sexta-feira, junho 23, 2017

S. João mutilado


Alguém se lembra de algum acidente provocado por balões de S. João? É que não tenho ideia de alguma vezter tido conhecimento de algum. Não será a tal lei aprovada recentemente algo restritiva demais? É que não sendo uma medida temporária, o que aqui temos é a morte dos balões.
Mesmo nas alturas em que não pude ir ao S. João estando no Porto (porque tinha exames, por exemplo), havia uma coisa que não faltava e que estava lá sempre: os pontinhos iluminados no céu, lançados de todos os pontos da cidade. Sempre gostei imenso de os ver, e avistar o primeiro dava-me logo entusiasmo para a noite (quando podia ir, claro).

Este ano, o S. João vai estar mutilado. Se alguém olhar para os céus, e a não ser que haja infractores, vai parecer-lhe outra noite qualquer.


quarta-feira, junho 21, 2017

Helmut Kohl


A tragédia que varreu o interior centro do país acabou por fazer esquecer o desaparecimento de um dos maiores estadistas alemães e europeus dos últimos cem anos, Helmut Kohl. O antigo chanceler esteve 16 à frente dos destinos da RFA (e 8 de toda a Alemanha unificada), substituindo Helmut Schmidt e pondo cobro a mais de uma década de governos do SPD, com apoio dos liberais do FDP, que passaram a apoiar a sua CDU. Numa década em que coincidiram nos respectivos cargos Reagan, Gorbachov, João Paulo II e Mitterand, constituiu com este último a continuidade do eixo Paris-Bona na liderança da CEE, que permitiu a adesão a países como Portugal e Espanha. Permitiu a entrada de mísseis em território alemão, mas estendeu a mão a Gorbachov, que retirou as tropas soviéticas dos países do Pacto de Varsóvia, e com isto assistiu à queda do Muro de Berlim, e contra todas as crenças e boa parte das opiniões, conseguiu juntar as duas Alemanhas. A reunificação teria um custo social e económico elevado, mas acabou com uma cicatriz profunda e com uma divisão meramente ideológica. Para além do seu papel nos assuntos europeus, no fim da Guerra Fria e na criação da moeda única, o grande legado de Kohl é de facto a reunificação da Alemanha, o que lhe deu um estatuto semelhante ao de Bismarck. O fim do seu mandato de 16 anos acabou manchado pelas acusações de desvios de dinheiro para fins partidários, mas é uma mácula que não o impedirá de ficar na História como um enorme estadista (literalmente, e o seu tamanho gargantuesco de gros gourmand será outra das coisas por que será recordado), um pacificador e indubitavelmente um vencedor.

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segunda-feira, junho 19, 2017

Os culpados e as razões


Eu sei que a tragédia que tem arrasado o Pinhal Interior gera revolta e vontade de culpar algo ou alguém. Mas nada justifica os milhares de moralistas de ocasião que aproveitam a oportunidade para vir com as teorias da conspiração, a sabedoria saloia, apontando os dedos aos "culpados" e aos "perito que nunca fazem nada" - embora me pareça que os peritos são os que mais fazem, ou seja, estudam as situações, divulgam os seus relatórios e esperam que quem de direito actue devidamente.

Mais do que apontar o dedo para toda a parte, cumpre antes de mais actuar no presente e pensar no futuro, que no caso dos incêndios é já amanhã. Diz-se sempre que "isto só muda quando houver uma tragédia". Pois já está a haver uma, ainda pior e mais mortífera do que a que vimos há menos de um ano. Não há mais margem para adiamentos. Os diagnósticos estão feitos, cumpre agir. E todo este pesadelo leva-nos a dois assuntos muito discutidos ultimamente: a prevenção e combate aos incêndios, pois claro, mas também o ordenamento do território. Sim, a coesão territorial não é só levar organismos de Lisboa para o Porto, como muitos julgam. Há que prestar atenção a territórios como Pedrógão Grande, Vimioso, Figueira  de Castelo Rodrigo, Pampilhosa da Serra, Monforte ou Alcoutim, que perderam população, recursos e capacidade de se renovar ao longo das últimas décadas. Que me lembre, já não ouvia notícias da região do Pinhal Interior desde que fizeram a praia artificial de Castanheira de Pêra. Não são só os eucaliptos e o pinheiro bravo os responsáveis por este inferno. A falta de população, que abandonou estas terras em direcção às capitais de distrito e aos subúrbios do litoral, é dos casos mais graves do nosso país nas últimas décadas. Retiram-se das aldeias, dos lugares e dos campos e deixam-nos ao abandono, sob a anarquia do mato e de espécies arbóreas que crescem mais rapidamente. Perdem-se os corta-fogos e os vigilantes da terra. Qualquer relação entre isto e o aumento proporcional dos fogos ao longo dos anos não é mera coincidência.

