segunda-feira, maio 28, 2018

Direitos inalienáveis?


Não tenho, por princípio, uma opinião muito favorável à eutanásia (não se confunda com outras figuras, como a ortotanásia, ou seja, permitir o curso da vida sem suportes desnecessários). Menos ainda quando um grupo de partidos decide legalizá-la sem que tal estivesse inscrito nos respectivos programas eleitorais, sem um debate realmente aprofundado, por mera vontade de fazer acelerar uma legislação "progressista", que ainda por cima existe em pouquíssimos países, e não será por acaso. Ou seja, uma questão da maior gravidade pode passar por uma questão de afirmação política, quando nem sequer se deu oportunidade aos eleitores de exprimir uma opinião que fosse - e recordo que o PS recusou num primeiro momento a votação do casamento de pessoas do mesmo sexo por não ter inscrito a questão no seu anterior programa eleitoral.

Mas tenho acima de tudo uma dúvida: caso a eutanásia seja mesmo despenalizada, deixaremos de poder falar em "direitos inalienáveis"? É que francamente, não conheço direito menos inalienável do que a Vida. Caso deixe de o ser, façam o favor de, doravante, apagar a expressão de todas as normas, códigos e manuais onde ela exista.

O Padre Marto passou a Cardeal Marto


Com enorme atraso, aproveito para saudar e felicitar D. António Marto, bispo de Leiria-Fátima, pela sua nomeação para Cardeal. Mas não deixa de ser um tudo de nada estranho ver o nosso antigo e afável professor de Mundividência Cristã, o único que nos tratava por tu, que chegou a ser operário para conhecer a vida dos trabalhadores fabris, usar a púrpura cardinalícia, e sobretudo, participar num conclave (que espero que venha tarde) de onde pode sair Papa. Não é nada fácil imaginá-lo a saudar milhões de pessoas do alto da varanda de S. Pedro, vestido de branco.

quarta-feira, maio 23, 2018

Sobre uma Taça de Portugal atípica


Os meus parabéns ao Desportivo das Aves pela conquista da Taça de Portugal: pela primeira vez um clube do concelho de Santo Tirso, de onde o meu Pai é natural, ganhou uma prova nacional de futebol. Já não se devia ver uma coisa semelhante desde que o Tirsense, então na terceira divisão da época, eliminou o Sporting dos Cinco Violinos - embora sem o Jesus Correia (desta o meu Pai ainda se lembra).
O Aves merece todo o reconhecimento pela forma inteligente como jogou, pela enorme massa humana que levou ao Jamor (tanta ou mais que a população da Vila das Aves!) e pela forma como o ignoraram durante toda a semana (e, pelo que vi num medley de notícias, em que só falam das reacções à derrota do Sporting, e às "lágrimas dos jogadores", etc, continuam a ignorar).

Uma palavra para Quim, que muitos não se lembram mas que chegou a ser o titular da Selecção: com quase 43 anos, numa exibição magnífica e provavelmente no último jogo da carreira, o bom e velho Quim ganhou finalmente a Taça que não tinha. Já tinha perdido finais, já tinha sido goleado numa meia final há dez anos precisamente pelo Sporting (já com Rui Patrício do outro lado), mas na última oportunidade possível, já quase fora de prazo, agarrou no troféu, e logo como capitão. Talvez Buffon tenha saído da Juventus cedo demais.

Nos últimos anos, o vermelho tem levado sempre a melhor no Jamor. Fica-lhe bem.

Para acabar, Rui Patrício, William e Gelson: limpem as lágrimas e sobretudo a cabeça. Há uma taça do Mundo para ganhar e precisamos de vocês.

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quinta-feira, maio 17, 2018

O "karma" recaiu sobre o Marselha


Voltando ao tema "bola a sério", que parecendo que não é coisa de que não se tem falado, há pouco o Atlético de Madrid venceu tranquilamente o Olympique de Marseille por 3-0 na final da Taça UEFA. Preferia que tivessem sido os franceses (quem eu gostava mesmo que tivesse ganho era o Arsenal, que nem conseguiu chegar à final, porque Wenger já merecia uma taça internacional na despedida), mas pronto. Só que o Marselha caiu quando se lesionou o seu melhor jogador, Payet. Sim, esse mesmo, o que magoou Cristiano Ronaldo na final do Euro 2016, que felizmente acabámos por ganhar. Lá se fazem, cá se pagam.

