segunda-feira, janeiro 21, 2019

Os 100 anos da Monarquia do Norte



Passaram dois dias desde que, há cem anos, era pela última vez hasteada a bandeira de Portugal pré-1910 no Porto, pela Junta Provisória do Reino, chefiada por Paiva Couceiro, naquilo que ficou conhecido como a "Monarquia do Norte". Foram mais de 3 semanas em que o Norte do país, até Aveiro e à Guarda, e com excepção de Chaves, voltou a usar a bandeira azul e branca como pendão nacional e a aclamar o Rei D. Manuel como seu legítimo chefe de estado. Parece pouco, mas teve a aclamação entusiástica de multidões e raramente houve confrontos para que a coroa real voltasse aos mastos das bandeiras. Quando pensamos que o movimento de 31 de Janeiro de 1891, que durou algumas horas e teve muito menos sucesso, é tantas vezes recordado e exaltado, lembremos que a Monarquia do Norte, seguida da tomada efémera de Monsanto, em Lisboa, teve bem mais êxito e raramente é referenciada. Eu sei que vivemos numa república e que cada regime homenageia os seus próprios sucessos. É compreensível. Mas é por isso mesmo que a Monarquia do Norte, os seus bravos autores e o clamor que levantaram, numa época de caos e em que chefes de estado e de governo eram mortos a tiro merecem, ser recordados e respeitados.



sexta-feira, janeiro 18, 2019

Momentos históricos


À entrada da reunião da Comissão Política do PSD, Rui Rio e Luís Filipe Menezes abraçaram-se e trocaram palavras amáveis. Depois disto, como não acreditar na paz entre israelitas e palestinianos e na reunificação pacífica das duas Coreias?

quinta-feira, janeiro 17, 2019

15 anos


Se acham que este blogue tem andado demasiado claro, não se admirem: está em plena idade do armário. Um adolescente confuso e irregular.

Sim. A Ágora completa hoje 15 anos. Para blogue, é mais terceira idade do que adolescência. Seja como for, e esteja na faixa etária que quiserem, tem boas desculpas para estas paragens prolongadas. Não se admirem com elas. Mas volta sempre.

E 15 anos é sempre uma idade bonita para uma coisa destas. Olhem que não há muitas da mesma idade.

segunda-feira, janeiro 14, 2019

O equívoco Mário Machado


A famigerada entrevista de Mário Machado por Manuel Luís Goucha (isto dito assim seria digno de um jornal satírico), além de levantar celeuma pela qualidade do entrevistado, dividiu um pouco as hostes da micropolítica. Parece que pelo facto de alguma esquerda bramir contra a entrevista, alguma direita pespega com exemplos aparentemente equivalentes que tiveram honras de entrevistados ou até de colunistas, como Camilo Mortágua, Isabel do Carmo ou Otelo Saraiva de Carvalho. Nuno Melo, cabeça de lista pelo CDS às europeias, por exemplo, é um dos que cai nessa armadilha, mais digna de conversas de rede social. É que tirando talvez Otelo, pela sua ligação às tenebrosas FP-25, é difícil equiparar Machado a qualquer um dos outros, e muito menos a Mariana Mortágua, que surge à baila. O equivalente directo seriam as redes bombistas dos anos setenta, também com crimes nas mãos, como o da morte do Padre Max (já depois do 25 de Novembro), cujos autores nunca foram punidos nem sequer condenados. Um dos prováveis autores morais, aliás, teve um elogio póstumo do mesmo Nuno Melo, o que talvez ajude a explicar  o esquecimento.

A ver se nos entendemos: Mário Machado não é um político, nem representante de um sector político, tirando uma dúzia de neonazis. É um delinquente e um psicopata, preso por associação a grupos de criminosos e assassinos, posse de arma, ameaças, etc. Ultimamente tem arquitectado planos para dirigir a Juve Leo, depois da bela operação  criminosa que as cúpulas da claque sportinguista protagonizaram, e de uma facção de motards, Los Bandidos, não  exactamente conhecidos  por actos de beneficência. Talvez a indignação de alguma esquerda por lhe darem a palavra, desde que não lance mensagens de ódio, seja contraproducente e oportunista. Mas a defesa, ou pelo menos a ausência de crítica de alguma direita, fazendo equiparações abusivas, dá a impressão de que tolera Machado, ou que não se incomoda grandemente com ele, passando a ideia de que ele é o radical do "seu lado". Dar importância política a quem tem somente importância criminal, eis o profundo erro dos que recordam eventuais equivalências do outro espectro.

