que podem ser os perigos latentes: os muçulmanos (ainda que em grande parte dos casos não conheçam nenhum), as "elites financeiras" e "globalistas", a maçonaria, os gays, o "sistema corrupto", e por vezes, numa revisitação ao velho anti-semitismo, a "finança judaica". Aliás, a linguagem que se observa é tantas vezes semelhante à que se ouvia nos anos trinta, se bem que na maior parte dos casos se substitua judeus por muçulmanos. À conspiração "judaico-maçónica" sucede a conspiração "islamo-globalista", ou derivações parecidas. Num continente há muitas décadas em paz e que tende a perder as suas memórias, com a passagem das gerações que viveram os horrores dos anos 30/40, a vigilância cai, desenterram-se os fantasmas e esquece-se o clima que se viva antes do maior conflito mundial de sempre. Não que a Europa esteja nas mesmas condições, longe disso. Mas alguns sentimentos, sobretudo os mais exacerbados, não andam muito longe.

Justamente, podemos traçar alguns paralelos entre movimentos que existiam  na França dos anos trinta e os de hoje e os seus dirigentes. A Frente Nacional, com outra roupagem, outra linguagem e outros objectivos, é, em muito, devedora do legitimismo que dominou boa parte da direita francesa. Parece longe da Action Française de Charles Maurras, que nos anos trinta era provavelmente a associação política com mais militantes (embora não fosse um partido, até porque era explicitamente antidemocrática), corroborada pela sua agressiva ala juvenil Camelots du Roi, e que inspira outros movimentos actuais, mas no fundo é a legítima herdeira dessa parte da direita - a liberal, ou orleanista, divide-se entre os Republicanos e o partido de François Bayrou, ao passo que a outra família", a bonapartista/gaullista, cabe nos Republicanos e uma pequena parte no movimento de Dupont-Aignan. Era precisamente essa direita legitimista a responsável pelo discurso anti-semita que péssimas implicações deixou depois com o regime de Vichy.
 
Depois dos motins de Fevereiro de 1934, onde por pouco a Action Française e outros movimentos de direita radicais, pré-fascistas ou aparentados, não cometeram um golpe de estado, as esquerdas aliaram-se para fortalecer a sua posição. A SFIO de Leon Bloum, antecessora do Partido Socialista, o partido radical e o partido comunista aliaram-se na Frente Popular, que ganhou as eleições de 1936 e que deixou algumas marcas nunca revertidas, como as férias pagas. O PCF de Thorez e a SFIO eram ferozes adversários pela hegemonia da esquerda, mas ordens expressas do Komintern levaram a que os comunistas aceitassem a aliança para travarem a direita mais radical. Por aí se ficam as semelhanças: como se sabe, o actual líder da esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon, recusou apelar ao voto em Macron para travar Marine LePen. Macron não precisou dos seus votos para vencer esmagadoramente, mas é bem provável que a alta abstenção e os votos nulos e brancos se tenham devido ao eleitorado de Mélenchon. Aliás, dá-se como certa a separação entre o PCF e o ex-candidato "insubmisso". Mas fica a grande diferença: o PCF obediente a Estaline cedeu para travar a extrema-direita; a frente de esquerda de Mélenchon não o soube fazer, e embora isso tenha tido resultados nulos, não deixa de ser uma marca vergonhosa no seu currículo político.
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terça-feira, maio 09, 2017

Nem Joana D´Arc valeu a LePen

 
As sondagens em França lá falharam de novo, como tem acontecido no último ano. Afinal de contas, Emmanuel Macron teve uma percentagem mais alta do que as previsões mais optimistas faziam prever, levando até alguns apaniguados de Marine Le Pen a pensar que era possível chegar ao Eliseu.
Olhando para alguns resultados locais das eleições em França, encontram-se números curiosos. Na Vendeia, por exemplo, esse bastião contra-revolucionário e da "reacção", Emmanuel Macron venceu com quase 70%, acima da média nacional, ainda que, pelos resultados da primeira volta, a histórica região continue preferencialmente à direita. Já em Colombey-les-Deux-Églises, terra que se confunde com Charles De Gaulle - que aqui está, aliás, sepultado - a Frente Nacional sai vencedora, talvez pelo trocadilho atribuído ao próprio general, onde numa hipotética islamização, a terra se passaria a chamar "Colombey-les-Deux-Mosquées". Também aqui, na primeira volta, a direita ficou claramente em maioria.
 