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quarta-feira, maio 16, 2018

O (fundo do) poço do Bruno



A pensar nesta história toda do Sporting, há uma coisa que me espanta mais que tudo (sim, haver hooligans que batem nos próprios jogadores é menos surpreendente, palavra de honra): se Bruno de Carvalho não está por trás dos ataques ao plantel, como é que se explica que um tipo que reage de forma incendiária e truculenta à mínima provocação de que é alvo possa dar tão pouca importância a isto, ao ponto de dizer disparates como "o crime faz parte do dia-a-dia"? Não lhe ouvimos dizer sobre os agressores o mesmo que disse de dirigentes desportivos rivais. Um líder deve acima de tudo defender os seus. Só que Bruno está-se borrifando para isso, e anda como sempre mais preocupado com o seu ego e com o seu poder entre as massas ululantes do que com a instituição que lidera e os que a servem. Já se conhecia a miséria moral da criatura, mas isto só mostra que o poço ainda é mais fundo do que se julgava.


E pensar que há quem o compare a Vale e Azevedo. Não repitam isso, por favor. É um insulto gratuito a Vale, que não o merece.


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terça-feira, maio 15, 2018

Isto era mas é tudo para "branquear"


Sem querer passar por áugure, a fraca votação da canção portuguesa do Eurofestival da Canção não era propriamente imprevisível. Quem achou que tinha alguma hipótese de ganhar que se acuse. Porque para isso, em primeiro lugar, seria bom saber cantar. A música nem era má de todo - não era pior do que muitas das que se apresentaram a concurso, incluindo a vencedora, a que Salvador Sobral se referiu sabiamente como sendo "horrível" - mas a interpretação, com miados e sem conseguir chegar ao fim das notas, era sofrível.
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Mas escapam-me os critérios para apurar os vencedores: em primeiro lugar ficou uma canção pop cantada em inglês, de uma israelita gordinha vestida de gueixa (deve ser por isso que estavam sempre a falar de "diversidade"), que parece que versava sobre a igualdade das mulheres, e os direitos sociais, e em segundo uma cantiga fogosa (tanto que o título era Fuego), de uma cipriota com silhueta agradável e uma coreografia a tentar passar por uma Shakira do Levante, talvez por ser proveniente da "Ilha de Afrodite". Fosse eu a decidir e ficavam mais cá para o fim, ao contrário das músicas candidatas de Itália, Áustria ou Letónia, mas como sou um leigo na matéria tenho de me render às evidências. Não há como uma vitória portuguesa para nos dar algum interesse pelo evento.


Entretanto, e como o Luís já recordou, alguns "activistas", entre os quais o sempre pronto Bloco de Esquerda, encetaram uma campanha de boicote à música de Israel, porque esta, apesar de apelar a valores que à partida seriam caros aos bloquistas, era "uma forma de branquear a opressão do povo palestiniano  e a acção terrorista de Israel a nível internacional". Para além disso, consta que a autora esteve na marinha israelita (previsivelmente no tempo obrigatório de serviço das forças armadas israelitas), cuja missão parece que é "manter a Faixa de Gaza sob um bloqueio cerrado, manter o porto de Gaza bem fechado, manter a economia de Gaza totalmente paralisada e a população à beira do desastre humanitário total". Pior: a cantora entretinha os marinheiros com as suas músicas (o que já de si é um indício à notória cultura patriarcal e machista), em especial de um barco que anos mais tarde dispararia sobre palestinianos em Gaza, o que a torna cúmplice, por conhecimento prévio, desses crimes futuros.


A música, como se sabe, ganhou com os votos do público, indiferente à vileza da cantora, ao branqueamento dos crimes de Israel e aos sábios avisos dos pupilos de Catarina Martins (perdão, pupilxs, que como se sabe ali não há diferenças de género). Felizmente que se tratava do Bloco, feroz adversário de todos os preconceitos e fobias, senão poder-se-ia pensar que se tratava de puro anti-semitismo. Nunca a amálgama dos movimentos que em tempos aclamavam Mao, a Albânia e Trostky, esse judeu, poderia ser anti-semita.


O problema é que a vitória de Israel no eurofestival dá-se numa altura em que o país atacou posições iranianas em plena Síria e nas vésperas de completar setenta anos. Teme-se que o entusiasmo e os festejos provoquem mais fogo de artifício que transborde de novo para lá da fronteira com a Síria. E Benjamin Netanyahu, como já se percebeu, é um grande apreciador deste tipo de fogo de artifício.

domingo, abril 29, 2018

Fim de época


Pronto: não bastava termos perdido com o Porto em casa mesmo no fim, praticamente hipotecando as hipóteses de revalidar o título, e de fazer exibições sofríveis contra Setúbal e Estoril, e ainda damos um tiro de canhão no pé perdendo em plena Luz contra o Tondela (!), dando de bandeja o título ao Porto e colocando em sério risco a ida à Liga dos Campeões na próxima época. O próximo jogo é em Alvalade contra o Sporting, que se ganhar ao Benfica assegura o segundo lugar. É um risco perfeitamente possível dadas as ausências de jogadores fulcrais como Jonas e as péssimas exibições recentes, e seria o corolário lógico para uma época medíocre preparada com amadorismo, incompetência e total negligência. Sim, os resultados financeiros são bons, mas a parte desportiva ficou totalmente descurada. 