Mas há ainda outra aspecto esta história toda que me deixa espantado: é a pergunta "acha que faz falta um novo Salazar", e sobretudo que Mário Machado ache que sim, É que com o currículo de desordeiro que tem, o mais provável é que no tempo de Salazar ele fosse posto na masmorra ainda mais anos.
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domingo, janeiro 13, 2019

O momento do Benfica


Bem sei que tenho andado ausente neste início de 2019, mas tinha mesmo de voltar a escrever aqui sobre um assunto grave, e a que já devo uns dias: o actual momento do Benfica. Na verdade estou para falar disso há semanas, mas como os primeiros dias trouxeram a demissão de Rui Vitória, achei por bem esperar mais um pouco.

É verdade que já defendi vigorosamente Rui Vitória. Sempre o achei simpático, até porque raramente caía na arrogância e no desrespeito alheio em que o seu meio é fértil, agarrou a equipa num momento complicado, o pós-Jorge Jesus, com a saída de vários jogadores e o reforço de Sporting e Porto, levando o Benfica a uma excelente época, seguida de outra em que conquistou a "dobradinha", e lançou inúmeros novos valores "fabricados" no Seixal, a grande mácula de Jesus.

Mas a qualidade de jogo, progressivamente, decaiu, até à tortura que era ver o Benfica desta época, já sem a desculpa da falta de investimentos; no ano passado essa desculpa ainda passava, mas não apaga a hedionda temporada europeia, com zero pontos e 100% de derrotas no total dos jogos, ainda para mais com adversários como CSKA de Moscovo e Basileia, não exactamente tubarões.

Depois dos desaires no campeonato e na certeza de que o Benfica não iria aos quartos da Liga dos Campeões, após mais alguns jogos pífios, e com o descontentamento dos adeptos em crescendo, Vieira ainda despediu Vitória, mas depois "deu-lhe uma luz" e conservou-o. Os jogos seguintes, entre goleadas animadoras (Feirense, Braga) e triunfos pela rama, mantiveram-no no cargo, mas a derrota com o Portimonense deu cabo do periclitante situação do treinador. Já não havia volta a dar.

Percebeu-se também que a questão financeira (isto é, a indemnização a pagar) estaria acautelada pelo interesse de um clube árabe, que o Vitória não recusou. Resolvida a saída, houve que tratar da continuidade. Bruno Lage, o treinador da equipa B, a fazer uma boa época, era já cogitado pelos adeptos. Aliás, já quando Rui Vitória estivera "despedido" por horas, tinha-se falado nele, com uma equipa técnica onde também constavam Luisão e Júlio César, que tinham dada por finda a carreira como jogadores. Ao que parece, Vieira não estava lá muito convencido, porque andou (embora agora o negue, com alguma cara de pau) à procura de outros treinadores, como José Mourinho, Leonardo Jardim ou Jorge Jesus. Deste trio só Jardim valeria a pena. Mourinho está insuportável, precisa de parar e de reactualizar para voltar a ser o grande técnico que era, e quanto a Jesus, depois da sua saída, seria um golpe baixo ele voltar em triunfo ao clube. Acresce que também ele já teve melhores dias. Como nenhum deles, ou outro, que se saiba, quis ou pôde vir, ficou Lage. Provavelmente seria a melhor escolha possível dadas as circunstâncias.

