terça-feira, março 21, 2017

Tudo na mesma menos as promessas da cantera.

 
Sim, o empate do Porto em casa com o Setúbal deu para rir uns minutos, mas depois passou. A azia da véspera ainda se fazia sentir, tanto pela exibição com pelo resultado. Só mudou mesmo a noção de que se calhar a confiança portista esbarra na pressão, tanto na que sofrem como na que exercem (teve de vir a queixa do costume emitida por um qualquer pasquim online a reclamar não sei quantos penaltys que teriam ficado por marcar contra o Porto, como se os mergulhos contassem como falta).
 
De resto, nada muda. O Benfica mantém-se líder com mais um ponto, o FCP anseia por lá chegar, e ambos medirão forças no jogo na Luz, daqui a quase duas semanas. É verdade que a equipa joga pouco e que há jogadores em claro sub-rendimento, para não falar das lesões (será normal não conseguir juntar a equipa ideal um único jogo este ano?). Mas não sei se a falta de traquejo dos jogadores portistas, como se observou nas competições europeias, não se fará sentir. O jogo pode decidi rmuito mas também deixar tudo na mesma, se houver empate. E a sorte do campeonato ficará submetida a eventuais tropeções no futuro - e recordemos que o Benfica ainda tem de ir a alvalade.
 
A única coisa realmente positiva destes jogos é que continuam a despontar jovens promessas benfiquistas. Bruno Varela, Fábio Cardoso e sobretudo João Carvalho, que marcou um portentoso golo ao Porto, lá estiveram a confirmar. Se este empate nos valer o campeonato, é outra mais-valia vinda do Seixal.

terça-feira, março 14, 2017

O descaramento do pequeno sultão


O sr. Erdogan, que tenta a difícil combinação de sultão com Ataturk, mandou prender recentemente milhares de militares, professores, magistrados e outros cargos supostamente mancomunados com o ex-aliado e actual pior inimigo Gullen, está com ideias de restaurar a pena de morte, persegue os curdos a ponto de poupar o DAESH e procura reforçar ainda mais os seus poderes através de um referendo próximo. Munido deste historial democrático, e para garantir mais votos, encarregou os seus ministros de fazerem uma digressão de propaganda pela Europa para participarem em comícios com as numerosas comunidades turcas que vivem na Alemanha e na Holanda. Como se sabe, os enviados governamentais foram impedidos pelas autoridades locais de fazerem campanhas em países que não o seu próprio, o que levou a veementes protestos por parte da Turquia e a que o próprio presidente apelidasse os holandeses de "racistas", "nazis", "covardes", etc, ao mesmo tempo que exigia pedidos de desculpa e que pedia sanções contra a Holanda. Entretanto, manifestantes turcos protestaram nas ruas de Amsterdão e Roterdão, antes de serem escorraçados pela polícia, o que serviu para novas ameaças de Erdogan.

Um absurdo próprio da época em que vivemos, bem ilustrativo dos já tão famosos "factos alternativos": um presidente prepotente e autoritário, com historial duvidoso no que ao respeito pelas liberdades fundamentais diz respeito, a insultar e ameaçar um país com uma democracia sólida e que se limitou a fazer cumprir as suas regras de forma exemplar (sem precisar de populistas como o sr. Wilders). Para mais, sabe-se que na Turquia não são permitidos comícios políticos feitos por emissários estrangeiros, e que os partidos curdos têm passado por inúmeras dificuldades sob a bota de Erdogan e dos seus sucessivos governos. De resto, um regime que permitiu deliberadamente que o DAESH entrasse nas suas próprias fronteiras a chamar "terroristas" à Alemanha e à Holanda, ou que chama indiscriminadamente "nazis" quanto perpetrou o primeiro genocídio do séc. XX sem que o tenha até agora reconhecido é o cúmulo dos cúmulos do descaramento. Definitivamente, Erdogan julga-se um novo sultão otomano, até na forma como ameaça a Europa ou se permite fazer propaganda agressiva nas ruas  de outros países. Esperemos que não haja Lepantos, cercos a capitais e outras coisas que julgávamos próprias de séculos passados. E os sultões de outrora eram certamente mais diplomáticos do que esta cópia barata.