Entretanto, novas "acusações" contra o Benfica, anunciadas pelo Expresso: ao que parece, a PJ andará a estudar TODOS os jogos do Benfica dos últimos cinco anos. Sim, todos. Não fazem a coisa por menos: todos os jogos, e apenas do Benfica, e das épocas em que ganhou o campeonato mais esta. Isso dias depois do próprio Benfica acusar importantes elementos da mesma polícia de estarem envolvidos numa conspiração contra o clube, enviando informações confidenciais aos responsáveis da propaganda de Porto e Sporting. Estranha coincidência, ainda por cima sabendo-se que foram elementos da PJ que fizeram implodir o caso Apito Dourado, com as suas "toupeiras" (porque é que não usaram este termo na altura?) no lugar certo. Mas esta investigação a TODOS os jogos, e apenas o Benfica, denota, mais que desespero, uma preocupante obsessão contra um clube. Jogos houve nestes últimos anos - como o vergonhoso FCP-SCP de há exactamente dois anos, ou os lances de Tonel nessa época - que mereceriam real investigação, mas não, é só de um clube, e curiosamente quase só nos anos em que ganhou campeonatos. Para mais, vem arguir que denúncias anónimas contra jogadores adversários do Porto partiram de dirigentes benfiquistas, mas em relação ao mesmo tipo de denúncias em sentido inverso não diz absolutamente nada. Nem à pirataria informática em curso. Não gosto muito de acusar instituições inteiras, mas fica a ideia de que a PJ tem um objectivo definido que pouco tem a ver com crimes reais mas sim com a obediência a outras entidades. E isso sim, é profundamente preocupante. Se calhar as acusações feitas pelo Benfica tinham mesmo razão de ser.

De resto, espero que planeiem devidamente a próxima época e que haja uma réstia de profissionalismo.

segunda-feira, abril 09, 2018

La Lys: uma mortandade há cem anos.


Há cem anos acontecia o desastre (quase anunciado) de La Lys. Nas trincheiras da Flandres, a IIª Divisão do CEP - Corpo Expedicionário Português - sofria uma humilhante e enormíssima derrota. Num só dia, sete mil e quinhentos soldados e oficiais eram mortos ou feitos prisioneiros pela poderosa máquina de guerra prussiana, superior em número, em treino e em equipamento. O CEP, a que alguns previdentes chamaram Carneiros Exportados de Portugal, era composto por soldados mal treinados e armados, com pouca experiência de combate, comandados por uma oficialidade medíocre, habituada aos quartéis, a África (poucos) e à pancada de rua tão comum nesses tempos atribulados. Estavam enfraquecidos pelo tempo e pelas condições a que eram sujeitos, desmotivados e sem os reforços previstos, apesar de se anunciar uma rendição de contingentes para as horas seguintes. Tinham ido em grande parte contrariados, obrigados pela República, que pretendia a todo o custo uma qualquer glória que a legitimasse a nível internacional. Os argumentos eram de que se não se interviesse no cenário europeu se perderiam as colónias para ingleses e alemães, "a importância portuguesa no mundo" e até que Portugal seria invadido. Ou seja, um conjunto de desculpas esfarrapadas para legitimar tal intervenção para além da estrita defesa das colónias, e que aliás era desaconselhada pela Inglaterra, que apenas aí via um estorvo.

O resultado de Afonso Costa, João Chagas e Jaime Cortesão andarem a brincar às guerras é conhecido. Em quatro horas dessa madrugada de 9 de Abril, milhares de mortos abatidos pela artilharia germânica na forte ofensiva comandada pelo lendário Erich Von Ludendorff, pânico generalizado entre as hostes portuguesas, e o avanço rápido dos alemães entre o vazio provocado pelas brechas da 2ª divisão. Houve alguns actos de heroísmo sobre-humano, como o do "soldado Milhões", outro de entre muitos que tinham sido levados da sua aldeia para as trincheiras, mas a maioria daqueles homens a quem chamaram soldados sem lhes ensinar esse estatuto debandou ou lá ficou.