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sábado, junho 17, 2017

Seis Dias que abalaram o Médio Oriente

 
Passou agora meio século desde a Guerra dos Seis Dias, uma das operações mais retumbantes do século XX. Israel estava nas vésperas do seu vigésimo aniversário, uma curta existência caracterizada por duas guerras e a resistência a um cerco por parte dos (muito maiores) vizinhos árabes. Em fundo, a Guerra Fria, de que a região era um dos principais cenários, sobretudo desde 1956 e a Crise do Suez, após a qual a URSS se tinha voltado definitivamente para o Egipto, ao passo que os EUA continuavam a apoiar o estado judaico. O país liderado por Nasser consolidara o seu estatuto de potência regional, apesar do falhanço na constituição da República Árabe Unida com a Síria. E em 1967, precisamente por receio de um ataque israelita à Síria, o Egipto exigiu a retirada das tropas da ONU presentes no Sinai desde 1956, iniciando um bloqueio ao estreito de Tiran, que dá acesso ao golfo de Aqaba e é a única saída de Israel para o Mar Vermelho, e consequentemente o Índico. Um tal bloqueio, impedindo a livre circulação marítima de um estado, era uma declaração de guerra implícita.

Entre 5 e 10 de Junho de 1967, e em reacção ao cerco do Egipto e a crescentes hostilidades de outros estados árabes, Israel viu-se forçada a actuar mesmo sem a protecção de qualquer outro aliado. As forças armadas israelitas desencadearam um ataque aéreo fulminante e em massa sobre todas as bases áreas egípcias, que arrasando por completo a aviação inimiga em apenas doze horas. O ataque era arriscada, porque deixou Israel sem qualquer protecção aérea, mas constituiu um rude golpe na moral (e no material) do Egipto e espantou o mundo pela audácia, rapidez e eficácia. De imediato, os blindados israelitas penetraram no Sinai, com auxílio da aviação (e sem o perigo de ataques da aniquilada aviação egípcia), cortaram o acesso a Gaza (onde tinham a oposição das forças palestinianas) e confinaram os carros de combate egípcios a terrenos de escassa mobilidade. Em dois dias, as forças árabes estavam dispersas, destruídas ou em fuga, ao passo que as israelitas atingiam o Canal de Suez e a extremidade do Sinai, tomando Sharm-el-Sheik e controlando o estreito de Tiran.

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 A Norte, e depois de sangrentos combates, a infantaria de Israel tomou os montes Golan a uma Síria equipada com armamento soviético mas com deficiente treino e fragilizada pelas purgas entre os oficiais, como consequência dos vários golpes de estado.

A Jordânia, que se tinha colocado do lado dos aliados árabes confiando na força do Egipto, ensaiou alguns ataques de artilharia, o que levou à entrada das forças de Israel na Cisjordânia no dia 6, e à ocupação daquele território, incluindo a Cidade Velha de Jerusalém, o que implicou sangrentos combates rua a rua com os encarniçados resistentes, ainda que os lugares santos da cidade não tivessem sofrido danos. A ocupação do território de aquém-Jordão e sobretudo dos lugares santos de Jerusalém teve um simbolismo religioso e político extraordinários. Israel conseguia o velho sonho de se apoderar de toda a Jerusalém, além de permitir aos judeus o acesso ao Muro das Lamentações, impedido pelas forças jordanas desde 1948.