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domingo, março 12, 2017

Em defesa do fato de três peças


 
Com boa vontade, pode-se dizer que o Inverno está perto do fim, o que  permitiu que nos últimos tempos um certo tipo de roupa, que se julgava ultrapassado e fora de uso, fizesse o seu reaparecimento, demonstrando uma vez mais que nos tempos que correm, as modas e o vestuário mais distintos nunca passam completamente (excepto as calças de boca de sino, graças a Deus). Sim, estou a falar do fato de três peças, esse ícone do aprumo.

Ultimamente não faltam políticos, jornalistas (José Rodrigues dos Santos, entre uma piscadela de olho e uma teoria política inventada na hora, não tira o seu fato tweed com colete), funcionários públicos, escritores, homens do desporto, etc, a retirar o seu casaco/calça/colete do armário onde esteve injustamente quase desterrado. António Costa já apareceu um par de vezes assim vestido. Rui Vitória, seja a deitar olhares de preocupação para dentro do relvado seja numa "flash-interview", já não passa sem o seu fato de três peças cinzento com gravata vermelha. E poderia citar mais um par de exemplos se a minha memória visual mo permitisse.

A verdade é que o fato de três peças já não é o "uniforme" usado por políticos conformistas dos anos 70 e 80, nem a decoração pirosa usada por alguns visionários datados na segunda meta de 90, em que os coletes emparelhavam com casacos de 5 botões, sendo eles próprios abotoados quase até ao nó da gravata. Agora regressou no seu modelo mais clássico, digno dos elegantes anos trinta, em que gentlemen e menos gentlemen não o dispensavam. Ao mesmo tempo, o revivalismo também conhece uma nova adaptação criativa, e os fatos já não são apenas às riscas, de tweed, ou lisos, combinando estilos variados e até cores entre eles, mesmo que os resultados nem sempre sejam satisfatórios. Mas para além da elegância e da ideia de aprumo que transmite, o colete é uma peça óptima para usar no Inverno sem que se torne supérfluo ou incómodo num ambiente interior, como aliás se prova nesta eficaz apologia, que me recorda que no Brasil se lhe dá o nome de "terno".
 
Deixemos pois o fato de três peças regressar à vontade. Acabemos com as últimas resistências. Tiremo-lo do armário, levemo-lo para a rua, para o trabalho, para festas e comemorações. Há que dar de novo a dignidade e a visibilidade que esta elegante combinação calças-casaco-colete merece. Façamos justiça ao fato de três peças e coloquemo-lo de novo onde ele deve estar, no panteão do vestuário quotidiano masculino.
 
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quinta-feira, março 09, 2017

Silêncio


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Já se estreou em Janeiro, já estará em poucos cinemas e já o discutiram amplamente, nos jornais, na net, em debates depois das sessões. Objecto de amplo debate e com assinalável êxito de bilheteira em Portugal para um filme deste tipo, Silêncio, de Martin Scorsese, um projecto pessoalíssimo do realizador americano, é uma obra desafiante, desconfortável, inquietante, que talvez não perdesse com um tudo de nada economia narrativa a mais, mas que cumpre o seu propósito.
 
A história dos dois jesuítas portugueses que partem para um Japão hostil ao cristianismo (em que a perseguição aos kakure kirishitan  está ao rubro e em que o mais leve vestígio da religião trazida pelos "bárbaros do Sul" é severamente punido) em busca do seu mestre, Cristóvão Ferreira, que terá cometido apostasia, é, como se sabe, uma adaptação do livro do escritor católico japonês Shusaku Endo, que Scorsese leu há já uns anos, tendo-se prontificado, desde então, a adaptar a obra ao grande ecrã. Já nos anos noventa João Mário Grilo o fizera, em parte, com Os Olhos da Ásia, agora oportunamente reexibido em algumas salas.
 