Os portugueses foram carne para canhão nesse desgraçada aventura, uma das maiores derrotas lusas a par de Alcácer-Quibir ou Alcântara. Portugal ficou entre os vencedores da Guerra, mas pouco recebeu por isso. Pelo contrário, os gastos deixaram as finanças públicas em estado lastimável, escassearam os bens de primeira necessidade e deram-se revoltas populares, violentamente rechaçadas. Curiosamente, morreram quase tantos soldados como em toda a Guerra Colonial. Invoca-se o nacionalismo do Estado Novo para justificar a pesada operação mantida em África. Mas as menos aí defendíamos o que era nosso e a superioridade militar sobre os insurgentes era evidente. Em La Lys, defendíamos apenas uma noção republicana de nacionalismo, enviando uns pobres coitados que mal sabiam disparar uma arma para as horríveis trincheiras, fazer frente a forças imensamente superiores. Uma triste memória e um crime que a República em vão tentou apagar, mas que seria mais um motivo para a sua impopularidade e subsequente queda, em 1926, curiosamente às mãos do comandante dessa desafortunada 2ª divisão do CEP: Gomes da Costa.

Paz às suas almas, desses pobres soldados tombados a 9 de Abril de 1918. Há cem anos.


* Texto escrito há dez anos neste mesmo blogue, e devidamente actualizado.











sábado, abril 07, 2018

A overdose de encómios a Manuel Reis


Passada a Páscoa, voltemos ao quotidiano. Das coisas mais exageradas que vi nos últimos tempos foram as laudes a Manuel Reis, como se ele tivesse inventado algo que melhorou incrivelmente a vida da humanidade. Na realidade, alguma elite d Lisboa - cultural, económica e jornalística, como se depreendeu pelo amplo destaque nos jornais - julga-se A própria humanidade, e isso justifica todas as parangonas e artigos a recordar o grande dinamizador da movida lisboeta. Era decerto alguém com imenso talento e iniciativa, e inegável mérito, que fazia acontecer coisas, mas haja alguma moderação. O Luz é uma fantástica discoteca numa fantástica localização, o Rive Rouge tem a sua piada, e nunca cheguei a ir ao Frágil (até pela diferença geracional que me separa dos seus apaniguados e frequentadores), nem ao Teatro Thalia nem ao Papa Açorda original (este por uma arreliadora coincidência, e a oportunidade gorou-se), pelo que não posso testemunhar toda a obra e legado de Reis. Só que todas essas criações não foram exactamente a chegada à Índia. Acreito que muitos tenham sentido a sua falta, mas dizer que ele "mudou o país" é um bocadinho demais. Ou acharão que em Bragança, no Faial ou em Mértola  - ou até mesmo nos arredores de Lisboa - a sua obra mudou minimamente a vida das pessoas? João Miguel Tavares tem toda a razão no artigo que escreveu para o Público sobre isto mesmo. Destaque para a incrível comparação com Salgueiro Maia (!).

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segunda-feira, abril 02, 2018

Páscoa 2018


Se o último Verão se prolongou por Outubro dentro, o mesmo se pode dizer do Inverno. E assim tivemos uma Páscoa com neve à vista. Escapou o Domingo, com um dia de Primavera, para poupar os compassos pascais e as festas de aleluia, como se fosse um pequeno milagre climatérico próprio para o dia da Ressurreição.



Cravelas, Trás os Montes, Sexta-feira Santa 2018


quinta-feira, março 29, 2018

As ligações insulares da Líbia


O suposto patrocínio de Muammar Kadhafi e do regime líbio à campanha presidencial de 2007 de Nicolas Sarkozy, que levaram à detenção deste há poucos diasnão é exactamente uma novidade nem um rumor esquecido. Já tinha sido publicitada várias vezes, a começar pelo filho do próprio ditador da Líbia durante o levantamento no país, quando a França liderou a intervenção militar externa que seria decisiva para a queda do "regime verde" e para os acontecimentos que se seguiram. 

A ser verdade não sei quais as razões deste patrocínio financeiro a Sarkozy, mas por certo seria para obter quaisquer objectivos financeiros ou estratégicos da parte da França. De resto, Kadhafi nunca deixou de se imiscuir nos assuntos dos outros países de forma diversa. Na sua versão mais recente fazia-o através de recursos económicos proporcionados pelo petróleo líbio, como os interesses que tinha em empresas italianas como a FIAT, ou até em clubes de futebol. Mas nas primeiras décadas, o coronel esteve envolvido em  quase todos os conflitos envolvendo terrorismo e rebelião. Do IRA à ETA, passando por todas as organizações palestinianas e estando por trás de grandes atentados dos anos oitenta, como a explosão do avião sobre Lockerbie, ou estreitamente ligado aos grandes terroristas da época, como Carlos, O Chacal, ou Abu Nidal, Kadhafi não perdia uma. E quando não tinha uma organização terrorista ou ma causa subversiva para apoiar, procurava-as. Um artigo recente de Rui Tavares conta-nos que o ditador líbio, numa reunião da Organização dos Estados Africanos, exigira a "liberdade da colónia africana da Madeira, ocupada por Portugal", dizendo o mesmo das Canárias. Se a esta ainda podia fazer referências aos guanches, o povo autóctone pré-espanhol, já dificilmente veríamos os madeirenses a querer ser libertados por Kadhafi. 