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A breve guerra, que em seis dias aniquilara forças árabes superiores em número e dera a Israel o controlo de um território maior que o originário, surpreendeu pela eficácia extrema, superior à da Blietzkrieg alemã. Moshe Dayan, ministro dos negócios estrangeiros, e Yitzhak Rabin, o chefe das forças armadas, ganharam um estatuto de líderes militares de excepção e são hoje considerados como dos melhores estrategas do século XX. Nasser, o popular presidente do Egipto, tinha sido tremendamente humilhado, ao contrário do que acontecera em 1956, e resignou ao cargo, mas daria meia volta depois de manifestações a seu favor. Quanto aos territórios ocupados, e apesar da condenação da ONU (sobretudo dos estados árabes), continuariam na posse de Israel, que argumentou com as necessidades da sua própria protecção. Haveria ainda mais uma guerra, em 1973, até que a paz com o Egipto de Sadat, anos mais tarde, em Camp David, permitiria a devolução do Sinai. Quanto a Gaza, permaneceria ocupada até à retirada unilateral em 2005. Os Montes Golan e a Cisjordânia permanecem na posse irredutível de Israel há 50 anos, sem alterações à vista. E os judeus, salvo alguns contratempos provocados pelos vizinhos palestinianos, continuam a poder rezar no Muro das Lamentações.

segunda-feira, junho 12, 2017

Desconclusões das eleições no Reino Unido


Incrível como no espaço de um ano os líderes conservadores ingleses (e primeiros-ministros no cargo) conseguem convocar actos eleitorais quem à partida fortaleceriam a sua posição e saem deles muito mais fracos. O caso de David Cameron é evidentemente muito mais grave, porque para consolidar a sua posição face aos contestatários internos e marginalizar o UKIP abriu caminho ao terramoto do Brexit, que pela primeira vez retirou à União Europeia um dos seus membros e isolou um Reino Unido já sem império. Depois da sua retirada, e da rocambolesca sucessão de candidatos à liderança do partido e do governo, acabou por sobrar Theresa May, então ministra da administração interna, e até ali favorável à permanência na União europeia.
 
May fartou-se de meter os pés  pelas mãos e de dar uma série de tiros nos primeiros, desde prometer uma "saída dura" (ela que até fora semi-europeísta) até jurar que não convocaria eleições antecipadas, passando pelos seus cortes nos efectivos policiais numa altura em que o país é fustigado pelo terrorismo. Semanas depois, anunciava mesmo eleições gerais, para aproveitar o momento, em que as sondagens davam uma maioria ainda mais forte aos tories e previam uma derrota bisonha ao Labour de Jeremy Corbyn, comparando o momento do partido ao do tempo de Michael Foot, o mais esquerdista líder de que havia memória. Pensou, tal como Cameron, que se legitimaria através de eleições e ganharia assim força para prosseguir com o Brexit. Saiu-lhe o tiro pela culatra. Perdeu incrivelmente a maioria absoluta e viu os trabalhistas registarem um grande avanço, coisa impensável semanas antes. E ainda os liberais-democratas a recusarem-se a fazer parte do governo, ao contrário do que sucederam em 2010. Não lhe restou alternativa senão ir a Belfast procurar o apoio dos unionistas norte-irlandeses da DUP para conseguir um frágil governo.
 
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Não há conclusões claras a tirar deste processos. A principal será a de que os políticos britânicos demasiado calculistas e gananciosos acabam por ser castigados nas urnas. Os trabalhistas sobem, os conservadores e os independentistas escoceses descem, os liberais-democratas registam um ligeiro avanço e o UKIP é arrasado, o que não espanta depois da lamentável luta - em sentido literal - pela liderança do partido e o descrédito do bufão Nigel Farage. Mas não se confirma o tal arrependimento dos eleitores em relação ao Brexit, já que os trabalhistas tinham tido uma atitude dúbia e os maiores defensores do Remain tinham sido os lib-dem e os escoceses. e já agora, com o desaire destes últimos, a possibilidade de novo referendo à indpendência da Escócia deve ficar por ora afastada.
 