Mas não resisti a ver quais tinham sido os resultados em Domrémy-la-Pucelle. Macron ganhou, com um resultado próximo da média. Mas porquê esta curiosidade em saber a votação desta pequena localidade perdida nos confins dos Vosges? É que Domrémy-la-Pucelle é precisamente a terra de Joana D´Arc, a heroína e padroeira de França ("pucelle", ou donzela, é um sufixo em honra da própria), que Marine LePen e a Frente Nacional tanto evocam, ao ponto de se tentar colar a ex-candidata presidencial à donzela martirizada em Rouen. De pouco serviu a inspiração. E na hora de votar, os descendentes de Joana D´Arc acabaram por preferir a original a escolher a cópia falsificada.
 
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segunda-feira, maio 08, 2017

Cristofobia, essa palavra de raro uso

 
Hoje em dia encontramos fobias por toda a parte. Não me refiro a doenças clinicamente determinadas, mas às fobias sociais, sobretudo no que à sexualidade e religião dizem respeito. Entre outras, encontramos a homofobia (que se tende a exagerar nuns casos e a ignorar noutros), a islamofobia, e, já sem o sufixo mas usado pelas mesmas razões, o anti-semitismo, normalmente reduzido à sub-espécie anti-judaísmo ou mesmo anti-sionismo.
É precisamente no caso das religiões que fico mais perplexo quando vejo palavras usadas por tudo e por nada. Quando se fala da islamofobia na Europa por exemplo. Não que não a haja (e por vezes passa despercebida, como o atentado recente num centro islâmico de Zurique), mas tende não raramente a ser sobrevalorizada. Ou o anti-semitismo, outro fenómeno inegável. Mas é raro, raríssimo, encontrarmos referências à cristofobia.
Vimos, recentemente, um atentado na principal igreja copta do Egipto que vitimou inúmeros fiéis, cancelou as celebrações da Páscoa e motivou uma atenção especial do Papa na sua visita recente ao país. Vemos o número de cristãos no Médio-Oriente, ali presentes desde os tempos bíblicos, a diminuir constantemente, seja porque fogem para outras paragens, seja porque são simplesmente liquidados pelas maiorias. Boa parte dos seus mosteiros e igrejas são agora ruínas ou meras recordações. No Iraque, na Síria, no Egipto (há pouco mais de meio século, os cristãos de Alexandria, contando também com as comunidades italianas, gregas e britânicas, seriam mais de metade da população da cidade), noutras paragens do norte de África e do Sahel, mesmo no Líbano, a percentagem tem diminuido drasticamente.
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Apesar disso, é raríssimo encontrarmos a palavra cristofobia para dar nome a essa trágica mudança demográfica e cultural. Quando qualquer gesto menos simpático para com os muçulmanos na Europa, por exemplo, dá logo azo a acusações de islamofobia, não se compreende porque é que em situações bem mais graves não se fala de actos cristófobos. A palavra deve soar desconhecida a muitos, mas não é nenhuma invenção de última hora. Na realidade, ocasiões houve em que se a usou, mas para garantir que era "uma invenção" e um pretexto para a vitimização.
 
Não deixa de ser estranho que a religião que, juntando todas as suas igrejas, reúne mais fiéis no Mundo, não tenha grandes referências vocabulares para as perseguições de que é alvo. A explicação pode estar, para além da secularização da sociedade ocidental, nos medos e mentalidades pós-coloniais, ligadas a uma certa ideia de politicamente correcto, em que o cristianismo seria a religião do "ocupante" ocidental, pelo que a perseguição dos cristãos tratar-se-ia de uma justiça histórica e da expulsão dos antigos dominadores. Uma ideia peregrina, já que as populações que mais sofrem são minorias há muito estabelecidas no terreno, ou pelo menos evangelizadas sem ser à força (no  extremo-oriente, por exemplo). O que é certo é que as perseguições cristãs não só provocam menos eco como raramente se ouve a palavra que lhes devia estar associada.
 