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Mas os líbios, sempre prestes a auxiliar um bom movimento separatista, também olhavam para os Açores, já fora da orbita
africana. César Oliveira, antigo deputado e autarca do PS (e pai de Tiago Oliveira, agora muito falado por estar à frente da estrutura que previne os fogos rurais), já desaparecido, conta-nos as suas impressões da Líbia em finais dos anos setenta, no seu livro de memórias, Os Anos Decisivos:

País de um novo-riquismo impressionante e avassalador, a Líbia constituiu (...) a certeza de que representava uma ameaça para a paz e no Norte de África como para o próprio Sul da Europa (...) Um alto dirigente líbio colocou-me a pergunta sobre a posição da UEDS quanto à ala esquerda da FLAMA e da FLA. E como tivéssemos respondido, naturalmente, que não víamos qualquer ala esquerda naqueles movimentos insulares e que, pelo contrário, os víamos como de extrema-direita e politicamente suspeitos, acabaram-se todas as facilidades e tive mesmo dificuldades em obter o bilhete de avião  para Lisboa, via Roma. 

Claro que o apoio a tais movimentos não passou de intenções, discursos e perguntas. Mas revela bem até que ponto aquele excêntrico regime líbio interferia ou procurava interferir nos assuntos dos outros países. Daí que não possa deixar de me rir quando ainda ouço inúmeras indignações A invasão e "violação da soberania da Líbia." Não que não tivesse acontecido, que aquilo não tenha redundado num caos e que a morte de Kadhafi e outros não seja condenável. Mas se houve país que se imiscuiu nos assuntos alheios, com consequências trágicas, a Líbia é o melhor exemplo, assim como Kadhafi é o responsável por inúmeras mortes e conflitos. Aplicou-se, de novo, a velha teoria de que quem com ferros mata...

domingo, março 18, 2018

Os limites de Stephen Hawking


Na semana em que desapareceu Stephen Hawking, falou-se, entre outras coisas, da sua relação com a religião, e na sua descrença em Deus, ou mais precisamente, acreditava que Deus não existia, segundo o próprio, o que faz supôr que não tinha certezas sobre isso. Lá está, o mistério de Deus é tão grande e o entendimento da metafísica tão complexo que nem  mais prodigiosa inteligência humana o consegue atingir.

Mas entre a sua obra, a vida e as ideias, tão faladas nos últimos dias, uma das últimas imagens que guardei de Hawking era diferente e mais leve, e levava um toque de classe, além de demonstrar o seu sentido de humor.

sexta-feira, março 16, 2018

A triste ironia de Salisbury


A confirmarem-se todas as suspeitas do envenenamento por parte de agentes russos (uma velha tradição, bem anterior a Litvinenko) do antigo agente Sergei Skripal, um exilado russo no Reino Unido (outra tradição, embora o inverso também o seja, como Kim Philby bem demonstrou), e da sua filha, haverá com toda a certeza um sério incidente diplomático entre o Reino Unido e a Rússia, que aliás tem este fim de semana uma tranquilas eleições onde por coincidência o principal opositor a Putin não concorre por estar preso (e ainda teve sorte: outros acabaram baleados no meio da rua).


Mas mais que isso, restará uma ironia amarga: é que o crime deu-se em Salisbury, uma pequena e bonita cidade inglesa com uma imponente catedral onde repousa um dos quatro exemplares - e o mais bem conservado, pelo que podemos dizer que é o principal - da Magna Carta. E assim, numa cidade que guarda um documento fundamental do moderno estado de direito terá ocorrido uma crime mais próprio de tiranias e de estados totalitários.
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quarta-feira, março 14, 2018

Helénicos mas balcânicos


Se acham que o futebol português seja uma acumulação de indignidades, falta de desportivismo e fanatismo, o melhor será compará-lo com o futebol grego para nos animarmos um pouco. 
O campeonato grego é fértil em incidentes que de tão repetidos já são rotina. É o caso das invasões de campo. Ou das recepções violentas a equipas adversárias. Este ano, com a possibilidade do crónico campeão Olympiacos do Pireu ser derrubado, a disputa é entre estes, os seus vizinhos do AEK de Atenas e o PAOK de Salónica, na longínqua Macedónia grega. No encontro recente entre o PAOK e o Olympiacos o jogo teve de ser interrompido pelo arremesso de objectos (um deles acertou no treinador dos do Pireu) e implicou a derrota administrativa dos de Salónica. Agora, no mesmo estádio, no encontro entre PAOK e AEK que muita influência teria no título, a decisão do árbitro, com razão, em anular mesmo no fim um golo dos da casa levou a nova fúria, com a entrada em campo não só do público como do próprio presidente do clube, um grego-russo dono de meia cidade e que não achou nada melhor que interpelar o árbitro de pistola no coldre, fazendo menção de a utilizar. 