Theresa May perdeu quase toda a credibilidade que lhe restava, formará um governo frágil que poderá não durar muito tempo, e a possibilidade de Jeremy Corbyn, o velho esquerdista que propõe nacionalizações, chegar ao governo, é bem real. E o processo do Brexit prossegue. Tal como a confusão no momento político.

terça-feira, junho 06, 2017

O estado da situação no Porto, um mês depois do cisma Moreira-PS

 
Já se passou mais de um mês desde que Rui Moreira declinou o apoio do PS à sua candidatura. A minha percepção da coisa não mudou muito desde então, mas preferi esperar que o pó dos acontecimentos políticos assentasse. E não faltaram outra novidades autárquicas, até o regresso de Valentim Loureiro às batalhas eleitorais. Ou do caso Selminho, que voltou como arremesso de lama eleitoral e que promete continuar a dar que falar.
 
Como alguns leitores se lembrarão, votei em Rui Moreira em 2013 e tenciono voltar a fazê-lo. Aliás, andei a fazer campanha nas ruas, por vezes sob a intempérie, onde a alguns dias da eleição já se notava uma notória tendência de voto no candidato que venceu (não há como a campanha porta a porta para se perceber isso, mais do que os comícios que hoje em dia são sobretudo encontros gastronómicos com presença maciça de militantes arregimentados). Pese a parcialidade, tudo isto resulta do que observei nestes 4 anos e no que retiro do momento político actual.
 
O rompimento entre o movimento de Rui Moreira e o PS deu-se após alguns sinais de nervosismo por parte do primeiro, com a discussão de lugares e depois de Ana Catarina Mendes considerar que a eventual vitória de Moreira seria contabilizada como sendo do PS. Pelo meio, já tinha havido o desacordo de inúmeros elementos do PS, do Porto e não só (Francisco Assis, por exemplo), a contestação à liderança distrital de Manuel Pizarro e as acusações sibilinas de Manuel dos Santos, lá da sua prateleira dourada no Parlamento Europeu, para além de algumas divergências de Manuel Correia Fernandes, que detinha o importante pelouro do urbanismo. Mas o acordo firmado em 2013 corria bem, e Pizarro tinha a confiança de Moreira. Não era por ele que as coisas dariam para o torto. Como muitas vezes acontece, os movimentos subterrâneos e as intrigas partidárias acabaram por resultar, com a preciosa ajuda da cúpula política. Não sei se era intencional, mas a verdade é que Ana Catarina Mendes conseguiu implodir o acordo e deixou Pizarro numa situação complicadíssima. Alguns socialistas agradeceram. Outros sentiram-se traídos.
 
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Quem ganhou e quem perdeu? À primeira vista, Moreira ficou sem algumas cruzes no boletim e a quase certeza da maioria absoluta. Mas provavelmente ganhou mais do que perdeu. Ficará com menos votos do que os que teria se o PS o apoiasse, mas conseguiu manter a independência formal do seu movimento e afastar a ideia do "domínio da câmara" por parte do PS (cujos vereadores, de resto, renunciaram aos respectivos pelouros). Mantém o apoio do CDS, que conseguiu sempre manter-se no grupo vencedor de forma sabiamente discreta, e agora do MPT e do Nós, Cidadãos, além do grupo que já o apoiava e que tem várias origens políticas. O grande problema, que afectou o executivo nestes quatro anos, é que o núcleo duro se enfraqueceu com os desaparecimentos de Paulo Cunha e Silva e Manuel Sampaio Pimentel (e outros, infelizmente), ou a partida de Azeredo Lopes. Será esse o principal desafio de Moreira, que até agora só prometeu conservar o pelouro da cultura nas suas mãos. De resto, o plano para a cidade tem-se cumprido, com ênfase nos pilares a que deu maior importância (a cultura, na economia e a coesão social), e a saúde financeira não se afasta muito do rigor dos tempos de Rui Rio. E nalguns casos, como a resolução do problema da Feira do Livro, provou-se que pode haver apostas públicas na cultura sem necessidade de enormes gastos. Mas há mais problemas a resolver, como o do trânsito.
 
