domingo, abril 23, 2017

Tempo pascal


Não desejei uma Santa Páscoa aos caros leitores. Mas como ainda estamos em período pascal, mais precisamente na pascoela, acho que ainda vou a tempo.

Deixo-vos com esta imagem de renascimento, que não sendo de ressurreição, bem pode ilustrar o começo (ou recomeço) de algo novo.

sexta-feira, abril 07, 2017

O pós-clássico e o que sobra do campeonato


O clássico que, como sempre nestas ocasiões, ia ser " jogo do ano" e ia "determinar o próximo campeão nacional" saldou-se, como tantas outras vezes acontece, por um empate, apesar de intenso e interessante. E um empate a saber a pouco, depois da quantidade de oportunidades perdidas às mãos de Casillas, que tal como no ano passado, voltou a fazer uma grande exibição na Luz. À partida, e ao ver as ausências de Fejsa e o sempre adiado regresso de Grimaldo, temi o pior, talvez influenciado pelos cânticos de vitória antecipada entoados pelos portistas, para quem a vitória nem se punha. No fim, a desilusão com o mísero ponto de avanço, contrastando com a felicidade dos adeptos e atletas do Porto, em claro esquecimento da confiança inicial. Talvez Nuno Espírito Santo tenha jogado de forma a pensar que a perda de pontos do Benfica em Alvalade são favas contadas, como aliás reafirmou, mas é um cálculo perigoso. Recorde-se que depois do Sporting-Benfica do ano passado, nenhuma destas equipas perdeu mais qualquer ponto. Mas pior do que a desilusão é ver um autêntico mercenário como aquele lateral uruguaio que, não contente de comemorar o golo a festejar simiescamente contra o clube onde jogou durante 8 anos, ainda se fartou de entrar por várias vezes nas canelas dos adversários, alguns dos quais seus antigos colegas, o suficiente para uns 4 amarelos. Um espectáculo deprimente, mas depois não se venham queixar os adeptos portistas de que falta mística no seu plantel.

Entretanto, houve o jogo da Taça. Pareceu-me que havia demasiada confiança na passagem, a avaliar pela convocatória e pela equipa principal, como demasiadas mexidas e muitos jogadores sem ritmo. Com um Estoril sem nada a perder, a coisa ia-se complicando com um perigoso empate a 3. Salvou-se a passagem à final do Jamor, (a 36!), para reencontrar o Vitória de Guimarães, o golo de Zivkovic, a exibição de Carrillo e o regresso de Grimaldo.

Tirando a final da Taça, o Benfica em apenas os jogos do campeonato, e nenhum deles se afigura fácil. Além disso, tem de contar com a aliança entre Porto e Sporting, que já revelou os seus traços esta semana, com os sportinguistas a intervir num jogo onde não foram tidos nem achados para pedir um castigo para Jonas e Samaris, por supostas "agressões". O pedido em si já é patético, sobretudo vindo de um clube que viu Slimani ser castigado na época seguinte por um autêntica agressão num jogo com o Benfica. E é ainda mais aviltante por se tratarem de dois casos em que não houve qualquer agressão. Mas a "mentira mil vezes contada" já está a fazer o seu caminho, e temos agora uma data de lunáticos a afirmar que sim senhor, houve agressões dos dois. A haver alguma expulsão seria a do mercenário uruguaio, mas curiosamente isso passou despercebido. Já se sabe, o Benfica controla a comunicação social.

É uma velha sina: o Benfica tem de jogar o dobro para ser campeão, uma vez que tem como principais adversários dois clubes que acima de tudo, não o querem ver ganhar, mais do que ao outro que sobra. Mas se conquistar o inédito tetra, para não falar da Taça, será ainda mais saboroso. Não menos do que a conquista do tri do ano passado, contra um Sporting que apostou todas as fichas e em que o Benfica era dado como derrotado à partida. Veremos.

terça-feira, abril 04, 2017

No delito de Opinião



A partir desta semana estarei também no Delito de Opinião. O primeiro texto é precisamente o anterior que também publiquei aqui, com o título ligeiramente alterado. Mas descansem os que cá vêm porque isso não implica o fecho de A Ágora.

domingo, abril 02, 2017

O drama da direita tradicional francesa


Ou François Fillon é perfeitamente inábil, ou a fortuna abandonou-o definitivamente depois das surpreendentes primárias em que se içou a candidato da direita republicana francesa. Há dias realizou uma manifestação no Trocadéro, com a Torre Eiffell em fundo, e que reuniu algumas dezenas de milhares de apoiantes, para afirmar que prosseguia como candidato e atirando-se à justiça e aos correlegionários partidários que o haviam abandonado. Uma prova de força lhe deu algum oxigénio e que obrigou o partido a reafirmar o seu apoio, ao mesmo tempo que Alain Juppé se mostrava indisponível para ser um "plano b". Até algumas formações que o haviam abandonado voltaram de repente atrás. Mas novo caso bizarro, o dos fatos comprados a preço de ouro a alfaiates parisienses de renome, alguns deles pagos em numerário por "amigos" (o que é que isto nos lembra), veio manchar de novo o suposto currículo impecável de Fillon. E depois disso, vieram à superfície novos rumores que não abonam nada a favor da auto-propalada integridade do candidato gaullista.
 
 
No debate a cinco que se seguiu, Fillon tentou dar um ar da sua graça, mas passou despercebido e a sua prestação só ficou acima da de Benôit Hamon, o candidato oficial e nada consensual do PS francês. Único ponto a favor: era o que tinha a gravata mais elegante.
 
 
Recorde-se que Fillon era, até há semanas, o provável vencedor tanto da primeira como da segunda volta das presidenciais francesas. A rejeição a Marine LePen, as lutas internas do PS francês e a pouca relevância a que a esquerda radical está votada, numa eleição a que se apresentam quase 50 candidatos (incluindo trostquistas, bonapartistas e simples apêndices zangados das forças maiores), fazia prever que Fillon fosse o próximo locatário do Eliseu. A partir do momento em que os cargos da família Fillon vieram à ribalta pública, através do impiedoso Canard Enchainé, as intenções de voto caíram e emergiu Emanuel Macron, o candidato do centro sem suporte partidário.

O drama de Fillon parece ser, como já muitos jornais franceses salientaram, uma repetição do que aconteceu a Edouard Balladur nas presidenciais de 1995. Em fins de 1994, Jacques Delors, a cessar o seu mandato na Comissão Europeia e largamente favorito entre os eleitores para suceder a François Mitterrand, declarou-se fora da corrida. O PS francês teve de se contentar com Lionel Jospin, abrindo caminho ao favoritismo do centro-direita. Jacques Chirac, então maire de Paris, ex Primeiro-Ministro e antigo candidato derrotado em anteriores presidenciais (o que em França dá estatuto de persistência), era a escolha óbvia da aliança gaullista-liberal entre o RPR e a UDF. Mas o então Primeiro-Ministro, Edouard Balladur, com largos apoios à direita e no governo, resolveu avançar e dividiu todo aquele espectro político. A alguns meses das eleições, era o favorito nas sondagens, tanto na primeira como na segunda volta. Mas aos poucos, o seu ar demasiado senhorial, alguns casos obscuros emergentes, as suas ideias sociais pouco populares e a pouca simpatia que a personagem despertava no "homem comum" fizeram-no cair do pedestal. Balladur tinha allure de chefe de estado, mas era pouco comunicativo e empático. O contrário de Chirac, uma velha raposa, um gaullista à antiga, afável e acessível, que aos poucos subiu nas sondagens, e em Abril de 1995 passou à segunda volta, com Jospin, deixando Balladur para trás, após o que seria, sem surpresa, eleito Presidente de França. O então chefe de governo demitiu-se, e com ele os jovens turcos que o tinham apoiado, como François Fillon e Nicolas Sarkozy. François Bayrou, que também lhe tinha dado o apoio, transitou para o novo governo, que seria chefiado por Alain Juppé, até ali Ministro dos Negócios Estrangeiros e apoiante indefectível de Chirac.
 