Provindos de Macau, os jesuítas Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (um nome inventado mas que lembra Pedro Arrupe, que seria superior-geral dos jesuítas e que esteve precisamente no Japão ao tempo da 2ª Guerra, interpretado por Adam Driver) chegam ao Japão em 1640, ano da Restauração e pouco tempo após a rebelião de Shimabara, após o qual o Xógunato, o regime militar japonês regente até ao Séc. XIX, reprimiu qualquer manifestação de cristianismo, considerando a religião perniciosa para a sociedade e a civilização japonesas, seguidoras do xintoísmo e influenciadas pelo budismo. O cristianismo viera com os portugueses cem anos antes, fora desenvolvido pelos jesuítas e chegara aos 300 mil fiéis, sobretudo na zona de Nagasaqui, a "Roma japonesa". A repressão começou em inícios do Séc. XVII e atingiu o ponto mais alto pouco antes da altura em que a acção de Silêncio se inicia.
 
Os dois padres chegam em sigilo ao misterioso Japão, e logo entram em contacto com os "cristãos escondidos", cujas práticas religiosas são feitas no maior secretismo. A partir daí segue-se um périplo que envolve ritos litúrgicos secretos, fugas, prisões, confronto entre culturas, a pesada mão da inquisição japonesa e o encontro enfim com Cristóvão Ferreira (Liam Neeson, num papel que chegou a estar entregue a Daniel Day-Lewis) e a revelação da sua real situação.
 
A interrogação central do filme - não podemos nunca renegar a Deus e aos seus símbolos, ainda que isso implique o martírio, ou devemos fazê-lo para nos salvar e sobretudo se a vida de outros depende disso? - deu azo a inúmeras discussões. A atitude moral de quem comete a apostasia "oficialmente", pisando uma imagem sagrada e repudiando publicamente a sua fé (mesmo que a conserve secretamente) é reprovável, ou pelo contrário, perfeitamente aceitável? Como pode alguém criticar o acto de outra quando esta passa por sofrimentos indizíveis? Ou quando pretende salvar outros da tortura e da morte? E por outro lado, que respeito haverá por aqueles que nem com a perda da vida renunciaram à fé, acreditando sempre na salvação eterna? Estas interrogações, ao mesmo tempo metafísicas e terrenas, perpassam ao longo de todo o filme, atormentando as personagens e os espectadores, sendo lançadas através de actos, de conversas, de meditações ou até, como o título indica, de silêncios. E revelam como ser cristão é tão difícil e que em momentos decisivos a vontade de Deus pode ser tão ambígua e difícil de descortinar.
 
Além da questão fulcral há outras laterais, igualmente interessantes. A abnegação dos "cristãos escondidos", que mesmo sob a ameaça da justiça e na sua própria terra, persistem em manter-se fiéis à cruz. A perseguição e as pesadas sentenças da inquisição japonesa, contemporânea da cristã, na altura também muito virulenta na Europa (e noutras paragens, como Goa), que surpreende porque representa uma doutrina supostamente pacífica e "não violenta" como o budismo, mas que nem por isso é menos brutal ou opressora do que as congéneres cristãs - provavelmente será ainda pior. A dupla faceta dos japoneses, civilizados e corteses e ao mesmo tempo brutais e impiedosos, características que tão bem se puderam verificar no séc. XX, em especial até à 2ª Guerra. E um conjunto de personagens intrigantes, não só os atormentados jesuítas, mas também aquela espécie de Judas nipónico, que traía e regressava sempre a pedir perdão, até à raia do imperdoável, ou o inquisidor, que do alto do seu poder implacável, exprime-se quase sempre de forma tranquila, quase com bonomia, demonstrando um conhecimento e de certo modo alguma admiração pelo cristianismo, mas recusando-o absolutamente, e lançando questões curiosas.
 