Quanto ao PS, fica numa situação muito complicada: não pode criticar o executivo de que fazia parte, não pode apresentar um programa demasiado parecido com o da lista de Moreira, com o risco de se secundarizar, nem afastar-se totalmente, sob pena de ser acusado de oportunismo. Pizarro e os seus camaradas têm aqui um quebra-cabeças difícil de resolver. Até porque se Moreira voltar a ganhar sem maioria, poderá muito bem voltar a precisar da confiança do cabeça de lista do PS (não necessariamente dos outros).
 
O PSD perde também o argumento de que a câmara era "controlada pelo PS (ou, numa deriva incompreensível, pela "extrema-esquerda")". Tem como candidato alguém que parece ser a antítese de Luís Filipe Menezes: o independente, discreto e pouco conhecido Álvaro de Almeida. Mas talvez por falta de experiência e de tacto político, ou por total ausência de ideias, Almeida tem levado a cabo uma campanha absurda, em que acusa Moreira de "não ter cumprido nenhuma promessa" (lembrou-se provavelmente das escadas rolantes para o Palácio de Cristal) e de ser um "traidor", "déspota", "populista", etc. Só falta mesmo chamar-lhe terrorista ou jiadista, mas já não deve faltar muito.
 
À esquerda, o regresso do PS a uma candidatura própria pode ser impeditivo de uma maior capitalização de votos nesse espectro. Nesse sentido, a aposta em nomes conhecidos pode não ser a melhor jogada. A CDU volta a lançar Ilda Figueiredo como candidata à câmara, vinte anos depois da sua última candidatura, e para a assembleia municipal o seu sucessor na vereação, Rui Sá, gabado pelo seu trabalho enquanto vereador com pelouro no primeiro mandato de Rui Rio, numa daquelas improváveis coligações "vodca-laranja". O Bloco de Esquerda jogava forte, com a candidatura de João Semedo, ex-"coordenador" do movimento, com larga experiência política e há muito a viver na cidade (e um dos raros bloquistas do Porto que não é nem actor nem sociólogo). Mas hoje mesmo, por razões de saúde, Semedo desistiu da candidatura à câmara e trocou de lugar com João Teixeira Lopes, passando assim a candidato a deputado municipal. A infeliz circunstância pode diminuir as hipóteses do Bloco conseguir pela primeira vez um lugar na vereação do município, até porque Teixeira Lopes por mais do que uma vez experimentou a mesma candidatura e teve sempre resultados bisonhos.
 
As eleições para a câmara do Porto prometiam ser uma maçadoria, mas afinal aqueceram com estes pequenos terramotos políticos. Será mais uma querela autárquica a seguir, a merecer atenção em algumas matérias importantes para a cidade, embora preveja que a ordem dos resultados vá ser a mesma de 2013. Aliás, não faltam motivos de entretenimento no distrito do Porto: temos os regressos de Valentim Loureiro, de Narciso Miranda (que anuncia a candidatura, mesmo a calhar, no dia do Senhor de Matosinhos), de Avelino Ferreira Torres, e até o filho de Vieira de Carvalho está concorre à Maia. Vá lá que Fátima Felgueiras e Luís Filipe Menezes resistiram à tentação de ver as suas fotos novamente nos cartazes.

quarta-feira, maio 31, 2017

Factos relevantes da bola neste fim de época.

 
Ainda na bola, alguns acontecimentos recentes que ficaram da última semana:

- A despedida de Totti. Um dia isto tinha de acontecer. O soberano da Roma, o eterno ragazzo há muito capitão dos gialorossi, despediu-se dos relvados e do seu clube de sempre, aos 40 anos, depois de 23 a jogar com a camisola áurea e vermelha. É difícil hoje em dia ver um jogador tão identificado com um clube como Totti (embora em Itália isso seja relativamente comum, quer pela fidelidade de alguns jogadores, quer pela sua longevidade). Jogou sempre no clube da Cidade Eterna, recusando convites do Real Madrid, por exemplo, e com a sua camisola ganhou a Bota de Ouro de melhor marcador da Europa, embora nem fosse ponta de lança. Obteve poucos títulos (apenas um scudetto italiano), e curiosamente o maior deles todos até o conseguiu com a camisola azul da selecção: o Mundial de 2006. Será difícil vê-lo de fato e gravata com o cargo de dirigente. Tenho mesmo de encontrar o autógrafo que ele me deu aqui há uns anos.
 