 
A história presidencial em França parece repetir-se 22 anos depois, no mesmo sector, com a diferença de que desta vez a segunda volta não deverá ser entre um gaullista e um socialista. As forças políticas mudaram, mas muitos dos seus intervenientes não, em especial algumas figuras que conviveram no mesmo governo: Fillon (nem de propósito, apoiado por Balladur) é um candidato em desgraça; Sarkozy antecedeu-o; Juppé caiu mas ia sendo repescado; e Bayrou, que aprendeu a apostar no cavalo certo (Sarkozy primeiro, Hollande depois), apoia Emanuel Macron e pode voltar à ribalta política, se a sua aposta se voltar a concretizar. A política francesa, com as suas reviravoltas, apoios, dissensões e "richelieunismos vários, continua a ser um apaixonante manancial de interesse na política europeia.

sexta-feira, março 31, 2017

Nos sessenta anos do Tratado de Roma


A propósito dos 60 anos do Tratado de Roma, celebrados a 25 de Março com alguma cerimónia e descrição (tirando o discurso de Donald Tusk), em pleno processo do Brexit, lembrei-me, a propósito das nuvens negras que a UE atravessa e da contestação que sofre sendo o ponto culminante precisamente o referendo que deu no Brexit, daquela célebre frase popularizada durante a ditadura militar brasileira: "Ame-o ou deixe-o". Se é certo que a actual UE não desperta exactamente grandes amores, mais certo é que os tempos em que os "soberanistas" e nacionalistas dominavam deram nos piores desastres no Velho Continente. Não será preciso amá-la para não a deixar. Basta que não se limite a ser uma burocracia internacional, apenas importada com os procedimentos de cumprimento dos défices (e de apenas alguns países), e com outras "magnas questões", como a eventual proibição de fumar na praia ou a curvatura dos pepinos.

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terça-feira, março 21, 2017

Tudo na mesma menos as promessas da cantera.

 
Sim, o empate do Porto em casa com o Setúbal deu para rir uns minutos, mas depois passou. A azia da véspera ainda se fazia sentir, tanto pela exibição com pelo resultado. Só mudou mesmo a noção de que se calhar a confiança portista esbarra na pressão, tanto na que sofrem como na que exercem (teve de vir a queixa do costume emitida por um qualquer pasquim online a reclamar não sei quantos penaltys que teriam ficado por marcar contra o Porto, como se os mergulhos contassem como falta).
 
De resto, nada muda. O Benfica mantém-se líder com mais um ponto, o FCP anseia por lá chegar, e ambos medirão forças no jogo na Luz, daqui a quase duas semanas. É verdade que a equipa joga pouco e que há jogadores em claro sub-rendimento, para não falar das lesões (será normal não conseguir juntar a equipa ideal um único jogo este ano?). Mas não sei se a falta de traquejo dos jogadores portistas, como se observou nas competições europeias, não se fará sentir. O jogo pode decidi rmuito mas também deixar tudo na mesma, se houver empate. E a sorte do campeonato ficará submetida a eventuais tropeções no futuro - e recordemos que o Benfica ainda tem de ir a alvalade.
 
A única coisa realmente positiva destes jogos é que continuam a despontar jovens promessas benfiquistas. Bruno Varela, Fábio Cardoso e sobretudo João Carvalho, que marcou um portentoso golo ao Porto, lá estiveram a confirmar. Se este empate nos valer o campeonato, é outra mais-valia vinda do Seixal.

terça-feira, março 14, 2017

O descaramento do pequeno sultão


O sr. Erdogan, que tenta a difícil combinação de sultão com Ataturk, mandou prender recentemente milhares de militares, professores, magistrados e outros cargos supostamente mancomunados com o ex-aliado e actual pior inimigo Gullen, está com ideias de restaurar a pena de morte, persegue os curdos a ponto de poupar o DAESH e procura reforçar ainda mais os seus poderes através de um referendo próximo. Munido deste historial democrático, e para garantir mais votos, encarregou os seus ministros de fazerem uma digressão de propaganda pela Europa para participarem em comícios com as numerosas comunidades turcas que vivem na Alemanha e na Holanda. Como se sabe, os enviados governamentais foram impedidos pelas autoridades locais de fazerem campanhas em países que não o seu próprio, o que levou a veementes protestos por parte da Turquia e a que o próprio presidente apelidasse os holandeses de "racistas", "nazis", "covardes", etc, ao mesmo tempo que exigia pedidos de desculpa e que pedia sanções contra a Holanda. Entretanto, manifestantes turcos protestaram nas ruas de Amsterdão e Roterdão, antes de serem escorraçados pela polícia, o que serviu para novas ameaças de Erdogan.

Um absurdo próprio da época em que vivemos, bem ilustrativo dos já tão famosos "factos alternativos": um presidente prepotente e autoritário, com historial duvidoso no que ao respeito pelas liberdades fundamentais diz respeito, a insultar e ameaçar um país com uma democracia sólida e que se limitou a fazer cumprir as suas regras de forma exemplar (sem precisar de populistas como o sr. Wilders). Para mais, sabe-se que na Turquia não são permitidos comícios políticos feitos por emissários estrangeiros, e que os partidos curdos têm passado por inúmeras dificuldades sob a bota de Erdogan e dos seus sucessivos governos. De resto, um regime que permitiu deliberadamente que o DAESH entrasse nas suas próprias fronteiras a chamar "terroristas" à Alemanha e à Holanda, ou que chama indiscriminadamente "nazis" quanto perpetrou o primeiro genocídio do séc. XX sem que o tenha até agora reconhecido é o cúmulo dos cúmulos do descaramento. Definitivamente, Erdogan julga-se um novo sultão otomano, até na forma como ameaça a Europa ou se permite fazer propaganda agressiva nas ruas  de outros países. Esperemos que não haja Lepantos, cercos a capitais e outras coisas que julgávamos próprias de séculos passados. E os sultões de outrora eram certamente mais diplomáticos do que esta cópia barata.

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domingo, março 12, 2017

Em defesa do fato de três peças


 
Com boa vontade, pode-se dizer que o Inverno está perto do fim, o que  permitiu que nos últimos tempos um certo tipo de roupa, que se julgava ultrapassado e fora de uso, fizesse o seu reaparecimento, demonstrando uma vez mais que nos tempos que correm, as modas e o vestuário mais distintos nunca passam completamente (excepto as calças de boca de sino, graças a Deus). Sim, estou a falar do fato de três peças, esse ícone do aprumo.

Ultimamente não faltam políticos, jornalistas (José Rodrigues dos Santos, entre uma piscadela de olho e uma teoria política inventada na hora, não tira o seu fato tweed com colete), funcionários públicos, escritores, homens do desporto, etc, a retirar o seu casaco/calça/colete do armário onde esteve injustamente quase desterrado. António Costa já apareceu um par de vezes assim vestido. Rui Vitória, seja a deitar olhares de preocupação para dentro do relvado seja numa "flash-interview", já não passa sem o seu fato de três peças cinzento com gravata vermelha. E poderia citar mais um par de exemplos se a minha memória visual mo permitisse.