E evidentemente, há o interesse de ver uma produção americana, de um dos mais conhecidos realizadores da actualidade, ser protagonizada por personagens portuguesas e entrever a expansão portuguesa no mundo. Não é todos os anos que um filme de exibição planetária que também aborda a história de Portugal aparece nos cinemas.
 
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Todos estes elementos atravessam um filme com mais de duas horas e meia de duração, que com cenas mais dramáticas e outras mais meditativas, acaba por cumprir o propósito de Scorsese. Que não era nada fácil, reconheçamo-lo. E que não teve um grande retorno de bilheteira, já que parece que nos Estados Unidos o filme não terá atraído grandemente as atenções (nem a curiosidade dos Óscares, nomeado que estava apenas para Melhor Fotografia, que previsivelmente não ganhou). Mas o propósito de discussão da tese central ficou amplamente ganha. Aqueles a quem a obra dizia alguma coisa puderam visioná-la e discuti-la, a começar pelo Papa, a quem o realizador reservou uma sessão especial no Vaticano. E recordou de novo uma comunidade perseguida e em parte esquecida, cujos antepassados puderam revisitar e que tanto diz aos portugueses, como irmãos longínquos e necessitados que não se esqueceram que uns "Bárbaros do Sul" foram ao seu encontro e lhes levaram uma doutrina que para muitos significou a perseguição e a morte, mas que para todos era sinónimo de Salvação.
 

sexta-feira, março 03, 2017

As improbabilidades das presidenciais francesas


As eleições presidenciais francesas estão cada vez mais animadas, ou mais confusas, se preferirem. Aqui há meses, os socialistas estavam arrumados, Hollande em cheque, Marine LePen em alta e esperava-se que o seu adversário, e mais que provável futuro presidente, fosse Allain Juppé, vencedor antecipado das primárias de direita. Mas os votantes, surpreendentemente, preferiram eleger como candidato o antigo primeiro-ministro (cargo em tempos exercido também por Juppé) François Fillon, não sem antes dar uma votação humilhante a Nicolas Sarkozy. Fillon, tido como íntegro e sério, tornou-se por sua vez no "futuro presidente", até rebentar a história do emprego atribuído à própria mulher, como sua assessora, sumptuosamente pago e comprovadamente pouco exercido, que resultou num tremendo golpe no seu favoritismo. Emanuel Macron, ex-ministro de governos socialistas, mas sem o apoio do PSF, que preferiu Benoit Hamon, e que lançara o movimento social-liberal En Marche, viu-se assim guindado à preferência na segunda volta, embora as sondagens continuassem a pôr Marine LePen como vencedora da primeira. Entretanto, a própria LePen viu-se metida num caso de atribuição abusiva de fundos, embora, tal como Fillon, invoque supostas conspirações contra a sua candidatura.
Com apoios à esquerda e à direita, colhendo simpatias na Europa e sendo uma lufada de ar fresco na classe política francesa, tudo indicava, até hoje, que Macron seria mesmo o próximo ocupante do Eliseu, mas entretanto, uma sondagem indicou que caso Fillon desistisse e Juppé fosse repescado, seria este o grande favorito à vitória, tanto na primeira volta como na segunda, além de que LePen ficaria em terceiro lugar. A acontecer, o que é duvidoso, porque Fillon mantém-se inflexível e até convocou uma manifestação de desagravo, apesar das deserções nas hostes, seria uma enorme reviravolta em todo este atribulado processo eleitoral, e faria com que o favorito de há meses, entretanto descartado, voltasse subitamente às preferências dos franceses, além de que a decisiva luta abandonaria os extremos e centrar-se-ia no centro, passe a redundância.
 