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- A vitória do Manchester United na Taça UEFA (ou Liga Europa, como lhe chamam agora). Mourinho não deslumbrou neste seu primeiro ano em Old Trafford, longe disso. Teve tantos empates que já corre a piada que a alcunha Special One é pelo número de pontos obtidos em média por jogo. Além disso, viu uma "epidemia" de lesões varrer o plantel no fim de época, em especial Ibrahimovic, que por pouco não encerrava a carreira. Mas na final para conquistar o único troféu que faltava à vitrina dos Reds não falhou. Venceu sem grandes dificuldades um Ajax muito talentoso mas demasiado verde, que certamente dará que falar nos próximos anos. No confronto entre dois gigantes europeus, ganhou claramente a experiência. Ainda por cima, num dia depois do chocante atentado em Manchester, contra crianças e adolescentes, a vitória dos mancunians acabou por ser uma homenagem à cidade.
 
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- As conquistas dos respectivos campeonatos por parte do Honvéd e do Slavia, velhos representantes do futebol húngaro e checo, respectivamente. O primeiro era mesmo o clube de Ferenk Puskas e ainda se cruzou com o Benfica, para sua desgraça (o SLB pespegou-lhes 9-0 no total), e do segundo há já uns tempos que não se ouvia falar. Acrescentemos o regresso de alguns históricos, como o Mónaco de Jardim, Bernardo Silva e Moutinho, que encantou a França e a Europa, o Feyenoord de Roterdão e o Spartak de Moscovo.

segunda-feira, maio 29, 2017

Notas da festa da Taça

 
 
 
A refrega à chuva hoje no Jamor significou a 26ª Taça de Portugal, a 11ª dobradinha (a segunda em 4 anos) e a desforra da maldita final de 2013, curiosamente com o mesmo treinador a ganhar em campos opostos.
 
Notas:
- Agradecer desde já a perninha que o luchador Sin Cara veio fazer e que nos deu o primeiro golo.
- Não me lembro de uma final da Taça sob chuva, o que explica o facto de ser sempre no Jamor, que não tem cobertura. Vá lá que não estragou a animação pré-jogo, senão lá se ia o porco no espeto e a animação na mata...
- O filme amador de Xanana Gusmão acabará no museu do Benfica quando daqui a décadas for encontrado entre o espólio do estadista timorense, numa arca escondida numa arrecadação em Dili.
- A cara de desânimo de Joaquim Oliveira também poderia figurar no museu do Benfica.
- O Neno estava com um ar taciturno, provavelmente recordado da grande final de 1993 (os 5-2 sobre o Boavista), que ele ganhou.
- Visto de cima via-se um belo misto de vermelho e branco, mas isto serve só para recordar que estavam quase tantos vitorianos como benfiquistas. Esses tipos já mereciam mais títulos (mas não este, que o Benfica poderia ter ganho com números maiores).

Nota final: até agora, ninguém soube dizer ao certo o que era aquela engenhoca em que a bola chegou. Falou-se em drone com capacidade de transporte, invocou-se o Duende Verde do Homem Aranha, mas ficou tudo mudo e quedo. Se isto se tornar um objecto comercial, muitos problemas de tráfego ficarão resolvidos. E poderemos dizer que vimos o futuro no Jamor, naquela chuvosa final da Taça de Portugal no ano da graça de 2017.