A verdade é que o fato de três peças já não é o "uniforme" usado por políticos conformistas dos anos 70 e 80, nem a decoração pirosa usada por alguns visionários datados na segunda meta de 90, em que os coletes emparelhavam com casacos de 5 botões, sendo eles próprios abotoados quase até ao nó da gravata. Agora regressou no seu modelo mais clássico, digno dos elegantes anos trinta, em que gentlemen e menos gentlemen não o dispensavam. Ao mesmo tempo, o revivalismo também conhece uma nova adaptação criativa, e os fatos já não são apenas às riscas, de tweed, ou lisos, combinando estilos variados e até cores entre eles, mesmo que os resultados nem sempre sejam satisfatórios. Mas para além da elegância e da ideia de aprumo que transmite, o colete é uma peça óptima para usar no Inverno sem que se torne supérfluo ou incómodo num ambiente interior, como aliás se prova nesta eficaz apologia, que me recorda que no Brasil se lhe dá o nome de "terno".
 
Deixemos pois o fato de três peças regressar à vontade. Acabemos com as últimas resistências. Tiremo-lo do armário, levemo-lo para a rua, para o trabalho, para festas e comemorações. Há que dar de novo a dignidade e a visibilidade que esta elegante combinação calças-casaco-colete merece. Façamos justiça ao fato de três peças e coloquemo-lo de novo onde ele deve estar, no panteão do vestuário quotidiano masculino.
 
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quinta-feira, março 09, 2017

Silêncio


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Já se estreou em Janeiro, já estará em poucos cinemas e já o discutiram amplamente, nos jornais, na net, em debates depois das sessões. Objecto de amplo debate e com assinalável êxito de bilheteira em Portugal para um filme deste tipo, Silêncio, de Martin Scorsese, um projecto pessoalíssimo do realizador americano, é uma obra desafiante, desconfortável, inquietante, que talvez não perdesse com um tudo de nada economia narrativa a mais, mas que cumpre o seu propósito.
 
A história dos dois jesuítas portugueses que partem para um Japão hostil ao cristianismo (em que a perseguição aos kakure kirishitan  está ao rubro e em que o mais leve vestígio da religião trazida pelos "bárbaros do Sul" é severamente punido) em busca do seu mestre, Cristóvão Ferreira, que terá cometido apostasia, é, como se sabe, uma adaptação do livro do escritor católico japonês Shusaku Endo, que Scorsese leu há já uns anos, tendo-se prontificado, desde então, a adaptar a obra ao grande ecrã. Já nos anos noventa João Mário Grilo o fizera, em parte, com Os Olhos da Ásia, agora oportunamente reexibido em algumas salas.
 
Provindos de Macau, os jesuítas Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (um nome inventado mas que lembra Pedro Arrupe, que seria superior-geral dos jesuítas e que esteve precisamente no Japão ao tempo da 2ª Guerra, interpretado por Adam Driver) chegam ao Japão em 1640, ano da Restauração e pouco tempo após a rebelião de Shimabara, após o qual o Xógunato, o regime militar japonês regente até ao Séc. XIX, reprimiu qualquer manifestação de cristianismo, considerando a religião perniciosa para a sociedade e a civilização japonesas, seguidoras do xintoísmo e influenciadas pelo budismo. O cristianismo viera com os portugueses cem anos antes, fora desenvolvido pelos jesuítas e chegara aos 300 mil fiéis, sobretudo na zona de Nagasaqui, a "Roma japonesa". A repressão começou em inícios do Séc. XVII e atingiu o ponto mais alto pouco antes da altura em que a acção de Silêncio se inicia.
 
Os dois padres chegam em sigilo ao misterioso Japão, e logo entram em contacto com os "cristãos escondidos", cujas práticas religiosas são feitas no maior secretismo. A partir daí segue-se um périplo que envolve ritos litúrgicos secretos, fugas, prisões, confronto entre culturas, a pesada mão da inquisição japonesa e o encontro enfim com Cristóvão Ferreira (Liam Neeson, num papel que chegou a estar entregue a Daniel Day-Lewis) e a revelação da sua real situação.
 
A interrogação central do filme - não podemos nunca renegar a Deus e aos seus símbolos, ainda que isso implique o martírio, ou devemos fazê-lo para nos salvar e sobretudo se a vida de outros depende disso? - deu azo a inúmeras discussões. A atitude moral de quem comete a apostasia "oficialmente", pisando uma imagem sagrada e repudiando publicamente a sua fé (mesmo que a conserve secretamente) é reprovável, ou pelo contrário, perfeitamente aceitável? Como pode alguém criticar o acto de outra quando esta passa por sofrimentos indizíveis? Ou quando pretende salvar outros da tortura e da morte? E por outro lado, que respeito haverá por aqueles que nem com a perda da vida renunciaram à fé, acreditando sempre na salvação eterna? Estas interrogações, ao mesmo tempo metafísicas e terrenas, perpassam ao longo de todo o filme, atormentando as personagens e os espectadores, sendo lançadas através de actos, de conversas, de meditações ou até, como o título indica, de silêncios. E revelam como ser cristão é tão difícil e que em momentos decisivos a vontade de Deus pode ser tão ambígua e difícil de descortinar.
 
Além da questão fulcral há outras laterais, igualmente interessantes. A abnegação dos "cristãos escondidos", que mesmo sob a ameaça da justiça e na sua própria terra, persistem em manter-se fiéis à cruz. A perseguição e as pesadas sentenças da inquisição japonesa, contemporânea da cristã, na altura também muito virulenta na Europa (e noutras paragens, como Goa), que surpreende porque representa uma doutrina supostamente pacífica e "não violenta" como o budismo, mas que nem por isso é menos brutal ou opressora do que as congéneres cristãs - provavelmente será ainda pior. A dupla faceta dos japoneses, civilizados e corteses e ao mesmo tempo brutais e impiedosos, características que tão bem se puderam verificar no séc. XX, em especial até à 2ª Guerra. E um conjunto de personagens intrigantes, não só os atormentados jesuítas, mas também aquela espécie de Judas nipónico, que traía e regressava sempre a pedir perdão, até à raia do imperdoável, ou o inquisidor, que do alto do seu poder implacável, exprime-se quase sempre de forma tranquila, quase com bonomia, demonstrando um conhecimento e de certo modo alguma admiração pelo cristianismo, mas recusando-o absolutamente, e lançando questões curiosas.
 
E evidentemente, há o interesse de ver uma produção americana, de um dos mais conhecidos realizadores da actualidade, ser protagonizada por personagens portuguesas e entrever a expansão portuguesa no mundo. Não é todos os anos que um filme de exibição planetária que também aborda a história de Portugal aparece nos cinemas.
 