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Improvável, sim. Mas improbabilidades é o que não tem faltado nesta campanha pré-eleitoral francesa.

terça-feira, fevereiro 28, 2017

Óscares 2016 (que não vi)


Ao contrário de anos anteriores, quase não dei pela cerimónia dos Óscares. Nem pelos prémios (com excepção do de Melhor Actriz Secundária, entregue a Viola Davis, quando de súbito me lembrei de ligar a televisão para a apagar pouco depois), nem pela passadeira vermelha, nem pelas piadinhas de quem apresentava (e a propósito, não fazia ideia de quem era o "anfitrião", e menos ainda quem era Jimmy kimmel). Perdi assim o momento da que é provavelmente a maior gaffe da história destes prémios, e que apanhou injustamente os gloriosos Warren Beaty e Faye Dunaway, mas que serviu também para dar algum sal à coisa (e logo vieram as piadinhas de que seria uma sabotagem de Trump ou dos russos).
Mas a razão do meu desinteresse era o de não ter visto nem estar grandemente interessado nos filmes postos à nomeação. Tenho alguns em agenda, mas quase nenhum constava na lista da "Academia". E nem sequer sabia que gente estimável como Jeff Bridges ou Viggo Mortensen estava entre os nomeados, até porque os que ganham são sempre muito mais referidos (Meryl Streep também estava lá, mas dá-me ideia que o hábito é de tal forma que qualquer dia a nomeiam por engano mesmo que não entre em nenhum filme)  
O que me fica, olhando para as nomeações e para os premiados, é que esta cerimónia teve um carácter político e social que extravasou em muito o mérito artístico dos filmes que estavam a concurso. Uma mal disfarçada reacção à polémica do ano passado, em que não aparecia qualquer negro nomeado, deu origem a uma cascata de nomeações para actores negros (para actriz secundária, ganho justamente por Viola Davis, em cinco concorrentes três eram negras, uma percentagem bastante maior do que na população americana) e filmes sobre o racismo na América, tendo aliás o galardão principal ido para "Moonligh", exemplo disso mesmo, para mais com a caricata atribuição depois da hora, que ainda realça mais essa hegemonia. O slogan "oscars so white" era muito 2016. 2017 é o "oscars so black". Não há fome que não dê em fartura. E mesmo assim, Denzel Washington falhou a segunda estatueta. é assim, Hollywood.

sábado, fevereiro 25, 2017

Almada em Moledo


Em 1934, Almada Negreiros e Sarah Afonso passaram férias de Verão em Moledo, em casa de António Pedro, antes deste se mudar definitivamente para a aldeia minhota, onde morreria em Agosto de 1966. Entre idas ao areal e convívios vários entre outras figuras das artes e das letras, criaram-se numerosos programas. Um deles consistiu numa ida de barca à Ínsua (para quem não saiba, é uma ilhota entre a desembocadura do rio Minho e a praia de Moledo, face a o início de Espanha) e um piquenique. À vinda, as condições do mar, que ali tem correntes traiçoeiras, iam provocando sérios problemas ao barco, mas tudo se resolveu. Isso inspirou Almada a criar um pequeno filme animado, em formato "lanterna mágica", com 64 desenhos em papel de seda, mudo e com legendas, recriando o quase-naufrágio, e produzido pela efemeramente inventada "Moledo Filmes", para animar os serões de convívio. "O Naufrágio da Ínsua" esteve todos estes anos escondido do público e dos especialistas, até ser reencontrado e exibido agora na monumental exposição na Gulbenkian, até 2 de Junho, e que mostra 400 obras de Almada, das mais icónicas e reconhecíveis às até agora desconhecidas, como este simpático inédito de animação que pode ser visto no piso de baixo. Um aviso: a exposição não se despacha numa simples hora. Vale a pena visitá-la com calma. Permite-nos revisitar Almada e os seus estilos diversos, conhecer novas obras e até saber que já nos anos trinta Moledo era destino de férias e de encontros entre as gentes das artes e das letras, muito antes de se tornar a praia conhecida que é hoje, tantas vezes caricaturada como apenas um local ventoso e elitista.