Quanto ao plantel, pode-se dizer que no início da temporada era o mais completo do campeonato e que dava todas as garantias, até pela sua extensão. Agora, sabemos, é grande demais, tem alguns jogadores sobrevalorizados, e mais do que reforços, precisa de um emagrecimento. Samaras, que de há uns tempos para cá se limita a distribuir faltas, está em fim de contrat, e qualquer venda em janeiro, fosse por que valor fosse, seria sempre uma compensação e pouparia no seu salário. A situação de Salvio está acautelada, mas por causa das graves lesões ao longo da carreira, o argentino não é o mesmo jogador de há uns anos, e provavelmente a renovação er para ganhar alguma compensação no futur e não ver um jogador que custou bastante e é "da casa" a sair a custo zero. Já Facundo Ferreira, que veio a peso de ouro, pouco ou nada tem mostrado, e deveria no mínimo ser emprestado; Castillo mostrou ainda menos, mas tem menos minutos jogados. Preferia ficar com este e emprestar o argentino e o seu compatriota Lema, que não se sabe porquê não é convocado e quer mesmo sair. Seferovic, o suíço esforçad mas tosco, tem-se mostrado uma agradável surpresa, e obviamente tem de ficar. Pena que o jovem sérvio Jovic vá definitivamente permanecer em Frankfurt...Corchia, lateral direito que veio emprestado para disputar o lugar (e bem preciso era) com André Almeida, parece padecer de algum problema físico, mas agora é tarde para saír. E Varela, que passou de titular a espectador de bancada, também merecia alguns minutos fora. Deste modo, emagrecia-se a equipa e lançava-se aos poucos novos valores como Ferro, Kalaika, Florentino. Tem a palavra o novo técnico, assim lhe deem poderes para tal, e que consiga ao menos uma taça, já que o campeonato parece difícil. 

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segunda-feira, dezembro 31, 2018

Um dia para os refugiados


Todos os números demonstram que de ano para ano chegam menos refugiados à Europa. De 2015 em diante, os números são claramente mais baixos. E no entanto ainda são pretexto para discursos inflamados de ódio e publicações em páginas manhosas de autores não identificados nas redes sociais (ou de oportunismos descarados pela barricada adversária, aquela que escreve "refugiados bem vindos, turistas vão-se embora").  

Este ano o Prémio Nobel da Paz coube, e muito justamente, a Denis Mukwege, um médico congolês que ao longo dos anos tem tratado milhares de mulheres violadas nas terríveis e quase ignoradas guerras que assolam a região dos Grandes Lagos de África; e Nadia Murad, uma rapariga iraquiana yazidi que se viu escravizada e vítimas das maiores sevícias pelos membros da seita conhecida como "Estado Islâmico", depois de ver a sua família massacrada pelos mesmos, e que conseguiu fugir do seu cativeiro para a Alemanha. Um médico tratando de mulheres refugiadas no seu próprio país (ou dos vizinhos mais pequenos) e uma refugiada vítima de uma das maiores pragas dos últimos anos. A distinção que lhes coube relembra como os refugiados nem sempre são "invasores" nem migrantes económicos, mas sim, na maior parte dos casos -  daí o estatuto que detêm - pessoas que fogem da guerra e da morte quase certa, sempre em condições dramáticas e difíceis de suportar para a maioria dos que vivem na Europa ocidental. Por vezes ficam e até se superam. Eles ou os descendentes. 
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No mesmo dia do anúncio dos prémios, a 6 de Outubro, decorriam as cerimónias fúnebres de Charles Aznavour, na catedral arménia em Paris, com honras de estado na presença das mais altas figuras de França e da Arménia. Aznavour era uma das grandes figuras da música francesa, um resistente e uma voz que parecia eterna, e também uma das grandes figuras da francofonia. Mas era igualmente filho de refugiados, que como milhares de outros arménios, se refugiaram em França fugidos do genocídio do povo arménio perpetrado pelos turcos durante e depois da I Guerra, designação ainda hoje negada no país. O cantor apoiava a diáspora dos arménios e as suas causas e entrou mesmo em filmes que recordavam a desdita de que foram alvo (em Ararat, por exemplo). 
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Assim, no mesmo dia em que o Nobel da Paz era atribuído a refugiados e seus protectores, assistiu-se à despedida de um filho de refugiados que se tornou num dos mais queridos artistas do país que acolheu os seus pais. Uma coincidência feliz e simbólica, que podia e devia ter sido mais realçada.
Um bom ano de 2019 para todos

sábado, dezembro 29, 2018

Nomes tradicionais


Ele há coisas esquisitíssimas: então não é que os nomes próprios mais atribuídos em 2018 foram João e Maria? As pessoas lembram-se de cada uma…