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Todos estes elementos atravessam um filme com mais de duas horas e meia de duração, que com cenas mais dramáticas e outras mais meditativas, acaba por cumprir o propósito de Scorsese. Que não era nada fácil, reconheçamo-lo. E que não teve um grande retorno de bilheteira, já que parece que nos Estados Unidos o filme não terá atraído grandemente as atenções (nem a curiosidade dos Óscares, nomeado que estava apenas para Melhor Fotografia, que previsivelmente não ganhou). Mas o propósito de discussão da tese central ficou amplamente ganha. Aqueles a quem a obra dizia alguma coisa puderam visioná-la e discuti-la, a começar pelo Papa, a quem o realizador reservou uma sessão especial no Vaticano. E recordou de novo uma comunidade perseguida e em parte esquecida, cujos antepassados puderam revisitar e que tanto diz aos portugueses, como irmãos longínquos e necessitados que não se esqueceram que uns "Bárbaros do Sul" foram ao seu encontro e lhes levaram uma doutrina que para muitos significou a perseguição e a morte, mas que para todos era sinónimo de Salvação.
 

sexta-feira, março 03, 2017

As improbabilidades das presidenciais francesas


As eleições presidenciais francesas estão cada vez mais animadas, ou mais confusas, se preferirem. Aqui há meses, os socialistas estavam arrumados, Hollande em cheque, Marine LePen em alta e esperava-se que o seu adversário, e mais que provável futuro presidente, fosse Allain Juppé, vencedor antecipado das primárias de direita. Mas os votantes, surpreendentemente, preferiram eleger como candidato o antigo primeiro-ministro (cargo em tempos exercido também por Juppé) François Fillon, não sem antes dar uma votação humilhante a Nicolas Sarkozy. Fillon, tido como íntegro e sério, tornou-se por sua vez no "futuro presidente", até rebentar a história do emprego atribuído à própria mulher, como sua assessora, sumptuosamente pago e comprovadamente pouco exercido, que resultou num tremendo golpe no seu favoritismo. Emanuel Macron, ex-ministro de governos socialistas, mas sem o apoio do PSF, que preferiu Benoit Hamon, e que lançara o movimento social-liberal En Marche, viu-se assim guindado à preferência na segunda volta, embora as sondagens continuassem a pôr Marine LePen como vencedora da primeira. Entretanto, a própria LePen viu-se metida num caso de atribuição abusiva de fundos, embora, tal como Fillon, invoque supostas conspirações contra a sua candidatura.
Com apoios à esquerda e à direita, colhendo simpatias na Europa e sendo uma lufada de ar fresco na classe política francesa, tudo indicava, até hoje, que Macron seria mesmo o próximo ocupante do Eliseu, mas entretanto, uma sondagem indicou que caso Fillon desistisse e Juppé fosse repescado, seria este o grande favorito à vitória, tanto na primeira volta como na segunda, além de que LePen ficaria em terceiro lugar. A acontecer, o que é duvidoso, porque Fillon mantém-se inflexível e até convocou uma manifestação de desagravo, apesar das deserções nas hostes, seria uma enorme reviravolta em todo este atribulado processo eleitoral, e faria com que o favorito de há meses, entretanto descartado, voltasse subitamente às preferências dos franceses, além de que a decisiva luta abandonaria os extremos e centrar-se-ia no centro, passe a redundância.
 
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Improvável, sim. Mas improbabilidades é o que não tem faltado nesta campanha pré-eleitoral francesa.

terça-feira, fevereiro 28, 2017

Óscares 2016 (que não vi)


Ao contrário de anos anteriores, quase não dei pela cerimónia dos Óscares. Nem pelos prémios (com excepção do de Melhor Actriz Secundária, entregue a Viola Davis, quando de súbito me lembrei de ligar a televisão para a apagar pouco depois), nem pela passadeira vermelha, nem pelas piadinhas de quem apresentava (e a propósito, não fazia ideia de quem era o "anfitrião", e menos ainda quem era Jimmy kimmel). Perdi assim o momento da que é provavelmente a maior gaffe da história destes prémios, e que apanhou injustamente os gloriosos Warren Beaty e Faye Dunaway, mas que serviu também para dar algum sal à coisa (e logo vieram as piadinhas de que seria uma sabotagem de Trump ou dos russos).
Mas a razão do meu desinteresse era o de não ter visto nem estar grandemente interessado nos filmes postos à nomeação. Tenho alguns em agenda, mas quase nenhum constava na lista da "Academia". E nem sequer sabia que gente estimável como Jeff Bridges ou Viggo Mortensen estava entre os nomeados, até porque os que ganham são sempre muito mais referidos (Meryl Streep também estava lá, mas dá-me ideia que o hábito é de tal forma que qualquer dia a nomeiam por engano mesmo que não entre em nenhum filme)  
O que me fica, olhando para as nomeações e para os premiados, é que esta cerimónia teve um carácter político e social que extravasou em muito o mérito artístico dos filmes que estavam a concurso. Uma mal disfarçada reacção à polémica do ano passado, em que não aparecia qualquer negro nomeado, deu origem a uma cascata de nomeações para actores negros (para actriz secundária, ganho justamente por Viola Davis, em cinco concorrentes três eram negras, uma percentagem bastante maior do que na população americana) e filmes sobre o racismo na América, tendo aliás o galardão principal ido para "Moonligh", exemplo disso mesmo, para mais com a caricata atribuição depois da hora, que ainda realça mais essa hegemonia. O slogan "oscars so white" era muito 2016. 2017 é o "oscars so black". Não há fome que não dê em fartura. E mesmo assim, Denzel Washington falhou a segunda estatueta. é assim, Hollywood.

sábado, fevereiro 25, 2017

Almada em Moledo


Em 1934, Almada Negreiros e Sarah Afonso passaram férias de Verão em Moledo, em casa de António Pedro, antes deste se mudar definitivamente para a aldeia minhota, onde morreria em Agosto de 1966. Entre idas ao areal e convívios vários entre outras figuras das artes e das letras, criaram-se numerosos programas. Um deles consistiu numa ida de barca à Ínsua (para quem não saiba, é uma ilhota entre a desembocadura do rio Minho e a praia de Moledo, face a o início de Espanha) e um piquenique. À vinda, as condições do mar, que ali tem correntes traiçoeiras, iam provocando sérios problemas ao barco, mas tudo se resolveu. Isso inspirou Almada a criar um pequeno filme animado, em formato "lanterna mágica", com 64 desenhos em papel de seda, mudo e com legendas, recriando o quase-naufrágio, e produzido pela efemeramente inventada "Moledo Filmes", para animar os serões de convívio. "O Naufrágio da Ínsua" esteve todos estes anos escondido do público e dos especialistas, até ser reencontrado e exibido agora na monumental exposição na Gulbenkian, até 2 de Junho, e que mostra 400 obras de Almada, das mais icónicas e reconhecíveis às até agora desconhecidas, como este simpático inédito de animação que pode ser visto no piso de baixo. Um aviso: a exposição não se despacha numa simples hora. Vale a pena visitá-la com calma. Permite-nos revisitar Almada e os seus estilos diversos, conhecer novas obras e até saber que já nos anos trinta Moledo era destino de férias e de encontros entre as gentes das artes e das letras, muito antes de se tornar a praia conhecida que é hoje, tantas vezes caricaturada como apenas um local ventoso e elitista.








quinta-feira, fevereiro 16, 2017

Felicidade com atraso


A vitória sobre o Borussia Dortmund é uma das mais felizes que o Benfica já teve. Por muito que pense, não me recordo de um jogo em que tenhamos sido tão dominados e ao mesmo tempo, tenhamos criado tão poucas oportunidades de golo com tanta eficácia. Claro que há triunfos de sorte, como no ano passado no Bessa, mas com o adversário a criar tantas oportunidades é ainda mais raro. Perante os desacertos de Aubemayang, os desperdícios dos companheiros, a macieza do meio-campo do Benfica e a placidez de Eliseu e de Rafa, valeu-nos o sentido de oportunidade de Mitroglou, a experiência encorajadora de Luisão e uma exibição imperial de Edersson (como é que ele conseguiu defender aquela bola lá para os 83`?). Na segunda mão já sabemos com o que contar: um estádio intimidatório com oitenta mil alemães a ulular e a agitar pendões amarelos, uma equipa do Dortmund ainda mais agressiva e a necessidade premente que tem em ultrapassar a eliminatória (além do objectivo em si mesmo), não só porque as coisas na Bundesliga não correm pelo melhor mas porque tem o orgulho ferido.