Não há nenhuma razão para que o termo cristofobia não seja usado como merece. Quando há perseguições a cristãos e tentativas de eliminar a sua cultura é disso mesmo que se trata. A cristofobia existe, é constante e reiterada e infelizmente não tende a desaparecer. O pior mesmo é ser ignorada e escondida. Se não ajudamos os que são perseguidos, ao menos não escondamos que o são nem neguemos as palavras certas para o denunciar.
 
(Também publicado no Delito de Opinião)

terça-feira, abril 25, 2017

O regime vigente de França continua a depender dos partidos.


É verdade que Vª República francesa sofreu o maior abanão desde a sua criação, em 1958. Um candidato gaullista ficar de fora da segunda volta é absolutamente inédito, tirando os anos Giscard D´Estaing, entre 1974 e 1981. Um candidato socialista obter menos e 7% seria impensável até há poucos anos, e note-se que o candidato dos socialistas ganhou as últimas presidenciais e ainda está no Eliseu. Para os socialistas, fica a pequena consolação de ver um seu ex-militante e ministro ganhar a 1ª volta e muito provavelmente a segunda. Ainda assim, Benôit Hamon colhe um resultado humilhante e fica muito abaixo, mais de dez pontos, de Jean-Luc Mélenchon, representante da esquerda radical, e ligeiramente à frente do conservador Dupont-Aignant, outsider da corrida. Como se o PS francês tivesse recuado quase 50 anos, já que só nos anos sessenta é que vemos pela última vez o partido comunista (principal frça apoiante de Mélenchon) a obter mais votos que os socialistas.

Para os gaullistas (prefiro chamar-lhes assim porque o agora Les Republicains passa o tempo a mudar de nome), é um resultado desolador, para quem há poucos meses era dado como vencedor antecipado, mas esperado, dada a queda de Fillon, a partir de Fevereiro, depois de sabidos os esquemas em que estava envolvido. O candidato ficou em terceiro lugar, relativamente próximo de LePen mas apenas umas décimas à frente de Mélenchon.

Para a candidata da Frente Nacional é um resultado histórico, mas um pouco aquém do que se chegou a prever (perto de 30% e a vitória na primeira volta). Fica longe de poder disputar a 2ª volta até ao último momento. Ainda assim, fortaleceu-se em zonas onde tem obtido votações muito altas, como o sudeste (Provença e Côte d´Azur) e o noroeste industrial. Em compensação , em Paris obteve uma votação fraquíssima: apenas 5%; metade, por exemplo, da votação de Hamon.
E para Emmanuel Macron é a quase chegada ao topo de um político que, ao contrário da maior parte dos representantes da classe, não tem uma longa carreira atrás de si. Com menos de 40 anos, será provavelmente os mais jovens líderes executivos no activo, no que apenas se pode comparar a Matteo Renzi, que já nem sequer está em funções. E olhando para os antecessores, reparamos que apenas Giscard chegou ao Eliseu com menos de 50 anos (tinha 48 em 1974). Sarkozy e Hollande, na casa dos 50 quando ganharam os seus mandatos, também eram considerados relativamente novos.

Se Macron for, como tudo indica, eleito no dia 7 de Maio, será um presidente em partido. Mesmo que LePen ganhasse, a sua Frente Nacional teria escassíssima representação nas câmaras legislativas. E em Junho há legislativas, que continuam a decorrer sob o método de círculos uninominais. É pouco provável que o movimento En Marche de Macron concorra, com um tal método que exige tantos candidatos. E a Frente Nacional, mesmo que obtenha muitos votos, tem a crónica dificuldade de eleger deputados. Assim, veremos as máquinas partidárias em movimento e os tais partidos "tradicionais em crise" ocupar a maioria dos lugares parlamentares, embora as presidenciais possam influenciar as escolhas (dando mais votos ao movimento de Mélenchon, por exemplo). E tudo isso influenciará o novo executivo e obrigará Macron a procurar apoios em várias bancadas da Assembleia Nacional. As presidenciais são apenas o começo: o futuro da Vª República francesa dependerá, e muito, das legislativas que se seguem.