quinta-feira, fevereiro 16, 2017

Felicidade com atraso


A vitória sobre o Borussia Dortmund é uma das mais felizes que o Benfica já teve. Por muito que pense, não me recordo de um jogo em que tenhamos sido tão dominados e ao mesmo tempo, tenhamos criado tão poucas oportunidades de golo com tanta eficácia. Claro que há triunfos de sorte, como no ano passado no Bessa, mas com o adversário a criar tantas oportunidades é ainda mais raro. Perante os desacertos de Aubemayang, os desperdícios dos companheiros, a macieza do meio-campo do Benfica e a placidez de Eliseu e de Rafa, valeu-nos o sentido de oportunidade de Mitroglou, a experiência encorajadora de Luisão e uma exibição imperial de Edersson (como é que ele conseguiu defender aquela bola lá para os 83`?). Na segunda mão já sabemos com o que contar: um estádio intimidatório com oitenta mil alemães a ulular e a agitar pendões amarelos, uma equipa do Dortmund ainda mais agressiva e a necessidade premente que tem em ultrapassar a eliminatória (além do objectivo em si mesmo), não só porque as coisas na Bundesliga não correm pelo melhor mas porque tem o orgulho ferido.

Mas se o Benfica teve grande felicidade agora, para os que acreditam no Karma e ains talvez tenha havido alguma justiça histórica: é que em 1963, já lá vão mais de 50 anos, na altura em que o Benfica dominava a Europa e contava com Eusébio e mais dez craques na equipa principal, recebeu precisamente o Dortmund na Luz e venceu-o por meros 2-1. Uma magra vitória acompanhada de um record de bolas à barra: nada menos que seis. E na segunda mão, sem Eusébio levou uma surpreendente goleada de 5-0. imagine-se agora se das 6 bolas ao ferro tivessem entrado 5 e o "Pantera Negra" tivesse jogado: mesmo com ma pesada derrota, o Benfica seguia em frente. Por isso, a sorte de agora é a paga do azar de meio século. Ah, e registe-se que os alemães quase limparam a folha clínica ao passo que o Benfica jogou sem Jonas e mais uns quantos. Isto da sorte tem muito que se lhe diga.

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terça-feira, fevereiro 14, 2017

Diz que sou um terrorista


Fiquei ontem a saber que sou um terrorista (sem aspas), um ultraconservador e um "manipulador de imagens chocantes" para "sujeitar maiores e menores a uma distorção obscena da realidade". Toda essa acusação consta do artigo de Alexandra Lucas Coelho no Público de segunda-feira. Já tinha reparado num certo radicalismo fracturante da colunista do diário (então ela não tinha sido despedida?), mas nunca tinha pensando que para ela, as pessoas que, como eu, defenderam o "não" nos referendos ao aborto - e eu fi-lo tanto em 1998 como em 2007 -  eram terroristas. Sem tirar nem pôr. Já agora, por esse critério, o actual Presidente da República e o SG da ONU também constam do rol. Para além da virulência dos termos, há outros dois aspectos que sobressaem: um é a não aceitação de resultados eleitorais que a desgostem, como prova ao dizer que a vitória do "não" em 1998 fazia crer que Portugal não era um estado democrático nem laico (ou seja, para Lucas Coelho se os resultados não forem os que pretende, então já não são democráticos, e o facto de as pessoas exprimirem valores de origem religiosa é em si mesmo um atentado à laicidade do estado); outro é a maneira como atira grosseiramente aos outros aspectos que mais depressa se colariam ao seu "lado": a tal manipulação de imagens chocantes", que se bem entendo, eram as diferentes formas de realizar abortos. As imagens podiam causar choque, mas não eram falsas nem sujeitas a alterações de fotoshop. Já inúmeros cartazes a favor do "sim" eram recriações grotescas, sobretudo os da autoria do PSR (pouco antes da formação do Bloco), com óbvios intuitos anticlericais (mas então a laicidade...?)