Mas se o Benfica teve grande felicidade agora, para os que acreditam no Karma e ains talvez tenha havido alguma justiça histórica: é que em 1963, já lá vão mais de 50 anos, na altura em que o Benfica dominava a Europa e contava com Eusébio e mais dez craques na equipa principal, recebeu precisamente o Dortmund na Luz e venceu-o por meros 2-1. Uma magra vitória acompanhada de um record de bolas à barra: nada menos que seis. E na segunda mão, sem Eusébio levou uma surpreendente goleada de 5-0. imagine-se agora se das 6 bolas ao ferro tivessem entrado 5 e o "Pantera Negra" tivesse jogado: mesmo com ma pesada derrota, o Benfica seguia em frente. Por isso, a sorte de agora é a paga do azar de meio século. Ah, e registe-se que os alemães quase limparam a folha clínica ao passo que o Benfica jogou sem Jonas e mais uns quantos. Isto da sorte tem muito que se lhe diga.

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terça-feira, fevereiro 14, 2017

Diz que sou um terrorista


Fiquei ontem a saber que sou um terrorista (sem aspas), um ultraconservador e um "manipulador de imagens chocantes" para "sujeitar maiores e menores a uma distorção obscena da realidade". Toda essa acusação consta do artigo de Alexandra Lucas Coelho no Público de segunda-feira. Já tinha reparado num certo radicalismo fracturante da colunista do diário (então ela não tinha sido despedida?), mas nunca tinha pensando que para ela, as pessoas que, como eu, defenderam o "não" nos referendos ao aborto - e eu fi-lo tanto em 1998 como em 2007 -  eram terroristas. Sem tirar nem pôr. Já agora, por esse critério, o actual Presidente da República e o SG da ONU também constam do rol. Para além da virulência dos termos, há outros dois aspectos que sobressaem: um é a não aceitação de resultados eleitorais que a desgostem, como prova ao dizer que a vitória do "não" em 1998 fazia crer que Portugal não era um estado democrático nem laico (ou seja, para Lucas Coelho se os resultados não forem os que pretende, então já não são democráticos, e o facto de as pessoas exprimirem valores de origem religiosa é em si mesmo um atentado à laicidade do estado); outro é a maneira como atira grosseiramente aos outros aspectos que mais depressa se colariam ao seu "lado": a tal manipulação de imagens chocantes", que se bem entendo, eram as diferentes formas de realizar abortos. As imagens podiam causar choque, mas não eram falsas nem sujeitas a alterações de fotoshop. Já inúmeros cartazes a favor do "sim" eram recriações grotescas, sobretudo os da autoria do PSR (pouco antes da formação do Bloco), com óbvios intuitos anticlericais (mas então a laicidade...?)

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O que resta é que, dez anos depois do referendo que lhes deu a vitória, e mesmo recusando absolutamente qualquer outra hipótese de tal instrumento de voto directo, alguns vencedores de então continuam a mostrar uma incrível raiva pelos que pensam de outra forma, ainda por cima com argumentos da mais primário desonestidade intelectual acompanhados de insultos infantis. Daqui não pode sair nenhuma discussão válida. E continuam, na sua arenga, sem fazer uma, mas uma que seja, referência ao cerne da questão: áqueles a quem tiram o direito de nascer.

domingo, fevereiro 12, 2017

Uma questão de traçados


Foram revelados esta semana os projectos da expansão do Metro do Porto. Um era expectável e desejável: a continuação da linha amarela, de Gaia, até à imensa Vila d´Este, passando pela Hospital de Gaia, facilitando a deslocação a uns bons milhares de pessoas.
 
O outro é uma enorme surpresa, mas a avaliar pelas reacções, a começar pela minha, nem por isso das mais agradáveis. Uma linha a ligar a Casa da Música ao...Hospital de Santo António, via praça da Galiza? Para quê?
 
Ao que parece, e não se adiantou muito mais, servirá para retirar tráfego automóvel áquele eixo (que se resume à rotunda, Júlio Dinis e D. Manuel II) e para que o Hospital fique mais bem servido. Não era preciso explicações para se perceber o objectivo, claro como a água. Mas porquê esse traçado, porquê essa opção de trajecto?

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Já se discutiram duas opções de traçado: a linha da Boavista, que ligando a Matosinhos subiria a avenida até à Casa da Música, percorrendo à superfície o antigo trajecto do eléctrico (a linha 19). Tinha a vantagem de ser mais económico, mas a verdade é que no troço inicial da avenida, sobretudo na parte que confina com o Parque da Cidade, serviria muito pouca população. Creio que com as obras posteriores, que inviabilizam qualquer opção de linha electrificada, esse projecto ficou definitivamente posto de parte.
A outra opção era mais dispendiosa e demorada, mas muito mais abrangente. A linha do Campo Alegre viria também de Matosinhos, mas atravessaria à superfície o Parque da Cidade, "enterrando-se" antes de chegar à avenida, regressando à superfície apenas na zona do Fluvial e de D. Pedro V, até para evitar cursos de água subterrâneos. Faria assim a ligação de toda a zona ocidental do Porto, de parte da Boavista e do pólo universitário do Campo Alegre com a Baixa, incluindo, sim, o Hospital de Santo António. Ou seja, ligaria quase meia cidade ao centro. Tendo em conta a complexidade e onerabilidade de tal projecto, é de temer que tenha ficado indefinidamente na gaveta, em lugar deste outro para o qual não se vê grande valia. Para mais, Rui Moreira era adepto deste traçado.
 
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Não é um exclusivo do Porto: também em Lisboa, e com tanta gente há anos à espera da ligação do metro às zonas ocidentais, resolveram inflectir a linha do Rato para o Cais do Sodré, apanhando apenas a zona de Santos e deixando o resto como estava. Vá-se lá saber...
Com este, já são dois os grandes anúncios tipo balão de ar esvaziado que a câmara lançou. O outro é aquela votação do Porto como melhor destino turístico europeu para 2017, uma votação online à qual, francamente deram demasiado crédito.
 
O anúncio verdadeiramente positivo, e provavelmente menos divulgado, acabou por ser o do terminal intermodal de Campanhã, que facilitará o sistema de transportes na zona oriental e à volta da estação, que era até agora um baldio suburbano vergonhoso. Dir-se-à que estamos em ano de eleições, mas a verdade é que este era mesmo um dos projectos-chave do programa de Moreira em 2013.

quinta-feira, fevereiro 09, 2017

Os videos dos Rockin 1000


Tem gerado algum entusiasmo a interpretação do célebre hino dos Nirvana, Smells Like Teen Spirit, pelo grupo eventual conhecido como Rockin 1000. O nome é fácil de perceber: consiste em cerca de mil músicos, ou mais, que interpretam em simultâneo canções rock conhecidas, com efeitos sonoros surpreendentes (e potentes, que é provavelmente o maior objectivo de um tal projecto).



O grupo, que parece ser particularmente fã dos Nirvana e sucessores, apareceu em Itália, em 2015, quando alguém teve a ideia de tocar Learn to Fly, dos Foo Fighters ( o grupo liderado por Dave Grohl, precisamente o baterista dos Nirvana), como forma de chamar a atenção à banda americana e conseguir levá-la a Cesena, o que, segundo a Wikipedia, aconteceu mesmo.