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domingo, abril 23, 2017

Tempo pascal


Não desejei uma Santa Páscoa aos caros leitores. Mas como ainda estamos em período pascal, mais precisamente na pascoela, acho que ainda vou a tempo.

Deixo-vos com esta imagem de renascimento, que não sendo de ressurreição, bem pode ilustrar o começo (ou recomeço) de algo novo.

sexta-feira, abril 07, 2017

O pós-clássico e o que sobra do campeonato


O clássico que, como sempre nestas ocasiões, ia ser " jogo do ano" e ia "determinar o próximo campeão nacional" saldou-se, como tantas outras vezes acontece, por um empate, apesar de intenso e interessante. E um empate a saber a pouco, depois da quantidade de oportunidades perdidas às mãos de Casillas, que tal como no ano passado, voltou a fazer uma grande exibição na Luz. À partida, e ao ver as ausências de Fejsa e o sempre adiado regresso de Grimaldo, temi o pior, talvez influenciado pelos cânticos de vitória antecipada entoados pelos portistas, para quem a vitória nem se punha. No fim, a desilusão com o mísero ponto de avanço, contrastando com a felicidade dos adeptos e atletas do Porto, em claro esquecimento da confiança inicial. Talvez Nuno Espírito Santo tenha jogado de forma a pensar que a perda de pontos do Benfica em Alvalade são favas contadas, como aliás reafirmou, mas é um cálculo perigoso. Recorde-se que depois do Sporting-Benfica do ano passado, nenhuma destas equipas perdeu mais qualquer ponto. Mas pior do que a desilusão é ver um autêntico mercenário como aquele lateral uruguaio que, não contente de comemorar o golo a festejar simiescamente contra o clube onde jogou durante 8 anos, ainda se fartou de entrar por várias vezes nas canelas dos adversários, alguns dos quais seus antigos colegas, o suficiente para uns 4 amarelos. Um espectáculo deprimente, mas depois não se venham queixar os adeptos portistas de que falta mística no seu plantel.

Entretanto, houve o jogo da Taça. Pareceu-me que havia demasiada confiança na passagem, a avaliar pela convocatória e pela equipa principal, como demasiadas mexidas e muitos jogadores sem ritmo. Com um Estoril sem nada a perder, a coisa ia-se complicando com um perigoso empate a 3. Salvou-se a passagem à final do Jamor, (a 36!), para reencontrar o Vitória de Guimarães, o golo de Zivkovic, a exibição de Carrillo e o regresso de Grimaldo.

Tirando a final da Taça, o Benfica em apenas os jogos do campeonato, e nenhum deles se afigura fácil. Além disso, tem de contar com a aliança entre Porto e Sporting, que já revelou os seus traços esta semana, com os sportinguistas a intervir num jogo onde não foram tidos nem achados para pedir um castigo para Jonas e Samaris, por supostas "agressões". O pedido em si já é patético, sobretudo vindo de um clube que viu Slimani ser castigado na época seguinte por um autêntica agressão num jogo com o Benfica. E é ainda mais aviltante por se tratarem de dois casos em que não houve qualquer agressão. Mas a "mentira mil vezes contada" já está a fazer o seu caminho, e temos agora uma data de lunáticos a afirmar que sim senhor, houve agressões dos dois. A haver alguma expulsão seria a do mercenário uruguaio, mas curiosamente isso passou despercebido. Já se sabe, o Benfica controla a comunicação social.

É uma velha sina: o Benfica tem de jogar o dobro para ser campeão, uma vez que tem como principais adversários dois clubes que acima de tudo, não o querem ver ganhar, mais do que ao outro que sobra. Mas se conquistar o inédito tetra, para não falar da Taça, será ainda mais saboroso. Não menos do que a conquista do tri do ano passado, contra um Sporting que apostou todas as fichas e em que o Benfica era dado como derrotado à partida. Veremos.

terça-feira, abril 04, 2017

No delito de Opinião



A partir desta semana estarei também no Delito de Opinião. O primeiro texto é precisamente o anterior que também publiquei aqui, com o título ligeiramente alterado. Mas descansem os que cá vêm porque isso não implica o fecho de A Ágora.