Depois disso as autoridades competentes já suspenderam o campeonato. Entrar em campo de pistola à cinta é demais até na liga grega. Mas esta imagem caracteriza ainda mais um país que, por romantismo ou atavismo, muitos ainda acham que conserva a pureza civilizacional da Antiguidade, como se os gregos fossem de pura raça helénica, nada tendo em comum com os povos vizinhos, esses autênticos bárbaros.
A ideia vem de longe, já que ingleses e franceses ajudaram a moderna Grécia a tornar-se independente dos turcos muito por causa do romantismo vigente. Mas a verdade é que o farol civilizacional dos gregos actuais é mais Constantinopla do que Atenas, o cristianismo ortodoxo do que o Olimpo dos deuses, ou o Basileus do que a ágora (neste último caso fazem mal, já agora).
Sim, o "berço da democracia" - esse conjunto de cidades estado e pequenos territórios - mudou muito desde então. Tirando a língua, os nomes e a situação geográfica (e também o facto de não terem ficado sob influência comunista na Guerra Fria), os gregos pouco se distinguem dos seus vizinhos sérvios e búlgaros. E dos macedónios da chamada FYROM, já agora, com quem mantêm um litígio por causa do nome que consideram ser exclusivamente seu.
O irónico da coisa é que os gregos da Antiguidade consideravam a Macedónia uma terra de bárbaros por causa do seu sistema social, político e económico. Agora reivindicam o seu legado e do conquistador Alexandre Magno. No fundo, é terra de balcânicos que não se entendem.


quarta-feira, março 07, 2018

O pleonasmo italiano


Parece que depois das eleições de Domingo a Itália ficou "ingovernável", há pouca esperança de que haja um "governo estável" e fala-se em "coligações improváveis". Não é uma situação confortável, mas sendo Itália não é uma tragédia nem propriamente uma novidade. Antes pelo contrário.


A Itália da primeira república, de 1946 a 1993, teve perto de 50 governos, o que mostra bem a instabilidade governativa do país. No entanto, mesmo com esse e outros problemas (terrorismo, máfia, corrupção), o país desenvolveu-se e prosperou. Os dois grandes partidos eram a Democracia Cristã, que formava sempre governo com os liberais, os republicanos e os sociais democratas, e o Partido Comunista, o maior da Europa ocidental, inicialmente apoiado pelos socialistas. De fora ficavam os neofascistas, os monárquicos, os radicais e as formações regionais. A dada altura os socialistas passaram a suportar os democratas cristãos e tiveram até acesso à chefia do governo, com o célebre Bettino Craxi. Sendo sempre os mesmos a governar, e com o fim do perigo comunista, a partidocracia acabou por quebrar com o processo mãos limpas e os partidos tradicionais caíram como um castelo de cartas.


Com este cenário, em 1992/1993 surge a segunda república italiana. O Partido Comunista tinha entretanto alterado completamente a ideologia e a imagem e tornara-se no Partido Democrático de Esquerda, de ideologia social-democrata, excepto uma cisão mais saudosista que criou a Refundação Comunista. A Democracia Cristã acabou e a sua ala esquerda juntar-se-ia aos antigos inimigos agora do PDS. Outros dispersaram-se por pequenas formações centristas e "populares", mas a maioria do seu eleitorado, bem como dos partidos que a apoiavam, incluindo o socialista, seria absorvido por um novo partido que tinha como mentor o grande empresário e dirigente desportivo Silvio Berlusconi, pela crescente Liga Norte, de Umberto Bossi, até aí acantonada na Lombardia, e aos quais se juntaram os ex neofascistas de Gianfranco Fini, que num processo semelhante ao do PCI/PDS se tinham metamorfoseado na conservadora Aliança Nacional. Contra as expectativas iniciais, Berlusconi, aliado a Bossi e Fini, venceu as eleições gerais de 1994 ao PDS chefiado por Massimo D´Alema (que tinha um discurso pouco de esquerda, na opinião de Nani Moretti no seu filme Aprile). Seguiram-se anos em que ora vencia Berlusconi e as suas coligações (agora no Povo da Liberdade), ora o PDS e respectivos aliados ecologistas e centristas, com líderes como Romano Prodi, Rutelli e Veltroni, e que acabaria por se transformar no actual Partido Democrático. Pelo meio sucederam-se os inúmeros casos judiciais que envolviam sobretudo Berlusconi e até a entrada dos juízes na política, como Di Pietro.