 


Mas já que se fala em Learn to Fly, é justo que se deixe aqui o videoclip original, talvez um dos mais divertidos e imaginativos da história do rock. Para além do enredo burlesco, os membros da banda fazem várias personagens ao mesmo tempo - Grohl, por exemplo, consegue interpretar o piloto do avião, um comissário de bordo efeminado, uma passageira obesa, outra teenager e fã da banda, e ainda um agente do FBI, além de fazer de si próprio, tal como os companheiros. Ah, e Jack Black também faz uma perninha no vídeo.


sábado, fevereiro 04, 2017

Estaline como nova moda

 
Nos últimos dias, e por toda a parte, podemos encontrar a cara laroca de Estaline. Biografias distribuídas pelo Expresso, livros sobre os seus últimos dias, documentários na televisão, séries, ensaios, filmes (com o Depardieu a protagonizar e realização de Fanny Ardant tendo como cenário de fundo...o Buçaco)...Mas se não há nenhuma efeméride a comemorar - excepto os cem anos das revoluções russas - porque é que se desatou de repente a recordar tanto o "pai dos povos"? Para contrapô-lo a Hitler? Já passou demasiado tempo e é uma figura meramente histórica? Ou por causa desta vaga de autoritarismo? Estaline pode estar de certa forma na moda, mas nada explica o porquê deste interesse súbito pelo paranóico georgiano que dominou o Kremlin e o maior país do Mundo durante 30 anos.
 
 

terça-feira, janeiro 31, 2017

Defender as fronteiras da good old América

 

Brigada norte-americana de bons costumes, leal ao Presidente Trump, impede a entrada nos Estados Unidos de forasteiros irlandeses de países muçulmanos (da Arábia Saudita não, também não é preciso exagerar), antes que eles conspurquem a nação com os seus hábitos e costumes religiosos odiosos, com as suas intenções malévolas e ameacem a liberdade reinante.

terça-feira, janeiro 24, 2017

O discurso de Trump


A tomada de posse de Donald Trump, mergulhada na polémica do início ao fim, e portanto fiel ao empossado, continua a fazer correr tinta, como seria de esperar. O número de populares, a forma como cumprimentou ou não cumprimentou, a ausência de artistas de primeira linha, a pobreza de vocabulário, o estilo eleitoralista e sectário, a maneira como se dirigiu aos que o rodeavam, o próprio baile que se seguiu, tudo contribuiu para intermináveis discussões que ainda se prolongam. Dois aspectos particularmente maus: o conteúdo do discurso em si e as manifestações contra. Proferiu uma miserável arenga de campanha, absolutamente divisionista, que em nada servirá para unir o país. Desfiou uma data de chavões, de frases feitas básicas e de slogans populistas, prometendo tudo e mais alguma coisa como se fosse mágico ou omnipotente. A frase que melhor resume é esta (referindo-se ao crime de rua): "this american carnage stops right here and stops right now". Até agora, não parece que o crime tenha desaparecido. E mais prometeu que se acabaria a desobediência com a polícia. Se as coisas já andavam tensas nessa matéria, é de esperar o pior (irá ordenar à polícia que massacre quem lhe desobedeça?). E o mesmo se aplica ao radicalismo islâmico, que prometeu "erradicar". E, como muito repararam, não se referiu uma única vez ao valores americanos nem aos founding fathers ou a qualquer outra figura histórica.

Eis a face de Trump, e os seus aspectos mais negativos: mais do que o ar de boss e a inspiração em alguns dos piores aspectos dos Estados Unidos, mais do que a incapacidade discursiva e o ar de gorila alaranjado, é esta convicção de que tudo pode e de que não tem de ouvir ninguém, ou pelo menos ninguém fora do seu círculo, que o torna mais perigoso. Já é o Presidente americano e já demonstra todo a sua incapacidade e falta de estaleca para o cargo. Pormenor lateral mas ilustrativo: o tipo nem sabe apertar devidamente o casaco e apresentou-se ao mundo com a gravata a esvoaçar.

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E depois o outro aspecto negativo, esse nos antípodas: as manifestações violentas de grupelhos como o Black Bloc, que para onde vão, divertem-se a partir montras e carros e a atirar objectos à polícia. Tendo em conta que em Washington quase ninguém votou em Trump, é caso para perguntar qual é a culpa das montras. Claro que não é nenhuma, mas é o pretexto mínimo para que grupos de marginais e cultores de violência urbana possam dar azo aos seus passatempos. Depois não admira que parte da população vote nos Trumps desta vida, que prometem a erradicação do crime e da violência das ruas. São alimento recíproco e pasto para disparates dos dois lados. No fundo estão todos bem uns para os outros.

segunda-feira, janeiro 16, 2017

Treze


Treze é um número aziago. O número do azar, da má fortuna, de dias temerosos que impõem receios, de crenças mais ou menos infundadas, de tradições obscuras e bruxarias imaginadas. E também é o número de anos em que eu ando nisto. Este blogue faz esta noite treze anos (não sei ao certo a que horas nasceu, mas por esta altura em que escrevo, e precisamente no quarto onde me encontro), e como tal entra na adolescência. Como se sabe, é a pior das idades. Não fiquem espantados se houver manifestações próprias da "idade do armário".
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Interrogações com resposta vaga


Há os desaparecimentos públicos e depois há os que, não sendo de notoriedades, nos são mais próximos. A grande diferença para os primeiros é que não temos um resumo da sua vida, as suas memórias ou as suas imagens ali à mão de semear. E aí temos de ser nós a ir buscá-las, a recordá-las com os outro, a comparar recordações e a trocá-las, como cromos de uma caderneta que no fundo é a biografia do que nos deixou.
As memórias privadas são mais íntimas e mais valiosas, e não apenas por causa do evidente valor de proximidade. São-no porque exigem um trabalho de busca e de rememoração que trabalho jornalístico algum, por mais bem feito e intencionado que seja, nos pode dar.

E que fazer quando o desaparecimento atinge uma pessoa na força da idade, de que se diz que tanto poderia dar ainda e que para mais marca aqueles que a rodeiam? Como é que se reage? Como é que aqueles que estão próximos podem preencher o vazio? Quando morre alguém de idade avançada fica a tristeza do momento, a enumeração das suas virtudes, a saudade. Mas nunca é exactamente visto como uma tragédia. Quando desaparece alguém mais novo, há a sensação natural de que uma missão no Mundo ficou por cumprir, e um enorme e doloroso sentimento de perda. Mesmo para quem crê e que sabe que a morte física é apenas uma passagem para algo de diferente.

O tempo apaga a dores, dizem. E se não apaga atenua-as. As recordações mais preciosas ajudam também. A seguir em frente, na vida de todos os dias. Nunca gostei muito dessa frase tecnocrática e prosaica -  "a vida continua" - mas em parte é verdade, para os que vão ficando. A vida continua amparada na passagem do tempo, nas recordações e na convivência com o(s que nos são) próximo(s). E na crença de algo superior e na sua sagrada promessa de uma existência diferente e melhor, em que mesmo os mais cépticos no fundo crêem. O resto são as interrogações naturais que esta frágil espécie se coloca desde sempre e para sempre, sem chegar a qualquer conclusão material em vida terrena, por muito que a ciência, em vão, o tente. 

quarta-feira, janeiro 11, 2017

Outros desaparecimentos


E enquanto se carpia Mário Soares, partiam também Guilherme Pinto e Daniel Serrão. A notícia maior eclipsou um pouco as suas mortes, talvez por não serem muito inesperadas. Pinto tinha justamente renunciado ao cargo de presidente da câmara de Matosinhos, que só teria efeitos a parir de Fevereiro, e não resistiu a ma doença cancerígena que já o afectava há anos. Anda conseguiu refiliar-se no PS, ele, que em 2013 tinha reconquistado a câmara com maioria absoluta e estatuto de independente, depois de uma lamentável jogada do aparelho socialista local. Conheço pessoas que lhe devem a sua (boa) situação habitacional e que certamente não o esquecerão. Um bom autarca que parte cedo demais.
Também a morte de Daniel Serrão não constituiu propriamente surpresa. Estava bastante fragilizado desde o estúpido atropelamento de que fora vítima, há dois anos. Serrão, que era de Vila Real com a minha família e vivia no Porto tal como eu, será sobretudo recordado como o grande pioneiro e divulgador da bioética em Portugal e até a nível internacional, e um exemplo de como se pode reunir harmoniosamente a ciência e a fé religiosa.