 

quarta-feira, maio 24, 2017

Tetra


O Benfica conquistou o seu primeiro tetracampeonato, enfim, depois de vários "tris". O 36º título não chegou com a maior das facilidades. Apesar de grandes reforços do plantel, sobretudo nas alas, deu a sensação de que havia sempre posições que não estavam devidamente preenchidas. A equipa nunca teve momentos de grande rasgo, limitou-se a fazer o necessário, e sofreu uma autêntica razia de lesões. Jogadores como Rafa, Jonas e Grimaldo estiveram meses a fio sem poder jogar, para não falar nos casos como o de Jardel que quase nem pisou os relvados. Ainda assim, esteve sempre um pouco à frente da concorrência, e nos momentos fundamentais, nunca escorregou. E quando chegou a primeira oportunidade de agarrar o título, não a desperdiçou, e despachou o Vitória de Guimarães com uma exibição portentosa e uma goleada categórica. Missão cumprida, quarto campeonato seguido, festa no Marquês e em todos os "marqueses" por esse país fora (isto é mesmo verdade: não faltavam cartazes noutros pontos de comemoração, como a rotunda da Boavista, com a inscrição "praça do Marquês de Pombal").
 
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O Benfica acabou a temporada com um empate a dois no Bessa, com uma equipa de suplentes, já a pensar na Taça. Fica com seis pontos a mais que o segundo classificado, melhor ataque e melhor defesa. E maior paciência, também. Durante toda a época, e até ao fim, choveram acusações, remoques, ataques, mistificações da parte dos adversários do Benfica. O Sporting do patético Bruno de Carvalho voltou a usar o falso argumento dos "vouchers" (coisa já avaliada e despachada pelas instâncias desportivas europeias), a meter-se em jogos que não lhe diziam respeito, e nem quando as evidências mostravam que a equipa de Jorge Jesus não tinha capacidade de discutir o título o seu nível melhorou (fica como exemplo maior a sua reeleição e o discurso de "vitória"). Do lado do FC Porto, um desvario total. Queixas em barda de supostos penaltys não marcados a seu favor (mesmo quando era claro que eram os jogadores portistas a atirar-se para o chão), acusações ao Benfica em especificar porquê, e uma ligeira acalmia numa altura em que a equipa de Nuno Espírito Santo começou a jogar alguma coisa e os árbitros a ser complacentes, antes de voltar o delírio e os seus órgãos de comunicação oficiais assumirem uma postura de trolls de redes sociais. Neste particular, o director de comunicação do FCP assumiu-se com um moço de fretes particularmente cáustico, no seu canal de TV aberto ao público, criando termos como "cartilha" (demonstrando que segue a sua própria) e "Liga Salazar". Este último argumento é particularmente estúpido, já que assume que se o Benfica ganha é graças a Salazar, mesmo que o homem já tenha morrido há quase 50 anos. O que desmente a lenda negra de o Benfica ter sido "o clube do Estado Novo". Chega a ser embaraçoso como é que um clube que durante anos a fio se serviu de esquemas ilegais à vista desarmada tenta sem qualquer base de sustentação acusar outro de esquemas semelhantes. Isso com o precioso auxílio dos comentadores na tv, além de outros como Miguel Sousa Tavares, Pedro Marques Lopes ou Paulo Baldia (que me surpreendeu pelo fanatismo), e uma propaganda maciça que tentava passar a ideia de que o Benfica era constantemente beneficiado. Dois exemplos: os jogos entre Benfica e Sporting, em que se acusou o SLB de ter ganho o primeiro jogo com penaltys contra perdoados, mas se esqueceu os penaltys que ficaram por marcar contra o clube verde no jogo da segunda volta. E a antepenúltima jornada, em que uma arbitragem inenarrável impediu a vitória do Marítimo sobre o FCP e ainda tivemos de ouvir os lamentos dos portistas. Fosse o contrário e o que não se diria do Benfica...
 
Enfim, dos fracos e dos perdedores não rezará a história do campeonato (e se o Benfica ganhou justamente o título sem jogar grande coisa, que dizer dos outros?). Mas isto ainda não acabou: no domingo o Benfica pode conquistar mais um título se levar de vencida o Vitória no Jamor. E o jogo não vai ser com certeza tão fácil como na jornada do campeonato. Mais uma taça na vitrina, é que se pede. Antes de merecidas férias para atacar para o ano o penta.
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quinta-feira, maio 18, 2017

13 de Maio de 2017


O dia 13 de Maio último, dia do centenário das Aparições de Fátima, vai ficar gravado na memória dos portugueses por muitos e bons anos. Afinal de contas, conjugaram-se os famosos "3 Fs", na sua melhor verão, e não na caricatura depreciativa com que normalmente são chamado à baila.