Entretanto também esse cenário mudou. O Partido Democrático, chefiado pelo florentino Renzi, um Macron mais à italiana, prometeu reformar o país, mas a pressa e as mudanças de estratégia voltaram a adiar os planos. Fini retirou-se de cena, a Liga Norte expandiu-se para sul, agora com Matteo Salvini, e até Berlusconi regressou, em versão vegetariana e com mais cabelo, com a renascida Forza Italia, propondo-se a ser o árbitro das eleições e dos governos. Mais do que tudo, o Movimento Cinco Estrelas, primeiro com o histriónico Beppe Grillo e o cibernético Casaleggio, entrou de rompante na política italiana, conquistando em 2016 grandes cidades como Roma e Turim, e tornando-se no partido mais votado nas legislativas de há dias, agora como o jovem e quase licenciado Luigi di Maio à sua frente para lhe dar uma face mais institucional. Mas não se quer aliar a ninguém, tal como os outros partidos não se querem aliar uns com os outros.

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Como se vê, governos precários, falta de entendimento e posteriores alianças que antes pareciam impossíveis (ex-comunistas e democratas-cristãos, socialistas e ex-neofascistas, etc) são a regra em Itália. Daí que a preocupação imediata talvez não seja assim tão grave. Instabilidade governativa e coligações improváveis em Itália, mais do que a regra, são autênticos pleonasmos.

segunda-feira, março 05, 2018

Sobre o Festival da Canção


Pela primeira vez desde os meus dez ou onze anos (saudades dos Da Vinci) dei alguma atenção ao Festival da Canção. Boa ideia, a de o realizar em Guimarães. E houve algumas boas canções e interpretações. Por isso mesmo, é ainda pior que a vencedora tenha sido uma rapariguinha com péssima voz que nem sequer consegue chegar ao fim das notas. Depois da vitória dos Sobral, é bem provável que regressemos aos tradicionais últimos lugares da geral. E em segundo lugar ficou um tipo com uma canção melosa que se destacou por responder aos jornalistas enquanto comia uma banana, e que notoriamente não sabe distinguir entre a excentricidade e a falta de educação. Acho que tão cedo não me apanham a seguir o Festival.

quarta-feira, fevereiro 28, 2018

Os Arcade Fire regressam ao local onde muitos foram felizes


Em 2005, por culpa de uns amigos que à última não quiseram ir, cheguei depois da hora prevista a Paredes de Coura e perdi o já mítico concerto dos Arcade Fire na sua estreia em Portugal, embora tenha visto os Pixies, afinal o meu grande objectivo, e ainda os Queens of Stone Age. (vejam só o luxo do cartaz). Vinguei-me poucos anos depois, quando vi os canadianos no SuperBock SuperRock, num relvado ao lado da Ponte Vasco da Gama. Mas ficou-me sempre um amargo de boca pelo concerto ao pôr do sol perdido.
Este ano os Arcade Fire regressam ao local onde muitos foram felizes por causa deles, substituindo Bjork (claramente ganha-se com a troca). Valerá a pena tentar vê-los de novo?




terça-feira, fevereiro 27, 2018

O Inverno anunciado


Considera-se (isto é, eu considero) que o Inverno começa a moderar-se ou a ser "menos Inverno" a partir de vinte, vinte e tal de Fevereiro. Os dias são maiores, o frio glacial já passou, e a época das tempestades que caracteriza meados de Fevereiro começa também a dissipar-se.

Este ano, aparentemente, este fim do mês e o início do próximo prometem ser verdadeiramente invernosos, apesar de já termos tido uns dias de frio. A Senhora das Candeias e o Phil de Punsxsuatawney é que tinham razão: o Inverno estava mesmo para durar.

Já agora, quando é que os noticiários páram de falar no "mau tempo" que está a chegar? Com a seca gravíssima que o país atravessa, a chuva e a neve que caem por todo o país são tudo menos mau tempo.

terça-feira, fevereiro 20, 2018

Uma semana de algum gozo


Dá ideia que a semana que passou serviu para gozar com os adversários do Benfica: de um lado o Porto a sofrer cinco golos sem resposta nas Antas, na sua maior derrota caseira europeia de sempre, da parte do Liverpool, depois de alguns prognósticos optimistas e até desdenhosos ("os ingleses vão sangrar"); do outro, a liderança do Sporting a fazer uma triste figura - como se fosse pouco habitual - e a chegar ao cúmulo de ameaçar jornalistas e de "proibir" os sportinguistas de se informar noutros órgãos de comunicação social que não os oficiais do clube, ou os seus comentadores de irem a programas de debate; o responsável pela propaganda sportinguista, o ex-jornalista Nuno Saraiva, indicou mesmo uma espécie de index verde, para indicar o que é que os adeptos do clube devem ou não ver. Pergunto-me se algum jornal, canal televisivo ou rádio dará no futuro emprego a Saraiva depois de toda esta figura triste e inquisitorial.
Para completar, o Sporting consegue uma vitória em Tondela que muito animou as hostes mas que só surgiu aos 99 minutos, quando o árbitro tinha dado quatro e descontado dois pelo meio (ou seja, o jogo acabaria sempre pelos 96 minutos), e para cúmulo, o marcador do golo, o central Coates, tirou a camisola nos festejos e não levou o correspondente amarelo, que o impediria de jogar na próxima semana. Ainda não percebi porque é que as crises de vitimização sportinguistas são tão levadas a sério.