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O que resta é que, dez anos depois do referendo que lhes deu a vitória, e mesmo recusando absolutamente qualquer outra hipótese de tal instrumento de voto directo, alguns vencedores de então continuam a mostrar uma incrível raiva pelos que pensam de outra forma, ainda por cima com argumentos da mais primário desonestidade intelectual acompanhados de insultos infantis. Daqui não pode sair nenhuma discussão válida. E continuam, na sua arenga, sem fazer uma, mas uma que seja, referência ao cerne da questão: áqueles a quem tiram o direito de nascer.

domingo, fevereiro 12, 2017

Uma questão de traçados


Foram revelados esta semana os projectos da expansão do Metro do Porto. Um era expectável e desejável: a continuação da linha amarela, de Gaia, até à imensa Vila d´Este, passando pela Hospital de Gaia, facilitando a deslocação a uns bons milhares de pessoas.
 
O outro é uma enorme surpresa, mas a avaliar pelas reacções, a começar pela minha, nem por isso das mais agradáveis. Uma linha a ligar a Casa da Música ao...Hospital de Santo António, via praça da Galiza? Para quê?
 
Ao que parece, e não se adiantou muito mais, servirá para retirar tráfego automóvel áquele eixo (que se resume à rotunda, Júlio Dinis e D. Manuel II) e para que o Hospital fique mais bem servido. Não era preciso explicações para se perceber o objectivo, claro como a água. Mas porquê esse traçado, porquê essa opção de trajecto?

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Já se discutiram duas opções de traçado: a linha da Boavista, que ligando a Matosinhos subiria a avenida até à Casa da Música, percorrendo à superfície o antigo trajecto do eléctrico (a linha 19). Tinha a vantagem de ser mais económico, mas a verdade é que no troço inicial da avenida, sobretudo na parte que confina com o Parque da Cidade, serviria muito pouca população. Creio que com as obras posteriores, que inviabilizam qualquer opção de linha electrificada, esse projecto ficou definitivamente posto de parte.
A outra opção era mais dispendiosa e demorada, mas muito mais abrangente. A linha do Campo Alegre viria também de Matosinhos, mas atravessaria à superfície o Parque da Cidade, "enterrando-se" antes de chegar à avenida, regressando à superfície apenas na zona do Fluvial e de D. Pedro V, até para evitar cursos de água subterrâneos. Faria assim a ligação de toda a zona ocidental do Porto, de parte da Boavista e do pólo universitário do Campo Alegre com a Baixa, incluindo, sim, o Hospital de Santo António. Ou seja, ligaria quase meia cidade ao centro. Tendo em conta a complexidade e onerabilidade de tal projecto, é de temer que tenha ficado indefinidamente na gaveta, em lugar deste outro para o qual não se vê grande valia. Para mais, Rui Moreira era adepto deste traçado.
 
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Não é um exclusivo do Porto: também em Lisboa, e com tanta gente há anos à espera da ligação do metro às zonas ocidentais, resolveram inflectir a linha do Rato para o Cais do Sodré, apanhando apenas a zona de Santos e deixando o resto como estava. Vá-se lá saber...
Com este, já são dois os grandes anúncios tipo balão de ar esvaziado que a câmara lançou. O outro é aquela votação do Porto como melhor destino turístico europeu para 2017, uma votação online à qual, francamente deram demasiado crédito.
 
O anúncio verdadeiramente positivo, e provavelmente menos divulgado, acabou por ser o do terminal intermodal de Campanhã, que facilitará o sistema de transportes na zona oriental e à volta da estação, que era até agora um baldio suburbano vergonhoso. Dir-se-à que estamos em ano de eleições, mas a verdade é que este era mesmo um dos projectos-chave do programa de Moreira em 2013.