Mas essa conjugação só se tornou possível uns três dia antes. Se todos os momentos das comemorações de Fátima estavam previstos, e se não houvesse surpresas, tudo correria bem, já a possibilidade do Benfica conquistar o inédito tetra já neste Sábado, precisamente no 13 de Maio, só se colocou quando acabou o jogo em Vila do Conde, no Domingo anterior. E na quarta-feira, a meio da semana, Salvador Sobral qualificou-se para a final do Eurofestival da canção, com as apostas a darem-lhe boas hipóteses. Começou-se a prever que poderia ser um 13 de Maio especial, mesmo para além de Fátima.

Das celebrações pouco há a dizer, já que as palavras não descrevem suficientemente as emoções. As diversas manifestações de Fé, a chegada do Papa a Portugal, celebrada nos ecrãs espalhados no santuário como se fosse um golo marcado num estádio, a chegada ao recinto, o silêncio que se instalou por momentos quando Francisco se encontrava frente a frente com a imagem de Nossa Senhora de Fátima, e que se repetiria à noite na feérica e lindíssima Procissão das Velas. E no dia 13, volvidos exactamente cem anos sobre os primeiros acontecimentos naquele local, a canonização de Jacinta e Francisco (com a feliz coincidência, mas só mesmo isso, de terem apelidos iguais aos do actual Bispo de Leiria-Fátima, o anfitrião e meu antigo professor de Mundividência Cristã), a a Procissão do Adeus, com o Papa visivelmente comovido, antes do regresso a Roma. a chuva, que tinha parado na véspera, voltou a cair mal sua Santidade deixou solo português.

À tarde, o nervosismo com a recepção ao Vitória de Guimarães. Sem razões para isso. Exibição imperial do Benfica e o inédito tetracampeonato. Mas disso falarei à parte.

À noite, ainda com as comemorações do título, a notícia do triunfo de Salvador Sobral, a primeira vez que uma música de Portugal ganhou a Eurovisão. Cinquenta anos de fiascos e ténues esperanças vingados com a maior pontuação de sempre. Confesso que há já largos anos que não ligava ao evento. Mais: a primeira vez que vi Sobral a cantar Amar pelos Dois não gostei nem da música nem da interpretação, e achei o intérprete estranhíssimo, com aquele visual homeless-chic e aqueles gestos que davam ideia de graves problemas motores. Ou seja, estive longe de "sempre ter acreditado que ele ia ganhar". Com o tempo, vieram as revelações sobre os seus problemas de saúde, as suas preferências musicais, e a sua ainda incipiente carreira, e aos poucos conciliei-me. Na noite da Eurovisão vi a sua entrada, mas já não assisti em directo à notícia da sua vitória, mais embrenhado nas comemorações do Tetra (consegui ver a tempo o seu dueto, aliás muito justo, com a irmã Luísa, autora da música). Obviamente não pude deixar de aplaudir e agora até ouço a música com gosto, vejam lá.
Mas houve um momento incrível que juntou as vitórias do Tetra e dos Sobrais: quando no Marquês de Pombal o speaker de serviço interrompeu a algazarra para anunciar que "o grande benfiquista Salvador Sobral" tinha grande a Eurovisão. e depois dos aplausos, puseram Amar pelos Dois como música de fundo. E o Marquês, mais habituado a manifestações ruidosas, e que ainda há dois anos testemunhou (tal como eu, aliás) cenas de pancadaria e violência, calou-se para ouvir aquela suave melodia. Minutos inolvidáveis, esses de ouvir uma música tão delicada a pôr em silêncio milhares e milhares de adeptos eufóricos.
 
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PS: outra coincidência: é que a estátua do Marquês de Pombal foi inaugurada precisamente a um 13 de Maio, de 1934. Algum adepto não benfiquista que passasse pela imensa praça naquela noite poderia repetir o velho queixume dos republicanos sobre o regresso dos jesuítas: " Desce daí, ó Marquês, que eles já cá estão outra vez".