O Benfica tem tido uma época algo amarga. Venda de jogadores essenciais, má preparação do plantel e aquisições duvidosas, um desastre nas competições internacionais, ataques da aliança Porto-Sporting, casos judiciais sobre Vieira, etc. No entanto, e apesar das lesões de jogadores importantes, a equipa de futebol atravessa o seu melhor período este ano. Tem conseguido bons resultados, alguns até com goleada, boas exibições, e alguns jogadores até apresentam uma consistência que ainda não lhes tínhamos visto este ano, casos de André Almeida e Rafa. O "Penta" é um sonho algo distante, mas não custa experimentar lá chegar. Ao menos esta semana de alguma boa disposição já ninguém nos tira.

domingo, fevereiro 18, 2018

Congressos tensos e congressos ignorados


Fouçando de novo em seara alheia, não posso deixar de considerar simplesmente miserável esta "espera" que algumas figuras do aparelho laranja fizeram a Rui Rio no congresso do PSD, com a palma a ser ganha por Luís Montenegro e o seu discurso transbordante de rancor. Ganhou as eleições há menos de um mês e desde então não cessaram de se atirar a ele. Desde o Observador e os 758 artigos sobre o "caciquismo" de Salvador Malheiro (acho que o jornal online esgotou a palavra; louvável devia ser a actuação de Miguel Relvas), incluindo colunistas, como João Marques de Almeida, que depois de algumas crónicas laudatórias confessou fazer parte da equipa de Santana Lopes, até às conspirações de deputados em funções e às exigências desse grandíssimo vulto que é Miguel Pinto Luz (que na sua página de facebook se intitula de "figura pública"). 
O único caso que conheço com vagas semelhanças é o de Ribeiro e Castro à frente do CDS, e mesmo assim ficou aquém. A atitude mais decente seria deixar Rio trabalhar e depois se veria. Até lá, o PSD não passa de um saco de gatos, em que quem estica mais as garras são os derrotados que se acham com direito natural a mandar mesmo contra a opinião das urnas. 

Não posso deixar de reparar na diferença abissal entre a cobertura dos grandes e dos pequenos partidos e que ficou à vista nestes dias. O PSD teve direito a um fim de semana inteiro de directos, alteração da programação da TV, debates dirigidos para o próprio recinto, etc. Compreende-se. É o normal e todos queriam saber quais as propostas e as caras que o novo líder da oposição tinha para mostrar. Mas na semana passada houve o congresso do MPT (Partido da Terra, para os mais distraídos), que já tem 25 anos, que tem representação no Parlamento Europeu e que mudava de liderança, e não houve uma notícia nos principais jornais, nem uma reportagem da televisão, por minúscula que fosse, como acontecia antigamente, nem nada de nada. Quem soubesse do evento e o googlasse encontraria uma notícia da TSF e outra do DN da Madeira, e de resto, silêncio sepulcral. Não são só os meios e os militantes que distinguem o sucesso dos partidos: a cobertura jornalística tem também imenso peso. E quando há grupos que são não apenas ignorados mas condenados à inexistência, o discurso de "são sempre os mesmos partidos" tem aí muito por onde questionar.

segunda-feira, fevereiro 12, 2018

X Congresso do MPT



Estreia em congressos partidários. Gratificante, tanto pelas pessoas com quem estive como pelas ideias que ouvi. É também grato ouvir os discursos e os planos futuros de quem assume novas responsabilidades à frente de um partido (que neste caso tem a dupla natureza de movimento cívico e partido em simultâneo), e que assume o projecto político e social de uma das maiores personalidades portuguesas das últimas seis décadas: Gonçalo Ribeiro Telles. Luís Vicente sucedeu a José Inácio Faria à frente do Partido da Terra, que regressa à sua denominação original.



Único senão: a ausência de qualquer órgão de comunicação social no congresso. Nem um jornal, nem uma câmara de tv. Mesmo com convidados de peso, como Paulo Morais, Mário Frota ou Maria Luís Albuquerque. Antigamente ainda se faziam pequenas coberturas nestas reuniões magnas de partidos não representados (ainda me lembro das reportagens televisivas dos congressos do PPM, por exemplo). Agora nem isso. Não esquecer que o MPT tem lugar no Parlamento Europeu, com José Inácio Faria. Basta googlarem para perceber o que digo. Se os maiores partidos continuam de pedra e cal nas votações, também a isto se deve.