Mas felizmente ainda há pessoas normais. Segundo as últimas notícias, a filha recém-nascida da actriz Rita Pereira chama-se Lonô, nome de uma divindade havaiana. Haja quem preserve as boas e velhas tradições portuguesas.

quinta-feira, dezembro 13, 2018

E uma greve de chico-espertos?


Este ano a época natalícia confunde-se com a época grevista. Há dias, um noticiário começou falar das greves em curso e só aos vinte minutos é que mudou de assunto. Havia-as de enfermeiros, estivadores, guardas prisionais, oficiais de justiça, bombeiros, funcionários da RTP, transportes públicos (como não podia deixar de ser), etc, etc, etc. Para além desta vaga grevista toda ao mesmo tempo - depois da aprovação do Orçamento, note-se -  reparei que a maior parte era às sextas e segundas-feiras, e nalguns casos em dias de ponte. Caros grevistas, bem sei que esse é um direito que lhes assiste, mesmo que que por vezes abusem dele. Mas logo nesses dias? Isso já ultrapassa largamente a falta de vergonha. Para quando uma greve ao chico-espertismo?

sexta-feira, novembro 30, 2018

Um desporto francês


Muita gente fica admirada com a "violência" das manifestações dos "Coletes Amarelos" em França, como se fosse um fenómeno raro por aqueles lados. O caso é sério, mas não é exactamente o Maio de 68 e menos ainda a Revolução Francesa. Manifestar-se com certa agressividade é uma velha tradição no hexágono: desde a Jacquerie da Idade Média, continuando com a Fronda, a Comuna, e claro, as referidas Revolução Francesa, que realmente mudou o país, e o Maio de 68, e muitíssimas outras pelo meio, é quase um desporto nacional, ao lado do ciclismo e do futebol.
Aí em meados da década passada assisti a uma manifestação bem no centro de Paris., perto da Ópera Garnier Eram bombeiros, com umas exigências quaisquer. Vinham de uniforme, capacete, e em alguns casos de machado em punho. A impedir a sua marcha, barreiras policiais e camiões de água. Quando se lançaram os jactos de água actuaram e conseguiram travá-los por uns momentos. Mas logo os bombeiros voltaram à carga e aí a polícia não esteve com meias medidas e usou o gás lacrimogêneo. Eu andava a fotografar os acontecimentos e apanhei em pleno com aquilo. Garanto-lhes que a experiência não é nada aconselhável. Refugiado no átrio de um edifício vizinho, a lavar a cara num bebedouro que julguei na altura oportuno (pior a emenda que o soneto), junto a uns japoneses atemorizados, ouvia ao lado um veterano com ligeiro ar tardo-anarquista, desdenhoso: "isto não é nada, jeunne homme. Eu estive no Maio de 68, e aí é que era".

Os jornais do dia seguinte deram umas breves notícias ao acontecimento. Era mais um entre tantos outros semelhantes.


quarta-feira, novembro 21, 2018

O inclusivo



Pedro Filipe Soares, o infeliz líder parlamentar do Bloco, escreveu ontem no Público um artigo a louvar a "linguagem inclusiva", sendo exemplo disso a expressão que ele usou na convenção do seu partido: "camaradas e camarados". A esse tipo de linguagem, para "mudar mentalidades", já George Orwell lhe deu um nome no "1984": chamou-lhe novilíngua. Seja como for, não deixa de ser estranho vermos alguém afirmar-se "inclusivo" dias depois de afirmar que "não fala da direita porque esta não conta para o futuro do país". E Pedro Soares, conta para o quê, para além da invenção de novos termos?

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