E para além disso, desapareceu também Zygmunt Bauman, um pensador que bem merece ser lido na época efémera e precária em que vivemos. E para além de Mário soares, também morreram outros dois ex-chefes de estado dos anos 80-90: Roman Herzog, antigo presidente da Alemanha, e Rafsanjani, o antigo presidente iraniano que ajudou a desanuviar a regime dos ayattolahs. Fará provavelmente falta aos sectores mais contestatários da teocracia iraniana. Para já, 2017 não deve nada a 2016.

terça-feira, janeiro 10, 2017

Mário Soares 1924 - 2017


Nunca é fácil resumir o epitáfio do político que representa o regime em que vivemos e o mais representativo do nosso país no último meio século. Mas para começar, Mário Soares é daquelas personalidades que faz parte do meu imaginário desde sempre e que não me lembro de não conhecer. Era ainda pequeno mas soletrava os políticos que conhecia e que eram na altura os mais relevantes do país: Soares (o "bochechas"), Eanes (o "rameanes"),  Balsemão (o "balsas"), o Freitas e o Cunhal. Destes cinco, três ainda estão vivos. Recordo-me ainda de outros, como Mota Pinto, mas os principais eram mesmo aqueles.

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Mário Soares era uma personagem de paixões, e que provoca ele mesmo paixões e ódios. E é, ao mesmo tempo, uma personagem atípica: foge à austeridade que caracteriza boa parte dos políticos portugueses (desde os da 1ª república e da "ética republicana", passando por Salazar, até Cunhal, Cavaco, Eanes e mesmo Passos Coelho), era um bon-vivant, um optimista, não era um mouro de trabalho nem nunca se preocupou em dar essa imagem, nunca se destacou como um aluno brilhante nem por trabalhos académicos e intelectuais, apesar de ter uma enorme bagagem literária, e teve sempre grande empatia com as massas.

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Todas essas características fazem dele uma personagem à parte na política portuguesa. A isso será sempre obrigatório juntar-lhe Maria Barroso, que esteve quase setenta anos ao seu lado, que se tornaria na Primeira Dama mais popular entre os portugueses, e cuja perda, há ano e meio, contribuiu visivelmente para o seu declínio.

Resumamos o seu percurso: filho de um ministro republicano católico, fundador do Colégio Moderno, ainda hoje pertencente à família, chegou a pertencer ao PCP, participou nas campanhas do MUD, conheceu Norton de Matos, Humberto Delgado e Jaime Cortesão, esteve preso várias vezes (casou-sena prisão, por procuração), chegou a ser deportado para S. Tomé e acabou por se estabelecer em Paris, onde conheceu inúmeras figuras internacionais ligados à Internacional socialista, como Mitterand, Willy Brandt, Felipe González e Olof Palme. Pelo meio fundou a Acção Socialista Portuguesa, que daria origem, em 1973, ao Partido Socialista. Voltou a Portugal na sequência do 25 de Abril, conseguiu tornar o PS num dos principais actores políticos do momento, e depois de algum tempo de manifestações comuns, dá-se o afastamento em relacção ao PCP, agravado com a radicalização da situação, o 11 de Março e o caso do jornal República, ligado ao PS. Realizam-se as eleições para a Assembleia Constituinte, que o PS ganha claramente, deixando o PCP e restantes satélites com resultados muito abaixo do esperado, mas nem por isso abrandando o PREC. Soares encarna a resistência na rua ao governo de Vasco Gonçalves e ao crescente domínio do PCP e dos militares esquerdistas, com grandes comícios como o da Alameda, em Lisboa, e das Antas, no Porto, que mostraram que nem todo o país pretendia uma "democracia popular", como aliás as urnas o demonstraram. Ainda em Novembro, com garantias de protecção dos Estados Unidos (onde Kissinger achava que Portugal seria a "Cuba da Europa"), Soares realiza novos comícios antes da tentativa de golpe da extrema-esquerda, sufocada pela reacção dos comandos e dos militares moderados a 25 de Novembro. com a situação normalizada, Soares assumiu o cargo de Primeiro-Ministro depois de ganhar as eleições de 1976. Com a economia de rastos e sem maioria parlamentar, teve chamar o FMI e de ensaiar várias soluções governativas, antes das iniciativas presidenciais o tirarem do governo. Seguiram-se os conflitos internos por causa da sua recusa em apoiar Eanes para novo mandato, a derrota perante a AD de Sá Carneiro, até ao regresso às vitórias em 1983, e a necessidade do acordo do bloco Central, de nova vinda do FMI e de dois anos de pesada austeridade, culminando na adesão à CEE, um dos grandes objectivos de Soares. A esse triunfo seguiu-se a derrota mais pesada, com o PS a obter apenas 20%, pouco mais que o novo PRD inspirado por Eanes, e que permitiram a Cavaco Silva e ao PSD formar o seu primeiro governo. Depois, o combate mais condenado à partida que já houve em Portugal nas últimas décadas: Soares lançou-se às presidenciais de 1986 com apenas 8% de intenções de voto, contra Freitas do Amaral, apoiado pelo CDS e PSD, que congregava toda a direita, o seu velho ex-amigo Salgado Zenha, apoiado por PCP e PRD, e Maria de Lurdes Pintassilgo, apoiada por parte da esquerda. Acabou por suplantar os dois últimos, obrigou Freitas a ir à segunda volta, obrigou Cunhal a engolir um "sapo" e a votar nele, e venceria com ligeiro avanço, transformando uma derrota certa numa vitória quase impossível. Vieram depois os dez anos presidenciais, a coabitação nem sempre fácil com Cavaco (a quem de certo modo deu a sua primeira maioria absoluta), o estilo régio combinando com à vontade nos meios populares, e uma imensa popularidade que levou a que o próprio PSD o apoiasse na reeleição onde ganhou com incríveis 70%. Acabada a presidência, Soares tornou-se um senador sempre interventivo, voltando ao combate político como cabeça de lista pelo PS ao Parlamento Europeu nas europeias de 1999, que venceria, e já mais tarde, depois de aos oitenta anos pronunciar um sonoro "basta de política", resolveu lançar-se numa inglória corrida de novo à presidência da república, aos 81 anos e contra o apoio da família e amigos, contra Cavaco Silva e o anteriormente amigo Manuel Alegre, culminando num modesto terceiro lugar. Seguiram-se anos de intervenção política, os últimos já penosos, em que verificou uma guinada à esquerda e severas contradições com o que tinha defendido em tempos. Mas a importância política de Soares tinha ficado lá atrás.

Este homem teve inúmeras qualidades, como a coragem, o optimismo, a determinação inquebrantável, o à vontade e a absoluta recusa em agradar a gregos e troianos, o apego à liberdade e a lealdade aos amigos. E também muitos defeitos, como a arrogância política e imenso sentido de superioridade (para não ir mais atrás recordo os debates com Cavaco em 2006), inabilidade executiva, desconhecimento de dossiers, desprezo pela coisa pública, com se viu com os montantes gastos na pós-presidência e na sua fundação, e...excessiva lealdade aos amigos, alguns deles de duvidosa credibilidade (Craxi, Sócrates, Andrez Perez, mesmo Mitterand). Este homem não deixou ninguém indiferente, e é talvez o político mais amado e odiado dos últimos cinquenta anos. Se por um lado teve inúmeros amigos, por outro arranjou outros tantos inimigos - Marcelo Caetano, Cunhal, Eanes (com quem faria as pazes), Cavaco, e, a mais dolorosa, Salgado Zenha, outrora um amigo inseparável e com quem nunca conseguiu reconciliar-se. O que significa que deixou uma forte marca e que era realmente um político total, em todo o sentido da palavra. Pôde-se ver agora, por um lado nas imensas cerimónias de estado, nas declarações de líderes estrangeiros e na imprensa internacional, na emoção das pessoas à passagem dos restos mortais; mas também nas redes sociais, com o seu habitual lavar de roupa suja, declarações de ódio e acusações de toda a sorte, algumas completamente absurdas - culpas totais na descolonização (coisa aliás desmentida por pessoas como D. Duarte de Bragança, que afirmou que Soares merecia ir para o Panteão Nacional, ou Ribeiro e Castro, no caso particular de Moçambique), morte de Sá Carneiro, e até uma verdadeira e feliz - o fim da revolução - e outras que provavelmente só com o tempo poderão ser validadas ou descredibilizadas.

Este homem com imensos defeitos é provavelmente o principal responsável por Portugal ser um país livre e pertencente por direito próprio à União Europeia. Mesmo por todas as questões em que discordei dele, e nos últimos anos foram quase todas, não deixarei de lhe agradecer. Se discordo dele publicamente, a ele sobretudo se deve.

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Soares entrou justamente na História de Portugal com um relevantíssimo papel. Está para a 3ª República como Afonso Costa para a 1ª e Salazar para o Estado Novo. Com uma diferença essencial, para além de outras também importantes: ganhou esse papel com o voto dos portugueses e não impondo-se a eles. Eis o que diferencia o "Bochechas" dos outros. E isso é realmente fixe.
 
Que descanse em paz.

quarta-feira, janeiro 04, 2017

Bodas de prata de uma discografia excepcional


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Já estamos em 2017, mas como o ano mal começou e não há ainda grande história, lembrei-me que 2016 tinha sido um ano de bodas de prata para uma época incrível da música pop-rock, sobretudo a do outro lado do Atlântico, e que valia a pena fazer um apanhado.

Em 1991, já há 25 anos, em que Portugal entrou assistindo ao Crime na Pensão Estrelinha, que em poucas horas revelou um par de criações fantásticas de Herman José, foram lançados uma quantidade rara de álbuns que entraram para a história do pop-rock. Começo pelos meus favoritos: Out of Time, onde se insere a hipnotizante Losing My Religion, levou os REM ao grande público, à venda de milhões de discos e a um patamar reservado aos nomes maiores do rock americano, de onde não mais sairiam (e que confirmariam um ano depois, com o muito diferente mais genial Automatic for the People).


Também os U2 fizeram aqui uma viragem na carreira, até de imagem, com o seu Achtung Baby, influenciado, como o próprio nome indica, por Berlim, um disco ligeiramente mais electrónico que os anteriores, menos "militante", ou menos espiritual, mais virado para a mediatização contemporânea, seguido de digressão sofisticada e feérica. Nem por isso deixou de vender milhões em todo o mundo.

E depois, claro, 1991 é o ano do aparecimento súbito do grunge, com os Nirvana à cabeça de um esquadrão de grupos, de Seattle e não só, que ganhou notoriedade sob o uniforme desse subgénero do rock menos polido, mais cru, sem laivos de romantismos charoposos ou metalices inconsequentes. Kurt Cobain quis fazer uma canção "à Pixies", de quem era fã, e saiu Smells Like Teen Spirit, que rebentou pelas MTV fora e levou Nevermind a um dos discos mais idolatrados, vendidos e estudados desses anos. Atrás dele vieram Ten, portentosa estreia dos Pearl Jam, que se tornaria numa das maiores bandas rock das duas décadas seguintes, Badmotorfinger, dos Soundgarden, e, mais discretamente, um disco, Gish,  de um grupo que daria muito que falar poucos anos depois: os Smashing Pumpkins. E curiosamente, os Pixies, que tanto influenciaram Kobain, também lançaram o seu Trompe leMonde, mas nem de longe nem de perto com tanto impacto comercial, ainda que tenham continuado a ser um grupo de culto.

Também nos Estados Unidos, os Metallica levaram o seu Black Album a números e a um êxito junto do público que o heavy metal até aí não tinha conhecido. Deixava de ser um nicho de mercado para passar a ser música de estádio para as grandes massas (ou que não significou necessariamente falta de qualidade, mas algumas "baladas" como Nothing Else Matters ajudaram a chegar a novos públicos).

E também o funk rock ganhou nova visibilidade com o enorme êxito que Blood Sugar Sex Magic, a opus dos Red hot Chili Peppers (até Californication), teve em todo o Mundo, não só nesse ano como nos seguintes, com os riffs mágicos das guitarra em refrões de músicas como Give It Away ou no início de Under the Bridge.

E depois, aquela que era provavelmente a banda mais popular do mundo no início da década não podia ficar de fora. Os Gun´s Roses, pois claro, lançaram não um, mas dois álbuns ao mesmo tempo, Use Your Ilusion I e II, que como não podia deixar de ser, treparam as tabelas de vendas. Aos singles, entre os quais algumas baladas longuíssimas, como November Rain e Don´t Cry , tinham videoclips com  pretensiosismo q.b.. E não faltava também um cover, Knockin on Heaven´s Door, um original de Bob Dylan que se ouvia por toda a parte no Verão de 1992. Mas os Gun´s tinham crescido em demasia, e a esse tempo seguiu-se uma travessia no deserto, com zangas entretanto sanadas (vêm actuar a Portugal daqui a meses com a composição quase original).
 
E para dominar todos os tops, cereja em cima do bolo, também Michael Jackson regressou, anos depois de Bad, com o seu Dangerous e os seus videoclips com actores da moda, e Prince lançou Diamonds and Pearls.
 
Ou seja, dos Estados Unidos não faltou quase ninguém.

No Reino Unido não houve tantos lançamentos de monta, mas também surgiram alguns destaques. Ouvia-se sobretudo o insuportável Stars, dos Simply Red, mas nesse ano apareceram os Blur, com Leisure, ainda ligeiramente shoegazing, mas já a prenunciar a britpop. E os Primal Scream lançavam Screamadelica, com o seu rock dançável ligeiramente psicadélico. Os Genesis regressaram com o bem disposto e comercialmente bem sucedido We Can´t Dance, os Dire Straits editaram On Every Street, sucessor do monstruoso êxito de guitarras que fora Brothers in Arms. E no fim do ano despedia-se Freddy Mercury, depois dos Queen terem lançado o último álbum em vida do seu vocalista, Innuendo, e ainda a tempo de ver o seu Greatest Hits editado.

E por cá? Rui Veloso lançou o Auto da Pimenta, mas Mingos e Samurais, do ano anterior, ainda ecoava e acabou por ser um dos álbuns mais vendidos de 1991. De resto, saliente-se a estreia dos Resistência, e pouco mais. O que quer dizer que, inversamente ao que aconteceu nos Estados Unidos, a discografia pop-rock portuguesa em 1991 é muito curta. A diferença de dimensão não explica tudo. Mas os anos seguintes seriam melhores.